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10 de setembro de 2019

Memes recordando nosso passado (1)


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Não sei exatamente quem de vocês viveu as décadas de 1980 ou 1990, mas foram tempos de muito dinamismo e criatividade, em que as produções e relações pareciam ser muito mais sinceras e transparentes. Felizmente, vários vídeos e programas famosos dessa época foram publicados no YouTube pra que pudéssemos recordar essa nossa infância ou juventude, ou pra que os “millennials”, a galera dos anos 2000 ou no máximo 1995, pudesse ter um gostinho da última época não afogada nos avanços digitais. Como bom documentarista e humorista que sou, também carreguei no meu canal TV Eslavo trechos de vários programas ou acontecimentos de então, que pra mim soam engraçados em determinada ordem ou até fora de contexto. Vou ter atingido meu objetivo se os maduros matarem a saudade, e se os jovens conseguirem rir junto com a gente!











Nada mais maluco e vexatório do que os filmes então lançados, mesmo aqueles destinados a crianças e adolescentes. Muitos devem se lembrar tanto do filme quanto dos gibis (quadrinhos) do Menino Maluquinho, aloprado personagem infantil criado pelo genial cartunista Ziraldo. Infelizmente, ao contrário dos HQs da Disney ou da Turma da Mônica, a turma do Maluquinho (assim como a turma do Pererê, do mesmo autor) nunca esteve no mainstream dos cartuns infantis, mas quem vivia então num meio de classe “média média” ou tinha pais trabalhando no ensino público já tomou contato de alguma forma com essa figura.

A Turma da Mônica, assim como outras criações da época, girava em torno de uma turma de meninos e meninas que moravam num mesmo bairro e viviam brincando na rua, uma infância comum no Brasil, mesmo em alguns centros urbanos, dos anos 50 até meados dos anos 90. A obra de Mauricio de Sousa (que guarda mesmo semelhanças com o célebre Chaves/Chavo del Ocho do mexicano Bolaños) inspirou então muitos outros cartunistas, incluindo Ziraldo, embora certamente este tivesse também muita influência de seu passado mineiro. Mas a turma do Menino Maluquinho (que notavelmente, como o Chaves, não tem nome próprio), protagonizada pelo garoto que arma todas as confusões e se veste com um paletó velho e uma panela na cabeça, à maneira de um Napoleão mambembe, superava no “politicamente incorreto” e na malícia bem brasileira. Abordavam-se coisas que sequer pensaríamos hoje em exibir às crianças, tão blindadas em seus celulares e atividades protegidas.

Sem internet, computadores ou outras facilidades digitais, com pouca variação na TV e mais dificuldade de locomoção, uma de nossas diversões eram os gibis, revistas em quadrinhos ou coisas assim. O Menino Maluquinho tinha uma miniedição regular e almanaques maiores, que se não me engano, eram mensais. E vi pela primeira vez num dos almanaques a propaganda de Menino Maluquinho ‒ O Filme, produzido e lançado em 1995, o qual, porém, só devo ter visto uns anos depois pela TV (ou aluguei em fita cassete, não lembro direito). Mas, claro, como toda criança fascinada por magia e simplicidade (além de Mônica, Chaves, Pato Donald, Pica-Pau e por aí vai), eu adorei, e várias cenas ficaram na minha mente.

Uma delas é o fantástico “concurso de peido” (nas palavras do próprio Maluquinho, de camiseta amarela), protagonizado também pelos personagens Junim (de vermelho), Bocão (de azul), Lúcio (o negro) e Herman (o loiro). Realmente não sei o que dá na cabeça de quem resolve peidar coletivamente debaixo de um lençol... mas acho bem mais divertido e menos nocivo do que os moleques gamers que ficam debatendo história no YouTube sem ter lido um livro ou que se mutilam após brincadeiras no WhatsApp! O filme completo foi dirigido por Helvécio Ratton, produzido por Tarcísio Vidigal e lançou a carreira de Samuel Costa.

