quinta-feira, 8 de maio de 2025

História como processo cíclico (2005)


Endereço curto: fishuk.cc/ciclo-hist


Prosseguindo com os textos de meu ensino médio (2003-2005) que ainda julgo serem interessantes, trago hoje uma redação da aula de Português, intitulada “Os ciclos da história” e datada de 20 de junho de 2005, e uma atividade de Geografia, intitulada “Soluções políticas” e datada de 9 de setembro de 2005. Minha professora Graça Moraes Hosokawa, grande pesquisadora da língua portuguesa, infelizmente só nos deu aula nesse último ano, mas José Augusto, o “Zé”, nos acompanhou com Geografia durante todo o ciclo. Rígido, mas humorado, em grande parte devo a ele, assim como a minha professora de História, Flávia, minha opção pela graduação que segui.

Publiquei estes dois textos juntos porque, apesar das matérias diferentes, seus temas são bem afins, o que se deve à abordagem interdisciplinar adotada por minha escola. Eles são bem peculiares em vários aspectos, a começar pelas estranhas crenças que eu professava: a de que a história é “cíclica” (concepção herdada de vários povos não europeus e de nossa mentalidade pré-científica) e a de que o regime socioeconômico ideal seria uma espécie de “socialismo” estatista e centralizador, mas sem a “necessidade da ditadura” ou “de se chegar ao comunismo” (influência da leitura do artigo Por que o socialismo? de Einstein). Alguns pontos são obscuros ou tão curiosos que decidi indicar meu assombro entre colchetes, como fiz na publicação anterior.

Confesso: minha “esquerdização” não começou na faculdade, e sim no último ano de escola, quando eu me reivindicava “socialista democrático” (mas não social-democrata, vai entender...), aceitava a estrela vermelha como meu símbolo político (mesmo criticando o PT e só votando nele em 2010!) e simpatizava com o Marechal Tito. Na verdade, minha simpatia era pelo PSOL, formado no ano anterior, porque eu me considerava “à esquerda do PT”, mas rejeitava ideias de revolução violenta. Ou seja, já entrei um tanto “amaciado” na universidade, e só “de decepção em decepção” que fui modulando minhas próprias visões, um dos motivos pelos quais, embora tivesse amigos do PSOL e do PSTU, nunca militei ativamente, rs.

Não alterei as palavras, mas apenas atualizei a ortografia e troquei algumas expressões que, de fato, seriam erradas numa correção de nível avançado. Como você pode ver, eu trouxe também a “primeira versão” da redação de Português, que foi vastamente enxugada e reformulada, mas também acabei fazendo trocas na versão final, onde a própria Graça marcou com caneta vermelha, assim “atrasando” em 20 anos o polimento definitivo do texto...






A história do mundo é uma roda que gira na razão constante entre o espaço e o tempo, em um movimento cíclico de alternâncias que tem como combustível a ânsia dos homens de mudar o mundo.

Povos revezam-se no domínio do mundo e ditam as regras sobre como viver. Seus projetos nem sempre coincidem com a ideia do bem comum, gerando também muitas desigualdades. Guerras entre os povos não faltaram, principalmente pela hegemonia global, nem movimentos sociais e artísticos por novas visões de mundo, nem pessoas que lutaram pela mudança da situação, sejam sozinhas ou em conjunto, seja pela igualdade ou por benefícios próprios, provando que as mudanças podem ser feitas com ambição e obstinação. Também foram presenciados ciclos e planos econômicos e a alternância de moedas, tanto no Brasil quanto no exterior, tanto em épocas prósperas quanto em crises financeiras.

Não há História sem tempo e sem espaço. O homem, ao desenvolver sua inteligência, começou a contar o tempo, possuindo referenciais, como o nascimento de Cristo, e eras como a nossa Idade Contemporânea. O tempo multiplicou o espaço e este dividiu o tempo. As civilizações de todos os tempos fracionaram seus feitos em diversas épocas e usaram-nos para contar suas heroicas trajetórias.

O mundo e a História giram. Como crianças brincando de mãos dadas, rodamos e nos movimentamos para sermos alguém na imensidão de nossa trajetória pelo planeta.


É de espantar que não só o Brasil, mas também países desenvolvidos sofram com a descrença nos políticos. Além disso, a política econômica neoliberal atiça essa onda de indiferença, pois há uma fome por poder e posses ilimitadas.

Assim, podemos refletir sobre o que ocorreu com o capitalismo e com os governos liberais nas primeiras décadas do século 20: após a grande crise, houve também uma descrença generalizada no sistema vigente, que levou à ascensão de regimes socialistas ou, no caso da Europa pós-2.ª Guerra, social-democratas. Enquanto o capitalismo levou séculos para perceber seus erros, o socialismo (agora referindo-se a sistemas de filosofia semelhante) desapareceu mais rapidamente, logo percebendo seus erros e tendo a chance de se arrepender [?].

O neoliberalismo volta a vigorar, com a chance de melhorar, porém não o fez e oprime de modo mais cruel o trabalhador, só que mais pelo lado financeiro. Portanto, como em um ciclo, podemos prever que o socialismo, ou governos semelhantes, voltará totalmente modificado, apenas com limitação das grandes propriedades e a centralização do Estado, sem a necessidade da ditadura e sem a obrigação de se chegar ao comunismo.


quarta-feira, 7 de maio de 2025

Redações do ensino médio (2005)


Endereço curto: fishuk.cc/redacao2005


Prosseguindo com os textos de meu ensino médio (2003-2005) que ainda julgo serem interessantes, trago hoje duas redações da aula sobre essa atividade do vestibular: “A graça da vida”, datada de 14 de outubro de 2005, e “Entre o aprender e o decorar”, datada de 28 de setembro de 2005. Naquele ano, meu professor não era o Silvano, mas Graça Moraes Hosokawa, grande pesquisadora da língua portuguesa com quem tive a honra de conviver, infelizmente, apenas na última “série”. Inclusive, o primeiro título é um “gracejo” com o prenome dela, rs.

Sem querer desmerecer o Silvano, a abordagem da Graça era muito mais profissional, a começar pelo fato de nos ter trazido as questões de vestibular mostradas abaixo, que serviram de “chamada” pra gente escrever. Veja também que as correções foram bem mais sutis e que, se a segunda entre as duas notas indicadas em cada papel era a pontuação máxima, eu nunca atingia o topo – apesar, claro, dos belos elogios escritos no rodapé de cada um! Além disso, tive vários professores “top” nesse último ano, e lamento não só o atraso com que chegaram, mas também eu não ter extraído da experiência deles mais do que poderia.

Hoje já trouxe logo duas, pois sendo cada redação pequena demais, não ia ter “Graça” lançar o conteúdo “a conta-gotas”. Não alterei as palavras, mas apenas atualizei a ortografia e troquei algumas expressões que, de fato, seriam erradas numa correção de nível avançado (como “através de”, um indicador espacial, quando o correto seria “por meio de”). Também acabei fazendo trocas onde a própria Graça marcou com caneta vermelha, assim “atrasando” em 20 anos o polimento dos textos, rs.




Comprovou-se cientificamente que o bom humor faz bem ao coração, mas a ciência é desnecessária para mostrar que ele é benéfico na vida das pessoas, o que é feito pela vivência cotidiana, a maior escola de todas.

O humor é um cartão de visita pessoal, ajudando ou atrapalhando nas primeiras impressões. Pessoas de temperamento aberto, que não apresentam aparência carrancuda ou extremamente séria, ganham mais simpatia e confiança. Se ao longo de uma convivência passam o tipo de humor que faz rir e descontrair, elas reforçam com os outros os mais diversos tipos de laços e aumentam seu círculo de relacionamentos, obtendo, assim, numerosas vantagens materiais e sociais.

O prazer gerado pelo riso causa uma sensação de bem-estar que melhora a autoestima das pessoas e lhes dá mais ânimo e forças para encarar as mais diversas situações, inclusive as mais difíceis, porém sem apagar o respeito que uma certa ocasião exige, em especial uma tragédia. No que resta, ironizar pode ser a saída para que se fique menos chocado com fatos corriqueiros, como a corrupção. É essa ironia que caracteriza o bom humor do brasileiro, que sempre satiriza diversos empecilhos ao desenvolvimento do país.

“Estar de bem com a vida” exige uma boa dose de descontração a fim de melhorar a saúde, a vida social, a imagem perante as pessoas e a força diante dos problemas.




É comum o uso de procedimentos associativos para a recordação de fórmulas ou outros conceitos, em especial no meio escolar, no qual são também chamados “macetes”. Esse é um método interessante, mas nem sempre preferível se o desejo é o aprendizado permanente.

Em provas e em outras ocasiões, alunos precisam lembrar-se de ferramentas necessárias à execução das tarefas de modo rápido e fácil, daí a utilidade de recursos mnemônicos, que aliás sempre estiveram presentes na história das civilizações mais antigas. Elas usavam formas e cores para a alusão de ideias de acordo com suas técnicas e seu conhecimento de mundo, deixando uma ferramenta adaptada aos dias de hoje, quando as informações precisam ser processadas em grande quantidade e da forma mais veloz possível.

Porém, o uso inconsciente de conceitos lembrados por meio de “macetes”, além do desconhecimento sobre seu sentido ou origem, não pode ser considerado aprendizado. Ele se afirma quando a pessoa, por meio do uso constante do conhecimento adquirido, fixa sua estrutura em suas lembranças [sua memória?]. No caso de alunos, o meio mais eficaz para que isso aconteça é a prática de exercícios sobre determinada matéria, transformando o conceito em um elemento provido de sentido.

Usar o caminho da memorização forçada ou da fixação pelo uso depende do que melhor for adequado a uma pessoa ou do contexto no qual ela está inserida, como o sistema de ensino, por exemplo.


terça-feira, 6 de maio de 2025

A descoberta do prazer (2003/2004)


Endereço curto: fishuk.cc/prazer

Vou começar uma fase em que estou “exumando” algumas redações e poesias da época de meu ensino médio (2003-2005), não meramente pra “encher linguiça” com trabalho de escola, mas porque são textos até que bem completos e revelam um pouco mais da “história de meu eu”, pra quem se interessa por ela. (E sabe que tem coisas com as quais até este quase quarentão fica impressionado?...) Quem me acompanha há muito, sabe que já publiquei coisas desses anos, e na verdade o material é volumoso, só não tendo ainda vindo a lume porque dei prioridade a outros projetos.

