quinta-feira, 9 de maio de 2019

Os melhores memes de Vladimir Putin


Endereço curto: fishuk.cc/putin-memes


Mesmo mantendo a discrição e tentando passar uma imagem de sério e laborioso, o Presidente de Todas as Rússias, Vladimir Putin, volta e meia acaba sendo alvo de filmagens engraçadas e de zoação por parte da imprensa local e externa. Quem se põe a ocupar um cargo público nunca está blindado das ironias e dos olhares maldosos do grande público. No caso dos eslavos, os memes e outros vídeos humorísticos tomam um tempero especial, pois seu modo de pensar e agir é bem diferente do nosso, por isso causam um choque cultural com o jeito mais impulsivo e as situações inusitadas.

Apresento uma sequência com Putin, seus próximos e outras figuras do antigo espaço soviético:


No passado, os memes com episódios cômicos de Vladimir Putin por vezes chegavam, por vezes não chegavam ao Ocidente, em especial o Brasil, seja pelo desconhecimento da língua, seja pelo desinteresse das mídias oficiais ou independentes. Não raro seu fiel escudeiro, Dmitri Medvedev, ora colocado como presidente, ora como primeiro-ministro, também cai nas brincadeiras. Quando legendei uma das canções chamadas Hino a Putin, me deparei com o bordão “Путин ест детей” (Putin come crianças), mas eu nunca soube do que se tratava. Só há alguns meses pesquisei e descobri.

Em 2006, conversando com algumas crianças ao redor do Kremlin, Putin fixa sua atenção em Nikita, um loirinho de uns 4 ou 5 anos de idade (em outras fontes, dizem até 6), que ele segura antes que se vá com os responsáveis. O presidente rapidamente pergunta seu nome, e de repente levanta-lhe a camiseta e lhe dá um beijo na barriga. Putin então se apressa em se retirar junto com os assessores, acenando às câmeras e cumprimentando os presentes. Sempre que foi questionado a respeito do episódio, ele nunca soube explicar por que fez esse gesto, e isso deu ensejo a acusações de pedofilia nas redes sociais e a um dos bordões preferidos dos opositores, “Putin come crianças”.

No relacionamento com crianças em público, Putin procura passar uma imagem paterna, carinhosa e consoladora, nem sempre exitosa, como podemos ver nesta seleção que eu fiz. Eu cacei as filmagens específicas com Nikita (que depois ficou conhecido como “Umbiguita”, hahaha) e acabei achando outras coisas relacionadas que achei interessante colocar junto. Embora nem todas as situações sejam muito estrambólicas, vemos um Vladimir que gosta de agradar e distribuir beijinhos! Não pesquisei muito sobre cada reportagem específica, passo apenas os links dos vídeos originais, na ordem em que aparecem, que recortei no quadro ou na duração:

http://youtu.be/VJlsmQPAxNk
http://youtu.be/-tj_m8vgH04
http://youtu.be/Cb4B4h4yS4I
http://youtu.be/HxC-mJwBwbo
http://youtu.be/Md1f2N8VqkA
http://youtu.be/R1hqi4_IGtA


Montagem cômica ainda a respeito do tema “Putin come crianças”, misturando trechos de uma entrevista sua, talvez a coletiva de final de ano. É um vídeo bem bobinho, mas ainda assim resolvi repostar com tradução e legendas, rs.


Quem são afinal as (belas?) descendentes de Vladimir Putin que ele teve com a ex-esposa Liudmila? É raro eu repostar vídeos prontos de outros canais, mas neste caso me dei uma exceção. O YouTube “foto albom”, de onde tirei esta montagem, tem muitos outros vídeos com teor e formato parecidos. Segundo o admin, as informações que ele dá em russo na descrição foram tiradas na internet: eu as traduzi abaixo.

A vida privada de Putin e de sua família na Rússia é um tabu pra imprensa. Ninguém conhece cara a cara suas filhas, e na rua elas sempre andam escoltadas. A família Putin gerou duas meninas: Maria Pútina, que nasceu em Leningrado em 28/4/1985, e Iekaterina Pútina, que nasceu em Dresden (então Alemanha Oriental) em 31/8/1986. Seus nomes homenageiam as avós Maria Ivanovna Pútina e Iekaterina Tikhonovna Shkrebneva. Estudaram alemão a fundo no ginásio Peterschule de São Petersburgo, cursaram 2 anos na escola Haas junto à embaixada da Alemanha em Moscou e passaram em definitivo ao homeschooling em 2000, por razões de segurança.

Adultas, fazem academia, praticam wushu (uma luta chinesa) e se dedicam aos idiomas: ambas falam fluentemente inglês, alemão e francês, e Iekaterina também sabe coreano. Em 2003 estavam em universidades de São Petersburgo, Maria estudando engenharia agronômica e Iekaterina a história do Extremo Oriente, com mestrado em Estudos Orientais. Hoje vivem no exterior, sob o cuidado que Putin tem em tirar a atenção da mídia sobre a família, o que levou ao pouco conhecimento público sobre suas filhas. Elas vivem fora dos holofotes e não expõem a vida privada, tanto que até suas feições são segredo de Estado: quem busca “Маша и Катя Путины фото” (Masha e Katia Putina foto) na internet, encontra até mesmo fotos de mulheres totalmente diferentes entre si.

De fato, muitíssimo poucas pessoas sabem qual a real aparência adulta das filhas de Putin. Nas próprias redes aparecem de tempos em tempos incontáveis relatos contraditórios sobre estarem casadas ou não e em que países estariam vivendo. Exceto pelos retratos de família, quem procura os nomes de Maria Pútina e Iekaterina Pútina nos buscadores não tem imagens com 100% de comprovação: elas nunca deram entrevistas a ninguém, e na imprensa russa nunca apareceram fotos suas como adultas.


Este vídeo se refere à mesma situação com que já fiz montagem no ano passado, mas o achei bem depois. O presidente da Chechênia, Ramzan Kadyrov, dança uma canção inteira composta em sua própria homenagem, com toda a habilidade adquirida em sua vida. A música se chama “Бенойн кӏант” (Benoyn kant) e é cantada em checheno pela artista Makka Mezhieva, pelo que pude identificar na declaração de direitos autorais. Baixei o vídeo sem alterações direto deste canal alemão que apresenta as culturas da Rússia.

Infelizmente não achei a tradução do título nem da letra. A dança típica do Cáucaso, incluindo a Geórgia, é a lezginka, como se pode ver no ritmo da canção. As roupas também são muito comuns no folclore da região, e são usadas também pelos georgianos e pelos cossacos da Rússia antiga que viviam nessas montanhas. Pelas cores e pela animação dos convidados, é uma cultura muito vívida e florida. Como toda nação influenciada pela religião muçulmana, vemos como os homens permanecem todos à frente incentivando o anfitrião (Kadyrov) com palmas, enquanto as mulheres se sentam numa parte separada.


Este vídeo, na época, viralizou entre os russos, mas não sei se chegou a haver algum upload traduzido e vindo do Brasil. Trata-se do então presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, dançando femininamente num evento social em abril de 2011, ao som da canção pop American Boy, cantada em russo pelo grupo Kombinatsia. A banda fez sucesso nos anos 90, quando Dmitri devia ser relativamente jovem, mas vemos que aí ele se solta junto com outro companheiro, que parece ainda mais empolgado do que ele.

Entre os muitos uploads no YouTube, eu baixei o desta página, tendo depois apenas cortado o quadro. Infelizmente, em algumas passagens o movimento mais largo das pernas e dos pés ficou um pouco sumido, então sugiro que também vejam a postagem original. Dmitri Medvedev foi primeiro-ministro de Vladimir Putin nos dois mandatos presidenciais deste, em 2000-2004 e 2004-2008. Em 2008, Medvedev foi eleito presidente e escolheu o próprio Putin como premiê, e por isso muitos supuseram que Medvedev não fosse mais do que um fantoche de Putin. Este, de fato, reformou a constituição e aumentou a duração do mandato pra 6 anos, tendo sido eleito em 2012 e reeleito em 2018, sempre com Medvedev como primeiro-ministro.

Na época da presidência Medvedev, quando ainda não estava muito claro ao Ocidente que Putin estava criando uma estrutura de poder unipessoal em torno de si, ele era considerado mais “moderno” e mais orientado às visões ocidentais. Por isso, o uso da música American Boy também teve uma leitura humorística, em situação na qual jamais se imaginaria encontrar Putin. Vejam ainda ao final, quando a banda finaliza, a viradinha de Medvedev na ponta do pé: mas o que é iffo???


Este outro vídeo memético é aparentemente pouco conhecido no Ocidente: em algum evento cívico da Ucrânia que contava com um show de música, o então primeiro-ministro Viktor Ianukovych recebeu o presidente Vladimir Putin e o premiê Dmitri Medvedev. Ao lado deles, o senhor de cabelo loiro é Leonid Kuchma, então presidente ucraniano. Esse flagra foi feito em 2004, mas não sei exatamente a data e a ocasião, apenas identifiquei que alguém está cantando a música popular Smuglianka-moldavanka (A moldova moreninha).

Demonstrando pouco respeito ou reverência ao evento, Ianukovych está comendo escondido uma espécie de petisco em saco, que não sei se era salgado ou doce. De repente, ele oferece a Medvedev, que prontamente aceita, e depois a Putin, que por sua vez recusa, um tanto sem graça. Podemos notar que, sendo ainda início dos anos 2000, Putin não tinha feito todas as plásticas que deixariam seu rosto mais redondo e seus olhos mais puxados, além de seu cabelo ainda estar com a maior parte do loiro natural. O engraçado da ocasião é que o corrupto Ianukovych sempre foi visto pelos ucranianos como um bonachão comilão, e durante a revolta do Euromaidan em 2014, quando uma multidão invadiu sua residência oficial, ficou clara a vida de luxo que ele levava, enquanto a população estava pobre.

Deposto pelo próprio Parlamento em 22 de fevereiro de 2014, já como presidente, diante do aumento dos protestos populares, Ianukovych sempre foi visto como um aliado submisso da Rússia, dominando até mesmo mais o idioma russo do que o ucraniano. O fato de compartilhar essa “intimidade” com Putin e Medvedev deixa ainda mais caricato esse caráter de submissão. Depois de ter baixado o vídeo original, eu apenas cortei o quadro e aumentei o volume.


Os dançarinos também proliferavam no antigo espaço soviético e de países socialistas: o ex-presidente da Armênia Levon Hakobi Ter-Petrosyan, que tinha sido o primeiro após a dissolução da URSS, está dançando na campanha à reeleição em 2008. Eu baixei deste canal o vídeo, sem ter feito nenhuma mudança.

Ter-Petrosyan nasceu em Aleppo, na Síria, em 1945, de uma família que tinha resistido ao genocídio armênio promovido pelo Império Otomano (turcos) na época da 1.ª Guerra Mundial. No mesmo ano todos se mudaram pra Armênia Soviética, e mais tarde Ter-Petrosyan formou-se em Estudos Orientais, tendo se tornado um pesquisador com frutífera produção sobre história e literatura antigas. Poliglota, ele é fluente em ao menos sete idiomas: armênio, assírio, russo, francês, inglês, alemão e árabe. Foi um destacado líder nacionalista nos últimos anos da URSS, e por isso foi eleito em 1991 por voto popular o primeiro presidente da Armênia independente, e reeleito em 1996.

