quarta-feira, 19 de junho de 2024

Plano de Macron pra enrabar a França


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O “Plano Procu”, cuja existência lhe revelei há dois dias e que podia ser rebatizado como “Hemovirtus”, parece realmente parte de um esquema maior do ex-banqueirinho filósofo pra enrabar a França. Como se o cidadão comum que não passeia na Torre Eiffel nem come baguete o tempo todo já não estivesse levando ferro todo dia devido ao desmonte do Estado e ao descalabro das contas públicas.

Alguns cidadãos provindos de um continente mais ao Çu (Grobá) parecem ter preferido combater o faxixmo lá do que cá, onde o perigo de retrocessos sociais é mais importante. Essa literal esquerda caviar, execrada há anos por nossos publicistas, parece ter mais medo de perder seus benefícios mercadolísticos do que passar a imagem de sua terra natal como um futuro Evangelistão. Até a Foia publicou em entrevista pelos 80 ânus do Xiko que ele já se conforma em ter um “público menor”; pudera, não é por falta de Rouanet, já que ele nunca precisou diante de suas décadas de consagração e de sua origem abastada, mas porque até minha mãe, em nada suspeita de antipetismo, me disse que “Esse cara é chato pra caramba!”, rs:


Até o ex-presidente Francês Holanda, primo do Ivo Holanda e sobrinho do Sérgio Buarque de Holanda (“o pai do Xiko”), que sequer concorreu à eleição de 2017 tamanha era sua impopularidade, resolveu se candidatar a deputado federal por sua circunscrição natal da Corrèze (parece Coriza, rs). Após anos exercendo a função de pinguim de geladeira correspondente a sua atual aparência, o socialista, que já parecia se preparar pra um retorno em 2027, tomou a decisão após que considerar que “a situação está grave”. O ex-marido da Ségolène contou em entrevista como a dissolução do Parlamento na sequência do “Plano Procu” revela o tamanho dos problemas que a França deverá enfrentar:


Quando ouço falar sobre o processo de “desdemonização” (dédiabolisation) do RN e vejo Jordan Bardella sendo avançado como o “bonitão instagramável” (igual a um Fernando Collor em 1989) da extrema-direita, só consigo me lembrar de duas coisas. A primeira, do Seu Creysson no Casseta & Planeta em 2002 se candidatando a presidente e colocando “uma máscaria de Brédio Pítio pra num assustá os mercádio” (referência à reação do sistema a uma possível eleição de Lula). A segunda, desta cena da grande versão em filme da peça O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, rs:


Num dos livros de Oswaldo Chiquetto, jornalista, tradutor e intérprete, sobre “falsos amigos” e armadilhas vocabulares do inglês publicado em 1995, o ilustrador fez por bem brincar com o significado de addiction, que não significa “adição, soma”, mas “vício”. Em minha cabeça, ele sem querer fotografou em desenhos o essencial de Lula e Bolsonaro, por isso deixo a tradução pra você mesmo:

    


Pra terminar, vamos rir um pouco com essa “Barbie Boza” (22 no nome de usuário dela não deve ser a idade nem o DDD, rs) que achei por acaso no Équis quando um dos assuntos estava em alta. Os peixecólogos de plantão na mídia adoram nos dizer que “não devemos ter um modelo ideal” nem “exagerar as expectativas”, mas duvido que o pacote da moça, se ela mesma não for um robô ou um fake, exista em qualquer um dos planos da existência. Aliás, é namorado ou filho afinal pra “assumir”?...

Se o cara chupa o saco do Mytho, há altas probabilidades de ser um “Zé Droguinha”, “ateu” (simplesmente por não ligar pra templos ou cultos ou porque “meu Deus tá aqui” numa caneca de cerveja), “favorável ao aborto” (da periguete que ele embuchou) ou mesmo mandar uma pensando no Ixperrtínhu, rs. Além disso, como dizem os aforistas do IPTC, o antifeminismo de uma pepecuda reaça acaba quando começam as surras e as ameaças armadas do chifrudo. Essa realmente eu deslizo pra esquerda (pra começar, porque “NÃO” tem til), e não tô falando de ideologia. Até a próxima, abiguinhes!


segunda-feira, 17 de junho de 2024

Macron e seu Plano Procu. Hã, pro...?


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/procu


Esta é a tradução parcial com adaptação de um artigo da Rádio França Internacional sobre a polêmica que envolve o sitePlan Procu”, abreviação de “plano procuração”, mantido pela associação “A voté” (Votou), cujo objetivo é combater a abstenção eleitoral, que na França costuma atingir metade do eleitorado, algo impensável na Banânia com seu livre voto obrigatório. O plano de nome, ao menos em português, bastante estranho e ambíguo visa facilitar o voto por procuração, ou seja, promover o encontro (ou “match democrático”, meldels, rs) entre duas pessoas, uma se oferecendo a trazer pra urna a cédula da outra, com todo o registro e aviso junto às autoridades. Na França, ao contrário dos EUA, não existe o voto por correspondência, e ao contrário da Estônia, não é possível votar por aplicativo, e como o voto não é obrigatório (daí a tentativa de estancar a abstenção), o instituto brasileiro da justificativa não faz sentido.

O Plano Praquilo Lá é voltado especificamente pras eleições legislativas nacionais que vão ocorrer em 30 de junho e 7 de julho, convocadas depois que o próprio Macron dissolveu o Parlamento com o objetivo inverossímil de obter uma maioria absoluta pra que ele se torne um mero assinador de seus projetos. Sendo o presidente o principal interessado num contexto que causou o que muitos já chamam de pior crise política desde a Constituição de 1958 (a qual igualmente surgiu após uma crise), não deixa de estranhar que uma força-tarefa pra reunir votantes e evitar o abstencionismo não pudesse estar ligada à situação. Bingo: nas redes sociais, uma das muitas críticas ao site é supostamente estar ligado ao atual governo.

