segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O movimento ateu e o espectro político


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“O movimento ateu dentro do atual espectro político” é mais um dos textos que escrevi em 2011 relacionando pensamento irreligioso e reflexões políticas. Como eu estava maturando nos dois domínios, achava que eles estavam estritamente ligados, mas hoje vejo que essa correlação não é mais tão necessária. Obviamente muitos extremistas religiosos ainda se metem nos governos e a questão dos preconceitos deve ser tratada como um assunto de Estado, mas ainda assim acho que tudo isso devia ser tratado sob outros termos. Esse é um dos poucos textos em que cito nominalmente duas organizações então recém-fundadas e que eram ponta-de-lança da militância laica no Brasil, mas hoje não ganham tanto destaque na mídia quanto antes. Mesmo minha percepção sobre os campos político e religioso/filosófico em separado ainda era simplória, mas o artigo ainda é válido como semente pra pensar problemas não resolvidos. Não fiz alterações.


Apesar de todas as limitações conceituais hoje emergentes ao se rotular esta ou aquela ideologia ou ação política como “de direita”, “de esquerda” ou “de centro”, parece viável, pelo menos para uma análise prática e direta ligada à posição atitudinal de um ou outro dos coletivos aqui tratados, dizer que existem, tanto no Brasil quanto em outras partes do mundo ocidentalizado, um “ateísmo de direita” e um “ateísmo de centro”. Essas designações, na verdade, só fazem sentido diante de um “novo” ateísmo a ser cultivado, o “de esquerda”, que deve colocar-se como alternativa, ainda que não a única, nas batalhas pelo fim da discriminação religiosa e por um país mais justo.

É preciso definir, antes de tudo, mais ou menos claramente, não obstante a possível falta de rigor acadêmico ou científico, o que se pode entender, grosso modo, como “direita”, “esquerda” e “centro”. Hoje em dia, na política do Estado e seus três Poderes, essa divisão parece, em grande parte, ter perdido sentido, pois os interesses particulares ou grupais que sobrepujaram, em muitas nações, a defesa de ideários coerentes e complexos ligados a aspirações mais gerais ligam-se a necessidades mais imediatas e costuradas por barganhas muitas vezes frágeis e racionalmente inexplicáveis. Porém, na falta de um vocabulário que descreva com mais precisão o quadro ideológico supostamente tomado pela política contemporânea, e como a provável transição de um modelo ligado a descrições econômicas para outro baseado em fatores mais influentes na atualidade (pode-se dizer, por exemplo, a religião) ainda não está totalmente realizada, as lutas sociais continuam a poder, sem grandes contradições, ser repartidas nas três categorias. A “direita”, referente à manutenção do capitalismo, privilegia o jogo político institucional, aceita apenas as mudanças realizadas dentro da “ordem”, menospreza o papel e a validade das ideologias, funda a “natureza humana” em bases naturais e imutáveis e ressalta o caráter de progresso no correr da história da humanidade. A “esquerda”, tipicamente anticapitalista, transfere às massas populares o protagonismo do teatro político, incentiva a quebra da “ordem” por meio de revoltas dos trabalhadores, reconhece o caráter ideológico da dominação (e de sua legitimação) burguesa, não admite a existência de uma “natureza humana” preexistente à sua construção cotidiana e demonstra como, apesar das conquistas técnicas, o ser humano também produziu muita miséria e destruição. O “centro” adota princípios dos dois polos ou envereda por um “caminho do meio”: prega reformas no capitalismo para que ele torne-se mais “solidário”, incentiva a pressão popular sobre os políticos profissionais para a realização do bem comum, tolera o manifesto de insatisfações “dentro da lei”, relativiza as elaborações ideológicas (não raro denunciando seu caráter nefasto), tentando submetê-las aos limites da “natureza humana”, e condena os males da evolução científica, não deixando de elogiar suas benesses.

Após essa exaustiva elucidação, que não deixa de ser indispensável e facilita a compreensão das próximas palavras, fica mais ou menos visível a ligação do chamado “neoateísmo” (que nada tem de novo em seus argumentos) e do humanismo secular, respectivamente, com as propostas básicas da “direita” e do “centro”. A concordância da negação de Deus com o conservadorismo já tem mais de duzentos anos: iniciou-se em alguns materialistas franceses das Luzes, tomou sua face mais desenvolvida no positivismo comtiano e hoje volta à luz em sua versão “lógica”, claramente concorde às prédicas de autores como Daniel Dennett e, em menor grau, Richard Dawkins. Sem qualquer referência à revolução social ou à origem material das desigualdades humanas, usualmente demonstra um caráter bastante elitista no esmagamento das possibilidades transcendentais com uma suposta “infalibilidade da ciência” e o consequente progresso humanístico que sua aplicação inequívoca impulsiona, vê com algum desdém a sabedoria popular, as contendas ideológicas e as modernas conciliações entre religiosidade e socialismo (como ao modo, entre outros, da “teologia da libertação”) e, como os humanistas seculares, calam-se quanto aos condicionamentos sociais e históricos do que sempre foi chamado de “essência humana”. Suas referências ao Estado são muito vagas e limitadas à defesa de sua “laicidade”, não denunciando seu caráter de classe ou a opressão que perpetua sobre a população carente. Os humanistas seculares, geralmente pouco gratos às remotas origens renascentistas cristãs do livre-pensamento e de alguns ramos do conhecimento que aos poucos se foram desligando das matrizes originais, quase sempre se localizam num meio termo entre a imutabilidade do regime econômico e o estímulo a lutas sociais, politizando o cientificismo até o limite de não exigir reviravoltas mais radicais nas sociedades e, assim, enquadrando o combate antirreligioso na simples extirpação das manifestações superficiais da fé. Mostram-se favoráveis às manifestações populares, mas novamente sem atacar as verdadeiras raízes dos preconceitos que combatem, como aos LGBTTT, às mulheres, à diversidade religiosa e irreligiosa e à liberdade de expressão. Mais do que repulsa, demonstram indiferença a uma compreensão aprofundada das ideologias políticas mais consagradas como instrumento para a pugna ateísta (aliás, são menos elitistas e isolacionistas do que os “neoateus” porque não achincalham o agnosticismo e não lhe reservam um mero espaço nominal ou coadjuvante nas instituições que fundam). Quanto a questões mais propriamente mundanas, são um pouco mais “esquerdistas”: defendem o Estado laico, leis mais justas para todos os grupos sociais e, contra os abusos genocidas, uma ciência baseada em uma ética humanista, humanismo esse, porém, exibido como uma espécie de “essência atemporal” desligada das recentes condições internacionais que possibilitaram sua forma atual.

Falar em um “ateísmo de esquerda” pode até contradizer os próprios princípios do socialismo (e não só do marxista, mas também das ideias sobre religião escritas pelos anarquistas), já que as Igrejas e a religiosidade seriam apenas a manifestação de carências da maioria da população e da coerção de poderes que oprimem essa gente corporal e mentalmente e curáveis, portanto, por meio da derrubada de todos os poderes políticos e econômicos causadores da miséria e da alienação. Contudo, é justamente essa grande constatação esquecida pelos movimentos antirreligiosos modernos, que se atêm apenas ao fenômeno religioso palpável e visível e não sabem que, embora não se deva, obviamente, cair na determinação mecânica das religiões de um povo pelas suas estruturas econômicas e políticas, todos os elementos coletivos da esfera privada e a esfera pública (ou, como também se poderiam chamar, “sociedade civil” e “sociedade política”) de um país estão organicamente ligados em um funcionamento simbiótico, e sendo as Igrejas nada mais do que mais um coletivo privado, não poderiam funcionar sem relacionar-se a seu meio, ainda que, mesmo assim, não necessariamente percam sua independência e particularidades. Por isso, faz-se premente reconhecer que a luta contra as manifestações de injustiça e belicosidade no Brasil e no mundo deve estar imbricada ao combate contra o sistema político-econômico que hoje vigora praticamente em todas as nações, um sistema de exploração do trabalho, de privilégios às classes dirigentes, de desigualdade social, de falta de compromisso com o saber e de massificação das preferências e das paixões. A ciência não deve ser mais um poder acima de todos os conflitos, e sim precisamente um instrumento indissociável da peleja política (não da política estatal, mas da política das ruas, do campo, das fábricas e das instituições de ensino) e servidor dos mais fracos, que não devem, aliás, ser tutelados por ela, mas dominarem-na por si mesmos, desencastelarem-na de seus redutos acadêmicos e darem-lhe, portanto, mais vida e utilidade. E a dimensão espiritual do ser humano, não associada à fé cega e servil, mas ao pleno desenvolvimento e satisfação das vontades erótico-estéticas, de gosto, de beleza e do sentido que todas e todos precisam dar à sua curta existência, deve ser recuperada sob um novo prisma, mais realista, terreno e sensual, sem os excessos causados por uma cultura da banalização do prazer nem o vazio deixado pela ânsia doentia de riquezas e dominação. E é sobre essa confusão espiritual, hoje canalizada por inúmeras seitas fundamentalistas e preconceituosas, que os movimentos ateus, laicos e secularistas precisam debruçar-se tanto para atrair mais simpatizantes quanto para realmente tornar a humanidade melhor.

O extremismo e o dogmatismo, presentes há muitos séculos igualmente nas práticas sociais dominantes e nas alternativas contestadoras, são males que causaram irreparáveis danos à política e a religião, com reflexos castradores e repressores na cultura e na vida íntima dos indivíduos. Se o ateísmo, originalmente um rótulo imposto pelos governantes aos desvios do pensamento hegemônico e progressivamente tornado em um conjunto de doutrinas anticlericais não raro díspares, não quiser ver seu potencial desagregar-se e todo seu esforço contra as opressões ser engolido por crescentes ondas de obscurantismo, deve assentar seus pés sobre o chão e dialogar com o mundo real, com interlocutores reais e com clamores reais, longe de debates infrutíferos e acessíveis apenas a uns poucos iniciados. Só assim o equívoco vocábulo de negação dos deuses, de estigma popular, passará a ser tido como sinônimo de coragem, sabedoria, altruísmo, inteligência e fraternidade humanitária.


Bragança Paulista, 20 e 22 de abril de 2011.


