quarta-feira, 21 de agosto de 2019

História do PCB feita deliberadamente


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Com esta postagem, estou começando a publicação de trabalhos de mestrado e doutorado meus, entregues no final de cada matéria cursada. São textos importantes, pois não publiquei nenhum ainda aqui no blog, e consistem nas minhas formas mais elaboradas e avançadas de textos acadêmicos antes de fazer minha dissertação. Eles me levaram a pensar minha própria pesquisa ou matriz teórica, relacionando os autores lidos em cada semestre com meu objeto de investigação. Hoje quero homenagear um dos melhores professores que eu tive, o Dr. Edgar Salvadori De Decca, que lecionou a matéria “Tópicos em Teoria da História I”, que reunia pós-graduandos de todos os níveis e áreas, mas foi depois tirada da grade. O texto se chamou A 3.ª Conferência dos Partidos Comunistas da América do Sul e Central, ou como a história é deliberadamente construída, entregue em julho de 2014 e um dos principais gatilhos à minha reflexão do mestrado. Eu relacionei esse evento pouco conhecido na história do comunismo latino-americano e mundial com obras de Aleida Assmann, Paul Veyne e do próprio De Decca, falecido em 2016. Não fiz nenhuma alteração, apenas atualizando a ortografia ou redação:

As análises historiográficas tradicionais sobre atividades humanas têm levado mais em conta as representações que as personagens fazem de si mesmas e de seus atos do que os resultados práticos obtidos e seus impactos posteriores. Empreendimentos políticos, artísticos, científicos e espirituais se tornam objeto acadêmico não após serem perscrutados de uma perspectiva externa, com os instrumentos teóricos, metodológicos e empíricos do historiador, mas pela transformação acrítica em fato dado dos julgamentos que as grandes personalidades ou os “excluídos da história” fizeram durante esses eventos ou tempos depois, sob o incurso de outras experiências. Em casos mais graves, misturam-se os resultados superficiais com julgamentos de valor baseados em categorias estranhas ao objeto de estudo, gerando conclusões pouco úteis para uma compreensão que auxilie a intervenção eficaz na realidade. Ultrapassagem do que é imediatamente visualizável e uso moderado das impressões e vivências pessoais como recursos explicativos são desafios ainda caros à historiografia.

No estudo da história do comunismo soviético, (1) objetivismo e subjetivismo partiam de um desconhecimento justificado pelo longo isolamento da União Soviética, pelo temor fóbico que ela despertava nas elites estrangeiras, pela clandestinidade e redução de materiais escritos a que a repressão submeteu os comunistas ao redor do mundo e pelo desconhecimento do russo, a língua estatal de um país multicultural. A necessidade do historiador, carente de arquivos, de limitar-se ao escasso material impresso acessível e aos poucos contatos que conseguia, e de bater-se contra preconceitos que, por vezes, terminava assimilando, tornava a pesquisa delicada, e os resultados, parciais. Não que às raras fontes escritas e orais faltasse uma lógica própria útil para outras pesquisas, mas a desintegração da União Soviética arejou os estudos especializados no sentido de fornecer um enorme acervo documental inédito e de possibilitar uma influência menor das disputas ideológicas. (2)

Neste trabalho, relacionarei as obras de alguns autores discutidos no curso de Tópicos em Teoria da História I, além de outros autores que decidi acrescentar, com questões despertadas pelo tema de minha pesquisa, a participação dos comunistas brasileiros na 3.ª Conferência dos Partidos Comunistas da América do Sul e Central, promovida em Moscou pela 3.ª Internacional entre os dias 16 e 28 de outubro de 1934. Tentarei problematizar a naturalidade com que essa “Terceira” Conferência foi mencionada por alguns historiadores, ressaltando o fato dela não ter constituído uma continuidade orgânica das outras “duas” e me apoiando nas discussões sobre como os conceitos de “memória” e “história” são usados na construção ou manipulação de identidades, marcos temporais e personagens “exemplares” ou “abomináveis”. Reproduzirei algumas análises bibliográficas já feitas no projeto de pesquisa e limitarei outras referências ao necessário para observações pontuais.

A Internacional Comunista, ou 3.ª Internacional, foi fundada por Lenin em 1919 para congregar os partidos radicais que, em vários países, progressivamente saíam da 2.ª Internacional social-democrata e se alinhavam aos bolcheviques, governantes na Rússia desde 1917. (3) Ela se definia como o “Partido Comunista mundial unificado”, “líder e organizadora do movimento revolucionário mundial do proletariado”, que lutava, entre outras coisas, “pela formação de uma União Mundial de Repúblicas Soviéticas Socialistas” e “pelo estabelecimento do socialismo, primeiro estágio da sociedade comunista”. (4) O órgão decisório máximo era o Congresso ou, entre um congresso e outro, o Comitê Executivo, havendo ainda os órgãos para mulheres, sindicatos, cooperativas, jovens, esportistas, camponeses e de socorro mútuo. Os cambiantes secretariados para diversas regiões do mundo, de composição e divisões inescrutáveis nos limites dos livros e periódicos públicos, surgiram em 1922 como agrupamentos dos representantes dos partidos no Comitê Executivo conforme seus idiomas, e do grupo latino-americano resultou o que seria, entre 1928 e 1935, o Ländersekretariat Latino-Americano, do qual se desdobraria o Birô Sul-Americano em 1929. (5)

