terça-feira, 18 de março de 2025

Votos de Emmanuel Macron pra 2018


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Desde a primeira posse de Emmanuel Macron, em 2017, os registros no site oficial do Elysée começaram a ficar muito bagunçados, e alguns discursos sumiram, outros ficaram mais difíceis de encontrar, não foi constituído um acervo de vídeos históricos etc. Por isso, fiquei dependente do que pude encontrar pelo Google ou no YouTube.

Curiosamente, os europeus pareciam gostar nos anos 2000 muito mais do Dailymotion ou do Vimeo do que do próprio YouTube, portanto, foi muito mais fácil achar os discursos de Sarkozy na primeira plataforma. A partir de 2013, sob François Hollande, ficou mais fácil achar em canais diversos do YouTube, sobretudo de agências de notícias, como estes votos pra 2018. Porém, até hoje não entendo por que nenhum vídeo do presidente Hollande foi publicado no YouTube oficial, enquanto o Dailymotion oficial é o mais completo de todos. Além disso, conforme as datas dos vídeos, há um “buraco” no YouTube entre 28 de janeiro de 2011 e 15 (“Ao vivo”) ou 18 (“Vídeos”) de janeiro de 2019...

O ano de referência sempre é o próximo, ao qual cada presidente está desejando votos, e não o que está acabando, quando o discurso é gravado e lançado. Uso o Google Tradutor pra obter os textos mais rapidamente, mas revisando e confrontando manualmente com os originais. Pra França, a fonte desses textos, como é o caso dos votos pra 2018, está sendo um site de informações políticas, econômicas e sociais chamado “Vie publique”, ligado ao gabinete do primeiro-ministro, mas infelizmente pouco divulgado.



Meus caros compatriotas,

Enquanto o ano se aproxima do fim, estou feliz em reencontrá-los para lhes fazer meus votos para o ano de 2018 pela primeira vez. Espero que vocês estejam em família, entre seus entes queridos e aqueles que amam vocês.

Também sei que alguns de vocês estão trabalhando hoje porque fazem parte das forças armadas ou da polícia, porque são médicos ou profissionais de saúde, porque são responsáveis pelo transporte ou pela continuidade dos serviços públicos. Esta noite quero agradecer-lhes por esse empenho.

Também sei que esta noite, muitos de vocês estão sozinhos, sofrendo ou doentes, e sei que nesses momentos de festa e reencontro, essa solidão e sofrimento são ainda mais difíceis de suportar. Portanto, a nossos concidadãos que se encontram nessa situação, quero dizer que eles pertencem a uma grande Nação e que os mil fios estendidos que nos mantêm unidos são mais fortes do que sua solidão, e lhes dedico um pensamento fraterno.

O ano de 2017 está acabando e não quero perder muito tempo olhando para ele; foi o ano da escolha: a escolha do povo francês, a escolha pela qual vocês me deram sua confiança e, com ela, sua impaciência, exigências e expectativas; estou plenamente ciente disso. Assim, desde minha eleição em maio passado, tenho me concentrado em simplesmente cumprir o que me prometi durante a campanha presidencial. O primeiro-ministro e seu governo vêm trabalhando desde maio passado com um Parlamento profundamente renovado para implementar seus compromissos. Por meio de suas escolhas durante o ano de 2017, vocês renovaram profundamente nossa vida política e permitiram que ocorresse uma transformação profunda em nosso país: na escola para nossos filhos, no trabalho para todos os nossos concidadãos, no clima, no dia a dia de cada uma e cada um de vocês. Essas transformações profundas começaram e continuarão com a mesma força, o mesmo ritmo e a mesma intensidade durante o ano de 2018.

O ano que se inicia é de fato um ano de muitos desafios e estamos construindo nele boa parte de nosso futuro. Para nossas áreas rurais, aonde devemos levar o acesso à telefonia móvel, à tecnologia digital e ao transporte e permitir mais inovações econômicas e sociais, para nossos bairros populares, permitindo a mobilidade econômica e social e combatendo a discriminação; para nossos agricultores, permitindo-lhes viver dignamente com o preço pago; para nossos territórios ultramarinos que sofreram muito nos últimos meses e aos quais gostaria de enviar uma saudação especial; adaptando as nossas regras e construindo setores econômicos fortes que permitam uma maior autonomia energética e a criação de empregos; pela igualdade entre homens e mulheres, o que também exigirá mudanças na lei e um reengajamento de toda a nossa sociedade; para autônomos e empreendedores, com regras simplificadas; um direito ao erro [categoria do direito francês; ler artigo a respeito] finalmente posto em prática; para os assalariados, permitindo aperfeiçoar-se por toda a vida e novas medidas de segurança; e para nossos servidores públicos, esclarecendo suas missões e nossas expectativas e recompensando seus esforços. Como podem ver, todos esses projetos marcarão o ano de 2018 e exigirão total e completo compromisso do Primeiro-Ministro e seu governo.

Continuarei fazendo aquilo para que me elegeram: tornar a França mais forte e justa; permitir, não adaptar nosso país às mudanças do mundo, mas permitir que ele seja o que é: um país forte, com uma exigência universal, que, por ser mais forte, produz mais, pode garantir com justiça a solidariedade em solo nacional e ter uma exigência humanista no plano internacional.

Sei que muitos de vocês não compartilham a política que é hoje conduzida pelo governo; eu os respeito e sempre os ouvirei; garantirei que todos os debates sejam conduzidos e que todas as vozes, incluindo as discordantes, sejam ouvidas, mas nem por isso deixarei de agir. Sempre ouvirei, explicarei nossa situação e a realidade dela; respeitarei e, sempre no final, farei, porque é disso que nosso país precisa e é o que vocês esperam de mim.

Em 2018, teremos que conduzir primeiro várias batalhas e ações determinadas em nível internacional: contra o terrorismo islâmico no Levante, no Sahel e em nosso solo nacional e, a esse respeito, quero pensar esta noite em nossos soldados que estão neste exato momento nesses teatros de batalha; penso em seus companheiros que tombaram este ano. Venceremos essa batalha contra o terrorismo. Também quero prestar homenagem aos policiais civis e militares que combatem diariamente esse terrorismo islâmico e protegem o dia a dia de vocês.

Mas é a paz que devemos conquistar também no plano internacional, ou seja, o trabalho essencial para a nossa segurança, mas também porque é nossa missão universal, o trabalho de garantir a estabilidade dos Estados e assegurar o respeito a todas as minorias. Foi o que fizemos no Líbano, é o que estamos fazendo hoje no Sahel e é o que continuaremos fazendo na Síria, no Oriente Médio e na África; é uma gramática da paz e da esperança que devemos reinventar hoje em muitos continentes.

No âmbito europeu, o ano de 2018 também será decisivo. Como vocês sabem, estou totalmente comprometido com essa batalha porque tenho plena convicção de que a Europa é boa para a França; que a França não pode ter sucesso sem uma Europa mais forte. Meus caros concidadãos europeus, 2018 é um ano muito especial e vou precisar de vocês este ano. Espero que, por meio dessas consultas cidadãs, vocês possam expressar-se, dizer o que querem para a Europa alguns meses antes de nossas eleições europeias e permitir que seus governantes elaborem um grande projeto; precisamos redescobrir a ambição europeia, redescobrir uma Europa mais soberana, mais unida e mais democrática, porque isso é bom para nosso povo. Acredito profundamente que a Europa pode se tornar essa potência econômica, social, ecológica e científica que poderá encarar a China e os EUA, portanto esses valores que nos formaram e são nossa história comum. Preciso da determinação de vocês para esse renascimento europeu e preciso que juntos não cedamos nada nem aos nacionalistas nem aos céticos.

De minha parte, continuarei trabalhando com cada um de nossos parceiros europeus e, particularmente, com a Alemanha. Essa conversa íntima com nossos amigos alemães é a condição necessária para qualquer avanço europeu; não exclui o diálogo com todos os nossos outros parceiros, mas é onde tudo começa. Preciso que avancemos também nesse âmbito, rompamos com os hábitos passados e reencontremos esse gosto partilhado por um futuro que decidimos por nós próprios.

Por fim, no âmbito nacional, 2018 será, a meu ver, o ano da coesão nacional. Estamos divididos há muito tempo e com muita frequência. Os debates são necessários, as divergências são legítimas, mas divisões irreconciliáveis solapam nosso país. Quero mais concórdia para a França em 2018. Para isso, quero acima de tudo focar na inteligência francesa, pois a temos dentro de nós. A escola deve ser o cadinho dessa coesão nacional e continuaremos fortalecendo-a; o aperfeiçoamento ao longo da vida é a proteção indispensável que permitirá a cada um enfrentar as grandes mudanças e entendê-las melhor, formar-se para aprender novas profissões. A ciência é uma alavanca essencial para prepararmos com sucesso nosso futuro e, por isso, nossa pesquisa é decisiva e nossa cultura é essa base comum de nosso imaginário, um imaginário de que necessitamos, o imaginário de um futuro onde cada uma e cada um deve poder encontrar-se.

Em seguida, quero me concentrar no trabalho. O trabalho está no coração de nossa sociedade, em primeiro lugar porque é o que permite que cada um encontre seu lugar, progrida na vida, liberte-se de seu meio de origem, se é o que cada um quiser, mas é também por meio do trabalho que nossa Nação será mais forte, porque produzirá e enriquecerá; precisamos do trabalho e eu o defenderei incansavelmente, permitindo que cada trabalhador ganhe mais com ele, dando formação a nossos concidadãos desempregados para que possam encontrar trabalho e as competências necessárias para isso, formando nossos jovens por meio de programas para aprendizes; o trabalho é o coração de nosso projeto comum.