Sua reeleição foi marcada pela suspeita de fraude, reafirmada por observadores internacionais, e pela repressão a protestos populares que contestavam os resultados, o que, juntos aos problemas econômicos da década, ajudou a dissipar sua popularidade. Ele terminou renunciando em 1998, devido a discórdias com ex-aliados quanto à tentativa de pacificar o conflito da região de Nagorno-Karabakh, um enclave armênio dentro do Azerbaijão que se reconhece como entidade política independente. Segundo o próprio Ter-Petrosyan, seus esforços pra amenizar as tensões estariam dando certo. (Pretendo em breve legendar o discurso de renúncia, a partir de uma tradução em inglês.)

Afastado da vida pública e dos holofotes, ele dedicou um meio-tempo à pesquisa científica, até reaparecer em 2007 num discurso público em Ierevan marcando os 16 anos da independência da Armênia. Fazendo duras críticas ao governo da época, ele anunciou a intenção de disputar as eleições presidenciais de 2008, nas quais, afinal, ele terminou em segundo lugar. Provando do próprio veneno, Ter-Petrosyan contestou o resultado sob novas alegações de fraude, e os protestos de massa que ele convocou também acabaram fortemente reprimidos. Antes filiado ao Movimento Nacional Pan-Armênio, o político fundou em 2008 seu próprio Congresso Nacional Armênio, unificando mais de uma dúzia de partidos e ONGs.

O atual presidente da Armênia é Armen Sarkisyan, sem filiação partidária, eleito em 2018 pela primeira escolha presidencial indireta (feita pela Assembleia Nacional) da história pós-soviética. Eu acredito que essa dança de Levon Ter-Petrosyan tenha sido mesmo em 2008, e o mais interessante foi a edição que privilegiou a bandeira de Israel que era sacudida na ocasião: segundo os padrões conspiracionistas internacionais, o ex-presidente é acusado de favorecer os interesses dos “judeus ricos e globalistas” na Armênia.


A Ucrânia sempre foi um assunto crucial pra Rússia, então decidi incluir aqui também este vídeo. O comediante Volodymyr Zelensky, de 41 anos, foi eleito no fim de abril o novo presidente ucraniano, após uma eleição com mais de 30 candidatos e um segundo turno acirrado, disputado com o atual presidente, Petró Poroshenko. Este terminou perdendo, ficando com pouco mais de 20% dos votos, em clara demonstração de que o povo está insatisfeito com a corrupção, a piora do nível de vida e os atritos com a Rússia.

A votação de Zelensky foi bem menor no oeste nacionalista e ocidentalizado, mas mesmo assim ele obteve aí a maioria. Já no leste, de maioria russófona, ele chegou ao pico de 88%, numa demonstração clara de que essa região rejeitou o antagonismo à Rússia da parte de Poroshenko. Zelensky é totalmente estreante na política e era comediante antes de participar do pleito. Ele interpretava um professor anticorrupção que, pela força das circunstâncias, acabou de repente se tornando presidente da Ucrânia. Com posições societárias bem liberais, Zelensky também é pró-Europa e crítico de Vladimir Putin, mas se mostrou mais disposto a dialogar diretamente com o Kremlin pra resolver os problemas em comum.

Eu mesmo traduzi direto do ucraniano a breve mensagem postada em seu Facebook, e então legendei a partir desta fonte (visualização melhor com o celular na vertical). Seguem o texto original que tirei de outro site e a tradução em português:


Всім привіт, [em russo] ‘всем привет’. Хочу теж вам всім подякувати. Дякую вам, що ви з нами були всі ці чотири місяці. Це відповідальна робота. Робота, яку ви зробили. Це не я, ми разом це зробили. І головне, що ми зробили - ми об’єднали Україну, об’єднали наше життя, об’єднали наш народ. Дякую.

Olá a todos, olá a todos! Quero também agradecer todos vocês. Obrigado por estarmos todos juntos esses quatro meses. Foi um trabalho responsável. Um trabalho que vocês fizeram. Não fui eu, todos juntos fizemos isso. E o principal: o que fizemos foi unir a Ucrânia, unir nossas vidas, unir nosso povo. Obrigado.


Pra fechar, vamos ir um pouco além e dar uma escapadinha até os eslavos do sul. Este meme ficou perdido na videosfera do começo da década, e os poucos uploads brasileiros tiveram muito poucas visualizações. Ano 2000, a apresentadora sérvia Sanja Nikolić, no programa Halo Pink, está lendo alguns números e de repente tem um tipo de crise que a faz desmaiar. Não satisfeita, cai de um jeito que acaba levando junto parte do cenário, que pra piorar desaba bem na cabeça dela deitada. O apresentador principal até tenta ajudar, mas talvez de tão desnorteado ele tem um bloqueio e vai sentar de volta.

Que cena dramática! E eu ainda fiz umas edições pra ela ficar mais aproveitável ainda. O programa é do canal sérvio de TV paga Pink, que está sediado em Belgrado. Na época, o país ainda se chamava “Iugoslávia”, e após a desintegração da antiga unidade comunista tinham restado apenas os territórios da Sérvia e de Montenegro. Em 2003 o país se renomeou “Sérvia e Montenegro”, até os dois países enfim se separarem em 2006.


terça-feira, 7 de maio de 2019

Sura al-Fatiha: trecho que abre o Corão


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/fatiha


E eis que resolvo lançar algo em árabe! Claro que meu sonho antigo é aprender alguma coisa dessa língua e legendar músicas, hinos e discursos históricos. Mas por causa do tempo e de outras prioridades, nunca levei meus estudos a fundo. Há uns meses, eu tinha lido por completo o manual The Arabic Alphabet, de Nicholas Awde e Putros Samano, ensinando a pronúncia e ortografia básicas. Mas como larguei tudo, acabei esquecendo e só agora retomei e fixei pra valer. Apesar dos errinhos, recomendo esse livro, pode ser achado facilmente em PDF na internet! Não reparem na pronúncia, sobretudo dos fonemas glotais, porque não sou iniciado na religião...

No final do livro, o primeiro texto em árabe que eles oferecem pra treinar a leitura é a chamada Sura al-Fatiha (سورة الفاتحة), que apesar da transliteração se pronuncia mais exatamente “suurat-ul-faatiḥah”. O nome significa literalmente “Capítulo (Sura ou Surata) de Abertura”, ou seja, é a primeira sura do Corão, considerada o coração do livro sagrado do islã e composta de apenas sete versos. Na reprodução que aparece em The Arabic Alphabet e que usei no vídeo, as linhas 7 e 8 são na verdade um único verso 7, e como só depois me dei conta disso, devo ter estragado a fluência da leitura.

Segundo o site de estudos islâmicos de Oxford, a sura 1 também é chamada Umm al-Kitab (A Mãe do Livro) ou Sura al-Hamd (O Capítulo de Oração). Resumindo as relações dos seres humanos com Deus (Alá, Allah), é recitada com cada ayat (versículo) separado, repetida 17 vezes por dia e fechada com a palavra amin (amém). Também é repetida pra abençoar pessoas doentes ou sobre os túmulos ao se velarem ou visitarem os mortos, durante a visita a lugares sagrados ou em casamentos. No nome que dei com o alfabeto árabe, não estão representadas as vogais, mas em The Arabic Alphabet, como se pode ver, há vários sinais sobre as palavras (exceto os pontos) que, de fato, representam os sons vocálicos. Estes só aparecem em textos pra crianças, iniciantes ou religiosos, em que o conhecimento das vogais é essencial pra recitação correta.

O primeiro verso, que aparece no começo de todas as suras (exceto a 9), também é conhecido como basmala (بسملة) ou bismillah (“em nome de Alá”) e tem um papel importante na cultura e política de vários países de maioria islâmica. Mesmo entre os cristãos árabes, o nome também é usado às vezes pra indicar a fórmula da Trindade (“Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”). Este vídeo tem uma das leituras da Sura al-Fatiha de que mais gosto, e este arquivo também tem uma leitura muito bonita. Pra descontrair um pouco, também inseri algumas imagens do personagem Profeta, do falecido Ronald Golias, que eu adorava ver em A Praça é Nossa quando criança.

Neste site, que também me agradou muito, também se pode ler o Corão inteiro em vários estilos de letras árabes, em árabe escrito no alfabeto latino ou em diversas traduções, incluindo em português, feita pelo Prof. Samir el-Hayek. Pra fazer minha tradução, como ainda não comecei a aprender o árabe em si (e a língua corânica é muito complexa), comparei a versão inglesa que consta em The Arabic Alphabet com a francesa, espanhola, italiana, russa e portuguesa que estão no referido site. Ela segue abaixo, junto com a videomontagem no meu canal e uma transliteração em alfabeto latino seguindo em parte a que Mamede Jarouche usa na tradução das Mil e uma noites:


1. Em nome de Alá, o clemente, o misericordioso.
2. Louvado seja Alá, senhor do universo,
3. O clemente, o misericordioso,
4. Soberano do Dia do Juízo.
5. Só a ti adoramos e só a ti pedimos ajuda.
6. Guia-nos pelo caminho correto,
7. O dos teus agraciados, não dos que caíram em tua ira e dos extraviados.

1. Bismi-l-laahi-r-raḥmaani-r-raḥiim.
2. Alḥamdu lillaahi rabbi alᶜaalamiin,
3. Ar-raḥmaani-r-raḥiim,
4. Maaliki yawmi-d-diin.
5. Iyyaaka naᶜbudu waiyyaaka nastaᶜiinu.
6. Ihdinaa-ṣ-ṣiraaṭa almustaqiima,
7. Ṣiraaṭa allaẓiina anᶜamta ᶜalayhim ghayri almaghḍuubi ᶜalayhim walaa-ḍ-ḍaalliin.



A Sura al-Fatiha em bela caligrafia razoavelmente inteligível.

domingo, 5 de maio de 2019

Fidel Castro faz alusão à URSAL (1993)


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/fidel-ursal


O Foro de São Paulo é uma congregação de partidos de esquerda e extrema-esquerda latino-americanos criada em 1990, por alternativas socialistas após a desagregação dos regimes comunistas europeus. Seu alinhamento com Cuba, o único regime comunista ainda vigente fora da Ásia, o tornou peça de muitas teorias da conspiração por parte da direita conservadora no Brasil, durante e depois dos governos do PT. A mais recente delas se refere ao “plano URSAL”, ou seja, o de formar uma “União das Repúblicas Socialistas da América Latina”, anunciada no debate presidencial da TV Bandeirantes pelo Cabo Daciolo em agosto de 2018. O termo, porém, num sentido satírico, foi criado ainda em 2001 pela socióloga brasileira Lúcia Victor Barbosa, contrária às críticas que as esquerdas de então faziam ao antigo plano norte-americano da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas).

Em 1993, a cúpula do Foro de São Paulo tinha se reunido em Havana, capital de Cuba, pra discutir novas estratégias das esquerdas latino-americanas após o colapso do “socialismo real” e do avanço neoliberal no subcontinente. No dia 24 de julho, uma data histórica pros cubanos, o presidente Fidel Castro pronunciou o discurso de encerramento do evento, do qual um trecho sem legendas foi postado neste canal. Ante um contexto em que a criação de regimes socialistas parecia não ter futuro, o líder prega que todas as forças de esquerda (subentendem-se partidos, correntes, organizações, movimentos etc.) deviam se unir e se integrar, mesmo que nem todas achassem possível construir ou lutar pelo socialismo em seus países. Achei essa ideia tão ligada ao tal “plano URSAL” que resolvi dar o referido título à postagem!