A primeira pérola é uma redação chamada “A descoberta do prazer”, que tendo sido corrigida por Silvano, então meu professor de Português, deve ser de 2003 ou, mais provavelmente, 2004, devido à desenvoltura com que discorri sobre o tema. Apesar do nome pomposo, trata-se de simples dissertação sobre o hábito de “ficar”, que ainda estava começando a se tornar comum entre os adolescentes e gerava arrepios em pais e pedagogos. Então, tratava-se apenas de beijo, mas como hoje há diversos significados, se é que esse termo ainda esteja em uso, me abstenho de outros comentários...

Como é de praxe em tal gênero, eu só descrevo e não julgo, mas um inquisidor moderno poderia atribuir à “doutrinação comunista” a presença dos muitos assuntos relativos a sexualidade, comportamento etc. Mesmo assim, certamente você vai rir do jeito erudito demais com que trato a questão, resultante, sobretudo, do fato principal que norteava então minha vida: eu mesmo ainda era “B.V.”, rs. (E curiosamente, a redação não tomou um tom de crítica, lamento ou testamento de ex-estudante prestes a cometer um tiroteio contra os coleguinhas!)

Embora o arquivo escaneado marque a nota dois, ela significou a nota máxima (veja que quase não há correções), pois as atividades de redação iam acumulando pontos até darem um máximo (acho que dez, obviamente), em algum momento, resultante da soma de outros textos. Não alterei o conteúdo, mas apenas atualizei a ortografia e troquei algumas expressões que, de fato, seriam erradas numa correção de nível avançado (como “em relação a” introduzindo um tópico e “onde” indicando conceitos).



Os últimos anos vivenciaram uma mudança do comportamento juvenil na questão das descobertas corporais interpessoais: a “ficação”, durante a qual dois adolescentes trocam beijos e carícias como se fossem namorados, mesmo que não se conheçam ou não mantenham laços amorosos. Hoje, essa prática, que se tornou tão comum entre os jovens, é objeto de estudo de psicólogos e outros especialistas, que tentam compreender a essência desse fenômeno.

Segundo os próprios garotos e garotas, “ficar” é apenas beijar sem compromisso, sem a necessidade de se estabelecer laços de união amorosos mais firmes e duradouros, um modo prazeroso de se conhecer uma pessoa antes da decisão pelo namoro, além de uma boa oportunidade de aprender a “arte do carinho” e adquirir experiências para futuramente dar uma boa impressão ao companheiro. Alguns jovens se aproveitam desse costume não só para conhecer alguém melhor, mas para adquirir prazer, chegando até mesmo a “ficar” com várias pessoas seguidas em, por exemplo, uma festa (“balada”); mas há outros bem conservadores que se abstêm do “beijar por beijar” e mantêm a convicção de que apenas o namoro é adequado para os atos da “ficação”, realizados após uma verdadeira atração entre o casal. Além disso, há as diferenças entre os mais diversos grupos de jovens com relação tanto às condições necessárias para a conquista, ao conceito de “ficar” e ao que acontece na hora do beijo, quanto à aceitação da pessoa dentro desse grupo, com embasamento em suas experiências amorosas: para alguns, uma pessoa “B.V.” (“boca virgem”, aquela que ainda não beijou) tem mais possibilidades de ser excluída, “isolada”.

Não faltam hipóteses para o surgimento do fenômeno da “ficação”. Uma delas seria a liberação sexual iniciada na década de 1960, que começou a divulgar no Ocidente ideias libertárias quanto a certos tabus antigos: divórcio, homossexualidade, escolha do(a) parceiro(a), uso de preservativos, sexo com finalidade de obter prazer etc.; a “ficação” seria mais um capítulo dessa liberação, ao dar a possibilidade dos jovens trocarem beijos sem compromisso. Pode-se ainda lembrar da chamada “banalização do sexo”, que está chegando ao ápice na atualidade, quando estão sendo quebrados os limites entre o erotismo e a pornografia, que se tornou a prática dominante: não se busca mais a beleza e o sentimento amoroso, que se tornou um “instrumento de opressão” para a sociedade capitalista, mas apenas o prazer, para serem aliviados alguns males da apressada vida moderna.

Qualquer que seja a hipótese, a “ficação” é um reflexo da simplicidade à qual chegou nossa sociedade, que hoje procura não mais se prender a padrões e a laços amorosos, mas descobrir as coisas boas da vida sem mergulhar em utopias sentimentais, sendo isso uma coisa boa ou ruim dependendo da pessoa e da cultura na qual ela está inserida.





segunda-feira, 5 de maio de 2025

Verbos ucranianos com significado


Endereço curto: fishuk.cc/verbos-ua


Infelizmente, tive de deixar o curso remoto de ucraniano oferecido pela Unicentro, PR, pra me dedicar a outros projetos mais prementes – inclusive esta página, como você pode ver, agora monetizada, rs. Gostei muito da professora, dos colegas e do material oferecido, parte do qual salvei pra mim mesmo e outra parte já publiquei aqui, incluindo uma canção contra a invasão ruSSa. Fiz também alguns resumos e recursos de consulta pra uso pessoal e coletivo, entre os quais esta lista de verbos com os aspectos imperfeito e (se fosse o caso) perfeito, mas sem a indicação de serem da primeira ou da segunda conjugação, como estava na lista original. Espero que, mesmo assim, ele seja útil pra quem estuda esta belíssima língua.

Esclarecimentos pra consulta:

  • Os acentos agudos indicando a sílaba tônica estão presentes pra fins meramente didáticos. Algumas formas verbais que aceitam dois acentos diferentes (mas não simultâneos!) estão marcadas com dois diacríticos.
  • Os verbos imperfeitos estão marcados com “imp.” e os verbos perfeitos, com “perf.”. Os verbos sem marcação devem ser considerados imperfeitos, quase todos não podendo ser perfeitos devido ao próprio significado.
  • Alguns verbos perfeitos não são o exato equivalente de seus pares imperfeitos em significado, mas podem indicar um matiz como “fazer por um tempo”, “começar/pôr-se a fazer” etc.
  • A marca “refl.” indica um significado exclusivo pra forma reflexiva, diferente daquela dando meramente um sentido realmente reflexivo à forma transitiva.
  • As principais irregularidades estão indicadas entre parênteses e em geral indicam o paradigma básico de como o resto do mesmo tempo deve ser conjugado. Os tempos em que isso se aplica estão separados por ponto-e-vírgula: no caso do presente imperfeito ou do futuro perfeito, indicam-se a primeira e a segunda pessoas do singular (excepcionalmente, a terceira do plural); no caso do passado, o masculino e o feminino singulares; e no caso do imperativo, somente a segunda pessoa do singular. A marcação “imper.” indica um imperativo a não ser confundido com um passado.
  • Os verbos marcados com “frequente, multidirecional” (que geralmente só têm a forma imperfeita) ou com “único, unidirecional” têm muito mais matizes do que apenas esses indicados e seu uso deve ser aprendido separadamente.


бажа́ти imp., побажа́ти perf. = desejar

ба́чити imp., поба́чити perf. = ver (chegar à vista)

бі́гати = correr (frequente, multidirecional)

бі́гти (біжу́, біжи́ш; біг, бі́гла) = correr (único, unidirecional)

бра́ти (беру́, бере́ш) imp., взя́ти (візьму́, ві́зьмеш) perf. = pegar, tomar

вари́ти imp., звари́ти perf. = cozinhar, ferver

вече́ряти imp., повече́ряти perf. = jantar

вибача́ти imp., ви́бачити perf. = desculpar

вимика́ти imp., ви́мкнути perf. = apagar, desligar

відві́дувати imp., відві́дати perf. = visitar, frequentar

відкрива́ти imp., відкри́ти (відкри́ю, відкри́єш) perf. = abrir

відповіда́ти imp., відпові́сти́ (відпові́м, відповіси́) perf. = responder

відпочива́ти imp., відпочи́ти (відпочи́ну, відпочи́неш) perf. = descansar

віта́ти imp., привіта́ти perf. = parabenizar, dar boas-vindas

вмивати(ся) imp., вми́ти(ся) (вми́ю, вми́єш) perf. = lavar(-se), refl. tomar banho

вмика́ти imp., ввімкну́ти perf. = acender, ligar

вмира́ти imp., вме́рти (вмру, вмреш) perf. = morrer

встава́ти imp., вста́ти (вста́ну, вста́неш) perf. = levantar-se

вчи́ти (вчу, вчиш) = estudar

говори́ти imp., сказа́ти (скажу́, ска́жеш) perf. = falar

готува́ти(ся) imp., приготува́ти(ся) perf. = preparar(-se), refl. cozinhar

гра́ти imp., зігра́ти perf. = tocar, brincar, jogar

гуля́ти imp., погуля́ти perf. = passear

дава́ти imp., да́ти (дам, даси́, даду́ть) perf. = dar

дарува́ти imp., подарува́ти perf. = doar, presentear, dar de presente

диви́тися imp., подиви́тися perf. = olhar (seguir ou mirar com a vista)

друкува́ти imp., надрукува́ти perf. = imprimir, digitar

жи́ти (живу́, живе́ш) = viver, morar, habitar

забува́ти imp., забу́ти (забу́ду, забу́деш) perf. = esquecer

займа́ти(ся) imp., зайня́ти(ся) (займу́, займе́ш) perf. = ocupar(-se de), refl. lidar com, estudar

закі́нчувати(ся) imp., закі́нчи́ти(ся) (закі́нчу́, зкі́нчи́ш) perf. = terminar, expirar, resultar (em)