Também quero me concentrar na fraternidade. A fraternidade é o que nos une, o que nos torna um, o que nos mantém juntos. Acredito no sucesso, nas conquistas, mas de que valem essas conquistas se, de alguma forma, são apenas conquistas de alguns e se alimentam egoísmos ou cinismos? Nada muito duradouro. Tantas Nações estão se desintegrando porque apenas algumas pessoas têm sucesso! De fato, precisamos repensar um grande projeto social para nosso país, o qual implementarei durante o próximo ano. É ele que deve inspirar nossa política de saúde, nossa política em favor das pessoas com deficiência, nossa política de alojamento para os sem-teto, nossa política social de auxílio aos mais necessitados. Sem isso, sem essa exigência humanista, nosso país não permanecerá unido. Isso também implica regras e rigor, e às vezes me deparo com algumas tensões éticas que não subestimo e que assumo plenamente. Quero que possamos fornecer um teto a todas e todos que hoje estão desabrigados. O governo tem se comprometido muito nos últimos meses nesse sentido e melhorado muito as coisas, mas ainda há situações que não são aceitáveis e que não aceito mais do que vocês. Portanto, continuaremos o esforço indispensável para conseguir respeitar plenamente o compromisso que eu próprio assumi com vocês.

Contem com minha total determinação nessa questão.

Devemos também acolher mulheres e homens que fogem de seus países porque são ameaçados em razão de sua origem, religião e convicções políticas. É o que chamamos direito de asilo. É um dever moral e político do qual não abro mão. Nós o respeitaremos; continuaremos acolhendo essas mulheres e homens porque a França é sua pátria, mas nem por isso podemos acolher todos nem o podemos fazer sem que haja regras. Também é indispensável que possamos verificar a identidade de cada uma e cada um, e quando alguém chega a nosso território e não se qualifica para o direito de asilo nem tem chance de obter a nacionalidade francesa, não podemos aceitar que permaneça por meses ou anos em situação de irregularidade, prejudicial para si e para o país. Nisso também precisamos de regras simples e respeitadas e, portanto, de rigor. Trabalharei para garantir que nosso país siga essa linha de humanidade e eficiência.

Por fim, nossa coesão nacional também depende do empenho de vocês. Sim, a coesão da Nação não é obra apenas do Presidente da República, de seu Primeiro-Ministro ou do governo; é o trabalho de cada uma e cada um de vocês. Perguntem a si mesmos todas as manhãs o que podem fazer pelo país para além de seu dia a dia, de sua vida, às vezes de suas dificuldades, digam sempre a si mesmos que vocês pertencem a um coletivo mais forte, maior do que vocês: a Nação Francesa. Foi esse coletivo que os educou, cuida de vocês e, quando vocês caem, os ajudam a se levantarem, que os ajudará na velhice. Digam a si mesmos a cada instante que têm algo a fazer pela Nação. Eu preciso desse empenho.

Todos os dias, desde que fui eleito Presidente da República, pude observar em nosso país esses milagres de solidariedade, empenho e entusiasmo; é disso que preciso e é por isso que preciso de vocês. O povo francês é um grande povo que às vezes subestima suas próprias forças interiores. Somos capazes de coisas excepcionais.

Portanto, meus caros compatriotas, esta noite me dirijo a vocês antes que um novo ano comece. Haverá dificuldades, sem dúvida haverá coisas que não teremos previsto; vocês poderão ter momentos de dúvida e dramas em suas vidas pessoais, mas nunca se esqueçam de que somos a Nação Francesa. E esta noite, quero dizer-lhes que é com esse espírito de conquista que partilhamos, essa inteira determinação, essa ambição sincera por nosso país e por cada um de vocês e essa vontade de dar vida a nosso Renascimento francês que faço a todos vocês meus melhores votos para o ano de 2018.

Viva a República e viva a França.



segunda-feira, 17 de março de 2025

Bella polenta così, tchatchapum!


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Me surpreendi quando a Radio France Internationale (RFI), em sua seção “Connaissances” (Conhecimentos), publicou um texto especial sobre “A polenta: uma tradição italiana das Américas”. De autoria de Olivier Favier (de quem já traduzi outros textos aqui), parece que ele adivinhou qual é meu prato favorito, sendo eu mesmo, em parte, descendente de vênetos! O título engana um pouco, pois não fala de nossas comunidades ítalo-brasileiras, que por vezes também chamam a iguaria de “poenta” na língua talian, mas do mero fato do milho ser de origem centro-americana.

Contudo, o material é excelente e não pude deixar de o trazer aqui! Pra célebre canção imigrante Bella polenta, cuja antiga partitura de minha avó aproveito pra trazer no final da publicação, veja também as coletâneas gravadas no Rio Grande do Sul pela Família Reck e pelo Tchê Luiz. Mangia che ti fa bene!!!



A polenta é um prato tradicional da culinária veneziana, que revela sutilmente seus molhos e acompanhamentos. Quase nos esquecemos de que durante muito tempo foi o alimento quase exclusivo dos mais pobres no norte da Itália. Mas essas raízes populares esquecidas também são recentes. De fato, elas coincidem com a chegada à Europa, bem no início do século 16, de uma planta ameríndia bem-sucedida: o milho.

A história do milho remonta a nove ou dez mil anos, à época em que surgiram os três grandes centros agrícolas do mundo. Enquanto o Oriente Médio e a China se puseram a cultivar, respectivamente, os ancestrais do trigo e do arroz, os povos do sudoeste do México começaram a explorar o teosinto, embora não esteja claro como ele era consumido.

Essa planta, que pouco tem a ver com o milho atual, foi então hibridizada, principalmente com uma de suas primas das terras altas mexicanas, para dar origem ao milho, que se tornou um dos alimentos básicos da América Central. Ele então conquistou o norte do continente há 1 500 anos. Cristóvão Colombo a trouxe do Caribe já em 1493. Essa planta, cuja adaptabilidade é excepcional, já apresenta variedades muito diferentes dependendo dos climas e terras onde é cultivada.

Em um século, o milho ameríndio conquistou as costas do mundo inteiro – Em meados do século 16, ele já havia cativado toda a Europa. Turcos e colonos europeus, especialmente portugueses e espanhóis, a estabeleceram nas costas da África, do Cairo à Cidade do Cabo. Também chegou imediatamente à Birmânia, à Indonésia, à China e, um pouco mais tarde, ao Japão. Na Itália, ela se desenvolveu no norte, particularmente no vale do Pó e nas terras pantanosas do Polêsine, no sul do Vêneto, longe das secas do mundo mediterrâneo.

Essa planta milagrosa, que cresce rapidamente e requer apenas cerca de 50 dias de trabalho por ano, é usada principalmente para alimentar animais. No Vêneto, em particular, também se tornou o alimento básico dos pobres, na forma de polenta. Quando esta também está em falta, complementa-se com batatas – polenta e patatà. Os italianos do norte são cobertos de apelidos como mangiapolenta ou polentoni.

Essa rápida disseminação do milho deixou para trás um processo, porém muito antigo entre os ameríndios, chamado nixtamalização, que consistia em deixar os grãos de molho e cozinhá-los numa solução alcalina, acrescentando cinzas ou cal à água. Em sua ausência, o milho fica sem vitamina B3 e vários aminoácidos.

A pelagra, flagelo esquecido dos “comedores de polenta” – Uma dieta baseada exclusivamente em milho, portanto, leva a deficiências. É a principal causa de uma doença até então praticamente desconhecida, a pelagra, que se manifesta por meio de sintomas cutâneos, gastrointestinais e neurológicos que podem levar à morte. Em 1830, afetava até uma em cada vinte pessoas em certas regiões do norte da Itália.

Embora a ligação entre essa doença e o consumo de milho tenha sido rapidamente estabelecida, ela não foi associada a uma deficiência, mas a um germe contido na planta, como o esporão-do-centeio. A natureza massiva da doença em alguns lugares sugeria uma epidemia. Até o início do século 20, temia-se que também pudesse ser transmitida de pessoa para pessoa.

Assim, a presença da doença é particularmente monitorada entre os candidatos à emigração. Em seu livro Em alto-mar (1889; trad. bras. Nova Alexandria, 2017), o repórter Edmondo de Amicis descreve uma família inteira impedida de embarcar num transatlântico em Gênova com destino ao Uruguai e à Argentina, e os gritos desesperados no cais do pai de família, que havia enlouquecido devido à doença.

De comida de pobre a prato destacado da gastronomia italiana – Assim como outros elementos da culinária pobre da Itália tradicional, a polenta passou por muitas variações regionais que hoje a tornam um acompanhamento destacado da grande culinária cisalpina. Ainda em 1891, Pellegrino Artusi concedeu-lhe as primeiras cartas de nobreza.

Diz-se que seu guia, A ciência da cozinha e a arte de comer bem [link em francês], fez mais pela unidade do país do que o romance Os noivos, o clássico inescapável, mas pouco apetitoso, da literatura do século 19, que seu autor, o milanês Alessandro Manzoni, ainda assim se deu ao trabalho de reescrever no mais puro florentino de Dante e Petrarca, matriz do idioma nacional moderno.

Pellegrino Artusi oferece em sua receita n.º 172 bolinhos de polenta recheados com queijo à moda de Lodi. A receita n.º 232 é de polenta amarela com salsichas. Seja qual for sua fama, o pai da culinária nacional dificilmente é conhecido pelas qualidades dietéticas de seus pratos.

O fato é que a polenta vem numa variedade de cores, amarela em particular, mas também branca no Vêneto, em texturas ou mais firme, também no Vêneto, onde geralmente é aquecida numa panela, enquanto na Alta Saboia, por exemplo, pode assumir a forma de mingau.

A polenta e osei: a versão original e a sem aves nem milho... – Ela também pode ser servida com molhos, carnes, peixes ou legumes. Durante o século 20, tornou-se a base de muitas sobremesas, acompanhadas ou aromatizadas com canela, amêndoas, pistaches, frutas secas, laranjas, peras... a lista não é exaustiva. A amor polenta é uma especialidade de Varese, que mistura farinha de milho e farinha de trigo.