Fundado em 1922, o PCB era a “Seção Brasileira da Internacional Comunista” desde sua admissão no organismo, em 1924. Mesmo ilegal e perseguido no Brasil, participou dos congressos da Internacional e manteve uma direção estável até 1929, quando a nova linha radical imposta por Moscou, de combate à social-democracia, causou a queda dos fundadores e a instabilidade na liderança. Desde 1933, porém, pressionava-se a cúpula da 3.ª Internacional a realizar alianças mais flexíveis, com base em frutuosas experiências vigentes na Europa, e começou então a delinear-se a nova linha das “frentes populares” com outras forças de esquerda, viragem considerada atrasada por muitas delas em vista dos êxitos da extrema-direita no continente. Para ratificar a mudança, a Internacional tinha marcado seu 7.º Congresso para 1934, que terminou adiado para julho de 1935, devido à resistência de muitos Partidos em secundar as “frentes populares”. Sem tempo de serem remarcadas as conferências regionais prévias, aproveitou-se a presença dos delegados latino-americanos, incluindo dirigentes comunistas brasileiros, para realizar-se, de 16 a 28 de outubro, a chamada 3.ª Conferência dos Partidos Comunistas da América do Sul e Central, em que se fez um balanço do movimento revolucionário e operário na região e buscaram-se definir as prioridades dos Partidos em cada país. O 7.º Congresso da Internacional ocorreu finalmente em julho-agosto de 1935, com a maioria das seções convencida a centrar fogo num fascismo já transformado em força importante na Europa. (6)

Um número da revista The Communist International, da própria Internacional, traz um artigo sobre os “resultados” da III Conferência ‒ dada como ocorrida no Uruguai, e não em Moscou ‒ e uma transcrição, certamente editada, do informe de Antônio Maciel Bonfim (citado pelo codinome “Queiroz”), então secretário-geral do PCB. (7) A tradução de um famoso manual soviético de história da 3.ª Internacional dedica um mero parágrafo à “conferência conjunta” dos “partidos comunistas da América Latina”. (8) Cópias em microfilme das atas taquigráficas da participação brasileira na 3.ª Conferência, que mencionam claramente Moscou, foram trazidas para o Brasil no início dos anos 1990 e estão depositadas no Centro de Documentação e Memória da UNESP e no Arquivo Edgard Leuenroth da Unicamp. Anita Leocadia Prestes as menciona em livro de 1997 e em artigo, específico sobre o evento, de 2006, (9) dos quais, porém, assim como na revista da Internacional, estão ausentes as outras “duas” conferências. O que teria sido delas? A revista La Correspondencia Sudamericana, do “Secretariado Sul-Americano” da 3.ª Internacional, publicou os debates da “Primeira Conferência Comunista Latino-Americana” (Buenos Aires, 1.º-12 de junho de 1929), dos quais vários discursos e informes foram “reconstruídos ou revisados pelos próprios autores” ou “cuidadosamente controlados” pelo secretariado. (10) O manual soviético relata brevemente a “1.ª Conferência” no segundo volume (pp. 119-120) sem mencionar fontes, mas ignora a “Segunda”. Para Marcos Del Roio, que nada cita, “2.ª Conferência” teria sido, na verdade, um nome posterior dado a um pleno ampliado do “Secretariado Sul-Americano” ocorrido em Buenos Aires, em maio de 1930. (11) Outras obras famosas, limitadas às revistas da Internacional e que aguardam revisão, não relacionam a 3.ª Conferência a qualquer antecedente (Vianna), consideram-na apenas “suposta”, na falta de uma “2.ª Conferência” (Pinheiro e Canale), ou sequer a mencionam (Waack). (12) Ainda consultei poucas obras sobre o comunismo latino-americano ou internacional que façam alguma referência aos eventos.

Não quero perscrutar aqui as “três” conferências comunistas latino-americanas, mas ressalto que, apesar das referências serem dispersas e pouco documentadas (em parte, os historiadores usaram também relatos orais), reputa-se grande importância à “Terceira” no que toca o PCB, pois teria marcado o início da virada, com muitos percalços, rumo à futura política de “frentes populares”, quando no Brasil o movimento antifascista já tinha alcançado grande força e repercussão. (13) A conferência é certamente importante como um capítulo das relações entre a 3.ª Internacional e sua seção brasileira e da complicada passagem dos comunistas brasileiros à priorização da luta contra o fascismo. Mas pode-se contestar sua organicidade com as outras duas “antecedentes”, pois as três não parecem ter se completado mutuamente ou guardado semelhanças estruturais suficientes, enquanto a “Terceira”, embora não demonstre traços patentes de improviso, deve ter sido planejada como um simples encontro regional prévio, e não como uma nova “Conferência Comunista dos Países da América do Sul e Central”. Por não ter havido propriamente a “2.ª Conferência”, e considerada a cambiante estrutura da Internacional, não parece lícito sequer falar em “irregularidade” nas realizações (1929, 1930 e 1934), mas mesmo que o fosse, também se deveria levar em conta que o início dos anos 1930 foi um período politicamente difícil no Brasil e no resto do mundo, por conta da ascensão do nazifascismo. Isso deve ter atrapalhado reuniões grandes e regulares das esquerdas, como o demonstra a realização do 5.º Congresso da Internacional em 1924, do sexto em 1928 e do sétimo, previsto apenas em 1934 e ainda adiado pra 1935.

Portanto, não me parece possível falar facilmente numa “3.ª Conferência Comunista Latino-Americana”, de forma que o leitor leigo supusesse naturalmente a continuidade e regularidade entre a “1.ª Conferência”, a “Segunda” e a “Terceira”. Os autores da bibliografia secundária estão cientes disso, mas o que a 3.ª Internacional e seus órgãos regionais buscavam deixar à posteridade? Podemos supor o que reservavam aos contemporâneos: a indicação da conferência como ocorrida em Montevidéu ‒ segundo Marly Vianna, “por questões de segurança” ‒ (14) teria relação com o duro contexto político da América Latina? A polícia poderia, assim, realizar buscas nessa cidade e não achar nada nem ninguém, ou havia na falsa referência a sugestão de um evento mais nacional ou regional, e não submisso a Moscou? Tudo isso demonstra que a história, longe de encerrar fatos dados que bastariam ser descortinados em sua “verdade objetiva” e explicados causalmente, é uma construção arbitrária moldada tanto pelas próprias personagens, no desejo de deixar ao futuro sua própria seleção de “resquícios” e sua interpretação deles, quanto pelos historiadores, com suas distintas narrativas, mas sempre indo além desses desconfiáveis “resquícios”.