замовля́ти imp., замо́вити perf. = pedir, reservar, encomendar

запо́внювати imp., запо́внити perf. = encher

запро́шувати imp., запроси́ти (запрошу́, запро́сиш) perf. = convidar

заробля́ти imp., зароби́ти (зароблю́, заро́биш) perf. = lucrar, ganhar

зачиня́ти imp., зачини́ти (зачиню́, зачи́ниш) perf. = fechar

зна́ти imp., зазна́ти perf. = saber, conhecer

іти́ (іду́, іде́ш; ішо́в, ішла́) imp., піти́ (піду́, пі́деш) perf. = ir ou vir a pé/andando (único, unidirecional)

ї́здити (ї́жджу, ї́здиш) = ir ou vir de veículo (frequente, multidirecional)

ї́хати (ї́ду, ї́деш; їдь) imp., пої́хати perf. = ir ou vir de veículo (único, unidirecional)

каза́ти imp., сказа́ти perf. = dizer

кла́сти (кладу́, кладе́ш; клав, кла́ла) imp., покла́сти perf. = colocar deitado

ко́штува́ти = custar, ter um preço

купува́ти imp., купи́ти (куплю́, ку́пиш) perf. = comprar

лежа́ти (лежу́, лежи́ш) = estar deitado

леті́ти (лечу́, лети́ш) imp., полеті́ти perf. = voar ou andar de avião (único, unidirecional)

лікува́ти = tratar, curar, medicar

літа́ти = voar ou andar de avião (frequente, multidirecional)

люби́ти (люблю́, лю́биш) = amar, gostar de

малюва́ти imp., помалюва́ти/намалюва́ти perf. = pintar, desenhar

ми́ти (ми́ю, ми́єш) imp., поми́ти perf. = lavar, limpar (pessoas)

назива́ти(ся) imp., назва́ти(ся) (наз(о)ву́, наз(о)ве́ш) perf. = chamar(-se), refl. ter por nome

не́сти (несу́, несе́ш; ніс, несла́) imp., поне́сти perf. = vestir/levar no corpo, levar ou trazer algo a pé (único, unidirecional)

носи́ти (носу́, но́сиш) imp., поноси́ти perf. = vestir/levar no corpo, levar ou trazer algo a pé (frequente, multidirecional)

обі́дати imp., пообі́дати perf. = almoçar

одру́жувати(ся) imp., одружи́ти(ся) (одружу́, одру́жиш) perf. = casar(-se)

одяга́ти(ся) imp., одягти́(ся) /одягну́ти(ся) (одягну́, одя́гнеш; одя́г, одягла́) perf. = vestir(-se)

опи́сувати imp., описа́ти (опишу́, опи́шеш) perf. = descrever

переклада́ти imp., перекла́сти (перекладу́, перекладе́ш; перекла́в, перекла́ла) perf. = traduzir

писа́ти (пишу́, пи́шеш) imp., написа́ти perf. = escrever

пита́ти imp., спита́ти perf. = perguntar

пи́ти (п’ю, п’єш) imp., ви́пити/попи́ти perf. = beber

пла́вати imp., попла́вати perf. = nadar, navegar, flutuar (frequente, multidirecional)

плати́ти (плачу́, пла́тиш) imp., заплати́ти perf. = pagar

пливти́/плисти́ (пливу́, пливе́ш; плив, плила́; пливи́) imp., поплисти́ perf. = nadar, navegar, flutuar (único, unidirecional)

поверта́ти(ся) imp., поверну́ти(ся) (поверну́, пове́рнеш) perf. = virar(-se), devolver, refl. voltar, retornar

подорожува́ти = viajar

почина́ти imp., поча́ти (почну́, почне́ш) perf. = começar, iniciar

почува́ти(ся) = sentir(-se), refl. ser sentido

поя́снювати imp., поясни́ти (поясню́, поя́сниш) perf. = explicar

пра́ти (перу́, пере́ш; пери́) imp., ви́прати perf. = lavar roupas

працюва́ти = trabalhar

прибира́ти imp., прибра́ти (приберу́, прибере́ш; прибери́) perf. = arrumar, limpar, faxinar, decorar

продава́ти imp., прода́ти (прода́м, продаси́, продаду́ть) perf. = vender

рахува́ти imp., порахува́ти perf. = calcular, contar

роби́ти (роблю́, ро́биш) imp., зроби́ти perf. = fazer

розмовля́ти = conversar

розповіда́ти imp., порозповіда́ти perf. = contar, narrar

розумі́ти imp., зрозумі́ти perf. = entender, compreender

святкува́ти imp., відсвяткува́ти perf. = celebrar, comemorar, festejar

сиді́ти (сиджу́, сиди́ш) = estar ou ficar sentado

слу́хати imp., послу́хати perf. = escutar (seguir com a audição)

смія́тися (смію́ся, сміє́шся; смі́йся) imp., засмія́тися/розсмія́тися perf. = rir, dar risada

сні́дати imp., посні́дати perf. = tomar café da manhã

спа́ти (сплю, спиш; спи) imp., поспа́ти perf. = dormir

співа́ти imp., поспіва́ти perf. = cantar

ста́вити (ста́влю, ста́виш; imper. став) imp., поста́вити perf. = colocar de/em pé

стоя́ти (стою́, стої́ш; стій) = estar ou ficar de pé

танцюва́ти = dançar

фотографува́ти imp., сфотографува́ти perf. = fotografar, tirar fotos

ходи́ти (ходжу́, хо́диш) = ir ou vir a pé/andando (frequente, multidirecional)

хоті́ти (хо́чу, хо́чеш; хоти́) = querer

ціка́вити(ся) (ціка́влю, ціка́виш; imper. ціка́в) = interessar(-se)

цілува́ти(ся) imp., поцілува́ти(ся) perf. = beijar(-se), refl. beijar um ao outro

чека́ти imp., почека́ти/зачека́ти perf. = esperar, aguardar

чи́стити (чи́щу, чи́стиш; чисть) imp., почи́стити perf. = limpar

чита́ти imp., прочита́ти perf. = ler

чу́ти imp., почу́ти perf. = ouvir (chegar à audição), sentir, cheirar

шука́ти imp., нашука́ти perf. = procurar, buscar



domingo, 4 de maio de 2025

A parte que me falta – contada por Jacques Lacan


Endereço curto: fishuk.cc/parte-lacan

Conheci o psicólogo paraibano Gustavo Firmino Costa, natural da e residente na cidade de Patos, em outubro de 2018, quando criei um grupo de WhatsApp pros fãs de meu antigo canal Pan-Eslavo Brasil e ele, enquanto admirador da cultura russa e da história do século 20, resolveu entrar. Das várias pessoas que conheci lá, e daquelas com quem mantive algum contato, ele foi um dos poucos com quem teci uma amizade e continuei trocando ideias e materiais, mesmo após eu ter abandonado a ideia do grupo, em meados de 2020.

Justificam essa ligação sua escrita impecável e suas reflexões rigorosas, das quais serve de prova seu blog “Psi da Massa” e cujo artigo mais recente (“A parte que me falta – contada por Jacques Lacan”) ele me autorizou a publicar aqui. De fato, embora ele tenha ficado honrado com o convite, não sei o quanto posso ajudar a divulgar e viralizar seu trabalho – mas você pode! Além disso, o texto também foi publicado num portal de Patos do qual Gustavo é colunista, mas pra fazer seu esforço decolar, recomendo que prefiram visitar seu blog pessoal!



Muitos leitores já devem conhecer o livro A parte que me falta, de Shel Silverstein. Uma bela história alegórica sobre não precisarmos preencher nossos vazios com partes que não nos pertencem. A trama apresenta uma esfera com uma parte faltante, que sai pelo mundo buscando sua completude. Ao longo da jornada, vive aventuras, conhece outros seres e constrói um caminho cheio de significado. Até que encontra a peça que a completa perfeitamente. Só então percebe que, ao girar rápido demais, já não consegue mais aproveitar as belezas e amizades que antes tanto lhe alegravam. A esfera descobre que era mais feliz enquanto buscava, enquanto lhe faltava algo.

Ao refletir sobre essa história, não pude deixar de lembrar do conceito de sujeito em Jacques Lacan. Para Lacan, o sujeito não é uno e completo em si mesmo. Ele é construído por eventos, vivências, grupos sociais, significantes. É, essencialmente, faltante: a falta é o motor do desejo. Nosso vazio, essa sensação constante de incompletude, é o que nos move. E, muitas vezes, ao conquistar aquilo que achávamos nos faltar, o vazio permanece – como na história da esfera.

Lacan se opôs ao pensamento psiquiátrico dominante de sua época, que via o sujeito como um ser completo e estático. Para ele, somos “faltantes”, “desejantes”, moldados pela linguagem, forjados pela instabilidade e pelas infinitas possibilidades de ser. A normalidade, para Lacan, não existe – é apenas uma construção social que tenta catalogar e limitar aquilo que, por natureza, é imprevisível e plural: a existência humana.

Assim como a esfera de Silverstein, Lacan nos ensina que viver é aceitar a incompletude, a instabilidade, a abertura ao novo. Que a vida acontece no movimento, no desejo, na conexão, não na perfeição ou em padrões impostos. A completude não está em ser perfeito, mas em se permitir ser – em experiências, em encontros, em humanidade.

O normal é só uma categoria. A verdadeira completude está naquilo que te faz sentir vivo.



sábado, 3 de maio de 2025

Vladimir Kara-Mourza (RFI, 14/4/2025)

Le matin du 14 avril 2025, le politicien et historien russe Vladimir Kara-Mourza a concédé une interview à la Radio France Internationale (RFI) pour parler de son opposition à la dictature de Vladimir Poutine, sa prison en Russie et sa vie dans l’exil. Ci-dessus on peut regarder l’intégralité de son entretien avec Arnaud Pontus sur la chaine officielle, mais j’ai trouvé son contenu si important que j’ai décidé, même sans autorisation, d’en publier la transcription.