Nota (23/4/2011): Após refletir um pouco, dei-me conta de que “neoateu” e “humanista secular” não são categorias necessariamente fixas ou excludentes, mas que um humanista secular pode muito bem ser um neoateu, ou vice-versa, ou ainda pode adotar apenas uma dessas visões. Na verdade, quando fiz tal classificação, referi-me especialmente a duas entidades secularistas que hoje representam com maior vigor e espaço o ateísmo organizado no Brasil: a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) e a Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS). Embora elas não sejam obrigatoriamente antagônicas, quem as conhece e acompanha seu trabalho sabe que seus meios de atuação diferem bastante e que não raro seus líderes demonstraram várias divergências quanto ao modo de tratar a religião e as pessoas religiosas (no que meu texto acerta, de fato, quando atribui, implicitamente, maior tolerância à LiHS e maior rispidez à ATEA). Além disso, ao contrário do que acontece com vários grupos de esquerda ou mesmo várias religiões, não se tem registro, até agora, de qualquer manifestação popular, reservada ou virtual que tenha contado com a colaboração mútua dos dois organismos, o que deixa claro que a falta de união de forças ainda é um dos pontos fracos desse tipo de ideologia em nosso país.



sábado, 2 de fevereiro de 2019

Alex Aivazov – Из-за чего (Por que foi)


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Entre as muitas propostas que me têm sido feitas, esta canção meio brega me agradou bastante. Ela se chama “Из-за чего” (Iz-za chego), que pode ser traduzida Por que foi ou Por qual razão, e foi gravada e composta em 2017 pelo cantor russo de origem tchuvache Aleksandr “Sasha” Aivazov. O clipe original está no canal do próprio artista: vamos ajudar o coitado, a página dele tem menos de 500 inscritos! Mas esse clipe que me passaram, postado há pouco tempo num canal de música russa contemporânea e que provavelmente exibe lindas cenas da cidade ocidentalizada de São Petersburgo, foi montado por outros produtores.

Há muito tempo eu não postava no canal Eslavo (YouTube) canções atuais da Rússia, até porque me hábito é saturar o canal com folclore antigo ou cultura soviética. Mas esse caso é bem interessante, porque tem uma batidinha um tanto “antiquada”, apesar da época, com uma voz genérica muito semelhante à do Ievgeni Osin. E não é por menos: o auge de seu sucesso foi justamente nos anos 90, quando a música local deve ter chegado ao ápice da degradação, embora a maioria dos russos mais conservadores ainda reclame do pop e do rock de hoje. Aleksandr Emilievich Aivazov nasceu em 1973 em Moscou, e é um cantor e compositor pop. Na década de 80, cursou o ensino básico e teve sua primeira formação musical, e depois cumpriu curso técnico e faculdade de música popular.

Destacando seus principais sucessos na “década de Ieltsin”, quando lançou as canções mais célebres e ganhou vários concursos musicais, a Wikipédia russa conclui com seu trabalho de menor intensidade nos anos 2000 e informa que ele também gosta muito de atuar como DJ. Porém, o site nada fala sobre sua longa dependência alcoólica, que o conduziu ao ponto de ser abandonado pela mulher e seu único filho pequeno em 2014. Segundo os sites russos StarHit e Woman’s Day, a esposa Irina não aguentou mais e levou as próprias coisas, mas Sasha não quis perder sua família e se internou voluntariamente numa clínica de reabilitação. Após muito esforço, conseguiu livrar-se do álcool em 2015 e reconquistou a confiança da esposa, que sempre o apoiou no processo. A fama e o sucesso não voltaram: embora seja riquíssima de material atual, sua rede social tem pouquíssimos seguidores, mas fiéis, e ele tem ainda um site pessoal igualmente pouco chamativo.

Eu mesmo traduzi e legendei a muito fácil letra da canção, apesar dos poucos idiomatismos. Também cortei a pequena introdução do canal que postou o clipe, mas lá vocês podem ver o original. Seguem abaixo minha legendagem, a letra em russo e a tradução em português:




Помнишь, как встретил тебя украдкой я в кругу друзей,
Как целовались, как обнимались прямо у дверей.
Как ты манила, как ворожила красотой своей,
И я подумал, что буду рядом с женщиной своей.

2x:
Из-за чего расстались мы с тобой
Уже никто не разберёт, не скажет,
Но я по-прежнему в тебя влюблён,
Мне твой звонок так важен.

Но пролетели дни, недели, а за годом год,
В той, что манила, так ворожила, произошёл переворот.
То ли там кто-то появился или может что,
Только теперь у дверей целоваться нам не суждено.

4x:
Из-за чего расстались мы с тобой
Уже никто не разберёт, не скажет,
Но я по-прежнему в тебя влюблён,
Мне твой звонок так важен.

____________________


Entenda, quando espiando te encontrei numa roda de amigos,
Vendo vocês se beijarem, se abraçarem bem na porta.
Como você encantava, enfeitiçava com sua beleza,
E eu pensava que estaria ao lado de minha mulher.

2x:
Por que foi que nós dois rompemos
Ninguém mais vai entender ou dizer,
Mas como antes, você é minha paixão,
É tão importante você me ligar.

Mas voaram os dias, as semanas, e ano após ano,
Naquela que encantava, tanto enfeitiçava, houve uma virada.
Outro alguém apareceu aí ou coisa assim,
Só que agora nunca mais podemos nos beijar na porta.

4x:
Por que foi que nós dois rompemos
Ninguém mais vai entender ou dizer,
Mas como antes, você é minha paixão,
É tão importante você me ligar.




quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Massacre do Realengo e faces de Deus


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NOTA: O massacre do Realengo e as muitas “faces” de Deus – texto sem data, mas em cujo arquivo Word original a última alteração está como feita em 14 de abril de 2011. No dia 7 anterior, um jovem atirador fanático tinha matado várias crianças numa escola dessa região pobre da cidade do Rio de Janeiro e ferido muitas outras, sob a alegação de que estava cumprindo ordens divinas. Nessa época, ainda regada a muito Orkut e mal conhecendo o smartphone, o neo-ateísmo estava em seu ápice, criticando os diversos fundamentalismos religiosos que banharam de sangue a década recém-terminada. Originalmente o artigo foi escrito pra Revista Verdade, então publicada em Bragança Paulista com muita dificuldade por Antonio Sonsin, mas creio que depois não repostei em nenhum lugar. Como sempre, em meio à ruminação de preconceitos populares, encubro com muita discussão o óbvio: qualquer fanatismo é horrível. Mas sem modificações, o texto ainda tem o que dizer.



No calor dos debates sobre o que teria levado Wellington Menezes de Oliveira a cometer o massacre na escola do Realengo, no Rio, apareceu um elemento contraditório, por vezes supervalorizado ou menosprezado conforme os interesses em jogo: as conturbadas crenças religiosas do assassino, expressas em cartas, e-mails, vídeos, depoimentos de parentes e rastros na internet. O fator religião, para desespero de manipuladores de opinião que têm exaurido o tema para promover-se, parece ser menos relevante do que a vida pessoal e o quadro psiquiátrico daquele jovem.

Como se esperava, a invocação divina tem sido uma constante entre jornalistas, conhecidos das vítimas ou cidadãos comuns, seja para atacar Wellington ou descrever o meio que o teria motivado (“Ele não tinha Deus no coração”, “Falta Deus na nossa sociedade”...), seja para consolar a si mesmos ou aos atingidos (“Deus proteja esses sofredores”, “Deus evitou o pior”, “As crianças mortas agora estão com Deus”...). Nada mais previsível em um país de forte tradição religiosa monoteísta e assolado por tantos males, quando a fé parece ser a única válvula de escape (até mesmo, muitos diriam, uma solução) para tão crua realidade.

Tudo seria simples se não se descobrisse com o atirador um passado multifacetado de tormentos religiosos, simpatia ao terrorismo e a provável doutrinação online (ou ainda, suspeita-se, ao vivo) por seitas obscuras de probidade duvidosa. Na “carta-testamento” e em outros escritos, frequentemente cita a Bíblia, Deus, Jesus, o Alcorão e conceitos como virgindade e pureza. De fato, uma minoria de ateus, copiando movimentos antirreligiosos internacionais recentes (embora nem todos sejam o alvo desta crítica), aproveitou-se do imbróglio não só para censurar muitas figuras públicas e mesmo simples populares pelo uso da expressão “falta de Deus” como também para reciclar o velho tema da religião como a principal fonte de ódios e matanças no planeta.

Eis aí um ato apressado, pouco criativo e intencionalmente querelante. Para quem realmente não crê em religião e forças sobrenaturais, essas crenças têm mero valor de símbolos altamente mutáveis, manipuláveis e condicionados cultural e historicamente. É como o laicista que, pedindo a retirada do crucifixo de locais públicos, parece temê-lo tanto quanto o Diabo. Entre esses polemistas, é louvável sua reprimenda a autoridades que abominam o “ateísmo” (?) de Wellington, mas que deveriam dosar melhor suas palavras, sabendo que seu cargo não deveria permitir certos arroubos de parcialidade. Agora, censurar as manifestações religiosas espontâneas dos enlutados, como a faixa em homenagem aos “12 anjos de Deus” e até a uma senhora, na certa pouco informada sobre a vida do carrasco, que lhe atribuiu “falta de Deus no coração”, é um indesculpável desconhecimento da realidade cultural desse grupo. O cúmulo foi quando afirmaram ser aquela faixa um “desrespeito” às famílias supostamente ateias aí envolvidas! Há indício maior de alienação e de “fobia a povo”?

Obviamente não é o caso de estimular o placebo, nem, é claro, de ocultar um difuso preconceito antiateísta. Primeiro, porque o fato de a maioria dizer ou pensar uma coisa não significa que ela seja real ou correta. O xeque Jihad Hassan, por exemplo, famoso pelas litanias sobre a “necessidade inata” da crença e da religião, em cerimônia ecumênica realizada na escola no dia 13 de abril, não deixou de elogiar os cultos como fator de paz e de recomendar respeito a eles para a prevenção de barbáries. Acontece que religiosos, sejam leigos ou clérigos, podem tanto estender sua mão aos caídos quanto arrancar a cabeça alheia, mas, procurando ocultar isso, as grandes Igrejas varrem o problema “para debaixo do tapete” e não excluem ou repreendem seriamente os que realizam terror em seu nome. A crítica e a autocrítica viram um “nada tenho a ver com isso”.

Em segundo, e precisando o que foi dito acima, as religiões tornam-se verdadeiras fábulas infantis, filminhos de ficção ou “jogos do espírito” diante dos fatores sociais, psiquiátricos e íntimos que condicionam tais ações espetaculosas. Sabe-se que Wellington carregava seu transtorno sem qualquer intervenção psicoterápica, agravado por presumido bullying, perdas familiares, isolamento e a provável falta do cultivo de uma consciência por seus responsáveis, ou seja, uma comunicação mínima entre as convenções ético-sociais e o que o próprio rapaz via como certo e errado. O fanatismo religioso apenas piorou a desorientação, mas as mortes também aconteceriam sem isso, embora, talvez, sem tanta ênfase nas meninas. De resto, cabe lembrar que o ateísmo ou a irreligião não são obrigatoriamente um freio moral, como pretendem alguns secularistas: os regimes do “socialismo real”, mesmo após a Declaração Universal dos Direitos Humanos, estão aí de prova.