E não bastando os trash nacionais, tinha também os estrangeiros! O filme O Pestinha 2 (lançado em 1991, em português em 1992), protagonizado pelo garoto Júnior, é um daqueles clássicos tipo Sessão da Tarde pro público infantil, que no caso do SBT foi reprisado, como diria minha avó, “umas quinhentas vezes”. Segundo o Google, uma das caracterizações do filme é “humor negro”, e não sei se ele foi mesmo pensado pra exibição às crianças. Mas também pensando no Menino Maluquinho, o começo dos anos 90 foi rico em filmes nacionais e estrangeiros ditos “infantis”, mas que hoje teriam a linguagem e o enredo em grande parte considerados vulgares ou politicamente incorretos. O filme completo que usei sofreu algumas alterações, talvez pra burlar a polícia autoral, dando nessas vozes de pato.

No primeiro vídeo, Júnior filma a babá fazendo “sexo” com o namorado no quarto principal quando ela devia tomar conta dele. É estranho pensarmos hoje moleques desse tamanho precisando de “babá”, mas a fascinação pelas loiras jovens, desde a Xuxa até a Eliana, passando por Angélica, Marianne e Jack Petkovic, era recorrente. É interessante notarmos os recursos tecnológicos de então, como o jurássico game do Júnior e as tralhas de vídeo que ele tira do armário pra fazer o cinema ao ar livre. E também como éramos gradual e naturalmente “sexualizados”, sem perceber, com essa produção cultural. Hoje, até o Nando Moura faz estardalhaço com o conteúdo dessa época... No segundo vídeo, Júnior tem seu primeiro dia na escola da comunidade pra qual acabou de se mudar com o pai adotivo. Por razão que não me lembro, ele foi colocado numa classe, pela nossa dublagem, de 6.ª série (equivalente ao atual 7.º ano), não tendo ele a idade geralmente exigida pra esse nível. Logo no começo, ele já arranja encrenca com o adolescente Murph, que já tinha repetido de ano várias vezes. Os demais estudantes respondem na hora cálculos que até mesmo nós, não matemáticos, teríamos dificuldade em fazer de cabeça. Mas nosso amigo “retardatário” se recusa a responder: “Quanto é 3+2?”. No terceiro vídeo, Júnior e sua coleguinha Trixie, que é tão diabólica quanto ele e vive o provocando, têm mais uma de suas brigas na escola. No meio da confusão, ela o ameaça com uma pequena dinamite e Júnior acaba jogando o artefato na privada, antes de dar a descarga. Os dois saem correndo e a bomba percorre os canos até chegar bem no vaso onde o professor da 6.ª série estava... ahn, vejam a cena. No fim, ela explode com consequências desastrosas.

Pra fechar esta parte, um clássico que nossos professores de Geografia do Ensino Fundamental passavam todo ano, e agora, com essa onda de carolice puritana, não sei se ainda é permitido ou conveniente. O filme Guerra do fogo (Quest of Fire), de 1981, figura de um jeito didático e divertido o modo como nossos antepassados pré-históricos viviam e como fizeram as descobertas essenciais que nos forjaram como humanidade. Esta cena específica, que andou perdida nos recônditos do YouTube, fazia o delírio dos meus colegas.

Um brasileiro fez há alguns anos uma montagem com essa cena, que ele chamou de “Quest of Fuck”, mas com outra música em cima. Eu pus do jeito puro e sem mudanças pra fazerem memes à vontade! O filme completo não está disponível pra eu poder fazer a busca da cena específica, então usei mesmo os uploads feitos por um francês e por alguém que fala inglês, tendo eu apenas aumentado o volume, cortado os quadros e introduzido algumas repetições cômicas...

Guardem esta relíquia pra que nunca esqueçamos a Santa Cópula, antes que os aleluia-tolás da República nos obriguem a fazer filhos apenas por bluetooth ou Wi-Fi. Indiquei este vídeo como permitido apenas pra maiores de idade, e quem tem dificuldades de o abrir por isso, dirija-se diretamente ao disco virtual do canal.