Existem duas versões da famosa polenta e osei, polenta com pequenas aves, originalmente um prato rústico que consistia em combinar a polenta com tudo o que se pudesse caçar ao redor: tentilhões, tordos, codornas ou mesmo pardais. Esse prato continua sendo até hoje uma especialidade no leste da Lombardia e no Vêneto.

A versão doce, por sua vez, data de 1910 e é uma criação de Amadeo e Giuseppina Alessio, gerentes da Pasticceria Milanese em Bérgamo. Embora pareça um grande bolo de polenta decorado com passarinhos de marzipã e coberto de chocolate, na verdade é apenas um pão de ló também coberto com marzipã e polvilhado com açúcar amarelo, o que lhe dá uma bela aparência granulada. Nem um único grão de milho é utilizado em sua confecção. É, portanto, uma sobremesa trompe-l’œil [lit. “engana-olho”, uma técnica arquitetônica], no estilo dos afrescos decorativos que podem ser encontrados em muitas villas venezianas.


Nossa seleção sobre o assunto:

Para ler:

Para ouvir (em francês):



domingo, 16 de março de 2025

40 anos do fim da ditadura militar


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Ontem, 15 de março, fez 40 anos que a ditadura civil-militar no Brasil acabou oficialmente e foi empossado presidente da República o primeiro civil desde João Goulart (gov. 1961-1964). “Oficialmente”, porque o regime já estava carcomido desde a década de 1970, e vários de seus “entulhos” (legislativos, materiais e humanos) permaneceram vivos e atuantes, alguns chegando até a atualidade. Nunca fui simpático à figura de José Sarney enquanto pude acompanhar sua atuação contemporânea, já que não tenho memórias do tempo em que ele presidiu o país (nasci em 1988!). Em outras palavras, conheci Sarney já senador, com toda sua nova carga de acusações dessa época, enquanto o Sarney presidente (assim como o Collor presidente, não o Collor senador do meme “bufando” em bate-boca com Pedro Simon) só conheci pelos livros de História e pelos documentários audiovisuais.

Mas, parafraseando Lula ao se dirigir a um próprio colega de partido, não quero me focar na figura do “cabeçudão do Maranhão”. A foto acima traz uma provocação pelo fato do último general-ditador, João Figueiredo (gov. 1979-1985), ter se recusado a passar a faixa presidencial naquele fatídico dia 15. Ele considerava Sarney um “traidor” por ter deixado o PDS (sucessor da ARENA, partido de apoio à ditadura, desde 1980) pra se filiar ao PMDB (sucessor do MDB, única oposição legal até 1979) e se candidatar à vice-presidência na chapa com Tancredo Neves nas eleições indiretas de 1985. Confesso que só vi algo semelhante a tal pirueta ideológica na Rússia moderna: antigos comunistas ateus, obedientes e militantes se tornaram ricaços religiosos, nacionalistas e amantes do luxo da noite pro dia...

Resumindo rapidamente pros jovens que nasceram ontem: apesar das lutas populares, das muitas manifestações de rua e do sangue operário corrido, o fim da ditadura civil-militar (por favor, não há outro nome pra essa aberração!) implantada em 1964 foi negociado entre os próprios esbirros e os políticos, geralmente empresários e grandes proprietários, menos conservadores. Entre as bizarrices dessa “transação” estão a anistia a todos os crimes contra a humanidade cometidos no período pelo Estado e “pelos terroristas de esquerda” (1979), a obrigação de todo novo partido a partir de 1980 ter no início de seu nome a palavra... “Partido” (rs) e a extensão do mandato de Figueiredo dos cinco anos constitucionais pra seis anos. Ofensa das ofensas, o Congresso Nacional rejeitou em 1984 um projeto de emenda constitucional (ainda vigorava a imposta em 1967) que previa eleições diretas (i.e. por sufrágio popular universal) pra presidência da República em 1985, bandeira que tinha mobilizado o país todo na famosa campanha das “Diretas Já”. Tecnicamente, o Brasil voltava a ter um presidente civil, mas ele tinha que ser eleito, assim como os cinco anteriores, por um Colégio Eleitoral (a Câmara e o Senado juntos), adiando a escolha do povo pra 1990.

Sem me aprofundar, mas a história foi apimentada pelo fato de que o popular político mineiro Tancredo Neves (avô do Aécio de Papelão!), do PMDB e vocal opositor da ditadura, foi eleito por esse colégio, mas morreu antes de tomar posse. As circunstâncias do óbito ainda hoje são alvo de teorias malucas, mas ocorria, como escrevi acima, que Sarney (que não é um sobrenome, mas o prenome do pai dele tornado sobrenome... que nem “Rui Barbosa”, entendeu?) se filiou ao partido dos milicos logo em seu surgimento e até presidiu a ARENA-PDS de 1979 a 1984. Porém, nesse ano entrou no PMDB pra apoiar Neves e ganhar em troca a candidatura à vice-presidência, embora também tivesse entrado em choque no PDS com Paulo Maluf, ex-governador de São Paulo e cúmplice de assassinatos políticos que se tornaria o “candidato indireto” apoiado pela ditadura.

O mineiro venceu, mas por não estar em condições de assumir, a posse de Sarney chegou a ser contestada, em prol de uma nova eleição, o que terminou não ocorrendo. O maranhense assumiu como interino até sua efetivação no cargo em 21 de abril de 1985, quando Neves morreu. Seu governo foi marcado por forte preocupação social e pelo estabelecimento das futuras bases de nossa política externa e integração regional, mas não conseguiu debelar a hiperinflação que se anunciava desde o final da ditadura e deixou uma economia em frangalhos.

Esses são os fatos. Antes de continuar, quero fazer um exercício de “história contrafatual”: imagine Maluf presidindo o país durante cinco longos anos. Quem tem mais de 30 anos sabe o significado de um elemento desse assumindo qualquer cargo público. Ele destrói o funcionalismo (e não é por desejo de eficiência!) por onde quer que passa. É o padrinho político de Jair Bolsonaro. Seria uma continuação da ditadura muito pior do que a democracia cambaleante que tivemos no início... Pegando esse gancho, quero ressaltar como é tão importante relembrar esses 40 anos do restabelecimento da democracia no Brasil, com suas negociações e conchavos, suas limitações e ineficiências.

Desde a Primeira República (1889-1930), que na prática não tinha representação popular, e sem contar o instável Império, é o período mais longo em que vivemos sem um regime de exceção. Ninguém precisa assistir a Ainda estou aqui pra usar seu único neurônio e concluir que os militares no poder não foram algo normal, muito menos positivo. A “democracia” não é um valor em si, mas uma forma de governo, pois também pode funcionar mal e se voltar contra a maioria ou contra grupos vulneráveis. O sufrágio universal direto, o equilíbrio entre os poderes e a igualdade perante a lei não são “bons” ou “ruins” em si, mas apenas a melhor garantia já encontra pela humanidade pra manutenção, incremento e aperfeiçoamento das liberdades civis, estas sim, o verdadeiro conteúdo de uma democracia saudável. E elas não podem ser garantidas nem por um tirano paternal, nem por uma oligarquia esclarecida e nem, em nosso estágio atual de evolução (e me perdoem os mais exaltados!), pela extinção do Estado e um governo direto sem intermediários ou fiscalização.

E tendo em vista essa vontade de aperfeiçoar a democracia (reitero, como forma de governo que pode garantir melhor o real conteúdo das liberdades civis!), um processo lento, às vezes doloroso e sempre exigente de responsabilidade pessoal, que louvo a iniciativa do portal G1 em ter relembrado ontem os 40 anos da posse de quem não foi nosso melhor presidente, mas abriu um período muito especial e teve a nobreza de convocar a Constituinte. Tomei a coragem de “roubar” os vídeos que a Globo inseriu na matéria e que podem ser vistos na seguinte ordem: uma ótima reportagem sobre a transição; uma reportagem de Daniela Lima na GloboNews sobre os 40 anos das “Diretas Já” (2024); a reportagem de época sobre a posse de Sarney como presidente em exercício (interino); idem, sobre a manhã de 15 de março; e um trecho do discurso do político antes de assumir o cargo. (E lá estava também, à esquerda, a igualmente inamovível Roseana...).

P.S. André Franco Montoro foi um dos melhores políticos que São Paulo já teve, é uma alegria o ver em tantos momentos nesse período tão importante:











sábado, 15 de março de 2025

Trump tem mesmo as cartas?


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Entre as várias montagens feitas por IA com a treta de Zelensky com Trump no Saguão Ovíparo, esta parece muito engraçada, de tão infantil, e brinca com a afirmação do Tio Patinhas de que “a Ucrânia não tinha cartas”, figurando a suposta falta de elementos pra sair em vantagem numa hipotética negociação com Putler. Adivinha o que começou a aparecer aos montes: cartas de baralho, rs!

Mas a situação no front, a que mais interessa na prática, está muito mais complicada do que parece, e segui-la é tão estonteante quanto acompanhar cada mudança de tom e linguagem da Bely Dom. Se os ucranianos podem deixar a região russa de Kursk a qualquer momento – por falta de recursos, e não porque “estão cercados”, como quer fazer crer certa propaganda –, a ofensiva invasora praticamente estagnou há semanas. Mesmo na região ucraniana de Donetsk (“DNR” é o ânus da tua genitora!), os porcos estão escorregando e sendo detidos pela defesa patriótica, e sequer a miúda Pokrovsk pôde ser completamente tomada, e nem vai ser, ao que tudo indica. Portanto, com esse virtual “congelamento” (a não ser que um milagre permita a Kyiv retomar territórios), pode-se falar na verdade de uma “guerra de atrição”, sem resultado pra ninguém.

