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2 de setembro de 2020

“A história sob o perigo da política”


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Este artigo é uma versão editada do discurso de encerramento do historiador francês Pierre Nora por ocasião da conferência “Rendez-Vous de l’Histoire” (Encontros da História), ocorrida de 13 a 16 de outubro de 2011 na cidade francesa de Blois. O título original em francês é “L’histoire au péril de la politique” e o texto está disponível no site da revista Eurozine. Centrado nas polêmicas que sempre tiveram lugar na França, o autor comenta como disputas (enjeux) políticas podem intoxicar a histórica como atividade de pesquisa acadêmica.

Fui apresentado pela primeira vez ao texto no início de meu mestrado, pelo falecido Prof. Dr. Edgar De Decca, da Unicamp, e na época havia uma tradução em inglês que ele não julgava boa. Como tarefa final pra uma extensão em tradução do francês, que fiz no 2.º semestre de 2019 também na Unicamp, fiz o que acredito ter sido a primeira tradução do artigo em português. Mesmo considerado ultrapassado por alguns acadêmicos, acho sua leitura importante pelo grande público brasileiro, geralmente privado desse material de qualidade. As questões postas por Nora ainda se aplicam à nossa agitação política.



A história sempre foi inteiramente e até um período recente – por volta da segunda metade do século 19 ‒ uma atividade política no sentido amplo da palavra: mitos de origem, relatos fundacionais e de legitimação, genealogias celebrativas, exemplos de vida e lições de conduta para os poderosos. Foi somente a ambição de tornar-se uma ciência que transformou a história em atividade autônoma, profissional, baseada num método de análise crítica dos documentos e intimamente ligada a um ensino cujo primeiro dever era, todos sabem, fazer entender e amar a pátria; em outras palavras, escrever esse famoso “romance nacional”, expressão por cuja invenção ou popularização sou generosamente imputado e que é abastecido por todos os lados.

O fenômeno massivo a pôr em evidência é a evolução que, há aproximadamente trinta anos, insidiosa, mas radical, desembocou no que poderíamos chamar de politização geral da história, de um estilo muito diferente.

Por essa expressão, não devemos entender uma politização feroz dos próprios historiadores, mas uma ideologização inevitável de sua produção, uma ideologização do mundo em que os historiadores trabalham e que eles devem enfrentar, assim como tiveram de enfrentar há pouco tempo a descoberta de sua própria historicidade.

Esse fenômeno se deve à passagem da história mais contemporânea ao primeiro plano. É um fenômeno muito recente que data do fim da década de 1970, e é difícil imaginar que estava então fora de cogitação, na universidade, escolher um tema de tese localizado após 1918. Hoje se dá o contrário. Os grandes choques e as reviravoltas do século passado exigem um esclarecimento histórico, uma explicação do que foi visto, vivido, daquilo em que participamos diretamente, nós mesmos ou nossos parentes. Reviravoltas ligadas aqui aos totalitarismos, acolá à independência dos países colonizados e, por toda parte, à transformação acelerada das condições de vida de cada um. E, para ficar apenas na França, ao abalo dos referenciais tradicionais do Estado e da nação que não parou mais desde o colapso de 1940. Como a 2.ª Guerra Mundial, o governo de Vichy, o Holocausto, a guerra fria, o confronto entre o nazismo e o comunismo, o gaullismo e tudo o mais não provocariam os historiadores, e como eles poderiam interessar apenas aos historiadores? Foi toda a história que se tornou um meio sensível, e sensível a todos.

Talvez não se tenha obtido toda noção do que implica essa inclinação para o refluxo de uma história tradicional baseada na cisão com o passado. Um célebre Relatório ao Ministro Victor Duruy sobre os estudos históricos, em 1868, que marca o surgimento de uma história crítica e científica, começava orgulhosamente por estas palavras: “O domínio da história é o passado, o presente pertence à política e o futuro a Deus.” Pois bem, foi o presente que se tornou, no essencial, o domínio da história e que projeta inclusive seus métodos novos para a interpretação do passado mais distante. Um presente que é escrito pelos e sob os olhos dos atores, dos vivos, das testemunhas, das vítimas. Uma história que, ao mesmo tempo, revitaliza a velha concorrência da memória com a história.