Junto com Castro, o ex-presidente brasileiro Luís Inácio Lula da Silva (PT) foi um dos criadores do Foro de São Paulo. O cubano morreu em 2016, deixando seu irmão Raúl no poder, e Lula está preso acusado de diversos crimes de corrupção. Somando isso à ascensão de governos de direita na Argentina e no Brasil e à crise econômica que Cuba vive hoje, não houve desfecho pior àquele plano de integração. Quanto ao espanhol de Fidel, ou ele fala muito embrulhado, ou o estilo dele é muito intrincado, ou isso é particularidade do espanhol regional. Achei o texto original um tanto difícil de entender, mas no fim consegui, mudando bem a redação em português. Neste portal achei traduzido um “trecho do trecho”, que me deu a primeira ajuda, e seguem abaixo a legendagem, o texto que copiei do próprio canal original e depois revisei, e minha tradução em português:


¿Qué menos podemos hacer nosotros y qué menos puede hacer la izquierda de América Latina que crear una conciencia en favor de la unidad? Eso debiera estar inscripto en las banderas de la izquierda: “Con socialismo y sin socialismo”. Aquellos que piensen que el socialismo es una posibilidad y quieren luchar por el socialismo, pero aún aquellos que no conciban el socialismo aún, como países capitalistas, ningún porvenir tendríamos sin la unidad y sin la integración.

O que podemos fazer nós e o que pode fazer a esquerda da América Latina a não ser criar uma consciência em favor da unidade? Isto deveria estar inscrito nas bandeiras da esquerda: “Com socialismo e sem socialismo”. Tanto os que pensam que o socialismo é uma possibilidade e querem lutar por ele, quanto os que ainda não concebem o socialismo estando em países capitalistas, não teremos nenhum futuro se eles não estiverem unidos ou integrados.


sexta-feira, 3 de maio de 2019

Sobre os estatutos da Comintern (2018)

Este pequeno artigo tem como nome completo “Os Estatutos da Comintern e a evolução do comunismo internacional (1920, 1924 e 1928)” e consiste no texto pra aprovação de comunicação a ser apresentada no 9.º Colóquio Internacional Marx e Engels, promovido pelo Centro de Estudos Marxistas (Cemarx) no IFCH/Unicamp de 17 a 20 de julho de 2018. O grupo de trabalho foi o n.º 10, chamado “O socialismo na atualidade”, e na comunicação resumo anotações que escrevi em outubro de 2015, enquanto redigia a qualificação do mestrado.

Inicialmente eu previa ter feito uma nova tradução dos três Estatutos diretamente da língua russa, mas não tive tempo ao longo da pós-graduação. Quero a fazer quando aquelas anotações se tornarem um artigo lapidado e estruturado, e pedir sua publicação anexa ou a lançar em outros meios. Os organizadores prometeram publicar os melhores textos após eles serem revisados e completados, mas como não recebi notificações a respeito, estou lançando sem alterações a versão prévia aqui. Todas as traduções são livres e minhas, e salvo indicação, todos os grifos estão nos originais. Mantive também o modelo de citações e referências exigido pelo evento, mas que não costumo usar em meus textos.



Resumo: A estrutura organizativa interna da Internacional Comunista (Comintern) era quase totalmente desconhecida àqueles que a observavam de fora. Contudo, ela foi fortemente influenciada pelas lutas políticas de bastidores, inclusive no partido comunista soviético, e pelas viradas geopolíticas promovidas pelos líderes de Moscou. Os três Estatutos da IC aprovados em seu 2.º (1920), 5.º (1924) e 6.º (1928) Congressos Mundiais não esgotam a análise dos órgãos que a compunham, mas dão uma ideia de como sua estruturação e lemas políticos, ao contrário do que se pensa no senso comum, alteraram-se radicalmente à medida que se desenrolavam as disputas de poder no Kremlin. Nesta comunicação, exponho de forma resumida os resultados de uma exaustiva comparação entre os três Estatutos, relacionando os textos ao contexto político de cada época e apontando nas mudanças redacionais pistas sobre como se alteravam os conceitos de movimento comunista internacional e revolução mundial. Como parte de minhas pesquisas de mestrado e doutorado sobre as relações entre a Comintern e os comunistas brasileiros, uma das conclusões preliminares é a de que a Internacional, da qual os partidos comunistas eram considerados “seções nacionais”, caminhou crescentemente rumo à centralização das atividades, à formação de uma estrutura piramidal e à restrição das instâncias para tomadas gerais de decisão. Não se pode deixar de relacionar essa evolução, ocorrida em todo o comunismo internacional antes da Segunda Guerra Mundial, à morte de Lenin em 1924, à consequente luta pelo poder no Estado soviético e à consolidação final do império de Stalin em 1928-29.


A estrutura organizativa da Internacional Comunista (Comintern) sempre foi um mistério aos que a observavam de longe, mais atentos a seus efeitos políticos do que a seu funcionamento interior. Como apontam Adibekov, Shakhnazarova e Shirinia (1997, passim), os organismos internos, ocultos ao grande público e pouco mencionados na imprensa oficial, sofreram inúmeros remanejamentos e amiúde se entrecortavam durante os 24 anos em que a organização existiu. Ao retraçar seu desenho burocrático usando documentos de arquivo, os três acadêmicos russos destacam que ele jamais foi estável e que o rumo global tomado até o definhamento prático, em meados da década de 1930, foi o da crescente centralização. Tal processo sinalizava a predominância do aparelho sobre o coletivo partidário, a suplantação do voluntarismo romântico pelo burocratismo rotineiro e a transformação de debates políticos em questões administrativas. A institucionalização da Revolução de Outubro, que trocou o auxílio a revoluções no exterior pela racionalidade diplomática, e a “destruição do Estado burguês” leniniana pelo “reforço do Estado proletário” staliniano, tirou da Comintern o papel de difusora da revolução socialista e tornou-lhe instrumento da política externa do Kremlin e de vigilância policialesca sobre os partidos comunistas (Pons, 2014).

Nos três Estatutos da Internacional Comunista, aprovados em 1920, 1924 e 1928 (VTOROI..., 1934, pp. 534-539; PIATY..., 1925, pp. 87-93; VI KONGRESS..., 1929, pp. 162-167), percebe-se a evolução da instituição e do regime bolchevique, incluindo a destruição do Antigo Regime liderada por Vladimir Lenin, a luta de poder que se seguiu à sua morte e a vitória de Iosif Stalin como líder incontestável da União Soviética e do partido único. Obviamente, dos programas e resoluções da Comintern apreende-se muito mais a respeito de sua ideologia, política e influência fora da Europa Oriental, mas as instituições e estruturas também dão a entender como certas ideias e visões de mundo, embora com mediações, implicavam práticas que tinham um alcance para além dos grupos em que foram concebidas de início, e no caso em questão com impacto sobre a geopolítica mundial e as decisões das grandes potências. No Brasil, não se pesquisou sobre a estrutura organizativa da Comintern, e em poucas obras se alude às agências que interligavam os comunistas latino-americanos e as lideranças soviéticas. De alguma forma, a centralização e burocratização previstas nos Estatutos da IC também afetaram a trajetória dos secretariados e birôs incumbidos dos problemas da América Latina e das queixas dos partidos da região.

Pretendo mostrar os pontos centrais de permanência e mudança nos Estatutos da Comintern aprovados em 1920, 1924 e 1928, respectivamente no 2.º, 5.º e 6.º Congressos Mundiais, o órgão superior da instituição. Quero salientar os traços que tinham mais relação com as viradas ideológicas e mais implicância na vida político-partidária, sem recair na mera análise do discurso nem isolar os textos de sua realidade histórica.

Os Estatutos de 1920 e 1924 têm preâmbulos de conteúdo igual, mas expresso com palavras diferentes. Ele reproduz uma parte dos Estatutos da 1.ª Internacional, da qual a Terceira se afirma a continuadora, e anuncia a ruptura completa dos comunistas com a tradição da 2.ª Internacional. A Comintern se atribui a seguinte tarefa:

[...] lutar por todos os meios, mesmo de armas na mão, para derrubar a burguesia internacional e criar uma república soviética mundial como estágio de transição rumo à total aniquilação do Estado. A Internacional Comunista considera a ditadura do proletariado como o único meio que possibilita à humanidade se libertar dos horrores do capitalismo. E a Internacional Comunista considera o Poder Soviético uma forma historicamente dada dessa ditadura do proletariado.

Os três artigos iniciais dos Estatutos de 1920 e 1924 têm estrutura igual, mas no primeiro salientam-se algumas diferenças. Nos Estatutos de 1920, a Comintern não tem um status especial, mas a função de “organizar ações conjuntas dos proletários dos diferentes países”, enquanto nos Estatutos de 1924 ela já é claramente a “união dos partidos comunistas dos diversos países num só partido proletário e [...] guia e organizadora do movimento revolucionário do proletariado de todos os países”. No 2.º Congresso, a centralidade do partido comunista na luta internacional não estava definida: talvez na própria URSS ainda se estivesse forjando seu papel dirigente ou ainda não se havia regulado o tipo de organização que deveria entrar na IC. É possível que ainda não se tivesse decidido decalcar o modelo russo para outros países, o que ocorreria a partir do 5.º Congresso na esteira da “bolchevização”.

O objetivo final permanece o mesmo: “aniquilar totalmente as classes e implantar o socialismo, que é o primeiro estágio da sociedade comunista”. Mas o meio de alcançá-lo se torna mais preciso: nos Estatutos de 1920, os proletários organizados internacionalmente visariam “derrubar o capitalismo, estabelecer a ditadura do proletariado e a República Soviética Internacional”, e nos Estatutos de 1924, era da Comintern a função de lutar “para ganhar a maioria da classe operária e amplas camadas dos camponeses pobres aos princípios e fins do comunismo, estabelecer a ditadura do proletariado, criar uma união internacional de repúblicas soviéticas socialistas”. No 2.º Congresso, o fim do capitalismo e a revolução mundial pareciam tão próximos, e a adesão do operariado mundial tão evidente, que os fins não precisariam ser explicados, enquanto no 5.ª Congresso cumpria de novo conquistar operários e camponeses, e quando muito se contentar com a maioria, e não todos. A ditadura do proletariado continua na ordem do dia, ainda que ao menos seu caráter agora não seja explicitado, mas o agente de sua instauração muda: dá-se a entender nos Estatutos de 1920 que ele seria obra dos próprios proletários, enquanto nos Estatutos de 1924 ao menos a luta tinha liderança da IC; aliás, para o 2.º Congresso ela seria mera organizadora dos operários, enquanto no 5.º Congresso também seria guia do movimento revolucionário do proletariado, além de ser o partido proletário que une todos os partidos comunistas (que, subtende-se, são os agentes do processo). Por mais que possam ser meras palavras, parece claro que a figura dos próprios operários organizados de forma autônoma cedia lugar à figura do partido, que se pressupõe proletário e ter conquistado ou estar para conquistar as mentes desses operários.

Outro ponto relevante é a configuração geopolítica resultante da revolução: os Estatutos de 1920 preveem a formação de uma “República Soviética Internacional”, enquanto os de 1924 se contentam (a falta de maiúsculas não é inocente) com uma “união mundial de repúblicas soviéticas socialistas”. A fé na revolução mundial iminente e na breve derrota do capitalismo ao findarem os anos de 1910 cedeu à conformação com o recuo revolucionário e a volta do enquadramento do operariado dentro das fronteiras nacionais; não era mais possível que de imediato Estados nacionais e fronteiras fossem abolidos, e a futura tomada de cada governo pelos comunistas já parecia um feito suficiente. Essa é a aparente base do “socialismo num só país”, que ao menos aí, por honra da firma, soava como um “socialismo em cada país”, ainda que em todo caso o objetivo da revolução mundial aos poucos era deixado, as lutas pelo poder e pelo destino da doutrina bolchevique estavam apenas no início e o reconhecimento dos Estados nacionais era uma exigência prática que blindaria a URSS de futuras intervenções.