É curioso como o Kremlin quer apresentar a retomada de Kursk, especialmente da cidade de Sudzha, como uma “grande vitória” na parada de Nove de Maio. Na verdade, era uma manobra que ele sequer devia ter permitido, demorou mais de seis meses pra retomar a iniciativa e só agora o Cabeça de Rola resolveu “zelenskizar” e visitar a região totalmente fardado. Antes, em manobras militares, ele aparecia só com um jaquetão camuflado por cima do traje social, mas agora parece que até ele resolveu “dispensar o terno”. Pra piorar, não só o ditador jamais tinha ido visitar os civis afetados, como os próprios propagandistas da TV estatal zombavam da cara deles, dizendo que tinham que “resistir em armas” e que “reclamavam demais”! Pra quem sequer foi visitar o Crocus City Hall depois do atentado (do qual chegaram a acusar até a “junta de Quiévi”), é um passo e tanto, e certamente um indício de fragilidade...



Mas hoje, quem tem a autoridade pra falar em cartas são dois intelectuais muito especiais que quero trazer aqui, embora eu não tenha tido tempo de transcrever nem traduzir o conteúdo. (Se alguém se voluntariar, fique à vontade pra me escrever!) Primeiro, o professor e pesquisador britânico Tarás Kúzio, politólogo de ascendência ucraniana, explicou na edição de 13 de março de 2025 do programa International Edition, da Voice of America, que Putin nunca quis a paz, porque sequer reconhece a existência da Ucrânia enquanto Estado independente e os ucranianos, como um povo diferente dos russos. E segundo, o jornalista e diretor Antoine Vitkine falou na edição de 12 de março do programa francês C dans l’air de sua investigação (Operação Trump: os espiões russos à conquista da América) sobre as relações de um Donald à beira da falência na década de 1980 com a máfia soviética, parte da qual gangrenaria a futura política russa.




“Vovô, deixa eu tirar um pentelho de sacóvski uma casquinha de feijão da sua boca?”


Quinta-feira passada a Palmirinha (com toques de Velha Surda/Boris Casoy, claro!) ressuscitou na TV francesa como “Palmirinho”, o tiozão do churrasco, rs:


sexta-feira, 14 de março de 2025

Jornalixo, relijão e pulitca


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Como não uso redes sociais, fico sabendo dos burburinhos mais recentes (dos quais, poucas semanas depois, todo mundo se esquece) por meio de minha visita matinal ao querido portal Jê Um, não porque gosto de ser “desinformado” pela Grobe, mas simplesmente ele consegue ser uma “súmula da atualidade” mais objetiva e enxuta. Se eu quiser me aprofundar num assunto, simplesmente vou procurar em outras fontes e não fico reclamando que os Leões Marinhos são parciais, manipuladores, cubunistas, oquistas etc.

Mesmo assim, muitas vezes me irrito não só com a linha editorial de quem segura os relhos da bodega, mas com “jornalistas” ou redatores, estagiários, sei lá, que sequer sabem escrever e às vezes “cometem” erros de digitação ou frases truncadas que levam do nada pra lugar nenhum. Mera opinião: a responsabilidade decorrente do alcance do trabalho não permite desculpinhas pra erros crassos (“falta de tempo”, “tava com enxaqueca”, “me distraí com outras coisas” e outros cacoetes de natives digitais...). Por exemplo: não sei quem foi que teve a ideia de botar numa seção de “Política” algo concernente a religião, neste caso, a mais nova modinha da cristonet bananeira.

Depois do Dia das Muié, um tal de Frei Gilson (que já vi cantando na Canção Nova) viralizou com um simples trecho de alguns segundos, dizendo que “a mulher devia ser submissa ao homem”. Também veio à tona que o Genossias e a deputada Nikolle Gadeira, fiscal de banheiros escolares, teriam postado fotos com ele em suas redes sociais. (Nota bene: ELES postaram as fotos, e não ele com os fachos, inversão que deu a entender que o frei era bolsominion.) Deturpação exitosa, viralização do trecho, bastou que a turma do amor que quer destruir o patriarcado, mas se viciou em brinquedinho imposto pelo capetalizmo, encontrasse um novo bode expiatório (no intuito de meramente ser olvidado após, como dissera) pra extravasar a ressaca – e, provavelmente, o fracasso em meter geral – do Carne Levare.

Outra “descoberta”: ele faz lives que se iniciam por volta das 4 da manhã com orações coletivas e conselhos aos fiéis (católicos, pressupunheto), brincadeira que já lhe rendeu milhões de seguidores nas mídias digitais. As grandes descobertas, como era de se esperar, deram o efeito contrário: a tentativa de o “expor” apenas pra própria bolha o tornaram ainda mais famoso, quem certamente concorda com ele (quanto a teologia e ginecologia) e não o conhecia virou fã e, surpresa das surpresas, a treta virtual foi perpassada pela onipresente clivagem “Nine vs. Bozo”! Falo “bolha” e “concordam com ele”, porque de fato, se a pessoa é conservadora ou até reaça, e sabendo que tem até muita fêmea com mentalidade machista, não vai achar nada de mais, e tá achando lindo o ver criticado pelo “petê” e pelos “comunas”. E certamente, quem tá nos eventos ou vê as transmissões já tá vacinado contra a “Caneta Desmanipuladora”...

Mas como um de meus gêneros literários preferidos são os comentários em portais de notícias (já que no YouTube eles são muitos, e quase todos iguais, quase sempre com o mero objetivo de impulsionar o vídeo), por sua espontaneidade, interatividade e mordacidade, além da exigência de se esforçar um pouquinho pra escrever e publicar, segue um florilégio do que li só na quarta-feira de manhã, rs:



Own, o amor crístico entrando em ação logo cedo!



Pega fogo, cabaré aleatório!!!



Reclama da live às 4 da madruga, mas vai buscar “espiritualidade” afundando num Tietê lá do outro lado do mundo...


Mas aparentemente não é só o Monjo Rivotrilson que tá causando atritos entre o vulgo. Uma tal “balada evangélica” que não é gostada nem por carolas, porque o batidão é coisa do KPta, nem pelos neojacobines, já que aparentemente o anfitrião promove algo parecido com uma “cura gay”, tomou as manchetes, entre outras coisas, porque também conta com a participação de uma “cantora” despirocada e ostracizada, cujo único motivo pra aparecer atualmente é se esgoelar em culto e, ao mesmo tempo, bostejar todo tipo de aberração preconceituosa “em nome da fé”:


Aham. Perdoa, confia...



EU ACHO QUE O VÉIO TAVA TENDO UM DERRAME!!!



Ótima resposta à Biroleibe que Pariu... Será que ele é irmão de um tal Jocione, que fez muito sucesso em filmes adultos usando um pseudônimo?



Hoje acordei louco pra assassinar um contexto!



“Cars” Marx (uma concessionária?), ópio “dos povos”... Esse acho que estudou com o Astrolavo, rs.



Mas no final, sempre vai ter aquele troll cético, meu tipo preferido, zoando com todo mundo em qualquer reportagem relativa a igrejas!

quinta-feira, 13 de março de 2025

Votos de François Hollande pra 2017


Endereço curto: fishuk.cc/voeux2017

Desde a primeira posse de Emmanuel Macron, em 2017, os registros no site oficial do Elysée começaram a ficar muito bagunçados, e alguns discursos sumiram, outros ficaram mais difíceis de encontrar, não foi constituído um acervo de vídeos históricos etc. Por isso, fiquei dependente do que pude encontrar pelo Google ou no YouTube.

Curiosamente, os europeus pareciam gostar nos anos 2000 muito mais do Dailymotion ou do Vimeo do que do próprio YouTube, portanto, foi muito mais fácil achar os discursos de Sarkozy na primeira plataforma. A partir de 2013, sob François Hollande, ficou mais fácil achar em canais diversos do YouTube, sobretudo de agências de notícias, como estes votos pra 2017. Porém, até hoje não entendo por que nenhum vídeo do presidente Hollande foi publicado no YouTube oficial, enquanto o Dailymotion oficial é o mais completo de todos. Além disso, conforme as datas dos vídeos, há um “buraco” no YouTube entre 28 de janeiro de 2011 e 15 (“Ao vivo”) ou 18 (“Vídeos”) de janeiro de 2019...

O ano de referência sempre é o próximo, ao qual cada presidente está desejando votos, e não o que está acabando, quando o discurso é gravado e lançado. Uso o Google Tradutor pra obter os textos mais rapidamente, mas revisando e confrontando manualmente com os originais. Pra França, a fonte desses textos, como é o caso dos votos pra 2017, está sendo um site de informações políticas, econômicas e sociais chamado “Vie publique”, ligado ao gabinete do primeiro-ministro, mas infelizmente pouco divulgado.



Meus caros compatriotas,

Esta noite é a última vez que lhes faço meus votos como Presidente da República.

Para mim, é um momento de emoção e seriedade. Quero compartilhá-lo com vocês, francesas e franceses de todas as origens, convicções e crenças, da Metrópole e do Ultramar.

Primeiro, gostaria de falar com vocês sobre o que suportaram neste último ano, quando nosso país foi atingido por terríveis atentados: o de Nice em 14 de julho passado, mas também os de Magnanville e de Saint-Étienne-du-Rouvray. Penso neste momento nas vítimas, em suas famílias e nos feridos que sofrem no coração e na carne.

Sei também da inquietude que ainda perpassa vocês com essa ameaça terrorista que não diminui, como infelizmente foi demonstrado pelo que aconteceu em Berlim nos últimos dias. Portanto, cabe a mim e ao governo de Bernard CAZENEUVE [então primeiro-ministro] garantir a proteção de vocês. Estou dedicando a isso todos os recursos necessários e quero prestar homenagem a nossos policiais civis e militares e a nossos soldados que se dedicam até o sacrifício para garantir nossa segurança.

