sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Trio Pakai (música folclórica friuliana)


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Nova leva de vídeos do meu finado YouTube. Com base nesta playlist, e após editar os áudios (aumentando o volume, sobretudo), montei o presente vídeo com as melhores canções instrumentais, algumas com breves vocais, do antigo grupo Trio Pakai, especializado em música folclórica da região do Friuli, no norte da Itália. Não me limitei à gravação dos três músicos originais, e coloquei também os áudios que tinham outras pessoas cantando/tocando suas canções (covers) ou com estilo parecido. A música da região é muito parecida com a da Eslovênia, ambas por sua vez fortemente influenciadas pela cultura austríaca. Tanto que boa parte das faixas, sobretudo no final, parece muito com a chamada “música de bandinha” da Oktoberfest!

Seguem abaixo os nomes das faixas, com os momentos do vídeo em que elas começam. Arbitrariamente escolhi quais seriam as três primeiras, e deixei no fim as não executadas pelo Trio Pakai. As outras posicionei de acordo com a ordem em que apareciam na playlist original. Com todas as limitações que meu trabalho pode ter, sobretudo na busca por informações lacunares, espero que você aproveite, e viva a música do Friuli, e também do Vêneto!

00:00 Slovenska polka
2:34 L’agho di Ludario
6:30 Melodia slovena
9:15 Mont da Sûdri
11:12 Valzer popolare
13:29 Zoventût
15:15 Valzer di Pakai
17:12 Sere d’estât
19:25 Primavera in Carnia
22:04 La pesarina
24:52 La serenade dal pastôr
27:06 La vôs da mê valade
29:17 La polka da mê int
31:20 In chêdì da las mês gnoços
34:30 Gnoçis
36:47 Fieste
39:13 Fantastico gaithal
42:29 Cence pinsîrs
45:16 Allegro Friuli
47:17 Al tramont
49:27 Sagre in pais
51:25 Trio Pakai ai Mistirs (2009, música não identificada)
55:13 Baronadis (cover)
57:56 Come une volte (cover)
59:50 evento nomeado “Un’allegra serata nelle Valli del Natisone”
1:03:21 Bo (grupo I rapeciaz no programa Lo scrigno)
1:05:59 Ma (idem)
1:09:14 Un biel fiascut (idem)



Enquanto procurava as mesmas canções do antigo Trio Pakai, originário da região italiana do Friuli (hoje Friuli-Venezia Giulia), achei também este vídeo gravado ao vivo em 6 de outubro de 2019, intitulado na língua friuliana Una domenia in alegrìa cun Pakai e amîs (Um domingo de alegria com Pakai e amigos). Embora os músicos originais não estivessem lá, decidi pegar o áudio e editar deixando apenas as partes tocadas e cantadas, muitas delas com sucessos do Trio Pakai, mas também com músicas de outras regiões, como a célebre eslovena Na Golici!

Por isso as fotos são idênticas às da montagem anterior. Se você se interessar pelos momentos em que há diálogos claramente falados em friuliano, pode sem hesitar recorrer ao vídeo original. Quem souber francês, talian/vêneto ou alguma língua românica vizinha, perceberá a presença de muitas palavras e expressões em comum! Em todo caso, espero que goste da nova montagem e se divirta mais uma vez.



quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Música eslovena, holandesa, húngara...


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Mais uma publicação que é um pretexto pra ressuscitar outros vídeos que eu tinha lançado no meu extinto canal do YouTube, e aos quais agora dou aqui uma unidade conceitual, com a ocasião de mostrar também os textos informativos que eu tinha inserido na descrição. Hoje vai ser muito legal, porque são canções instrumentais de vários lugares da Europa, com destaque pra Eslovênia, da qual é raro acharmos algo naquela plataforma usando apenas o português!



Achei muito por acaso o canal esloveno IMA NADE GROBNIK, que ainda tem muito poucos escritos e visualizações, mas quase diariamente posta um tesouro escondido: muita música folclórica e popular da Eslovênia (antiga e moderna) sem nenhuma propaganda interrompendo (há raras exceções). Esta é a playlist original, mas executando as canções em ordem inversa à que pus no vídeo. Você pode ver inclusive os títulos, com clássicos nacionais como Na Golici e Na avtocesti.

Pelo que consta, a banda em questão se chama Lady Luna, e esta é a gravação em áudio de um show que eles dizem ter sido ao vivo, dado na cidade eslovena de Boljun (Bogliuno, em italiano) em 2006. Não pesquisei mais sobre o grupo nem sobre o evento, mas espero que você aproveite essa música tão animada. Precisamos regar as veias da cultura brasileira com sangue novo!


Uma hora e vinte minutos de música instrumental eslovena tocada em acordeão, extraída de uma fita antiga republicada no YouTube.


Na República Checa, na Alemanha e na Áustria, esse tipo de polca é chamada em geral “música pra tomar cerveja”, de preferência com um conjunto de amigos, e é muito comum em festas do gênero Oktoberfest. Achei um pot-pourri por acaso num ótimo canal (hoje indisponível) de música checa tradicional, que eu recomendo a você explorar e se inscrever, mas eu mesmo decidi fazer minha própria montagem.

As canções são tocadas e cantadas pela Kapela (banda) Chodovarka, e o mix de polcas (směs polek) é chamado Hraj kapelo hraj (Toque, banda, toque). O nome kapela em tcheco, Blaskapelle em alemão e brass band em inglês é reservado a esses conjuntos folclóricos de instrumentos metálicos da Europa Central, que no sul do Brasil são comicamente chamados “bandinha” ou “pandinha”. Os nomes das três polcas tocadas são Hraj kapelo hraj, Přerovanka e Pivovarští koně.