Uma diferença ligada, de certo, à centralização e à decorrente imbricação do comunismo internacional aos acasos do PC soviético (mas também à morte de Lenin, a qual incentivou a luta interna) é a ampliação do prazo entre a reunião de dois congressos de um ano (2.º Congresso, § 4) para dois (5.º Congresso, § 7). Isso se explica diante da ocorrência dos quatro primeiros congressos anuais entre 1919 e 1922, e do quinto apenas em 1924, mas não está claro por que se decretou a alteração nos intervalos, e não se considerou o atraso como mero acidente. Seria intenção dos líderes soviéticos adiar os encontros por razões puramente práticas? Havia a suspeita de que a luta interna seguiria e dificultaria os encontros? Ou foi um presságio de que a tensão na cena interna soviética (e talvez o cerco da URSS, ou a falta de revoluções que tirava o radicalismo de pauta) levaria à concentração de poder e, por conseguinte, ao esvaimento dos debates? Mas há ainda nos Estatutos de 1924 uma “novidade” acrescida logo após esse trecho e que está ausente nos de 1920: “O prazo de convocação do congresso é estabelecido pelo Comitê Executivo da Comintern. Todas as seções aderentes enviam delegados em número estabelecido pelo Comitê Executivo.” Outro traço organizativo que se julgou por bem explicitar ou fixar, mas que mostra a crescente preeminência do CEIC.

O papel do CEIC de “órgão dirigente da IC nos intervalos entre os congressos mundiais” não muda (§ 5 dos Estatutos de 1920, § 11 dos Estatutos de 1924); mas é notável como a informação, no primeiro texto, é apenas a segunda a se passar, junto com a de que quem elege o CEIC é o Congresso, único órgão ao qual deve prestar contas, enquanto no segundo, inicia um artigo separado, o primeiro de uma nova parte, e que diz em seguida que o CEIC “dá a todos os partidos e organizações componentes da IC diretivas que lhes são obrigatórias, controla e verifica suas atividades.” Este último dado, no 2.º Congresso, ficara submerso entre as várias informações agrupadas no artigo 9, o qual nem fala de controle e verificação de atividades, que logo se tornariam duas das obsessões da Comintern. Ademais, no 5.º Congresso não é citada nenhuma prestação de contas do CEIC ante o Congresso Mundial nem qualquer órgão, o que explica sua crescente autonomia e predominância sobre qualquer outra instância da IC, com suas reuniões plenárias tornadas “pequenos congressos”.

O trabalho, funções e prerrogativas do CEIC são quase todos resumidos no artigo 9 dos Estatutos de 1920, quando talvez ainda não se dava tanta importância a ele, nem se previa que seria tão reforçado, enquanto nos de 1924 eles estão detalhados do artigo 12 ao 25, além do artigo 11 já citado, com notável aumento de funções e poderes. Em resumo, pode-se dizer que o CEIC rumou para a complexidade, o aumento de poderes, a licença para intervir na vida dos partidos (inclusive aprovando seus programas e estatutos locais), a centralização das decisões, que deveriam cumprir-se com ainda mais rigor e rapidez pelas “seções”, e a liberdade com que o comitê poderia aplicar sanções ou expulsões. De fato, a importância dada em 1920 ao CEIC ainda é tão incipiente que nem houve o cuidado em se prever a regularidade de suas sessões, só estatuídas pelo artigo 25 em 1924 como devendo se dar “não menos de uma vez por mês”, sendo elas plenipotenciárias “havendo a presença de não menos da metade dos membros do CEIC”. À parte os temas com artigo separado no 2.º Congresso, vale frisar, primeiro, o esquema piramidal e setorial sancionado ao CEIC no 5.º Congresso: anteriormente sem menção alguma, o comitê ganha um Presidium (“o órgão sempre atuante e [que] conduz todo o trabalho do CEIC no intervalo entre as sessões deste” e cujo presidente também o é do CEIC e da Comintern), um Birô de Organização (orgbiuro, “que discute e resolve questões de organização e finanças do CEIC”) e um Secretariado (“o órgão executivo do CEIC e de seu Presidium e Birô de Organização”, e cujos membros entram neste último), elege a redação da revista mensal e de outras edições e cria os setores de informação e estatística, de agitação e propaganda, de organização e de trabalho para o Oriente, podendo ainda criar outros setores segundo a premência e organizar o aparelho do modo mais funcional possível.

O último artigo dos dois Estatutos (§ 17 em 1920 e § 35 em 1924) revela como a Comintern pensava o internacionalismo proletário, o trânsito de militantes e as relações da URSS com o exterior. A primeira versão diz que “Ao se mudar de um país para outro, todo membro da Internacional Comunista encontra o apoio fraternal da parte dos membros locais da 3.ª Internacional”, a qual exala solidariedade e não dá precisões logísticas ou burocráticas. Não se pedem satisfações sobre o deslocamento, que não precisa ser explicado nem por razões profissionais ou de segurança, e fala-se diretamente de “membros da IC”, e não “membros do PC”, o qual podia não ter ainda se tornado a unidade básica da IC. A segunda versão é clara: “Os membros das seções da IC só podem mudar-se de um país para outro com autorização do Comitê Central da seção à qual ele pertencia antes.” Vidas, cotidianos e destinos pertencem ao partido, portanto à Comintern, começando-se a “bolchevizar” e militarizar as seções. Cada membro tinha suas metas e movimentos calculados, dirigidos aos interesses da causa, e não pessoais. Findavam a acolhida e o “apoio fraternal”: “Tendo mudado de domicílio, os comunistas devem se filiar à seção do país ao qual chegaram. Os comunistas que partiram sem autorização do CC da seção à qual pertenciam não são aceitos em outras seções da IC.” Os “membros da IC” são soldados comunistas, o PC é unidade básica da IC e dirige a vida do militante. A Comintern não é mais uma associação mundial “fraternal”, mas uma rede global com várias “seções” interligadas, como um empregado de empresa que parte trabalhar numa filial em outra cidade, estado ou país. A ameaça de expulsão é como uma excomunhão, um abandono ao vazio, a interdição a um universo que protege contra um ambiente hostil.

Entre os Estatutos de 1924 (5.º Congresso) e os de 1928 (6.º Congresso da IC) há um notável intervalo, em se considerando o prazo de dois anos estipulado entre um e outro no primeiro documento. A estrutura do texto de 1928 é decalcada da versão de 1924, e muitos artigos não se alteraram, ainda que outros tenham mudado bastante. A ausência do preâmbulo logo chama a atenção: não é parte normativa, mas sua força moral faz pensar se o corte se deu por mera razão de espaço, pela suposta consideração desses valores como óbvios à militância ou subentendidos nos artigos seguintes, ou até pela ânsia em romper com o passado ou em insinuar que ocorreriam viradas ainda mais bruscas na IC e na URSS.

No artigo 1 dos Estatutos de 1924, aparecia como um dos objetivos da Comintern “estabelecer a ditadura do proletariado”, mas nos Estatutos de 1928 quis-se precisar que era a “ditadura mundial do proletariado” (grifo meu). Talvez fosse mera elucidação e correção, mas nem em 1920 o adjetivo aparece, o que pode apontar a permanência do caráter mundial dado à revolução e à instauração do socialismo e a necessidade de destacá-lo, face à estranheza que poderia estar causando a construção do “socialismo num só país” e à nova instabilidade da situação internacional, que tornava não só possível, mas necessária, uma revolução mundial.

Na seção sobre o Congresso Mundial, o artigo 8 dos Estatutos de 1928 mantém o intervalo de reuniões como sendo a cada dois anos, não se sabe se como medida deliberada para lidar com os problemas de comunicação e deslocamento entre Moscou e os partidos, ou por considerar-se o novo intervalo prático de quatro anos como mero acidente. Sinal das novas lutas internas soviéticas é a supressão do cargo de presidente da Comintern: citado no artigo 9 dos Estatutos de 1924, omitido no artigo 10 dos Estatutos de 1928, sai de cena após ter sido ocupado por Grigori Zinoviev, agora derrotado dentro do PC soviético. O presidente, que presidia também, pelo artigo 18 aprovado pelo 5.º Congresso, o CEIC e o Presidium, simplesmente some com esses encargos também no artigo 19 redigido no 6.º Congresso.

Ao Presidium vão-se dando cada vez mais competências: nos Estatutos de 1924, o CEIC era quem elegia o birô de organização (§ 19), o secretariado (§ 20), a redação dos periódicos e publicações da IC (§ 21) e o secretariado para as mulheres comunistas (§ 22), e formava ainda diversos setores segundo as necessidades organizativas (§ 23); nos Estatutos de 1928, o CEIC e o Presidium são responsáveis juntos pela formação dos birôs permanentes (§ 20), mas o Presidium sozinho elegia o secretariado político (§ 25) e a redação dos periódicos e edições da IC (§ 26), e formava “a seção para o trabalho entre as trabalhadoras” (citada agora de modo ainda mais vago), “comissões permanentes para dirigir o trabalho de certos grupos de seções da Comintern (lender-sekretariaty) e outras seções necessárias a seu trabalho” (§ 27). Note-se a diferença entre este último artigo e o artigo 23 aprovado no 5.ª Congresso, mais preciso sobre setores de informação e estatística, agitação e propaganda, organização, trabalho para o Oriente e outros possíveis, sugerindo que essas criações e desdobramentos punham-se cada vez mais ao sabor do arbítrio, das rixas e da atenção a uma ou outra região do mundo.

Como podemos perceber, a estrutura organizativa da Internacional Comunista, em cujos sucessivos Estatutos estão suas linhas mestras, jamais foi imutável e refletiu os embates e mudanças políticos ocorridos dentro da instituição. Esses eventos decorriam da turbulência mesma no PC soviético, na medida em que a Comintern, durante a ditadura de Stalin, havia se tornado mero apêndice de sua política externa. Assim, a centralização burocrática e o domínio de Moscou sobre o movimento comunista internacional determinaram também o modelo que seus partidos (“seções”, até 1943) tomariam ao longo do século 20.


Bibliografia

ADIBEKOV, Grant M.; SHAKHNAZAROVA, Eleonora N.; SHIRINIA, Kirill K. Organizatsionnaia struktura Kominterna. 1919‒1943 [A estrutura organizativa da Comintern. 1919‒1943]. Moscou: ROSSPEN, 1997.

PIATY Vsemirny Kongress Kommunisticheskogo Internatsionala. 17 iunia–8 iulia 1924 g. Stenograficheski otchot [QUINTO Congresso Mundial da Internacional Comunista. 17 de junho a 8 de julho. Atas taquigráficas]. Moscou; Leningrado: Gosudarstvennoie izdatelstvo, 1925. (“Parte II (anexos)”.)

PONS, Silvio. A revolução global. História do comunismo internacional (1917-1991). Tradução de Luiz Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: Contraponto; Brasília: Fundação Astrojildo Pereira, 2014.

VI KONGRESS Kominterna: stenograficheski otchot [VI CONGRESSO da Comintern: atas taquigráficas]. Moscou; Leningrado: Gosudarstvennoie izdatelstvo, 1929. (Fasc. 6. “Tezisy, rezoliutsii, postanovlenia, vozzvania” [“Teses, resoluções e apelos”].)