A história e a historiografia do comunismo soviético podem ser muito bem pensadas como conjuntos parciais de objetos deixados pelo passado ou recolhidos pelo presente/futuro e sobre os quais se sucedem constantes releituras que baseiam narrativas condicionadas pelos pressupostos ideológicos ou vivenciais dos escritores. Eric Hobsbawm, por exemplo, não nega a existência de fatos ou de uma realidade objetiva, mas assevera que o objeto da história, inseparável da historiografia, não passa de uma seleção minúscula de coisas infinitas que a humanidade deixou em seu percurso, e que os relatos resultantes são interpretações e montagens de amostras escolhidas de dados verificáveis que incluem tanto o ocorrido quanto o que as personagens pensavam dele. (15) Já Paul Veyne dá muito mais ênfase à intervenção ativa do historiador na construção dos relatos (as “narrativas”), que seriam delimitados pelas informações que contêm e pelo contexto mais amplo em que elas estão inseridas, mas os quais seguiriam lógicas próprias de formação, geralmente lacunares, pois os “indícios” de que se servem nem sempre têm encadeamento lógico. Em cada narrativa, os acontecimentos recortariam arbitrariamente o infinito “campo factual objetivo”, e apenas dentro deles os fatos teriam sentido, encadeados em tramas cuja “lógica” não seria a cronologia, mas fatos sociais totais, cruzamentos de preocupações referentes aos vários domínios da vida humana (tradições, religião, comércio etc.). (16) Aleida Assmann, por sua vez, destaca os trabalhos da memória, de atribuições de sentido e de invenção de identidades como inseparáveis da escrita da história, e não pensa num passado mudo influenciando o presente, mas no segundo selecionando e ressignificando resquícios do primeiro para formar aquilo que é num dado momento considerado como “o” passado. (17) No universo comunista, essa seletividade pode atuar de duas formas. Por um lado, os militantes outrora ou ainda perseguidos, quando indagados por historiadores, selecionam os fatos expostos, conforme critérios de segurança ou de incômodos pessoais ou sentimentais. E por outro lado, os Partidos Comunistas, governantes ou não, criam e recriam mitologias, heróis, vilões e leituras do passado seguindo as vicissitudes do governo ou da direção. Pode-se pensar também no que mudou nas falas dos participantes da 3.ª Conferência ao serem passadas para as atas, e destas às versões públicas, como o informe do secretário-geral do PCB. Todas essas transformações, obviamente, têm lógicas próprias ou não têm uma “lógica” como a entendemos comumente.

Como dito acima, a seletividade, deliberada ou imposta, não é apenas um trabalho da história profissional, mas também da vivência e da recordação dos fatos pelas personagens, e por isso ela também é um assunto de memória, entendida em todas as suas acepções e domínios. Jacques Le Goff aproxima os modos de operação das memórias “individual” e “coletiva” dentro da mesma atividade de formação de identidades, destacando os danos e perdas que certos eventos podem lhes causar e o papel não apenas da recordação, com suas celebrações em suportes orais e escritos, mas também do esquecimento ‒ especialmente a damnatio memoriae de personalidades incômodas ‒, seja ele involuntário, seja imposto a si mesmo ou pelo poder político. (18) Assmann preferiu subsumir as tradicionais divisões entre “memória individual” e “memória coletiva”, e entre “história” como um repositório neutro e universal de informações e “memória” como o processo vivo e parcial da lembrança e do esquecimento, a dois “modos da recordação” em mútuo contato, aos quais chama de “memória funcional” e “memória cumulativa”. O primeiro modo consistiria na construção viva, grupal e seletiva de valores nacionais, políticos, contestatórios ou distintivos, orientada para o futuro e baseada no resgate ativo, na ocultação pura e simples ou na atribuição de significados aos resquícios materiais ou imateriais do passado. O segundo modo descreveria o infinito repositório passivo desses resquícios, que perderam a “relação vital com o presente”, podem ser recuperados com outros sentidos e não se movem ou se apresentam naturalmente, mas devem ser perscrutados, especialmente por instituições de preservação cultural. (19) A 3.ª Conferência deixou uma escassa memória pública impressa, e seus participantes, raramente indagados ou preocupados em deixar impressões escritas sobre ela, certamente submeteram as lembranças vividas a mutações naturais ou mesmo releituras por meio do acréscimo de novos dados assimilados ao longo da vida, alguns inclusive escapados à época dos eventos. Mesmo assim, os poucos fragmentos dos livros de memórias de comunistas brasileiros e estrangeiros poderão ser unidos à documentação primária atualmente aberta para a reconstituição da conferência, ainda que parcial, pelos historiadores de hoje e seus valores próprios.

