quarta-feira, 9 de abril de 2025

Hino do partido comunista afegão

Na sequência do que publiquei ontem, segue outra canção que gosto muito de ouvir, cujo vídeo copiei deste canal repleto de materiais recuperados do período socialista do Afeganistão (1978-1992). Desta vez foi composta em dari, a variante afegã da língua persa, e trata-se do hino do Partido Democrático Popular do Afeganistão, fundado em 1965 e que praticamente era a mesma coisa que um partido comunista. Ele governou o país exatamente naquele período, após o golpe militar de 1978 chamado “Revolução de Sawr”, em referência ao mês do calendário zoroastrista em que estavam. Seu compositor e cantor que aparece no vídeo é o célebre músico afegão Mas’hur Jamal (1945-2014), que foi filmado em 1986 com a orquestra de Ustad Salim Sarmast, segundo este outro canal.

Ainda sob a monarquia, o comunismo afegão se dividiu em duas facções em 1967: a chamada “Khalq” (lit. “povo”), adepta do dogmatismo “marxista-leninista” mais radical e da tomada violenta do poder, e a chamada “Parcham” (lit. “bandeira”), moderada, reformista e defensora de uma frente ampla de esquerda. (Semelhanças com “bolcheviques e mencheviques” não são mera coincidência...) Em 1978, foram oficiais “khalquistas” que tomaram o poder, mas no fim de 1979, os invasores soviéticos, assustados com o extremismo que desagregava o país, colocaram um “parchamista” na presidência. Outro “parchamista” assumiu em 1987 e acelerou as tendências nacionalistas e islamizantes do governo, a começar pelo abandono das referências marxistas. Em 1990, o PDPA foi renomeado Partido da Pátria, e em 1992, banido pelos mujahedin, tendo sido refundado no exterior em 1997. Tentativas de ser legalizado, porém, inclusive sob o nome antigo, foram barradas pelo regime afegão de 2001-21.

A história de Mas’hur Jamal (que prefiro não escrever com “sh”, pois são dois sons separados), cujo nome de batismo era Jalil Ahmad, merece um parágrafo à parte, sendo difícil encontrar coisas sobre ele; mesmo o artigo da Wikipédia em persa tive que traduzir com o Google. Algumas fontes apontam seu ano de nascimento como 1946, mas o fato é que, tendo se exilado em 1992, morreu em Arnhem, na Holanda, em 2014, após anos lutando conta um câncer. Interessado pelo canto desde criança, ele se formou em Língua e Literatura Persa na Universidade de Cabul e deu aula de persa no Ensino Médio por um tempo. Hora de dizer: outra clivagem era a étnica, em que os “khalquistas” eram majoritariamente camponeses pastós e os “parchamistas”, majoritariamente intelectuais e outras classes médias tajiques. Juntou-se a grupos de cantores amadores na década de 1960, teve sua primeira canção transmitida pela Rádio Cabul em 1963 e chegou a presidir a União dos Artistas do Afeganistão. Conhecido por suas canções patrióticas e de tom descrito como “épico”, recebeu as condolências do então Ministro da Informação e Cultura, nas quais há dados sobre sua biografia.

Pra uma descrição um pouco mais longa do regime socialista afegão em si, sugiro que recorra à publicação de ontem, com o hino nacional (em pastó, provavelmente porque a fração “Khalq” foi a realizadora do golpe) que vigorou naquele período. Não há mais informações sobre a composição do hino do partido, que costuma ser chamado por seu primeiro verso (Você é nosso partido ou Você é nosso partido, nosso partido heroico), e a se julgar pelo álbum em que pode ter sido gravado, já existia em 1981, ou seja, com a fração “Parcham” já entronizada pela URSS. Achei neste canal (que tem também algumas imagens de época) a letra original copiável, que ajustei mais ao áudio, e comparei a tradução feita pelo Google com a versão em inglês do segundo link mencionado acima (canal Interkast). Acabei procurando algumas palavras isoladas no Wiktionary e minha tradução pode não estar literal, mas passa o sentido essencial.

Copiei a transliteração do comentário a uma das várias versões no YouTube, corrigi conforme o original e padronizei o uso do “sh” e do “ch”, bem como do hífen que separa, pra efeitos didáticos, a conjunção “o” (e) e a ligação possesiva “-(y)e”, ambas átonas. Neste vídeo também montado com cenas de época, Jamal aparece cantando outra música patriótica, e neste outro vídeo documental, dedicado ao papel das mulheres no Afeganistão socialista, há ainda mais mídia das décadas de 1970 e 1980. Mesmo que você não entenda persa/dari (como eu, aliás, rs), é um prato cheio de conhecimento histórico!


Refrão:
Você é nosso partido, nosso partido heroico
Nossa esperança, nossa esperança infinita
Nosso hino, nossa existência, nossa alma
O desejo vermelho de nossos caídos
No nome glorioso da galáxia
De nosso sangue saem flores e estrelas
Aos pés daquela bandeira carmim
Damos a vida mil vezes por você
Damos a vida mil vezes por você
Por você, por você
Damos a vida mil vezes por você
Por você, por você

1. Você é o Sol de nosso Sawr imortal
O partido do sangue que lançou a revolução
Rumo às trincheiras e rodas dos tanques
Agora e sempre por você nos sacrificamos
Agora e sempre por você nos sacrificamos
Sacrificamos, sacrificamos, sacrificamos

(Refrão)

2. Tendo passado por esta batalha feroz
Levaremos você à Terra do Sol
E essa sempre foi a última palavra
Vivam seu nome e sua voz
Vivam seu nome e sua voz
Sua voz, sua voz, sua voz

(Refrão)

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Band-e bargadān:
Tu hezb-e mā, tu hezb-e qahramān-e mā
Umid-e mā, umid-e bikerān-e mā
Sorud-e mā, vujud-e mā, ravān-e mā
To ārezu-e sorkh-e raftagān-e mā
Banām-e purshuku-he kahkashāniyat
Ze khun-e mā gol u setār-e sar zanad
Ba pāye ān darafsh-e arghavāniyat
Hazār bār jān dehim barā-ye tu
Hazār bār jān dehim barā-ye tu
Barā-ye tu, barā-ye tu
Hazār bār jān dehim barā-ye tu
Barā-ye tu, barā-ye tu

1. Tu āftāb-e Saur-e jāvedān-e mā
Tu hezb-e khun neshsatgān-e inqelāb
Ba sangar-o ba charkh-o lāye khusha hā
Hamesh-e hast-u bud-e mā fedā-ye tu
Hamesh-e hast-u bud-e mā fedā-ye tu
Fedā-ye tu, fedā-ye tu, fedā-ye tu

(Band-e bargadān)

2. Azin guzargahe nabard-e ātashin
Tarā ba shahr-e āftāb me barem
Va in bavad hamesha harf-e vāpasin
Ke zindabād nām-e tu, sadā-ye tu
Ke zindabād nām-e tu, sadā-ye tu
Sadā-ye tu, sadā-ye tu, sadā-ye tu