J’ai utilisé le logiciel Microsoft Clipchamp pour Windows 11 à fin d’extraire de la vidéo une première version des sous-titres par IA, après j’ai confronté le résultat avec l’audio et enfin j’ai finalisé la rédaction finale du texte. Kara-Mourza parle couramment le français, mais j’ai dû supprimer les traits les plus répétitifs d’oralité et corriger la grammaire. Comme le français n’est pas aussi ma langue maternelle, mon travail peut ne pas être parfait, mais j’espère avoir fait une contribution à ceux qui étudient « la langue de Molière » ou qui, par n’importe quelle raison, préfèrent avoir le texte écrit :


Bonjour, Vladimir Kara-Mourza !

Bonjour, merci beaucoup pour l’invitation.

Merci à vous d’être sur RFI aujourd’hui. Il y a trois ans, en avril 2022, vous avez été arrêté puis condamné à 25 ans de prison pour haute trahison. La justice russe vous reprochait d’avoir critiqué l’invasion de l’Ukraine. Vous avez été libéré en aout dernier lors du plus grand échange de prisonniers avec l’Ouest depuis la fin de la guerre froide. Comment allez-vous aujourd’hui, huit mois après votre libération ?

Ça me semble parfois encore que je regarde un film, parce que, à dire la vérité, j’étais absolument sûr que j’allais mourir dans cette prison en Sibérie. Cet échange en aout dernier, c’était un miracle, et en fait c’était le premier échange depuis 1986, qui a libéré non seulement les otages, les citoyens occidentaux qui étaient dans les prisons russes, mais aussi les prisonniers politiques russes. Et ça, pour moi, c’était un message très important, très clair et très fort des pays occidentaux, surtout les États-Unis et l’Allemagne. Et le signal était qu’ils comprennent très bien que les vrais criminels sont au Kremlin. Ce sont les gens qui ont commencé la guerre en Ukraine. Ce n’était pas nous qui étions en prison, parce qu’on nous avait exprimé contre cette guerre. Et c’était aussi un message très fort de solidarité de la part des pays occidentaux avec tous ces gens en Russie. Il y a des millions de gens en Russie aujourd’hui qui sont contre cette guerre, qui sont contre le régime autoritaire de Vladimir Poutine et c’est très important que le monde libre s’est exprimé comme ça

Aujourd’hui, Vladimir Kara-Mourza, la guerre continue en Ukraine. Les discussions pour un cessez-le-feu n’ont toujours pas abouti. Est-ce que vous le souhaitez, ce cessez-le-feu ?

Je veux que cette guerre se termine le plus vite possible, parce qu’il y a déjà des centaines de milliers de vies humaines qui sont perdues à cause de cette agression, à cause de cette guerre criminelle menée par le régime autoritaire de Vladimir Poutine.

Mais pour que la guerre s’arrête, il faut que Poutine le veuille. Est-ce que Vladimir Poutine veut la paix ?

Non, bien sûr qu’il ne veut pas la paix. Et il faut dire que vous avez utilisé la phrase « cessez-le-feu », ça c’est absolument correct. On ne peut pas dire « la paix », parce qu’il n’y aura pas de paix pendant que Vladimir Poutine reste au pouvoir.

C’est à dire, il ne peut pas y avoir de paix totale et véritable tant que Vladimir Poutine est au pouvoir ?

À long terme, la seule façon d’assurer la paix, la stabilité et la sécurité sur le continent européen, à long terme, c’est d’avoir une Russie démocratique, une Russie qui va respecter les lois, les droits et les libertés de nos propres citoyens, et aussi qui va respecter les frontières de ses voisins et les normes du comportement civilisé dans le monde. Parce qu’en Russie, la répression à l’intérieur et l’agression à l’extérieur vont toujours ensemble, donc il n’y aura pas de paix pendant que Poutine reste au pouvoir. Mais le cessez-le-feu est possible.

Alors, vous dites aussi que tout accord de cessez-le-feu doit prévoir la libération de tous les prisonniers de guerre.

Absolument ça. Pour moi, ça c’est le plus important, parce que pour l’instant on voit ces négociations entre les représentants de l’administration Trump aux États-Unis et le régime de Poutine en Russie. Et ils parlent de minéraux, ils parlent du retour des compagnies américaines en Russie, ils parlent des avoirs gelés, je ne sais pas de quoi, ils parlent tout le temps d’argent. Et en fait, les deux envoyés, Monsieur Witkoff du côté américaine et Monsieur Dmitriev du côté russe, ce sont des gens qui ont dédié leurs vies à l’argent, n’ont rien à faire avec la diplomatie. Et donc, pour ça c’est même plus important que l’Europe, l’Union européenne pose cette question, comme vous avez dit, de la libération de tous les otages, de tous les captifs de cette guerre. Parce qu’il y a des centaines de milliers de vies humaines qui ont été déjà perdues et on ne peut pas les faire retourner. Mais c’est possible encore de sauver les dizaines de milliers de vies humaines, des gens qui sont des otages et des captifs de cette guerre. Je parle, bien sûr, des prisonniers de guerre des deux côtés, mais ça c’est prévu par la 3e Convention de Genève, donc ça c’est hors question. Je parle aussi des milliers d’otages civils ukrainiens qui ont été forcément déportés en Russie

Notamment les enfants.

Je parle aussi des milliers d’enfants ukrainiens qui ont été kidnappés. En fait, si on dit la vérité en Russie ou dans les territoires occupés par la Russie et, ça c’est très important, je parle aussi des prisonniers politiques russes, les citoyens russes, mes concitoyens qui sont en prison aujourd’hui parce qu’ils se sont exprimés contre cette guerre d’agression, ce qui est arrivé à moi. Mais maintenant, pendant qu’on parle avec vous, il y a, selon les organisations de défense des droits humains, il y a plus de 1 500 prisonniers politiques en Russie. La catégorie la plus nombreuse parmi eux, ce sont les Russes qui se sont exprimés contre cette guerre criminelle. Et pour beaucoup d’entre eux, comme par exemple Alexeï Gorinov ou Maria Ponomarenko et beaucoup d’autres, ce n’est pas seulement une question de captivité, ce n’est pas seulement une question d’emprisonnement illégal, mais c’est aussi une question de vie ou mort, et il faut sauver ces gens-là.

Vladimir Kara-Mourza, vous nous dites, les émissaires russes et américains ne parlent que d’argent. Est-ce que la méthode qu’applique le président Trump vous semble être la bonne ? Est-ce que vous comprenez cette logique ?

Je crois que la politique de l’administration actuelle des États-Unis est honteuse, elle est complètement contre-productive, parce qu’en fait c’est une politique de rapprochement, de normalisation des relations avec Vladimir Poutine. Et je voudrais rappeler à tout le monde que Vladimir Poutine, d’abord, il n’est pas un président légitime. Il reste au pouvoir depuis 25 ans, même s’il y a une limite constitutionnelle en Russie de deux termes, il a trouvé des trucs pseudo-légales pour contourner cette limite constitutionnelle. Et il faut rappeler aussi que l’année dernière, en 2024, le Parlement européen et l’Assemblée parlementaire du Conseil de l’Europe ont passé des résolutions reconnaissant Vladimir Poutine pour ce qu’il est : un usurpateur illégitime. Mais il est plus que ça. Il est aussi un assassin. Il est un meurtrier. Parce que c’est sous son commandement que les deux chefs principaux de l’opposition démocratique russe, Boris Nemtsov et Alexeï Navalny, ont été assassinés. C’est sous son commandement qu’il y a des gens qui meurent chaque jour en Ukraine, y compris des enfants récemment à la ville de Krivoï Rog [ukr. Kryvy Rih]. Pendant tous les 25 ans que Vladimir Poutine reste au pouvoir, il tue, il tue, il tue, il tue, il tue à l’intérieur de la Russie, il tue en dehors de la Russie. Et c’est important de rappeler tous ces dirigeants occidentaux, surtout américains, qui veulent normaliser les relations avec Vladimir Poutine, qui veulent rendre cette légitimité à Vladimir Poutine qu’il ne mérite pas et qui veulent encore une fois serrer la main de Vladimir Poutine, c’est important de les rappeler que c’est une main couverte de sang.

Vous craignez que, dans le sillage de Donald Trump, certains considèrent que Vladimir Poutine est redevenu fréquentable ?

Mais on le voit. Si on regarde ce que Monsieur Trump a fait dans ces derniers deux mois, depuis qu’il est retourné à la Maison Blanche. Il a invité Vladimir Poutine à rejoindre le G8. L’Amérique a voté à l’ONU contre l’Ukraine, avec la Russie, avec la Biélorussie, avec la Corée du Nord. Comme on se souvient, les États-Unis ont suspendu l’aide, l’assistance militaire à l’Ukraine, ce qui a causé des centaines de morts en Ukraine. Et puis on voit aussi, si on parle des actions pratiques, l’administration Trump a totalement détruit l’infrastructure internationale de l’assistance pour la démocratie et les droits humains. Et maintenant l’administration Trump est en train de détruire le système des médias américains qui diffusait l’information objective non seulement pour les Russes, mais aussi pour des Cubains, pour des Iraniens, pour des Chinois, pour des millions et des millions de gens autour du monde qui vivent actuellement sous des régimes autoritaires.

Vous le disiez tout à l’heure, l’objectif, votre objectif, c’est d’arriver à une Russie démocratique. Dans une société qui est aussi verrouillée que la Russie aujourd’hui, avec une propagande qui est omniprésente, comment est-ce que l’opposition peut diffuser son message ?

En fait, pour moi, l’une des raisons principales de la chute du régime communiste était le fait que ce régime, au début des années 90, avait déjà été délégitimisé aux yeux d’une large partie de la population grâce aux programmes de radio qui étaient diffusés par les pays occidentaux et qui étaient écoutés par des millions et des millions de gens en Union soviétique et dans d’autres pays communistes. Et en fait, c’étaient les mêmes gens qui écoutaient, disons, à la Radio Liberté dans les années 70 qui sont allés aux barricades en aout 1991 pendant notre révolution démocratique en Russie. Si c’était possible de faire ça avec les technologies des 1970, c’est surement possible de le faire maintenant. Maintenant il y a l’internet. Oui, il y a une grande censure de l’internet sous le régime de Poutine, mais il y a des VPN, il y a d’autres moyens pour contourner cette censure. Le problème, c’est qu’on voit très souvent que l’Occident, les entreprises occidentales et les gouvernements occidentaux, au lieu d’aider les citoyens russes à avoir cette vérité, à avoir cette information objective, on voit les compagnies occidentales aider le régime de Poutine à censurer cette information, par exemple...