Uma hora e meia de música folclórica holandesa. Retiradas de dois CDs antigos, fora de circulação, comprados na cidade de Holambra, SP, que trazem as principais canções (em geral instrumentais) tocadas e dançadas nas apresentações da Expoflora, que se realiza em agosto e setembro de todos os anos nessa cidade. Infelizmente estou sem os títulos das faixas comigo.


Música e dança folclóricas da Hungria, filmadas em Budapeste, capital do país, pelo visitante David McWilliams, que postou o vídeo no YouTube após selecionar os melhores momentos.


O kolo (literalmente “anel, roda”), uma dança de fato executada em roda, dançada numa festa de casamento provavelmente de muçulmanos na cidade de Sarajevo, capital da Bósnia e Herzegóvina, em novembro de 2018. Eu baixei sem mudanças do YouTube, mas infelizmente perdi o endereço da fonte. Os “bósnios” na verdade são etnicamente sérvios ou croatas, mas apenas a religião muçulmana, herança da dominação otomana, que é diferente.


segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Nasser, Gaddafi, Saddam: chefia árabe


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Esta publicação é um pretexto pra ressuscitar mais três vídeos que eu tinha lançado no meu extinto canal do YouTube, e aos quais agora dou aqui uma unidade conceitual, com a ocasião de mostrar também os textos informativos que eu tinha inserido na descrição.

Primeiro, várias filmagens reunidas, feitas nos anos de 1969 e 1970, em eventos com a rara participação conjunta de Gamal Abdel Nasser, presidente do Egito que derrubou a monarquia em 1952 e controlou o país até a morte, e Muammar Gaddafi, militar que depôs o rei da Líbia em 1969 e liderou um regime peculiar até ser assassinado em 2011. Embora os encontros tenham sido frequentes em 1970, por causa das ideologias que os aproximavam, digo que foram “raros” porque Gaddafi ascendeu ao poder em 1969, e Nasser logo teria um infarto fulminante em 1970.

O legado dos dois governantes ainda é muito discutido, mas sem dúvida eles colaboraram pra que seus países conhecessem um desenvolvimento jamais visto em suas histórias e tivessem ainda relevante papel nas relações internacionais. Considerados ditadores pelo Ocidente, seus povos continuam os venerando, sobretudo Nasser, que era muito carismático e não tão excêntrico quanto Gaddafi. Reuni alguns vídeos que consegui achar no YouTube, e tirei o áudio de alguns porque podia ter problemas com direitos autorais das músicas de fundo.

O primeiro é provavelmente o mais antigo e que me levou a continuar a série, e tentei o quanto possível colocar em ordem cronológica. Seguem as fontes, que não estão nessa ordem e uma das quais (não sei qual) me esqueci de inserir na montagem:

http://youtu.be/Rc65-48iTac
http://youtu.be/CGURHWsfGWc
http://youtu.be/1RJO-0bQE98
http://youtu.be/k7kHfqp7Wr0
http://youtu.be/yHovguFusVI
http://youtu.be/2TyzkWo9JUw
http://youtu.be/l92ZFXlEmVA
http://youtu.be/oB1DvO7SUsE


Encontrei estes vídeos por acaso, num canal iraquiano com muito material raro sobre a TV do Iraque em décadas anteriores à derrubada de Saddam Hussein. Eu fundi a parte 1 e a parte 2, tendo também cortado o quadro e tirado uns trechos com chegadas, falatórios e orações. Após passar os títulos, descrições e alguns comentários no Google Tradutor, concluí que talvez seja uma grande comemoração em Bagdá da reconstrução, após 4 meses de trabalho, da cidade de Faw (ou Al-Faw), localizada no estreito litoral que dá no golfo Pérsico e bem na fronteira com o Kuwait.

Durante a guerra contra o Irã (1980-88), a cidade de Faw, importante e estratégico porto costeiro, foi quase toda destruída, e depois acabou sendo toda remodelada. Nos referidos festejos, em que também podem se ver o rei Hussein (Jordânia), os presidentes Ali Abdullah Saleh (Iêmen), Omar Bashir (Sudão), Hosni Mubarak (Egito) e Yasser Arafat (Autoridade Palestina), há demonstrações bélicas e, sobretudo, um grande show cultural e musical mais pra frente, praticamente uma celebração da “unidade pan-árabe” (atenção à música típica que aos 39 min 20 seg começa a tocar).

Há ainda uma terceira parte que, por ter sido achada e editada bem depois, está com o design diferente e, portanto, decidi não colocar junto. Ao contrário do vídeo anterior, este contém os selos de quem editou e postou primeiro. Usando as informações traduzidas do árabe, cheguei a esta notícia da Associated Press que, se está certa, anuncia as celebrações por Faw pra 25 de outubro de 1989.

O presidente “baathista” Saddam Hussein invadiria o Kuwait no ano seguinte pra anexar toda a saída ao mar, mas seria derrotado pela coalizão internacional liderada pelos EUA em 28 de fevereiro de 1991. As grandes mãos que seguram espadas ao fundo se chamam comumente “Arco da Vitória” (Qaws an-Nasr), e foram construídas entre 1986 e 1989 pra homenagear os soldados mortos na guerra contra o Irã. Até hoje são a maior atração turística de Bagdá, mas imagino que realmente Saddam não tinha nada mais útil pra construir no Iraque...