(Band-e bargadān)

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بند برگردان:

تو حزب ما، تو حزب قهرمان ما
امید ما، امید بیکران ما
سرود ما، وجود ما، روان ما
تو آرزوی سرخ رفتگان ما
بنام پُرشکوه کهکشانیت
ز خون ما گل و ستاره سر زند
به پای آن درفش ارغوانیت
هزار بار جان دهیم برای تو
هزار بار جان دهیم برای تو
برای تو، برای تو
هزار بار جان دهیم برای تو
برای تو، برای تو

۱. توآفتاب ثور جاویدان ما
تو حزب خون نشستگان انقلاب
به سنگر و به چرخ و لای خوشه ها
همیشه هست و بود ما فدای تو
همیشه هست و بود ما فدای تو
فدای تو، فدای تو، فدای تو

(بند برگردان)

۲. ازین گذرگاهی نبرد آتشین
ترا به شهر آفتاب می بریم
و این بود همیشه حرف واپسین
که زنده باد نام تو صدای تو
که زنده باد نام تو صدای تو
صدای تو، صدای تو، صدای تو

(بند برگردان)



terça-feira, 8 de abril de 2025

Hino do Afeganistão socialista, 1978-92

Esta bela e edificante canção na língua pastó (mais conhecida como “pashto”), reconstituída por este canal com partes de diversas origens, se chama “گرم شه، لا گرم شه” (Garam shah, laa garam shah), que significa mais ou menos Fique ardente, fique mais ardente. Trata-se do hino nacional que vigorou na então chamada República Democrática do Afeganistão, existente de 1978 e 1992, baseada no modelo soviético e que muitos consideram justamente um Estado-fantoche da antiga URSS. A letra é do político e poeta comunista Sulaiman Laiq e a melodia é de Jaleel Ghahland, consistindo num refrão que, curiosamente, começa a canção e se toca antes das outras estrofes.

Estado culturalmente muito diverso, mas cujas línguas predominantes ainda hoje são o pastó (um parente distante do persa e do curdo) e o dari (o dialeto nacional do persa, muito parecido com o tajique), o Emirado do Afeganistão se tornou uma monarquia constitucional em 1926. Em 1973, o general e ex-premiê Mohammad Dawood Khan derrubou o rei, instaurou uma república ditatorial e fundou o Partido Revolucionário Nacional, único permitido. Em 1978, ele mesmo foi derrubado e morto com a maior parte de sua família, num golpe conhecido como “Revolução de Sawr” (mês do calendário zoroastrista) e conduzido por oficiais comunistas da fração partidária conhecida como Khalq. A palavra significa “povo” e aparece escrita em amarelo na parte superior esquerda da bandeira vermelha, bem como no centro do brasão nacional, vigentes até 1980.

O Afeganistão socialista (nome que prefiro a “comunista”, em se tratando de regimes e países) teve quatro líderes principais, tendo o último sido assassinado pelos Talibã em 1996 e o primeiro, assassinado pelo próprio sucessor. Este, Hafizullah Amin, que governou em 1979, curiosamente foi morto durante a invasão soviética, que teve como pano de fundo a colocação no poder de Babrak Karmal, novo boneco de Moscou (onde terminou morrendo de câncer), mas que misturava diversas razões. Uma delas foi a influência dos EUA no Paquistão, onde treinavam os mujahedin, futuros guerrilheiros muçulmanos que ajudariam a expulsar os soviéticos e derrubariam o regime em 1992. (Não se deve confundir a “República Islâmica” de 1992-96 com o “Emirado Islâmico” dos Talibã, dissidente dos mujahedin, em 1996-2001 e desde 2021.) Os próprios comunistas afegãos viviam se digladiando em pelo menos duas frações ferozmente inimigas.

O interessante vídeo abaixo tem legendas em pastó, inglês e hindi, mas traduzi a partir da versão dari, que coloquei no Google Tradutor e depois comparei com as traduções nas Wikipédias em russo, alemão e espanhol. Até passei o texto pastó no Google, mas ficou quase ininteligível, embora conservasse as ideias essenciais. A tradução na Wikipédia em inglês não fazia muito sentido, e terminei comparando com a das legendas, que parecia mais coerente com as outras. Como o texto na escrita perso-arábica já se encontra nas legendas, também trouxe uma romanização que mistura as feitas nas Wikipédias em inglês e em russo:


Refrão:
Fique ardente, fique mais ardente
Tu, ó, Sol sagrado
Ó, Sol da liberdade
Oh, Sol da felicidade

1. Atravessamos tempestades
Chegamos ao fim do caminho
E atravessamos caminhos escuros
E também o caminho da luz
O caminho vermelho da vitória
O caminho puro da fraternidade

(Refrão)

2. Nossa pátria revolucionária
Está nas mãos dos trabalhadores
A herança dos leões
Agora pertence aos camponeses
A idade da tirania acabou
A era dos trabalhadores começou

(Refrão)

3. Queremos paz e fraternidade
Entre os povos do mundo
Queremos mais liberdade
Para todos os que trabalham
Queremos pão para eles
Queremos casas e roupas para eles

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Korus:
Garam shah, lā garam shah
Ta ai muquadas lamara
Ai da āzādi lamara
Ai da nekmarghi lamara

1. Muzh patufānuno kai
Pri kṛa da bari lāra
Ham da toro shpo lāra
Ham da raṇāyi lāra
Sra da sarbāzi lāra
Pāka dar rori lāra

(Korus)

2. Dā inqilābi Vatan
Os da kārgarāno dai
Dagha da zmaro mirās
Os da bāzgarāno dai
Ter so da sitam daur
Vār da mazdurāno dai

(Korus)

3. Muzh pa nāṛivālo kai
Sola au vrori ghvāṛu
Muzhan ziyār istunko ta
Parākha āzādi ghvāṛu
Muzh varta ḍoḍi ghvāṛu
Kor ghvāṛu kāli ghvāṛu



segunda-feira, 7 de abril de 2025

Os velhologismos de Castro Lopes

O brasileiro Antônio de Castro Lopes (1827-1901) era um médico de formação, mas também um latinista e filólogo amador (percebeu alguma semelhança com certo oculista polonês que queria acabar com as barreiras linguísticas?...). No final do século 19, período de otimismo no Ocidente, quando se pensava que a humanidade era uma massinha infantil pronta pra ser revolvida e moldada por qualquer maluco com belas ideias grandiloquentes, ele fez publicar uma obra interessante, mas hoje esquecida dos estudiosos em geral. Neologismos indispensáveis e barbarismos dispensáveis data de 1889, mesmo ano da Proclamação da República, e pode ser baixada livremente em formato PDF graças ao maravilhoso trabalho da USP.