Para pegar apenas um exemplo no terreno destes Encontros: a guerra da Argélia, com a qual eu mesmo comecei minha vida de historiador. Na época, havia tão-somente Charles-André Julien e André Nouschi como autoridades historiográficas que estavam levantando a capa de chumbo da história colonial. A Argélia concentrou em vinte anos o essencial do que Benjamin Stora chamou de “guerra das memórias”. De 1962 a 1982, em vinte anos, ele pôde enumerar 2 500 testemunhos (!), essencialmente de militares, de nostálgicos da Argélia desaparecida, de pieds-noirs (1) atormentados: uma memória de vencidos e de vítimas. Na década de 1980, assiste-se a uma inversão de tendência sob o impulso de franceses engajados, durante a guerra, a favor da independência: bagageiros e militantes diversos que reencontramos em 1982 na obra coletiva La Guerre d’Algérie (A Guerra da Argélia), dirigida por Henri Alleg, ele próprio um homem altamente engajado.

A abertura dos arquivos militares em 1992, desde então fechados novamente, permitiu surgir uma nova geração de pesquisadores, a primeira a não ter estado envolvida pessoalmente na guerra: a tese de Raphaëlle Branche sobre La Torture et l’Armée (A Tortura e o Exército) e a de Sylvie Thénault sobre a justiça militar. Elas soltaram aos borbotões novas tomadas de posição de militares de grosso calibre, como o general Massu e o general Aussaresses.

Somente então é esboçada uma história cujo inventário sistemático foi feito recentemente pela própria Raphaëlle Branche, assim como Jay Winter e Antoine Prost haviam feito para a guerra de 1914, Henry Rousso para Vichy e Laurent Douzou para a Resistência. (2) Como se o historiador, na noite da batalha, tivesse sido ele próprio levado a fazer-se a testemunha das testemunhas.

No correr de alguns anos, a proliferação dos testemunhos e das memórias teve, em todos os domínios, um efeito multiplicador e, eu ousaria dizer, “dinamitador”, como o que havia tido, no último terço do século 19, o recurso aos arquivos para a história positivista. Eles fazem nascer uma outra história, mas uma história atomizada, dilacerada, defensiva, afirmativa ou acusatória, uma história que exige uma orquestração periódica e frequentemente coletiva de historiadores profissionais como o foram, por exemplo, ainda para a Argélia, La Guerre d’Algérie et les Français (A Guerra da Argélia e os Franceses), em 1988, sob a direção de Jean-Pierre Rioux e, em 2004, a contextualização coletiva de Mohammed Harbi e Benjamin Stora, dois excelentes profissionais, mas que não se podem dizer sem engajamentos pessoais nem passados políticos.

É precisamente o historiador cuja relação com seu objeto e envolvimento com seu tema mudam completamente. É impressionante, se quisermos ficar no enorme corpus da Argélia, constatar que todos os historiadores que se consagraram a ele, praticamente sem exceção, sentiram a necessidade, geralmente no prefácio, de não economizar sua “ego-história”, seu “coming out” e seu exame de consciência para esclarecer, reconhecer, conjurar a natureza de seu envolvimento no tema, conforme seus vínculos políticos e ideológicos, suas afiliações identitárias, étnicas ou religiosas, seu enraizamento pessoal ou familiar. “Escrever sobre um tal assunto implica necessariamente uma tomada de posição política”, escreve claramente Guy Pervillé, um dos que mais fizeram para se eximir disso tudo. Até mesmo Charles-Robert Ageron, que posa no turbilhão como sábio historiográfico e que, grande especialista da Argélia colonial, por muito tempo se recusou a aventurar-se pela própria guerra, reconhece que só se consagrou à Argélia porque ele próprio residiu aí.

Esse deslocamento de montante a jusante do centro de gravidade da história provocou o que o filósofo alemão Jürgen Habermas chamou de uso público da história e que Jacques Revel e François Hartog traduziram certeiramente como “uso político da história”. Ele se traduziu por uma exacerbação das querelas entre historiadores, como aquela, aflitiva, cujo espetáculo foi dado pela mesa-redonda organizada pelo jornal Libération em maio de 1997 sobre a prisão, em Caluire, de Jean Moulin. (3) Ele se traduziu por sobreposições cada vez mais numerosas com a justiça, na qual os historiadores são, como no processo Papon, (4) convocados como especialistas, alguns julgando ser seu dever de cidadão prestar-se a isso, como Jean-Noël Jeanneney, outros estimando ser seu dever de historiador recusar-se a tal submissão, como Henry Rousso. Esse deslocamento traduziu-se igualmente pela multiplicação dos canais pelos quais passa uma experiência da história: hipertrofia dos museus, desenvolvimento massivo do turismo histórico-cultural, uso e abuso dos documentários televisivos. O que foi que mais fez, no começo da década de 1970, para desmontar a versão dos resistentes sobre a guerra que de Gaulle tinha sabido impor: Le Chagrin et la pitié (O Pesar e a Piedade, 1969), o caso Touvier (1971) (5) ou La France de Vichy (A França de Vichy), do historiador norte-americano Robert Paxton (1973)?