Encontrei este vídeo por acaso, num canal iraquiano maravilhoso com muitíssimo material raro sobre a TV do Iraque em décadas anteriores à derrubada de Saddam Hussein. É a parada militar completa, ocorrida em Bagdá, do Dia do Exército, comemorado até hoje no Iraque todo 6 de janeiro. Como convidados especiais junto ao ditador, temos os reis Fahd da Arábia Saudita (de amarelo) e Hussein da Jordânia (de terno).

A edição do vídeo, do qual cortei o quadro e tirei uns trechos com chegadas, falatórios e orações, data de 1990, exatamente o mesmo ano em que o presidente Saddam Hussein, cujo regime similar ao da família Assad na Síria era chamado “baathismo”, invadiu o Kuwait pra anexar essa saída ao mar do golfo Pérsico. Como eu já disse acima, a invasão se iniciaria em 2 de agosto, mas o Iraque seria derrotado pela coalizão internacional liderada pelos EUA em 28 de fevereiro de 1991.

Nas duas paradas realizadas no Iraque, a marcha militar predominante se chama Nasser, composta como uma homenagem pessoal a Gamal Abdel Nasser, da época em que ele presidia a chamada República Árabe Unida, efêmera união política com a Síria durante a década de 1960. Como disse um antigo inscrito meu do YouTube: o Saddam tá parecendo o Nicolás Maduro com esse bigodão preto, rs.


sábado, 17 de setembro de 2022

Jogo da memória (alfabeto glagolítico)

Eu criei este inusitado joguinho da memória em janeiro de 2018 e o deixei guardado por quase três anos, até que em 27 de dezembro de 2020 finalmente “tomei coragem” pra gravar um vídeo apresentando-o e explicando-o. Ele foi originalmente postado no YouTube, mas como meu canal foi derrubado, estou o republicando aqui.

Cada peça, que vem em pares iguais, contém uma letra do alfabeto glagolítico, presumidamente criado no fim do século 9 pelos monges Constantino (Cirilo) e Metódio pra escrever a língua eslava antiga de evangelização dos eslavos na Grã-Morávia. Inseri seus supostos nomes, equivalentes em cirílico e valores numérico e fonético. Criei o jogo como uma espécie de meio pra memorizar esta inusitada escrita antiga, e pra que mais pessoas pudessem conhecê-la.

Baixe aqui caso você se interesse pelo modelo original em formato PDF. Porém, você mesmo vai ter que completar com as partes que foram feitas a caneta!

NOTA: As observações sobre comentários abertos e pedidos de opiniões se inserem no contexto de quando o vídeo tinha sido publicado primeiramente no meu extinto canal do YouTube. É dentro disso que devem ser entendidos.



quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Festa de santa Catarina de Alexandria


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/zejtun


Como tenho tido muita curiosidade sobre a história, cultura e língua do pequeno arquipélago de Malta ultimamente, acabei encontrando dois belos vídeos que mostram trechos da popular festa em louvor a santa Catarina de Alexandria, celebrada na cidade de Żejtun todo terceiro domingo de junho. Resolvi postar aqui porque além de ser visualmente bonito, as bandas marciais que tocam na ocasião também são muito agradáveis. Malta já foi um domínio árabe, siciliano, francês, italiano e inglês, e hoje constitui um país independente, o único pertencente à União Europeia a ter uma língua semítica como oficial.

De fato, a língua maltesa tem um núcleo estrutural e gramatical semítico, descendendo do siculo-árabe, ou seja, uma variante do árabe falada na Sicília quando ela teve domínio islâmico, em meados da Idade Média. Com a mudança de muitos habitantes sicilianos pra ilha de Malta, a língua deles também foi levada pra lá, mas quando a região foi cristianizada, a ligação do siculo-árabe com o resto do mundo islâmico foi cortada. Por isso, apenas 1/3 do vocabulário maltês atual tem origem árabe, aliás muito parecido com o dialeto tunisiano. Metade das palavras se originam do italiano, e o resto tem origem inglesa (sobretudo) e francesa, refletindo outras dominações a partir do século 19.

Malta é pequenininha, mas tem muitas igrejas e atrações turísticas, e o povo de lá é muito orgulhoso de sua identidade católica. Santa Catarina de Alexandria, que também é muito celebrada em outros países e até por confissões ortodoxas e pelos coptas, é padroeira da cidade de Żejtun (se lê “zeytún”), onde tem uma bela paróquia com igreja. Estas imagens foram gravadas em 2019, e infelizmente, em 2020 a festa que reúne multidões foi cancelada por causa da pandemia. Vídeos originais por ordem cronológica (o canal também registra outras festas católicas locais):

http://youtu.be/4RAGOAwiBko
http://youtu.be/U4mcdaeLQeo



Como brinde, também ofereço algumas marchas tocadas pelas referidas bandas, em homenagem à santa, que postei no meu extinto canal do YouTube! Infelizmente não sei mais de que vídeos tirei os áudios, mas apenas do primeiro eu guardei o endereço, porque achei mais recentemente e inseri numa nova edição de minha montagem. Baixe aqui também o áudio MP3 com todas as músicas, caso queira ouvir em separado. Bom divertimento!



terça-feira, 13 de setembro de 2022

Morte da rainha pode ser mau agouro

Esta edição do programa de entrevistas francês C dans l’air (Está no ar), geralmente apresentado pela jornalista Caroline Roux, me deixou espantado em retrospectiva. O título da transmissão faz alusão ao fato de Liz Truss, sucessora de Boris Johnson no comando do Reino Unido, apresentar-se como uma nova Margaret Thatcher, mas o foco das conversas é a crise econômica, social e política que atravessa o país, e em dado momento, chega a pergunta de um telespectador, sobre os perigos desses abalos pra sobrevivência da monarquia.