Assim como certos Aldos Rebelos que pululam por aqui de tempos em tempos reclamando do uso excessivo de palavras inglesas mal pronunciadas, Castro Lopes (jovens, não confundam com Castro Alves!) resolveu então sugerir meios e exemplos pra substituir a invasão da dominante língua francesa. Não se sabe de que forma ele tentou ou conseguiu (quando conseguiu) influir na adoção dessas palavras – se por leitores jornalistas, professores, escritores, lexicógrafos, publicistas etc. –, mas fato é que, enquanto algumas “pegaram” (como vemos nos artigos abaixo), outras desapareceram com o tempo e se tornaram artigo de curiosidade. Interessante também sua designação como “barbarismos” das palavras estrangeiras que se assimilavam mais ou menos ao português. “Bárbaro” era a palavra grega de origem onomatopaica e um tanto pejorativa pra qualquer povo externo ou desconhecido, matiz que se manteve também no Ocidente moderno, ainda que implicando também desordem, destruição e imoralidade. Nesse ínterim, “povos bárbaros” é uma expressão pros invasores da Europa medieval que deve ser tomada com cautela.

Retorno: talvez o mais famoso dos fracassos de Castro Lopes tenha sido “ludopédio”, termo que os aficionados pelo nobre esporte bretão já devem ter visto alguma vez. Não passava de um neolatinismo com que desejou substituir o inglês (ainda não aclimatado) “football”, empregando os elementos eruditos “lud-” (jogo, ao invés de bola/ball) e “ped-” (pé). Ou seja, nosso oftalmo não interpretou como “bola (ball) no/com o pé (foot)”, ou “bolapé”, como já vi certa vez (rs), mas como “jogo com os pés”. Qual seria o problema? Ele desconhecia se os romanos brincavam de bola, ou achava que inexistiam outros esportes pedestres (corridas ainda não eram populares)? Mas vale a pena conhecer o resto de seu trabalho, portanto, sugiro recorrerem diretamente ao livro citado (segunda edição revista e aumentada por seu filho em 1909, que não consultei pra escrever esta abertura), bem como aos artigos abaixo, que só copiei e cuja edição adaptei, sobretudo, concernente à reforma ortográfica. Mantive os conteúdos integrais, portanto, o todo pode parecer um tanto repetitivo.

A felicidade da alusão a Zamenhof feita acima é que os idiomas humanos, do ponto de vista sociológico, parecem consistir num campo visto, por certos grupos ideológicos e de poder, como maleável, padronizável e simbolicamente carregado. Os Estados nacionais nos séculos 19 e 20 buscaram normatizar, unificar e até “purificar” suas línguas em todo o território sob sua jurisdição. Foi aventada a possibilidade de se planejar uma língua única a ser aprendida em todo o planeta e, assim, supostamente transpor a barreira da incompreensão e das supostas guerras que causaria (era só nisso que sérvios e croatas não se entendiam? E fazia tanta falta assim um Duolingo?). George Orwell usou seu conceito de “novilíngua” pra expressar a manipulação do vocabulário por regimes autoritários – mais atual do que nunca, com a invasão de rapina se tornando “operação militar especial” e a ditadura capitalista, “democracia iliberal”... E por que não citar a linguagem “neutre não binárie”, que confunde o conceito de gênero gramatical com o de gênero biológico, mas cujo impacto e aceitação geral (ou não, devido a seus pregadores extremistas) só veremos em alguns anos?

Tudo pra dizer que, em minha concepção, e na de alguns linguistas, idiomas e linguagens em geral são, sim, maleáveis, mas sua transformação é orgânica, natural, incorporada nas transformações humanas mais gerais, que, assim como aquelas, não podem ser ditadas de antemão. Portanto, sou pelo não proibir, mas também (salvo raríssimos casos, como expressões racistas, preconceituosas etc.) não impor sem critério. Nem Castro Lopes, nem Zamenhof, nem Trumputin, nem a “galere descolade” entenderam a precedência (mas não prevalência!) do descrito sobre a descrição ou a importância de apenas sentar na margem e observar o rio correr sozinho...


Sérgio Rodrigues, Convescote não tem cardápio (Veja, 26 de abril de 2011); ouça também sua coluna na Rádio CBN de 20 de junho de 2017 sobre o mesmo tema, mas que não tive tempo de transcrever.

A propósito daquela tola lei antiestrangeirismo proposta por um deputado gaúcho [Raul Carrion, estadual do PCdoB, que legislou de 2007 a 2014], que comentei aqui no domingo, é bom lembrar as realizações – e os fracassos, bem mais numerosos – de um personagem pitoresco das letras brasileiras do século 19, uma espécie de patrono dos xenófobos linguísticos: o latinista Antônio de Castro Lopes (1827-1901), que Machado de Assis chamava, com ironia, de “nossa Academia Francesa”.

Incomodado com a grande circulação de palavras vindas de fora, especialmente do francês, o idioma imperialista da época, Castro Lopes lançou em 1889 o livro Neologismos indispensáveis e barbarismos dispensáveis, em que propunha uma série de neologismos, forjados por ele mesmo, como substitutos de estrangeirismos que considerava “bárbaros” (atenção, moçada, o sentido aqui é negativo).

De sua quixotesca fábrica de vocábulos saíram termos esquisitos que não tardaram a cair no mais completo esquecimento: cinesíforo (chofer), ludâmbulo (turista), runimol (avalanche) e focale (cachecol) são alguns deles. Outras de suas invenções tiveram uma sobrevivência anêmica como palavras raras e ainda hoje são encontráveis no dicionário, embora não frequentem a língua viva há muito tempo: é o caso de lucivelo (abajur), nasóculos (pincenê) e preconício (reclame, propaganda).

No entanto, Castro Lopes também marcou seus golzinhos. Cardápio, que ele criou a partir das palavras latinas charta (carta) e daps (banquete) para substituir o francês menu, tornou-se termo de grande circulação, embora menu continue sendo usado também.

Se cardápio é seu produto de maior sucesso, meu castrolopismo preferido é outro: convescote. Essa palavra adorável, que quer dizer piquenique, ainda aparece de vez em quando na língua de verdade, quase sempre acompanhada daquela inflexão sarcástica ou brincalhona de quem sabe estar lançando mão de um termo de época. O curioso é que, para forjá-la, o latinista se arriscou a minar sua regra de ouro: convescote vem de “conv(ívio)” e “escote” (cota que cabe a cada um numa vaquinha).

Ocorre que “escote” também é um galicismo, do francês antigo escot. Sua única diferença em relação às palavras que Castro Lopes condenava era a antiguidade: tinha chegado ao português no século 16. Quer dizer que o tempo lava tão bem a estrangeirice dos estrangeirismos que até um purista passa a aceitá-los? Exatamente. O abajur, o turista, o chofer, a avalanche e o cachecol só precisavam de tempo. E o tempo passou, apesar do engenhoso Castro Lopes.


Paulo Nogueira, O último latinista: a saga de Castro Lopes, o homem que tentou substituir a palavra futebol por ludopédio (DCM, 21 de novembro de 2012); mesmo vindo do blogueco pró-Putin que via de regra me recuso até a abrir só pra não monetizar, é curioso como então havia gente aí que fazia jornalismo, e não só propaganda vassala do petê...