VTOROI Kongress Kominterna. Iul–Avgust 1920 g. [SEGUNDO Congresso da Comintern. Julho-Agosto de 1920]. Moscou: Partiinoie izdatelstvo, 1934. (“Protokoly kongressov Kommunisticheskogo Internatsionala” [Atas dos congressos da Internacional Comunista].)



quarta-feira, 1 de maio de 2019

Discutindo com stalinistas fanáticos


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/stalinista


A história é uma daquelas ciências em que, dadas a onipresença de seu impacto e reflexão e a infinitude de seus debates, a qual passa uma sensação de vagueza e falta de rigor, todo mundo se pensa no direito de dar opiniões e fazer afirmações absolutas. Mas não há nada mais perigoso do que deixar nas mãos de amadores e impulsivos um assunto que revira sensibilidades, rancores, recalques, reputações e propósitos de vida. Os fanáticos da direita pensam que a história deve servir a seus propósitos de controle social e massificação das consciências, mas infelizmente há adeptos da esquerda radical que distorcem fatos e evidências, como se fosse inocente os modelar a suas próprias opções partidárias.

O raciocínio de “males menores” inspira em muitos debatedores de redes sociais justificarem matanças, ditaduras, invasões militares ou perseguições seletivas. Quer dizer que posso criticar Franco, Salazar e os militares latino-americanos, mas não o comunismo? Claro que nenhum desses apologistas brasileiros ou portugueses, com tempo livre hábil pra conversar na internet, sofre com esses problemas nem vive em nações com cotidianos inviáveis. A relativização das ditaduras comunistas, em especial do regime de Iosif Stalin na URSS, me preocupa sobremodo porque se trata de um lado político que deveria centrar esforços em combater a ditadura do capital e aperfeiçoar as várias facetas da democracia, e porque esse esforço intelectual nada tem a ver com os reais problemas que devemos enfrentar. Além disso, em todos os matizes do espectro político existe um desconhecimento gritante sobre o funcionamento da ciência e das universidades e sobre o papel do historiador na academia e na sociedade.

Os comentários abaixo foram feitos na minha legendagem da abertura do documentário francês Staline, le tyran rouge e revelam a falha em escolher as prioridades num exercício crítico. Meu foco são sempre os regimes comunistas justamente porque os estudo na pós-graduação, e incorrer sem precaução em outros temas pode levar a enganos. Minhas primeiras respostas já elucidam os repetidos questionamentos posteriores, então de certa forma nada deixei sem responder, nem achei necessário adicionar notas, exceto no final, dados os absurdos históricos. Infelizmente, um tema que nada tem a ver com nossos sofrimentos já leva fanáticos a me atacarem pessoalmente, e como vocês veem, não sou em quem começa com a rudeza, embora às vezes eu tenha achado necessário recorrer a ela, já que é só assim que eles se fazem entender. No último caso, não apenas o usuário interveio numa resposta que não tinha sido dirigida a ele, como também não julguei pertinente responder de novo, gastando assim uma energia inútil. Este é o mais surtado de todos, mas como eu disse, as respostas anteriores já lhe contestariam bem.

Felizmente, nem todos saíram em defesa de Stalin e criticaram como certos brasileiros ainda podiam elogiar uma ditadura do passado. Mesmo assim, ainda me pergunto se esse tipo de atitude dogmática não dá muito mais munição pra que setores liberais ou antiacadêmicos ataquem as ciências humanas nas universidades públicas e justifiquem sua presumida inutilidade e pouco retorno financeiro à sociedade. Nos comentários meus e dos visitantes, corrigi os ocasionais erros de ortografia ou digitação, mas inseri alguns indicadores quando achei necessário. Antes de começar, segue um vídeo que me remeteu muito a essa situação, embora possa ter sido uma sensação irracional (Karnal foi meu professor, adoro ele!):


Pergunta: Por que os documentos soviéticos, para você, muitas das vezes eram falsos e de pouca confiabilidade, mas os textos acadêmicos ocidentais (de Harvard, Oxford) nunca o vi questioná-los? As autoridades soviéticas eram mentirosas e as do Ocidente as verdadeiras? O comunismo é sanguinário e o capitalismo não? Sinceramente suas críticas a Martens não fazem sentido para mim. Se você puder, me explique, com exemplos, o porquê dessas críticas. E outra, não é porque você é mestre em história que é o senhor da verdade, você não é ninguém para afirmar alguma coisa no meio histórico, tanto quanto para falar que Stalin era um ditador sanguinário.

Minha resposta: Por que você pensa que as coisas devam funcionar como “zero/um”? Eu não disse que os documentos soviéticos eram “falsos”, mas que devem ter sua condição de produção problematizada. nesse caso, nem se aplica o conceito positivista de “verdadeiro ou falso”, mas o da função que ele exerceu dentro de tal contexto. Ou seja, não é porque Stalin declarava que a URSS era uma democracia que ela realmente era uma democracia. O mesmo se aplica a qualquer governo, em qualquer época ou lugar, que faz uma autodescrição (invariavelmente positiva): o próprio Marx falava que não é isso que devemos analisar, o que uma pessoa ou grupo diz de si mesmo mas a estrutura interna, material e produtiva de uma sociedade, as condições históricas em que estão inseridos.

Da mesma forma, criticar os regimes comunistas não implica automaticamente absolver os capitalistas, mas indica apenas que num momento se adota um determinado foco. Quem faz o que você diz, na verdade, é o próprio Martens, e às vezes o Losurdo: “Ah, o comunismo matou tanto, mas o capitalismo fez isso, matou tantos mais etc.”, em resumo, tergiversação. E eu reconheço, não li certos autores americanos porque eles realmente não são os mais ricos em crítica, o que não implica que eu não os deva ler, ao menos por dever de ofício, pra conhecer seus argumentos, o que chamamos em ciência de “estado da questão”. Durante minha pós-graduação me foquei em autores mais recentes, mais críticos e mais embasados em fontes, geralmente da Europa ocidental, como Aldo Agosti, Serge Wolikow, Michel Dreyfus, Orlando Figes, Moshe Lewin, Alexander Vatlin, Marc Ferro e outros bastante críticos à “escola totalitária”. Se você acompanha meu canal, deve saber que ano passado fiz uma lista deles, e sequer citei (ou mencionei de passagem) mainstreamers como Conquest, Service e Pipes.

Sério que pra você só existe a escola pró-americana e a turma de Furr, Martens e Iuri Zhukov (eu nem ousaria colocar Losurdo aí, já que ele é crítico o bastante do regime de Stalin)? Sério que você não leu/viu ou leu/viu mal meus textos e meus vídeos? Eu só tenho a lamentar por você!

Eu já expliquei em comentários anteriores por que não gosto de Martens, e você é quem deve entender e refletir sobre o porquê de minhas críticas. Mas confesso de novo que preciso ler tanto ele quanto Furr ou Zhukov mais a fundo, como eu disse antes, pelo “dever de ofício”. Lembro, porém, que dada a grande repercussão do Martens entre os jovens não iniciados, olhei por cima Stálin: um novo olhar (na verdade, o quase original em francês) e, o que me dá mais autoridade, transcrevi inteirinha a conferência Les mérites de Staline, disponível no YouTube, que pretendo traduzir e legendar em breve. Ele não me acrescentou nada de novo, dada a maior robustez, como eu disse, dos autores europeus citados, cuja leitura te recomendo muito. E mais: por que eu ia me preocupar em transcrever, traduzir e legendar alguém que critico? Novamente evoco o conhecimento do “estado da questão”...

Fecho sobre Martens mais uma vez retomando o que já disse: 1) ele puramente repete a propaganda soviética, que pode até não ser desmontada, mas deve ser tirada do pedestal de “verdade suprema”; 2) os autores que citei vão muito mais longe em questões que Martens abordou, tratam os documentos de forma não empirista e trabalham com uma gama muito mais ampla de fontes, visões, lados, disciplinas, sem ficar no meramente institucional. É isso, e o resto decorre. Eu é que gostaria de ouvir de você quais as qualidades de Martens que desmereceriam o que eu falei, ao invés de você repetir as mesmas acusações; e, melhor, dar uma olhada nesses outros autores, e então dizer se vale a pena serem usados pra além do binômio Harvard-Oxford/Martens-Furr!

Aliás, só não vou mais longe quanto a Martens porque, real e sinceramente, ele é quem menos importa pra minha pesquisa, diante de uma imensidão de fontes e bibliografia recente com que tenho de lidar (e doutorado não é um mero papel colado na parede, mas um árduo trabalho em que infelizmente as questões burocráticas quase sempre tolhem nossa criatividade). Aliás, quer mais uma dica? Sheila Fitzpatrick e Brigitte Studer são duas ótimas autoras em atividade que ultrapassam o plano do meramente político ou institucional e fazem verdadeiras “histórias sociais” da URSS e da Comintern, passando por domínios como memória, família, estética, mercado, migrações... Valem a pena!

Encerrando, a respeito do mestrado em história (relembro que agora estou no doutorado). É claro que não sou ninguém, e nunca vou ser, nem perante a sabedoria popular, nem perante os vários mestres que me instruíram e apoiaram. Ciência, tanto em exatas quanto em humanas, não é uma historinha do Professor Pardal em que mudamos o mundo com lapsos geniais, mas uma rotina cansativa de leitura, escrita, aulas e reuniões, não raro com intermináveis tarefas burocráticas impostas por agências de financiamento e instituições de controle. Será, por isso, que ela é menos útil pra militância política ou pra consciência popular?

Infelizmente, a maioria escolhe se arvorar em castelos de marfim e idolatrar ou replicar seus ídolos, e muitos deles poderiam ser chamados de “stalinistas” ou “trotskistas” convictos. Mas sabe o que eu escolhi? Produzir conhecimento e divulgá-lo pro maior número de pessoas possível. Por isso tenho este canal e minha página pessoal. Claro que nenhum conhecimento é neutro, mas podemos explorar todas as facetas de um mesmo problema, como faz a ciência. Por isso que aqui posto coisas comunistas, anticomunistas etc. e cabe ao internauta interpretar e fazer o uso que bem entender desse material. E, obviamente, por essa razão ora me taxam de “direitista”, ora de “esquerdista”. E ciência, meu amigo, também implica destronar ídolos e criticar sem piedade, mesmo que isso não recaia no lado pessoal ou meramente propagandístico.

Minha opinião política não te concerne em nada, porque creio que ela está difusa na minha exibição de conhecimento plural; agora, se você não concorda com algum posicionamento meu, não ataque minha pessoa ou minha carreira, tá? Não trate seus livros, autores ou personagens preferidos como parentes ou pessoas próximas. Ninguém nesse mundo cruel está isento de crítica, e sinto muito que minha crítica intelectual fira seus brios políticos. Isso tem cura: se jogue na bibliografia que indiquei! Ela pode abrir um mundo pra reflexão política e pra compreensão do mundo. Sugiro ainda que leia o texto de Pierre Nora, “L’histoire au péril de la politique”, que um dia pretendo traduzir, ou as reflexões de Jacques Le Goff sobre “documento/monumento”, que você vai entender muito bem minha postura metodológica quanto ao assunto. E é exatamente por isso que não sou eu quem diz que, apesar de suas várias conquistas, Stalin foi um “ditador sanguinário” (embora comparações com Hitler quase sempre são forçadas): são fontes, relatos, memórias, pesquisas, filmagens e uma pilha de evidências que os autores mencionados coletaram, muito além da polarização “santo/demônio”.