Uma das jornalistas participantes responde que a crise em si não apresenta perigo pra monarquia, mas que a morte da rainha poderia sacudir bastante a sociedade britânica. Isso foi no dia 5 de setembro, e no dia 8 falecia Elizabeth 2.ª, a soberana que parecia imortal. Achei o mau agouro tão interessante que decidi separá-lo e traduzi-lo aqui, seguido da transcrição em francês. Apenas numa palavra entre colchetes fiquei em dúvida se a primeira jornalista falou isso mesmo, mas não prejudica o todo. Obviamente, é esta que fala a maior parte, mas decidi colocar a resposta de ambas, porque traz informação instrutiva e pra não tirar de contexto a frase da segunda.

Vamos ver se a profecia vai se cumprir...



Caroline Roux – Pergunta de Dominique, do departamento de Yvelines: “A crise no Reino Unido poderia desestabilizar a monarquia inglesa?”

Anne-Élisabeth Moutet – Não, provavelmente não, não é isso que vai desestabilizar a monarquia inglesa. Só se o príncipe Andrew continuar pensando que pode ocupar o centro das atenções, não é bom. Mas é que nesse caso dizem: “Espera-se da família real uma moralidade absoluta, a mesma da rainha, e quando um de seus filhos não a tem, é algo que choca”. Mas pelo contrário, o símbolo da rainha é o símbolo de alguém frugal, mesmo se ela mora num palácio de 360 cômodos, que apaga a luz quando sai do cômodo em que está, que baixa a temperatura – porque em todo caso a calefação central não é algo de sua geração. E acho que não, pelo contrário, a monarquia, assim como a covid, vai unir as pessoas, e provavelmente, aliás, vai haver gestos tanto da rainha quanto do príncipe Charles – que está se aproximando, mesmo devagar, do trono e que fundou há muito tempo uma instituição de caridade que é mais do que isso e que trabalha pra dar oportunidades a jovens desfavorecidos. É algo que educa até os 30 anos, o Prince’s Trust. Portanto, não, pelo contrário, isso vai manter uma certa coesão no país.

Marion Van Renterghem – De fato, acho que a crise não pode desestabilizar a monarquia. Em contrapartida, acho que a morte da rainha pode desestabilizar consideravelmente a sociedade britânica.


Caroline Roux – Question de Dominique, dans les Yvelines : “La crise au Royaume-Uni pourrait-elle déstabiliser la monarchie anglaise ?”

Anne-Élisabeth Moutet – Non, probablement pas, c’est pas ça qui va déstabiliser la monarchie anglaise. C’est si le prince Andrew continue à penser qu’il peut venir sur le devant de la scène, c’est pas bien. Mais, parce que là on dit : “On attend de la famille royale une moralité absolue, qui est celle de la reine, et quand l’un de ses enfants ne l’a pas, ça c’est quelque chose qui choque”. Mais au contraire, le symbole de la reine, c’est le symbole de quelqu’un de frugal, même si elle vit dans un palais de 360 (trois-cent-soixante) pièces, qui ferme la lumière quand elle quitte la pièce où elle est, qui fait baisser la température – parce que de toute façon le chauffage central, c’est pas quelque chose de sa génération. Et je pense que non, au contraire, la monarchie, comme pour le covid, va rassembler les gens, et il y aura probablement des gestes d’ailleurs, et de la reine, et du prince Charles – qui se rapproche, même lentement, du trône et qui a créé depuis très longtemps un organisme charitative qui est plus que ça et qui s’occupe de donner des chances à des jeunes défavorisés. Ça c’est quelque chose qui [élève] 30 (trente) ans, le Prince’s Trust. Et donc non, au contraire, ça va garder une certaine cohésion au pays.

Marion Van Renterghem – Je pense que la crise, en effet, ne peut pas déstabiliser la monarchie. En revanche, je pense que la mort de la reine peut déstabiliser la société britannique considérablement.



domingo, 11 de setembro de 2022

Putin curte mais o Jair que o Charles


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Vamos comparar três telegramas que Vladimir Putin mandou nos últimos dias, já que ele não usa Twitter e ainda se vale desse precioso meio de comunicação pra fugir das tretas. Em ordem cronológica, um dá os parabéns a Jair Bolsonaro pelos 200 anos da proclamação da independência do Brasil, outro dá as condolências ao agora rei britânico Charles 3.º pela morte de sua longeva mãe e o terceiro dá os parabéns ao mesmo por assumir a coroa do Reino Unido.

Eu mesmo traduzi os três, e podemos observar como a mensagem ao presidente brasileiro, além de ser mais longa, parece mais calorosa, já que a Rússia e a Europa Ocidental como um todo não estão nos seus melhores momentos diplomáticos. Engraçado também é o nome do presidente transcrito em russo, no caso gramatical dativo, ou seja, “Jairu Messiasu Bolsonaro”, e o nome de Charles constar como Karl na língua russa (também no dativo, “Karlu”). Por fim, observe que o fuso de Moscou está seis horas à frente do nosso.



A Jair Messias Bolsonaro, Presidente da República Federativa do Brasil
Felicitações – 7 de setembro de 2022, 9h de Moscou

Estimado senhor Presidente,

Aceite minhas mais calorosas felicitações pelos 200 anos da proclamação da independência do Brasil.