Urge pontuar que não apenas as lembranças são selecionadas ou descartadas, mas também os resquícios materiais do passado, particularmente os objetos centrais da escrita histórica, os documentos. Selecionados, segundo Le Goff, pelos critérios do próprio historiador ou pelas vicissitudes que lhes permitiram sobreviver, os documentos foram longamente confundidos com os monumentos da lembrança, do espírito de grupo e da atividade de poder. A partir da segunda metade do século XX, a crítica documental deslocou o foco da noção de conteúdo “falso” ou “verdadeiro” para as condições de produção, intencionalidades, características externas e relações entre conjuntos de documentos, tornados “documentos/monumentos” por sempre dizerem algo quando indagados. (20) Além disso, a “imaginação”, numa certa medida, foi valorizada na reconstituição de acontecimentos por meio de poucos fragmentos desconexos que restaram do passado. (21) Lidando com as mídias e seus suportes de capacidade e durabilidade diversas, Assmann prefere aplicar aos resquícios do passado as categorias de arquivo, lugares de memória especiais onde se produz o passado conforme interesses prementes e técnicas disponíveis, e de lixo, o que é oficialmente descartado, mas pode depois ser recuperado com outros significados, constituindo fonte primordial das “histórias de excluídos”. (22) A abertura dos arquivos estatais e partidários em Moscou provocou um salto de qualidade na historiografia do comunismo soviético por reduzir-lhe a dependência de revistas oficiais, depoimentos, cartas, livros de memórias e outras produções militantes públicas. Entretanto, novos avanços dependem ainda de uma leitura menos empirista do material e da facilitação do acesso ao que hoje é público, incluindo a totalidade da documentação sobre a 3.ª Conferência, já que vieram ao Brasil em microfilme apenas as intervenções dos brasileiros, e não de outros participantes. Além disso, deve-se considerar que a documentação de partidos ocasionalmente perseguidos, sujeita a conservação malfeita, destruição policial, doação seletiva pelos detentores do material e outros destinos, torna o estudo deles uma “história das lacunas”, as quais o historiador deve preencher com conhecimento prévio, junção de pistas dispersas ou até mesmo imaginação e suposição.

Para Hobsbawm, por não conseguirmos conhecer todo o passado, a inovação em grupos e sociedades surgiria dos “interstícios” escapados à “história consciente”, das “fendas” de desconhecimento que impediriam a repetição ou a imutabilidade do passado ‒ ao contrário da idéia comum de que esquecer o passado é condenar-se a repeti-lo. Não existiriam sociedades ou grupos tão estáveis ou isolados que jamais mudassem, ainda que essa mudança seja mais lenta e menos visível para os padrões urbanos modernos, ou que ela se realize apenas para conservar os velhos padrões de fundo. (23) Apoiando-se na distinção que faz entre os dois “modos da recordação”, Assmann atribui à “memória cumulativa” o papel de “depósito de provisões” ou instrumento de correção manejado pelas diversas “memórias funcionais”, que assim se renovariam na contramão de bloqueios políticos, fundamentalistas ou de censura. Em outras palavras, o livre acesso à informação e aos arquivos públicos seriam condições essenciais para a transformação e a crítica das sociedades, para a existência da cultura e para a manutenção de qualquer democracia. (24) De forma parecida, os Partidos Comunistas suprimiram a crítica e edificaram mitologias nos momentos de estabilidade, enquanto favoreceram a investigação empírica do passado e se aproximaram da historiografia acadêmica nos períodos de crise, rejeitando os grandes mitos e o anti-intelectualismo.

O débito social do historiador é maior do que nas chamadas “ciências naturais e exatas”, pois o uso a ser dado ao conhecimento está muito mais imbricado com sua produção, o que aumenta sua responsabilidade diante de pressões grupais ou institucionais. Hobsbawm lembra que o historiador, trabalhando apenas com “experiência e tendência históricas”, não deve gerar certezas no conhecimento do passado e do futuro, mas dizer com mais frequência “Não foi assim” ou “Não sei como foi” do que “Assim foi e sempre será”. Por isso, seu pior conluio é aquele com ideologias, grupos fechados ou nacionalidades forjadas, que o descartam ou mesmo o hostilizam quando ele não faz o jogo do poder. (25) É grande, pode-se dizer com Le Goff, a tentação do historiador em participar da manipulação da memória para fins políticos e de sua materialização em museus, exposições, medalhas e outros instrumentos. (26) A análise dos partidos e dos regimes comunistas esteve a cargo de militantes comuns, ex-militantes, historiadores militantes ou não comunistas e até mesmo escritores anticomunistas, cada um com seus compromissos e pressupostos. Eles selecionaram diferentes fatos, aspectos, decisões políticas e recortes temporais, produzindo uma bibliografia laudatória, excessivamente detratora ou que apenas reproduz as leituras dos participantes dos eventos ou dos observadores externos da época. Parafraseando Le Goff, (27) o estudo da 3.ª Conferência jamais será imparcial ou neutro, como deve ser honestamente admitido, mas o compromisso com a objetividade, ou uma verdade em que os fatos, em última instância, são modelados pelo historiador, ainda que não submissos às suas fantasias, exige ultrapassar as poucas referências documentadas, preconceitos e visões unilaterais, relacionar a conferência a outros eventos e inseri-la nos cruzamentos dos contextos políticos brasileiro, soviético e mundial para buscar as “verdades parciais”, progressivamente retificadas, sobre seu lugar na história do movimento comunista internacional, num processo que jamais termina.

Como todos os intelectuais que visaram escrever história, os comentadores do comunismo soviético sempre buscaram traçar-lhe antecedentes ou origens e organizá-lo num tempo dividido em dias, meses, anos e décadas sucessivos. Hobsbawm aponta dois importantes “usos sociais do passado” peculiares do “Ocidente”: o genealógico, que procura origens, quase sempre inexistentes, num passado glorioso que cubra lacunas ou fatos incômodos, e o cronológico, que tenta montar relatos ordenados sobre o passado que legitimem ‒ por ser a cronologia nossa maneira de entender o tempo ‒ grandes exemplos ou mesmo mitos e diferenciem bem as circunstâncias entre passado e presente. (28) Nos Partidos Comunistas e na 3.ª Internacional, impacto da inovação e mitificação do passado se relacionavam quando as viragens táticas, em geral, abalavam a estabilidade dos dirigentes do momento, e muitas vezes eram baseadas em exemplos passados ou em lugares díspares, como os “sovietes” e a “revolução democrático-burguesa” da Rússia, a aliança com a “burguesia nacional” da China e as “frentes populares” da França e da Espanha. Também se destacam a presumida ligação direta de Stalin com Lenin e deste com Marx e Engels, e a ligação que os primeiros comunistas brasileiros se arrogavam com antigos lutadores sociais, e não, por exemplo, com anarquistas e socialistas, o que os forçava, sem precedentes gloriosos e com fins de diferenciação, a antes clamar de onde eles não vinham do que de onde eles vinham. A cronologia também importa no modo comunista de pensar a história como sucessivos “modos de produção”, “regimes sociais”, “primeiro, segundo e terceiro períodos de desenvolvimento capitalista”, “primeira, segunda e terceira revoltas” (decalcadas das Revoluções Russas), linhas táticas de um Partido ou mesmo congressos, plenos e conferências, como demonstrado na tentativa de criar antecedentes que localizassem a “3.ª Conferência” numa cronologia.