O Plano Anal foi lançado ainda pras parlamentares europeias do começo de junho, visando ajudar pessoas que queiram encontrar um “procurador” (o que faz sentido, sobretudo, pra velhos e deficientes físicos), mas uma das primeiras críticas lançadas no Équis é que o domínio online do plano foi adquirido por Titouan Galopin, cofundador do site citipo.com e que trabalhou na campanha digital de Macron em 2016 e 2017. Foi feito um apelo geral ao boicote da plataforma, mas 8-7 anos atrás acho que já faz tempo não? Mas não para por aí: um dos casos tuitados foi o de uma pessoa que se inscreveu no serviço, obteve o nome da pessoa que ia votar por ela e, jogando-o no Santo e Onisciente Google, descobriu que ela militava no partido de Macron (no “En Marche !”, mas há anos o nome não é esse, então talvez a referência seja ao atual “Renaissance”). A irrefutável conclusão seria a de que o site foi criado “pelos macronistas, para o macronismo”, o que podia gerar uma séria acusação de fraude nas eleições. Mas em se tratando da unicidade do caso, e ainda alardeado numa rede abertamente conspiracionista, mantenhamos o pé atrás.

Outra acusação é a de que outro cofundador da “A voté” criou em 2022, ano de reeleição de Macron, o aplicativo “Elyze” (nem se vê a referência direta ao palácio presidencial do Elysée, né?), cuja proposta era a de propor um candidato que seria mais próximo das escolhas dos usuários. Porém, a ferramenta foi criticada por quase sempre dar o marido da Brigitte como resultado principal, havendo outros “menos compatíveis”, obviamente, mas com os mais ideologicamente afins mais próximos do topo. E pra piorar, seu criador trabalha desde fevereiro deste ano como chefe de gabinete do ministro encarregado (uma espécie de secretário ou subministro) das Contas Públicas.

Os gestores do “Plan Procu” rebatem as acusações de partidarismo, afirmando que cuidam pra que nada recaia na manipulação eleitoral e que vão apagar os dados sobre pedidos de procuração depois das eleições. O próprio articulista da RFI (uma mídia estatal, diga-se de passagem) chama de “anedóticas” as acusações lançadas nas redes sociais, mas pra esta pobre página que gosta de misturar humor ruim com a atualidade política, resta mais um “legume de duplo sentido” (salve Casseta & Planeta!) pra fazer a alegria dos lusófonos sul-americanos. Aliás, um nome que nada fica devendo, em nossa humilde interpretação, ao buraco político a que realmente o ex-banqueiro parece ter levado a antiga nação colonial, rs.



sábado, 15 de junho de 2024

Zelensky fala francês no Parlamento


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Esta imagem de Marina Ayrton Senna serve apenas pra introduzir mais um combo de bizarrices da política internacional, a primeira delas sendo Volodymyr Zelensky falando uma pequena frase em francês quando discursou em ucraniano pra Assembleia Nacional (Câmara dos Deputados) francesa, em 7 de junho de 2024. Mesmo assim, o verso podia servir muito bem como uma mensagem do presidente ucraniano a seu inimigo Putin, rs.

Em seu novo tour d’Europe, o presidente conseguiu arrecadar bastante dindim pra financiar a resistência contra a invasão militar e genocida do ditador paranoico, mas em Paris ele teve de exagerar mesmo no “biquinho”... Estes são trechos da publicação no canal Ouest France da transmissão feita pelo Parlamento, e eu tive de pular uns trechos em que os aplausos não paravam, mesmo entre mínimas palavras:


“France, je vous remercie d’être a nos côtés pour défendre la vie !” (França, agradeço-lhe por estar a nosso lado pra defender a vida!) Terminando em ucraniano, interpretado em francês: “Дякую Вам за увагу, дякую Вам за підтримку, слава Україні!” (Obrigado pela atenção, obrigado pelo apoio, glória à Ucrânia!) E meio sem saber o que fazer, Zelensky pergunta a Yaël Braun-Pivet, presidente da Assembleia: “We have [to] go?” (Temos que ir?) Ela diz algo mostrando não entender, e ele refaz: “We can go?” (Podemos ir?) Ela de novo: “No! Just a...” (Não! Só um...) – não, o Kvartal 95 ainda não terminou, me espera trazer o piano! Kkkkk.


Surpresa agradável! A booktuber Taize Odelli, que também é responsável por outros perfis, resenhou brevemente no Instagram dela minha tradução do R.U.R. direto do checo, junto com outros livros que ela estava pra ler! Fiquei feliz com a impressão positiva antes de adentrar o texto, com o fato de ter achado “chique” a tradução direta e por ter pronunciado corretamente meu sobrenome (que é ainda o que uso nas redes!), o que infelizmente não aconteceu com nosso querido dramaturgo, rs.


E pra acabar o dia com um gostinho de esperança, eis mais uma montagem sem graça, depois da feita com o Moshiach, agora com o belo dabke de Mohammed Assaf, Dammi falastini, que tanto voltou à moda nos últimos meses... O dia em que for decretado o fim da guerra e a unificação laica dos Estados da Palestina e de Israel, eu queria que ele se parecesse com essas cenas, rs.


quinta-feira, 13 de junho de 2024

Meu Big Brother Brasil dos sonhos


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/mix-politica11



Quem nunca pensou em sua própria lista pro Big Brother Brasil, ou quem nunca brincou com novas possibilidades bizarras entre amigos? Inspirado numas conversas que tive com um amigo, fiz minha própria lista com personalidades mais ou menos conhecidas da internet e do mundo da cultura, sabendo que pensei em muitas outras mais e que você pode a achar incompleta e ter esperado outros nomes, rs. Mesmo tentando ser representativo entre gênero, sexualidade, ideologia, idade e cor, foi a isto que cheguei. Uma das primeiras montagens dessa monta que consegui fazer, relembrando a primeira edição, única da qual tenho alguma “nostalgia”:


Foi revelado que Liza, filha de Dmitri Peskov, porta-voz de Vladimir Putin pra imprensa, está sob sanções ocidentais (porque ela vive nas custas do papai, e como este está sancionado...), mas ainda consegue fazer compras de luxo no Cazaquistão. As fotos mostradas outro dia na Radio Svoboda são tão fofas que decidi fazer uma montagem orkutizada com o trecho, usando uma canção ainda mais brega de Rick & Renner sobre o “amor de pai”, rs:


Até o cacique Raoni, agora “Cavaleiro da Legião de Honra” da França (seja lá o que isso signifique numa República), tá mandando o Lula acordar diante da queda livre da popularidade do governo. Olhe a cara de medo da Jararaca, até o Macron precisa “traduzir” o apelo, rs:


