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31 de maio de 2017

“Ĉiutaga vivo” (soneto em esperanto)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/ciutaga


Repetindo a iniciativa de uma postagem anterior em que publiquei um soneto em esperanto, vão aqui mais alguns versos meus que escrevi no final da adolescência. Pra não correr o risco de repetir muita coisa que eu já tinha escrito, relembro apenas alguns pontos, de modo mais sucinto. Entre o fim de 2004 e o começo de 2006 eu fiz vários sonetos em português e esperanto, como sintoma de uma transição grave na minha vida, ou seja, do Ensino Médio pra faculdade. Como eu também já tinha dito, vivi vários dilemas de adolescência, até porque, diferente do resto da escola, eu gostava muito de ficar em casa lendo e escrevendo, e não indo em balada, e isso me fazia ser visto com olhos tortos. Assim, como expressão da inquietação, surge a poesia, numa época em que eu também dominava melhor o esperanto. Embora com a graduação eu não tenha mais tido muito tempo de “poetar” ou de praticar essa língua, as pérolas ficaram.

Eu gostava do modelo de soneto, porque aprendi no Ensino Médio, orientado por bons professores, e lia exemplos de vez em quando em livros à parte ou no próprio material didático. O mais instigante é que decidi escrever também em esperanto, única língua estrangeira que eu dominava então. Talvez fosse uma dupla blindagem dos sentimentos: as figuras poéticas abstraíam a verdadeira expressão, e o esperanto é uma língua que poucos leem no Brasil, ainda mais no Ensino Médio. Uma terceira blindagem talvez tenha sido eu não ter mostrado então a ninguém, nem ter traduzido o conteúdo.

Este soneto se chama “Ĉiutaga vivo”, literalmente “Vida diária” ou “Vida cotidiana”, ou só “O cotidiano”, refletindo o que um dos meus professores de português, digamos, me criticou: usar a forma poética pra falar de assuntos corriqueiros. Não anotei a data, mas por estar na primeira metade da coleção que tenho guardada, deve ser do fim de novembro ou começo de dezembro de 2004. Realmente, descrever o que eu fazia no dia a dia de fim da adolescência, quase terminando o colegial, era um tema “nada a ver” pra um soneto. Mas até hoje não consigo explicar por que eu gostava tanto de escrever poesia, sem ter a pretensão de ser escritor ou mesmo crítico literário! Acho que era uma forma de exercício linguístico e intelectual que me veio ser muito útil no futuro, instando principalmente a aprender vocabulário. De fato, sonetos são pra coisas etéreas, e não pras banalidades que andei tratando. Mas por que todo poeta precisa estar no mundo da Lua? E no futuro, se eu ficar famoso, pode virar uma joia pra que falem: “Nossa, esse cara também sabia fazer poesia!”

Quanto às regras métrico-sonoras, eu contei como sílabas plenas também as pós-tônicas, sem saber qual era o costume no esperanto. Por exemplo, usando o modelo francês, se um verso em português termina com “claro”, a sílaba “ro” não entra na contagem, assim como as sílabas “ti” e “co” da palavra “ático”. O fácil no esperanto é que toda palavra com duas sílabas ou mais é paroxítona (kareso), e os substantivos podem virar oxítonos pela elisão do O final (kares’). Portanto, o difícil é que, ao contrário do português, palavras oxítonas e paroxítonas não podem rimar entre si.

Seguem abaixo o texto em esperanto e, em seguida, uma tradução literal não rígida em português, pra que vocês possam conhecer pelo menos o significado. Seria interessante escutá-lo também recitado, mas um dia vou começar a gravar mais poemas meus em esperanto no canal O Eslavo (YouTube). Boa leitura, e espero que gostem!



Ĉiutaga vivo

Interreto kaj skriboj en komputil’,
Biciklada aŭ naĝada gimnastiko,
Televida dramseria polemiko,
Amikoj zorgantaj pri mia vestostil’.

Revuoj traktas pri aliula ŝiko,
Dum krimulo mortigas fraton per pafil’;
Servante ĉi tiu poemo kiel il’,
Mi fariĝos doktoro pri poemiko.

Kreado estas manĝaĵo por mia mens’,
Kiu ĝin fortigas, por ke ĝi laboru
Cele al la ŝanĝo de l’ mondo nur per pens’.

La sciemuloj por la paco deĵoru,
Ne plu por envia komplota dens’,
Kaj por ĉiam fidiron ĉian forvoru.

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Vida cotidiana

Internet e escritas no computador,
Ginástica com bicicleta ou natação,
Polêmica na novela da televisão,
Amigos xeretando meu jeito de vestir.

Revistas falam do glamour alheio,
Enquanto o criminoso mata o irmão com revólver’;
Servindo este poema como instrumento,
Vou me tornar doutor em poética.

Criar é alimento pra minha mente,
Que a fortalece, pra que ela trabalhe
Visando mudar o mundo só pelo pensamento.

Que os sábios montem guarda pela paz,
Não mais por densos complôs invejosos,
E pra sempre descratem toda ofensa.