Então, boa leitura pra você, e assim podemos ter um diálogo decente, tá? Se você tiver achado minhas reflexões um “textão” ou se repetir os mesmos argumentos e queixumes mostrados por você ou outros, sinto muito, sua cognição poderia estar afetada. A recorrência aos mesmos imperativos categóricos, embora o bom senso me mandasse nem dar bola pra você, implicará no mero silêncio ou na tua exposição cômica nos devidos fóruns, tudo bem? Até breve, e obrigado pelo comentário!

Pergunta: Quais são as objeções ao trabalho de Martens? (Não leve a pergunta a mal, realmente quero saber.)

Minha resposta: Eu li rapidamente Stálin: um novo olhar e transcrevi o documentário em francês Os méritos de Stalin, então confesso que eu mesmo preciso ler mais. Mas se compararmos o fato de eu conhecer pouco Martens, mas ter lido muitos outros autores mais recentes e muito mais bem documentados, acho que saio em vantagem no conhecimento da matéria...

O que acho de Martens: primeiro, que ele simplesmente repete os argumentos do próprio governo soviético. Ora, então ele não criou nada de original, porque sabemos de várias outras fontes que nem sempre o discurso e a realidade batiam! Segundo, ele lê fontes primárias de modo cego: acredita que tudo o que está escrito é verdade só porque “é documento”. Mas não problematiza as condições de produção, a posição pessoal que quem escreveu, a possibilidade de haver muitos outros documentos desmentindo... Terceiro, o raciocínio dele é primário: “Ah, foi um ditador que matou muita gente, mas derrotou o nazismo”. Cara, não existe justificação a posteriori! Ele fala isso porque não era de uma família russa, não teve parentes perseguidos ou o emprego tirado. Nenhuma ditadura é boa, e Stalin foi um ditador violento, com uma pilha de evidências provando pros negacionistas que selecionam fontes a seu critério. (O que não implica negar suas várias conquistas nem tratá-lo como se fosse um demônio, já que muitos abusos do sistema ocorriam a despeito de Stalin.) E quarto e pior, Martens não ataca argumentos, mas pessoas, rotulando como ele quer quem ele não gosta e achando que assim “lacra” a questão: fascista, revisionista, trotskista, burguês, reacionário, oportunista... Isso não gera conhecimento acadêmico!

Provocação indireta: Pior é um certo historiador recomendando livros como O lado negro do comunismo [sic] eivados de informações falsas dos caras mais farsantes da história chamado Senhor Robert Conquest e o Heast. Martens coitado? Vê se enxerga.

Minha réplica: Vê se te enxerga você, revolucionário de Facebook! Quando eu li a besteira que escreveu, pensei: será que ele leu mesmo a descrição que fiz do documentário? Será que ele viu o vídeo anterior com atenção e entendeu a crítica que faço ao unilateralismo bibliográfico? Mas daí eu vi que nem título de livro você consegue escrever direito e concluí: tadinho, ele é assim mesmo.

Martens pega fontes do próprio governo e aceita como verdade, sem contar a leitura primária que ele faz de documentos de arquivo. E uma propaganda oficiosa reciclada, não tem nenhum senso crítico pra com fontes, pessoas, fatos etc: já parte de uma conclusão predefinida e molda o resto a ela, chamando quem não concorda de “burguês, fascista, reacionário, revisionista”, ou seja, sem valor acadêmico.

Conselho de amigo: tira a bunda da cadeira e vai pesquisar bibliografia mais moderna (que vai muito além dessa bipolaridade que funciona no teu cérebro), ir até um arquivo ou comparar opiniões diferentes, pra ver se sai da caixinha fanática!

Tréplica: E você é um historiador de fundo de quintal que preza pela desinformação, inclusive estimula leituras de “historiadores” que não têm o mínimo de comprometimento com a verdade. Meu conceito caiu com você quando recomendou esse livro tosco do Livro negro do comunismo. A mim, tu não engana Eslavo, vem com essa conversa fiada, mas sabe que postar vídeo, cujas imagens valem mais que 1000 palavras, uma vez que isso ficará no subconsciente das pessoas, ainda mais nos dias de hoje.

Tu detona Martens, provavelmente porque fez parte do Partidos dos Trabalhadores da Bélgica e porque seu referencial teórico colide com seus autores que adoram uma forçação de barra, como manipulação de dados. Agora em relações a ofensas a minha pessoa, só demonstra como tu é tendencioso. Cansei de ver gente detonando Stalin, com pontos de vistas mais estapafúrdios possíveis, e nunca vi tu fazer uma errata sequer, demonstrando todo seu estudo “ilibado e idôneo”.

Tua soberba funciona com moleques, Eslavo. Comigo, não. Tu deveria rezar todos os dias para o Pai Stalin ter vencido a guerra, porque hoje tu nem teria nascido ou estaria quebrando pedra em algum lugar a serviço de algum superior ariano. Até mais!

[Apesar da despedida, continua:] Posso me considerar um revolucionário, pois vivo defendendo camponês pobre de latifundiário safado. Tenho muito orgulho disso. O dia do amanhã, eu não sei, pois estou exposto ao perigo todo o santo dia! Agora “parabéns” pra você com seu fútil hobby de zero relevância e comprometimento com a verdade!

[Cita passagens de minha resposta a outro:] “O que acho de Martens: primeiro, que ele simplesmente repete os argumentos do próprio governo soviético. Ora, então ele não criou nada de original, porque sabemos de várias outras fontes que nem sempre o discurso e a realidade batiam!” O historiador deve criar algo original? Mas o que é criar com o pressuposto que a história consiste no estudo de dados que narram ou registram fatos pretéritos?

“Segundo, ele lê fontes primárias de modo cego: acredita que tudo o que está escrito é verdade só porque ‘é documento’. Mas não problematiza as condições de produção, a posição pessoal que quem escreveu, a possibilidade de haver muitos outros documentos desmentindo...” Tem algum problema do autor se apegar a dados registrado em documentos? Ou você prefere se apegar a interpretação de autores que mal apontam documentos tão preciso como Martens faz? O autor nunca deve fugir do que tal documento vem inferido. Isso Martens fez muito bem. Mas você prefere dar crédito a autores que nem pisaram na URSS, segundo documentos da própria URSS que você frisa que pode ser “só porque é documento”.

Já seu terceiro ponto de vista, é sua mera opinião. Tu como historiador foge da premissa mais básica das suas prerrogativas. O de analisar o contexto histórico que a URSS passava naquele momento. O país insulado prestes a ser invadido. Tinha naquele momento, Ucrânia nazi [sic!!!], Polônia fascista [???], Japão e Alemanha prontos pra invadir, e o que você queria que o Stalin fizesse? Chama-se a oposição pra sentar e tomar um chá? Ele mesmo fez um pronunciamento profético na academia militar russa, dizendo que se a URSS não fortalecesse suas defesas, bem como não se industrializar-se em 10 anos, ela seria invadida. Sua palavras foram proféticas. Além do fato, da história provar que a maioria de suas atitudes foram acertadas. Enquanto a oposição conspirava contra o progresso do país.

Infelizmente, as afirmações do último parágrafo precisam de revisão. A URSS há muito não estava isolada, levando relações comerciais e diplomáticas com vários países do mundo: em 1934 chegou a ser até admitida na Liga das Nações (que Lenin sempre recusou como “imperialista”). Sua maior parceira era, aliás, a Alemanha republicana, outro país que tinha sido isolado pela ordem prescrita no Tratado de Versalhes. O intercâmbio, inclusive, não cessou logo após a ascensão de Hitler, embora tenha depois sido rompido. A Ucrânia, de fato, tinha fortes grupos oposicionistas, mas não é menos brutal o que Stalin mandou fazer nas fronteiras: deportação forçada de etnias minoritárias imputadas como “espiões em potencial”. E o próprio começo da 2.ª Guerra Mundial, que todos conhecemos, está mais do que documentado: invasão da Polônia por alemães e soviéticos, partição do país por ambos e marcha conjunta em Varsóvia.

Os “méritos de Stalin” também são contestáveis, à luz dos novos estudos. Até 1935, a maior preocupação da Comintern, portanto da URSS, não era combater o fascismo, mas a social-democracia ocidental, que consideravam como uma concorrente mortal dentro do movimento operário. E mesmo depois, Stalin nunca se pronunciou publicamente com um antifascismo consequente, modulando seu discurso conforme a ocasião e só atacando de frente o nazismo em 1941, quando seu país foi invadido. O discurso “profético” também é duvidoso: não foi em 1939 que a Alemanha invadiu a URSS, mas em 1941, sem contar que a política voltada pra defesa militar não surgiu do nada, mas era um componente estrutural do bolchevismo desde os tempos da guerra civil. Além disso, por mais que a retórica da “invasão imperialista” nunca tivesse cessado, jamais se precisou quando se daria essa invasão (o evento referido é isolado e a “profecia” foi vaga demais), muito menos se ela seria uma iniciativa dos países democráticos ou dos fascistas.

E, claro, podemos pensar que a categoria de “inimigos do povo” era bastante flexível pra abranger qualquer tipo de oponente político ou crítico mínimo do governo. Embora os fanáticos neguem, há todas as evidências de que muitas “confissões” (tratadas como “documentos” na visão distorcida exposta acima) foram obtidas sob tortura, sem contar que não há nenhuma razão pra crer que aliados de última hora de Stalin tinham de repente se tornado sabotadores. De fato havia os grupos que realizavam sabotagem sistemática, mas a repressão atingiu tal escala que nos faz duvidar ter sido todo o povo afetado uma multidão de conspiradores.



segunda-feira, 29 de abril de 2019

Irena Santor: “Tobie nic do tego” (1970)


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Enfim uma canção inteira traduzida diretamente do polonês: esse é um déficit que pretendo sanar gradualmente, pois sei que devo muito aos admiradores da Polônia e descendentes de poloneses no Brasil. Hoje temos a cantora polonesa Irena Santor, considerada a “rainha da canção polonesa”, com uma música gravada em 1970, Tobie nic do tego (Não é da sua conta), com letra de Zbigniew Stawecki e melodia de Ryszard Sielicki. Eu mesmo traduzi direto do polonês, montei o vídeo e legendei, tendo tirado o áudio desta página.

Esta canção apareceu duas vezes em álbuns de Santor: no disco LP Dla ciebie śpiewa Irena Santor (Irena Santor canta pra você), daquele mesmo ano, e no CD Moje piosenki vol. 10 (Minhas canções vol. 10), lançado em 1999. Percebam que a letra é um verdadeiro trava-língua, num idioma que por si mesmo já é um trava-língua pra maioria dos estrangeiros! Há muitas repetições de palavras e encavalamento de consoantes, sobretudo palatais, somados ainda a um ritmo dançante. Tudo isso junto dá o sabor da música, que por isso decidi traduzir.

Os anos 70 seriam considerados na Polônia comunista como uma espécie de “era de ouro”, quando após pequenas reformas sob o governo de Edward Gierek, a vida do povo melhorou razoavelmente. Temas como o dessa canção (a futilidade dos amores e a brevidade dos relacionamentos) desafiavam tanto o senso comum católico quanto o puritanismo pró-soviético, e Irena Santor soube muito bem quebrar todos esses padrões, virando uma “diva” em seu país. Nessa década, apesar da constante censura, a cultura polonesa, em especial a música, não deixou de prosperar e viveu momentos marcantes.

Irena Wiśniewska-Santor nasceu em 1934 e é uma cantora, atriz e estrela de musicais em atividade desde 1949. Conhecida por sua límpida voz de mezzo-soprano, sendo por isso uma referência aos mais jovens, começou sua carreira como solista do famoso grupo folclórico Mazowsze, e assim começou a viajar pelo mundo e ganhar prêmios. Estreou como atriz em 1968, apareceu em muitos shows de rádio e TV, foi jurada de programas de talentos e gravou trilhas até pra filmes soviéticos. Em 2017, por seu pioneirismo no país, recebeu um doutorado honoris causa pela Academia de Música de Łódź. Foi casada duas vezes, mas não teve filhos.

Assistam ao vídeo duas vezes, lendo uma legenda de cada vez, mesmo a polonesa, se puderem! Seguem abaixo minha legendagem, a letra em polonês, que copiei deste ótimo site de canções da Polônia, e a tradução em português:



Taki zły – no i co, no i co?
Na próżno tracisz czas.
Lubię cię – no i to, tylko to
Co łączy dwoje nas.
Tobie nic, tobie nic, tobie nic do tego,
Bo czy ja mam, czy ja mam innego
To już moja sprawa.

Widzisz sam, że to tak w życiu jest
Nie zawsze, jak się chce.
Niby już, niby tak, niby chcesz,
A serce mówi “nie”.
No i już, no i już, no i już po tobie
Że trochę żal? No to nic – więc odejdź,
Nie myśl o mnie źle.

Lecz bez reszty nie wierz w to,
Czasem mówię byle co,
A znaczy to, znaczy to na opak,
I nie bądź zły, nie bądź zły, bo chłopak
Musi klasę mieć.

Może trochę zwodzę cię,
Bardzo lubię taką grę.
A tobie nic, tobie nic do tego,
Bo jeśli w tym, jeśli w tym coś złego
Nic już nie mów mi.

Przyjdzie ktoś – no to co, no to co?
Niewiele każdy wart.
W kilka dni pryśnie czar niby szkło
Lub kruchy domek z kart.
No i znów, no i znów, no i znów od nowa,
Znów uczyć się nowych słów, całować
I przysięgi łamać.

Ja to znam, ja to znam, ja to znam,
Widziałam już nie raz,
Po co nam, po co nam, po co nam
Marnować cenny czas?
Lepiej idź, lepiej idź, lepiej idź do innej,
Tak różne są, różne są dziewczyny,
Któraś weźmie cię.

Lecz bez reszty nie wierz w to,
Czasem mówię byle co,
A znaczy to, znaczy to na opak,
I nie bądź zły, nie bądź zły, bo chłopak
Musi klasę mieć.

Może trochę zwodzę cię,
Bardzo lubię taką grę.
A tobie nic, tobie nic do tego,
Bo jeśli w tym, jeśli w tym coś złego
Nic już nie mów mi.

Czy ja mam, kogoś mam, kogoś mam
Koniecznie wiedzieć chcesz,
Powiem ci: wielu znam, wielu znam,
Sam zresztą o tym wiesz.
Tobie nic, tobie nic, tobie nic do tego:
Jak można mieć, można mieć jednego,
Kiedy tylu wokół?

Takiś ty – słyszysz mnie jeden raz
I zaraz burzysz most.
Zdradzę ci, zdradzę ci: żadna z nas
Nie lubi mówić wprost.
Powiem ci, powiem ci, powiem ci do tego,
Że ciebie chcę, ciebie chcę jednego,
Tylko ciebie chcę
Tylko ciebie chcę...

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Tão mau, mas e daí, e daí?
Está perdendo tempo à toa.
Eu te amo, mas é só isso
Que ainda une nós dois.
Isso não é, não é, não é da sua conta,
Pois se eu tenho, se eu tenho outro
Já é um assunto meu.

Você vê que na vida nem sempre
Isso corre como se quer.
Parece que você ainda quer, sim,
Mas seu coração diz não.
Mas ainda, ainda, ainda um pouco
Sofro por você? Nada disso, então vá,
Não pense mal de mim.

Mas nem sempre acredite no que
Eu falo às vezes e que
Quer dizer, quer dizer o contrário,
E não seja mau, seja mau, pois um cara
Deve manter a pose.

Talvez eu te iluda um pouco,
Gosto muito de jogar assim.
E isso não é, não é da sua conta,
Pois se nisso, se nisso há algo ruim
Nem fale nada para mim.

Alguém vai chegar, e daí, e daí?
Todos merecem um pouco.
Em dias o encanto quebra como copo
Ou frágil casinha de papel.
Mas de novo, de novo, de novo do zero
De novo aprender novas palavras, beijar
E quebrar juras de amor.

Eu sei disso, sei disso, sei disso,
Já percebi várias vezes,
Para que perder, perder, perder
Nosso precioso tempo?
Melhor você, você, você procurar outra,
Há tantas, há tantas garotas diferentes,
Uma delas vai escolher você.

Mas nem sempre acredite no que
Eu falo às vezes e que
Quer dizer, quer dizer o contrário,
E não seja, não seja mau, pois um cara
Deve manter a pose.

Talvez eu te iluda um pouco,
Gosto muito de jogar assim.
E isso não é, não é da sua conta,
Pois se nisso, se nisso há algo ruim
Nem fale nada para mim.

Se eu tenho, tenho, tenho alguém
Você quer realmente saber?
Vou dizer: conheço, conheço muitos,
De todo jeito você sabe disso.
Isso não é, não é, não é da sua conta:
Como se pode ter, pode ter alguém
Com tantos em volta?

Você é assim: me escuta uma vez
E logo quebra a ponte.
Vou te decepcionar: nenhuma de nós
Gosta de falar claramente,
Mas vou te falar, te falar, te falar na cara
Que é só você, só você que quero,
Só você que quero,
Só você que quero...




sábado, 27 de abril de 2019

Chegada da TV a cores na França, 1967


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/tv-franca


Como curiosidade histórica, estou trazendo o momento exato em que começou a ser emitido o sinal da televisão a cores na França, no dia 1.º de outubro de 1967. Era então o governo do general Charles de Gaulle, que como todo bom nacionalista, fez com que fosse adotado o sistema SECAM (séquentiel couleur à mémoire), criado no próprio país. Este vídeo, com 9 minutos no total, compõe os arquivos da INA.

O gaullista Georges Gorce, ministro da Informação (cargo suprimido em 1968 e novamente em 1974), fala ao público junto com Jacques Bernard Dupont, diretor-geral da ORTF (Escritório de Radiodifusão e Televisão Francesa), Claude Mercier, diretor de equipamentos, e Émile Biasini, diretor da televisão. “Et voici la couleur !” (E aqui está a cor!), ele começa, com a frase que se tornaria famosa na cultura popular. E como ele diz, logo a imagem a cores deixaria de ser fascinante, mas pede que todos se deem conta do enorme passo dado.

Mas a transição demorou. Enquanto os EUA já tinham começado a transmitir em cores em 1954, a França tinha então apenas um canal de TV que transmitia desde 1935 no formato preto e branco de 819 linhas, tamanho aí predominante dos aparelhos. O sistema americano de coloração era o NTSC, e na Europa se expandia o sistema alemão PAL, ambos em 625 linhas, que não podiam ser lidos pelos televisores de 819. Pra piorar, a França adotou sozinha o sistema SECAM, considerado mais nítido, pra emissão a cores, concebido por Henri de France em 819 linhas.

Pra favorecer o intercâmbio com a Europa e tendo em vista a transição pra TV a cores, foi lançado em 1964 o Canal 2 na França, transmitindo em 625 linhas sem cores. Em seguida, começou dentro da ORTF uma queda de braço, enquanto os fabricantes de televisores resistiam a abandonar o preto e branco, cujo mercado ainda estava longe da saturação. Finalmente, foi marcada pra 1.º de outubro de 1967, às 14h15min (hora de Paris), a primeira transmissão colorida a partir do estúdio 13 de Buttes-Chaumont do Canal 2. Como se pode notar, ante o bizarro cenário montado, a inauguração nada teve de festiva, numa gravidade que dispensou até jornalistas.

Apenas 1500 lares tinham então uma TV a cores, ainda considerada uma aquisição de elite, e por isso o Canal 1 continuou transmitindo em preto e branco de 819 linhas, enquanto o Canal 2 apenas a cores. Em 1972 a França inaugurou seu novo canal a cores C3, enquanto o Canal 1 (TF1 desde 1975) só começará a se colorir e a modernizar aos poucos sua rede emissora em 1976, com a transição completada e o fim definitivo das 819 linhas em 1983. Com o advento da TV digital, também o sistema SECAM de cores se tornou obsoleto.

Eu tirei essas informações de um blog francês, um pouco abandonado, sobre a história da TV no país, e de uma matéria do jornal La Croix sobre os 50 anos dessa primeira transmissão a cores. Eu mesmo traduzi, legendei e fiz os cortes no vídeo, e seguem abaixo o resultado, o texto do ministro Gorce em francês e a tradução em português:



Et voici la couleur, au jour fixé et à l’heure dite. Mesdames, Mesdemoiselles, Messieurs, vous qui maintenant nous voyez tels que nous sommes, vous cesserez très vite, je le sais bien, d’être sensibles à la magie de la chose. Et vous trouverez bientôt tout à fait naturel de voir la vie avec ses couleurs envahir vos écrans. Je voudrais tout de même vous demander au moins en ce premier jour de considérer qu’il s’agit là d’un tour de force technique et d’une petite révolution.

E aqui está a cor, no dia fixado e na hora dita. Senhoras e senhores, vocês que estão nos vendo agora tal como somos, muito em breve vão deixar, eu bem sei, de se encantar com a magia desse recurso. E logo vão achar totalmente natural ver a vida e suas cores invadirem suas telas. Mesmo assim, eu gostaria de pedir que vocês, ao menos neste primeiro dia, se dessem conta de que estamos diante de uma proeza técnica e de uma pequena revolução.


quinta-feira, 25 de abril de 2019

Carta a um jovem admirador da Rússia


Endereço curto: fishuk.cc/amo-russia

No último dia 22 de abril recebi uma mensagem pessoal de um jovem morador da cidade de São Paulo. Ele me contou que tinha ascendência alemã e do “Leste europeu” e que desde a adolescência sempre sofreu preconceito por admirar essa região do mundo, em particular a Rússia e a extinta URSS. Em nossa “sociedade bem doente”, segundo ele, “há um ódio generalizado a qualquer relação ou apologia a isso, sempre com violência”. Com algumas adaptações e correções, segue abaixo a resposta que escrevi ontem e que perscruta também vários problemas da atualidade.



Entendo sua preocupação, de fato os brasileiros conhecem muito pouco sobre a Rússia e acabam aceitando passivamente a imagem estereotipada pelo filtro dos países ocidentais. Isso não é novidade em nenhuma época ou cultura, mas no caso da Rússia tem uma razão particular: é um país muito grande que sempre bateu de frente com os interesses dos EUA e da UE, por isso era útil que aqui todos fossem privados do contato direto com os “Orientes” e se curvassem acriticamente à visão liberal do mundo.

Acredito que no caso específico do Brasil ainda houve outra razão histórica: nunca recebemos ondas massivas de imigração russa ou mesmo eslava em geral, ao contrário do que aconteceu com italianos, alemães, japoneses e sírio-libaneses. Claro que também tivemos espanhóis e judeus, mas em escala menor, e portugueses, mas estes faziam parte de nossa própria constituição nacional. Por isso, elementos de culturas como a italiana, japonesa e, em algum grau, alemã, como sobrenomes, música e culinária, meio que foram incorporados ao cotidiano urbano do Centro-Sul. Digo isso porque tenho uma ascendência italiana bem mais remota do que a ucraniana, mas que conta muito mais forte no cotidiano de minha família, talvez por estes motivos: ramo familiar com mais membros, alusões onipresentes à cultura italiana (mas em geral mitigando os traços regionais) que despertam o que já está latente em nós, uma comunidade ao redor muito maior com que meus antepassados podiam contar etc.