Essa é a trágica história do encontro de distúrbios causados por um sistema sócio-econômico excludente, superficial, concorrentista, desconfiado e antifilosófico com dogmatismos tentadores como subterfúgio aos problemas reais, mas que, inculcados por más companhias, podem levar ao abismo material e existencial. Todavia, histórias diferentes poderão ser escritas se o mundo tornar-se mais colaborador, inclusivo, crítico e reflexivo, sob diretrizes abertas, realistas, racionais e portadoras de um sentido para nossa curta vida. E, antes de mais nada, longe do preconceito de todos os matizes que destrói a tudo e a todos.



terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Fidel Castro na URSS (maio de 1963)


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Cinecrônica raríssima sobre a visita do líder comunista de Cuba, Fidel Castro Ruz, pela primeira vez à União Soviética, na virada dos meses de abril e maio de 1963. Ele foi recepcionado em Moscou pelos dois principais chefes da URSS, Nikita Khruschov, que liderava o Partido Comunista e, portanto, o país como um todo, e Leonid Brezhnev, então no controle do Parlamento, mas que no ano seguinte daria um golpe pra depor e suceder o companheiro. Cuba tinha derrubado a ditadura pró-EUA de Fulgencio Batista em 1959, há pouco mais de 60 anos, e em 1961 tinha declarado o caráter socialista de sua revolução.

A Revolução Cubana teve uma dinâmica muito particular que contou muito mais com a conivência do que com o apoio explícito soviético, e ainda no ano anterior a chamada “crise dos mísseis”, que quase levou à guerra nuclear entre os blocos capitalista e comunista, tinha deixado Fidel muito insatisfeito com o recuo dos soviéticos. Porém, uma vez dentro da esfera socialista, os revolucionários manteriam fidelidade à URSS e a oposição à China, embora com espaços críticos, recebendo considerável ajuda material da potência.

Neste interessante cinejornal, vemos Fidel Castro chegando a Moscou (segundo relatos, seu desembarque na Rússia foi bem mais distante e repleto de segredos), sua participação nos festejos de Primeiro de Maio, Dia do Trabalho, o discurso feito em espanhol durante a parada, a assistência a um jogo de futebol e a presença numa apresentação de dança ucraniana. A locutora, num dado momento, chama o time do Torpedo de avtozavodtsy, isto é “operários de montadora”: esse era um dos apelidos do time. Parece que só há uma cópia sem legendas no YouTube, postada por algum falante do espanhol e ainda com poucas visualizações.

Eu mesmo transcrevi o áudio com a ajuda do leitor do Google, traduzi o texto e legendei o vídeo. Neste pequeno texto em espanhol, do qual tirei a transcrição (que alinhei com o áudio) da fala de Fidel, há um breve relato de sua viagem à URSS. Neste vídeo em russo há um comprido documentário em cores, chamado O hóspede da ilha da Liberdade, que fala da visita que durou de 28 de abril a 3 de maio. Hoje “ilha da liberdade” pode parecer uma ironia, mas enfim... Seguem abaixo as legendas, a transcrição em russo e a tradução em português, mais literal do que no vídeo. A leitura dos números russos está entre colchetes, e as palavras em espanhol estão em itálico:


Канун Первомая в Москву, по приглашению главы советского правительства, товарищем Хрущёвым, прибывает первый секретарь национального руководства Единой партии социалистической революции, премьер-министр революционного правительства Республики Куба, Фидель Кастро Рус.

На Внуковском аэродроме дорогого гостя встречали Никита Сергеевич Хрущёв, первый секретарь ЦК КПСС, председатель Совета министров СССР, и Леонид Ильич Брежнев, председатель Президиума Верховного совета СССР. Советский народ рад тебе, Фидель! Добро пожаловать, дорогой друг и брат!

Вместе с вождём Кубинской революции Фиделем Кастро, в Советский Союз прибыли его боевые соратники. Десятки тысяч москвичей пришли на Красную площадь, чтобы приветствовать посланцев острова свободы. С тёплыми словами привета кубинским друзьям обратился Никита Сергеевич Хрущёв:

«Сегодня мы собрались здесь на Красной площади, чтобы от всей души по-братски приветствовать бесстрашного вождя кубинской социалистической революции, нашего большого друга Фиделя Кастро и его боевых соратников прибывших вместе с ним.»

Товарищ Хрущёв выразил восхищение мужеством и стойкостью кубинского народа. Он назвал революционный остров свободы маяком, который показывает всем народам Латинской Америки путь к прогрессе, свободе и счастье. Заканчивая речь, товарищ Хрущёв сказал:

«Да здравствует великое содружество социалистических стран! Да здравствует мир во всём мире! Да здравствует марксизм-ленинизм! Да здравствуют новые победы социализма и коммунизма! ¡Viva Cuba!»

В своей яркой темпераментной речи, Фидель Кастро выразил горячую благодарность за высокую честь, которую оказывает сынам Кубы советский народ. В заключении Фидель Кастро сказал:

«Permítanseme, como el más justo homenaje a quien tuvo el mérito mayor, exclamar: ¡Viva Lenin! ¡Viva el internacionalismo proletario! ¡Viva la amistad entre los pueblos soviéticos y el pueblo cubano! ¡Viva la Unión Soviética! ¡Patria o muerte! ¡Venceremos!»

Митинг на Красной площади 28 [двадцать восьмого] апреля стал большим праздником нерушимой дружбе советского и кубинского народов.

Утро 1 [первого] мая. Красная площадь. Начинается торжественный парад войск. По традиции его открыли слушатели военных академий. На трибуне мавзолея, вместе с руководителями коммунистической партии и советского правителства, Фидель Кастро и его боевые соратники.

Идёт непобедимая армия верная своему народу, армия стоящая на страже мира во всём мире. Ракеты: неудержимой лавиной вливаются они на Красную площадь. Наши ракетные войска бдительно охраняют мирный труд советского народа. Они готовы разгромить любого агрессора.

На Красной площади, юность страны. Праздничная демонстрация трудящихся столицы началась выступлением пионеров и школьников. Сотни тысяч москвичей прошли по Красной площади в этот радостный день мира, труда, цветов и улыбок. Несколько часов продолжалось первомайское шествие трудящихся столицы.

Центральный стадион имени Ленина: 2 [второго] мая здесь состоялся большой праздник посвящённый открытию летнего спортивного сезона. На празднике присутствовали Никита Сергеевич Хрущёв, Фидель Кастро и другие кубинские гости. Интересные состязания провели в этот день лёгкие атлеты, мастера велосипедного спорта...

Но главным, конечно, был матч популярных футбольных команд Спартак-Торпедо. Встреча этих старых соперников как всегда проходила в острой напряжённой борьбе. Сейчас атакуют автозаводцы, они забивают гол. Попытки Спартака отыграться не увенчались успехом. Победила команда Торпеда за счётом 2-1.

А вечером того же дня москвичи собрались в Кремлёвском дворце съездов на большой первомайский концерт. В зале присутствовал Фидель Кастро и другие гости из революционной Кубы. Государственный ансамбль народного танца Украинской ССР под руководством Павла Вирского исполняет танец «Ползунец» [ucr. «Повзунець»]. Праздничный концерт прошёл с большим успехом.


Véspera do Dia do Trabalho: a convite do camarada Khruschov, chefe do governo soviético, está chegando a Moscou o primeiro secretário da direção nacional do Partido Unido da Revolução Socialista, primeiro-ministro do governo revolucionário da República de Cuba, Fidel Castro Ruz.

No Aeroporto de Vnukovo o caro hóspede foi recebido por Nikita Sergeievich Khruschov, primeiro secretário do CC do PCUS e presidente do Conselho de Ministros da URSS, e Leonid Ilich Brezhnev, presidente do Presidium do Soviete Supremo da URSS. O povo soviético está feliz com você, Fidel! Bem-vindo, querido amigo e irmão!

Junto com o líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, chegaram à União Soviética seus companheiros de luta. Dezenas de milhares de moscovitas vieram à Praça Vermelha para saudar os enviados da ilha da liberdade. Com calorosas palavras de saudação Nikita Sergeievich Khruschov dirigiu-se aos amigos cubanos:

“Hoje nos reunimos aqui na Praça Vermelha para saudar com alma toda fraternal o destemido líder da Revolução Socialista Cubana, nosso grande amigo Fidel Castro, e seus companheiros de luta que chegaram junto com ele.”

O camarada Khruschov expressou admiração pela coragem e firmeza do povo cubano. Ele chamou a ilha revolucionária da liberdade de farol que indica a todos os povos da América Latina o caminho ao progresso, liberdade e felicidade. Terminando o discurso, o camarada Khruschov disse:

“Viva a grande comunidade dos países socialistas! Viva a paz no mundo inteiro! Viva o marxismo-leninismo! Vivam as novas vitórias do socialismo e do comunismo! Viva Cuba!

Em seu vivo discurso apaixonado, Fidel Castro expressou uma ardente gratidão pelas grandes honras dedicadas aos filhos de Cuba pelo povo soviético. Ao concluir, Fidel Castro disse:

“Permitam-me, como a mais justa homenagem a quem teve o mérito maior, exclamar: Viva Lenin! Viva o internacionalismo proletário! Viva a amizade entre os povo soviético e o povo cubano! Viva a União Soviética! Pátria ou morte! Venceremos!”

O comício na Praça Vermelha em 28 de abril se tornou uma grande festa de inabalável amizade entre os povos soviético e cubano.

Manhã de 1.º de maio. Praça Vermelha. Começa a parada solene das tropas. Pela tradição, ela é aberta pelos alunos das academias militares. Na tribuna do mausoléu, junto com os dirigentes do partido comunista e do governo soviético, estão Fidel Castro e seus companheiros de luta.

Desfila o invencível exército fiel a seu povo, um exército postado em guarda pela paz no mundo inteiro. Mísseis: numa incontida torrente eles confluem para a Praça Vermelha. Nosso arsenal de mísseis protege atentamente o trabalho pacífico do povo soviético. Está pronto para destruir qualquer agressor.

Na Praça Vermelha, os jovens do país. A manifestação festiva dos trabalhadores da capital começou com os pioneiros e estudantes se apresentando. Centenas de milhares de moscovitas percorreram a Praça Vermelha neste dia alegre de paz, trabalho, flores e sorrisos. Durou algumas horas o desfile de 1.º de Maio dos trabalhadores da capital.

Estádio Central Lenin: em 2 de maio ocorreu aqui uma grande festa dedicada à abertura da temporada esportiva de verão. Participaram da festa Nikita Sergeievich Khruschov, Fidel Castro e outros hóspedes cubanos. Nesse dia, provas interessantes contaram com atletas, ídolos do ciclismo...

Mas o principal, claro, foi a partida com os populares times de futebol Spartak e Torpedo. O encontro desses velhos rivais ocorreu, como sempre, numa acirrada e intensa disputa. O Torpedo está partindo pro ataque, e faz um gol. As tentativas do Spartak de virar o jogo fracassaram. O Torpedo saiu vencedor por 2 a 1.

E na noite do mesmo dia os moscovitas foram ao Palácio dos Congressos no Kremlin ver o grande concerto do Dia do Trabalho. Estiveram na plateia Fidel Castro e outros hóspedes da Cuba revolucionária. O Conjunto Estatal de Dança Folclórica da RSS da Ucrânia, dirigido por Pavló Virsky, executa a dança Povzunets. O concerto festivo foi um grande sucesso.