Ele achava que neologismos indispensáveis deviam substituir barbarismos dispensáveis, mas sua cruzada foi em vão

Em 1989, a revista Veja fez um suplemento em comemoração aos 100 anos da República. A graça é que os textos foram escritos como se os jornalistas vivêssemos na época da proclamação. Era como se estivéssemos cobrindo-a na semana mesma de 15 de novembro. Eu saíra fazia pouco tempo da Veja para ser editor-executivo da Exame. Mesmo assim, me encomendaram dois artigos: um perfil do Barão de Mauá, o maior empresário brasileiro de então, e um perfil de um latinista arrebatado, Castro Lopes. Lopes quis purificar a língua falada no Brasil de anglicismos e galicismos, e produziu neologismos como ludopédio para substituir o futebol. Quase nada vingou, como você poderá ver no quadro posto no pé deste artigo, exceto por uma ou outra palavra como roupão, que ocupou o lugar do peignoir. Você pode apreciar o esforço titanicamente frustrado de Lopes nas linhas abaixo.

É possível que o leitor esteja lendo esta revista agora em sua cama, com a ajuda de seus nasóculos e à luz suave de um lucivelo. Os artigos escritos pelos alvissareiros misturam-se, harmoniosamente, aos preconícios que louvam as virtudes de sortidos produtos. Faz calor neste final de primavera, e decerto o nosso leitor não retira há muito tempo de sua gaveta o focale que lhe aquece o pescoço no frio. E ele provavelmente terá reparado como é grande, nos últimos tempos, o número de ludâmbulos que, vindos de outros Estados e até de outros países, se abalam a conhecer os encantos da cidade.

Não te sintas o mais ignaro dos brasileiros se, no parágrafo anterior, tropeçaste em vocábulos como “nasóculos”, “Iucivelo”, “alvissareiro”, “preconício”, “focale” e “ludâmbulos”. Consultados sobre o significado de tais palavras, quase todos os jornalistas desta revista que ora tens em mãos tropeçaram exatamente onde foste ao chão. Um, mais curioso, tratou de correr ao Caldas Aulete, mas foi inútil. Cerrou as páginas do dicionário tão no ar quanto as abrira. É que todas aquelas palavras acabam de ser criadas pelo gramático carioca Antônio de Castro Lopes, 62 anos, um latinista de nomeada que é médico por profissão e decidiu investir contra os galicismos e anglicismos que, a seu ver, contaminaram atrozmente a língua pátria. As palavras a que Castro Lopes tenta dar vida e aquelas que ele pretende suprimir estão arroladas no recém-lançado Neologismos Indispensáveis e Barbarismos Dispensáveis, livro que serviu de tema para conversas, e piadas, trocadas entre o ex-imperador Pedro II e o Visconde de Taunay.

“Não é de desenterrar palavras mortas e sepultadas que se trata”, explica o autor no prefácio do opúsculo. “Mas de limpar, de expurgar a linguagem vernácula de vozes bárbaras, de construções contrárias à índole daquela, e de criar com bons elementos termos que no idioma português faltem para traduzir os exóticos”. Castro Lopes não tenta promover reformas apenas na língua portuguesa. Sugere muitas outras. Tem, pronta, uma fórmula para acabar com a dívida interna e externa do país, ou, pelo menos, é o que garante. Tal fórmula apoia-se numa moeda universal, o ponto alto da plataforma com a qual se lançou candidato a deputado provincial pelo Rio de Janeiro. Não se conhece nenhuma adesão de outros países à tal da moeda universal do latinista, mas o fato é que ele se elegeu deputado. Acusem-no, os que quiserem, de purista extremado, mas não o tomem por rabugento. Será um equívoco. Castro Lopes tem um surpreendente bom humor. Daria um excelente cômico se quisesse. Observe-se sua investida contra a palavra peignoir. Não cria, no caso, um neologismo. Vai buscar o vocábulo português que julga correspondente: roupão. Dirigindo-se ao “belo sexo”, Castro Lopes pergunta: “Por que empregareis o termo francês peignoir quando esse traje não serve para o fim que o nome indica?” Logo depois, lança, às damas nacionais, um apelo que revela seu talento humorístico: “Despi, portanto, eu vos suplico, o peignoir francês, e vesti o vosso roupão”.

Se daqui a 100 anos os neologismos do senhor Castro Lopes estarão vivos ou mortos, ninguém pode saber. Alguém usará a expressão “protofonia” como abertura de um ensaio, uma ópera, uma peça? Haverá crianças que peçam aos pais que façam um convescote domingo no parque, em vez de piquenique? Em duas crônicas recentes, o escritor Machado de Assis referiu-se ao trabalho de Castro Lopes com sarcasmo reprovador. O latinista não se intimida. Diz-se à boca miúda que, a cada golpe desferido por um adversário, responde com um toast solitário à cruzada pelo vernáculo – perdão, onde se leu “toast”, leia-se brinde.

Pérolas de um latinista: como é e como fica

  • Abajur – Lucivelo ou lucivéu
  • Avalanche – Runimol
  • Bijuteria – Joalheira
  • Boulevard – Calçada
  • Cachecol – Focale
  • Chalé – Castelete
  • Champignons – Cogumelos
  • Claque – Venaplauso
    [definição 1 do Priberam e do Aulete]
  • Debut – Estreia
  • Engrenagem – Entrosagem
  • Feérico – Fatídico
  • Massagem – Premagem
  • Mise-en-scène – Encenação
  • Nuance – Ancenúbio
  • Pince-nez – Nasóculos
  • Piquenique – Convescote
  • Reclame – Preconício
  • Repórter – Alvissareiro
  • Turista – Ludâmbulo


Helder Guégués, Ementa, menu, cardápio: Escolham o melhor (Linguagista, 12 de janeiro de 2014).

«Encontrei por acaso, outro dia, o cardápio de um dos nossos jantares (para dez pessoas)» (Autobiografia, Agatha Christie. Tradução de Maria Helena Trigueiros. Lisboa: Livros do Brasil, [1978], «Colecção Dois Mundos», p. 50).

Aqui há uns anos, ainda variavam entre «ementa» e o galicismo «menu»; agora, só este lhes sai do bestunto. «Cardápio», então, julgam que foi acabado de inventar por mim. Ah, mas esperem... Foi inventado, sabiam?, por um brasileiro, e a verdade é que pegou mais ou menos. Pelo menos a mim ocorre-me sempre – repito: sempre – que leio a palavra «menu» ou «ementa».

No Brasil “cardápio” é corrente, ao lado de “menu”; usa-se “carta” também em alguns casos, já “ementa” quase nunca, ou nunca.

[Curiosamente, o autor não cita a origem de “cardápio” e alguém escreve em comentário:] O latinista Antônio de Castro Lopes (1827-1901), “inventor” também de abajur, lucivelo ou lucivéu [e ele repete a mesma lista do artigo de Nogueira]. “Estreia” e “encenação” são usados, o resto é história.

E o arrepiante “necrotério” é criação do Visconde de Taunay; e quase ninguém mais sabe aqui o que é “morgue”.