Seu país é um membro extremamente prestigioso da comunidade internacional, desempenha um papel importante na economia mundial e participa ativamente das decisões de muitas questões atuais da ordem do dia regional e global.

As relações russo-brasileiras portam um caráter amistoso, como foi plenamente confirmado por nossas conversações de fevereiro em Moscou. Estão dando um bom retorno a colaboração bilateral em diversas áreas e a cooperação no âmbito da ONU, dos BRICS, do G-20 e de outras estruturas multilaterais.

Estou confiante em que, com esforços conjuntos, garantiremos a contínua expansão da parceria estratégica entre a Rússia e o Brasil em proveito de nossos povos.

Desejo-lhe sinceramente sucesso e muita saúde, e a todos seus concidadãos, felicidade e prosperidade.

Respeitosamente,

Vladimir Putin


À Sua Majestade, o Rei Charles 3.º
Condolências – 8 de setembro de 2022, 22h45min de Moscou

Majestade,

Aceite minhas profundas condolências pelo falecimento da Rainha Elizabeth 2.ª.

Com o nome de Sua Majestade [a Rainha] estão indissociavelmente ligados os mais importantes acontecimentos da história contemporânea do Reino Unido. No decorrer de muitas décadas, Elizabeth 2.ª desfrutou legitimamente do amor e do respeito de seus súditos, bem como da autoridade no cenário mundial.

Desejo-Lhe coragem e firmeza em face dessa pesada e irreparável perda. Peço que transmita minhas palavras de sentimentos e apoio sinceros aos membros da família real e a todo o povo da Grã-Bretanha.

Respeitosamente,

Vladimir Putin


À Sua Majestade, Charles 3.º, Rei do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte
Felicitações – 10 de setembro de 2022, 13h35min de Moscou

Majestade,

Aceite minhas sinceras felicitações por ocasião de Sua ascensão ao trono.

Desejo a Vossa Majestade sucesso, muita saúde e tudo de melhor.

Respeitosamente,

Vladimir Putin



E olha que o monarca já comparou Putin ao Adolfinho!

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Primeiro discurso do rei Charles 3.º


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Este foi o discurso transmitido pela TV britânica em 9 de setembro de 2022, um dia após a morte da rainha Elisabeth (Isabel) 2.ª aos 96 anos de idade, feito pelo príncipe herdeiro Charles, que desde então passou a ser conhecido como Charles (Carlos) 3.º. O evento é considerado histórico, pois Elisabeth foi a monarca que mais reinou na história da Inglaterra e do Reino Unido, não havendo transição desde 1952 (a coroação foi no ano seguinte), ou seja, antes até da morte de Stalin.

A transmissão ao vivo ocorreu do Palácio de Buckingham às 18h de Londres, 14h de Brasília, e segue abaixo a gravação publicada pelo Washington Post, com Charles visivelmente emocionado. Eu mesmo traduzi direto do inglês usando esta transcrição, que também segue abaixo porque não tenho certeza se um dia a fonte não sai do ar. Me permiti algumas liberdades quanto a pontuação e uso de maiúsculas. Fiz também algumas notas explicativas, às vezes quanto a minhas opções de tradução, mas se tiver alguma sugestão ou correção, não heiste em me mandar um WhatsApp.


Hoje me dirijo a vocês com sentimentos de profundo pesar. Por toda a sua vida, Sua Majestade a Rainha, minha amada mãe, foi para mim e para toda minha família uma inspiração e exemplo. E guardamos para com ela a mais sincera dívida que qualquer família poderia guardar à sua mãe, por seu amor, afeição, orientação, compreensão e exemplo. A rainha Elizabeth teve uma vida bem vivida, cumpriu sua promessa com o destino e está recebendo o mais profundo luto por seu falecimento. Essa promessa de servir por toda a sua vida eu renovo hoje a vocês.

Além da dor pessoal que toda minha família está sentindo, também partilhamos com tantos de vocês no Reino Unido, em todos os países onde a rainha era chefe de Estado, na Commonwealth e ao redor do mundo, um profundo sentimento de gratidão pelos mais de setenta anos em que minha mãe, como rainha, serviu ao povo de tantas nações.

Em 1947, quando completou vinte e um anos de idade, ela prometeu, em uma transmissão a partir da Cidade do Cabo para a Commonwealth, dedicar sua vida, por mais curta ou longa que fosse, a serviço de seus súditos. Essa foi mais do que uma promessa. Foi um compromisso profundo e pessoal que definiu sua vida inteira. Ela fez sacrifícios pelo dever. Sua dedicação e devoção como soberana nunca vacilaram, através de tempos de mudança e progresso, através de tempos de alegria e celebração e através de tempos de tristeza e perda. Em sua vida de serviço, vimos esse persistente amor pela tradição, junto com sua aceitação destemida do progresso, o que nos faz grandes como nações. O afeto, admiração e respeito que ela inspirava tornaram-se marca registrada de seu reinado, e como cada membro da família pode atestar, ela combinava essas qualidades com a simpatia, o humor e uma infalível habilidade de sempre ver o melhor em cada pessoa.

Presto tributo à memória de minha mãe e honro sua vida de serviço. Sei que sua morte traz uma grande tristeza para muitos de vocês, e eu partilho desse sentimento de perda, além da medida, com todos vocês. Quando a rainha acedeu ao trono, a Grã-Bretanha (1) e o mundo ainda estavam superando as privações e consequências da Segunda Guerra Mundial, e vivendo ainda sob as convenções de tempos passados. Ao longo dos últimos setenta anos, vimos nossa sociedade tornar-se um mosaico de culturas e fés. Em resposta, as instituições de Estado transformaram-se. Mas, por entre todas as mudanças e desafios, nossa nação e a família mais ampla dos países da Commonwealth, (2) por cujos talentos, tradições e conquistas nem sequer sei como expressar meu orgulho, prosperaram e floresceram. Nossos valores permaneceram, e devem permanecer, constantes.

O papel e os deveres da monarquia também permanecem, assim como a relação e responsabilidade particulares do soberano para com a Igreja da Inglaterra, (3) a igreja em que minha própria fé está tão profundamente enraizada. Nessa fé e nos valores que ela inspira, fui educado para nutrir um senso de dever para com os outros e para manter com o máximo respeito as preciosas tradições, liberdades e responsabilidades de nossa história inigualável e de nosso sistema parlamentar de governo. Assim como a própria rainha fez com inquebrantável devoção, eu mesmo também prometo agora solenemente, através do tempo restante que Deus me conceder, sustentar os princípios constitucionais no coração de nossa nação. E onde quer que vocês possam viver no Reino Unido, nos países da Commonwealth ou nos territórios ao redor do mundo, e qualquer que seja sua origem ou crença, farei de tudo para servir-lhes com lealdade, respeito e amor, assim como fiz por toda a minha vida.

Obviamente minha vida mudará assim que eu assumir minhas novas responsabilidades. Não me será mais possível dedicar tanto do meu tempo e energia à caridade e assuntos pelos quais me preocupo tão profundamente. Mas sei que esse importante trabalho passará para outras mãos confiáveis. Este também é um tempo de mudança para minha família. Conto com a ajuda amorosa de minha querida esposa, Camilla. Em reconhecimento a seu próprio serviço público leal desde que nos casamos, há dezessete anos, ela se tornará minha rainha consorte. Sei que ela trará às exigências de seu novo papel a incansável devoção ao dever com a qual tanto posso contar.

Como meu herdeiro, William agora assume os títulos escoceses que tanto significaram para mim. Ele me sucederá como Duque da Cornualha e assumirá as responsabilidades para o Ducado da Cornualha que detive por mais de cinco décadas. Hoje tenho o orgulho de investi-lo como Príncipe de Gales, Tywysog Cymru, (4) o país cujo título fui tão privilegiado de portar, durante tanto tempo de minha vida e ofício. Com Catherine a seu lado, sei que nossos novos Príncipe e Princesa de Gales continuarão inspirando e liderando nossas conversações nacionais, ajudando a aproximar as áreas remotas da zona central, onde podem receber ajuda para viver. Quero também expressar meu amor por Harry e Meghan, que continuam a construir suas vidas no exterior.

Em pouco mais de uma semana, estaremos unidos, como nação, como Commonwealth, e de fato como uma comunidade global, para sepultar minha amada mãe. Em nosso pesar, recordemos e tiremos forças da luz de seu exemplo. Em nome de toda minha família, posso oferecer apenas os mais sinceros e cordiais agradecimentos pelas condolências e apoio de vocês. Eles significam para mim mais do que eu possa expressar de qualquer forma.

E à minha querida mamãe, que está começando sua última grande viagem para juntar-se a meu finado papai querido, quero dizer simplesmente: obrigado. Obrigado por seu amor e devoção à nossa família e à família de nações a que você serviu com tanta diligência por todos esses anos. Que “anjos em revoada cantem para o teu descanso”. (5)

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I speak to you today with feelings of profound sorrow. Throughout her life, Her Majesty The Queen – my beloved Mother – was an inspiration and example to me and to all my family, and we owe her the most heartfelt debt any family can owe to their mother; for her love, affection, guidance, understanding and example. Queen Elizabeth was a life well lived; a promise with destiny kept and she is mourned most deeply in her passing. That promise of lifelong service I renew to you all today.

Alongside the personal grief that all my family are feeling, we also share with so many of you in the United Kingdom, in all the countries where The Queen was Head of State, in the Commonwealth and across the world, a deep sense of gratitude for the more than seventy years in which my Mother, as Queen, served the people of so many nations.

In 1947, on her twenty-first birthday, she pledged in a broadcast from Cape Town to the Commonwealth to devote her life, whether it be short or long, to the service of her peoples. That was more than a promise: it was a profound personal commitment which defined her whole life. She made sacrifices for duty. Her dedication and devotion as Sovereign never wavered, through times of change and progress, through times of joy and celebration, and through times of sadness and loss. In her life of service we saw that abiding love of tradition, together with that fearless embrace of progress, which make us great as Nations. The affection, admiration and respect she inspired became the hallmark of her reign. And, as every member of my family can testify, she combined these qualities with warmth, humour and an unerring ability always to see the best in people.

I pay tribute to my Mother’s memory and I honour her life of service. I know that her death brings great sadness to so many of you and I share that sense of loss, beyond measure, with you all. When The Queen came to the throne, Britain and the world were still coping with the privations and aftermath of the Second World War, and still living by the conventions of earlier times. In the course of the last seventy years we have seen our society become one of many cultures and many faiths. The institutions of the State have changed in turn. But, through all changes and challenges, our nation and the wider family of Realms – of whose talents, traditions and achievements I am so inexpressibly proud – have prospered and flourished. Our values have remained, and must remain, constant.

The role and the duties of Monarchy also remain, as does the Sovereign’s particular relationship and responsibility towards the Church of England – the Church in which my own faith is so deeply rooted. In that faith, and the values it inspires, I have been brought up to cherish a sense of duty to others, and to hold in the greatest respect the precious traditions, freedoms and responsibilities of our unique history and our system of parliamentary government. As The Queen herself did with such unswerving devotion, I too now solemnly pledge myself, throughout the remaining time God grants me, to uphold the Constitutional principles at the heart of our nation. And wherever you may live in the United Kingdom, or in the Realms and territories across the world, and whatever may be your background or beliefs, I shall endeavour to serve you with loyalty, respect and love, as I have throughout my life.

My life will of course change as I take up my new responsibilities. It will no longer be possible for me to give so much of my time and energies to the charities and issues for which I care so deeply. But I know this important work will go on in the trusted hands of others. This is also a time of change for my family. I count on the loving help of my darling wife, Camilla. In recognition of her own loyal public service since our marriage seventeen years ago, she becomes my Queen Consort. I know she will bring to the demands of her new role the steadfast devotion to duty on which I have come to rely so much.

As my Heir, William now assumes the Scottish titles which have meant so much to me. He succeeds me as Duke of Cornwall and takes on the responsibilities for the Duchy of Cornwall which I have undertaken for more than five decades. Today, I am proud to create him Prince of Wales, Tywysog Cymru, the country whose title I have been so greatly privileged to bear during so much of my life and duty. With Catherine beside him, our new Prince and Princess of Wales will, I know, continue to inspire and lead our national conversations, helping to bring the marginal to the centre ground where vital help can be given. I want also to express my love for Harry and Meghan as they continue to build their lives overseas.

In a little over a week’s time we will come together as a nation, as a Commonwealth and indeed a global community, to lay my beloved mother to rest. In our sorrow, let us remember and draw strength from the light of her example. On behalf of all my family, I can only offer the most sincere and heartfelt thanks for your condolences and support. They mean more to me than I can ever possibly express.

And to my darling Mama, as you begin your last great journey to join my dear late Papa, I want simply to say this: thank you. Thank you for your love and devotion to our family and to the family of nations you have served so diligently all these years. May “flights of Angels sing thee to thy rest”.


Notas (clique no número pra voltar ao texto)

(1) É sempre bom lembrar: Reino Unido compreende todo o Estado monárquico, ou seja, a Grã-Bretanha e a Irlanda do Norte, mais os domínios ultramarinos; Grã-Bretanha é a porção de terra que inclui apenas Inglaterra, Escócia e País de Gales, e não as duas Irlandas; e Ilhas Britânicas é o conjunto geográfico que inclui a porção europeia do Reino Unido e a República da Irlanda. Às vezes também se usa o adjetivo “britânico” (ou mesmo “inglês”, embora mais específico) em referência ao Reino Unido em geral.

(2) “Paíse(s) da Commonwealth” foi a melhor forma que encontrei de traduzir a expressão “realm(s)”. Além disso, dada sua particularidade histórico-política, decidi não traduzir Commonwealth, nem como “Comunidade” ou “Comunidade Britânica de Nações”.

(3) Também conhecida como Igreja Anglicana, fundada pelo rei Henrique 8.º e cujo chefe é o próprio monarca britânico.

(4) Expressão em língua galesa, língua céltica nativa do País de Gales (Wales em inglês, Cymru em galês), e não germânica, como o inglês.

(5) Expressão extraída de Hamlet, peça de William Shakespeare, aqui na tradução/adaptação que achei aleatoriamente no Google Livros feita por Júlio Emílio Braz (Jandira, Editora Principis, 2021).



domingo, 4 de setembro de 2022

Porta-voz de Putin fala de Gorbachov


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/gorby-peskov


Encerrando nossa série em memória de Mikhail Gorbachov, último líder da extinta União Soviética (URSS) e seu primeiro e único presidente (cargo criado como consequência de suas reformas fracassadas), apresento minha tradução a esta resposta dada à pergunta de um repórter por Dmitri Peskov, secretário de imprensa do Kremlin e porta-voz do presidente russo Vladimir Putin. Decidi traduzir porque também achei interessante como documento histórico sobre a relação tensa e ambígua do putinismo com essa época de reformas (Gorbachov e Ieltsin), a se notar pelo jeito balbuciante com que Peskov tenta fornecer um argumento.

Obviamente que o porta-voz do invasor da Ucrânia, devendo refletir em alto grau a opinião do governo, não podia rasgar-se em elogios ao ex-dirigente, mas também não podia “meter o pau”, já que, segundo consta, uma geração de jovens está estudando sozinha a história e tirando suas próprias conclusões. Porventura, jamais saberemos o que Peskov realmente pensa, e como ele viveu aquela parte tão turbulenta do que ele chama de “nossa grande história”.

A melhor transcrição, que pelo menos não exponha só fragmentos da fala, foi publicada pelo jornal Komsomolskaia pravda, e eu apenas preenchi com a tradução direta de alguns trechos orais que não constavam no site. O vídeo de Peskov sem legendas, que também segue abaixo, foi publicado no canal do jornal russo Kommersant. E no final, um presente: o vídeo de propaganda gravado em 2005, que fica na página inicial do site do Fundo Gorbachov, que resgatei caso os donos tirem do ar. Tem legendas em inglês, não tive tempo de traduzir.


Falecido ontem, Mikhail Sergeievich Gorbachov foi um homem de Estado que vai ficar pra sempre na história de nosso país. Muitos disputam sobre o papel que ele desempenhou. Mas que ele foi uma pessoa extraordinária, uma pessoa única, isso é ponto pacífico. Ele é conhecido e lembrado, e será lembrado, no mundo todo.