Druzhba (Amizade).

domingo, 27 de janeiro de 2019

O deus-câmera (texto reflexivo de 2011)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/camera


NOTA: O título, desta vez, é bem curto, mas o texto continua sendo instigante. Cada artigo que eu escrevo sempre tem alguma marca da minha vida real, e neste caso eram duas: o esforço por me livrar da crença num Deus que vigiava todos os nossos passos e a irritação com formas de fiscalização por parte do Estado e outras instituições. Era provável que eu estava então levando minhas primeiras multas de trânsito por ultrapassar a velocidade máxima em radares, mas enfim... Embora minha reflexão seja meio empiricista e tenha preocupações bem datadas, ela ainda vale como um registro da minha vida pessoal e como o apontamento de preocupações antigas do ser humano. Talvez até muitas das relações que traço são um pouco exageradas, mas importaram como esforço precoce de crítica e autonomia elaborativa. Fiz bem poucas mudanças redacionais, o texto é o mesmo.



Quem é Deus? Ou melhor, o que são os deuses? Desde o início da civilização, ninguém soube descrever com precisão esses seres. Ora são brotados da reorganização transcendental da realidade objetiva na cabeça de alguns profetas, ora são criados deliberadamente por condutores de massas para consolidar a coesão de seu rebanho ou lhe jogar goela abaixo certos valores tidos como sagrados. Devemos lembrar que os deuses não são sempre fantasmas, mas podem ser personalidades de carne e osso deificadas, vivas ou mortas. Sequer precisam ser entidades humanas: longe da beleza e magnitude do vento, do sol, dos rios e dos mares, podem ser ainda aqueles aparatos técnico-burocráticos que nos infernizam a cada metro que andamos. É destes que tenho mais medo.

Vamos saborear um pouco de história. Na idade primitiva, nossos tataravós cavernosos adoravam e procuravam controlar magicamente as forças visíveis e invisíveis da natureza, e por elas possuíam grande temor e insegurança. Aparentemente deu certo, até que o desenvolvimento da inteligência e da cultura gerou as primeiras figuras dignas do nome de deuses, ou seja, entes de forma humana com poderes mágicos, sobrenaturais ou de onipotência. Existiam em grande número e tratavam dos problemas mais específicos e diversos: nascimento, morte, amor, guerra, música, trabalho e tudo o mais que a sociedade podia conceber. (Alguém aí notou a semelhança nada casual com os santos católicos?)

Até que, há uns 3800 anos, se crermos nos relatos bíblicos, alguém decretou do nada que essa riqueza cultural toda devia ser estigmatizada com os nomes feios de idolatria, paganismo e o que valha, enquanto deveria existir apenas um, e somente um deus, reunindo, como se esqueceram de dizer, as piores características dos concorrentes anteriores. A ideia demorou pra pegar, mas pegou. E pegou pra valer. É claro que no meio do caminho o cara lá de cima adquiriu uma feição mais doce, mais terna e mais firmeza, embora vez ou outra se dessem aqueles velhos ataques de birra ciumenta. Mas ainda assim, para alguns sujeitos certamente bem endurecidos pelo calor abrasante do deserto, essa faceta melosa não colava, e finalmente consolidaram as duas características fundamentais de qualquer religião posterior: a sua ligação inextricável com meios e fins políticos, como já ocorria no fim do Império Romano e em alguns primeiros reinos medievais, e a noção de que não basta praticar sua própria fé, é preciso ainda obrigar os outros a fazê-lo e eliminar fisicamente os resistentes.

A economia simbólica (nem sempre respeitada, claro) não compensou o tanto de gente que foi pro outro mundo (será que foi mesmo?) por não concordar com o deus do vizinho (mas não era pra ser um só?), mas demorou séculos para que um grupo resolvesse ir além na praticidade e inventasse o deísmo. Na Europa Ocidental do século 18, consiste na solução prática de um deus que criara o universo, mas não fazia nada. Provavelmente ficava admirando sua obra-prima de longe, mas não queria meter o bedelho nos assuntos da gente. Na mesma época, outros foram mais além e eliminaram a lenda toda por completo, mas nos dois séculos seguintes, alguns de seus pretensos continuadores, ainda precisando de um dedinho pra chupar, construíram altares para a Humanidade com agá maiúsculo, para líderes políticos, livros, doutrinas ou até mesmo dinheiro, luxo, indústrias e poder. Voltaram a matar por tudo isso, como era de se esperar.

Hoje em dia, com exceção de alguns lugares menos afortunados do nosso planeta, a decência comum rejeita cortar a cabeça alheia por causa de uma divergência mínima sobre objetos que sequer olhos sadios podem enxergar. Porém, nossa raça de macacos quase pelados tem algumas peculiaridades muito engraçadas que merecem breves comentários.

Há pessoas que creem num deus “Big Brother”: vê tudo, pune tudo e recompensa tudo, se intrometendo no mínimo passo que a gente dá ou na mínima cena que a gente pensa. É um bedel maníaco, e os que acreditam nele não são menos maníacos, porque vivem com medo do que ele possa achar de suas atitudes ou reflexões. Pra piorar, são elas mesmas pentelhas iguais, porque pensam que as supostas faltas dos outros vão influir nelas mesmas, também. Elas não precisam de igrejas, precisam de psicoterapia urgente.

Num meio-termo, outras acreditam em Deus, mas não acham que ele seja esse chato problemático do Antigo Testamento, das cartas de Paulo ou do Corão. No mínimo, elas simplesmente compram aquela imagem do velhinho cristão bondoso e misericordioso, que está sempre ajudando e corrigindo a gente, ou, na melhor das hipóteses, não praticam a religião que dizem professar ou declaram explicitamente a crença no onisciente folgazão dos iluministas. Vivem tranquilas, despreocupadas, como se Ele não existisse, e em maior ou menor grau, mas geralmente baixo, não atormentam os semelhantes por causa daquilo que eles seguem ou deixam de seguir.

(Minha família é uma espécie de meio-termo do meio-termo. São católicos praticantes que acreditam que Deus recompensa e pune, mas que têm um conceito bem mais restrito de pecado, sem aquelas irritantes minúcias sexuais, linguísticas, profissionais ou ideológicas. É à saudável transigência dela, bem ao estilo luso-brasileiro, que devo minha liberdade e flexibilidade de pensamento, expressão e respeito à opinião alheia.)

Por fim, há os que, ao menos na teoria, largaram mão de tudo e se dizem laicos, humanistas, secularistas ou ateus, criticando os abusos e incoerências das religiões e supostamente vivendo tão calmos quanto os semicrentes citados acima. Será mesmo? Pelos que chegaram a essa conclusão por si sós após muita leitura, reflexão e aconselhamento, guardo um imenso respeito. Até mesmo alguns teístas são assim, e sabem separar o joio do trigo. Agora, há outros, mais seguidores das modinhas online que vemos por aí, tão insuportáveis quanto os vigiados vinte e quatro horas. Gostam das palavras de ordem ásperas, da revolta vazia, da briga fácil, da adulação cega a personalidades e da intransigência em taxar os diferentes como burros e atrasados. São os primeiros a retornar aos padres, pastores e até bruxos e astrólogos quando surge a primeira oportunidade.

Esses mitos são fichinha pra mim. Não me preocupo mais se eles vão ou não me fulminar com um relâmpago celestial ou se meus conhecidos gostam ou não de brincar de amigo invisível. Minha preocupação agora está em outra: os deuses laicos. Por vezes me assusto com um ou outro caudilho de Brasília ou do Palácio dos Bandeirantes que quer aumentar a idade mínima para a aposentadoria ou reduzir os gastos com salários e investimentos na saúde e na educação. Mas piores do que os próprios são as máquinas que lhes servem: Fazenda, Receita, polícias, radares e câmeras nas estradas, fiscalização pela internet, “malha fina”, leis antidrogas, avaliações, concursos-surpresa... Foi-se o tempo em que pecávamos contra Deus, mas nossos bolsos saíam ilesos (ao menos, obviamente, se não o quiséssemos). Atualmente, o mínimo descuido pode gerar uma grave infração aos olhos do poder presumivelmente público. Não que a tecnologia não deva ajudar a punir aqueles que cometem faltas contra a população, mas o moralismo militante que tomou conta do estado de São Paulo, em especial, está ultrapassando os limites do razoável e confundindo certas escolhas privadas com ações realmente danosas a toda a coletividade, no mesmo esquema do pecado meramente cogitado.

Certa vez li que as pessoas não precisam de Deus, mas de polícia. Agora também são câmeras e outras formas de vigilância virtual. De fato, não busco respostas, apenas estou apontando o problema. Mas já dá mais o que pensar a impressão de que, retornando àquele velho modelo da divindade controladora, vivenciaremos futuramente uma nova onda de neuroses causadas pelo receio de uma punição fácil e, já que informatizada, praticamente incontestável.


Bragança Paulista, 17 de agosto de 2011.



sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Votos de Emmanuel Macron pra 2019


Endereço curto: fishuk.cc/voeux2019



Este é o discurso transmitido na TV francesa em 31 de dezembro de 2018, com o presidente da República Emmanuel Macron desejando um feliz 2019 aos cidadãos e fazendo um balanço de seu governo no último ano. A partir do texto postado no site do Palácio do Élysée, eu mesmo traduzi direto do francês e baixei o vídeo sem legendas de uma agência jornalística.

Como vocês já viram em postagens de 2017 e 2018, Macron assumiu a presidência da República Francesa em maio de 2017 e viveu um período conturbado em que procurou reformar o Estado e a economia, mas se deparou com a crescente insatisfação social. Banqueiro de profissão e nunca antes tendo concorrido a um cargo eletivo, ele já tinha sido ministro da Economia de François Hollande, o presidente anterior, e já então começou a emplacar suas reformas. Tendo fundado seu próprio partido chamado hoje A República em Marcha (REM), chegou ao segundo turno com a direitista Marine Le Pen, da agora União Nacional (RN), e venceu diante da popularidade que o projeto europeísta ainda tinha na França. Porém, a conjuntura internacional, sobretudo por ação do antiglobalista Donald Trump, e os constantes entraves estruturais internos o levaram a alcançar muito menos do que pretendia, e agora é detestado por muitos de seus eleitores.

O ápice da crise em seu governo foi o chamado “movimento dos gilets jaunes” (coletes amarelos), sobre o qual também expliquei num vídeo. A criação de imposto que aumentaria o preço do diesel, combustível mais usado nos carros franceses, serviu de faísca pra protestos que também criticaram o abandono dos serviços públicos e o custo de vida. As manifestações de rua, que descambaram em novembro de 2018 em violência generalizada e prejudicaram a economia nacional, continuaram com força menor em dezembro e cumpriu-se a promessa dos “coletes amarelos” retomarem as paralisações em janeiro. Exposto ao mundo inteiro como um líder impopular e um “presidente dos ricos”, Macron teve de tentar acalmar os ânimos em mais um longo discurso de fim de ano. Em geral, essas falas presidenciais não duram mais de 8 ou 9 minutos, mas pela segunda vez consecutiva o ex-banqueiro ultrapassou os 15 minutos em impaciência e redundância.