E em junho teremos no Brasil a Copa do Mundo de Ludopédio.



domingo, 6 de abril de 2025

“Летіла зозуля” (Um cuco voava)


Endereço curto: fishuk.cc/zozulia


Meu colega de um curso online de língua ucraniana, Luciano Klusczkowski, está cada vez mais empenhado em trabalhos musicais de diversos tipos, e entre aulas e apresentações, ele quase não para, rs. Morador de Guarapuava, cidade do Paraná com importante colônia de descendentes de ucranianos, ele fez a gentileza de me enviar a execução coral da canção popular anônima “Летіла зозуля через мою хату” (Letíla zozúlia cheréz moiú khátu), Um cuco estava voando através de minha choupana, na qual ele toca o harmônio, instrumento de foles usado primordialmente na música indiana. Luciano está muito feliz por avançar na unificação dos corais das igrejas ucranianas locais de São Nicolau Madeirit e da Assunção de Nossa Senhora, que aparecem no belo vídeo abaixo.

Infelizmente, a letra completa não é cantada, e segue também uma interpretação no YouTube. Dada a falta de tempo, não traduzi diretamente do original ucraniano indicado acima, o qual, porém, usei a título de comparação. Usei as traduções em inglês do coral (que curiosidade!) Béloie Zláto, deste arquivo em formato DOC (que também tem a partitura) e, em menor grau, de um dos maiores portais de letras traduzidas do mundo. Traduzi tanto kozák quanto kozachénko como “cossaco”, ignorando o sufixo diminutivo. E o verbo que designa especificamente o canto do cuco na segunda estrofe, kuváty, não tem tradução exata em português.

Em todas as estrofes, os dois últimos versos são repetidos, o que não indiquei na escrita. E como bônus, segue ao final um vídeo exclusivo com Luciano e outros amigos tocando Щедрик (Shchédryk), composta por Mykóla Leontóvych e considerada a melodia ucraniana mais conhecida no mundo, embora poucos conheçam seu uso original como canção de Ano Novo. Ele mesmo pediu pra divulgar sua arte sempre mais frutífera, portanto, colabore você também pra viralização desse talento:




Um cuco estava voando
Através de minha choupana
Ele pousou num viburno
E começou a cantar

“Oh, pelo quê, cuco
Pelo que você está cantando?
Você por acaso, cuco
Está me ouvindo bem?”

“Se eu não tivesse ouvido
Eu não teria cantado
Sobre você, menina
E contado toda a verdade”

“Oh, meu Deus
Deus, o que foi que fiz?
O cossaco é casado
Mas eu me apaixonei

O cossaco é casado
E tem uns dois filhos
E tem uns dois filhos
Ambos de pele morena”

“Eu vou alugar
Essas crianças
E com você, Marúsia
Ir passear no parque”

O cossaco foi passear
Por um domingo e duas noites
O cossaco veio
Fazer uma visita à menina

“Oh Deus, meu Deus,
O que é que fui fazer
Declarei meu amor
A uma mulher no estrangeiro

Não tanto pela mulher
Quanto pelas duas crianças
Meu coração se partiu
Em duas metades”

Летіла зозуля
Через мою хату
Сіла на калині
Та й стала кувати

“Ой, чого ж, зозуле
Ой, чого ж ти куєш
Хіба ж ти, зозуле
Добро мене чуєш?”

“Як би не чувала
То би б я й не кувала
Про тебе, дівчино
Всю правду сказала”

“Ой, Боже ж мой, Боже
Що ж я наробила
Козак має жінку
А я й полюбила

Козак має жінку
Ще й діточок двоє
Ще й діточок двоє
Чорняві обоє”

“А я й тих діточок
В найми понаймаю
З тобой, Марусино
В саду й погуляю”

Гуляв козаченько
Неділю й дві ночі
Прийшов козаченько
До дівчини в гості

“Ой, Боже ж мой, Боже
Який я й удався
На чужій сторонці
За жінку признався

Не так вже й за жінку
Як за дві дитини
Розкололось серце
На дві половини”



sábado, 5 de abril de 2025

Brasil se saiu bem com “tarifaço”?


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Nesta breve participação de Stéphane Geneste no programa Aujourd’hui l’économie (Hoje a economia) da Rádio França Internacional (RFI), intitulada “Brasil, um dos ganhadores na guerra comercial de Donald Trump?”, ele mostra que o país tem boas oportunidades pela frente após o tarifaço geral decretado pela Boneca Russa e que seus negociadores têm sido ativos na busca por novas parcerias comerciais. Ao ler o texto publicado no último dia 3 de abril, devo admitir que a “nanodiplomacia” tão alvejada por minhas críticas até deu uma bola dentro, mas, além das potenciais armadilhas apontadas, eu diria que futuras blindagens só são possíveis com uma modernização completa de nosso modelo econômico: a saber, mais foco (mas não só, claro) na indústria e nas novas tecnologias. Segue minha tradução, com pouca adaptação no conteúdo:



Eis que Donald Trump declarou uma guerra comercial ao mundo inteiro. O presidente americano lançou sua ofensiva nesta quarta-feira, 2 de abril, e ninguém foi poupado, fossem amigos ou inimigos. Dez por cento no mínimo e às vezes mais pra alguns, como China, Vietnã e Camboja. O Brasil está entre os “sortudos” afetados por um aumento de apenas 10%.

Antes de tudo, vale lembrar que Brasil e Estados Unidos estão economicamente ligados. Os EUA são o maior investidor na maior economia da América Latina. O Brasil também é um dos grandes exportadores da região. Exemplos incluem soja, carne bovina, frango e aço. Aliás, os americanos importam muito tudo isso. Mas a balança comercial entre os dois países é superavitária do lado americano, o que é uma vantagem pra Brasília.

Fora da mira de Donald Trump – De fato, Donald Trump tem como alvo principal os países que mais exportam para os EUA do que importam. O Brasil pode, portanto, tirar proveito dessa situação. O presidente Lula, aliás, assimilou isso perfeitamente. Ele não quer encerrar o diálogo com Washington. Como prova, na semana passada, uma missão brasileira esteve na capital americana para se reunir com o governo Trump. Apesar disso, o Brasil respondeu com a votação, há algumas horas, pelo Congresso Nacional, de uma lei em resposta às medidas americanas. Mas o governo brasileiro também conseguiu estabelecer outras parcerias que lhe permitem evitar um prejuízo excessivo.

Vá procurar em outro lugar! – Entre essas novas parcerias, a China. Pequim também se tornou o maior parceiro comercial do Brasil. Os dois realizam muitas trocas. Empresas brasileiras exportam, sobretudo, soja, frango e carne bovina. E é aqui que fica interessante, como você bem percebeu, já que a China é particularmente visada pelos EUA. Pequim respondeu exatamente aumentando as tarifas sobre os produtos agrícolas estratégicos dos EUA, como soja e carne. A China pode, portanto, encontrar no Brasil uma alternativa viável pra suas necessidades em bens de consumo cotidiano. As empresas chinesas, e essa é obviamente a contrapartida, estão presentes em solo brasileiro, onde investem fortemente na construção de infraestrutura essencial à atividade econômica, como estradas, ferrovias e portos.