Multiplicação também dos “tomadores” de história, distribuidores, consumidores e produtores. A começar pelos jornalistas, os primeiros a surgirem em campo, sobre quem Camus dizia serem “os historiadores do presente”, enquanto os historiadores eram “os jornalistas do passado”. Mas igualmente as testemunhas e, sobretudo, as vítimas que levam essa história na carne, no sangue, nas lembranças, com o sentimento – e aí está o essencial ‒ de que o calor do vivido emite uma verdade que nunca poderá ser atingida pelos julgamentos distanciados e pelos documentos desapaixonados. A própria categoria de testemunhas foi amplamente incrementada, desde os atores individuais até os atores sob um nome coletivo, todas as minorias outrora marginalizadas – minorias sexuais ou sociais, religiosas, provinciais ou hoje coloniais – cuja emancipação passa pela recuperação de sua própria história e pela afirmação de sua identidade histórica pela manutenção de sua “memória”, a palavra que desde então faz múltiplos usos do passado. “A era da Testemunha” anunciada por Annette Wieviorka tornou-se o que eu pude chamar de “era da comemoração”.

Num regime tradicional da história fundado na exploração do passado e na exclusão do presente, o historiador dispunha de uma espécie de monopólio do passado. O peso do contemporâneo alija-o desse domínio. E ao mesmo tempo, o passado deixou de ser um saber para tornar-se uma disputa.

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Essa surda politização da história, insidiosa e disseminada, contrasta com o dispositivo tradicional que fora acionado em toda a Europa do século 19: uma história nacional oficial, estatal, fundada na autoridade da ciência. História nacional e história científica marcharam ao mesmo passo, apoiando-se e reforçando-se mutuamente, numa simbiose sólida e aparentemente indissociável.

O paradoxo da história dita positivista, crítica e metódica está aí. À conquista de um método de tipo enfim científico, à definição dos critérios definitivos da disciplina que até hoje ainda são os nossos, ela aliava uma ideologia política e nacional que lhe parecia consubstancial, mas que era, na realidade, profundamente marcada por seu tempo: o do movimento das nacionalidades, da afirmação das identidades nacionais e das pulsões nacionalistas. Os positivistas acreditavam ter conjurado os perigos da política e o peso das paixões contemporâneas ao fundarem a história sobre um passado que poderia ser estudado com distanciamento e “objetividade”. Na verdade, eles faziam do passado uma interminável gênese de um presente dominado, se não diretamente pela agitação política, ao menos pelos imperativos nacionais. Daí, no coração desse tipo de história, esse “demônio das origens”, que Marc Bloch denunciava. Assim, essa história científica que se instalou na França sob a Terceira República era marcada por duas fortes necessidades político-históricas que a enquadravam e determinavam: a necessidade “republicana” de reconciliar a antiga França com a nova para enfim encerrar a Revolução e fortalecer suas conquistas, e que impunha, portanto, triar no Antigo Regime a parte boa, que conduzia à República, e a parte ruim: uma história, assim, poderosamente teleologizada. Outra necessidade, esta de ordem “nacional” após a derrota de 1870 e no espírito da Revanche: alcançar a Alemanha, já que era à sua superioridade científica que se atribuía ter garantido à Prússia as vitórias de Sadowa e de Sedan; (6) e definir, nessa concorrência, a própria identidade da França como o oposto da nação ao estilo alemão.

As duas componentes, científica e cívico-política, fizeram-se, sob muitos aspectos, indissociáveis. Com muita frequência, ambas tomaram feições caricaturais, a dimensão científica transformando-se numa enumeração rasteira de datas e um encavalamento de tratativas político-militar-diplomáticas, a dimensão nacional colocando a história a serviço de uma simples propaganda patriótica, como durante a guerra de 1914. Mas as duas dimensões, mesmo se já não iludem tanto quanto antes, em última análise ainda persistem, no coração da atividade historiadora, até nós.