Macron sabe que as pessoas estão insatisfeitas e que a França parece estar perdendo seu lugar no mundo, diante de vizinhos e aliados que estão abandonando o projeto europeu e o curso da globalização. Mas defende que não é com raiva que se resolvem as coisas, e que o fim da integração mundial significaria um risco para todos, sobretudo do ponto de vista ambiental. Ele anuncia que está criando novos projetos reformistas e ideológicos a ser apresentados nas semanas seguintes e pede que o povo continue esperando e, sobretudo, mantenha-se unido e orgulhoso do país. Seu discurso não acalmou os ânimos e, gerando piadas no YouTube, chamou a atenção por não mencionar o custo de vida e os serviços precários.

Importa lembrar também que Édouard Philippe, primeiro-ministro de Macron, também tem grande responsabilidade pela situação. Citado algumas vezes no discurso, ele é escolhido pelo presidente, mas tem todo o encargo de formar o governo e sua política interna, enquanto a presidência costuma antes se ocupar com assuntos externos. Seguem abaixo as legendas e a tradução escrita em português:


Francesas, franceses,

Meus caros compatriotas da França europeia (1) e do Ultramar.

Fiel a uma tradição que estimamos, estou feliz por apresentar-lhes todos os meus votos para o ano que se inicia.

O ano de 2018 não nos poupou de emoções intensas de todos os tipos. A França conheceu grandes momentos: vitórias esportivas, grandes eventos culturais e a celebração do centenário do Armistício de 1918, ocasião na qual portei a voz da França pela paz.

O Primeiro-Ministro, seu Governo e o Parlamento fizeram em 2018 muito pelo país. Não vou listar tudo aqui, mas inúmeras reformas que até então julgávamos ser impossíveis, como a do trabalho ou das ferrovias, foram efetuadas. Eles se lançaram a uma ação firme por nossa escola, nossas universidades, o aprendizado, o sistema dual (2) e a atratividade de nosso país.

Eles fundaram as bases de uma estratégia ambiciosa para melhorar a organização de nossos hospitais, nossas clínicas e nossos médicos, para combater o aquecimento global, erradicar a extrema pobreza e permitir que nossos concidadãos com alguma deficiência encontrem seu lugar na sociedade.

Os resultados não podem ser imediatos e a impaciência, da qual partilho, não poderia justificar nenhuma desistência.

Nos próximos meses, o Governo deverá continuar esse trabalho para implantar várias dessas reformas em nosso cotidiano, bem como para mudar profundamente as regras para o seguro-desemprego, visando antes estimular o retorno ao trabalho, a organização do setor público para torná-lo mais eficiente e nosso sistema de aposentadoria para torná-lo mais justo. Em suma, para edificar a previdência social do século 21.

Mas vivemos também grandes dilaceramentos e a explosão de uma raiva que vinha de longe; raiva contra as injustiças, contra o rumo de uma mundialização às vezes incompreensível; raiva contra um sistema administrativo que se complicou demais e careceu de benevolência; raiva também contra mudanças profundas que indagam nossa sociedade quanto a sua identidade e seu sentido.

Essa raiva disse uma coisa a meus olhos, a despeito de seus excessos e seus transbordamentos: não somos resignados, nosso país quer construir um futuro melhor baseado em nossa capacidade de inventar novas maneiras de criar e de permanecer juntos.

Tal é a lição de 2018 a meus olhos: queremos mudar as coisas para viver melhor, defender nossos ideais, queremos inovar, para tanto, nos planos democrático, social, político, econômico e ambiental.

Seria perigoso que nossa situação nos levasse a ignorar o mundo que nos rodeia. Muito pelo contrário, pois tudo está ligado!

Grandes certezas estão aí também sendo derrubadas. A ordem internacional edificada em 1945 é posta em causa por novas potências e ultrajada por certos aliados nossos.

Por toda a Europa ascendem os partidos extremistas, enquanto as intervenções de potências estatais e privadas estrangeiras se multiplicam.

As grandes migrações nos inquietam e são manipuladas pelos demagogos, enquanto o que devemos é produzir novas respostas a esse fenômeno que não vai acabar amanhã, levando em conta a demografia mundial.

Os combates ao aquecimento global e pela biodiversidade são mais necessários do que nunca, mas se encontram paralisados. Vamos superar juntos os egoísmos nacionais, os interesses particulares e os obscurantismos.

O terrorismo islamista também continua agredindo; em mutação, ele se expande por todos os continentes. Há algumas semanas, em Estrasburgo, ele ainda feriu, como tinha ferido em Trèbes e Paris durante este ano que termina.

Enfim, mudanças tecnológicas profundas, à frente das quais está a inteligência artificial, transformam rapidamente nossa maneira de nos tratar, nos deslocar, nos formar, produzir...

Vocês estão vendo como vivemos várias turbulências inéditas: o capitalismo ultraliberal e financeiro, quase sempre orientado para o curto prazo e a ganância de poucos, caminha para o fim; nosso mal-estar na civilização ocidental e a crise de nosso sonho europeu estão aqui.

Devemos então nos desesperar? Não creio nisso. É um desafio imenso e tudo isso está obviamente ligado com o mal-estar vivido por nosso país, mas temos exatamente um lugar, um papel a cumprir, uma visão a propor. É a linha que traço desde o primeiro dia de meu mandato e que pretendo seguir. É recolocar o homem no cerne desse projeto contemporâneo. Isso exige muita constância e determinação. Mas em meu íntimo estou convencido de que temos de elaborar uma resposta, um projeto profundamente francês e europeu ao que estamos vivendo no país e além de nossas fronteiras.

Também devemos nesse âmbito, como sempre fizemos, tomar toda nossa parte no renascimento de nosso mundo e nosso cotidiano. Por isso, meus caros compatriotas, este ano de 2019, a meu ver, é decisivo, e quero fazer três votos para nós.

Primeiro, um voto pela verdade. Sim, desejar que em 2019 não esqueçamos que nada se constrói sobre mentiras ou ambiguidades. Ora, devo dizer bem que após anos, nos instalamos numa negação com cheiro ocasional de realidade. Não podemos trabalhar menos, ganhar mais, baixar nossos impostos e aumentar nossas despesas, não mudar nada em nossos hábitos e respirar um ar mais puro! Não, também nesses assuntos devemos nos olhar tais como somos e nos aceitar diante das realidades.

Vivemos em uma das maiores economias do mundo, nossa infraestrutura é uma das melhores do mundo, pagamos pouco ou nada pela escola das crianças, nossa saúde tem um dos custos mais baixos do mundo desenvolvido para garantir o acesso a médicos de excelência, gastamos para o funcionamento e investimento em nossa esfera pública mais da metade do que produzimos a cada ano. Portanto, paremos... paremos de nos subestimar ou fazer crer que a França seria um país onde não existe solidariedade e onde se deveria gastar cada vez mais!

Podemos fazer melhor e devemos fazer melhor: garantir que os serviços públicos continuem presentes onde quer que precisemos deles, que os médicos se fixem onde há falta deles – em pontos do interior ou em cidades ou bairros onde não estão mais –, que haja telefonia móvel ou internet onde quer que se viva e trabalhe. E que possamos, sobretudo, viver seguros e tranquilos em todo lugar. Vou zelar por isso pessoalmente e a cada dia.

O debate nacional que se abre deve permitir que sejamos francos, e em alguns dias vou lhes escrever para deixar claros seus princípios. Mas ser franco é falar da realidade.

O voto pela verdade também é aquele que deve nos guiar a fim de mantermos nossa democracia robusta, evitarmos as informações falsas, as manipulações e as intoxicações.

Podemos debater sobre tudo, mas debater falsidades pode nos desorientar, sobretudo quando o impulso vem de interesses particulares.

Em tempos de redes sociais, de culto do imediato e da imagem e de comentários onipresentes, é indispensável reconstruirmos uma confiança democrática na verdade da informação baseada em regras de ética e transparência.

No fundo, esse voto pela verdade é um voto para que todos escutem, dialoguem, sejam humildes.

A verdade não é única, e acredito inclusive que cada um de nós começa a recair em erro quando afirma as coisas sem dialogar, sem confrontá-las com o real ou os argumentos dos outros. Debatamos, então, pois daí pode nascer uma ação útil e que nos una.

Meu segundo voto para 2019 é um voto pela dignidade.

Tenho a profunda convicção de que cada cidadão é necessário para o projeto da Nação.

Muitos concidadãos nossos não se sentem respeitados, considerados. Eles sentem sua vida como que emperrada. Penso nas mães de família que criam sozinhas seus filhos e terminam o mês sem dinheiro, penso em nossos agricultores que só querem viver dignamente do próprio trabalho ou em nossos modestos aposentados que ainda ajudam seus filhos e sustentam seus pais.

Começamos a trazer-lhes respostas, e sei de sua legítima impaciência, mas vamos precisar ir mais longe.

Isso implica permitirmos que cada um, quaisquer que sejam seu bairro e sua família, possa ter acesso a uma educação melhor, e graças a esta, possa ter acesso a um trabalho para construir sua vida e a de sua família. Isso exige assegurar a cada um os direitos na sociedade e esperar dele os deveres que são seus.

Começamos a restabelecer isso, mas é uma responsabilidade de todos nós, que passa pelo respeito, pelo senso de esforço e de trabalho.

Isso exige também combater os interesses ocultos que às vezes paralisam nossa sociedade e nosso Estado, que não reconhecem devidamente o mérito ou que compartimentam quase todos os nossos concidadãos.

Nossa dignidade de cidadãos ordena que cada um se sinta plenamente ator da vida da Nação, de suas grandes decisões, por meio de seus representantes ou diretamente. Graças ao debate que começou, devemos devolver à nossa democracia toda a sua vitalidade. Vou ter de tomar decisões nesse âmbito, pois obviamente nossas instituições devem continuar evoluindo.

Mas a dignidade, meus caros compatriotas, também é o respeito a cada um. E devo dizer, nos últimos tempos vi coisas impensáveis e escutei o inaceitável. Só vivemos livres em nosso país porque as gerações que nos precederam lutaram para não se submeter nem ao despotismo nem a tirania alguma. E essa liberdade requer uma ordem republicana; exige o respeito a cada um e a todas as opiniões; que alguns usem como pretexto falar em nome do povo – mas que povo, de onde? Como? E sendo de fato apenas os porta-vozes de uma multidão raivosa, atacam os políticos, as forças da ordem, os jornalistas, os judeus, os estrangeiros, os homossexuais, é pura e simplesmente a negação da França! O povo é soberano. Ele se expressa durante as eleições. Ele escolhe então representantes que criam a lei exatamente porque somos um Estado de direito.

A ordem republicana será preservada a qualquer custo, pois espero de cada um esse respeito indispensável à vida em sociedade.

Quero dar uma palavra a todos os que, no dia a dia, permitem que nossa República sirva pela maior dignidade possível de cada um: nossos militares, muitos dos quais esta noite estão a milhares de quilômetros de suas famílias; nossos bombeiros, nossos policiais civis e militares, (3) nossos profissionais da saúde, os políticos da República, os associados em trabalhos voluntários, todos os que atam o laço da Nação, servem pela fraternidade diária e que esta noite, eu sei, estão ao lado dos mais vulneráveis, dos mais frágeis, nos quais penso com todo sentimento.