Face aos ataques, vocês se mantiveram firmes. Os terroristas queriam dividir, separar e assustar vocês. Vocês provaram ser mais fortes, concertados, solidários e unidos. Vocês não cederam a amálgamas, estigmatizações e brigas vãs. Vocês continuaram vivendo, trabalhando, saindo, movimentando-se e valorizando a liberdade. Vocês podem se orgulhar de si mesmos.

Mas ainda não acabamos com o flagelo do terrorismo. Teremos que continuar combatendo-o – no exterior, que é o sentido de nossas operações militares no Mali, na Síria, no Iraque – o Iraque aonde irei depois de amanhã para saudar nossos soldados. Combatê-lo também internamente para frustrar atentados, colocar indivíduos perigosos fora de ação e prevenir a radicalização jihadista.

Estejam certos de uma coisa: dessa luta contra a barbárie, nossa democracia sairá vitoriosa.

Meus caros compatriotas, cinco anos de presidência me deram uma experiência que quero compartilhar com vocês esta noite: a França é um país admirado, esperado e até mesmo desejado no mundo todo. Sem dúvida, é a herança de nossa História, de nossa língua e de nossa cultura, mas é, sobretudo, o respeito que inspiram nossos valores, nosso modo de vida, nosso apego à liberdade. Isso explica por que, quando somos atacados, o mundo inteiro está a nosso lado. É isso que dá credibilidade à palavra da França para apoiar grandes causas – tenho em mente o combate ao aquecimento global, pois lembrem-se, foi em Paris que se concluiu um acordo histórico; aí vocês notam, com os picos de poluição, a necessidade urgente, sobretudo, de implementá-lo. Portanto, eu lhes garanto: a França não deixará que ninguém ou nenhum Estado, mesmo o maior, ponha em causa essa grande conquista da comunidade internacional.

Diante de potências, antigas e novas, a França deve reafirmar sua independência. Em um ambiente internacional cheio de incertezas, com clima de guerra fria, poucos países têm a capacidade de tomar decisões soberanas por meio de sua defesa, ou seja, seu exército e sua política externa. Nós a temos. E devemos fazer de tudo para preservar essa liberdade estratégica, porque a França tem um espaço e uma mensagem a defender. Ela não aceita as violações mais básicas dos direitos humanos – o uso de armas químicas, os massacres de populações civis como em Aleppo, a perseguição de minorias religiosas, a subjugação das mulheres. A França jamais admite um fato consumado, o questionamento de fronteiras. Por toda parte, ela busca soluções por meio do diálogo, inclusive no Oriente Próximo e Médio. A França luta pelo desenvolvimento da África e pela redução das desigualdades, pois sabe que é aí que está a solução para a migração. Eis o que significa ser francês hoje, e eu gostaria que vocês pudessem, mais uma vez, se orgulhar disso.

Meus caros compatriotas, durante todo o meu mandato, tenho apenas uma prioridade: restaurar nossa economia para reduzir o desemprego. Assumo as escolhas que fiz – os resultados estão chegando, mais tarde do que eu esperava, concordo, mas estão aí –, as contas públicas foram restauradas, a Previdência Social está equilibrada, a competitividade de nossas empresas foi recuperada, a construção de moradias atingiu um nível recorde, o investimento está retornando e, sobretudo, o número de pessoas procurando emprego finalmente está caindo há um ano. Ao mesmo tempo, tal como eu queria, o progresso social não parou seu curso; novos direitos foram concedidos para os assalariados, para a formação ao longo da vida, para a integração dos jovens e para o acesso universal à saúde para todos. Ainda há trabalho a ser feito, mas o fundamento está aí, as bases são sólidas.

Esses sucessos pertencem a vocês. Vocês devem se apropriar deles, não para negar as dificuldades que permanecem, não para esconder o sofrimento que persiste ou para adiar as escolhas, algumas ainda devendo ser feitas, mas para terem consciência de seus pontos fortes, talentos, habilidades e sucessos. Nosso principal adversário é a dúvida. Vocês devem ter confiança em si mesmos, sobretudo diante dos desafios que nos esperam. Neste fim de ano, tudo o que às vezes acreditávamos adquirido para sempre – democracia, liberdade, direitos sociais, a Europa e mesmo a paz – está se tornando vulnerável, reversível. Vimos isso no Reino Unido com o Brexit e nos Estados Unidos durante as eleições de novembro; vemos isso em nosso continente com a ascensão dos extremos. Há períodos na história em que tudo pode mudar. Estamos vivendo um desses.

Daqui a menos de cinco meses, meus caros compatriotas, vocês terão que fazer uma escolha. Será decisivo para a França, diz respeito a seu modelo social, ao qual vocês são apegados, pois ele garante a igualdade de todos perante os acasos da vida, particularmente da saúde. Diz respeito a seus serviços públicos essenciais, particularmente a escola da República, onde muito está em jogo, principalmente para os jovens que são a nossa esperança. Diz respeito também à capacidade de nosso país de compreender as grandes mudanças que são a revolução digital e a transição energética, para torná-las fatores de crescimento, bem-estar e emprego e não elementos adicionais de precariedade e instabilidade. Por fim, diz respeito aos valores. A França é aberta ao mundo, é europeia, é fraterna. Como podemos imaginar nosso país encolhido atrás de muros, reduzido a seu mercado interno, retornando a sua moeda nacional e, ainda por cima, discriminando suas crianças conforme suas origens! Mas não seria mais a França!

Essas são as principais questões. Os debates que se abrem as esclarecerão, mas nestas circunstâncias, o papel das forças e personalidades políticas é imenso. Elas devem estar à altura da situação, demonstrar lucidez, evitar brutalizar a sociedade e também evitar a dispersão que, para algumas de nossas forças políticas, levaria a sua eliminação. Mas aconteça o que acontecer, são vocês que terão a última palavra. Por isso, sua responsabilidade é tão grande e a França conta com vocês.

De minha parte, até o último dia de meu mandato, estarei totalmente comprometido em servir o nosso país, agir pela França, lutar pela justiça e pelo progresso, é o compromisso de toda a minha vida. Nunca renunciarei a ele. Compartilhei com vocês provações e sofrimentos, mas também alegrias e felicidades.

Tive o imenso orgulho de estar à frente de um povo firme, fiel a si mesmo e a sua vocação universal. É um vínculo inquebrável que nos une e que nada alterará. Reforçado nessa convicção, faço do fundo de meu coração meus mais calorosos votos para este novo ano.

Viva a República! Viva a França!



quarta-feira, 12 de março de 2025

Votos de François Hollande pra 2016


Endereço curto: fishuk.cc/voeux2016

Desde a primeira posse de Emmanuel Macron, em 2017, os registros no site oficial do Elysée começaram a ficar muito bagunçados, e alguns discursos sumiram, outros ficaram mais difíceis de encontrar, não foi constituído um acervo de vídeos históricos etc. Por isso, fiquei dependente do que pude encontrar pelo Google ou no YouTube.

Curiosamente, os europeus pareciam gostar nos anos 2000 muito mais do Dailymotion ou do Vimeo do que do próprio YouTube, portanto, foi muito mais fácil achar os discursos de Sarkozy na primeira plataforma. A partir de 2013, sob François Hollande, ficou mais fácil achar em canais diversos do YouTube, sobretudo de agências de notícias, como estes votos pra 2016. Porém, até hoje não entendo por que nenhum vídeo do presidente Hollande foi publicado no YouTube oficial, enquanto o Dailymotion oficial é o mais completo de todos. Além disso, conforme as datas dos vídeos, há um “buraco” no YouTube entre 28 de janeiro de 2011 e 15 (“Ao vivo”) ou 18 (“Vídeos”) de janeiro de 2019...

O ano de referência sempre é o próximo, ao qual cada presidente está desejando votos, e não o que está acabando, quando o discurso é gravado e lançado. Uso o Google Tradutor pra obter os textos mais rapidamente, mas revisando e confrontando manualmente com os originais. Pra França, a fonte desses textos, como é o caso dos votos pra 2016, está sendo um site de informações políticas, econômicas e sociais chamado “Vie publique”, ligado ao gabinete do primeiro-ministro, mas infelizmente pouco divulgado.



Meus caros e minhas caras compatriotas,

Os votos que lhes faço esta noite são diferentes de todos os que os precederam, porque acabamos de viver um ano terrível.

Começou com os ataques covardes ao Charlie Hebdo e ao Hypercacher, foi ensanguentado pelos ataques cometidos em Montrouge, Villejuif, Saint-Quentin Fallavier e no Thalys e terminou com o horror dos atos de guerra perpetrados em Saint-Denis e Paris.

Meus primeiros pensamentos vão para as vítimas do fanatismo, suas famílias mergulhadas na dor e aqueles que foram feridos na carne.

Esta noite, em nome de vocês, expresso a eles nossa compaixão e afeição. Essas tragédias permanecerão gravadas na memória de cada um de nós. Elas nunca desaparecerão.

Mas, apesar da tragédia, a França não cedeu. Apesar das lágrimas, ela se manteve de pé.

Diante do ódio, ela mostrou a força de seus valores. Os da República.

Francesas e franceses, estou orgulhoso de vocês. Nessas circunstâncias, vocês demonstraram determinação, solidariedade e sangue frio.

Neste momento, saúdo a bravura de nossos soldados e policiais civis e militares que correm tantos riscos por nossa segurança. Agradeço aos Serviços de Saúde, aos bombeiros, à proteção civil e a todos os voluntários que socorreram nossos compatriotas em perigo. Mas eu lhe devo a verdade: ainda não erradicamos o terrorismo. A ameaça permanece. Ela permanece inclusive em seu nível mais alto. Regularmente nós desbaratamos tentativas de atentados.