Se quisermos distinguir o núcleo duro desse tipo de história, o foco central em que se estabelece a aliança da história com a política, da ciência com a nação, é no arquivo que devemos procurá-lo, na vastíssima rede dos depósitos de arquivos que está surgindo, em toda a Europa do século 19, e que, de arsenal da autoridade pública, de instrumento da autoridade política está tornando-se o laboratório da história nacional. Em sua composição, em sua sedimentação, os arquivos de Estado predispuseram a história a tornar-se primeiramente, e por muito tempo, uma história do Estado e dos homens de Estado. Quando Gabriel Monod, um dos fundadores, se não o fundador dessa escola científico-positivista e um dos primeiros historiadores que se envolverão a fundo no caso Dreyfus em nome da justiça e da verdade, escreve seu famoso editorial do primeiro número da Revue historique (Revista Histórica) em 1876, “Du progrès des études historiques” (Do progresso dos estudos históricos), no qual podemos ver o manifesto dessa nova história, é na exumação da tradição erudita e arquivística que ele se fundamenta, desde os precursores do século 16, como Nicolas Vignier ou Claude Fauchet, até a Academia das Inscrições e Belas-Letras, passando pela historiografia real de Duchesne e Du Cange, “a quem Luís 14 queria confiar a direção de uma grande coleção dos historiadores da França”. E os mais eminentes baterão nessa tecla: Lavisse, obviamente, que começa assim seu grande discurso-programa de 1881 aos estudantes reunidos pela primeira vez na Sorbonne: “O verdadeiro historiador é um filólogo”, e invoca como modelo as Monumenta Germaniæ Historica, em cujo frontão lê-se o lema “Sanctus amor patriæ dat animum”. (7) Ou Langlois e Seignobos, na geração seguinte, cuja primeira frase de sua Introduction aux études historiques (Introdução aos estudos históricos) em 1898, essa bíblia da nova história, insiste novamente: “A história se faz com documentos”.

Não insistirei no momento fundador do que vai tornar-se “o romance nacional”, hoje tão contestado. Eu gostaria apenas de sublinhar o fato de que essa história de tipo nacional tornou-se, em toda a Europa, na Alemanha de Ranke e depois de Mommsen, na Inglaterra de Namier, na Itália de Croce, por toda parte, o eixo central a partir do qual se ordenou o resto da história. É sobre a verdade universal do arquivo que se constituiu a legitimidade da história nacional na qual foi encaixada a história da Europa e do mundo, à medida que sua exploração e colonização faziam-no cair nas garras da Europa.

Eu ousaria dizer que veria inclusive a confirmação dessa longa tradição de aliança da história científica com a história nacional, paradoxalmente, no movimento da Escola dos Annales (8) que se apresenta, porém, como a pulverização e a desqualificação dessa história nacional, em sua estreiteza positivista e pobreza política. Uma história cujo embate contra essa história do acontecimento, da nação, foi a ponta de lança ‒ e todo mundo se lembra ‒, por exemplo, da diatribe que Lucien Febvre lançou contra a Histoire sincère de la nation française (História sincera da nação francesa) de Seignobos, o qual pode, com todo direito, passar como o próprio exemplo do “historiador nacional” entre a ciência e a política. A história do tipo Annales foi a própria imagem, na França, da abertura para o mundo, para as ciências humanas, uma história expurgada das peripécias da política e das operações militares, consagrada aos indivíduos postos à margem. Um ataque à história estreitamente política e nacional, emblematizado pelo combate à história só de eventos. Pois bem, como mostrou Krzysztof Pomian em seu artigo sobre “L’heure des Annales” (A hora dos Annales) em Les Lieux de mémoire (Os Lugares de Memória), a preocupação nacional nunca abandonou os historiadores dos Annales. E quando chega a hora das sínteses, o que se alcança é uma história nacional totalmente renovada pelo recurso às ciências humanas. Um testemunho disso seria o extraordinário florilégio de histórias nacionais cuja concentração, bem na década de 1980, só pode espantar: dos três volumes de Georges Duby pela Larousse aos seis volumes de Jean Favier pela Fayard, continuando com os seis volumes de Georges Duby, Emmanuel Le Roy Ladurie, François Furet e Maurice Agulhon pela Hachette e os quatro volumes de Jacques Revel e André Burguière pela Seuil, sem falar das Histoires de France (Histórias da França) individuais de Pierre Chaunu, Pierre Goubert e Marc Ferro, conjunto dominado por L’Identité de la France (A Identidade da França), do próprio Fernand Braudel.