A canção Moshiach (ou Mashiach, “Messias”), típica do judaísmo hassídico, é interpretada nesta versão pelo cantor Mordechai Ben David, também conhecido como MBD. Há também a versão mais célebre de Eitan Masuri, com tradução em português no link, mas em todo caso, pra quem não sabe do que se trata nem entende hebraico, não vai distinguir do tema de abertura de qualquer desenho japonês que fazia sucesso na extinta TV Manchete na primeira metade da década de 1990, rs. Só agora estou publicando, mas faz um tempo que fiz esta montagem com parte do primeiro áudio pra mostrar como pode não fazer nenhuma diferença. Meu próprio amigo que me apresentou a música adorou a montagem, e outros comentaristas nos vídeos da gravação também acharam parecida com o gênero nipônico:


As prisões francesas são condenadas na TV estatal por acolherem cecço, dorgas e... telefone, rs:


terça-feira, 11 de junho de 2024

domingo, 9 de junho de 2024

Esquerdista de iPhone (banda Milei)


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Depois de descobrir os lançadores do tema da campanha de Javier Milei, que na verdade se trata da adaptação de uma antiga canção do ano 2000 usada sem a autorização de “La Renga”, banda que a tinha gravado, vi que aqueles primeiros também lançaram umas coisas bem bizarras ligadas com a aversão às esquerdas em geral. Com seus áudios publicados no YouTube e no Spotify, a conta chamada “La Mancha Venenosa” (gíria portenha pra uma espécie de jogo), ainda com poucos seguidores, publica a maioria dos jingles de Milei e outras canções relacionadas à ideologia antissocial dos libertários latino-americanos. Não pude concluir se se trata de uma banda que grava as ditas faixas, mas achei uma das músicas tão engraçada e parecida com nossos debates de internet que decidi traduzir e publicar aqui!

Com o título Zurdos con iPhone, pode ser literalmente traduzida “Canhotos com iPhone”, deduzindo-se que zurdo (canhoto; “surdo” em espanhol é sordo) seja equivalente ao “esquerdista” brasileiro e que sob ambos os rótulos se oculte um balaio de gatos com elementos muitas vezes totalmente opostos entre si. De modo mais amplo, a ideia de “zurdo con iPhone” pode também ser traduzida “esquerda caviar” (um decalque do francês gauche caviar) ou, em inglês, “champagne socialist”. Porém, a meu ver, “esquerda caviar” alude mais à elite propriamente, intelectual ou econômica (o “rico de esquerda”, bem como o professor universitário comunista que vai lecionar nos EUA ou na Europa), enquanto Socialista de iPhone, que escolhi pra traduzir e é muito mais direto pros jovens no Brasil, remete mais a qualquer pessoa, rica ou não, que nas redes sociais defende os países socialistas, mas se aproveitando de ferramentas bastante acessíveis e “criadas pelo capitalismo”.



A riqueza dela sendo “distribuída” no chão, rs!


Ou seja, é um xingamento direitista muito comum nas brigas digitais, embora eu ache o fundo da crítica um pouco incoerente e não esteja defendendo a linha política de “La Mancha Venenosa” ou muito menos de Milei. Pra mim, o grande problema da maior parte da direita é colocar as esquerdas no mesmo saco, chamando-as de “socialistas” ou mesmo “comunistas” e daí achando que todas devam defender Lenin, Stalin, Mao, Fidel, os Kim etc. Um grande espantalho pra criticar qualquer veleidade social ou coletiva, do mesmo jeito que a esquerda radical chama qualquer direitista ou mesmo liberal de “fascista”. Mesmo assim, até por ser um topos muito comum também entre nós e por eu ter participado de “debates” políticos desde os tempos do Orkut, achei o texto bem engraçado e não deixo de concordar com a maior parte das incoerências apontadas pelo autor (quem?), rs.

Outra nota tradutória: zurdos con OSDE é uma expressão argentina equivalente a zurdos con iPhone (ou seja, esquerda caviar), referindo-se a um sistema de planos privados de saúde reunidos como uma entidade pública, que pode ser pago individualmente ou a funcionários de empresas. Ou seja, você é “socialista”, mas paga ou recebe planos privados... A pérola também pode ser ouvida no Spotify, e seguem abaixo o clipe no YouTube, o original no qual fiz algumas correções e minha tradução, não totalmente literal em muitos pontos:


Zurdos con iPhone, zurdos con OSDE
Zurdos con fotos en New York y en Londres
Zurdos con sesgos de ideología
Odian los datos, niegan la biología

Zurdos con sueños de rebeldía
Publican en TikTok o Facebook su vida
Zurdos en Harley, vistiendo Levi’s
Te hablan de patria, de igualdad y de Lenin

Odian el uso del sentido común
Adoran asesinos como Mao Tsetung
Ven el pasado con nostalgia total
Ignoran el horror y sólo ven su ideal

Yo sólo quiero que por vos mismo
Entiendas que ya fracasó el socialismo
Ese modelo liberticida
Ya se ha cargado a millones de vidas

Dicen representar al trabajador
Les tirás una pala y huyen como un roedor
Y si es de izquierda y es homosexual
Seguro al Che Guevara en su remera tendrá

La izquierda te vio débil y se aprovechó
De tu resentimiento y de tu frustración
De tus obligaciones te desligó
Y crees que te persigue un sistema opresor

____________________


Esquerdistas de iPhone e que pagam OSDE
Que tiram fotos em Nova York e em Londres
Esquerdistas com vieses ideológicos
Odeiam os dados, negam a biologia

Esquerdistas com sonhos de rebeldia
Publicam sua vida no TikTok ou no Facebook
Esquerdistas em Harley, que vestem Levi’s
Te falam sobre pátria, igualdade e Lenin

Odeiam o uso do senso comum
Idolatram assassinos como Mao Zedong
Veem o passado com total nostalgia
Ignoram o horror e só enxergam seu ideal

Quero apenas que, por sua própria conta
Você entenda que o socialismo já fracassou
Esse modelo liberticida
Já acabou com milhões de vidas

Dizem que representam o trabalhador
Lhes jogue uma pá, vão fugir como um roedor
E se você é de esquerda e homossexual
Certamente vai ter uma camiseta com Che Guevara

A esquerda te viu fraco e se aproveitou
De seu ressentimento e de sua frustração
Te livrou de suas obrigações
Mas você se crê perseguido por um sistema opressor



sexta-feira, 7 de junho de 2024

Todas as formas de “wokismo”


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/wokismo


Este meme mandado por um amigo ilustra bem o novo fantasma da direita conservadora e da extrema-direita no Ocidente. O “wokismo” está sendo considerado o novo espantalho, ou “mamadeira de piroca” se quiser, das culturas ocidentais urbanizadas, já que o medo do comunismo e mesmo da Rússia não assustam nem enganam mais ninguém. (Inclusive, os “antiwokistas” muitas vezes não escondem sua admiração pela autocracia reacionária de Putin!) O conceito básico é o de que a mídia hegemônica, as universidades, os intelectuais e mesmo os influenciadores digitais querem empurrar como “normais” ou até “obrigatórios” padrões de comportamento que não seriam majoritários nem aceitáveis entre a maioria das populações.

Na verdade, todos esses “comportamentos” que antes eram colocados no saco do “esquerdismo”, do “comunismo” ou o que valha, termos agora inadequados porque muitos esquerdistas e comunistas do passado são justamente contra essas bandeiras “identitárias”, se relacionam a setores da população cujas opções ou características diferem da maior parte ou dos grupos dominantes: progressistas ou reformistas sociais, mulheres, negros, não héteros, não cis, estrangeiros, não cristãos, pró-direito ao aborto, não monogâmicos etc. Basicamente, o “wokismo” (pros conservadores) seria dar um peso ou papel a essas populações, nas representações cotidianas, que não corresponderia à realidade, muitas vezes exagerando sua presença em épocas em que não se faziam ver tão ostensivamente. Como vemos no meme acima, por exemplo, seria colocar “gays demais” onde seriam de aparecimento pouco provável, ou apenas pra fazer o povo os aceitar como “normais” (?) ou agradar a essas “minorias”.

Falta de alteridade ou empatia. A não ser que uma pessoa, sobretudo muito jovem, esteja com problemas psicológicos ou de socialização, ela não vai “mudar” sua sexualidade, religião, opção política etc. só porque viu na televisão, no cinema ou no streaming. De fato, não é que o “wokismo” quer “super-representar” certos grupos em produções culturais, mas sim, como essa produção sempre esteve dominada pelas “maiorias” ou pela “normatividade” dominante, esses grupos estavam é sub-representados, e aí sim, sua onipresença era negada pelos grupos dominantes. Não sou grande consumidor de mídias de massa, mas é interessante que, por um lado, esses grupos em tese deveriam ser “revolucionários” e “contra o sistema”, portanto querendo o destruir e não ligando pra “representatividade”, enquanto na verdade se revelou o contrário, assim como o fato de que por décadas, as “minorias” tiveram sua própria “cartilha” moldada por setores das “maiorias” que intelectualmente rompiam com o sistema e dominavam, por exemplo, as universidades e partes da mídias. Por outro lado, parece hipócrita que esses mesmos conservadores ou extremistas de direita critiquem a representatividade “exagerada”, mas eles mesmos digam “não ver mais Globo, não ler mais Folha”, portanto ou estão sabendo demais, ou consumindo às escondidas.

Caso clássico é o do deputado federal “paulista” Eduardo Bananinha Bolsonaro, o “Zero-Três”, que há alguns anos reclamou no então Twitter (infelizmente não guardei a publicação) que a grade da Globo tinha virado uma “perversão” durante as manhãs, com o programa Encontro, quando muitas crianças podiam estar assistindo e deveria haver, portanto, os velhos desenhos do passado, como os da TV Globinho. Inquietação um tanto peculiar pra um adulto, não? Ainda mais considerando que as crianças de então e de hoje sequer viam mais desenho na TV aberta naquela hora, mais provavelmente estando na escola ou usando a internet. Uma versão mais brutal desse argumento foi dada pela mesma época por Nando Moura em seu período mais “porralouca”, e apenas sugiro que pesquise “priquito fedorento” no YouTube pra talvez achar o vídeo.

As palavras woke e wokism de fato foram criação dos próprios militantes e derivam do verbo inglês pra “despertar” ou “levantar-se”, neste caso de modo figurado em referência à opressão ou preconceito dos citados grupos sempre dominantes no Ocidente. A meu ver, representam uma ruptura com as esquerdas clássicas, sobretudo a comunista, que submetia todas as reivindicações à questão de classe e à destruição completa do modo de produção capitalista, esquerdas que, de fato, durante a década de 2010 usaram muito o termo “identitário” como um termo pejorativo pra essas bandeiras que, seguindo Sabrina “Tese Onze” Fernandes, prefiro chamar de “antiopressão”. Por isso, o fogo é duplo: das esquerdas “tradicionais” e, sobretudo, de parte da direita que adotou a tese da “guerra cultural”, manteve aí a dianteira por um tempo, mas começou a perder terreno com a retomada das redes sociais pelos que ela passou justamente a chamar de “wokistas”. (Como marcos dessa retomada, eu apontaria, no Brasil, as eleições de 2022 e a vitória de Lula, e no mundo, o movimento que levou em 2024 à vitória da narrativa anti-Israel entre a geração Z e às turbulências nas universidades americanas.) Assim, surgiu um novo rótulo pega-tudo que é ao mesmo tempo vago e forte o suficiente pra se ancorar nas brigas de redes sociais.


Na política francesa, por exemplo, o termo “wokismo” como descrição pejorativa foi popularizado pelo partido Rassemblement national e por suas figuras de proa, Marine Le Pen e Jordan Bardella, geralmente se referindo ao partido La France insoumisse, que levou a defesa da causa palestina às últimas consequências. Só nesta semana, por exemplo, a LFI foi punida duas vezes por deputados brandirem a bandeira da Palestina dentro do plenário, ato proibido com qualquer bandeira que não seja a da França. Da última vez, os “insubmissos” chegaram ao cúmulo de virem todos vestidos apenas com uma das cores da bandeira palestina, o que provocou terror na presidente macronete da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet, de família judaica, ao se ver diante da pressão de uma nova bancada da melancia:


“Mente poluída” também pode ser considerada “wokismo”? Rs:


E por fim, uma cena que filmei outro dia e que eu poderia chamar de “wokismo reverso”...

Bolsominions: As universidades públicas são ateístas, pervertidas, perseguem os cristãos, doutrinam pro comunismo, ensinam maus valores e só sabem entrar em greve! (Nota: nunca pisaram numa universidade pública.)

Unicamp em 2024, hora do almoço:


quarta-feira, 5 de junho de 2024

Como pronunciar latim eclesiástico (6)


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/fale-latim6


Finalmente, depois de mais de três anos de pausa (fevereiro de 2021), volto a publicar minhas leituras de textos em latim! Só pra relembrar: em fevereiro de 2018, decidi gravar em áudio e publicar no antigo canal Pan-Eslavo Brasil, em forma de vídeo montado com as ilustrações correspondentes, todos os textos dos livros Gradus Primus e Gradus Secundus, de Paulo Rónai. Além da tradução literal livre na descrição, minha locução trazia em voz alta as leituras destinadas ao ensino do idioma latino no ginásio (mais ou menos 5.º a 9.º ano atuais) e criadas por volta da década de 1950. Paulo Rónai foi linguista, tradutor, escritor e crítico literário, e nasceu na Hungria antes de se radicar no Brasil.

Uma das críticas feitas por latinistas acadêmicos a esse método é que os textos são muito artificiais e não refletem a realidade romana antiga da língua. Mas eu gostava muito dele porque pra quem não sabe nada, é uma introdução bem didática, e serve ainda muito bem como manual autodidata. Aqui na página, eu sempre publicava as leituras de 10 em 10, e a última publicação da coleção trouxe os textos lidos das lições 1 a 10 do Gradus Secundus, mas eu já tinha carregado no canal as leituras até a lição 16. Acontece que nesse meio-tempo, houve a derrubada do Pan-Eslavo Brasil em agosto de 2021, a mudança completa da página pra outra conta do Google, o exame de qualificação do doutorado, a defesa da tese e muitas outras coisas que “pediram” pra ser publicadas antes aqui... Apenas agora gravei e montei os quatro vídeos restantes, por isso seu design está um pouco diferente, em especial pela ausência de alusões (agora inúteis) ao YouTube!

Como eu disse nas outras publicações com leituras do Gradus Primus e do Gradus Secundus, decidi seguir a chamada “pronúncia eclesiástica”, baseada na língua italiana e hoje usada em larga escala (quando se emprega o latim) pela Igreja Católica Romana, porque ela é a mais simples, menos artificial e não padece da condição de hipótese, tal como a “pronúncia reconstituída”. Comecei esta série no YouTube por diversão, e pra quem não sabe nada da língua latina, embora não seja propriamente um curso. O latim também pesou pra evangelização dos eslavos e pra elaboração cultural feita pelos santos Cirilo e Metódio, codificadores da primeira língua eslava escrita. Além disso, muitos povos eslavos (ocidentais, além de croatas e eslovenos) não caíram sob a influência ortodoxa de matriz grega.

Seguem abaixo os vídeos das lições 11 a 20 do Gradus Secundus já gravadas (de 11 a 16, ainda em 2021). Você pode ler também as traduções livres que eu mesmo fiz, já que elas não acompanham os livros. Até a lição 16, as traduções vieram nas descrições dos vídeos no YouTube, quando eu ainda estudava o livro e o conhecimento estava “fresco” em minha mente. Pros outros vídeos, seria (e será no futuro) difícil e demorado eu mesmo traduzir sozinho, porém, achei uma playlist no canal do prof. Húdson Canuto com aulas baseadas justamente nos dois manuais de Rónai, nas quais ele lê os textos em voz alta, os traduz oralmente e explica a gramática. Claro que a tradução é vagarosa, ele não a dá pronta de uma só vez e considero sua locução bastante monótona, mas pelo menos pra esta publicação, foi uma mão na roda pra que, com minhas próprias adaptações, eu pudesse enfim desengavetar o rascunho!

Queria fazer apenas duas observações: logo no primeiro vídeo, cometi o pequeno deslize de, ao invés de pronunciar ignosco em ignosco libenter como “inhósko”, que é a forma correta, pronunciei “inhócho”. E no vídeo “Os primeiros cônsules”, minha única discórdia pra com o autor é logo no começo, eu não escreveria iam (já), mas jam, igual nos escritos católicos medievais e modernos, por ser semiconsoante:


ORBÍLIO INTERROGA SEUS ALUNOS

ORB. – Vocês estudaram a lição, meninos?

ALUNOS – Estudamos, professor.

ORB. – Quantos reis os romanos tiveram, Sexto?

SEXTO – Sete.

ORB. – Por quanto tempo (no total) eles reinaram?

SEX. – Duzentos e quarenta e três anos.

ORB. – Quem foi o primeiro rei de Roma?

SEX. – O primeiro rei de Roma foi Rômulo.

ORB. – Ótima resposta. De quem Rômulo era filho, Aulo?

AULO – Da vestal Rea Sílvia e do deus Marte.

ORB. – Ele tinha um irmão?

AUL. – Tinha, de fato gêmeo, Remo.

ORB. – A quem Amúlio levou os gêmeos?

AUL. – A um escravo.

ORB. – Por quê?

AUL. – Para que ele os matasse.

ORB. – Onde o escravo abandonou os pequeninos?

AUL. – Na beira do rio.

ORB. – Como a loba cuidou dos pequeninos?

AUL. - Alimentando-os com leite.

ORB. – Você também é um menino diligente. Agora me responda diretamente você, Lúcio. Numa reinou depois de quem?

LÚCIO – Depois de Rômulo e antes de Tulo.

ORB. – Quem sucedeu a Tulo?

LUC. – Anco Márcio.

ORB. – E a este?

LUC. – Tarquínio, o Soberbo.

ORB. – Você pensa dessa forma, Quinto?

QUINTO – De forma alguma, professor. O sucessor de Anco era Tarquínio Prisco.

LUC. – Isso mesmo. Confundi os dois Tarquínios. Perdoe pelo erro, professor.

ORB. – Claro que perdoo, Lúcio: “errar é humano”.


(SOBRE) OS ESTUDOS DAS MENINAS

Júlia, Lívia e Sílvia são levadas pela escrava Drusila para a casa de Semprônia, para que elas retomem os estudos com a professora. A professora é saudada afavelmente pelas alunas.