Também há muitas disputas. Por exemplo, a conclusão da guerra fria. Sim, Gorbachov impulsionou a conclusão da guerra fria, e ele quis crer sinceramente que quando ela terminasse, começaria um eterno período de romance entre a nova URSS e o chamado “Ocidente coletivo”. Esse romance não se concretizou, não se obteve nenhum romance nem o século de lua de mel: a sede de sangue de nossos oponentes ficou escancarada. Que bom que isso foi reconhecido e entendido a tempo.

Hoje de manhã o presidente enviou um telegrama de condolências aos familiares e amigos de Gorbachov. Essa é realmente uma grande perda pra todos nós.

Quanto à força da convicção, a história não se conjuga no modo subjuntivo. Por isso, argumentar se fosse assim, se hoje tudo fosse diferente, se fosse assado, isso não existe. Só podemos e devemos conhecer nossa história em detalhes, cada um terá seu ponto de vista sobre o que foi bom, o que foi ruim e o que falhou.

Mas em todo caso, tudo isso é nossa história, da qual você e eu nos orgulhamos e vamos sempre nos orgulhar. Porque essa é uma grande história.



sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Putin “lamenta” morte de Gorbachov

Como postei aqui, a relação do presidente (praticamente ditador) russo Vladimir Putin com o último líder da extinta URSS (como secretário-geral do Partido Comunista e como presidente do país) Mikhail Gorbachov não era das melhores. Por isso, ao contrário do que ocorreu entre os líderes ocidentais, não era de se esperar que o Kremlin soltasse qualquer nota extremamente elogiosa. O telegrama assinado por Putin à família de Gorbachov é totalmente quadrado e protocolar.

Gorbachov não foi um bom líder. É claro que seu grande mérito foi a distensão militar com o resto do mundo, alcançada por sua simpática personalidade. Mas internamente, as reformas redundaram em total fracasso, num sistema político-econômico absurdo que praticamente era irreformável, e a violência e o autoritarismo não saíram de cena quando mais convinha, sobretudo nas muitas mortes durante as primeiras rebeliões nas repúblicas não eslavas.

Como traduções minhas, hoje posto aqui as condolências oficiais de Putin, o anúncio oficial da passagem de Putin pelo hospital pra ver o caixão, uma notícia informando que Putin não irá ao velório nem ao enterro e as informações sobre o funeral dadas pelo Fundo Gorbachov, que representa oficialmente o ex-político.


Aceitem minhas profundas condolências por ocasião do falecimento de Mikhail Sergeievich Gorbachov.

Mikhail Gorbachov foi um político e um homem de Estado que exerceu uma enorme influência sobre o curso da história mundial. Ele liderou nosso país em um período de mudanças complexas e dramáticas e de desafios diplomáticos, econômicos e sociais de larga escala. Entendeu profundamente que as reformas eram necessárias e buscou apresentar suas soluções aos problemas candentes.

Mencionarei especialmente a grande atuação humanitária, beneficente e educativa que Mikhail Sergeievich Gorbachov conduziu em todos esses últimos anos.

Peço mais uma vez que aceitem minhas sinceras palavras de sentimentos e apoio por ocasião da perda que vocês sofreram.


1.º de setembro, às 7h25min de Brasília:
O presidente Putin chegou ao Hospital Clínico Central, onde honrou a memória de Mikhail Gorbachov depositando flores sobre seu caixão.

Mikhail Gorbachov faleceu em 30 de agosto aos 91 anos de idade.


Putin não irá ao velório e enterro de Gorbachov:
O presidente russo Vladimir Putin já se despediu do ex-presidente da URSS, Mikhail Gorbachov, no Hospital Clínico Central. O chefe de Estado não comparecerá à cerimônia pública de despedida, no sábado, por estar com a agenda lotada, comunicou Dmitri Peskov, porta-voz do presidente.

“Hoje o presidente se dirigiu à província de Kaliningrado, e hoje ele terá um dia de trabalho em Kaliningrado, mas antes de partir o presidente passou no Hospital Clínico Central para despedir-se de Mikhail Sergeievich Gorbachov depositando flores sobre seu caixão”, diz Peskov segundo a RIA Novosti.

O representante do Kremlin destacou que a cerimônia pública de despedida ocorrerá em 3 de setembro, mas a agenda de trabalho do presidente não lhe permitirá participar.

“Por isso, ele tomou a decisão de fazer isso hoje sem falta. Lá haverá elementos de funeral de Estado, no sentido de que haverá, naturalmente, uma guarda de honra, uma despedida. O Estado oferecerá ajuda na organização”, acrescentou Peskov, falando sobre a cerimônia de sábado.

Recordamos que Gorbachov, primeiro e único presidente da URSS, morreu em 30 de agosto aos 91 anos após uma grave e prolongada doença. O acesso à cerimônia de despedida, que ocorrerá no dia 3 de setembro no Salão das Colunas da Casa dos Sindicatos, no centro de Moscou, será aberto ao público.


Anúncio do Fundo Gorbachov:
A cerimônia de despedida (velório) de M. S. Gorbachov ocorrerá a 3 de setembro de 2022 a partir das 10h [de Moscou, 4h de Brasília] no Salão das Colunas. O acesso ao público será livre.

O sepultamento ocorrerá no mesmo dia, no Cemitério Novodevichi.



Imagem publicada sem texto pelo Fundo Gorbachov no dia do falecimento do ex-líder.