Problematizar a noção de “3.ª Conferência” não implica cortar qualquer ligação com suas “antecedentes” ou mesmo excluí-la do sistema geral de encontros deliberativos em que a 3.ª Internacional funcionava. Como sugere Hobsbawm, a mudança histórica existe, mas jamais é radical ou absoluta, e o historiador deve desvendar-lhe os padrões, levando em conta simultaneamente os grandes esquemas e abrangências gerais da trajetória humana e as singularidades de cada evento ou época como variáveis dentro deles, e nestas distinguir o que decorre de fatores objetivos, especialmente econômicos e sociais, e o que advém da “decisão humana consciente”. (29) A própria viabilidade da 3.ª Conferência como um objeto histórico, para seguir Le Goff, relaciona-se a seu caráter particular, não confundido com “individual”, na medida em que possui sua lógica interna, mas só tem sentido ao lado das outras “conferências”, encadeadas não por leis, mas por regularidades, e não sendo totalmente iguais nem totalmente diferentes entre si. Sua periodização reflete a ausência de “pura imobilidade” ou “pura mudança” na história, mas apenas o historiador é consciente de seu uso arbitrário para entender melhor as mudanças significativas realmente importantes para o estudo. (30) Veyne, por sua vez, ao distinguir “fatos” ‒ independentes da visão humana ‒ de “eventos” ‒ recortados pelo historiador entre fatos minimamente regulares e apreendidos de forma incompleta e indiciária ‒, ressalta a singularidade dos “eventos”, objetos por excelência da história, que, apenas por não estarem juntos no tempo, jamais são iguais, embora possam ser subsumidos em categorias mais amplas: (31) a grande categoria de três conferências distintas. Veyne, porém, é o menos propenso a pensar em grandes esquemas funcionando na história.

A espinha dorsal das periodizações são os marcos históricos, uns mais importantes do que outros, mas sempre dividindo arbitrariamente a história em diversos “antes” e “depois”. A Revolução Russa de Outubro, a fundação do PCB em 1922 e a viragem da 3.ª Internacional rumo às “frentes populares” em 1935 são apenas alguns dos que eram certamente estimados pelos comunistas brasileiros. Le Goff associa a prática às inevitáveis posturas para com o futuro, sempre visto como sinônimo de “inovação” e “situação mais desejável” pelos movimentos autodenominados revolucionários, embora rejeite a “definição oficial da História Contemporânea”, que separaria o passado do presente e reservaria os estudos históricos apenas ao primeiro. (32) Escrevendo sobre a Revolução de 1930 no Brasil e seus antecedentes históricos, Edgar De Decca atribui a escolha de marcos históricos não a supostas características naturais dos dois períodos que eles cindem, mas a disputas e imposições políticas às quais o historiador acaba submisso e que o coagem a não opinar sobre o presente contestado, mas apenas sobre um passado que os grupos dominantes supõem pacificado. De Decca critica exatamente a separação forçada entre academia e sociedade, e convoca os cientistas sociais não a “preencherem com ciência” as supostas “lacunas” no discurso ideológico do poder, mas a fazerem esse discurso cair em suas próprias contradições, a começar aquela segundo a qual o “antes” e o “depois” na história oficial seriam etapas absolutamente distintas. (33) A bipartição cronológica arbitrária pode chegar a extremos pitorescos, como no caso da famosa canção soviética de propaganda estatal dos anos 1930, “A vida ficou melhor”, segundo a qual na era Stalin, “Se você notar, até o sol está mais radiante”.

Se a história, conforme os marcos políticos, possui um “antes” absolutamente diferente e menos valoroso do que o “depois” redentor e modernizante, logo a construção do passado a que me referi nos outros parágrafos deve legar à posteridade os vencedores, que protagonizaram as mudanças e personificam os novos valores, e os vencidos, que teriam parado no tempo e encarnado o “rejeitável”, o “reacionário”, o “imobilista”. De Decca ataca as análises tradicionais de esquerda que estariam fazendo o jogo do poder ao considerar o Brasil, pelos moldes da Europa, como “atrasado”, “estagnado” ou “desviado”, silenciando as vozes e a dinâmica da própria classe operária, tornada nos livros um ente abstrato e uniforme. O conceito mesmo de “revolução democrático-burguesa” adotado pelo PCB e difundido entre os intelectuais teria sido um dispositivo prejudicial, por ter sido arrancado de sua historicidade, extraído a partir de Lenin ‒ o qual, segundo De Decca, já teria diminuído a importante questão da liderança proletária nessa revolução ‒, inspirado práticas políticas conciliatórias e fixado a Revolução de 1930 como um fato dado de “revolução burguesa” e “luta de classes”, e não com sua real função de mascaramento dessa luta. O estabelecimento de um marco “revolucionário” em 1930, assim como em outros casos na história, teria significado, portanto, o apagamento de outras propostas “revolucionárias” no consenso daqueles que conquistaram o poder, num fazer histórico que deve ser avaliado, dentro de sua própria lógica, não por ser mais ou menos “real”, mas por sua eficácia em comparação com discursos contemporâneos semelhantes. O Bloco Operário e Camponês, partido legal impulsionado pelo PCB, teria participado dessa montagem fornecendo parte da linguagem “revolucionária” com sua proposta “democrático-burguesa”. (34) A longa história do antifascismo comunista que culminou no 7.º Congresso da 3.ª Internacional também se forjou na promoção de “vencedores” e “vencidos”. A União Soviética sempre se considerou o alvo principal da extrema-direita mundial, porém sabe-se que começou apenas a centrar forças contra ela quando outros grupos progressistas e de esquerda, simplesmente apagados na categoria genérica de “frentes populares”, estavam muito mais empenhados nisso. A viragem tática e, por extensão, a 3.ª Conferência latino-americana ocorreram num momento em que o nazifascismo, secundado pela vista grossa das potências capitalistas, estava politicamente reforçado e com amplo apoio de massas, e não ajudaram a impedir, portanto, a ascensão do Estado Novo brasileiro ou a Segunda Guerra Mundial. O monopólio comunista da epopeia antifascista me parece um dos discursos históricos mais eficazmente construídos.

