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10 de maio de 2017

Rússia replica à BBC sobre hooligans


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/hooligans



No dia 4 de abril deste ano, o Jornal Nacional da TV Globo passou uma reportagem sobre o temor de que hooligans russos estraguem a festa na Copa do Mundo de 2018, sediada em seu próprio país. “Hooliganismo” nada mais é do que um termo gourmetizado pra “briga de torcida”, coisa que acontece aqui em escala igual ou até maior. William Bonner e Renata Vasconcellos apenas repassaram o documentário O exército hooligan na Rússia, feito em fevereiro pela TV britânica BBC sobre o assunto, além de um curto vídeo (apresentado abaixo) feito pelo governo Putin pra tentar dar uma resposta ao que ele chama de “campanha russofóbica ocidental”. Essa réplica, transmitida mundialmente pelo canal russo RT, foi bem interessante, pois ia na esteira de contestações feitas no próprio Parlamento britânico contra a russofobia predominante na mídia.

Esta canção, interpretada por atores russos mais ou menos jovens, é uma paródia da famosa música popular “Ойся, ты ойся” (Oisia, ty oisia), cujo título é quase intraduzível e foi composta, provavelmente, no tempo da Guerra Caucasiana. O conflito, que durou de 1817 a 1864, opôs o exército imperial da Rússia contra os imãs do norte do Cáucaso, na tentativa de anexar aquelas regiões montanhosas ao domínio de Moscou. Outro nome da canção é Kazachia molitva (A oração do cossaco), e ela é tocada ao ritmo da lezginka, um estilo dançante muito difundido no Cáucaso. A letra basicamente é um pedido russo pra que os “oisia” não temam os cossacos, pois seu humor seria equilibrado. “Oisia” é um apelido genérico dado aos povos vainaques (ou vaynakh), sobretudo tchetchenos e inguches (inguchétios), derivado do grito “khorsa!” ou “assa!” que se dá durante aquela dança. Na paródia, o garoto ainda fala no final: “Всё нормально будет, приезжайте!” (Vsio normalno budet, priezzhaite!).

Isso me dá oportunidade pra explicar algumas opções tradutórias: algumas fontes explicam o “oisia” como um simples grito musical (eu mesmo não olhei a legenda inglesa), mas eu associei a palavra à sua interpelação ao estrangeiro, derivada de uma leitura própria de sua língua e costumes. Ou seja, como se trata de ingleses, usei a interjeição “Hey!” e usei a palavra “gringos”, com a pronúncia brasileira imitada “gríngous”. A versão mais aceita pra origem da palavra “gringo” é que tivesse vindo do espanhol platino, que modificou a palavra “grego” com o sentido de “estrangeiro”, “algo incompreensível ou estranho”. Mas outros também dizem, embora sem muitas provas, que teria vindo da canção Green go lilacs, que os soldados dos EUA cantavam na guerra contra o México (1845-47), ou das ordens de ferroviários britânicos no Brasil “Red stop, green go!” (Pare no vermelho, passe no verde!). Mesmo hipotéticas, essas podem ser justificativas pra minha tradução. Idem pro final, “Oh, yeah!”, outra interjeição “gringa”... Notem que também pus todas as referências a pessoas do singular pro plural, pra ficar mais natural em português.

Na minha opinião, duas coisas parecem graves nesse vídeo. Primeira, dá a impressão de que os atores fazem uma cara bem cínica, como se estivessem disfarçando um “bote”, embora talvez tenha sido justamente intenção deles fazer essa ironia, zombando da velha ideia da Rússia ou da URSS como “bicho-papão”. Essa atual tendência ocidental geral de se contrapor a Moscou, que não data dos tempos da URSS, mas de fato do tsarismo do século 19, foi ironizada pelos internautas russos, que de fato disseram representar o vídeo uma espécie de “canção ritual antes de um almoço canibal”. A segunda coisa: é estranho fazerem referência ao Cáucaso do Norte muçulmano, num momento em que exatamente a Rússia combate o terrorismo islâmico e, ao mesmo tempo, se vê confrontada com as reclamações separatistas de tchetchenos, inguches etc.

E por falar em russofobia, foi bem interessante o esquema de distribuição de notícias no JN no dia 4 de abril: ao invés de passarem primeiro as repercussões do atentado em São Petersburgo (ocorrido no dia 3), passaram o ataque, supostamente de Bashar al-Assad, com gás sarin contra civis, e mostraram alegremente fotos de Putin com seu “grande aliado” Assad. Depois, num tempo bem mais breve, falaram da explosão no metrô, como se estivessem estimulando o típico coxinha de internet a ficar esbravejando: “Ah, tá vendo, os russos bem que mereceram!” Aliás, naquelas semanas, mal vi os movimentos “Je suis Sankt-Peterburg”, “Estamos todos com a Rússia” e a colocação de bandeiras transparentes em fotos de perfil.

A postagem do vídeo e da letra está nesta página de esportes do canal russo RT, e pra legendar, eu baixei o vídeo sem legendas desta página no YouTube, também do canal da RT. No mesmo site, tem várias versões dessa música, em voz e dança: com o Coral Cossaco de Moscou, uma roda pequena e dança menor; uma apresentação com senhores de idade que privilegia a dança, com a música cantada pelo público, sem instrumentos; um arranjo mais moderno (2015) com a cantora Marina Deviatova, centrada na dança de dois rapazes; uma montagem com várias tomadas caseiras, tendo ao fundo a canção numa versão mais típica, porém mais animada; uma apresentação muito mais elaborada com música e dança lindas, bem à moda dos conjuntos internacionais; e uma filmagem na festa de aniversário do famoso soldado separatista Givi, no leste da Ucrânia, com tropas dançando essa música, antes dele morrer em combate. Seguem abaixo minha legendagem, postada no meu canal O Eslavo (YouTube), a letra em russo e minha tradução pro português:


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Не пугайте, BBC, британского фаната.
Испокон века на Руси гостям мы очень рады.

Ойся, ты ойся, ты меня не бойся,
Я тебя не трону, ты не беспокойся.

Англичанин говорит: «Страшно ехать в Рашу».
Ты не бойся, приезжай, нету места краше.

Ойся, ты ойся, ты меня не бойся,
Я тебя не трону, ты не беспокойся.

Ойся...

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BBC, não assuste o torcedor britânico.
Desde sempre gostamos de visitantes na Mãe-Rússia.

Hey, gríngous, não tenham medo da gente,
Não se preocupem, não vamos fazer mal.

Os ingleses dizem que “Ser ruim ir pra Râsha”.
Venham, não há lugar mais lindo, não tenham medo.

Hey, gríngous, não tenham medo da gente,
Não se preocupem, não vamos fazer mal.

Oh, yeah...