Porém, nada mais politicamente incorreto, embora de forma muito sutil, do que os desenhos do Pica-Pau (Woody Woodpecker, em inglês), cujas versões atuais são bem mais aguadas e açucaradas. Desde os anos 1960 até a década de 2000, ele foi um sucesso ao ser reprisado ad infinitum pelo SBT e pela Record, sendo talvez o episódio mais lembrado aquele em que o pássaro tenta saltar as cataratas do Niágara num barril, mas termina substituído pelo guarda do parque, que então é saudado por vários visitantes de capa amarela. Ainda hoje, o Pica-Pau é lembrado pelos memes, feitos das versões antigas pelos mais velhos pro deleite dos mais novos.

Primeiro, temos a amostra de uma abertura genérica dos desenhos produzidos nos anos 60, da qual eu tirei apenas o título do episódio. Em segundo, temos o exemplo de uma frase que isolada podia se tornar um meme, tirada do episódio “O cuidador descuidado” (1962). Ele é famoso pelo cachorro médico (cujo modelo aparece em outros episódios) de um parque que superprotegia uma árvore velha chamada Gertrudes, a “Tudinha”.

O terceiro exemplo me veio como sticker (figurinha) de WhatsApp, com o Pica-Pau comendo alpiste em sua casinha na árvore e dizendo: “Quero morrer de catapora!”. Pesquisando, descobri que se tratava de um trecho do episódio em que um urso fabricante de bolas de boliche tenta derrubar a árvore em que o pássaro mora, mas cujo trabalho vai ser todo estorvado pelo nosso astro. Quando o Pica-Pau começa a sentir que sua árvore está tremendo, ainda sem saber que é por causa das machadadas do urso, ele exclama: “Quero morrer de catapora!”.

Nunca ninguém entendeu essa piada, que parece algo meio sem sentido ou feito de propósito só pra zoar, pelo menos quem viu nos últimos anos. A cena, por isso, virou meio que um meme em alguns meios, embora de alcance não tão amplo. Continuando a busca no YouTube, achei uma canção interpretada por Ângela Maria, gravada em 1970 em ritmo de marchinha de Carnaval antiga, que chamava exatamente Quero morrer de catapora! O refrão diz assim: “Quero morrer de catapora se eu não contar que você comeu amora... Quero morrer de catapora se eu não contar que você namora...”. Ou seja, tempos em que namoros e sexo ainda eram tratados como tabu, sobretudo sem autorização dos pais, com a expressão “quero morrer de catapora” significando, essencialmente, que a pessoa não acredita de jeito nenhum que o acontecimento em sua expectativa possa não acontecer. O acontecimento seria tão certo que a pessoa arrisca sua vida se houvesse possibilidade de falhar.

Se bem que “catapora”, no senso comum (ainda mais que hoje é mais rara do que no passado), não parece ser uma causa de morte muito brutal ou heroica, tanto que esse foi o motivo da piada dos internautas. Entre os comentários, estava o de que “eis que você é um sadboy, mas só tem 9 anos”. Acontece que no fim do século 20, parece que a maioria dos cartuns “infantis” era destinada mais a adultos do que a crianças, não só porque eles entendiam as referências à cultura de massas (algo bem verdadeiro pra Turma da Mônica), mas também porque as obras eram cheias de conteúdo “politicamente incorreto”. É fato que muitos adultos consumiam, sim, desenhos e gibis infantis, porque não eram tão açucarados, inocentes ou direcionados quanto a produção atual, e porque a variedade de opções na TV aberta e o baixo preço das revistinhas os tornavam mais acessíveis.

Mas acredito também que no passado, como é meu caso, as crianças compartilhavam mais o mundo com os adultos, dada a variedade menor de entretenimentos, faltando os canais a cabo, canais do YouTube, livros inteiros, smartphones e toda uma cultura que fechou os pequeninos dentro de uma “bolha” em que só encontram seus semelhantes. Isso, claro, se estendeu a outros domínios da vida que, como no passado, nos obrigavam mais a viver cara a cara com pessoas diferentes. Com o passar do tempo, a produção infantil passou a ser mais “peneirada”, pra evitar o que seriam choques desnecessários, ainda mais que hoje, na verdade, o mundo adulto está é mais violento, letal e intolerante. No meu tempo, éramos educados “na marra”, vivendo muitas coisas iguais ou semelhantes às dos adultos, como músicas, novelas, programas de TV, revistas etc., muitas vezes contendo até sexo quase explícito. As novas tecnologias, na verdade, aumentaram a possibilidade de controle e assepsia.

E por último, fui inspirado pelo Jornal Nacional da TV Globo, que em 7 de março de 2019 apresentou uma reportagem sobre o trabalho do Prof. Marcos Buckeridge, biólogo da USP que desenvolvia um estudo com tipuanas pra prevenir sua queda ou amenizar seu apodrecimento. Essa espécie é uma das que mais caem na cidade de São Paulo, pois foram plantadas aos montes há mais de 60 anos e seu “prazo de validade” está vencendo justamente agora. E o problema se agravou com as chuvas de verão, cujas torrentes de água facilitam as quedas, causando inúmeros prejuízos materiais e até fatais.

Na hora fiz um paralelo com o mesmo episódio do Pica-Pau sobre a “Tudinha”, que o pássaro é flagrado bicando num parque público. O humor fica por conta de um cachorro antropomorfizado que faz o papel de cuidador das árvores do parque e se revela um “médico de árvores” apaixonado por elas. Da árvore mais velha em especial, a Gertrudes, ele cuida com todo um zelo especial, como se realmente fosse um ente querido muito debilitado. Muitos conhecem o episódio pelo bordão do Pica-Pau, “Então ele quer ouvir batidas? Que tal esta?”, mas em se tratando desse pássaro, todas as confusões são previsíveis.

E com essa montagem bem fuleira, pretendi fazer uma espécie de “humor inteligente”, relacionando trechos da reportagem de Roberto Kovalick com passagens cômicas do desenho. Na verdade, só comecei a usar o vídeo a partir de um determinado ponto, em que não falavam mais dos danos causados pelas quedas de árvores. Espero que tenha ficado razoável, e que ela também desperte em vocês o amor pela natureza e pela preservação ambiental!





Piadas sem graça também têm espaço na TV Eslavo! Fiz um trocadilho entre a expressão “arrocha”, ritmo em que Pablo gravou a canção Cristina ainda como vocalista do grupo baiano Asas Livres (volume 1 em CD), e o ato de “arrochar” parafusos freneticamente que Charlie Chaplin executa na célebre cena do filme Tempos modernos. Pra “piorar”, fiz trocadilho também com o primeiro e o segundo vídeos de desabamento de rochas, em que evidentemente “há rocha”!

Agora, sem trocadilhos, sempre gostei muito deste vídeo que achei por acaso, mas cujo contexto nunca consegui descobrir. Quando cortei o quadro e repostei, li que se trata de uma cena de casamento do filme árabe Al-Hudud (A Fronteira), produzido na Síria em 1984 e que foi estrelado pelo famoso comediante e diretor sírio Duraid Lahham (o senhor de bigode) no papel de Abdulwadud. Segundo a sinopse em inglês no site do IMDb, “Um viajante entre dois países fictícios chamados ‘Orientistão’ e ‘Ocidentistão’ perde seu passaporte e documentos pessoais. Preso entre os dois países, ele não pode nem cruzar a fronteira nem voltar pro lugar de onde veio. Ele teve de acampar numa área neutra entre os dois países, encarando inúmeras situações cômicas na estadia. O filme satiriza a ideologia da unidade e cooperação árabes no nível dos Estados.”

De fato, a República Árabe Unida, um Estado soberano que existiu de 1958 a 1971, foi inicialmente uma união política entre o Egito e a Síria, até que esta rompeu a ligação após o golpe de Estado de 1961, mas o nome continuou sendo usado oficialmente pelo Egito até 1971. Seu líder foi o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, e a RAU também integrou os Estados Árabes Unidos, uma frágil confederação com o Reino Mutawakkilita do Iêmen também dissolvida em 1961. A bandeira era exatamente a mesma da Síria atual, inclusive as duas estrelas verdes no meio, e foi o ápice da ideologia nacionalista e esquerdista do “pan-arabismo”, da qual Nasser era um fervoroso adepto, assim como o ditador líbio Muammar al-Gaddafi (líder em 1969-2011).

Duraid Lahham nasceu em Damasco em 1934, ficando muito famoso por fazer o personagem “Ghawwar” em inúmeros filmes e séries. De mãe libanesa, atuou ativamente com a dança folclórica dabke enquanto frequentava a faculdade de Química, e então se apaixonou pela dramaturgia. Lahham apareceu na primeira exibição de TV da Síria, em 1960, e atuou em várias peças políticas populares em todo o mundo árabe, como crítica da situação que se produzia nessa região. Em 1999 ele foi indicado pela UNICEF como Embaixador da Boa Vontade pro Oriente Médio e África do Norte, visitando o sul do Líbano em 2004 e fazendo aí um polêmico discurso contra George W. Bush e Ariel Sharon, primeiro-ministro de Israel. Lahham também recebeu condecorações de ditadores como Hafez al-Assad (pai do sírio Bashar), Habib Bourguiba (Tunísia) e Gaddafi.

A linda moça que faz o papel de Sodfah é a atriz Raghda Mahmoud Na’na, mais conhecida apenas como Raghda, também síria e nascida em 1957 em Aleppo. Formada em literatura árabe no Cairo, hoje vive no Egito e seu papel mais conhecido foi o da Rainha Zenóbia de Palmira na novela síria Al-Ababeed (A Anarquia, 1997). Uma das maiores estrelas do cinema egípcio e árabe dos anos 80 e 90, milita a favor de Bashar al-Assad, enquanto seu próprio pai é um opositor.







Procurando reclames antigos de serviços de namoro por telefone, me deparei com um dos blocos do episódio do jornalístico Documento Verdade sobre a solidão urbana e os meios de conhecer pessoas novas pra fazer amigos ou namorados. O programa foi exibido pela extinta Rede Manchete de 1989 a 1991, depois com menos impacto ou duração em outros canais. “Bafo de Chucrute”, o canal do vídeo, acrescenta uma explicação de como, no serviço de “disque-amizade”, as linhas telefônicas eram interligadas individualmente ou em grupo, sistema bastante primitivo pros padrões de hoje (só ver a condição das instalações). Porém, a postagem original é, na verdade, um poço de memes!

O abandonado “Bafo de Chucrute” tem muitas outras pérolas da TV dos anos 90 e 2000, incluindo cenas da novela O Clone e das primeiras temporadas do Big Brother Brasil. Quanto ao Documento Verdade, na verdade foi um épico que comprova o caráter mítico e muito à frente de seu tempo da Rede Manchete. Feito no formato Globo Repórter, mas com um tom muito mais cru e adulto, já abordava temas que hoje são lugar-comum, como homoafetividade, praias de nudismo, preconceito racial e os esquemas ilegais da Igreja Universal. No próprio site com arquivos da emissora, atual RedeTV!, há uma seção dedicada só ao Documento Verdade, esperando os primeiros xeretas loucos pra descobrir mais memes.

Samir de Lavor, funcionário da Telebrasília responsável pelo serviço gratuito Disque Amizade no fim dos anos 80, é uma figurinha à parte. Primeiro, ele alerta aos canais de conversa: “Com licença, com licença... Eu gostaria de pedir aos usuários dessa linha para que não falassem palavrão”. Talvez alguém tenha lhe respondido de forma grosseira, e ele resolve “encarar” o usuário calmamente. O pior é que no resto da reportagem ele diz que “as pessoas vêm descarregar as tensões do dia, no serviço que só funciona à noite”. Imaginem por que hoje as redes sociais são uma rede de difusão do ódio? Mais à frente, Samir diz que o Disque Amizade “é uma mentira gostosa”, assim como, talvez, os sites de mulher pelada, os joguinhos toscos do Facebook e as fake news de WhatsApp. Você já fez ou escutou alguma “mentira gostosa” hoje? Hahaha. Os rapazes seminus são uma vinheta da reportagem que passaria depois, sobre “um gênero de filmes que já faz sucesso há 10 anos nos EUA, mas só agora chegou ao Brasil”. Que medo...

Pra fechar com tudo, pensei numa personagem que se chamaria “Femís Regina”, já que lembra um pouco as últimas entrevistas da Elis fumando e com cabelo curto. Provável modelo do que os conservadores chamam hoje de “feminazi”, essa é do tipo segundo a qual nenhum homem presta, que macho deve morrer e que quem tem pinto não tem razão. Como bônus, fala depois o tradicional machista “que veio do interior”. Ela joga sua “mentira gostosa”: “O homem e a mulher não vai [sic] se entender nunca, porque a mulher agora ultrapassou o homem. ‘Cês’ têm que admitir isso, vocês são... vocês nada [...] Dependente[s], egoístas, sabe, não admite[m] o adultério... não admite[m], e a gente tem que admitir. Vocês são machistas, nada são... Olha, na minha opinião, o homem sempre foi descartável e vai continuar sendo. Dependente da mãe, depois da mulher.”



Pra encerrar nossa série de hoje, vamos de mais sucessos dos anos 90! Na próxima quinta, vou trazer mais alguns memes ou vídeos com lembranças do passado ou de anos mais recentes, mas incluindo também algum material internacional.

O youtuber Ricardo Vieira digitalizou uma série de antigas fitas VHS (cassete) com programas da TV Globo de meados dos anos 80 até final dos anos 90. Este vídeo raríssimo mostra a reportagem do Jornal Nacional em novembro de 1990, cobrindo a chegada da telefonia móvel ao Brasil e a primeira ligação feita pra uma linha fixa. Sérgio Chapelin, hoje astro do Globo Repórter, era então um dos âncoras, e o falecido Marcelo Rezende, anos depois famoso pelos programas policiais, teve a honra de fazer a cobertura de rua. É bom viajar na história, mas o crédito cabe todo ao resgate do Ricardo: visitem e se inscrevam no canal dele!

Eu decidi pôr esta parte do vídeo, porque eu já tinha baixado mesmo, pra fazer um meme. A diferença em relação à postagem original foi o corte do tempo e do enquadramento que fiz, deixando em formato 16:9 e me limitando ao tempo da primeira ligação. Eu também aumentei bem o volume, muito baixo no original. Na época, o secretário nacional de Comunicações (ainda não era ministério), Joel Marciano Rauber, fez a primeira chamada do Aterro do Flamengo, por meio de um dos aparelhos dados pela NEC à Companhia Telefônica do Rio de Janeiro.

O troço era um fone ligado num “mochilão” que se levava nos ombros, não tinha evoluído ainda nem pro célebre tijolão da Motorola. Quem atendeu foi o então ministro da Infraestrutura, Ozires Silva, numa linha fixa de São Paulo. O uso da palavra “automóvel” já parece meio caquético, mas o legal é que só se dizia “telefonia móvel”, e não “celular”, que foi o pai dos atuais smartphones (em Portugal ainda se diz “telemóvel”). Em 1990, apesar da brutal crise econômica, o presidente Collor tinha começado em março/abril uma abertura de mercado que permitiria a importação livre da mais recente tecnologia, o que certamente favoreceu o início dos celulares. O Rio de Janeiro tinha sido a primeira cidade a receber o serviço, e logo se expandiria mais ainda.