Da escrita de um relato histórico deixado para a posteridade à criação de um mito eternizado nos círculos políticos contestadores é apenas um passo. A chamada 3.ª Conferência dos Partidos Comunistas da América do Sul e Central, com suas poucas referências bibliográficas e uma documentação ainda pouco explorada, parece ser um capítulo desconhecido, mas importante, no intento da União Soviética, da 3.ª Internacional e de suas seções nacionais em se alçarem como vanguardas antifascistas dos anos 1930. O PCB, dividido entre a defesa dos oprimidos locais contra um Estado autoritário e a luta por difundir a primeira revolução socialista exitosa da história, fatigou-se na busca em conciliar as duas tarefas, mesmo quando elas não pareciam ter qualquer contato, e deixou-se arrastar pelo fervor político que não dessacraliza as celebrações oficiais, as grandes personalidades e as narrações edificantes. Mas este papel não era seu de forma alguma, e sim do historiador de hoje, que deve se aproveitar da distância maior com relação ao século 20, do relativo crescimento documental e do fim da simples clivagem geopolítica entre capitalismo e comunismo. Obviamente ele não está livre de compromissos ocultos, dos quais, porém, deve estar criticamente consciente, e sabendo que o fruto de seu trabalho será sempre condicionado, cabe-lhe também desnaturalizar os fatos históricos reputados como dados incontestáveis e anteriores à nossa observação. E espero ter justamente colaborado, neste trabalho, para mostrar que o estudo da 3.ª Conferência oferece muito mais desafios do que supõe a documentação fria e austera, a começar pela ausência de uma linha contínua que a precedesse, a qual, como escrevi, foi em parte inventada pelo movimento comunista internacional para ser pressuposta no futuro. Eram os mesmos comunistas que buscavam se inventar, pois outros poderiam “inventá-los” com consequências muito mais perigosas.


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LENIN, Vladimir Ilich. Polnoie sobranie sochinenii [Obras completas]. 5. ed. V. 38. Moscou: Izdatelstvo politicheskoi literatury, 1969.

MORAES, João Quartim de; REIS FILHO, Daniel Aarão (Orgs.). História do marxismo no Brasil. 2. ed. rev. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2003. (V. I. “O impacto das revoluções”.)

PROGRAMMA i Ustav Kommunisticheskogo Internatsionala [Programa e Estatutos da Internacional Comunista]. 2. ed. Moscou: Partiinoie izdatelstvo, 1932.

PRESTES, Anita Leocadia. A Conferência dos Partidos Comunistas da América do Sul e do Caribe e os levantes de novembro de 1935 no Brasil. Crítica Marxista, Campinas, SP, n. 22, maio 2006, pp. 132-153.

______. Luiz Carlos Prestes e a Aliança Nacional Libertadora: os caminhos da luta antifascista no Brasil (1934/35). São Paulo: Brasiliense, 2008 (originalmente em 1997).

RIDENTI, Marcelo; REIS, Daniel Aarão (Orgs.). História do marxismo no Brasil. 1. reimpr. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2007. (V. 5. “Partidos e organizações dos anos 1920 aos 1960”.)

ROMANO, Ruggiero (Dir.). Enciclopédia Einaudi. Tradução portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984. (V. 1. “Memória-História”.)

SOBOLEV, Aleksandr (Dir.) et al. A Internacional Comunista. Tradução portuguesa. 3 v. Lisboa: Avante, 1976-1977.

TAVARES, José Nilo (Org.); CANALE, Dario; VIANA, Francisco. Novembro de 1935: meio século depois. Petrópolis: Vozes, 1985.

VEYNE, Paul Marie. Como se escreve a história; Foucault revoluciona a história. Tradução de Alda Baltar e Maria Auxiliadora Kneipp. Brasília: Editora UnB, 1982.

VIANNA, Marly de Almeida Gomes. Revolucionários de 35: sonho e realidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

WAACK, William. Camaradas: nos arquivos de Moscou: a história secreta da revolução brasileira de 1935. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

Periódico: The Communist International, Moscou.

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Notas (clique no número pra voltar ao texto)

(1) Nos limites deste trabalho, chamo de “comunismo soviético” a doutrina oficial de Estado inspirada nas ações e escritos políticos de Lenin e Stalin, evitando a polêmica sobre as relações entre os dois líderes ou suas interpretações de Marx e Engels. Quanto à preferência por “comunismo” a “socialismo”, sigo a tradição de pesquisa sobre a União Soviética e sobre os socialistas que não aderiram à 3.ª Internacional, bem como ‒ ciente dos limites da autodenominação ‒ o que disse Lenin em 1919: “os traidores do socialismo [referência à social-democracia após 1914] desonraram a velha palavra ‘socialismo’. Os trabalhadores ainda fiéis à missão de derrubar o jugo do capital hoje se autodenominam comunistas.” Cf. “A 3.ª Internacional, Comunista” (discurso gravado em disco). In: Obras completas, v. 38, p. 231 (em russo). Todas as traduções são livres.