Dos tempos do século 19 ou começo do 20, só tivemos duas ondas consideráveis de imigração eslava: os ucranianos e poloneses, que se concentraram, contudo, no Paraná. Houve exemplos isolados, como o de meus bisavós, mas fora de um movimento maior, sem contar as exceções modernas de gente que vem fugir das más condições econômicas da Europa Oriental. Nunca tivemos um afluxo significativo de russos que levasse a uma “massa crítica” pra formar colônias, ao contrário do que ocorreu na Argentina e nos EUA; e mesmo nesses países, como no Brasil, os italianos acabaram por predominar. Então, é compreensível que não apenas essas comunidades sejam dispersas ou isoladas, como também a população comum do Brasil não consiga lidar razoavelmente com elas.

O preconceito é fruto do desconhecimento, e consiste numa blindagem artificial que erguemos contra influências externas que em geral consideramos danosas ou desestabilizadoras. Felizmente, você é uma das pouquíssimas pessoas que conheço que conseguiu quebrar essa blindagem, procurando conhecer mais e ser receptivo a novas maneiras de ver o mundo. Parece um pouco do meu caso, justamente desde a adolescência também, não porque eu seja um mestre na empatia, mas porque mesmo na escola, quando eu levantava a questão de conhecer outros povos além do inglês e do americano, simplesmente riam da minha cara e faziam piadas... E saiba que como doutorando em História, posso dizer que isso também ocorre no meio acadêmico: se nas áreas não ligadas diretamente a estudos sociais o preconceito é mais forte, não deixa de estar ausente mesmo em historiadores, filósofos, antropólogos e cientistas políticos. Isso porque mesmo que a palavra de ordem aí seja a “alteridade” e a “diversidade”, tudo é feito sob a ótica da intelectualidade euro-ocidental, anglo-americana ou de suas antigas colônias. O “resto do mundo” que tenha alguma independência é bonito de longe, desde que não conheçamos sua língua, não adotemos seus costumes, não conversemos com seus habitantes e muito menos simpatizemos com sua religião!

E infelizmente, não há o que fazer: as mentalidades comuns adotam o caminho mais fácil, e mais fácil é erigirmos nossa ignorância em conhecimento absoluto e repelirmos aquilo que a instabilize. É muito árduo conseguirmos remanejar nossa estrutura mental e, no mínimo, entender como funciona aquilo que está fora de nossos hábitos (mesmo que sequer sejam hábitos físicos, como a imagem idealizada que parte de nossas elites tem dos EUA). Por isso, se as pessoas não reagem com violência quando você fala com elas, pelo menos vão dar risada ou esboçar aquele sorrisinho amarelo de pretensa superioridade. Assim, a muralha midiática e cultural é absurdamente espessa em países como o Brasil (e mesmo diante do que acontece junto a nossos vizinhos de língua espanhola!), e quase ninguém chega a ver ou sentir pra além do que ordenam os condutores das massas. No caso dos antigos países comunistas, à diferença linguístico-cultural se somava a oposição política: dado que tinham um regime rival ao que vigorava entre nós, deveriam saber aqui apenas de seus pontos fracos, que encobriam inclusive as cruéis deficiências do capitalismo! E, claro, o fato de terem uma cultura diferente foi um brinde adicional à patrulha anticomunista...

Quando criei a TV Eslavo (então com o nome Pan-Eslavo Brasil) no fim de 2010, eu levava comigo o sonho sempre presente de fazer as pessoas conhecerem algo diferente, além daquilo que era oferecido na mídia mainstream. Estávamos no ápice da hegemonia cultural de esquerda, então nutrida pelo evidente sucesso econômico do governo Lula, mas parecia que a estrutura mental das pessoas não tinha mudado, e mesmo entre os profetas da esquerda essa “alteridade”, como eu disse acima, era seletivamente direcionada. O que aconteceu desde então, culminando com a vitória do Bolsonaro? Nunca tivemos tanta informação chegando de forma tão fácil e rápida, mas parece que ao invés de nos enriquecer, ela mais assustou a todos e não foi assimilada no grau e velocidade devidos. Ou seja, passamos a ter muito mais alvos de ódio do que alternativas pro pensamento. Eu nunca desisti de trazer coisas novas, nem de propor leituras diferentes do próprio cotidiano imediato, mesmo que em muitos momentos tenha me desviado da rota original. Mas fico triste como o sentimento de ódio está tão generalizado, que as pessoas não precisam mais receber argumentos diferentes pra se sentir lesadas, mas simplesmente externam sua insatisfação quando veem a publicidade de um conteúdo que, mesmo irracionalmente, abominam e não diz respeito diretamente a elas!

Mas um povo que não enriquece nem amadurece culturalmente não pode fazer nada com o dinheiro ou os recursos naturais que tem, mesmo que esteja sentado sobre quantidades infinitas. E só podemos amadurecer e enriquecer uma cultura quando ela se abre a outros influxos e rejeita a noção de “pureza”, achando antes caminhos alternativos pra resolver os próprios problemas ou simplesmente vendo a própria realidade com novas lentes pra gerar assim todo tipo de possibilidade em qualquer esfera da vida. A nova onda difamatória contra a Rússia, a China e, em parte, o Irã (que é muçulmano, mas, lembremos bem, não é o árabe festivamente tolerado no mainstream) é apenas mais um recrudescimento desse ciclo atávico que já tem, aqui e nas metrópoles, seus intelectuais orgânicos munidos de categorias-chave. Aproveite cada oportunidade pra redobrar sua atenção e decifrar esses elementos.



terça-feira, 23 de abril de 2019

Bolsonaro na Hungria critica esquerdas

No dia 17 de abril eu estava procurando canais de TV húngaros no YouTube pra escutar a língua, e por coincidência uma das emissoras que encontrei tinha acabado de lançar um vídeo do deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro e presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, encontrando-se com o ministro das Relações Exteriores da Hungria, Péter Szijjártó. Não sei exatamente como ele foi parar lá, mas sabemos que as direitas brasileiras têm uma simpatia pelo regime do primeiro-ministro Viktor Orbán, dito de “extrema-direita” no Ocidente, contrário à imigração e ao comunismo e realizador de reformas profundas no Estado.

Mesmo assim, é interessante como vemos, nos fatos e comparando diversas fontes, que apesar dos problemas internos e de articulação com o Congresso Nacional, o governo Bolsonaro está atuando ativamente em várias frentes pra atingir seus fins, e não meramente parado “vendo a banda passar”, como a mídia tenta vender. Isso, claro, independente da opinião política ou ideológica que adotamos, pois também não concordo com muitas das ideias e decisões de Bolsonaro, nem gosto de muitos ministros que ele empossou. A Folha do Brasil, por exemplo, um canal recente do YouTube, está sempre postando notícias e informações do Planalto, apesar de seu caráter governista e laudatório.

Eduardo Bolsonaro foi eleito presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados em março, tendo como primeiro vice-presidente Luiz Philippe de Orleans e Bragança, descendente da família real brasileira. Ele é chamado de “chanceler informal” pelo site de esquerda Brasil 247, e de fato esteve recentemente fazendo um périplo pela Europa ao encontro de lideranças de direita: logo depois ele foi ver Matteo Salvini, vice-primeiro-ministro e ministro do Interior italiano pelo partido Lega Nord. Bolsonaro se vangloria da extradição que o Brasil “promoveu” de Cesare Battisti ao país, o que na verdade foi feito pela Bolívia. Ele também é autor do Projeto de Lei 5358/16, que criminaliza a apologia ao comunismo, e disse certa vez num cursinho que pra derrubar o STF bastavam “um soldado e um cabo”.

Embora Eduardo tenha uma obsessão contra o comunismo, a Venezuela e teorias conspiratórias, em tese seu objetivo na Hungria é ampliar laços nas áreas de economia, pesquisa e ensino superior, o que seria ótimo diante de um país com tantas tradições, um alto nível de vida e uma língua pouco conhecida no Ocidente. Por causa desse mistério linguístico, resolvi postar aqui a breve notícia com legendas, traduzida direto do húngaro. Mas como fiz isso, se não conheço o idioma a fundo e só estudei seus fundamentos há muitos anos? Cotejando várias páginas de notícias com o áudio, além do texto oferecido pela própria emissora, consegui chegar a uma versão prévia da transcrição, que foi corrigida pela tradutora Zsuzsanna (se lê “jújana”). Joguei o texto completo no Google Tradutor, comparei as versões em inglês, francês, alemão e russo e cheguei ao que vocês veem nas legendas.

Como é tradição na Hungria, assim como na cultura japonesa, o ministro Péter Szijjártó é chamado “Szijjártó Péter” no original, ou seja, o sobrenome antes do prenome. Infelizmente não achei a fala do ministro transcrita, nem pedi pra que minha colega transcrevesse, uma lacuna que deixei voluntariamente no vídeo. Seguem abaixo minha legendagem, a transcrição do áudio, a primeira versão a que cheguei com o Google e a tradução corrigida pela Zsuzsanna:


Új alapokra helyezik a magyar-brazil kapcsolatokat: Szijjártó Péter, magyar külügyminiszter találkozot Budapesten Eduardo Bolsonaro, a brazil törvényhozás külügyi bizottságának vezetője. A közelmultban megválasztott elnök Jair Bolsonaro fia. Bolsonaro a kommunizmussal és Soros Györggyel szembeni közös ellenszenvet hangsúlyozta. “Én sem szeretem Soros Györgyöt, szeretném egészen világossá tenni, hogy a politikai korrektséget se nagyon követjük. Ezt is szeretném itt megtanulni, hogyan állítja meg az önök kormánya az ilyen rossz embereket”. A két vezető közös stratégiát fogadott el, amelyben kitértek a gazdasági kapcsolatokra, a kutatási együttműködésre és a felsőoktatási kapcsolatok erősítésére.

Versão 1: As relações húngaro-brasileiras estão ganhando novos fundamentos: Péter Szijjártó, ministro das Relações Exteriores da Hungria, encontrou-se em Budapeste com Eduardo Bolsonaro, chefe da Comissão de Relações Exteriores do Congresso Nacional brasileiro e filho de Jair Bolsonaro, presidente recém-eleito. Bolsonaro ressaltou a oposição em comum ao comunismo e a George Soros: “Também não gosto de George Soros, e gostaria de esclarecer que também rejeitamos o politicamente correto. Também desejo aprender aqui como seu governo controla pessoas assim”. Os dois líderes adotaram uma estratégia conjunta para melhorar as relações econômicas, a colaboração no campo da pesquisa e o fortalecimento das relações no âmbito do ensino superior.

Versão 2: As relações húngaro-brasileiras estão ganhando novos fundamentos: Péter Szijjártó, ministro das Relações Exteriores da Hungria, encontrou-se em Budapeste com Eduardo Bolsonaro, chefe da Comissão de Relações Exteriores brasileiro e filho de Jair Bolsonaro, presidente recém-eleito. Bolsonaro ressaltou a oposição em comum ao comunismo e a George Soros: “Também não gosto de George Soros, e gostaria de deixar bem claro que também não seguimos muito o politicamente correto. Também desejo aprender aqui como seu governo controla pessoas tão ruins assim”. Os dois líderes adotaram questões de estratégia conjunta em que abordaram as relações econômicas, a colaboração no campo da pesquisa e o fortalecimento das relações no âmbito do ensino superior.