Portanto, meu primeiro dever é proteger vocês. Proteger vocês significa agir na raiz do mal: na Síria, no Iraque. Por isso, intensificamos nossos ataques contra o Daesh [o grupo Estado Islâmico]. Os golpes estão surtindo efeito, os jihadistas estão recuando, e então continuaremos enquanto for necessário.

Proteger vocês significa agir aqui, em nosso solo.

Na noite dos atentados, por proposta de Manuel VALLS [então primeiro-ministro], eu declarei estado de emergência. A seguir, diante do Parlamento reunido em Congresso em Versalhes, fiz conscientemente uma escolha compatível com o que havíamos sofrido. Primeiramente, decidi reforçar o pessoal e os recursos da Polícia, da Justiça, da Inteligência e das Forças Armadas. Depois, iniciei uma reforma do processo penal para combater mais eficazmente o crime organizado, seu financiamento e os canais que o alimentam.

Por fim, anunciei uma revisão da Constituição para fornecer uma base incontestável quanto ao recurso ao estado de emergência caso enfrentemos um perigo iminente e quanto à retirada da nacionalidade francesa de indivíduos definitivamente condenados por crimes terroristas.

Agora cabe ao Parlamento assumir suas responsabilidades. O debate é legítimo. Eu o respeito. Ele deve acontecer. E quando se trata de proteger vocês, a França não deve se desunir. Ela deve tomar as decisões certas para além das diferenças partidárias e de acordo com nossos princípios fundamentais. Eu garantirei isso porque sou o fiador.

Além disso, nunca aceitarei que os franceses possam ser colocados uns contra os outros. Dividir-nos é o que buscam os extremistas. Não aceitarei mais que alguém possa atacar – em nossa República laica – um de nossos concidadãos pela prática de sua religião. Ou ainda que locais de culto possam ser profanados, como uma sala de oração nos últimos dias na Córsega. Gestos assim nunca ficarão impunes, quer se trate de uma mesquita, uma sinagoga, um templo ou uma igreja. A honra da França está em jogo.

Meus caros compatriotas,

Em 2016, lutaremos contra o terrorismo. Sim, certamente, intensamente. Mas também contra tudo o que fragmenta nossa sociedade e que alimenta tanto o isolamento quanto a exclusão.

Se há um estado de emergência na segurança, há também um estado de emergência econômica e social.

A luta contra o desemprego continua sendo minha primeira prioridade.

Este será o tema dos textos elaborados pelo Governo para simplificar o Código do Trabalho, instituir uma nova previdência social profissional e aproveitar as oportunidades econômicas oferecidas pela revolução digital.

Simultaneamente, será lançado um plano massivo de formação para quem procura emprego: mais 500 mil pessoas receberão apoio para os ofícios do amanhã. Mas todos sabem que é nas PME [pequenas e médias empresas] que se criam os empregos. Além disso, novos auxílios à contratação serão introduzidos no início do novo ano.

Por fim, inúmeras filiais de aprendizagem serão abertas. Estabeleci a meta de que nenhum aprendiz fique sem um empregador e nenhum empregador fique sem um aprendiz. Todo jovem deve estar em treinamento ou emprego, seja qual for a forma. Esse esforço em favor da próxima geração é um dever sagrado. Ele exige uma mobilização de todos, do Estado, claro, das Regiões que acabaram de ser criadas e das empresas. Isso também é Unidade Nacional.

A França precisa de movimento, precisa de ações. Precisa também de compromisso. O Serviço Cívico é um fator de mistura, integração e inclusão. Mostrou sua utilidade para os jovens e para nossa sociedade.

Peço ao Governo, portanto, que inicie sua generalização por fases. As missões serão múltiplas: desde apoiar as pessoas mais vulneráveis até preservar o planeta.

O sucesso da COP21 foi um evento mundial. E um motivo de orgulho para a França, que selou um acordo em Paris entre 195 países para reduzir o aquecimento global. É um resultado considerável.

A França agora tem a responsabilidade de implementar o que foi decidido para o planeta. Mas também de estar um pouco mais à frente e ser um exemplo.

Por isso, lançaremos um grande programa de obras para a renovação de nossos edifícios, o desenvolvimento de energias renováveis e o crescimento verde. Faremos da causa climática um grande canteiro para o emprego e a qualidade de vida.

Francesas e franceses,

Os acontecimentos que vivemos nos confirmaram isso: somos habitados por um sentimento que todos compartilhamos. Esse sentimento é o amor à Pátria.

A Pátria é o fio invisível que entrelaça todos nós, franceses daqui ou de outros lugares, cidadãos de todas as condições, crenças e origens.

E a pátria está no cerne de meu compromisso, a Pátria que se realiza na abertura ao mundo, no respeito ao outro, na igualdade, na confiança no futuro, no futuro da França, e nunca no isolamento, no fechamento, na discriminação ou na nostalgia.

A Pátria, é em seu nome que construímos a Europa.

A Europa alcançou grandes feitos. Mas revelou deficiências que estão hoje a colocando em perigo.

Diante da afluência de refugiados causada pelos conflitos, a Europa deve ser capaz de proteger suas fronteiras e acolher quem busca asilo, ao mesmo tempo em que acompanha a volta com dignidade de quem não se qualifica. É um desafio maior, caso contrário, ressurgirão os muros que pensávamos terem sido derrubados pela História.

À medida em que se acaba, o ano de 2015 não nos liberta das causas dos dramas por que passamos. Ele nos obriga a encará-los de frente e tratá-los com firmeza. Mas o que aconteceu nos mudou, até nos transformou. E devemos usar essa vitalidade, essa energia que surgiu de nós mesmos – esse sobressalto que foi elogiado pelo mundo inteiro – para realizar todas as reformas, para sermos mais fortes economicamente, mais justos socialmente e mais exemplares democraticamente. É assim que a França sairá maior com essa bela ideia de fazer com que todos tenhamos sucesso juntos.

Minhas caras e meus caros compatriotas da Metrópole, do Ultramar e do exterior,

2015 foi um ano de sofrimento e resistência, então façamos de 2016 um ano de valentia e esperança. É com esse espírito que faço do fundo do coração meus melhores votos para vocês, seus entes queridos e sua família, porque vocês são a França, toda a França.

Viva a República e viva a França.



terça-feira, 11 de março de 2025

Impacto do “relatório Khruschov” no PCB


Endereço curto: fishuk.cc/stalin1956

Já publiquei várias vezes aqui sobre o tema de minha monografia de fim de graduação, o famoso “TCC”, ou seja, o impacto do chamado “relatório Khruschov”, lido pelo antigo líder soviético no 20.º Congresso do PCUS em 1956, sobre o PCB, quando ainda era controlado por Luiz Carlos Prestes e antes da cisão do PCdoB em 1962. Este texto era pra ser parte de um projeto de pós-doutorado sobre, desta vez, o impacto do “eurocomunismo” das décadas de 1960 a 1980 sobre o pensamento do PCB, e que comecei a escrever ainda no início de 2020, pouco antes ou logo após a declaração da pandemia de covid-19. Sem esse “imprevisto”, meu objetivo era defender a tese de doutorado em março de 2022 e fazer uma solicitação de entrada no pós-doc naquele ano ou em 2023.

Porém, somados a isso, a queda de meu moral com a invasão da Ucrânia por Putler e sua corja, o domínio de um discurso esquerdista universitário que culpabilizava Zelensky, mas passava pano pro Hamas (o que aumentou minha melancolia), e, finalmente, a defesa de minha tese só em janeiro de 2024, frustraram meus planos a ponto de eu tentar o concurso da diplomacia em setembro do mesmo ano. Sem tempo hábil pra estudar, caí fácil na primeira fase, e hoje ainda estou revendo meus rumos. Percebi que esse projeto de pós-doc, pelo menos no formato em que ficou escrito, não ia dar certo, e decidi primeiro consultar os arquivos do Arquivo Edgard Leuenroth pra ver por onde podia (re)começar, ou fazer algo totalmente diferente, vinculado novamente às relações entre o PCB e a Comintern.

Dado que o texto ficou bastante volumoso e informativo, embora feito em grande parte com informações de memória, estou publicando aqui a maior parte do que já tinha feito do projeto “abortado”, ao menos o transformando num patrimônio de conhecimento público. E, claro, novas pesquisas na área (desde que não pra justificar Stalin, como fez o picareta Grover Furr) sempre vão ser bem-vindas!

P.S. Como o leitor indulgente pode notar, o pudor “caca-dêmico” impôs que eu não desse o correto título de “ditadores” à grande lista de fanáticos carniceiros arrolada abaixo nem usasse a gramática mais oral que tem se tornado comum em meus textos públicos nos últimos anos...



Até o ano de 1956, o modelo soviético de sociedade comunista e o arcabouço teórico e ideológico que o legitimava eram considerados incontestáveis no mundo inteiro. Apenas o regime iugoslavo pós-1945, fundado e liderado pelo marechal Josip Broz Tito, parecia fugir à regra, mas não tinha um grupo razoável de seguidores pelo mundo. O próprio regime chinês instaurado por Mao Zedong, apesar das muitas diferenças, também não apresentava contradições abertas com a União Soviética (URSS) e formava com ela um bloco sólido de oposição comunista à hegemonia dos Estados Unidos sobre o bloco capitalista durante a Guerra Fria.

Contudo, no 20.º Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), o primeiro após a morte de Iosif Stalin, reunido em fevereiro de 1956, o líder soviético Nikita Khruschov leu em uma sessão fechada, apenas aos líderes dos Partidos Comunistas presentes e sem o registro da imprensa, um relatório chamado “Sobre o culto à personalidade e suas consequências”. Passado à história com o nome de “relatório secreto” ou “relatório Khruschov”, basicamente denunciava os abusos cometidos por Stalin durante seu governo, apontava falhas graves em sua gestão e criticava o chamado “culto à personalidade”, ou seja, a idolatria à pessoa daquele que era até então chamado de “guia genial dos povos”. Entre os dirigentes presentes, as reações foram muito diversas, passando pela descrença e pelo mal-estar físico, mas certamente o impacto psicológico foi enorme, em muitos casos condicionando o abandono das fileiras comunistas. O texto do relatório fora preparado pela chamada “comissão Pospelov”, reunida algumas semanas antes e na qual já haviam se revelado fortes divergências sobre que conteúdo seria exposto na versão final e se valia a pena dar um passo tão arriscado.