Sont complices, en fait.

Absolument, elles sont complices. Dans quelques derniers mois, par exemple, la très connue compagnie américaine Apple a enlevé plus de 50 systèmes de VPN, le système qui aide les gens à contourner la censure, à la demande du régime de Poutine. Ce n’était pas le régime de Poutine qui l’a fait, c’était Apple. Et comme je viens de vous dire, maintenant l’administration Trump est en train de détruire le système des médias internationaux. Et il y a quelques jours, la cheffe de la chaine principale de propagande russe Russia Today, Margarita Simonian, était sur la télé très heureuse des actions de l’administration américaine. Elle a dit que nous, malheureusement, nous n’avons jamais pu en finir avec ces médias. Mais maintenant, c’est les États-Unis d’Amérique qui le font eux-mêmes.

Ils le font. Où est l’alternative démocratique en Russie, Vladimir Kara-Mourza ?

Il y a des millions et des millions de gens en Russie qui sont contre cette guerre, qui sont contre ce régime, qui veulent que la Russie soit un pays normal, civilisé, européen, démocratique. On a vu par exemple, l’année dernière, pendant le théâtre qu’étaient nos « élections présidentielles », entre guillemets. Quand c’était...

Mascarade, vous voulez dire, c’était du cinéma ?

Enfin, c’était juste Poutine et quelques clowns qu’il avait sélectionnés. Mais, en même temps, il y avait un candidat, un avocat, un ex-député du Parlement russe, il s’appelle Boris Nadejdine, qui a annoncé sa candidature à la présidence russe comme un candidat anti-guerre. Il a dit qu’il était contre la guerre en Ukraine. Et la réaction publique était complètement incroyable. Tout d’un coup, on a vu partout en Russie les files d’attente, les queues énormes, des gens qui voulaient signer les pétitions pour faire registrer ce candidat. J’étais en prison à l’époque et je recevais beaucoup de lettres de toute la Russie et presque chaque lettre était à propos de ces queues énormes, des gens qui votaient avec leurs pieds, si vous voulez, pour le candidat anti-guerre. Parce que la propagande poutinienne veut que tout le monde croie que tous les Russes soutiennent la guerre, tous les Russes soutiennent le régime. Mais vous savez qu’ils peuvent falsifier les élections, ce qu’ils font, ils peuvent falsifier les sondages, ce qu’ils font. Mais il n’y a rien qu’ils puissent faire avec les images des milliers et des milliers de gens partout en Russie qui croient en un avenir démocratique et paisible.

Donc il y a une soif démocratique en Russie et au-delà ?

Il y a beaucoup de gens qui veulent des changements. Il y a beaucoup de gens qui veulent que ce régime finalement perde le pouvoir. Et j’ai aucun doute, non seulement comme un homme politique, mais surtout aussi comme un historien, que le jour viendra quand la Russie sera un pays normal, civilisé et démocratique, et ce jour-là, on pourra finalement avoir une Europe qui sera libre, entière et en paix.

Vladimir Kara-Mourza, je le disais au début de l’entretien, vous avez été libéré en aout dernier après avoir passé deux ans et trois mois en prison. Comment avez-vous fait pour tenir tout ce temps, dont 11 mois à l’isolement ?

Absolument. En fait, selon la loi internationale, l’isolement de plus de 15 jours est officiellement considéré comme une forme de torture. Et je n’avais jamais compris pourquoi, mais maintenant je comprends très bien, parce que, quand tu restes tout le temps dans cette petite cellule, quatre murs, une petite fenêtre avec des barreaux métalliques, tu es seul tout le temps. Tu ne peux pas parler à personne, tu ne parlais nulle part. Tu ne peux rien faire, parce que, par exemple, même pour écrire, ils te donnent papier et stylo seulement pour une heure et demie pendant chaque jour, puis ils te les prennent. Et aussi, c’était interdit pour moi d’appeler à ma femme, d’appeler à mes enfants, je ne pouvais pas les contacter par téléphone. Ça, c’est une vieille pratique soviétique : quand le régime veut punir non seulement les opposants politiques, mais aussi leurs familles. Et c’est... je vais être honnête avec vous, c’est très difficile, dans des circonstances comme ça, de garder la tête. Il est très important de remplir la tête avec quelque chose d’important, de remplir le cerveau, si vous voulez, remplir le temps aussi. Et donc, moi, j’apprenais l’espagnol, j’avais un livre que je lisais tout le temps, du matin au soir, j’apprenais l’espagnol. Et évidemment je ne pensais jamais que j’allais l’utiliser, parce que, comme j’ai déjà dit, je ne croyais pas que je vais sortir. Mais après ce miracle de cet échange, l’année dernière, il y a quelques semaines, j’étais à Madrid pour des rencontres, pour des réunions avec des députés espagnols. Je pouvais pratiquer et apparemment maintenant je peux parler l’espagnol.

Donc aussi parler espagnol ?

Oui, même le temps en prison peut être utilisé pour quelque chose pratique.

À quoi ressemble votre vie aujourd’hui ? C’est celle d’un exilé ? Est-ce que vous vous sentez libre ?

Je me sentais libre même en prison, parce que je restais toujours avec mes convictions, je restais toujours avec mes principes. Ils peuvent te mettre en prison physiquement, mais ils ne peuvent pas arrêter ton esprit. Et maintenant, c’est un peu fou, parce que le problème, c’est que je n’ai vraiment pas eu de transition entre l’isolement dans une prison sibérienne et la vie de maintenant, quand je suis, je ne sais pas, dans quatre ou cinq pays différents chaque semaine, c’est un peu fou, à dire la vérité. Mais il y a tellement de choses à faire, il y a tellement de problèmes à discuter, parce que, comme j’ai déjà dit, il y a plus de 1 500 prisonniers politiques en Russie et pour beaucoup d’eux, c’est la question de survivre littéralement. Et il faut faire tout ce qu’on peut pour libérer ces gens-là dont le seul « crime », entre guillemets, c’est le fait qu’ils ne sont pas restés silencieux en face des atrocités commises par le régime de Vladimir Poutine.

Et est-ce que vous vous sentez menacé, observé, tout en étant en dehors de la Russie ?

Je n’y pense pas, parce que c’est une route vers la paranoïa, et ce n’est pas la route que je veux prendre. Je sais que j’ai raison, je sais que ce que je fais est correct et je sais que je suis du bon côté de l’histoire. Je sais aussi que ce que font nos collègues dans l’opposition démocratique russe, c’est important et je vais continuer à le faire malgré tout.

Merci beaucoup, Vladimir Kara-Mourza, d’être venu sur RFI.

Merci à vous, c’est un plaisir.

Et bonne journée.



sexta-feira, 2 de maio de 2025

Igreja Católica Apostólica Brasileira


Endereço curto: fishuk.cc/icab-papa

Poucos sabem, mas a Terra de Santa Cruz engendrou em 1945 um “cisma” do papado romano, chamado “Igreja Católica Apostólica Brasileira” (ICAB). Ela foi obra de um bispo de esquerda, que achava o Vaticano muito reacionário e (que novidade!) criticava sua intransigência em ignorar nossa realidade. Roteiro conhecido, ele foi excomungado e “virou santo” após falecer, mas curiosamente a ICAB não tem cardeais, como a “ICAR”, e sim um conselho superior de bispos que preside a denominação. Há poucas diferenças nos rituais e ornamentos em relação a Roma, cujo “bispo” eles não chamam de papa e cuja autoridade eles (óbvio, né?) não reconhecem, mas sua presença já se estende pra fora de nossas fronteiras. Uma busca rápida na zinternetx dá várias referências em sites e redes sociais.

Queria destacar apenas esta matéria do Diário do Grande ABC, datada de 10 de março de 2013, exatamente perto da posse do agora finado Jorge Bergoglio, passado à história como Papa Francisco. Focado numa paróquia em Santo André, o artigo já dá bastantes informações básicas sobre a história e a doutrina, suficientes pra uma apresentação rápida. Dois de seus maiores “atrativos” saltam aos olhos: a abolição do celibato sacerdotal e o casamento religioso de divorciados, o que pra um descrente como eu é algo absolutamente irrelevante. Outro “atrativo” é o batismo de filhos de mães solo ou de casais não unidos no papel, embora ele nunca tivesse sido negado, até onde eu saiba, pelos católicos, e que o próprio Francisco tenha mesmo estimulado essa prática, criticando quem a rejeita e citando a necessidade de “não negar sacramentos a quem deseja” e “acolher pessoas já excluídas em outros âmbitos”. Importante: essa página está marcada como “Doutrina da Fé”, ou seja, praticamente o Tribunal da Inquisição!

Se essa proibição pelo menos era “tácita”, isto é, padrecos recalcados que recusavam tais batismos, ela em todo caso ficou na mentalidade do povo, que sempre achou que era impossível batizar seus filhos “não planejados” ou “de pais solteiros”. Meus próprios pais não eram casados e, salvo engano, a Paróquia de Santa Luzia em Guarulhos, SP, onde minha mãe e meus padrinhos me batizaram, era da ICAB, informação que não consegui confirmar por meio de buscas no Google. Inclusive, contatei no Instagram o perfil oficial da igreja e alguns padres que se reivindicam dela pra obter alguma confirmação a respeito, mas jamais obtive retorno. Seja como for, pra todos os efeitos fui católico romano depois, em Bragança Paulista: primeira comunhão, eucaristia e outras formalidades (não sou crismado) jamais negadas, e talvez até pudesse casar “de véu e grinalda” (o que jamais pretendo, aliás, rs) sem levantar suspeitas. Como sempre diz minha mãe: “É tudo a mesma coisa, o que importa é a fé da gente...”

Uns meses atrás, cheguei a ler coisas sobre a ICAB na rede, mas fiquei particularmente pensando sobre como reagiram à passagem do argentino a quem chamam simplesmente “bispo de Roma”. Você sabe que está página sebenta é feita por curiosos, pra curiosos, portanto, a xeretagem daquela histórica segunda-feira me trouxe até esta publicação no perfil pessoal do Facebook pertencente a Dom Antonio Rodrigues, que se descreve como “bispo diocesano de Barra de São João, RJ, da Igreja Católica Apostólica Brasileira”.

Mesmo sem autorização, achei interessante a republicar aqui, pois levanta muitas inquietações que perpassaram o próprio papado de Bergoglio e ainda coligam os progressistas. Descontada a redação por vezes sofrível, que corrigi enquanto tentava mexer o menos possível no original, segue a íntegra do “textão”, mais três comentários de contatos, igualmente revisados, que achei representarem as tendências mais visíveis na atualidade:


NASCEU PARA A VIDA ETERNA O BISPO DE ROMA, PAPA PARA OS SEUS

O Bispo de Roma, Francisco se destacou em muitos campos: sociais, políticos, ambientais, doutrinários e ecumênicos.

Quero frisar o último tema: ecumenismo; este foi o Papa que, enquanto chefe de sua instituição, mais se destacou na busca do diálogo, sobretudo com as grandes religiões, de forma destacada com o islamismo [sic]. Não é surpreendente que tenha sido com o islamismo, afinal, este é o grupo religioso que mais entraves [sic] tem com os cristãos mundo afora e impõe muitas perseguições nos mais diversos países onde são maioria. Nestes locais, os cristãos e parte destes católicos romanos sofrem muito, portanto, a [há?] política necessária de um diálogo, pois sendo minoria, há que ser mais humilde...

No entanto, é lamentável que nos países em que são maioria, como no Brasil, [em] todo clero romano, desde o episcopado até os diáconos, COM RARÍSSIMAS EXCEÇÕES, as práticas e discursos ecumênicos apregoados pelo agora falecido Papa são apenas LETRAS VERBORRÁGICAS.

No Brasil, o clero romano, em sua maioria, é alheio ao ecumenismo, muitos são medievais em seus pensamentos, outros se travestem de ecumênicos, sobretudo, nos organismos como o CONIC [Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil], onde exercem poder, tal como o poder exercido este ano para vetar a entrada da ICAB, dizendo que se a ICAB fosse aceita, eles sairiam. Resultado? O CONIC cedeu à pressão, afinal, os romanos provêm a maior cota financeira de manutenção daquela instituição.

A mentira do diálogo no Brasil é vergonhosamente visível. A tal semana de oração pelos cristãos em muitas, mas muitas paróquias no Brasil, nem acontece.

Lamentavelmente a mensagem deste papa não pegou no clero romano. Existem amizades pessoais entre clero romano e clero nacional, mas algo quase ao estilo das catacumbas, pois o medo de uma relação pública e a possível punição por esta amizade amedrontam o baixo clero romano. Deus sabe que a mensagem ecumênica deste papa NÃO CHEGOU AO BRASIL, pelo menos com as igrejas de tradição católica ou ortodoxas independentes. E onde chegou, com as igrejas chamadas canônicas e protestantes tradicionais, não passa de verdadeiro teatro, pois lá na base, nos seminários, o ecumenismo NÃO É ENSINADO E MUITO MENOS VIVIDO.

Enquanto Bispo católico brasileiro, lastimo a morte deste homem, que sim, muito lutou para que a “cara” romana mudasse, mas não mudou. Rezaremos, sim, por sua alma, embora para os romanos nossa oração não tenha validade alguma. Ainda assim, vamos oferecer nossas orações, com a sincera esperança de que Deus o tenha em sua guarda e proveja à igreja de Roma um novo Papa verdadeiramente católico e sobretudo com horizontes de unidade sem opressão e que tenha coragem de IMPOR o ecumenismo verdadeiro, sem medo de disciplinar os que apenas fazem teatros ecumênicos.

A análise dura, não é sobre quem tentou ser coerente, mas sobre quem acena sim com a cabeça, mas vira as costas e age como se nada tivesse ouvido.

Nesta diocese de Barra de São João – RJ celebraremos, junto da Missa de São Jorge no próximo dia 23/04, por seu descanso eterno.


+Dom Antonio Duarte Santos Rodrigues
Diocesano de Barra de São João RJ.


Padre Wagner Neto: Se no Brasil o senhor acha que o clero romano parou na Idade Média, no que tange ecumenismo, cá na Europa, Portugal e Espanha, eles estão nas cruzadas contra os hereges e, atenção, TODOS que estão fora da Igreja Católica são considerados SEITAS HERÉTICAS... O ecumenismo que Francisco pregoava simplesmente foi distorcido por caras e bocas tortas da maioria do clero romano... Não esqueças que na JMJ [Jornada Mundial da Juventude] DE LISBOA, o finado Papa citou que a Igreja deveria acolher TODOS 102 VEZES... daí pergunto-vos: onde está este acolhimento? No vazio do limbo, infelizmente...

Padre Luiz Bergara (Ortodoxia de Rito Ocidental): Excelência, bom dia. Peço a vossa benção e Deus o abençoe. Retirei a minha marcação de sua publicação. O Sr. Jorge Mario Bergoglio foi um dos maiores promotores do relativismo, do sincretismo religioso e do falso ecumenismo, ou seja, de uma religião totalmente estranha aos tempos apostólicos. Do ponto de vista administrativo, os próprios Sacerdotes Romanos dizem da confusão que foi feita por ele. Enquanto homem, esperamos que ele tenha tido tempo do arrependimento dos seus atos e da conversão sincera, pois enquanto há vida há esperança e sempre devemos lutar pela salvação das almas.

Marlon Misko: Pois é, hoje é um dia de ver e ler muita hipocrisia de católicos romanos sobretudo, que desejavam o mal e a morte do Papa, que o chamavam de comunista por seguir o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, que esnobavam, enfim, desde grande homem e Papa Francisco. Hoje lastimam e se fazem de comovidos por sua morte, escrevem longos textos e tudo mais, não são nem um terço ecumênicos, as palavras de Francisco entravam num ouvido e saiam pelo outro, como diz o ditado popular. Enfim, Deus conhece o coração de todos!!! Que o bom Deus o receba em seu Reino Eterno!


Muitos acharam esta montagem de mau gosto, porque pensavam que se estava zoando com a morte do papa, rs. Mas na verdade, ela representa muitos mais a aura tóxica do atual vice-presidente dos EUA, que se diz “católico conservador”, embora seu embarque no trumpismo após críticas virulentas revele bem sobre o caráter do sujeito...


quinta-feira, 1 de maio de 2025

Traidor, pilantra, ateu e maconheiro


Endereço curto: fishuk.cc/fhc-ateu


Você consegue dizer na lata quais foram os presidentes ateus ou não religiosos que o Brasil já teve? Bem, isso é muito complicado, pois a espiritualidade devia ser tratada como um assunto íntimo, e a adesão a uma religião não significa necessariamente aceitação de todos os seus dogmas ou a imunidade ao ecletismo tão típico de nossas terras. Porém, segundo o que consegui pesquisar na internet, tudo baseado em entrevistas e fontes impressas, posso citar três presidentes que não eram exatamente “religiosos” no sentido que costumamos entender.

Getúlio Vargas foi criado como positivista enquanto frequentava o Exército no Rio Grande do Sul e nunca fez uma profissão explícita de fé. Sua aproximação com o catolicismo após o golpe de 1930 teve fins politicamente táticos, levando em conta que virtualmente toda a população professava essa religião (descontando as exceções que, pra fins estatísticos, ainda eram irrelevantes). Daí emergiram a construção do Cristo Redentor na cidade do Rio de Janeiro e a introdução do ensino religioso nas escolas públicas. Ernesto Geisel, quarto presidente da ditadura civil-militar, era de família luterana e ocasionalmente frequentava seus cultos, embora sumamente pra fins sociais e familiares. Geralmente descrito como agnóstico, estava mais pra “anticlerical”, sobretudo diante do catolicismo, que já fazia razoável oposição naquela época, e teria influenciado na legalização do divórcio em 1977 – muito mais tardiamente do que em outros países do dito “Ocidente Civilizado”.

Pra além desses governos autoritários (se descontarmos o breve período Vargas em 1951-54), Fernando Henrique Cardoso pode ser considerado o único assumidamente irreligioso na democracia, pelo menos por algum tempo e em alguns aspectos. De família de intelectuais abastados, FHC foi acadêmico na área de Ciências Humanas (era sociólogo, mas enveredou por áreas afins) e se exilou pra fugir dos prezidentos milicos. Ingressou no PMDB, hoje MDB, partido originado da única oposição legal à ditadura, e ajudou a fundar o PSDB em 1988, cuja principal razão de ser era a rejeição do fisiologismo e estatismo de Sarney (também do PMDB) e a adesão a princípios de governança transparentes, enxutos e modernos. O modelo era a social-democracia reformista europeia, que em todo caso jamais seria chamada de “esquerda” pelos ultrarradicais, mas que a fachosfera consideraria “comunista”.

A posse do tucano Mário Covas como governador de São Paulo em 1995 foi considerada a vitrine do que o presidente FHC também faria em escala nacional no mesmo ano (Plano Real etc., lembra?), apesar das críticas geradas pela privatização de muitas estatais. Contudo, sem anacronismos, leve em conta o contexto do início da década de 1990, quando o Brasil afundava na hiperinflação e na pobreza, os governos paulistas anteriores de Quércia e Fleury (PMDB) quebraram o estado e os bancos estaduais, hoje privatizados, podiam emitir moeda pra cobrir rombos, enquanto equilíbrio de contas públicas era um conceito inexistente. O que o PSDB conseguiu fazer pode ser considerado uma pequena revolução, infelizmente não levada às últimas consequências...

Não vou citar Dilma, que pelo menos se diz nominalmente católica e que, embora pudesse ter sido agnóstica no passado, pode ter decidido se reaproximar; não cabe a mim julgar. E muito menos Lula, sindicalista inegavelmente católico (pesquisem sobre as origens não comunistas do PT!), fanático pelo finado bispo Bergoglio e atacado de todos os lados por qualquer miudeza. E voltando ao assunto religião, se você achou inédita a ascensão do bolsonarismo na onda do radicalismo evangélico, saiba que o suposto “ateísmo” do Efiagá já lhe rendeu muitas dores de cabeça. Abaixo você pode ver alguns vídeos e ler alguns textos sobre sua candidatura à prefeitura de São Paulo em 1984, quando perdeu pro já ex-presidente (que não ficou nem sete meses) Jânio Quadros, em parte devido ao que hoje chamaríamos de “fake news” sobre “maconha nas escolas” e “descrença em Deus”. Isso diz muito menos sobre o caráter do tucano do que do “homem da vassoura”...

Primeiro, um vídeo de 2019 que achei na página Quebrando o Tabu, uma iniciativa de combate à polarização do debate político. Segundo, o trecho de uma entrevista que ele concedeu ao programa Conversa com Bial em 25 de abril de 2018, seguido de recortes do primeiro vídeo com a frase que dá titulo a esta publicação (“Traidor, pilantra, ateu e maconheiro”, rs) e com a famosa declaração de Bolsonaro em 1999 sobre a “guerra civil pra acabar com os problemas”. Terceiro, os trechos que achei sobre a suposta reconversão de FHC, de uma matéria de Ailton de Freitas pro Globo e uma matéria de Augusto “Covarde” Nunes pro Jornal do Brasil (22 de maio de 2002). E finalmente, dois artigos da Folha de S. Paulo publicados em 2 de abril de 1994 (primeira eleição...) e que fiz questão de transcrever, com atualização ortográfica: um da redação sobre as eleições de 1984 e outro da enviada a Buritis, onde o tucano descansava.

Leia também esta seleta que Vanice Cioccari fez pro Globo chamada “Referências de FH a Deus se multiplicam. Presidente, que se dizia ateu, passa a insistir nas citações e divide religiosos”, datando (que novidade!) das eleições de 1998.













Debate em 1985 afetou candidatura

Em 12 de novembro de 1985, durante o último debate na TV entre os candidatos à Prefeitura de São Paulo, o senador Fernando Henrique Cardoso hesitou em responder a uma pergunta do jornalista Boris Casoy sobre sua crença em Deus. O tropeço foi fatal, e FHC perdeu a eleição para Jânio Quadros. Leia o trecho do debate:

Boris Casoy – Senador, o sr. acredita em Deus?
Fernando Henrique Cardoso – Essa pergunta o sr. disse que não me faria.
Casoy – Eu não disse nada.
Fernando Henrique – Perdão, foi num almoço sobre este mesmo debate.
Casoy – Mas eu não disse se faria ou não.
Fernando Henrique – É uma pergunta típica de alguém que quer levar uma questão íntima para o público, que quer usar uma armadilha para saber a convicção pessoal do senador Fernando Henrique Cardoso, que não está em jogo. Devo dizer ao deputado Boris Casoy que esse nosso povo é religioso. Respeito a religião do povo e, na medida em que respeito as várias religiões do povo, estou, automaticamente, abrindo uma chance para a crença em Deus.

No dia seguinte, em sua última aparição no horário eleitoral, Fernando Henrique disse que estava sendo vítima de uma montagem de seus adversários e narrou sua participação em um culto: “Recordo pungentemente o dia em que rezamos juntos o rabino Sobel, d. Paulo, d. Angélico, o pastor Wright, na igreja da Sé. Chorávamos todos pedindo a infinita misericórdia de Deus porque matavam na tortura brasileiros, aqui em São Paulo.”

Em seguida, perguntou: “É a mim que vão chamar de ateu? É a mim, esses mesmos que foram algozes, direta ou indiretamente, de todo um povo. Não.”


“Acredito em Deus” diz Fernando Henrique (Susi Aissa)

O ex-ministro Fernando Henrique Cardoso, candidato do PSDB à Presidência, disse ontem à Folha que sempre acreditou em Deus. “Eu nunca disse que não acreditava”, afirmou. “Eu acredito em Deus, e já disse isso em outras ocasiões”, disse FHC, que ao contrário de seu sucessor Rubens Ricupero trocou as cerimônias da Semana Santa pelo descanso em sua fazenda, a 200 km de Brasília.

FHC afirmou sua crença em Deus ao ser indagado se não temia perder votos por conta de seu suposto ateísmo, como se acredita que ocorreu em 85 nas eleições para Prefeitura de São Paulo. Segundo Fernando Henrique, sua resposta à pergunta do jornalista Boris Casoy, um dos mediadores do último debate na TV, foi de que esse tipo de assunto não deveria ser abordado.

“Mas, sinceramente, não acredito que aquele episódio tenha pesado no resultado da eleição. A própria Tutu (Tutu Quadros, filha de Jânio), dizia que aquela eleição foi roubada”.

FHC chegou à fazenda na quinta, acompanhado da mulher, Ruth. Ontem de manhã, ao ver os repórteres da Folha se aproximando de sua casa na fazenda, o ex-ministro foi ao seu encontro. “Até aqui vocês me procuram... Eu vim aqui para descansar. Acho que mereço isso”, disse. Acompanhado do administrador da fazenda, Vander, FHC convidou a reportagem para “um papo rápido”. “Eu não quero dar entrevistas”, afirmou o ministro, que vestia jeans, camisa xadrez e botas.



quarta-feira, 30 de abril de 2025

Steklovata – Новый год (“9999 Gold”)


Endereço curto: fishuk.cc/novegold


Minha intenção era ter publicado esta pérola junto com a lista completa dos votos de Ano Novo de Putin e Medveded, como uma espécie de surpresa trash, mas o conteúdo é tão interessante (e relevante!) que decidi lançar à parte. Nos tempos do Pan-Eslavo Brasil eu não os conhecia bem, mas parece que comentavam a respeito nos vídeos do canal: um grupo de jovens garotos russos chamado “Steklovata” virou um meme mundial nos anos 2000 e 2010 com a interpretação e clipe toscos de uma canção de Ano Novo chamada... Ano Novo (Nóvy god). No rastro da saudosa tradição das montagens em Flash com os clássicos nipônicos “O cara tossiu”, “Coma um boi”, “Aqui mijar Jiraya” e (um dos mais geniais, ao vivo!) “Pega sua Fanta aí”, alguém sem conhecimento da língua de Pushkin resolveu traduzir e legendar de ouvido, parindo o sucesso do YouTube brasileiro 9999 Gold!



Nando Moura, por que você foi se meter com política??? 🥲


A nossos queridos “Dmitri descobre” e “Trololó” veio se juntar o quarteto que, curiosamente, foi assunto de uma matéria anônima e sem data (aprox. 2021) da centenária Komsomólskaia právda, pasquim favorito de Putin. O que trago aqui é basicamente a tradução das principais informações do artigo, mais outras coisas que achei à parte. Nos últimos meses de 2002, Denis Belikin, Aleksandr Guliaiev, Sergei Diadiun e Artur Ieremeiev (que aparecem no vídeo da esquerda pra direita) gravaram no estúdio de Sergei Kuznetsov (1964-2022, “Kúzia” pros íntimos) um simples vídeo amador, e não um clipe no sentido estrito, pra TV local de Orenburg homenageando as crianças de orfanatos. De autoria do próprio Kuznetsov (1989), que disse tê-la composto em 15 minutos durante uma viagem, ela foi inicialmente gravada no terceiro álbum da banda “Mama” (1990), cujo solista era Rafael Isangulov.

Letrista, músico, compositor e poeta, Kuznetsov foi um pioneiro das boy bands na URSS e na Rússia, que ele formava e dirigia, sendo “Mama” (1989-1992) e “Laskovy mai” (1986-2022, em períodos alternados) – esta sendo a maior propulsora de sucessos lançados pela anterior – apenas as mais famosas de várias. Ele também compôs vários outros hits gravados por outras bandas e cantores. A própria banda “Steklovata” (lit. “lã de vidro”, basicamente uma fibra artificial usada como isolante), formada por jovens adolescentes em 1999 que iniciou gravando uma faixa pro álbum de outra banda, em 2000. Seus três álbuns lançados nos três anos seguintes (Nóvy god incluída no segundo, de 2002) foram considerados “não oficiais” (o estúdio era do próprio Kuznetsov), pois não contavam com patrocinadores, divulgação ou aparição em grandes rádios ou TVs.

Mesmo assim, conseguiram fazer algumas turnês de sucesso pelo interior da Rússia no fim de 2002 e durante 2003, e em dezembro de 2002 “Steklovata” chegou até a ficar no topo das paradas da “Rádio Russa” da Estônia. É provável que essa comunidade tenha sido a primeira em cujas cabeças “colou” o futuro viral, mas o êxito nada tem a ver com o vídeo, como vamos ver. Em junho de 2003, Ieremeiev deixou o grupo, que mesmo assim lançou o terceiro álbum, e embora pareça não haver uma data oficial de dissolução, isso pode ter marcado o ocaso do “Steklovata”. Mesmo na Wikipédia em russo, apesar da viralização mundial de “9999 Gold” (rs), não há um verbete específico pro efêmero grupo, incluído apenas no verbete do próprio Kuznetsov, já que, até então, eles não tinham deixado sua marca no cenário nacional.

Tudo mudou em 2008, quando o “clipe” de Nóvy god do já debandado “Steklovata” foi exibido num programa de crítica musical da MTV Rússia cujo sugestivo nome era “Shit-Parade” e, ao “cair na rede”, se tornou um meme imediato, inspirando inúmeras paródias nos anos posteriores. (Mas diz aí, não ficou muito mais animado e grudento do que o original?...) Com a fama póstera, a canção se tornou tradicional nas próprias festas dos russos, e em 2020 os rapazes fariam seu primeiro remake depois da viralização. Na época da matéria do KP, apenas Belikin não trabalhava no meio cultural, mas como pedreiro, e com a invasão da Ucrânia, é impossível definir seus destinos. Porém, o terceiro vídeo abaixo foi postado no início de 2024, por um perfil anônimo e quase sem identificações. Apenas podemos ver várias vezes o famigerado “cantor” pró-guerra Iaroslav “Shaman” Dronov, já sem os dreads que o caracterizaram no início – o que indica ser bastante recente.

Além deste, também seguem abaixo o 9999 Gold do genial “tradutor” tropical e o áudio original, mas pros mais entusiastas, existem também os três álbuns do “Steklovata” no Spotify. E, claro, a letra original em russo e minha tradução direta, sem qualquer interferência do Google. Agora, só não me pergunte porque “Nóvy god” virou “nove gold” em alguns momentos da tradução e “não ver gorda” em outros... Uma coisa que acho engraçada é que, a meu ver, as frases genéricas são muito semelhantes a várias passagens dos discursos de Putin, sobretudo na parte final, repetidas ao longo dos anos. Se não tivesse sido composta em 1989 (e relançada em 2002!), eu veria na letra uma forte crítica social velada, rs. Divirta-se:






1. Na hora em que as velas são acesas
Em cada casa e em cada janela
É porque chegou a noite de festa
Apesar da nevasca e do vento na rua
Até eles sorriem para mim
E também o tilintar do relógio na noite de festa

Refrão:
O novo, novo, novo, novo ano
Realizará todos os sonhos!
Do novo, novo, novo, novo ano
Nos lembraremos durante o ano todo!
Novo, novo, novo, novo ano –
Não economizem velas!
Novo, novo, novo, novo ano –
Na noite de Ano Novo!
Ano Novo! Ano Novo! Ano Novo!

2. O pinheirinho está decorado com ouro
Esta noite a cidade virou conto de fadas
Um mar de fogos na cor festiva
O cheiro das suaves agulhas verdes
[enfeites artificiais imitando folhas]
Nosso sonho de longos meses
Que a nevasca me presenteie com seu vento!

(Refrão)

3. O conto de fadas invernal de Ano Novo
E as doze badaladas do relógio
A nevasca branca se tornará bondosa
Brilhantes máscaras carnavalescas
O barulho das alegres vozes bêbadas
Desejem à meia-noite [lit. “às 12 horas”]
Felicidades uns aos outros!

(Refrão)

____________________


1. В час, когда зажигаются свечи
В каждом доме и каждом окне
Это пришёл праздничный вечер
Пусть на улице вьюга и ветер
Но даже они улыбаются мне
И звон часов в праздничный вечер

Припев:
Новый, новый, новый, новый год
все мечты исполнит!
Новый, новый, новый, новый год
мы на год запомним!
Новый, новый, новый, новый год –
не жалейте свечи!
Новый, новый, новый, новый год –
в новогодний вечер!
Новый год! Новый год! Новый год!

2. Разукрашена золотом ёлка
В эту ночь город сказкою стал
Море огней в праздничном цвете
Запах мягких зелёных иголок
Долгих месяцев наша мечта
Пусть дарит мне вьюга свой ветер!

(Припев)

3. Новогодняя зимняя сказка
И двенадцать ударов часов
Станет добрей белая вьюга
Карнавальные яркие маски
Шум весёлых хмельных голосов
Пожелайте в двенадцать часов
Счастья друг другу!

(Припев)



terça-feira, 29 de abril de 2025

Votos de fim de ano dos presidentes da Rússia desde 1992

Esta publicação reúne a tradução direta do russo pro português de todos os discursos de fim de ano dos presidentes da Federação Russa desde 1992, sendo atualizada com o passar dos anos. Desde que o Pan-Eslavo Brasil, meu canal no YouTube, foi “suicidado” pelo Google em agosto de 2021, tomei como tradição obrigatória publicar aqui, todo começo de ano, pelo menos os discursos comemorativos dos presidentes da França, da Rússia, da Bulgária e da Moldova. Os dois últimos, por mera afinidade cultural, e os dois primeiros, devido a minha familiaridade com suas línguas e meus longos anos de pesquisa sobre a antiga URSS e de contato com a história da Rússia contemporânea.

Sempre fui muito perfeccionista, portanto, legendar pra mim sempre foi uma atividade meio penosa, mesmo que em se tratando de uma atividade amadora e de uns poucos minutos de audiovisual. Como o Pan-Eslavo Brasil era focado nos países eslavos, os votos de Feliz Ano Novo de Vladimir Putin saíam com maior regularidade, a partir de 2018, 2019, mais ou menos, e, sobretudo, quando chegou em casa a internet por fibra óptica. Além disso, a cada novo ano, seus discursos ficavam mais curtos e mais repetitivos, o que tornava a tarefa ainda mais fácil, sem contar que tenho pleno domínio do vocabulário soviético e burocrático de Putin.

O YouTube acabou, o doutorado também, mas “Ainda estou aqui” na página, e como ela é hoje meu único meio de comunicação, tento atualizar com uma publicação por dia, embora nem sempre isso seja possível. Devido a premências que surgem em meu cotidiano, por vezes tenho que fazer pausas mais ou menos longas. Outra vantagem é que, ao contrário dos discursos anteriores, traduzidos palavra por palavra e com ocasionais consultas ao dicionário, agora tomei a coragem de usar o Google Tradutor, mas de forma sábia: a “máquina” me dá o texto central, mas o reviso todo, confrontando com o original. É o mínimo que se espera de alguém que, mesmo sem formação oficial, se arroga o título de tradutor!

Portanto, esta iniciativa vem preencher uma lacuna, pois em anos anteriores, tanto na página quanto no antigo canal, apareceram discursos isolados com votos de fim de ano de Putin (também listados abaixo, quando já antigos), François Hollande e Emmanuel Macron – sem contar Aliaksandr Lukashenka, dono de Belarus que, pra minha “alegria”, só fala russo. A iniciativa também se alinha a minha atividade preferida de tradução, que foi a razão de eu ter fundado tanto meu finado canal quanto está página: disponibilizar ao público leigo ou especializado documentos que podem servir pra pesquisa e compreensão históricas, contornando as barreiras linguísticas e dando a oportunidade pra que todo mundo tire criticamente suas próprias conclusões por meio do acesso direto às fontes.

Fazendo a busca no portal do Kremlin, podemos encontrar todas as publicações desde 2000 que contêm o título “Новогоднее обращение к гражданам России” (Novogódneie obraschénie k grázhdanam Rossíi), Alocução de Ano Novo aos Cidadãos da Rússia. Ao contrário da França, cujos votos presidenciais também traduzi todos desde o governo Sarkozy, a formação do Estado russo moderno é bastante recente, e a Constituição Federal de 1993, mutilada em 2020 e diariamente desrespeitada, só existe no papel. Um reflexo disso é a usurpação do poder por Putin e seu partido Rússia Unida, fazendo com que ele ocupasse a presidência a partir de 2000, exceto no curto interregno de 2008 a 2012, com seu companheiro de legenda Dmitri Medvedev.

Eu já publiquei os votos de Boris Ieltsin pro ano 2000 transmitidos em 1999, discurso que teve uma tripla importância: foi o último de Ieltsin pro grande público, foi o anúncio de sua renúncia do cargo e foram os primeiros votos de Putin dados logos depois, enquanto primeiro-ministro que assumia interinamente até as próximas eleições (e daí não saiu mais...). Procurei manter um estilo mais formal e padronizado, sem as constantes abreviações e oralidades que emprego aqui, e com recursos gramaticais que também costumo evitar (futuro do presente simples, pronome enclítico). Cada ano se refere ao que vai começar no dia seguinte, ou seja, pro qual o presidente está fazendo votos ainda na noite de Réveillon (votos pra 2010 feitos em 31/12/2009, votos pra 2025 feitos em 31/12/2024 etc.).

No portal do Kremlin, o material datado a partir de 2000 é extremamente organizado, muito mais, por exemplo, que no portal do Élysée francês. Sublinho que entre os navegadores Chrome e Edge, neste a navegação é otimizada, e fica ainda melhor se você puder acionar seu VPN pra se localizar na Rússia. Os votos russos costumam ser bem mais curtos e com pouca variação vocabular, sem grandes balanços políticos nem desculpas sinceras, mas nem todos estavam disponíveis em resolução HD. Apenas a partir de 2005 (votos pra 2006) aparece a abertura com a Fanfarra Presidencial e o encerramento com os sinos do Kremlin tocando e a execução do hino nacional (tudo tornando o vídeo em si bem mais longo). Além dos textos, o portal permite baixar diretamente os vídeos, e em cada uma das publicações está listada a fonte pro respectivo ano.

Eu tirei algumas das fotos, relacionadas ao ano pelo qual se fazem os votos, diretamente do portal especial lançado em homenagem aos 20 anos da primeira posse de Putin: antigo, mas, se você entende russo, com um material audiovisual riquíssimo! Lembrando, claro, que devido à agilização produtiva, decidi manter sem legendas os vídeos posteriores ao Pan-Eslavo Brasil e publicar apenas os textos. Portanto, se você tem vontade de se voluntariar pra colocar legendas, sinta-se livre pra me contatar! Se você tiver essa coragem, também permito que coloque em seu próprio YouTube ou outra rede social as legendas com meu texto, mas por favor, em prol da educação, pelo menos cite o autor (i.e. eu) e o link da tradução original.

Adendo (14/3/2026): Embora não fosse minha intenção inicial, traduzi também, ao longo dos últimos meses, os discursos de Boris Ieltsin na noite de Ano Novo durante a década de 1990. Dada a desordem do Estado russo naquele período, o ritual não era tão regular, e cada publicação descreve as vicissitudes da alocução do respectivo ano, além das dificuldades pra encontrar o vídeo e a transcrição. Demorou bem mais tempo do que pra completar a “Era Putin”, mas agora que a coleção está completa, ela apenas vai ser atualizada com o passar dos anos.


Boris Ieltsin (1991-1996 e 1996-1999):

1992    1993    1994

1995    1996    1997

1998    1999    2000


Vladimir Putin (2000-2004 e 2004-2008):

2001    2002    2003    2004

2005    2006    2007    2008


Dmitri Medvedev (2008-2012):

2009    2010    2011    2012


Vladimir Putin (desde 2012):

2013    2014    2015    2016

2017    2018    2019    2020

2021    2022    2023    2024

2025    2026