Enfim, quero fazer um terceiro e último voto. Um voto pela esperança.

Esperança em nós mesmos, como povo.

Esperança em nosso futuro comum.

Esperança em nossa Europa.

Acredito que teremos em nós uma energia saudável se soubermos recuperar a confiança em nós mesmos e entre nós.

Acredito que a França carrega em si um projeto inédito: um projeto de educação de cada um, uma cultura forte que nos une, um projeto de construção de uma ecologia industrial, de uma sociedade com nova solidariedade e a serviço das pessoas.

E por trás disso, o que queremos profundamente é recuperar o domínio de nosso cotidiano e de nosso destino. Submissão nunca mais. É isso que deve guiar nossas escolhas para o país e as grandes decisões para o ano que vem. É isso também que deve guiar o projeto europeu renovado que vou lhes propor nas próximas semanas.

Recuperar o domínio de nossa vida é escolher nossa alimentação, garantir a justiça fiscal, proteger-nos contra nossos inimigos, investir para inovar, trazer uma resposta comum às migrações. Creio muito profundamente nessa Europa que pode proteger melhor os povos e nos devolver a esperança.

No próximo mês de maio, vamos ter de nos expressar sobre essa escolha europeia, que é tão importante.

Queremos acabar com o sentimento de impotência, em todos os níveis. É uma tarefa de alcance inédito, mas ela está diante de nós. Sei que estamos à altura dela. E é aí que reside essa esperança para 2019.

Eu cresci no interior e conheço essas terras que ficaram na desordem nessas últimas décadas e que não raro são céticas. E sei que nosso futuro não pode ser feito dispensando uma unidade a recuperar e o esforço de cada um.

É assim que cada cidadão vai reencontrar um pouco mais de sentido e um pouco mais de domínio de sua vida. E sei que nosso futuro depende de nossa capacidade de amar exatamente a nós e à nossa pátria; de todos os horizontes, de todas as gerações, aí está a energia da França.

Estou trabalhando, orgulhoso de nosso país, de todas as francesas e de todos os franceses; determinado a travar todos os combates atuais e futuros, porque acredito em nós; acredito nessa esperança francesa e europeia que podemos carregar.

Portanto, meus caros compatriotas, desejo a vocês um belo ano de 2019.

Viva a República e viva a França!


Notas (clique no número pra voltar ao texto)

(1) No original, “Hexagone”, isto é, “Hexágono” (território da França “metropolitana”).

(2) No original, “alternance” (formation par alternance), isto é, o sistema dual de educação, do qual uma parte maior é cumprida em atividade prática no trabalho, contando para avaliar a formação, e a outra parte em sala de aula.

(3) No original, “nos gendarmes, nos policiers”. Na França, apenas a “gendarmaria” é uma força militar armada, enquanto a polícia é um conjunto de funcionários públicos.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Deus empírico e Deus transcendental


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NOTA: O “Deus empírico” e o “Deus transcendental” – eis o nome do texto que escrevi no fim de janeiro de 2011, ou seja, quando minhas maiores reflexões da juventude ainda estavam frescas. Este ensaio representa de modo exemplar a articulação que eu fazia então entre religião, política e filosofia, não raro inserindo até elementos marxistas que hoje dão medo em muita gente! Meu argumento principal era o de que, independente de haver ou não realmente um deus onipotente e onisciente, a própria ideia de sua existência já gerava consequências que deviam ser levadas em conta prioritária na vida social e cotidiana. Infelizmente, não cheguei a ler o tal livro de Karen Armstrong, então uma defensora da crença perante os neoateus então em voga, mas hoje nem sinto falta. Um que tenho vontade é Não tenho fé suficiente para ser ateu, embora seus autores sejam reconhecidos pregadores. Tendo terminado minhas matérias na faculdade (nas quais entrei muito em contato com o marxismo), estando em ruptura com a religião e lendo muita filosofia, criei peculiares encontros no começo da década, quando eu ainda achava que evitaríamos os horrores dos anos 2000.



As primeiras impressões emitidas a respeito do recém-traduzido livro Em defesa de Deus, de Karen Armstrong, dão ensejo à retomada da discussão sobre a natureza do divino e sua existência. Minha opinião, em síntese, é a de que a autora, privilegiando a ideia de um Deus que só existe na consciência, reforça ainda mais a impossibilidade de sua existência real e cai em uma confusão conceitual já muito conhecida por nós.

Segundo alguns comentadores – ainda não tive a oportunidade de ler a obra inteira –, o conceito de Deus defendido por Armstrong é o de uma sensação ou vivência transcendental, extática, bela, não definível pela linguagem humana e que seria a verdadeira divindade professada pela teologia judaico-cristã em seu estado “puro”, e não o espírito pessoal e antropomórfico de supostas “deturpações” desse arcabouço teórico. Mais do que um ser com o qual devemos manter relações paternalistas de obediência, respeito e submissão, Deus seria a expressão das necessidades de bondade e beleza que todas as civilizações tiveram, e essa seria a essência do sentimento religioso em qualquer época. Tal delineamento não fica longe do de Rubem Alves em obras como O enigma da religião e Perguntaram-me se acredito em Deus: o “Senhor do Universo” torna-se uma metáfora passível de modificações interpretativas conforme as experiências espirituais subjetivas de cada pessoa ou grupo humano.

Se algumas delimitações conceituais fossem adotadas em larga escala, mesmo entre os escritores que gostam de fazer prosa poética com o vocabulário religioso, os leitores comuns e até os cientistas críticos mais apressados deixariam de ser vítimas de uma enganação cujos únicos privilegiados são os prosélitos eclesiásticos. Entendo, em primeiro lugar, que a religião, mais do que uma potência espiritual ou codificadora de preceitos celestes, é também um poder objetivo temporal, material, e que, por ser mais uma entre tantas instituições políticas ou “aparelhos privados de hegemonia” (Gramsci), não deve ter seu nome emprestado aos fatos transcendentais ou erótico-estéticos, de caráter estritamente subjetivo. Estes, aliás, alcançáveis por inúmeros meios e em matizados graus, desde a contemplação da natureza ou a fruição de uma música até a meditação ou o consumo de certas substâncias alucinógenas, passando pelo êxtase sexual ou pela emoção de encontrar alguém querido não visto há anos, são o Deus a que se refere Armstrong. Mas, em se considerando a história das escrituras religiosas, dos cultos oficiais e da teologia monoteísta, conclui-se que deuses – no plural, diga-se de passagem –, mais separáveis do sentimento individual do que da tradição codificada, sempre foram tomados como seres existentes – porém, pasmem, imateriais, se não se contar a exceção atomista –, com forma humana, onipotentes, onipresentes, oniscientes, interferentes no mundo, com vontades e paixões humanas, influenciáveis por preces ou oferendas e apresentáveis a castas ou indivíduos que afirmam interpretar suas mensagens – inclusive por aqueles instrumentos emocionais citados há pouco.

Verdade seja dita, impressões particulares de um mesmo fenômeno tão controverso e hermético não podem servir de regra geral para a normatização de condutas ou de teorizações. Mesmo que deuses – e já uso o termo em seu sentido estrito que determinei acima – existissem e se revelassem a certos grupos ou pessoas, as inferências se mostrariam tão díspares que não só seria mais plausível restringir a ocorrência desse tipo de transcendência ao campo privado, como também se imporia não levá-lo ao campo público, vistas as intermináveis discórdias e possíveis violências que elas causariam, além, é claro, da inviabilidade de coesão social. Mas nem é preciso levantar esses poréns contra um conceito unívoco de Deus: basta aproximarmo-nos mais de sua natureza filosófica para que se revele sua inveracidade. Dado que a percepção humana divide-se em subjetiva (consciência, ideal) e objetiva (exterioridade, material), Deus, para existir como força movente, deveria ser material, mas não é o que pregam os seus asseclas; portanto, é de se supor que se encontre no plano mental, ideal. Ora, conforme aquela divisão da percepção humana, o raciocínio não pode criar matéria, apenas moldar uma percepção dela dentro do cérebro, enquanto o meio condiciona o surgimento e a extinção de certos pensamentos e conceitos; assim, se os seres humanos, pedaços materiais dos quais a consciência tira a imagem dos deuses, não possuem as propriedades divinas de onisciência, onipotência etc., estas só podem ser uma adição vinda de dentro, de processos e vicissitudes internos condicionados pelas carências de nossa espécie, e não podem existir na realidade. Dessa forma, se Deus possuísse uma existência empírica, poderia muito bem ser detectado e verificado por instrumentos laboratoriais ou mensurais, mas, como isso nunca aconteceu – nem nunca acontecerá –, resta a sugestão de que sua razão de ser localiza-se apenas na mente humana, e não no mundo real, descartando todo o temor e influência de Sua ação.

Mesmo que a realidade de um “Deus empírico” seja impossível, resta ainda avaliar a força das ideias a respeito do sobrenatural sobre a sociedade: de fato, a organização do real na mente humana que proporciona o surgimento de deuses é fruto de contradições materiais muito bem exploradas por certos grupos chamados hoje de religiosos, messiânicos ou espiritualistas, e é na resolução dessas contradições que os grupos ateístas e secularistas precisam focar-se, o que os obriga a transformarem-se, mais do que em agrupamentos irreligiosos contestatórios, em movimentos sociais emancipatórios e transformadores. É assim que a prioridade, se se quiser extinguir pela raiz os males causados pelo fanatismo religioso, passa a ser não mais na prova da implausibilidade de Deus, objeto exclusivamente filosófico, mas nos problemas de sobrevivência da humanidade, estes sim, o verdadeiro alvo da ciência.


Bragança Paulista, 30 de janeiro de 2011.



segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Como pronunciar latim eclesiástico (3)


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Em fevereiro de 2018, decidi gravar em áudio todos os textos dos livros Gradus Primus e Gradus Secundus, de Paulo Rónai, traduzi-los e postar os vídeos com as ilustrações correspondentes. A essa série chamei Latim Pronunciado, com minha leitura em voz alta das leituras destinadas ao ensino do idioma latino no ginásio (mais ou menos 5.º a 9.º ano atuais) e criadas por volta dos anos 50. Paulo Rónai foi linguista, tradutor, escritor e crítico literário, e nasceu na Hungria antes de se radicar no Brasil.

Uma das críticas feitas por latinistas acadêmicos a esse método é que os textos são muito artificiais e não refletem a realidade romana antiga da língua. Mas eu gosto muito dele porque pra quem não sabe nada, é uma introdução bem didática, e serve ainda muito bem como manual autodidata. Se algum de vocês tiver qualquer dúvida sobre o idioma, pode me perguntar nos comentários ao vídeo.

Como falei na sequência anterior, decidi seguir a chamada “pronúncia eclesiástica”, baseada na língua italiana e atualmente usada em larga escala (quando se usa o latim) pela Igreja Católica Romana, porque ela é mais fácil, menos artificial e não padece da condição de hipótese, igual à “pronúncia reconstituída”. Estou fazendo a série por diversão, e pra quem não sabe nada da língua latina, embora não seja um curso propriamente. O latim também foi importante pra evangelização dos eslavos, e pra elaboração cultural feita pelos santos Cirilo e Metódio, codificadores da primeira língua eslava escrita. Além disso, muitos povos eslavos (ocidentais, além de croatas e eslovenos) não vieram à influência ortodoxa de matriz grega.