Esta velha manchete do Jornal Nacional ficou perdida por uns anos, e depois se fixou no YouTube. Lembro que em algum momento dos anos 2000 recebi esse vídeo por e-mail, relembrando a matéria que eu tinha visto pela televisão, mas não o salvei. Pela imprensa da época (já online) que consegui achar no Google, o padre se chamava (pasmem!) Francisco de Assis, tinha 38 anos e foi afastado de suas funções após agredir uma fiel, deficiente mental, no meio de um batizado na paróquia São José em Ituiutaba, MG. Ele teria sido transferido pra São Paulo e lá submetido a tratamento psiquiátrico, já que o fato teria se repetido antes em outra paróquia da região.

O padre, que batizava 26 crianças num domingo e era filmado por um cinegrafista amador (figura comum antes dos smartphones), veio do Rio Grande do Norte e há mais de um ano atuava na região. Identificada como Milena Silvéria, a mulher negra se colocou ao lado da pia batismal e começou a discutir com o padre, que começou a xingá-la e mandar que se afastasse, proferindo a célebre frase: “Paiaço [sic] é você, idiota!”. A hora que ela resolveu dar uma sacolada nele, Francisco de Assis estourou, jogou água benta nela e começou a esmurrá-la.

Essas informações são da Folha de Londrina (Paraná) de 12 de dezembro de 1997. Já segundo o caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo de 11 de dezembro, o motivo da expulsão teria sido o fato dela não ter sido convidada pra participar da cerimônia (já que os batizados eram familiares). Os moradores da cidade que fica a cerca de 695 km de Belo Horizonte afirmaram que Francisco não gostava de Silvéria porque era teria o costume de “falar alto” durante as missas.

Um blog anticlerical, por sua vez, misturou os fatos, dizendo que a irritação tinha sido porque ela estava falando alto durante o batizado, e ainda adicionou que ela tinha problemas mentais. O site vem com essa história de dízimo e não sei o quê, mas é notável como em muitas igrejas do interior (SP, MG, GO) parece sempre ter essa figura de uma pessoa um pouco deficiente que está sempre frequentando as missas, ou ao menos ajudando.

Outras fontes que consultei chamavam Francisco de Assis de “Padre Ryu”, rs. Mas em todo caso, não descobri o que houve depois com ele, já que os periódicos diziam que o alto clero decidiria seu destino enquanto estivesse em São Paulo. Muitas das repostagens, como esta que baixei, são de 2006, logo que o YouTube surgiu, mas outras são de depois. Eu apenas recortei o quadro, melhorei o áudio e a imagem e adicionei as famosas repetições.



A menina do Sul que ficou conhecida como o meme “Fulano né teu nome?” inspirou várias montagens que viralizaram na internet. Uma delas eu recebi por um grupo do WhatsApp, criada pelo Marcos: o ex-presidente Fernando Collor de Mello é entrevistado pela repórter Sônia Bridi, em matéria transmitida pelo Jornal Nacional em 18 de março de 1997 na TV Globo. Tendo sido eleito presidente em 1989, tomado posse em 1990 e sofrido um processo de impeachment em 1992, Collor se irrita bastante com as perguntas, num vídeo que pode ser achado em vários lugares do YouTube.

O próprio vídeo com o Collor tendo um ataque de fúria (algo que não era raro em sua vida política) se tornou uma pérola da televisão brasileira, mas ele ficou muito hilário nessa montagem genial com a menina da escola. Collor ficou conhecido por tentar resolver o velho problema da hiperinflação, mas ter deixado a economia brasileira ainda mais estraçalhada, apesar de algumas pegadas modernizantes. Curiosamente, estava então circulando um vídeo do hoje senador sabatinando novos diplomatas na Comissão de Relações Exteriores, em dezembro de 2018, e criticando a política externa de Jair Bolsonaro de alinhamento automático aos EUA. Todos se impressionaram com sua atual sobriedade, pensando que se até ele duvidava do atual governo, coisas boas não estariam por vir...