Existe nessa permanência algo de próprio à França. Insistiu-se tradicionalmente na diversidade da França, diversidade dos países, dos povos e das línguas. Era a outra face, visível e sensível, da unidade tenazmente perseguida na constituição temporal da política e da história. Unidade, diversidade é a dupla antitética e complementar que pareceu ser o modo geral de apreensão da história. Ela se consolidou precisamente através da síntese histórica feita pela Terceira República. Mal ela declinou, e aparece como fundamental o princípio da divisão. A França, o mais antigo dos Estados-nação, também é o único que foi construído sobre um duplo mito de origem, os francos e os gauleses, e a unidade orgânica do conjunto não se estabelece, a meu ver, sobre a continuidade harmônica de uma história e de um território, mas sobre a consciência de uma identidade que se nutre continuamente de suas fraturas, das polarizações fortes sobre as quais ela se construiu. Divisões políticas, religiosas, geo-históricas: o elo entre história e nação foi cimentado sobre essa tradição interna da divisão. O que fez a originalidade da França na aliança da história com a política que marcou toda a Europa do século 19, em última análise, foram dois traços que só pertencem a ela: a herança que fora representada por essa primeira forma de história nacional que se constituíra durante as guerras de religião, com L’Histoire des Français (A História dos Franceses) de Henri de la Popelinière e as Recherches de la France (Buscas pela França) de Étienne Pasquier; e, por outro lado, o choque brutal da Revolução que impeliu uma geração, nascida na virada do século e crescida sob o Império, a tornar-se historiadora para reencontrar a vida e o sabor de um mundo naufragado e decifrar para si mesma o enigma maciço da Revolução. Uma geração de moços que se lançaram à pesquisa do passado para esclarecer, sustentar, justificar suas opiniões e aspirações políticas e boa parte dos quais dividirá sua existência entre a história e a política. Marcel Gauchet mostrou bem em seu grande artigo em Les Lieux de mémoire sobre “Les lettres sur l’histoire de France d’Augustin Thierry” (As cartas sobre a história da França de Augustin Thierry) como foi naquele momento que a história, no sentido moderno da palavra, tornou-se história sob o signo da nação.

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A questão colonial veio brutalmente, há mais ou menos dez anos, fazer mudarem de escala as tensões entre história e política; ela levou para as telas do cinema a politização interna da história. Tanto mais que no mesmo instante, ou quase, no lugar da história colonial encontravam-se os problemas postos pelo surgimento de uma história mundial.

São dois debates antigos, mas que tomaram uma intensidade política, um com a realidade da mundialização econômica e financeira, o outro com a lei Taubira de 2001, que criminalizava a escravidão e o tráfico atlântico, seguida em 2003 por Le livre noir du colonialisme (O livro negro do colonialismo), dirigido por Marc Ferro, e, sobretudo, a lei de 2005 sobre “a presença ultramarina positiva da França” e a batalha em torno de seu artigo 4, que obrigava os professores e os livros didáticos a fazerem jus a essa visão das coisas e que terminou por ser retirado.

Em certo sentido, a questão colonial é apenas a última encenação das explosões memorialísticas que desde a década de 1980 haviam atingido todas as minorias, conduzida principalmente pela imigração africana e antilhana. E o que ela parece reivindicar é da mesma ordem que as anteriores, judaica, operária, feminista, corsa etc... Catherine Coquery-Vidrovitch o formula claramente no início de seu livro recente sobre Les Enjeux politiques de l’histoire coloniale (As Disputas Políticas da História Colonial): “Deve ou não deve nossa história nacional incluir a história da colonização e da escravidão colonial francesa em nosso patrimônio histórico e cultural comum?”. Assim posta, a pergunta não admite discussão alguma.

Na verdade, a questão vai muito mais longe, opondo aqueles que pensam que a parte colonial de nossa história pouco envolveu as constantes da identidade nacional e aqueles que julgam necessário repensar o conjunto dessa identidade nacional em termos pós-coloniais, não estando a identidade nacional longe de revelar sua realidade na opressão colonial e em sua negação. Também não se trataria, portanto, de inscrever a colonização no grande registro da história nacional, mas de reescrever essa história nacional conforme a posição dos negros ante a colonização. Bonaparte restabeleceu a escravidão no Haiti em 1802. Ora, a escravidão foi declarada crime contra a humanidade. Portanto, Bonaparte é um criminoso de lesa-humanidade. E já que ele não está aí para responder pelo seu crime, os historiadores devem fazê-lo em seu lugar.

Obviamente, história mundial e estudos coloniais constituem domínios diferentes, ainda que partilhem as mesmas interrogações quanto à maneira de escrevê-las e às bases sobre as quais devem ser abordadas. Se, porém, o Oriente, tema destes Encontros, permite aproximá-las, é porque a história mundial (ou, como quer que a chamemos, “global”, “comparada”, “conectada”) deságua diretamente no processo do eurocentrismo, assim como a história colonial no processo da história nacional; e porque, nos dois casos, o elo intrínseco é estabelecido entre nação e história, assim como entre Europa (ou Ocidente) e história.

Esse questionamento compõe um vastíssimo espectro de correntes de pensamento que, inspirando-me na análise feita por Krzysztof Pomian das relações entre a “world history” e a história universal, vou esforçar-me por meramente identificar, em prol da clareza pedagógica. De fato, elas consistem em:
− Afirmar que o impulso da modernidade ocidental se fez pela exploração do resto do mundo: argumento de base do marxismo e do neomarxismo.
− Estabelecer o paralelo entre o desenvolvimento científico e a dominação, entre o conhecimento ou a fabricação ilusória dos exotismos e o imperialismo. É o tema de Edward Said em sua célebre obra, Orientalismo, livro pioneiro da crítica antiocidentalista, em 1978, que o mundo árabe entendeu de forma errada, diz o autor num importante posfácio de 2003, como uma defesa e explicação sistemáticas do islã e dos árabes.
− Atenuar os aportes do Ocidente e seu papel na unificação do mundo e reconstruir a história de modo a apagar-lhe a especificidade ocidental. A demonstração consiste então em remeter todas as inovações ocidentais a invenções muito anteriores e feitas em lugares que não a Europa: na China, na Índia, no mundo árabe, da numeração decimal e do zero à imprensa de caracteres móveis, passando pela bússola e pela pólvora. Ou chegando até a contestar a unicidade e a modernidade do capitalismo.
− Recusar-se a aceitar, para pensar a história, todas as categorias de inteligibilidade emanadas do Ocidente, em particular a de “civilização”, sobre a qual repousa a obra de Toynbee ou a tese de Huntington.
− Denunciar a afirmação não mais somente do imperialismo político do Ocidente, mas também de seu imperialismo histórico, pretendendo-se demonstrar como a Europa impôs o relato de seu passado ao resto do mundo. É o que Jack Goody deseja mostrar, por exemplo, em seu recente livro O roubo da história, a respeito da compreensão sobre a Ásia. Percebe-se a distância, em cinquenta anos, entre essa posição extremista e o relativismo histórico de Lévi-Strauss em seu célebre opúsculo de 1952, Raça e História.
− Repelir inclusive como conceito a história no sentido moderno, justamente aquele que era dado como a História com agá maiúsculo e apresentado como o padrão para estabelecer quem estava ou não estava na história e para medir a que distância se encontrava da História esta ou aquela população distante. Foi um eco desse argumento que, por exemplo, provocou a reação negativa dos africanos ao discurso de Nicolas Sarkozy em Dakar, em 2007, discurso que, por um lado, comportava fortes condenações do colonialismo, mas por outro, anunciava o “atraso dos africanos em entrar na História”.
− Finalmente, repelir todo pensamento do universal em nome do fato de ser uma autoglorificação e uma autojustificação imperialista da civilização que inventou e definiu exatamente as formas do universal.

Nessa nova “situação feita à história”, como dizia Péguy, feita de uma tensão dilatada entre a história e a política, a França que, há uma geração ainda, na era dourada da Escola dos Annales, brilhava com um esplendor mundial, parece, diz firmemente Jean-François Sirinelli em seu opúsculo recém-publicado, L’histoire est-elle encore française ? (A história ainda é francesa?), estar deixando seu protagonismo internacional. Se é verdade que nessa trama domina hoje a procura por uma história do mundo, pela “world history”, é evidente que são os americanos que se encontram na dianteira – talvez porque, lembrando-se de terem sido os primeiros descolonizados da história, eles estão muito certos ao identificarem-se com a recusa do eurocentrismo. É igualmente evidente que, se foi a fixação na história nacional que provocou o atraso em adentrar a história mundial, é a França que, de todos os países europeus, têm a maioria das razões para vivenciar esse atraso. Não há por que insistirmos nesse ponto.

Em contrapartida, é em sua dificuldade de assumir sem perturbação seu passado colonial que eu gostaria de insistir para concluir. A paixão que a anima, os bloqueios que a paralisam me parecem menos devidos ao ressentimento e ao peso na consciência do que a duas circunstâncias históricas.

A primeira sem dúvida deve-se ao fato de que, diferentemente da Inglaterra, por exemplo, para a França a desapropriação colonial terminou na guerra, a guerra da Argélia, sucedendo à da Indochina. Duas derrotas tendo ao fundo a derrota de 1940. A fixação sobre a Argélia possui múltiplas dimensões, metade colônia e metade três departamentos franceses. A guerra da Argélia tomou as feições de uma guerra de Secessão. Ela marcou para a metrópole uma mudança de regime e de República, e foi o homem que havia livrado a França do desastre de 1940 que baixou a bandeira na Argélia. E as consequências da derrota argelina estão tão longe de desaparecer quanto as consequências da derrota de 1940.

A segunda razão deve-se à atitude da esquerda, hesitante e ambígua em face da colonização. A associação retrospectiva entre a esquerda e o anticolonialismo é um pré-julgamento fabricado. Muito pelo contrário. Não somente os partidos de esquerda converteram-se tardiamente ao anticolonialismo, como também foi em nome das Luzes, em nome do ideal revolucionário e jacobino que se operou a expansão colonial. Ainda aqui, o exemplo argelino seria comprobatório. Por natureza e definição, o nacionalismo argelino bateu de frente com a esquerda francesa, que se concentrou na defesa dos pequenos pieds-noirs de Bab El-Oued; de tal forma que a lentidão da guerra da Argélia deve-se em parte à lenta e difícil conversão da esquerda à ideia da independência argelina. A intensidade da questão argelina respingou no conjunto da questão colonial, que se tornou uma crise de consciência rapidamente recalcada e mal digerida.

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Conclusão: história versus política é o antagonismo do momento, o vocábulo “política” comportando ao mesmo tempo memória e ideologia.

Essa dupla antinômica substituiu aquelas que ocuparam sucessivamente o palco da disciplina histórica: erudição versus filosofia, ciência versus literatura, estrutura versus acontecimento, problema versus relato. O antagonismo entre história e política, porém, vai muito mais longe do que os que o precederam, pois ele não envolve somente a maneira de fazer história, mas também o lugar e o papel da história na vida dos cidadãos.

Esse lugar e esse papel tornaram-se problemáticos; e marcados por uma profunda contradição.

As próprias bases do ofício mudaram. O historiador não está mais inserido em, nem orientado por, uma continuidade histórica da qual ele era ao mesmo tempo o depositário e o fiador. Ele perdeu suas próprias certezas e seu magistério. Em contrapartida, como intérprete e como especialista da demanda social, como resistência à pressão política e pública, ele é mais necessário do que nunca.

Seu papel tornou-se mais difícil. Por onde passa a fronteira entre o alargamento de seu rol de perguntas e o abandono dos critérios clássicos da disciplina que lhe permitem redigir esse questionário? Por onde passa a fronteira entre a tomada em consideração dos portadores de memória, das testemunhas, das vítimas da história e a reconstituição dessa história do mero ponto de vista dessas testemunhas e dessas vítimas? Qual lugar conceder à história nacional numa história da Europa e do mundo? Por onde passa a fronteira entre encarregar-se das identidades singulares e respeitar o coletivo, e qual coletivo? Tantas questões às quais cabe a cada um responder à sua maneira, mas a todos de fazer-se.

Evidentemente não é possível que um historiador se abstraia de suas determinações, desfaça-se dos laços com seu país, sua classe, sua religião, sua família, seu partido e mesmo com sua corporação. Mas a situação nunca o obrigou a tomar, tal como um etnólogo, semelhante distância crítica tanto com relação a si mesmo quanto com relação a seu tema para buscar uma verdade que é de todos, porque ela não pertence a ninguém. E, com esse objetivo que é impossível atingir, mas que é preciso sempre mirar, a consciência dos limites e a análise das exigências são, aqui e em outras esferas, a condição primeira da ação e da liberdade.

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Notas (clique no número pra voltar ao texto)

(1) Designação dos franceses originários da Argélia e, por extensão, os de ascendência europeia que residiam nas colônias da França na África do Norte até março de 1956 (protetorados da Tunísia e do Marrocos), julho de 1962 (Argélia) ou, no caso dos que permaneceram após a independência dos três países, para além dessas datas. Significando literalmente “pés pretos”, há várias especulações distintas para a origem dessa designação.

(2) Referências ao chamado “regime de Vichy”, governo-fantoche da ocupação nazista na França (1940-1944) sediado na cidade de Vichy e que administrava a metade sul do país, sem o exército alemão que ocupava a metade norte; e ao movimento da Resistência Francesa contra a ocupação alemã e os colaboracionistas, que abrangia ações internas de sabotagem, espionagem, agitação e propaganda, bem como o governo antinazista no exílio em Londres, comandado pelo general Charles de Gaulle.

(3) (1899-1943) Alto funcionário público e presidente do Conselho Nacional da Resistência no interior da França, governou os departamentos de Aveyron e de Eure-et-Loir antes de recusar-se a colaborar com os invasores nazistas. Trabalhando sob as ordens do general de Gaulle, foi preso na cidade de Caluire-et-Cuire em 21 de junho de 1943, torturado na sede da Gestapo em Lyon e morreu em 8 de julho, no trem que o levava de Paris para a Alemanha. Foi o líder mais célebre da Resistência, da qual se tornou seu símbolo, sobretudo na famosa foto com chapéu e lenço, e aquelas que se presumem ser suas cinzas estão depositadas no Panteão de Paris.

(4) Maurice Papon (1910-2007), político e alto funcionário público francês, foi processado por crime de lesa-humanidade em 1981, por cumplicidade em atos de prisão e sequestro durante a deportação de judeus da França para a Alemanha, sob o regime de Vichy. Após longa batalha judicial acompanhada vivamente pela opinião pública, ele foi enfim condenado a 10 anos de prisão em 1998, mas por razões de saúde ficou encarcerado somente de 1999 (após tentativa de fuga) a 2002.

(5) Paul Touvier (1915-1996) foi membro da Milícia do regime de Vichy, que combatia a Resistência, e condenado à morte em 1946 e 1947 pela execução de sete judeus no cemitério de Rillieux. Após passar boa parte de sua vida como fugitivo, recebeu o perdão presidencial de Georges Pompidou, mas foi preso em 1989 durante novo processo por crime de lesa-humanidade. Levado à prisão perpétua em 1994, Touvier tornou-se o primeiro francês condenado por esse tipo de crime.

(6) Referências à Guerra Austro-Prussiana de 1866, que opôs o Império da Áustria e seus aliados da Confederação Germânica ao Reino da Prússia, e que foi decidida na batalha de Sadowa (atual Sadová), em 3 de julho, com vitória prussiana e a obrigação à Áustria de dissolver aquela confederação em prol de uma Confederação da Alemanha do Norte; e à Guerra Franco-Alemã de 1870, que opôs o Segundo Império francês à Prússia, à Confederação da Alemanha do Norte e a outras monarquias germânicas, e em que a derrota na batalha de Sedan (1.º de setembro) e a capitulação de Napoleão 3.º provocaram a queda do Império e a ascensão da Terceira República. Ambas as vitórias prussianas prepararam o terreno para a unificação da Alemanha, temida pela França, a qual terá seu orgulho nacional longamente ferido por aquela rendição.

(7) Em latim: “O sagrado amor pela pátria dá coragem” (tradução de E.F.).

(8) Corrente historiográfica francesa fundada por Lucien Febvre e Marc Bloch em 1929, em torno da revista Annales d’histoire économique et sociale (Anais de História Econômica e Social), cujo objetivo era apresentar uma história global, holística, tanto no tempo (longa duração) quanto no espaço (fatos sociais em conjunto), buscando ampla interação entre as disciplinas das ciências sociais. Críticos da “Escola Metódica” (dita pejorativamente “positivista”) fundada por Gabriel Monod em 1876, os “Annales” renovaram profundamente a historiografia francesa do século 20, em sucessivas “gerações”, sua revista ainda existindo sob o nome Annales. Histoire, Sciences sociales (Anais. História, Ciências Sociais) ou Annales HSS.