Desta vez, seguem abaixo os vídeos das lições de 11 a 20 do Gradus Primus que eu já gravei. Em breve, postarei as últimas 10 lições, até chegar finalmente na lição 30. Vocês lerão também as traduções livres que eu mesmo fiz, já que elas não acompanham os livros. Algumas leituras merecem observações: o provérbio que dá título à lição 13 (“Verba volant, scripta manent”) foi usado como epígrafe da famosa carta que Michel Temer, então vice-presidente da República no Brasil, enviou a Dilma Rousseff em 2015 pra expressar sua insatisfação com o governo. Divulgada ao público sem a aprovação do remetente, foi considerada pelos petistas como uma mostra de chororô e o ponto de virada em que o político do PMDB teria “lavado as mãos” pro processo de impeachment que finalmente depôs a chefe de Estado em abril-agosto de 2016. Ironicamente, a frase final parece uma descrição límpida do caráter dos políticos no Brasil, e ainda por cima, o número da lição é 13, o mesmo do PT! Já a lição 18 parece ter uma genealogia sobre por que gostamos de UFC e MMA, e quem teve professores de história bons, também vai lembrar a política romana do “pão e circo”. Mas o cômico é o gladiador no desenho tentando matar o inimigo com um garfão de bolo de aniversário!


SOBRE OS SENHORES E OS ESCRAVOS

Os romanos ricos tinham muitos escravos.

Rufo também era o senhor (ou “dono”) de muitos escravos. Os escravos de Rufo estimavam seu senhor, porque ele era bom: dava dinheiro aos escravos aplicados, e nem sequer batia nos maus, como faziam muitos.

Os escravos dos senhores severos levavam a vida miseravelmente, muitas vezes apanhavam e passavam fome. Raramente os escravos estavam contentes com os senhores, e os senhores com os escravos.


SOBRE A ESCOLA DE ORBÍLIO PUPILO

Muitos alunos frequentavam a escola de Orbílio Pupilo. [Prestem atenção que o objeto direto terminado em “-m” está no começo da frase.] Sexto, Aulo e Lúcio eram alunos de Orbílio. Todos os dias Orbílio instruía os meninos. O professor era um homem severo. Ele dizia muitas vezes aos meninos:

– Não aprendemos pra escola, mas pra vida, garotos!

O professor não gostava dos maus alunos e os castigava com frequência. Por isso, os alunos preguiçosos chamavam o professor de “Orbílio Espancador”.


AS PALAVRAS VOAM, OS ESCRITOS FICAM

Quinto Horácio Flaco frequenta a escola de Orbílio. O pequeno menino obedece aos preceitos do professor e sempre estuda com diligência. Quinto serve de exemplo aos colegas. O professor dá de presente um livro ao bom aluno. Flaco um dia será um grande poeta.

Orbílio frequentemente dita belos provérbios aos alunos. Os meninos copiam os provérbios, porque “as palavras voam, os escritos ficam”. Eis o primeiro provérbio:

“O dinheiro não sacia, mas irrita o avarento” [notem de novo como avarum, objeto direto, está no início da frase].


OS MENINOS NO JARDIM DE RUFO

Os meninos estão visitando o jardim de Rufo com o professor. Que bonito é o jardim! Por todo o canto, rosas vermelhas exalam perfume, narcisos amarelos riem, lírios brancos deleitam os olhos. Alegres, os meninos pulam, cantam, jogam bola, correm, decoram a estátua do deus dos jardins com coroas.


OS MENINOS NO FÓRUM

– Se vocês forem aplicados, meninos, – diz Orbílio – amanhã vamos visitar o Fórum. Lá vocês vão ver os belos templos dos grandes deuses. Também vou mostrar a vocês a Cúria, onde os senadores se reúnem. No Fórum, vocês vão ouvir os advogados.

Agora vou ditar a vocês a sentença de hoje:

“Hoje eu, amanhã você.”

Aulo, amanhã você vai recitar a sentença; você, por outro lado, Sexto, vai explicá-la.


SOBRE A SAÚDE E A DOENÇA

Lúcio, filho de Rufo e de Lucrécia, está doente. A doença do filho preocupa muito a mãe. O pai chama o médico. O médico aplica um remédio ao doente e diz:

– Coragem, Lúcio! Se você tomar o remédio, amanhã vai estar bom.

O pai também encoraja o filho.

– Não é nada, meu filho! – diz Rufo. – “A dor do espírito é mais grave do que a dor do corpo.”

As palavras do pai muito encorajam Lúcio.


SOBRE AS PROFISSÕES

Na cidade de Roma encontramos muitas profissões.

O padeiro faz pão, o alfaiate roupas, o sapateiro calçados. Os professores ensinam os meninos, os médicos curam os doentes, os marinheiros percorrem os mares e os soldados combatem.

“O marinheiro fala de ventos, o lavrador de touros.
O soldado conta feridas, o pastor ovelhas.”


SOBRE OS JOGOS CIRCENSES

O velho povo de Roma sempre exigia “pão e circo”. Os edis muitas vezes promoviam jogos para o povo. As lutas atrozes dos gladiadores no circo agradavam muito ao povo cruel.

Os homens violentos, quando desciam à arena, assim saudavam César:

“Ave, César, os que vão morrer te saúdam.” Os espectadores decidiam sobre a morte dos vencidos virando o polegar.


SOBRE A IDADE DE OURO

A primeira idade (era) da Terra foi a de ouro (áurea). Os homens então cultivavam o direito sem leis, desconheciam as guerras, os exércitos, as espadas e os clarins, e viviam sem usar soldados. O castigo e o medo eram ausentes. A primavera era eterna.


NA ESCOLA DE ORBÍLIO PUPILO

Professor: – Ontem lemos sobre a idade de ouro. Agora vou ensinar uma coisa nova. Todo o dia vocês aprendem alguma coisa; como dizia o famoso Apeles: “Nenhum dia sem uma linha.” Portanto, copiem a sentença do poeta Publílio Siro: “A prática de todas as coisas é o melhor professor.” Aulo, leia e explique a sentença.

Aulo, que estava brincando com Sexto, cala-se.

Professor: – Cuidado, Aulo! Se você brincar na escola, vou castigá-lo. Diz um sábio muito bem: “Os olhos são cegos se o espírito faz outras coisas.”


sábado, 19 de janeiro de 2019

Socialismo e política do PCB, anos 50


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Este texto se chama “Inevitabilidade do socialismo e as linhas políticas do PCB nos anos 1950”, e eu o escrevi na segunda metade de 2011, quando estava redigindo minha monografia (TCC) ao concluir a graduação em História pela Unicamp. Sempre orientado pelo Prof. Claudio Batalha, eu retomei o tema que já tinha pesquisado na iniciação científica em 2008 e 2009, o impacto do “relatório secreto” de Nikita Khruschov criticando Stalin em fevereiro de 1956 sobre o Partido Comunista do Brasil (PCB) e a recepção das reformas na URSS pelos comunistas brasileiros. Durante a iniciação científica, eu tinha estado recebendo uma bolsa federal do CNPq por meio do programa interno PIBIC. Eu estava então com as ideias bem frescas na cabeça, e não seria o único texto refletindo sobre meu tema de estudo, mas antes de 2014, quando comecei meu mestrado, infelizmente perdi a prática no assunto. Tendo um tom ensaístico, sem muito retorno às fontes, eu ainda subscrevo o conteúdo do texto, mas só não escreveria hoje a conclusão muito condescendente. Não mudei os dados, mas fiz umas correções redacionais em prol da clareza e da atualização.



Introdução – O Partido Comunista do Brasil, ou PCB (que trocou o “do Brasil” por “Brasileiro” em 1961), sempre foi conhecido, desde sua fundação, em 1922, pela constante oscilação entre linhas políticas diversas, ora mais radicais, ora mais conciliatórias; ora sedentas da necessidade de derrubar a ordem vigente, ora propensas a adequar-se ao Estado capitalista; ora apressadas em passar o poder às mãos do proletariado, ora dispostas a dividir a liderança com setores das classes dominantes tidos como progressistas. Entre as décadas de 1950 e 1960, nota-se a passagem gradual de um programa considerado, posteriormente, “esquerdista”, “sectário” e “aventureiro” a outro visto por muitos como “direitista”, “revisionista” e “reformista”.

Essa transformação está ligada tanto a fatores nacionais, como a política estatal, as mobilizações operárias e as condições econômicas produtivas e populares, quanto a fatores internacionais – em última instância, importantes sempre e muito para o País –, como o equilíbrio diplomático entre soviéticos e norte-americanos (os dois polos mundiais de poder da época), a situação do mercado financeiro mundial, as mudanças sociais em outros países e as vicissitudes do chamado “bloco socialista”, então liderado pela URSS, a matriz orientadora dos comunistas brasileiros.

Além disso, a referida virada tática abarca uma discussão antiga sobre dois temas caros ao pensamento comunista do século 20: a presumida inevitabilidade da marcha global rumo ao socialismo e ao comunismo, que mais cedo ou mais tarde triunfariam inevitavelmente sobre o capitalismo e cuja suposição foi realimentada pelo líder soviético Nikita Khruschov; e a leitura feita pelo PC brasileiro a respeito da “revolução democrático-burguesa”, pregada na maior parte de sua existência e frequente legitimadora, embora de um modo particular, de uma orientação contrária a certas mobilizações operárias e favorável ao alinhamento com as demandas da grande burguesia nativa.

Breve histórico dos programas pecebistas – Em 1947, acirrada a “guerra fria”, o PCB teve seu registro cassado e, no ano seguinte, seus parlamentares perderam os mandatos. Em resposta, é adotada uma linha política insurrecionalista, de derrubada do governo do presidente Eurico Dutra, de rupturas com a maioria dos aliados, de combate ao “imperialismo” de todos os grandes países, de oposição à burguesia como um todo e de boicote as eleições, vistas como uma “farsa” de um regime opressor “de latifundiários e grandes capitalistas”. (Cabe lembrar que desde 1945, quando se tornou legal e elegeu vários deputados federais e Luiz Carlos Prestes, seu secretário-geral, como senador, o Partido seguia uma prática de centralidade na política institucional e de abstenção em confrontos trabalhistas diretos por reivindicações imediatas. Fruto de uma conjuntura global de distensão e prestígio dos comunistas, desapareceu junto com o cenário que lhe favorecia.)