(2) A primeira parte do livro Le siècle des communismes, coletânea dirigida por Michel Dreyfus, Serge Wolikow e outros, denomina-se “Les interprétations des communismes” (pp. 21-130) e traz quatro ótimos balanços historiográficos da produção anterior e posterior à abertura dos arquivos soviéticos, a respeito dos conceitos de totalitarismo e stalinismo, das interpretações francesas do comunismo soviético, dos comunistas na França e na Itália e do movimento comunista internacional.

(3) Vale lembrar que a formação do Partido Comunista do Brasil (PCB) em 1922 se deu não pela cisão de um partido socialista adepto da 2.ª Internacional, mas após a unificação de pequenos grupos “maximalistas” dispersos, fundados sob o impacto da Revolução de Outubro. Descontada a adoção da própria visão posterior adotada pelo PCB, ver Marcos DEL ROIO, O impacto da Revolução Russa e da Internacional Comunista no Brasil. In: J. Q. MORAES e D. A. REIS FILHO (orgs.), História do marxismo no Brasil, v. I, pp. 67-90.

(4) “Estatutos da Internacional Comunista” (adotados em seu VI Congresso, em 1928). In: Programa e Estatutos da Internacional Comunista, p. 179 (em russo).

(5) Annie KRIEGEL, Les Internationales Ouvrières (1864-1943), especialmente p. 111 ss., permanece uma boa referência rápida ao funcionamento da 3.ª Internacional, mesmo com a vasta bibliografia recente. Um mapa completo da organização está em G. M. ADIBEKOV, E. N. SHAKHNAZAROVA e K. K. SHIRINIA, A estrutura organizacional da Komintern. 1919‒1943 (em russo), especialmente p. 137 ss. (mudanças entre o VI e o VII Congresso). Mais delimitado é Peter HUBER, L’appareil du Komintern, 1926-1935: premier aperçu, Communisme, n. 40-41, pp. 9-52. Marcos DEL ROIO, op. cit., sem citar fontes (provavelmente as publicações da Internacional disponíveis no Brasil), fala no desdobramento de um Secretariado Sul-Americano a partir de um Secretariado Latino em 1924 e de sua conversão em Birô Sul-Americano por volta de 1930 (pp. 91 e 103).

(6) Em meio à vasta bibliografia sobre o PCB, os seguintes artigos (em ordem cronológica) oferecem bons resumos sobre o período aqui abordado ou apresentam os resultados de pesquisas em fontes pouco exploradas: Marcos DEL ROIO, op. cit.; Anita Leocadia PRESTES, A Conferência dos Partidos Comunistas da América do Sul e do Caribe e os levantes de novembro de 1935 no Brasil, Crítica Marxista, n. 22, maio 2006, pp. 132-153; Marcos DEL ROIO, Os comunistas, a luta social e o marxismo (1920-1940). In: M. RIDENTI e D. A. REIS (orgs.), História do marxismo no Brasil, v. 5, pp. 11-72; Marcos DEL ROIO, A gênese do Partido Comunista (1919-29); Roberto Mansilla AMARAL, Astrojildo Pereira e Octávio Brandão: os precursores do comunismo nacional; Marly de Almeida Gomes VIANNA, O PCB: 1929-43. In: J. FERREIRA e D. A. REIS (orgs.), A formação das tradições (1889-1945), respectivamente pp. 223-248, 249-272 e 331-363.

(7) Struggles of the Communist Parties of South and Caribbean America. The Results of the Third Conference of the Communist Parties of South and Caribbean America; KEIROS, The Eve of Revolution in Brazil, The Communist International, n. 10, 20 de maio de 1935, respectivamente pp. 564-576 e 577-588. Sou grato ao Prof. Dainis Karepovs pela gentil concessão das cópias digitalizadas dos dois artigos.

(8) Aleksandr SOBOLEV (dir.) et al., A Internacional Comunista, v. 3, p. 37. Há apenas uma referência em nota de rodapé à edição russa (número 9) dos artigos mencionados, mas com o título da revista em português.

(9) Luiz Carlos Prestes e a Aliança Nacional Libertadora: os caminhos da luta antifascista no Brasil (1934/35); A Conferência dos Partidos Comunistas..., op. cit. A. L. Prestes, como visto na nota 6, adota no artigo o nome “da América do Sul e do Caribe”, também presente na revista The Communist International, enquanto nas próprias atas está “da América do Sul e Central” e, no resto da bibliografia, há uma grande variedade de nomenclaturas.

(10) AA. VV., El movimiento revolucionario latino americano: versiones de la Primera Conferencia Comunista Latino Americana, Junio de 1929, especialmente o prefácio “Dos palabras”, p. 3. Agradeço ao Prof. Michael Hall por ter amigavelmente emprestado uma fotocópia do livro.

(11) O impacto da Revolução Russa..., op. cit. pp. 101, 103 e 107, e nota 48 (na qual o pleno é datado de junho).

(12) Marly de Almeida Gomes VIANNA, Revolucionários de 35: sonho e realidade; Paulo Sérgio PINHEIRO, Estratégias da ilusão: a revolução mundial e o Brasil, 1922-1935; Dario CANALE, A Internacional Comunista e o Brasil (1920-1935). In: J. N. TAVARES (org.), D. CANALE e F. VIANA, Novembro de 1935: meio século depois, pp. 93-142; William WAACK, Camaradas: nos arquivos de Moscou: a história secreta da revolução brasileira de 1935. Waack é o único destes autores a usar documentos dos arquivos soviéticos abertos em 1992.