Uma oportunidade com riscos – Se olharmos apenas pro frango e ovos brasileiros, as exportações desses dois produtos à China estão explodindo. Entre 9% e 20% de aumento em relação ao ano passado. Como prova da confiança, o índice da bolsa brasileira, baseado principalmente em matérias-primas, subiu 9% nas últimas semanas , enquanto os principais preços globais estão no vermelho. Mas, embora essa situação pareça benéfica no curto prazo, no longo prazo ela expõe o Brasil a uma forte dependência da China. E se as relações sino-americanas melhorarem, todo o equilíbrio que acabamos de mencionar se tornaria instável. Portanto, as autoridades brasileiras estão jogando em vários tabuleiros. Recentemente, assinaram novos acordos com o Japão e, no âmbito do acordo do Mercosul, com os europeus. Uma situação que permite ao país fortalecer sua posição no cenário do comércio internacional e estimular seu crescimento econômico!



sexta-feira, 4 de abril de 2025

Milei não tá nem aí pras Falklands?


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O dia 2 de abril é lembrado todos os anos na Argentina como de lembrança pela reivindicação de sua soberania sobre o arquipélago das Malvinas, que inclui duas grandes ilhas principais e várias outras menores, abrangendo um espaço marítimo que inclui diversos recursos minerais e pesqueiros importantes. Desde o início do século 19, ela está ocupada pelo Reino Unido, que chama a área de “Falklands” e na época formava o maior império territorial não contíguo de toda a história, e mesmo com a independência da Argentina ante a Espanha e seu império, os britânicos se recusaram a ceder seu controle a Buenos Aires. A reivindicação do país sul-americano nunca cessou e continua até hoje, num movimento que teve altos e baixos.

Já fiz duas publicações a respeito da questão: a primeira traz a história e a tradução da Marcha das Malvinas, hino oficial de celebração do 2 de Abril, mas composto muitos anos antes, e a segunda mostra uma canção de propaganda televisionada pela ditadura militar (1976-83, que chamava a si mesma “Processo de Reorganização Nacional” ou apenas “Processo”), geralmente chamada Argentinos a vencer. O que importa relembrar aqui, algo não muito confortável pro patriotismo platino, é que o ditador Leopoldo Galtieri resolveu aproveitar sua baixa popularidade pra tentar resolver a questão de uma vez por todas, manu militari, invadindo o arquipélago a 2 de abril de 1982 e unindo todo o povo numa onda de ufanismo histérico e anestésico. (Até Zelensky, que só era aprovado por pouco mais de 30% dos ucranianos, viu subitamente mais de 90% a seu favor após a invasão dos porcos ruSSos...) Todo mundo sabia que a Argentina não tinha as mínimas condições militares de enfrentar uma das maiores potências da época, mesmo arrastando o conflito por dois longos meses.

Margaret Thatcher, primeira-ministra conservadora do Reino Unido na época, também se via às voltas com os críticos de suas espartanas reformas econômicas e Galtieri também acabou lhe dando de graça um presente a sua popularidade. Contudo, não só a utilidade de manter as Malvinas foi contestada até mesmo pelo então presidente dos EUA, Ronald “Alma Gêmea” Reagan (que terminou adotando uma “neutralidade conivente”), como também o afundamento em águas internacionais do cruzador General Belgrano, apinhado de centenas de recrutas argentinos inofensivos e inexperientes, foi considerado um crime de guerra pela comunidade internacional. O desfecho quase natural foi a vitória britânica, mas ao custo de vários mortos e centenas de feridos, muitos dos quais graves e com permanentes traumas mentais, o que gerou críticas à “Dama de Ferro” mesmo dentro do próprio país – e ao uso político da “questão das Falklands”, que levou a reeleições prolongando seu mandato até 1990.

Mas não se engane: quase nenhum argentino contesta a soberania nacional sobre as Malvinas, que eles consideram um território usurpado por Londres, e é talvez a única questão (à parte o futebol?) que une pessoas de todas as ideologias, literalmente de um extremo ao outro do espectro político. Os veteranos, por exemplo, não se sentem tendo sido usados como bucha de canhão por um regime carcomido, e sim heróis da maior causa pátria moderna, e por isso são religiosamente respeitados. Por isso, a linha do presidente Javier Milei de dar pouca importância à contenda tem gerado incômodo entre a população, embora sua popularidade, a despeito do descalabro socioeconômico, se mantenha relativamente alta. Pra piorar, “El Loco” demonstrou abertamente várias vezes sua admiração (ao menos) pela política econômica de Thatcher, mulher considerada, porém, o KPta encarnado pelos hermanos, que jamais perdoariam qualquer elogio a ela. Os atos oficiais de 2025 parecem ter começado a fazer o vaso transbordar.

Primeiro, sua vice, Victoria Villarruel, não participou do ato no memorial da Praça San Martín com Milei e preferiu se encontrar com militares na Terra do Fogo. Seu pai, militar acusado de exações durante a última ditadura, também foi veterano das Malvinas; o tema lhe é tão caro que em 2024 chegou até a entrar em choque com a ministra do Exterior, Diana Mondino, que buscou diálogos mais condescendentes com o Reino Unido. Segundo, o trêmulo discurso de dez minutos de Milei na capital nacional, no último dia 2, foi considerado “desconjuntado”, por praticamente conter diversas defesas de seu próprio programa de governo e culpar a “casta política” (sempre ela...) pela derrota na guerra de 1982. Causou rebuliço a afirmação de que os “malvinenses” (“kelpers”, em inglês, que Buenos Aires considera não uma população, mas gente implantada pelo colonialismo) poderiam decidir “por conta própria” se tornar argentinos quando o país “se tornasse uma potência” (???). Um imperdoável alinhamento à tese britânica da “autodeterminação”, reafirmada por diversos referendos locais, contestados pelos presidentes anteriores, podendo se traduzir num suicídio político.



E terceiro, vários veteranos da Guerra das Malvinas foram proibidos de participar do evento em Buenos Aires, mesmo tendo vindo de longe pra estar no ato comemorativo, e se sentiram profundamente ofendidos. No ano passado, alguns chegaram até a se recusar a participar de outros desfiles na presença de Milei. O memorial foi fortemente cercado, reunindo um pingo de pessoas, muitas delas ligadas ao conflito, mas que não estiveram na mira do inimigo nem pegaram em armas. Entre os influenciadores, tantas contradições não passaram despercebidas, e um deles, o advogado e escritor Tomás Rebord, lembrou a data cívica no famoso streaming de humor político Blender, alinhado com ideias “progressistas”, segundo La Nación.

