Há algum tempo encontrei este vídeo ao acaso, descrito em inglês, mas só em dezembro passado tive tempo de legendar. O dono do canal, porém, mesmo dizendo que o vídeo era muito raro, não soube explicar nem a fonte, nem a época, nem o contexto. Por meio de um rascunho de tradução postado num comentário, e catando o que eu entendia do áudio, achei o texto que parece ter servido de fonte. Trata-se do trecho de um discurso proferido por Iosif Stalin, líder da URSS de 1924 a 1953, numa reunião de motoristas avançados (ou “de vanguarda”) de colheitadeiras, em 1.º de dezembro de 1935. O texto foi publicado pela primeira vez no jornal Pravda de 4 de dezembro de 1935 e se encontra no tomo 14 das Obras completas de Stalin.
O que Stalin fala não tem nada a ver com o que foi publicado, pois embora haja muito do que se pode escutar no vídeo, o texto foi totalmente editado e modificado. Dessa forma, mesmo conseguindo reconstruir a maior parte em russo, me apoiei basicamente na tradução voluntária em inglês pra fazer o texto em português. Mas o mais interessante é ver um dos raros momentos em que Stalin é filmado falando no que se pode dizer “tom cotidiano” ou “fala normal”, sem aquela impostação e vagarosidade de discurso lido. Todos já conhecem sua “voz de eunuco”, que destoa do modo como o mito foi difundido. Mas o filme confirma essa descontração e populismo maiores de Stalin, em comparação com Hitler, que poucas vezes se via com ar jocoso e falando de perto com o povo.
Sou muito grato ao russo Dmitri Tikhomirov pela transcrição e sua própria tradução (que corrigi um pouco). Ressalto que os próprios russos afirmam ser difícil até pra um cidadão de hoje entender um áudio de Stalin: ele era georgiano e, mesmo abandonando a língua materna, seu russo tinha forte sotaque. Seguem os textos em russo, português e inglês, e o vídeo legendado; os colchetes em russo indicam variantes mais comuns das palavras que Stalin usou com o mesmo significado:
И ещё одна причина. Так как люди стали жить у нас лучше, чем в старое время, то и размножаться стали быстрее. Это очень хорошо, мы это приветствуем, товарищи. Сейчас у нас каждый год чистого прибытку [= прибавления] населения три миллиона. Это значит, каждый год мы получаем приращение на целую Финляндию. Десять лет, десять Финляндий, десять государств. Народу прибывает [= увеличивается] здорово. Смертности мало, рождаемость поднимается. Молодые, маленькие детишки ‒ о них забота нашего правительства, вы сами знаете, большая ‒ растут, выживают.
E mais uma razão. Desde que as pessoas começaram a viver melhor em nosso país do que nos velhos tempos, elas começaram a se multiplicar mais rapidamente. Isso é muito bom, congratulamo-nos com isso, camaradas. Agora, temos três milhões de lucro populacional líquido a cada ano. Isto significa que todos os anos o crescimento da nossa população é igual à população de toda a Finlândia. Dez anos, dez Finlândias, dez países. Um número cada vez maior de pessoas. A mortalidade é pequena, a taxa de natalidade está crescendo. Jovens, crianças pequenas ‒ vocês sabem disso, o grande cuidado do nosso governo é com eles ‒ eles crescem, sobrevivem.
One more reason. As people start to live better to compare with old times, so they start to reproduce faster. And this is very good. We welcome this, comrades. Now every year we have a population gain of 3 million. It means every year we have an increment at a size of Finland. 10 years, 10 Finlands. 10 countries. A huge gain of people. Mortality is low, a birth-rate is rising. Young, little kids, you know, our government takes a great care of them. They grow, they survive.
Adendo (17/5/2026): Há alguns dias, revisando o backup de algumas playlists de antigas contas minhas do YouTube, me deparei com este curto trecho de Stalin num ótimo canal russo de registro histórico. Não se pode dizer que esteja falando em tom coloquial “normal”, mas mesmo diante de um público muito amplo, ele mantém o humor que hoje chamaríamos “zoeiro”. O discurso integral, publicado com alta dose de revisão em suas Obras completas, foi feito durante o 8.º Congresso (Extraordinário) dos Sovietes, em 25 de novembro de 1936, e tratava do projeto pra uma nova Constituição da URSS, finalmente promulgada no dia 5 de dezembro seguinte.
O contexto (ou “POV”, como dizem os tiktokers...) é uma crítica ao Deutsche diplomatisch-politische Korrespondenz (lit. “Correspondência Político-Diplomática Alemã”), um jornal não oficial – daí o termo “oficioso” – do Ministério do Exterior alemão que tinha por objetivo informar a imprensa estrangeira, os diplomatas e os chefes políticos sobre a política externa do Reich e suas justificativas. Fundado em 1919 ainda sob a “República de Weimar”, saía com tamanho e periodicidade variáveis e continuou operando com Hitler, até sua queda em 1945. Segundo Stalin, a publicação tinha dito que um projeto de Constituição pra URSS era “inútil”, pois a própria União Soviética, na visão alemã, “não existia enquanto Estado, mas somente como realidade geográfica”.
O ditador rebate, usando um personagem não identificado do escritor Mikhail Saltykov-Schedrin, que seria um burocrata teimoso, mas de visão tacanha, e se propunha a “descobrir novamente a América” após ouvir maravilhas sobre os EUA. Na transcrição, a fala do burocrata sobre essa redescoberta (“No, kázhetsia, sié ot meniá ne zavísit”; “sié” – сие – seria uma forma arcaica ou humorística de “éto” – это) aparece antes do referido trecho, mas no vídeo, Stalin a pronuncia depois. Algumas palavras e a própria ordem delas também foram editadas, e aqui trago a transcrição conforme o áudio:
Я не знаю, не уверен, хватит ли ума у господ из германского официоза догадаться, что на бумаге, конечно, они могут “закрыть” любое государство. Но если говорить серьёзно, то “сие от них не зависит”... “Но, кажется, сие от меня не зависит”.
Não sei, não tenho certeza se os controladores do jornal oficioso alemão têm inteligência suficiente para concluir que no papel, obviamente, eles podem “descobrir” qualquer Estado. Mas falando seriamente, “isso aí não depende deles”... “Mas parece que isso aí não depende de mim”.

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