Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

quinta-feira, 18 de maio de 2017

“Plenkreskiĝo” (Adolescência), poema


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/plenkresk


Este é mais um dos poemas que escrevi quando era adolescente, recorrendo também ao esperanto pra me expressar. É um soneto, e fiz vários deles, em português e esperanto, entre o fim de 2004 e o começo de 2006. Em 2004 eu estava terminando o segundo ano do Ensino Médio, e por isso me preocupava muito com que vestibular eu ia prestar no ano seguinte. Em 2005 também vivi diversos dilemas do fim dos estudos e da quase chegada à idade adulta, e os expressei interessantemente em poemas. Em 2006 eu já não tinha muito tempo de escrever porque os estudos superiores e o transporte de Bragança a Campinas tomavam o tempo. Mesmo assim, as pérolas ficaram.

Eu gostava muito do modelo de soneto, porque eu o aprendi no Ensino Médio, sob a orientação de bons professores, e lia de vez em quando em livros à parte, se bem que o próprio material didático fornecia diversos exemplos. O mais instigante é que decidi escrever também em esperanto, que era a única língua estrangeira que eu dominava até então; eu ainda não era fluente em francês e russo. Talvez fosse uma dupla forma de blindar meus sentimentos: as figuras poéticas fazem apenas uma alusão a como eu contaria meus sentimentos de verdade, e o esperanto é uma língua que poucos leem no Brasil, e num público de Ensino Médio e então, ainda menos. Uma terceira blindagem talvez tenha sido eu não os ter mostrado a ninguém naquela época, nem ter traduzido seu conteúdo.

Este soneto se chama “Plenkreskiĝo”, ou “Adolescência”, traduzindo literalmente, “uma época em que estamos realizando nosso pleno crescimento”. Ele não está datado, mas na minha coleção de poemas, aparece como o primeiro soneto em esperanto que guardei (eu descartei muitos, em português e esperanto), portanto deve ser de novembro de 2004. Era uma época em que meus dilemas e ansiedades estavam muito fortes, pois não só vivia a angústia de não ter uma primeira namorada, como era de meu desejo, mas também os colegas me pressionavam muito quanto a roupa, baladas, bebidas etc., coisas que nunca foram minha preocupação central, além do que desejava escolher logo uma carreira pra prestar vestibular dentro de um ano. E sem saber se tudo ia realmente dar certo, pois pra mim, na época, vestibular e faculdade eram bichos-de-sete-cabeças... E tudo isso (obrigações estudantis e pressões sociais) se choca com o estado mais calmo, acolhedor e não exigente de quando somos menores ou não temos tanta responsabilidade quanto nossos pais.

Sinceramente, não sei se um poema ou soneto em esperanto seguiria essas regras métrico-sonoras, mas eu contei também as sílabas pós-tônicas como sílabas plenas. Por exemplo, seguindo o modelo francês, se um verso em português termina com a palavra “claro”, a sílaba “ro” não entraria na contagem, assim como as sílabas “ti” e “co” da palavra “ático”. O que facilita em esperanto é que todas as palavras com duas sílabas ou mais são paroxítonas (kareso), e os substantivos podem se tornar oxítonos com a elisão do O final (kares’). O que dificulta é que, portanto, ao contrário do português, palavras oxítonas e paroxítonas não podem rimar entre si.

Seguem abaixo o texto em esperanto e, em seguida, uma tradução literal não rígida em português, pra que vocês possam apreender pelo menos o significado. Seria interessante vocês também o escutarem recitado, mas um dia gravo em massa meus poemas em esperanto no canal O Eslavo (YouTube). Boa leitura, e espero que gostem!



Plenkreskiĝo

Sur verdaj kampoj de la bonesto
Kuŝadis mia blua animo
Liberigita de ĉia timo,
Dormanta en patrina bebkesto.

Sed mi alvenis al viva limo
De l’ trankviliĝo nur en la nesto,
Kie ne premas grandkosta vesto
Kaj ne atingas min la malŝirmo.

La nova vivo maturigis min
Donante protekton kontraŭ l’ envi’
De l’ kruda samlaborana destin’.

Nur mankas al mi fortega pasi’
Naskita de kunvivo kun virin’
Plenigata de l’ ameca magi’.

____________________


Adolescência

Sobre os campos verdes do bem-estar
Minha alma azul ficava deitada
Liberta de todo temor,
Dormindo no moisés materno.

Mas cheguei ao limite na vida
Da tranquilidade apenas no ninho,
Onde a roupa cara não oprime
E onde o desabrigo não me atinge.

A vida nova me amadureceu
Dando proteção contra a inveja
Do cruel destino com os colegas.

Somente me falta uma fortíssima paixão
Gerada pelo convívio com uma mulher
Repleta de magia amorosa.