Mais uma vez consegui o grosso da transcrição usando o recurso de IA do Microsoft Clipchamp (que distingue entre os vários dialetos do espanhol!) e traduzi usando o Google, mas nas duas etapas, como sempre, dando meu toque final e tirando cacoetes orais. Decidi também terminar a publicação com outro vídeo de uma conta anônima anti-Milei no Équis, que não mencionou as circunstâncias da montagem do vídeo, mas que passa a mesma mensagem e, tendo sido legendado em espanhol (inclusive nas partes em inglês), preferi não traduzir:


Dar el obvio, pero no por eso menos importante. Mañana es 2 de abril, Día del Veterano y de los Caídos en la Guerra de Malvinas, es el día en el que se reivindica nuestra irrestricta e irrenunciable soberanía nacional sobre las Islas Malvinas y Atlántico Sur. Por más que estemos circunstancialmente en un gobierno al que eso no le importe tanto y permanentemente recalque su admiración por figuras como, por ejemplo, la criminal de guerra Margaret Thatcher. Así que me parece importante también desde este lugar irnos con algo parecido a un poquito de sentimiento patriótico, para lo que nos vamos a encontrar el día de mañana, como va a pasar absolutamente todos los años y siempre que quede un argentino en pie en el planeta Tierra. Muchísimas gracias por este espacio, por acompañarnos.

Dando o óbvio, mas não menos importante. Amanhã é 2 de abril, Dia dos Veteranos e dos Tombados na Guerra das Malvinas, dia em que reivindicamos nossa soberania nacional irrestrita e inalienável sobre as Ilhas Malvinas e o Atlântico Sul. Mesmo que eventualmente tenhamos um governo que não se importa muito com isso e enfatiza constantemente sua admiração por figuras como, por exemplo, a criminosa de guerra Margaret Thatcher. Então, me parece importante que também saiamos daqui com algo parecido com um pouquinho de sentimento patriótico, pelo qual vamos nos encontrar amanhã e como vai ocorrer todos os anos, enquanto houver um único argentino de pé no planeta Terra. Muitíssimo obrigado por este espaço e por nos acompanhar.



quinta-feira, 3 de abril de 2025

Marine Le Trump by Adam Parsons


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Na edição do programa The World de 1.º de abril na Sky News, ao comentar a pena de inelegibilidade por cinco anos da francesa Marine Le Pen, líder do partido RN (extrema-direita), Adam Parsons cometeu o ato falho de a chamar “Marine Le Trump” logo após dizer que ela poderia copiar as estratégias do inquilino da Bely Dom pra reverter suas condenações. Tá, confesso, só isso que tinha de engraçado... Mas a comparação não podia ser melhor, e terminar melhor ainda com esse lapso, rs. (Em todo caso, melhor do que quando Biden chamou Zelensky de Putin!)



E não é que eu tava certo? Rs


O Microsoft Clipchamp está com muitos recursos legais e foi com ele que tirei o essencial da transcrição desse trecho! Claro, dei uma pequena corrigida, assim como fiz com a tradução dada pelo Google. Quis deixar pelo menos um pouco de contexto pra que não pareça algo meio artificial ou até forjado, mas note como a apresentadora Yalda Hakim até sorri na hora, rs:


Now, there is one path which her supporters, I think, are still holding on to, is that she could, or she will appeal. That appeal could be heard in, let’s say, a year’s time. She might find the evidence to support it. She may be cleared. She may have that ineligibility ban reduced. She may be allowed to run in 2027. And the momentum behind her: this idea that she took on the establishment and won, this very Donald Trump line of “They couldn’t stop me, they tried, but fight, fight, fight.” I’m sure that is what she would channel. That is an optimistic opinion if you are a Marine Le Trump... Marine Le Pen supporter.

Agora, há um caminho ao qual seus apoiadores, eu acho, ainda estão apegados, o de que ela poderia ou vai recorrer. Esse recurso pode ser julgado em, digamos, um ano. Ela pode encontrar as evidências para apoiá-lo. Ela pode ser inocentada. Ela pode ter esse período de inelegibilidade reduzido. Ela pode ser autorizada a concorrer em 2027. E o ímpeto por trás dela: essa ideia de que ela enfrentou o establishment e venceu, essa mesma linha de Donald Trump de “Eles não conseguiram me impedir, eles tentaram, mas fight, fight, fight.” Tenho certeza de que é isso que ela canalizaria. Essa é uma opinião otimista se você é um apoiador de Marine Le Trump... Marine Le Pen.



O Tio Patinhas chamou o genérico ianque do cantor Falcão pra assinar decreto???

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Cuscuz Clã no Fantástico + Endrigo


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Eu estava procurando imagens de Sergio Endrigo no Google, e de repente me deparei ao acaso com este clipe gravado por ele e Fafá de Belém, cantando juntos o Samba em Prelúdio pro Fantástico, quando esse tipo de quadro era bem mais frequente e, diga-se, muito mais bem elaborado. Não consegui determinar a data, mas pode ser entre o fim da década de 1970 e o início da de 1980, quando Endrigo estava fazendo muitos trabalhos culturais no Brasil. O gigante de Pula até que não pronunciava mal o português (embora certamente não o falasse), e sendo esta uma raridade, resolvi “hackear” e republicar aqui!

Infelizmente, não havia mais nenhuma informação a respeito no Globoplay, e também não fui atrás. O mais engraçado é que o vídeo apareceu numa playlist aleatória de reportagens, talvez da mesma época, sem qualquer identificação, a não ser pela marca d’água com o nome do programa. E na mesma lista estava também uma reportagem de 15 minutos gravada nos EUA pela equipe da Globo sobre grupos que ainda reivindicavam a herança da Cuscuz Clã Ku Klux Klan, a famosa “KKK”, grupo racista e supremacista de branquelos que não toleravam partilhar ônibus e bebedouros com seus compatriotas de pele escura.

Mais uma raridade que outros também já republicaram inteira ou em parte no YouTube, mas que eu só soube ser de 1979. Conheço esse jornalista cabeludo de outras reportagens do arquivo do Fantástico, mas não consegui o identificar, e mesmo no portal não havia mais informações, a não ser uma descrição bem vaga. Portanto, quem quiser colaborar com possíveis dados, por favor comente ou entre em contato! Realmente eram tempos heroicos, e além da Cuscuz estar explicitamente recrutando crianças e adolescentes, suas caras são mostradas sem censura na TV. Bons tempos, em que o programa era muito mais cultural e instrutivo (até começo da década de 2010), e não essa sucessão de reportagens nojentas e indignantes que tornam a “revista eletrônica semanal” muito mais parecida com uma edição dominical do Jornal Nacional!





terça-feira, 1 de abril de 2025

Max Barskih – “Буде весна” (Que haja primavera)


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No domingo passado, 30 de abril, no programa Domingão com Huck da TV Globo, o apresentador que não preciso nomear promoveu o emocionante reencontro da moça ucraniana Ksenia, hoje com 22 anos, com sua mãe e seu irmão, que ela não via há quase três anos, tendo fugido da Ucrânia após a invasão ruSSa em larga escala. Seu pai e seu padrasto, naturalmente, estão no front combatendo os porcos ladrões e estupradores, mas ainda assim ela não acreditou que tinha conseguido realizar esse sonho, depois de refazer sua vida no Brasil. Minha imaginação indócil ficou supondo o que essa escória chamada “ex-querda acadêmica” não ficou falando nas redes sociais ou em conversas privadas, em se tratando de uma emissora grande e de um Luciano que não é lá muito conhecido pela simpatia pela Jararaca ou pelo petê. Mas preferi focar no fato que se tratava de mais uma história entre muitas, que os negacionistas não conseguem refutar e que poderia acontecer em qualquer lugar: Palestina, Sudão, Iêmen, Síria, Mianmar ou até na Colômbia e no México sangrados pelo narcotráfico.