A radicalização foi verbalizada pela primeira vez no Manifesto de Janeiro de 1948 e ratificada no Manifesto de Agosto de 1950. Com os posteriores fracassos na agitação ideológica, na atuação sindical e na participação política e com a maciça adesão popular a Vargas e ao trabalhismo do PTB, os comunistas aprovaram um novo Programa no seu 4.º Congresso de novembro de 1954. Ele ainda postulava a sublevação contra o Estado e, embora documentos anteriores do mesmo ano já exaltassem a alternativa contrária, não previa a colocação eleitoral de suas propostas, mas aceitava o apoio da chamada “burguesia nacional” (um setor de capitalistas brasileiros que, na concepção pecebista, recusavam a dominação financeira de outras nações), cujas propriedades ficariam intocadas no processo revolucionário, e a concentração do fogo apenas no “imperialismo” norte-americano. Também se voltou a tolerar alianças mais variadas, especialmente com os dirigentes trabalhistas.

O clima de otimismo com o desenvolvimento sob Juscelino Kubitschek, a onda de nacionalismo patriótico emancipatório entre os povos subdesenvolvidos ou colonizados e o abalo no mundo socialista com a revelação dos excessos de Stalin em 1956 levaram a mais uma revisão progressiva da linha partidária, em consonância com os novos tempos de paz e distensão. A partir da Declaração de Março de 1958 e com maior força no 5.º Congresso, em agosto de 1960, o PCB passará a valorizar as eleições nas suas tentativas de obter visibilidade, como já fizera apoiando JK e o vice João Goulart em 1955, apostará na possibilidade do caminho pacífico para as transformações sociais, lutará pelo registro eleitoral e se comprometerá ainda mais com o nacionalismo, mesmo que isso implicasse a convivência com inimigos de classe históricos.

Aceitações e resistências às mudanças da linha – É ingenuidade pensar, contudo, que a troca de diretrizes era imediata, como que por clarividência súbita da direção e sem demora em sua aplicação. Conforme as necessidades internas e externas iam forçando o Partido, a linha oficial era progressivamente desobedecida ou até discretamente posta de lado pelo dinamismo das bases, pelo paulatino recuo ou giro em algumas posições ou atitudes e mesmo por documentos diretivos que consolidavam o que o Comitê Central, uma das instâncias superiores do organismo, inicialmente não queria enxergar nesses agentes. Além disso, muitos militantes ou frações por vezes demonstravam certa relutância ou até rejeição explícita a iminentes modificações programáticas. Assim, a evolução das táticas comunistas só pode se revelar após um minucioso trabalho de genealogia das correções e resistências.

Por exemplo, durante o segundo período Vargas, com o PCB isolado na clandestinidade, mas buscando criar sindicatos paralelos aos atrelados ao Ministério do Trabalho, o insucesso foi tão evidente que a chamada “Resolução Sindical” de 1952 voltou a favorecer a inserção dos trabalhadores no sindicalismo oficial, além de sugerir a religação às movimentações trabalhistas capitalizadas pelo Presidente da República. Da mesma forma, enquanto o Projeto de Programa, lançado em dezembro de 1953 para ser discutido e aprovado no 4.º Congresso, clamava pela derrubada do governo Vargas, sua versão final, instruída pela comoção popular decorrente do suicídio de 24 de agosto, substituiu aquele nome próprio pelo genérico “atual governo”. Já em agosto de 1955, quando o Programa oficial ainda cogitava a luta armada, os comunistas lançaram um manifesto de apoio às candidaturas de JK e Jango e incentivaram a participação ativa no pleito presidencial.

Quanto às resistências, pode-se citar inicialmente a discordância de Fernando de Lacerda, nos debates do 4.º Congresso, com a ordem de “derrubada do governo”, pelo que foi extremamente censurado e marginalizado. Mais tarde, a declaração de 1958 e a Resolução Política do 5.º Congresso não foram impostos sem amarga luta interna, em que os elementos ligados às antigas ideias se opunham à valorização da “via pacífica” ou à sobrestimação do papel da burguesia na frente revolucionária. (Isso sem contar, é claro, as relativas novidades analíticas e o rebaixamento de alguns dirigentes já em 1957.) Como se vê, as guinadas são fruto de longas maturações e vivências matizadas, enquanto as recalcitrâncias podem igualmente forçar conciliações junto a uma cúpula muitas vezes tida como impenetrável e onipotente.

A ideia da “inevitabilidade do socialismo” – As reviravoltas no Partido, como já se falou, têm entre seus condicionantes as viragens no movimento comunista internacional, devidas a complexas mutações geopolíticas e econômicas nas relações entre os Estados nacionais, estando a inevitabilidade da transição ao modo de produção socialista entre as diversas concepções que vez ou outra entram e saem de cena. Emergente de modo cíclico desde a consolidação da social-democracia na Europa, essa ideia consiste na crença, por parte dos governos ou movimentos marxistas, de que as condições mundiais seriam tão favoráveis que a chegada ao socialismo e ao comunismo seria questão de tempo, ou seja, não seriam necessárias revoluções violentas ou revoltas de massa para a mudança do regime político. Bastaria, por exemplo, que a simples espera ou atuação parlamentar deixassem o desenvolvimento capitalista desembocar pacificamente no cenário pretendido.

Esse princípio é estranho aos principais “clássicos”, sobretudo a Marx e Engels, e a Lenin em algum grau. Para eles, o socialismo era uma possibilidade a ser construída com base no que as contradições do capitalismo ofereciam ao proletariado, e não algo que tivesse de ser erigido do nada ou que florescesse sozinho. Era, antes, uma espécie de consequência, na acepção mais ampla, “necessária” do desenvolvimento capitalista, a meio caminho entre a mera alternatividade e a mera inexorabilidade: havia uma pedra preciosa escondida nas profundezas da terra, mas era preciso cavar, trabalhar para encontrá-la.

De forma oposta pensavam os sociais-democratas do Ocidente europeu entre os séculos 19 e 20, que se ativeram ao trabalho legislativo e não evitaram a eclosão da Primeira Guerra Mundial; os stalinistas do imediato pós-guerra, que confiavam na criação de um sistema mundial de nações socialistas para a realização segura de seus ideais; e os khruschovistas herdeiros do 20.º Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956, para os quais fatores como a descolonização, os nacionalismos anti-imperialistas e a dissuasão atômica bastariam para atrair mais adeptos a seu “campo da paz”. Por isso, momentos como a revolução bolchevique e a agressividade contra Tito e outros “revisionistas” podem ser considerados ciclos em que as forças socialistas se consideravam cercadas pelo inimigo capitalista e sem garantia de vitória, em outras palavras, seriam fortalezas sitiadas em torno das quais seria necessária a mais ampla união disciplinada e homogênea.

A noção de “revolução democrático-burguesa” – De forma permanente, mas com maior vigor justamente nessas horas mais cômodas, preponderou no PCB a noção de que a etapa atual da revolução brasileira não seria socialista, mas “democrático-burguesa”. Esse termo foi decalcado das análises leninianas da situação russa, tão atrasada que exigiria primeiramente, para que surgissem as condições necessárias à construção do socialismo, as conquistas básicas que haviam caracterizado a burguesia revolucionária nos países capitalistas avançados nos séculos 18 e 19, quais sejam a industrialização, a democracia política e a popularização da cultura e da educação. Na etapa socialista, esses traços seriam dialeticamente aperfeiçoados e levados além nas suas melhores consequências, mas sua implantação seria obra do próprio operariado, e não exclusivamente da burguesia nem da consolidação do capitalismo “selvagem” na Rússia. O nome “democrático-burguês” deriva da origem histórica de tais conquistas; se fosse o caso de implantar o capitalismo, a etapa se chamaria “revolução capitalista”.

Todavia, a Internacional Comunista – que desapareceu em 1943, mas fincou sólidas raízes teóricas –, buscando exportar a revolução, aplicou o rótulo a todos os países ditos “semicoloniais” ou “dependentes” em 1928, e também à América Latina em 1929, com o agravante de supor que viria a calhar uma aliança mal-explicada com as “burguesias nacionais”, que presumivelmente guardariam rancores do capital estrangeiro. E isso sem analisar mais detidamente as particularidades locais que poderiam fazer a teoria cair por terra. No caso do Brasil, classificado pelo PCB como “dependente sob risco iminente de colonização pelos EUA”, aqueles três requisitos pareciam encontrar-se num meio-termo total: na década de 1950, a industrialização era suficientemente ampla e a democracia, razoavelmente estável, ainda que incompleta, mas a educação e a cultura restavam sofríveis.

Eis uma “revolução democrático-burguesa” já feita pela metade e cujos pré-requisitos, descontada a escala maior, parecem atualmente continuar os mesmos. Não obstante, os comunistas brasileiros, no processo de “desradicalização”, reviraram a terminologia: a tomada do poder era adiada indefinidamente, quando originalmente ela era mesmo adiantada no tempo; a chance de evitar os males do capitalismo é trocada pela sua perpetuação; e a hegemonia proletária, tão cara ao patrimônio marxista, cedia espaço à liderança de quem já era líder, aliás, contra a vontade do público-alvo, visto que a burguesia dita nacional não se julgava de forma alguma revolucionária, ao menos do modo como colocavam os seguidores de Prestes. Não foi outro o motivo que levou o “Cavaleiro da Esperança” a dizer por duas vezes, em 1945 e em 1958, que os trabalhadores brasileiros sofriam mais da estagnação do capitalismo do que de seu desenvolvimento.

Conclusão – Sempre foi cômodo para certos juízes impertinentes mandar a objetividade às favas e formatar seu tema de estudo dentro de sua idílica e experiente contemporaneidade. Como é bonito atribuir erros, pecados e má-fé a nossos antepassados, ignorantes de uma trajetória que temos resumida ao alcance das mãos, mas que lhes foi permitido tatear apenas com muito sacrifício! Sacrifício de bens materiais, de tempo livre, de prazeres, de uma vida que poderiam ter levado na santa paz de seus lares e trabalhos, mas que optaram depor no altar do bem comum e da justiça social. E se hoje temos a arrogância de dizer que sua luta enveredou por caminhos equivocados e por leituras dogmáticas da realidade, também somos capazes de saber que a história não pode ser reescrita nem é passível de conjeturas.

Assim, deve-se reconhecer com humildade a esperança que se depositava na vitória do socialismo como advinda de uma conjuntura de relaxamento das tensões políticas e militares entre os dois “blocos”, de retomada do desenvolvimento econômico em escala mundial e de profusão do sentimento de emancipação patriótica e de regimes que respeitavam os valores democráticos, ou ao menos implantavam as primeiras formas de representação popular em sociedades bastante conservadoras. Pode não haver justificativas estritamente racionais para a manutenção da matriz terceiro-internacionalista, mas entende-se que o exemplo russo, ainda o único que havia edificado uma grande potência, mantinha-se atual e com prestígio renovado, e não desgastado, desde os anos 1940, até que a pluralização dos marxismos na década de 1960, com o avanço da “desestalinização”, alterasse lentamente a situação; o tigre chinês ainda era um gatinho de papel.

De qualquer forma, como dizia o comunista francês Georges Cogniot, a Comintern era o começo da caminhada daquela geração. Geração que tarde compreendeu a indomabilidade das forças que não permitem ao ser humano fazer a história como ele quer e que não assistiu ao desmoronamento do sistema mundial em que residiam suas expectativas de dias melhores, sem desigualdade e opressão.


Bragança Paulista, 14 de setembro de 2011.


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