Essencialmente, o “relatório secreto” de Khruschov menciona o terror estatal de massa desencadeado na década de 1930 e os erros e violações cometidos por Stalin durante a campanha de coletivização da agricultura (1929-1933), a condução pessoal da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), na qual a URSS só entraria em 1941, e a “paranoia persecutória” que teria se apossado do líder em seus últimos anos de vida. Contudo, o texto passa por alto ou omite vários episódios críticos, como a participação do próprio Khruschov nas perseguições massivas na Ucrânia, então uma república da URSS, e a colaboração estrita do mesmo com Stalin na administração soviética em vários momentos. Críticos do texto também ressaltam a estratégia de colocar a maior parte dos problemas nacionais na conta de Stalin, como se ele tivesse controle total sobre o que acontecia nem fosse assessorado por um grupo mais amplo, ou de atribuir ao psicológico imputado problemático do líder a origem desses males, recaindo em claro juízo de valor. Mais grave ainda, Khruschov só incluiu nas denúncias de crimes os membros do partido único, tanto na cúpula quanto nas bases, sem mencionar as muitas centenas de milhares de mortes entre os cidadãos comuns perpetradas em poucos anos pela violência estatal nem os fuzilamentos arbitrários ocorridos sem julgamento, pela simples acusação de “sabotador” ou “inimigo do povo”.

Inicialmente, o “relatório secreto” deveria ser apenas lido em voz alta por Khruschov na referida reunião, sem a entrega de cópias escritas aos presentes, à exceção dos chefes de Estado dos países comunistas europeus. Até mesmo os renomados secretários-gerais Maurice Thorez, do Partido Comunista Francês (com um tradutor), e Palmiro Togliatti, do Partido Comunista Italiano (ele próprio lendo), só puderam tomar nota do conteúdo nos corredores do congresso, por alguns minutos. Porém, como se soube anos depois, uma das cópias vazou a partir da Polônia e chegou à redação do New York Times, que comprou o texto por uma quantia irrisória e publicou-o na primeira página do jornal. Além disso, por iniciativa do próprio Khruschov, a audiência do relatório até então “secreto” foi gradualmente alargada após o 20.º Congresso do PCUS e alcançou grupos partidários de base e comitês de fábrica. A repercussão foi em grande parte negativa, pois Stalin, cujo falecimento em 1953 causara forte comoção popular, ainda era visto como o líder de ferro que comandou a industrialização acelerada e, em 1945, a derrota dos invasores alemães. Chegando por vias oficiais ou iniciativas pessoais até os outros países comunistas da Europa, o “relatório secreto” acelerou protestos populares que já começavam por causa das más condições de vida, em especial na Polônia e na Hungria, em ambos os casos levando a amplas mobilizações de massa, mas no caso húngaro culminando numa quase guerra civil que motivou a repressão de tropas soviéticas em novembro de 1956.

O impacto mais simbólico e duradouro, contudo, foi entre os comunistas dos países capitalistas, forçados a situações de maior ou menor repressão por seus respectivos governos, mas igualmente abalados pelo desmonte de seu maior mito pelo próprio sucessor na “pátria do socialismo”. Aparecendo inicialmente na chamada “mídia burguesa”, o relatório de Khruschov foi considerado uma calúnia ocidental e uma invenção dos anticomunistas europeus ou norte-americanos, mas logo a autenticidade de sua produção foi confirmada. Ainda assim, nem todos os militantes apoiaram acriticamente a atitude do primeiro-secretário do PCUS e atacaram ou o modo como o texto acabou chegando nos países capitalistas, ou o posicionamento destrutivo adotado perante a história da própria URSS. No mundo ocidental, o anticomunismo ganhava nova munição fornecida pelos próprios soviéticos, as esquerdas não comunistas tomavam ainda mais distância dos comunistas e mesmo dentro dos Partidos Comunistas foram muitos os intelectuais e ideólogos que se desencantaram imediatamente com Moscou e deixaram as fileiras. Entre os militantes ocidentais, nem mesmo as grandes repressões stalinianas de 1936 a 1938 ou o pacto com a Alemanha nazista em 1939 causaram tamanha sangria, pois envolvendo atores terceiros e dentro da formatação promovida pela Comintern, era fácil racionalizar os fuzilamentos ou a mão dada ao inimigo. Por isso, as consequências dos eventos em 1956, que incluíram também a própria repressão sangrenta na Hungria, foram consideradas como o ponto de virada na influência internacional até então crescente do comunismo soviético.

As cisões deram-se fora do mundo comunista, mas o mais grave é que ocorreram também dentro do grande bloco formado pela URSS, pelo chamado “Leste europeu” e pela China maoísta. Embora o iugoslavo Tito, arqui-inimigo de Stalin, logo terminasse reconciliando-se com Moscou, Mao Zedong e Enver Hoxha, líder da Albânia comunista, criticaram fortemente Khruschov, sobretudo pelo flanco que estava abrindo ao bloco capitalista, e levaram à exposição de outras diferenças nas relações entre os países que concerniam à atitude soviética para com essas jovens revoluções. Devido ao pequeno tamanho e à insignificância econômica da Albânia, sua ruptura diplomática com a URSS teve pouco impacto geral, mas o gradual afastamento da China, com sua população gigantesca e seu forte potencial econômico, e a consolidação do chamado “cisma sino-soviético” na década de 1960 solaparam a unidade comunista mundial e mudaram os dados de toda a geopolítica global. Essa divisão, em graus variados, também se refletiu nos partidos de países não comunistas, alguns deles seguindo a chamada “linha chinesa” (ou a “linha albanesa”, após a própria ruptura de Hoxha com Pequim ao começarem as reformas capitaneadas por Deng Xiaoping), mais ou menos temperada pelos posteriores sucessos revolucionários em Cuba e no Vietnã, ou descrendo cada vez mais no potencial de liderança apresentado por Moscou. Sem chegar à cisão declarada, o PCI, um dos maiores Partidos Comunistas da Europa e o único no continente a ter uma base de massas, afastou-se discretamente e suas tímidas formulações heterodoxas mereceram críticas diretas da própria URSS.

No Brasil, os delegados do PCB ao 20.º Congresso do PCUS não informaram nada a respeito do “relatório secreto”, e as decisões do encontro foram recebidas com as formalidades de praxe. Contudo, o texto do relatório também foi publicado nas capas dos principais jornais diários, a partir da tradução norte-americana, como uma revelação chocante dos “crimes” de Stalin. Discretamente, a imprensa do PCB negou a autenticidade do documento, mas gradualmente publicou as discussões modernizantes e heterodoxas que ocorriam nos países comunistas europeus e entre os Partidos Comunistas da Europa capitalista, com destaque para o italiano e o francês. Começavam a ecoar no Brasil as discussões sobre o “policentrismo” do movimento comunista internacional, as reformas políticas e econômicas promovidas por Khruschov e os movimentos populares na Polônia e na Hungria. Porém, ninguém ousava mencionar a denúncia do “stalinismo” e do “culto à personalidade” emanadas do próprio Kremlin, até que Aydano do Couto Ferraz, sem a autorização do Comitê Central (CC) do PCB, fez publicar o artigo “Não se poderia adiar uma discussão que já se iniciou em todas as cabeças”. Evocando o terremoto de denúncias promovido no congresso do PCUS, o jornalista critica os dirigentes pela falta de transparência e abre por conta própria uma “Tribuna de debates” destinada à livre discussão, pela militância, das viradas recentes. A quantidade de artigos foi torrencial e expressou uma clara divisão entre os partidários da conversa, geralmente críticos ao legado de Stalin, os defensores da ordem, que preferiam não extravasar as fraquezas para fora do partido, e o chamado “pântano”, uma espécie de centro que expunha seus julgamentos ao sabor do lado que estava em vantagem.

Em meados de 1957, a confusão e o rancor eram tamanhos que o próprio secretário-geral do PCB, Luiz Carlos Prestes, decidiu pôr fim aos debates com um texto chamado “carta-rolha”, após ter exposto parcimoniosamente suas opiniões e observado por alto, ele também, a oscilação das tendências. Essa interrupção brusca dos debates não impediu que a direção, discretamente e aos poucos, digerisse os novos ventos vindos da URSS (assim como as posições da China a respeito das mudanças) e esboçasse uma nova linha política, afinada tanto com a relativa liberalização no comunismo europeu quanto com o período de estabilidade e crescimento vivido no Brasil durante o governo Kubitschek (1956-1961). O processo culminou em 1958 no chamado “Manifesto de Agosto”, uma iniciativa de cúpula que reconheceu tardiamente os efeitos perniciosos que teve a política de radicalização do PCB no início da década e a importância contida na discussão interna interrompida um ano antes. Apesar das mudanças, sua elaboração e aplicação quase sempre eram feitas por iniciativa dos dirigentes, com limitado processo de discussão e ocultando divergências que explodiriam anos mais tarde. A própria tribuna na imprensa partidária, em preparação ao 5.º congresso partidário de 1960, refletiu as contradições e resistências à “desestalinização” do movimento comunista internacional, mas as resoluções finais, como quase sempre ocorria, surgiram da conciliação entre correntes, não resistindo até os eventos de 1961. O PCB, então, mudou seu nome sem mudar sua sigla, e a reação contra a “Carta dos 100”, documento crítico a Prestes e seus aliados, acelerou a futura cisão do PC do B, ela mesma relacionada com o já consolidado cisma sino-soviético.

Gradualmente, o agora Partido Comunista Brasileiro começou a absorver os grandes debates dentro do comunismo europeu e as consequências ideológicas que a URSS deduzia do quadro geopolítico mundial, enquanto o PC do B, inicialmente buscando o reconhecimento exclusivo de Moscou, ficou conhecido pela adoção da chamada “linha chinesa”. O surgimento da corrente eurocomunista, a redescoberta de Antonio Gramsci pelo Partido Comunista Italiano, a luta dos comunistas de países latinos contra as ditaduras militares, o franquismo e o salazarismo, os novos focos revolucionários que escapavam ao controle do PCUS e a ascensão do “terceiro mundo” e dos “países não alinhados” como agentes globais desafiaram o PCB, tanto mais que a maioria de seus líderes passou ao exílio após o golpe militar no Brasil em 1964. Esse decalque entre a cúpula e as bases, mais vulneráveis à repressão armada, além do debate sobre a natureza da resistência à ditadura, geraram novos focos de conflito que emergiriam após a promulgação da Lei de Anistia, em 1979. Após Luiz Carlos Prestes, a essa altura tornado uma lenda viva, ter saído do partido em 1984 e a política da direção ter incorporado o apoio irrestrito ao governo José Sarney, o PCB manteve seu alinhamento à URSS e seguiu no desenvolvimento do que Raimundo Santos chamou de “pensamento moderno”.

Com certeza, Santos foi o autor e pesquisador que mais se debruçou sobre a evolução do PCB rumo à valorização da democracia e à aceitação do “pluricentrismo” em modelos do socialismo. Seus livros passam pelos temas do impacto que o 20.º Congresso do PCUS e o “relatório secreto” de Khruschov tiveram sobre os comunistas brasileiros e da mudança ideológica sofrida pelo “Partidão” nas décadas de 1970 e 1980, enriquecidos pela experiência do próprio escritor como militante partidário. Porém, entre os principais ideólogos desse novo período “pós-stalinista” estão Leandro Konder, Carlos Nelson Coutinho e Luiz Sérgio Henriques, que traduziram para o português autores “heterodoxos” como Antonio Gramsci e György Lukács e trouxeram as contribuições dos “eurocomunistas” italianos e espanhóis ao debate político brasileiro. Também como escritores, jornalistas e editores, trouxeram o marxismo e o progressismo ao debate público geral, reuniram artigos e reflexões isoladas em coletâneas sobre dialética e história das ideias (Konder) e traduziram a monumental coletânea italiana História do marxismo (Coutinho, Henriques e outros) como forma de promover a pluralidade de teóricos marxistas e experiências socialistas. Coutinho, em especial, no famoso artigo “A democracia como valor universal”, trouxe a tematização homônima do dirigente italiano Enrico Berlinguer e avançou uma interpretação dos escritos políticos de Vladimir Lenin inusitada para a época.



segunda-feira, 10 de março de 2025

JORDAN BARDELLULA


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Como eu mostrei há alguns anos, até mesmo Macron resolveu deixar a barba crescer antes de obter a primeira vitória presidencial. Será que Jordan Bardella, o geógrafo fracassado e herdeiro engomadinho do partido RN, tá querendo repetir a mesma mandinga? O engraçado é que o bicho parece estar nascendo ruivo! “Bardellá, brilha uma estrela, Bardellá...”, “Cumpanhêros!”, rs.

Uma pessoa resolveu recomendar no Feisse a leitura do “livro” de Adolf Altman reduzindo a complexa história do sionismo, que na mão do stalinismo uspiano virou o “cyoneshmo mauvadaum clonealishta”. É curioso, e talvez (infelizmente) não acidental, que logo depois um desconhecido tenha comentado, recomendando ler um integralista da década de 1930, notório antissemita doentio e que cometeu uma nojeira chamada Brasil, colônia de banqueiros. O elo se fecha...


Na semana passada, fomos surpreendidos pela demissão, ordenada pelo ministro da Defesa Israel Cazzo (o mesmo que, ainda ministro do Exterior, tentou humilhar o embaixador brasileiro falando só em hebraico no Museu do Holocausto...), da principal voz e cara das informações oficiais sobre o combate aos doentes do Hamas. Infelizmente, mesmo dentro das forças armadas há discórdia sobre a condução das operações na Faixa de Gaza, e o novo “ministro” representa uma linha mais extremista e racista. Hagari também não foi promovido e acabou deixando a farda, mas... quem sabe???

      


domingo, 9 de março de 2025

Guerra do bunézim no Intercâmbiostão


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Se você achou que depois da invasão genocida putinista à Ucrânia os restaurantes bananeiros iam deixar de servir estrogonofe, se enganou! Mas depois que o Tio Patinhas falou que queria anexar o Cana-dá (aham, e nóis vai anexar os “territórios historicamente brasileiros” da Guiana Francesa e da Cisplatina do Uruguai, e de quebra devolver o Acre pros bolivianos...) e transformar Justin Bieber no governador “Boa Ideia” 51, a sucessão de vergonhas alheias tem novamente rodado as redes sociais nos últimos dias.

O café “americano” (por que esse maldito nome?), por exemplo, tá sendo vendido no EUA do Norte como “canadiano”, ou seja, do nada começaram a falar a interlíngua da IALA... Mas o pior de tudo é que, assim como aconteceu umas semanas atrás no Fazendão (e, como tudo o que começa pelo Équis, flopou), a “guerra dos bunézim” chegou ao Intercâmbiostão. Até Ary Toledo entrou na moda e, direto do Inferno Além, nos mandou essa foto dizendo que não querem vender o país. A frase me lembra um rock nassionau dos anos 90, que eu vivia escutando no rádio e em que diziam que “Esse imóvel tá pra alugar”, em alusão a nossas dívidas com o FMI. Só uma lembrança, sem piada de impacto pra arrematar o parágrafo!

Esta publicação foi patrocinada por alguém que fez sucesso tendo a chance de ir e voltar beeeem antes da futura anexação:


Mas o que também achei engraçado nessa semana geopolítica revolucionária foi o encontro de Carnaval no Salão Anal entre os dois chefdistado que não preciso apresentar. Mais exatamente, a miniatura que, um tanto em tom de trolagem, o canal oficial da Bely Dom resolveu colocar, como que querendo dizer: “Tava tudo indo tão bem aquele dia... Olha os rostinhos deles, rs.” Até que o Bubba do Meio-Oeste resolveu chutar o pau da barraca e arrastar o “Pitinhaaaas!” pro meio do chilique:


Pra quem aguentou pelo menos parte do Discurso do Estado da Desunião outro dia: agora o senador Al Green ganhou mais um fã, tem todo meu respeito por chamar as coisas pelo nome!


“Ipocrezia” nossa de cada dia:


Se você é um bananeiro viciado em Équis e tem inflúenci ou político de estimação, deve conhecer o nome de Valentína Tereshkóva por causa da treta do Sérgio “Gordão dos Foguetes” Sacani com o governo federal gerada um tempo atrás por um mero selo comemorativo. A primeira bostonauta mulher do sexo feminino jogada pro espaço pela dentadura debochevique foi retratada no aparato filatélico como uma jovem afrodescendente, embora uma simples busca no Gúgou a revele na época tipo uma diretora tirana qualquer de escola pública sudestina com mais laquê na peruca que Margaret Thatcher.

Porém, poucos no Çu Grobá sabem que a corrupção generalizada da renda do petróleo também lhe ia permitir aumentar ainda mais seu laquê, proporcionar a feitura de um caminho de cal bem no topo, transformá-la num quase cosplay do Walter “Ligue Djá” Mercado e lhe dar uma vaga de dePUTAda no parlamento, donde ela não tira seu traseiro galático há anos. Seu feito mais conhecido? Propor descaradamente a “emenda” constitucional que zerava a contagem e, ainda por cima, aumentava o tamanho dos “mandatos” de Putler à frente do Khuilostão! E assim foi feito...

Curiosamente, Steve Bannon, hoje um pouco “na retreta” e pra quem ainda não inventei um pilhidinho sem graça, fez a mesma proposta na última edição da (segundo Macron) “Internacional Reacionária”, mas relacionada ao Imperador do Mundo. No Zesteite, desde 1945, ao contrário da Lulândia, você só pode ter dois mandatos presidenciais, ainda que não consecutivos, enquanto aqui só pode haver dois consecutivos, mas nada impede que o corno tente outra vez (ou até duas em sucessão!) após alguns anos. O caso da Jararaca é inédito na história nassionau, e é duplamente um tiro no pé da aceitação pelo sociólogo boca-mole da sugestão de se reeleger só pra “evitar o petê”. Primeiro, porque seu segundo mandato foi um lixo e só acelerou a vinda da Estrela Vermelha, e segundo, porque sem outras restrições, o nonidáctilo obteve uma terceira chance e está nos aterrorizando com a possibilidade de tentar uma quarta.

O problema é que os dois “Tô de volta” (mais parecidos na verdade com um “Ainda estou aqui”) tão dobrando o cabo da Boa Esperança e revelando senilidade, portanto, nem imagino as duas múmias indefinidamente assentadas em seus penicos. Direto ao assunto, Bannon quer tirar toda restrição existente na jurássica Constituição sul-canadense do século 18. Assim, ele se iguala à putinauta não só na peruca volumosa, mas também na entronização de “monarcas republicanos” (vulgo ditadores):


Após longa exploração arqueológica, descobri qual era o programa de TV preferido de Michael Jackson, exibido pela Grobe em 2003-2004 (não, não era o Criança Esperança, ao contrário do que dizia a Marília Gabriherpes do Pânico na TV, rs):


Aliás, boa semana e um tchauzinho proceis!