Aquela criatura chamada Celso Amorim, cuja evocação “me desperta os instintos mais primitivos” (como diria Roberto Jefferson) e que deve continuar soprando asneiras “BRICSianas çugrobalistas” no ouvido do Molusco – que repetiu os mesmos lugares-comuns e falsas simetrias da “neutralidade pró-Rússia” ao discursar no Vietnã, um dos maiores violadores de direitos humanos do mundo –, teve a oportunidade de visitar Bucha, onde os invasores cometeram um dos piores massacres de civis na guerra. O fato de dizer que “só viu fotos”, e de nosso nanismo diplomático continuar obcecado com “Pelé Stein, Pelé Stein!” como se nada mais ocorresse nessa droga de planeta, a partir de agora me obriga a conter toda raiva e obscenidade que tenho vontade de proferir em público quando vejo seu rosto murcho na TV. Porém, “respirando fundo e contando até dez”, lembro que justamente ontem se completaram os três anos da libertação daquela cidade-mártir, cujas fotos mais explícitas e não censuradas eu gostaria que decorassem o dormitório do ilustríssimo embaixador durante o resto desta e de todas as suas vidas, em qualquer reencarnação, em qualquer plano...

Esse aniversário, e o fato de que Zelensky e o povo ucraniano “Ainda Estão Aqui”, apesar do ditador bárbaro se achar no direito de sugerir um absurdo “novo governo provisório” tutelado pela ONU (!!!), tornam ainda mais simbólica a tradução desta canção de resistência. Meio que “com o bonde andando”, comecei um curso de ucraniano à distância oferecido pela UNICENTRO do Paraná, na turma da professora Edina Smaha, que nos ofereceu sua própria tradução de “Буде весна” (Búde vesná), Que haja primavera, e pôs o vídeo pra tocar na aula. A composição é do próprio cantor, Max Barskih, de cujo nome mantenho a transliteração que ele mesmo se fez, lançada no YouTube em 5 de março de 2022, ou seja, alguns dias após se iniciar a invasão em larga escala. O áudio também pode ser ouvido em sua conta no Spotify.

Segui a transcrição do original ucraniano dada por Barskih em seu canal, e a partir dela também adaptei a pontuação e a divisão em parágrafos. Mudei ainda uma palavra que estava diferente na transcrição da Edina e fiz algumas mudanças no estilo em português, sobretudo na segunda metade da letra, embora o mérito pela tradução seja todo dela e eu não tenha sido explicitamente autorizado a republicar este conteúdo. Em todo caso, lá vai ele, muito bem ilustrado pelo retorno no tempo que Luciano Huck fez pra encontrar sua futura esposa Angélica nos anos 80, ainda na flor da idade, rs:


A cidade está em chamas,
O coração dói,
A luta é cansativa
E o inimigo não dorme

Balas voam enquanto a neve cai
E o inimigo está deitado, silencioso

Noites sem dormir, não sentimos frio
A família espera nos arredores,
Juntos todos nós venceremos,
Esta é nossa terra natal

Que haja primavera,
Enquanto persistimos até o fim,
E a guerra não vai nos destruir,
Nossa fé une os corações,
A Ucrânia vai viver pra sempre

A Ucrânia é nossa terra

A Ucrânia une os corações

____________________


Місто в огні,
Серце болить,
Втомлює бій
І ворог не спить

Кулі летять поки падає сніг
І ворог лежить, мовчить

Ночі без сну, нам не холодно
Чекає сім’я на околицях,
Разом ми всі переможемо,
Це наша рідна земля

Хай буде весна,
Поки ми стоїмо до кінця,
І нас не зламає війна,
Наша віра єднає серця,
Україна навіки жива.

Україна це наша земля

Україна єднає серця



A multiascendente Angélica, quando viu o Gonzo viajante do tempo, parece ter ficado com cara de pensar duas vezes antes de aceitar tão importante compromisso, rs.



E pra piorar, ela trouxe junto um filho-clone perdido da Giovanna Ewbank!

segunda-feira, 31 de março de 2025

O saco do Trump e o saco do Lula


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Este é Edmir Chedid, atual prefeito de Bragança Paulista e herdeiro mais velho (?) da dinastia “Abi Chedid”, que manda no Linguicistão desde que Hafiz Abi Chedid, seu avô e pai do ex-prefeito Jesus Chedid, também tinha sido prefeito da cidade. Quem conhece o mundo dos cartolas do futebol, também vai se lembrar do nome de Nabi Abi Chedid, irmão de Jesus Chedid.

Recentemente, abriu-se uma guerra política, porque pra pôr mais dinheiro em caixa, Edmir tentou executar uma correção na cobrança do IPTU (pra quem não é do Brasil, trata-se do imposto – entre infinitos... – sobre casas e terrenos) que isentaria mais da metade dos pagantes, os mais pobres, e aumentaria consideravelmente o dos mais ricos, muitos deles moradores de condomínios fechados. Curiosamente, sob a gestão anterior (de Amauri Sodré, vice de Jesus, que morreu em 2022...), os vereadores, muitos dos quais reeleitos no ano passado, aprovaram a medida, mas agora resolveram bloquear, alegando que “não tinham entendido alguns pontos”. Vê se pode...

Populismo que isso chama, né? Sem julgar aqui a validade da medida (contra a qual já foi impetrada uma caralhada de processos, a maioria indeferida pela Justiça), um vizinho meu colocou (se também não inventou) no grupo esta figurinha que dispensa explicações. Aqui em casa, o apelidamos justamente de “Prefeitura”, porque sempre que a infraestrutura aqui vem à baila nas conversas da turma da sinuca, ele vive falando que é de competência da prefeitura, embora seja um loteamento privado. Pois é, e eis que o “Prefeitura” fica postando figurinha com a cara do prefeito, só pra fazer piada em qualquer ocasião, rs.

Mudando de assunto, vamos pra algumas coisas que andei achando por aí semana passada e algumas reflexões que fiz sobre a atualidade:















Inusitada notícia velha (se é que assim podemos chamar, pelo tamanho) que achei por acaso no Völkischer Beobachter curitibano, bem antes dele se tornar isso aí. Nota: a invasão ruSSa à Geórgia “só” ocorreria em 2008, rs.


Caramba, o youtuber faz uma baita pesquisa pra comentar os protestos recentes no Peru na Turquia e consegue trocar a sigla do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, não posso acreditar!!!

E bora comemorar o fim de mais um mês desse 2025, rs: