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24 de setembro de 2019

Fishuk pós-moderno: fichamento 2008


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/benatti




Quando cursei a disciplina Teoria da História III na graduação da Unicamp, no primeiro semestre de 2008, a Prof.ª Dr.ª Margareth Rago nos introduziu aos autores chamados genericamente “pós-modernos” ou “pós-estruturalistas”. Entre as décadas de 1960 e 1980, eles fizeram basicamente uma crítica da razão ocidental e do conceito consagrado sobre ciência que ela sustentava, trazendo novamente à tona os problemas da verdade, da narrativa e das convenções sociais. Esse panteão foi muito atacado pelos historiadores e marxistas tradicionais, pois estariam relativizando toda concepção previamente adotada sobre o fazer científico e aproximando a redação acadêmica da fluida literatura comum. Mesmo assim, gostei muito dos debates desafiadores promovidos em aula e de fazer o fichamento abaixo, datado daquele 27 de março, sobre um dos textos da coletânea que vou citar e da qual a leitura foi muito agradável. O texto não alterado tem apenas algumas atualizações na redação:


BENATTI, Antonio Paulo. História, Ciência, Escritura e Política. In: RAGO, Margareth; GIMENES, Renato Aloizio de Oliveira. Narrar o passado, repensar a história. Campinas: Unicamp, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2000, p. 63-103. (Coleção Idéias, 2.)


1. Ao analisar as teses e dissertações acadêmicas e livros com orientação científica, nota-se a “feiura” das ciências humanas advinda da oposição acadêmica à escrita literária, o que gera exclusões injustas. Na distinção de Barthes entre escritores (linguagem como meio e fim e como palco e alvo de perguntas) e escreventes (linguagem como instrumento e meio de fornecer respostas), os historiadores seriam escreventes, o que é fruto de uma “cultura cientificista” que culminou no século 19, na busca de dar estatuto científico à história. Com a crise dos modelos que sustentavam essa ideia, retornaram questões como o estatuto do discurso histórico, a neutralidade, a natureza do documento e o “retorno da narrativa” na escrita de uma história sem “dogmáticas cientificistas”. Mas como sua “cientificização” afastou-lhe a narrativa? (pp. 63-66).

2. A oposição entre “fábula” e “história” começou com Heródoto e passou por Aristóteles, marcando o “ideal de conhecimento da historiografia ocidental”. Ela continuou com Voltaire, que tentou racionalizar a escrita da história, que por dever narrar o verdadeiro, exige o uso de documentos e arquivos e o afastamento dos elementos da fábula, e inovou com a “ideia de cientificidade para a história”, a ser construída com o mesmo “método universal da razão” usado na natureza. Assim, a “vontade de verdade” iluminista agravou o afastamento da narrativa, mas talvez essa pretensão científica já se encontrava no Renascimento (pp. 66-68).

O Ensaio sobre os Costumes (Voltaire, 1756) reflete a ideia da racionalidade como caminho ao conhecimento e a história como o percurso em direção a ela, não se recusando de imediato a narrativa, mas iniciando-se a separação entre o verdadeiro e o belo, que originou a “consciência histórica moderna”. No século 18, mudam as concepções de “arte”, produtora de efeitos estéticos na qual é posta a literatura, e de “ciências”, baseadas no “exame crítico da documentação” ou na “busca de ‘leis’ do mundo humano” e nas quais é encaixada a história. Recusada a fábula, a narrativa é afastada da historiografia dos séculos 19 e 20 e separam-se o texto histórico e o chamado hoje de “literário” (pp. 68-70).

3. Ranke apaixonou-se pela “beleza” dos fatos sem “invenção e fabulação”, pensando, como outros historiadores do século 19, que a subjetividade tirava a qualidade do relato fadado a ser concorde aos “fatos”, o que passava uma ilusória “relação imediata com o passado”. O historicismo alemão impôs o rigor dos métodos científicos de uma história livre do imaginário e sua extensão às “ciências auxiliares”, o que levou vários discípulos a desprezar a boa escrita e, no caso dos norte-americanos, sofrer críticas de Webb, para quem eles postulavam uma verdade “feita tão feia que ninguém duvide de sua virgindade”. O romantismo do começo do século 19, mesmo longe do racionalismo, contribuiu à crítica histórica que cientificizava a disciplina, o que prova uma continuidade entre os séculos 18 e 19 (pp. 70-73).

4. A Introdução aos Estudos Históricos (1898), de Langlois e Seignobos, modelo que influenciou várias gerações de historiadores, ataca, em prol da “exposição científica” dos fatos, a “bela escrita” e, como retrocessos, o subjetivismo de Michelet e o “renascimento literário” romântico. A história, em meados do século 19, teria passado de gênero literário a ciência, exigindo dos historiadores não visar ser lidos nem “reviver o passado”, mas aumentar o “patrimônio científico da humanidade”. Assim, baseados em uma crítica documental científica, em provas e longe da literatura, os historiadores deveriam descrever os fatos em ordem cronológica tal como aconteceram, por uma linguagem livre de paixão e imaginação para não se afrouxar o rigor científico, visando a “neutralidade” e a “objetividade” (pp. 73-76).

5. No século 20, os historiadores marxistas e os ligados à Escola dos Annales criticaram a “ingenuidade epistemológica da história factual”, mas ainda rejeitavam a escrita literária. Os segundos, por muito tempo, viram a história como uma “semiciência” que deveria rejeitar a “rotina erudita” e o “empirismo”, posição que incentivou uma renovação guiada pela recusa do “dogmatismo científico” e traduzida especialmente no aperfeiçoamento da pesquisa, na nova visão sobre o documento e na interdisciplinaridade. Eles opõem, à “história-narrativa”, a “história-problema”, mais próxima da ciência, sendo aquela ruim pela proximidade com o jornalismo e pela ênfase no “tempo curto”, na “ação de seres excepcionais” e nos fatos “sem humanidade”. A história dos Annales na longa ou longuíssima duração, voltada a “processos anônimos e coletivos” e “mais quantitativa, serial e largamente matematizada”, eclipsou o acontecimento e recusou a ação “meramente descritiva e literária” (pp. 76-79).

Os marxistas criticaram a história narrativa por ligar-se às concepções históricas das classes dominantes e não dar conta das “leis dos processos dialéticos da história” nem da complexidade da luta de classes que a move. A história marxista, a única “científica”, deveria buscar o porquê visando à transformação da realidade ao transpor os limites universitários e escolares. Mas essa historiografia fez-se muito acadêmica e hermética, sendo sectária ao tentar atingir as pessoas comuns (pp. 79-81).

No século 19, para uma história científica, elaboraram-se métodos de crítica, modelos, teorias e leis, e excluiu-se a literatura até a década de 1980 devido a uma “ordem do discurso” excludente. A “inspeção rigorosa das fontes”, a “crítica dos documentos” e a interdisciplinaridade teriam abrigado das fábulas e da literatura a história da modernidade. Mas deixar em segundo plano a “estrutura narrativa” e aplicar métodos científicos semelhantes aos das ciências naturais não afastou a história da ficção, pois mesmo sem se pensar na forma, é impossível nunca se preocupar com ela (pp. 81-82).

6. Notou-se o retorno da narrativa (não linear e factual, mas ligada ao conteúdo e ao método) na história, devido ao ocaso dos grandes modelos explicativos, o aumento do público leitor e a recusa da pura quantificação de dados, mas, aceso o debate entre prós e contras, pode-se dizer que não foi um simples “retorno”, mas um reconhecimento, pois, com a “crise da ideia de ciência”, viu-se que todo saber produz sentido e tem caráter retórico. A modernidade não reconheceu o retórico na argumentação científica, depois descoberto como “presença generalizada de relações de poder em todos os tipos de interações” (pp. 82-84).

A narração escrita é inerente à história e foi camuflada para lhe dar caráter científico, mas o sujeito neutro e objetivo é uma produção histórica, portanto a idéia de história como ciência também o é. Deixou as melhores obras quem escapou da dicotomia “forma versus conteúdo”, que trouxe prejuízos à historiografia, provando que os dois são inseparáveis e insubordináveis entre si. Hoje, a historiografia soma retórica e estilo aos procedimentos científicos e não se preocupa com o subjetivismo (pp. 84-86).

7. Na discussão acadêmica sobre o conteúdo e a forma, o “caráter narrativo, retórico e poiético de todo o discurso”, constaram-se a crise epistemológica, o retorno da literatura e o fim do apego ao objetivismo na história, após um século de cientificismo. Mas a crítica à história-ciência é bem anterior, pois Anatole France qualificou o fato histórico como escolhido pelo historiador, o que exige sua imaginação, sendo a história uma arte ou, para Saramago, uma farsa, pois montada por “leitura baseada na bagagem social e individual” e predominantemente masculina, tendo sido diferente se escrita pelas mulheres e excluídos (pp. 86-89).

A crítica pós-moderna da verdade histórica e da racionalidade ocidental denunciou a história como eurocêntrica, “masculina, branca, adulta e heterossexual” e extintora das diferenças, não se negando que o passado existiu, mas que se pode ter dele um conhecimento exato. Valorizar a ciência sobre a arte como forma de conhecimento é algo cultural e histórico que “não é alheio às relações de poder intra e entre sociedades”. Buscar a objetividade histórica liga-se à literatura realista do século 19, unida à teoria de que o texto reflete a realidade, quando, na verdade, ele mesmo é produtor de significado, e hoje a diferença entre “real” e “imaginário” na história é problemática, pois nada garante que os documentos sejam “elementos pré-textuais, empíricos”. Os “pré-conceitos” do historiador intervêm no documento, que é um “vestígio textualizado do passado” e não, como a linguagem, “a matéria bruta do discurso histórico” (pp. 89-91).

8. Em especial marxistas acusaram de modismo, “irracionalismo” e mantenedora da ordem capitalista a desconstrução dos temas tradicionais feita pela nova historiografia, cujos adeptos se distanciariam do compromisso social e da “totalidade da Grande História”, submissos ao mercado editorial e à mídia. Essa reação autoritária e excludente refere-se à lógica binária da divisão entre marxistas e não-marxistas, esquecendo que se preocupar com a forma é repensar o que são poder e política e politizar a linguagem e a forma que ela assume no discurso acadêmico (pp. 92-93).

Os pós-modernos abalaram a “crença ingênua na ciência”, as “metanarrativas emancipatórias” e a noção comum de política, ao supor que o poder não está em um centro, mas em todos os lugares, difuso, inclusive, na linguagem. As análises de historiadores sobre a linguagem muito se atêm ao seu conteúdo, e não à sua forma, não servindo de “metalinguagem”, pois politizar o discurso é ver o poder na linguagem, poder que não é unitário, monolítico, mas difuso nos “mecanismos de intercâmbio social” (pp. 93-94).

Na produção histórica, reservada a uma “elite cultural”, o poder está no uso de um jargão próprio e nas práticas que constroem o conjunto de textos “verdadeiramente históricos”. A palavra “história” designa, entre outras coisas, a narração feita pelos historiadores, que, poderosos por serem “sacerdotes da memória”, não deixam de ser subjetivos, mas cegados à questão da linguagem e dos poderes (pp. 95-96).

Mesmo com a volta da “bela escrita” à história, o prazer estético não deve ser seu fim, mesmo não sendo dispensável, pois se deve problematizar a linguagem para se criticar a noção de verdade. É preciso notar “o aspecto político de toda escritura” para se debater a “questão da narrativa histórica”, pois a crítica da aliança do discurso da história com os poderes não deve ser feita na busca da “posição político-ideológica do autor” só no conteúdo, mas também na forma, que por vezes é inversa a ele. Chamam-se os “novos narrativistas” de desengajados, mas não são despolitizados, pois “escrever é comprometer-se”. A história, que tem sua razão de ser nas perguntas feitas pelo presente ao passado, refletiu as mudanças na sociedade contemporânea e pode driblar a influência do saber-poder na subjetividade dos historiadores por meio da escritura que cria “acontecimentos na linguagem” (pp. 96-99).

9. Os novos historiadores criticaram, como os literatos, a escrita esotérica e pretendem tornar seu discurso mais aberto, sem tirar-lhe sua capacidade analítica, a um público maior e culto que pode satisfazer-se com ele e acompanhar os progressos da área. A busca pela verdade é uma construção histórica que atende demandas que não são mais as de hoje, quando se deve superar a “separação entre forma e conteúdo”, sem se ver isso como regra devido à particularidade dos textos, que não representam verdades absolutas. A história, pelo prazer e contra o poder, deve deixar as “identidades universais” e centrar-se nas diferenças, sem largar os problemas postos pelo presente, conquistando o público culto, e não a academia (pp. 99-102).

No Brasil, deve-se e quer-se ampliar o público leitor, afastando a idéia de que fora da academia todos são “burros” e assumindo que “para escrever [...] é preciso pelo menos dois”, sem escrever em uma linguagem que se suponha “de todos”, mas lidar com a diversidade dentro do idioma mantendo a qualidade do conteúdo. A literatura e outros experimentos de escrita ajudam a lidar melhor com a descontinuidade e a desconstrução da história atual, garantindo-lhe vitalidade (pp. 102-103).