MENINAS – Olá, professora!

SEMPR. – Olá, meninas! Como vão?

MENINAS – Muito bem, professora. E a senhora [lit. “tu/você mesma”], como vai?

SEMPR. – Muito bem. Senti muita falta de vocês nessas férias. O que vocês querem aprender hoje?

LÍVIA – Dite provérbios para nós.

SEMPR. – Aqui estão quatro entre os mais belos:

Os amigos certos são discernidos nas horas (lit. “coisa”) incertas.

Devemos ser (ou “nos deixar ser”) advertidos de boa vontade pelos amigos.

A verdadeira virtude é exibida pelos atos.

O outro lado (lit. “A outra parte”) também deve ser ouvido.

Os provérbios são explicados pela professora e são copiados nas tábuas pelas alunas com estilete.


(SOBRE) OS PRIMEIROS CÔNSULES

ORBÍLIO – Já vimos como os romanos expulsaram Tarquínio, o sétimo e último rei. Então, em vez de apenas um rei, foram eleitos dois cônsules pela razão que, se um deles fosse mau, seria reprimido pelo outro. Mas aos cônsules foi dado o reinado de um ano.

QUINTO – Por que não durável, professor?

ORB. – Foi decidido que eles não tivessem um reinado maior do que um ano só para que não se tornassem arrogantes demais com a longa duração do poder, mas sempre fossem corteses. Portanto, foram cônsules no primeiro ano Lúcio Júnio Bruto e Tarquínio Colatino.


(SOBRE) AS GUERRAS QUE O REI EXPULSO CONDUZIU CONTRA ROMA

QUINTO – O rei expulso de Roma aceitou a ofensa com o espírito resignado?

ORBÍLIO – De forma alguma. Pelo contrário, conduziu guerras contra Roma para que tivesse o reinado restabelecido. Na primeira batalha o cônsul Bruto e Arunte, filho de Tarquínio, mataram um ao outro; porém, os romanos saíram vencedores dessa batalha, e Tarquínio vencido. Também no segundo ano Tarquínio conduziu uma guerra à pátria com a ajuda de Porsena, rei dos etruscos, e quase capturou Roma; mas também então saiu derrotado.

SEXTO – Assim finalmente a república (livre) pôde pôr as discórdias de lado.

ORB. – Ainda não. O rei expulso não descansou até sua morte. No nono ano um enorme exército foi reunido por seu genro para vingar a ofensa ao sogro. Porém, as tropas foram novamente vencidas pela virtude dos cidadãos.

SEX. – E como Tarquínio Soberbo terminou sua vida?

ORB. – Ele se transferiu para Cumas e nessa cidade logo morreu consumido pela velhice e pela aflição.


SOBRE O RESPEITO PARA COM OS IDOSOS

Enquanto Semprônia ensinava as alunas em casa, uma velha entrou para visitá-la. Escrevendo a lição, as meninas não se levantaram. Pouco depois a velha foi embora e Semprônia narrou esta história às meninas:

Lacedemônia [i.e. Esparta] era um domicílio honradíssimo para os idosos. Em nenhum outro lugar a velhice era mais venerada. Um dia, em Atenas, certo velho entrou num teatro; na grande plateia nenhum dos seus cidadãos cedeu-lhe o lugar. Então o velho se aproximou de embaixadores espartanos que estavam sentados em certo lugar. Todos eles se levantaram e o receberam para que se sentasse. Quando a plateia toda aplaudiu fortemente os embaixadores, um deles disse: “Os atenienses sabem o que é certo, mas não querem fazê-lo”.

As meninas ficaram muito perturbadas com a história da professora.

– Entendi a história, professora – disse Lívia. – Agimos mal. Perdoe o erro. Daqui em diante sempre demonstraremos respeito à velhice [i.e. aos idosos].


SOBRE CORIOLANO

ORBÍLIO – Vocês já conhecem a história dos sete reis e da república. Se desejam saber mais alguma coisa, perguntem.

SEXTO – Já ouvi muitas vezes o nome de Coriolano. Explique-nos, professor, quem foi ele e que coisas realizou.

ORB. – Caio Márcio Coriolano, general romano que havia capturado Coríolos, a cidade dos volscos, foi expulso injustamente de Roma. Irritado, ele se dirigiu aos próprios volscos e aceitou a ajuda deles para se vingar da ofensa.

Coriolano venceu os romanos muitas vezes. Recusou-se a receber os embaixadores romanos que foram enviados para oferecer a paz. Ele estava – algo terrível de dizer – prestes a sitiar a pátria, quando sua mãe e sua esposa saíram de Roma ao seu encontro.

Vencido pelo choro e pela súplica das mulheres, Coriolano afastou seu exército. E este foi o segundo general depois de Tarquínio que se voltou contra sua pátria.


(SOBRE) MÚCIO CÉVOLA (Primeira parte)

LÚCIO – Professor, recentemente o senhor falou sobre Coriolano, um inimigo de sua pátria. Peço que hoje fale sobre algum homem ilustre que a amasse.

ORBÍLIO – Pedido correto, Lúcio. Os exemplos dos homens fortes despertam os ânimos dos jovens com o amor pela glória. Por isso vou lhes contar agora um caso do tipo que vocês estão pedindo, digno de admiração e meditação.

Vocês já ouviram o nome de Porsena, rei dos etruscos e companheiro de Tarquínio Soberbo, o qual o povo expulsara de Roma. Porsena atormentava nossa cidade com uma grave e constante guerra. Suportando-a com dificuldade, o jovem nobre Múcio, cingido com a espada, entrou secretamente no acampamento militar do rei. Após tentar em vão matar o rei, que estava fazendo sacrifícios ao altar, foi subjugado pelos soldados que ameaçaram o torturar.


(SOBRE) MÚCIO CÉVOLA (Segunda parte)

SEXTO – As ameaças de Porsena atemorizaram Múcio?

ORBÍLIO – De forma alguma. Ele não escondeu dos soldados a razão de sua vinda; pelo contrário, mostrou a todos com admirável paciência o quanto desprezava as torturas. De fato, detestando sua mão direita, por não poder se valer de seu serviço para assassinar o rei, colocou-a dentro de um braseiro e aguentou as queimaduras.

A paciência de Múcio também obrigou o próprio Porsena, que tinha se esquecido do perigo, a transformar sua vingança em admiração.

– Múcio – diz ele –, volte para junto dos seus e lhes diga isto: “O rei devolveu a vida a mim, que queria atentar contra a dele.”


(SOBRE) RÉGULO (Primeira parte)

AULO – O que aconteceu depois com Múcio?

ORBÍLIO – Viajando para Roma, parecia mais triste pela saúde de Porsena do que alegre pela sua própria. Mas os cidadãos, admirando sua virtude, lhe deram um cognome [Cévola, no caso] de glória eterna. O que vocês acham desse exemplo de virtude?

QUINTO – A paciência do jovem nos comove à máxima admiração.

ORB. – Admirando e imitando tais exemplos, vocês vão servir à pátria.

LÚCIO – Mas diga, professor, Roma teve outros homens parecidos com Múcio?

ORB. – Teve, muitos até. Ouçam o feito do insigne Régulo. Sendo já célebre o nome da cidade de Roma, eclodiu a guerra púnica contra os africanos [i.e. cartagineses]. Essa guerra foi longuíssima e de futuro duvidoso. Com o auxílio dos espartanos, os exércitos africanos venceram e capturaram parte do exército romano, incluindo o imperador Régulo.

Porém, dois anos depois, Metelo, outro general romano, derrotou os africanos na Sicília e vingou a derrota [de Régulo]. Então, os cartagineses pediram a Régulo, a quem tinham capturado, que viajasse até Roma, obtivesse a paz junto aos romanos e fizesse a troca de prisioneiros.


(SOBRE) RÉGULO (Segunda parte)

LÚCIO – O general romano poderia executar ordens de inimigos?

ORBÍLIO – Espere um pouco e você já vai ver se agiu como um enviado dos púnicos [i.e. cartagineses] ou um cidadão romano.

Tendo chegado a Roma, Régulo foi levado ao Senado. Evitando o abraço da esposa [lit. “Afastando a esposa do abraço”], persuadiu os cidadãos a não fazerem a paz com os cartagineses.

– Prostrados por muitas desgraças – disse ele –, eles não têm nenhuma esperança. Eu, por Hércules, um único velho, não valho tanto para que seja trocado, junto com uns poucos romanos que estão presos comigo, por tantos milhares de prisioneiros.

Seguindo o conselho de Régulo, nenhum romano recebeu os africanos que pediam a paz. Os cidadãos fracassaram em reter Régulo em Roma. Ele voltou à África e morreu sob todo tipo de tortura.


segunda-feira, 3 de junho de 2024

(18+) Tortura na Iacútia ao evitar guerra


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No perfil Instagram da “Free Yakutia Foundation” (Fundação Iacútia Livre), contrária à ditadura de Vladimir Putin e defensora dos direitos da população autóctone da República de Sakhá, unidade federativa russa também chamada de Iacútia, foi publicado um vídeo mostrando combatentes feridos na invasão à Ucrânia que depois vão ser enviados ao centro de detenção de Iakutsk, cidade capital da região. Aqueles que, depois do tratamento, se recusam a voltar ao front são presos no comando da Polícia Militar, situada na travessa Viliuisk, n.º 20 A, onde sofrem torturas e violências físicas e são proibidos de ir ao banheiro e de se comunicar com os parentes. As autoridades tentam os enviar de volta à força, e tudo isso ocorre ao som da canção Eu sou russo!, do “cantor” Shaman, ligada no último volume.

Já vou avisando que as imagens não são agradáveis, e os próprios combatentes filmaram e enviaram ao perfil militante Polit Sakhá, de onde a Free Yakutia Foundation tirou parte do material. Pros idiotas bananeiros, de “direita” ou “esquerda”, que ainda defendem Putin, ou não defendem e acham a invasão “legítima”, ou criticam ambos do canto da boca e preferem “culpar” Zelensky ou a OTAN, sobretudo comprando a narrativa falsa do “genocídio russo na Donbás”, tomem uma amostra do que é viver na moderna Rússia infernal.



Eu poderia caçar ou republicar muito do material semelhante que vejo na mídia alternativa, mas não tenho tempo, vontade ou intenção de criar um tipo de “contrapropaganda em massa”, por isso o melhor é que você mesmo use minha página apenas como um ponto de partida pra futuras pesquisas. Porém, achei essa notícia tão grotesca que precisei cutucar três pontos pouco contestados no Brasil: a “normalidade” de uma guerra de predação (que inclui a aceitação da narrativa putinista, a ignorância do sofrimento causado aos conscritos, a impressão de que o Exército Russo é funcional, entre outras coisas), o mito da harmonia multinacional na Rússia e o suposto apoio maciço do povo à invasão. Infelizmente, vou ter que parafrasear o Padre Kelmon no debate da TV Globo, mas “aqui só se fala de Palestina, parece que não acontece outra coisa”. E sim, o problema de nossa “esquerda”, mesmo de setores do governo Lula, não é se contrapor à matança em Gaza e à opressão na Cisjordânia, mas é se calar ou mesmo justificar um crime muito maior, com impacto geopolítico muito maior e que não tem nenhuma justificativa, mesmo diante da inépcia primordial de Zelensky pra política e do antiatlantismo acrítico de muitos militantes, a saber a invasão da Ucrânia por uma ditadura racista e expansionista.



No canal Telegram da mesma Free Yakutia Foundation, também se encontra o vídeo acima, mas achei ainda este outro abaixo, que mostra um bravo e inteligente “defensor da Mãe-Rússia” desviando um drone “fascista nazista sionista banderista otanista humorista”... com o pé. Até quis fazer uma edição com a sonoplastia das Videocassetadas do Faustão, mas fiquei com preguiça (ele já estava no canal com essa música):


A última edição do Géopolitis da RTS suíça me inspirou a fazer dois memes, de gosto mais ou menos duvidoso: o professor de educação sexual na China de Deng Xiaoping, que na década de 1980 impôs a “política do filho único” (abolida em 2015) e reformou completamente a economia; e o indiano que acaba de ter sua filha no agora país mais populoso do mundo.




sábado, 1 de junho de 2024

Como se elege o presidente dos EUA


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/presidente-eua


Na mídia brasileira, todo ano em que há eleições presidenciais nos EUA é feita uma explicação do estrambótico, arcaico e injusto sistema eleitoral do país, pelo menos pra esse cargo mais alto. Foi o caso do Jornal Nacional em 2 de novembro de 2020, quando Biden ganhou e Trump disse que não perdeu, do qual você pode ver abaixo uma cópia. Mas hoje lhe dou de presente uma espécie de versão premium, ou seja, a reportagem da edição mais recente do programa Géopolitis da Rádio e Televisão Suíça francófona (RTS), explicando exatamente conceitos como “colégio eleitoral”, “grandes eleitores”, “delegados” etc.

A transcrição é minha, tendo passado o texto no Google Tradutor e depois o configurado de acordo com minhas próprias escolhas e estilo. Não sei se minha tradução ficou perfeita, mas ela está inteligível, e pros estudantes de francês, pus também a transcrição dos números longos, lembrando que na Suíça eles dizem septante (70), huitante (80) e nonante (90), e não os soixante-dix, quatre-vingts e quatre-vingt-dix que atemorizam todo iniciante! O vídeo sem legendas apresentado e narrado por Laurent Huguenin-Élie, repórter que também é formado em História, também segue abaixo:




O sistema que conduz à eleição do presidente ou da presidenta é um tanto peculiar. Ele também é uma herança dos pais fundadores. Originalmente, eles tinham pensado numa votação em duas etapas, primeiro pra indicar os homens de confiança que elegem, a seguir, a pessoa mais qualificada pra se tornar presidente. Esses homens de confiança são os grandes eleitores. Hoje, seu papel é na verdade simbólico, já que representam, de certa forma, pontos a serem ganhos. Esses intermediários permitem que falemos em sufrágio universal indireto.

Os 50 estados do país indicam um total de 538 grandes eleitores que formam o Colégio Eleitoral. A cada estado é atribuído um número de grandes eleitores correspondente ao número de seus representantes no Congresso [Nacional]. É um truque que permite que os estados pequenos e menos populosos não sejam esmagados pelos grandes. Por exemplo: o estado do Wyoming tem um total de três eleitores – um que equivale a seu deputado na Câmara dos Representantes, mais dois, já que cada estado conta com dois senadores, independentemente de seu peso demográfico. Assim, um mais dois são três. A Califórnia, o estado mais populoso, pode contar com 54 grandes eleitores, ou seja, 52 mais dois.

No dia das eleições, os cidadãos americanos são convidados a marcar [na cédula] a opção correspondente aos candidatos de sua escolha. Assim, o candidato que ficar em primeiro lugar num estado leva todos os seus grandes eleitores. É eleito presidente aquele que conseguir no mínimo a maioria dos grandes eleitores, a saber 270 dos 538, mesmo que não tenha conseguido a maioria dos votos a nível nacional. Mas ainda não chegamos nessa etapa: neste verão [do Hemisfério Norte], democratas e republicanos vão apontar oficialmente, durante as convenções partidárias, os nomes de seus preferidos, ou seja, o candidato à presidência e o companheiro ou companheira de chapa à vice-presidência.


Le système qui mène à l’élection du président ou de la présidente est un peu particulier. On le doit là encore aux constituants. Ils avaient à l’origine imaginé un vote à deux étages, pour désigner d’abord les hommes de confiance qui élisent, en suite, la personne la plus qualifiée pour devenir président. Les hommes de confiance, ce sont les grands électeurs. Leur rôle est aujourd’hui en réalité symbolique, puis qu’ils représentent, en quelque sorte, des points à gagner. Ces intermédiaires font que l’on parle de suffrage universel indirect.

Les 50 [cinquante] états du pays désignent au total 538 [cinq-cent-trente-huit] grands électeurs qui forment le Collège électorale. Chaque état se voit attribuer un nombre de grands électeus qui correspond au nombre de ses représentants au Congrès. Une astuce qui permet aux petits états les moins peuplés de ne pas se faire écraser par les grands. Exemple : l’état de Wyoming compte au total trois grands électeurs – un qui encarne son élu à la Chambre des représentants, plus deux, puisque chaque état dispose de deux sénateurs, quel que soit son poids démografique. Ainsi, un plus deux égal trois. La Californie, l’état le plus peuplé, peut tabler sur 54 [cinquante-quatre] grands électeurs, à savoir 52 [cinquante-deux] plus deux.

Le jour de l’élection, les citoyens américains sont appelés à noircir la case correspondant aux candidats de leur choix. Ainsi, le candidat qui arrive en tête dans un état obtient la totalité de ses grands électeurs. Est élu président celui qui remporte au moins la majorité des grands électeurs, à savoir 270 [deux-cent-septante] sur 538, même s’il n’obtient pas la majorité des voix sur le plan national. Mais nous n’en sommes pas encore là : cet été, démocrates et républicains vont désigner officiellement, lors des conventions de partis, le nom de leurs poulains, c’est-à-dire le candidat à la présidence et la colistière ou le colistier pour la vice-présidence.


Adendo (5/11/2024): Se você chegou em qualquer momento a partir desta data, segue um bônus de presente! Como se não bastasse o clima de guerra civil que predomina desde 2016, a Globe tem que explicar pro Rolme Cimpço bananeiro como funciona esse tal Colégio Eleitoral todo santo ano de eleição nos EUA, rs. A bem da verdade, o sistema não é difícil de entender, e apenas a “filtragem”, considerada elitista, tem o condão, por exemplo, de botar menos partidos na corrida (e descartando, portanto, os folclóricos da vida pagos com o dinheiro do trouxibuinte) e dispensar a canseira do segundo turno existente em outros países. Nas reportagens acima, tirei na medida do possível as referências à atualidade e as análises sociológicas (por exemplo, sobre os “cinturões” indecisos) e mantive somente a explicação meramente politológica.

Estas duas reportagens foram exibidas ontem, 4 de novembro, porque hoje é o último dia de votação pra 2024, e as explicações estão muito boas. A do Jornal Hoje foi apresentada pela Chewbacca da GloboNews, e a do Jornal Nacional tem a locução do Super Bonder. Eu pirateei os dois vídeos usando a extensão Video DownloadHelper do Chrome (mas não roda só nele) e juntei as partes “aproveitáveis” num vídeo só, pra seu conforto e comodidade, mesmo que haja no conjunto informações redundantes. Espero que goste!