(13) Anita Leocadia PRESTES, A Conferência dos Partidos Comunistas..., op. cit., ressalta a oscilação entre a linguagem da luta de massas e a do levante armado, que culminou na tragédia de novembro de 1935. Ricardo Figueiredo de CASTRO, A Frente Única Antifascista (1933-34). In: J. FERREIRA e D. A. REIS (orgs.), A formação das tradições..., op. cit., pp. 429-451, descreve ricamente o movimento antifascista do período.

(14) Revolucionários de 35..., op. cit., p. 113. A revista The Communist International menciona apenas o Uruguai.

(15) “Prefácio”; “A história progrediu?”. In: Sobre história, respectivamente pp. 8-9 e p. 71.

(16) Paul Marie VEYNE, Como se escreve a história; Foucault revoluciona a história, pp. 17-20 e 27-32.

(17) Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural, pp. 146-149.

(18) “Memória”. In: R. ROMANO (dir.), Enciclopédia Einaudi, v. 1, pp. 11-24 e 46-47.

(19) Aleida ASSMANN, Espaços da recordação..., op. cit., pp. 143-149 e 151-154.

(20) Jacques LE GOFF, “Documento/monumento”. In: R. ROMANO (dir.), op. cit., pp. 96-97 e 100-104.

(21) Jacques LE GOFF, “História”. In: R. ROMANO (dir.), op. cit., pp. 170-173 e 218-219.

(22) Espaços da recordação..., op. cit., pp. 25-27. Não descarto que o “arquivo” também possa converter o presente num passado a ser consumido pelo futuro, quando se quer “deixar algo para a posteridade”.

(23) Eric J. HOBSBAWM, “O sentido do passado”. In: Sobre história, pp. 23-24.

(24) Aleida ASSMANN, Espaços da recordação..., op. cit., pp. 153-154.

(25) Eric J. HOBSBAWM, “O que a história tem a dizer-nos sobre a sociedade contemporânea?”. In: Sobre História, pp. 47-48.

(26) “Memória”. In: R. ROMANO (dir.), Enciclopédia Einaudi, v. 1, pp. 36-40. Ver também o verbete “História”, pp. 241 e 244-246, quanto à possibilidade do historiador escolher entre submissão ao poder ou crítica social.

(27) “História”. In: R. ROMANO (dir.), op. cit., pp. 165-169.

(28) “O sentido do passado”. In: Sobre história, pp. 32-35. Le Goff também destaca que as concepções de história e de tempo numa sociedade são inseparáveis, e propõe problematizar nossa concepção de tempo cronológico, mesmo sendo difícil rejeitá-la. Cf. “História”. In: R. ROMANO (dir.), Enciclopédia Einaudi, v. 1, pp. 181-182.

(29) “O que a história tem a dizer-nos sobre a sociedade contemporânea?”; “A história progrediu?”. In: Sobre história, respectivamente pp. 41-43 e p. 73.

(30) “História”. In: R. ROMANO (dir.), op. cit., pp. 169-178.

(31) Paul Marie VEYNE, Como se escreve a história; Foucault revoluciona a história, pp. 11-15.

(32) “Passado/presente”. In: R. ROMANO (dir.), Enciclopédia Einaudi, v. 1, pp. 293-294, 299-300 e 307-308.

(33) O silêncio dos vencidos, pp. 38-51.

(34) Edgar S. DE DECCA, O silêncio dos vencidos, pp. 31-38 e 51-110.




sábado, 17 de agosto de 2019

Soluções políticas (texto Ensino Médio)


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Geopolítica em 2005: Blair e Bush


NOTA: Decidi republicar neste meu blog o pequeno texto “Soluções políticas”, que é na verdade uma pequena redação pedida como um exercício da matéria de Geografia à minha classe no 3.º ano do Ensino Médio. Pela data do manuscrito que digitalizei, eu a escrevi em 9 de setembro de 2005 e foi corrigida pelo meu professor, José Augusto de Souza Bueno, um dos melhores que tive e que, com a professora Flávia de história, me inspiraram a seguir a carreira em que estou até hoje! Não sei exatamente se foi uma atividade sugerida pelo próprio “Zé” ou por nosso livro editado pelo Pueri Domus, sistema pioneiro em criar várias apostilas, mas pequenas, divididas nas hoje célebre “três áreas do conhecimento” do ENEM (hoje minha própria escola nem o usa mais). Eu gostava muito tanto das matérias de História, Sociologia e Geografia quanto dos professores José Augusto e Flávia, tanto que eu me formaria no fim do ano, na Viverde Escola de Educação Básica (Bragança Paulista), e logo depois ingressaria no curso de História da Unicamp. Segue abaixo minha redação com umas poucas correções, cujas ideias hoje parecem bem bizarras dado o desenvolvimento do Brasil e do mundo e minhas opiniões atuais.


É de espantar que não só o Brasil, mas também países desenvolvidos sofrem com a descrença nos políticos. Além disso, a política econômica neoliberal atiça essa onda de indiferença, pois há uma fome por poder e posses ilimitadas.

Assim, podemos refletir sobre o que ocorreu com o capitalismo e com os governos liberais nas primeiras décadas do século 20: após a grande crise [de 1929], houve também uma descrença generalizada no sistema vigente, que levou à ascensão de regimes socialistas ou, no caso da Europa pós-2.ª Guerra [Mundial], social-democratas. Enquanto o capitalismo levou séculos para perceber seus erros, o socialismo (agora se referindo a sistemas de filosofia semelhante) desapareceu mais rapidamente, logo percebendo seus erros e tendo a chance de se arrepender. O neoliberalismo volta a vigorar, com a chance de melhorar, porém não o fez e oprime de modo mais cruel o trabalhador, só que mais pelo lado financeiro.

Portanto, como em um ciclo, podemos prever que o socialismo, ou governos semelhantes, voltará totalmente modificado, apenas com limitação das grandes propriedades e a centralização do Estado, sem a necessidade da ditadura e sem a obrigação de se chegar ao comunismo.



Geopolítica em 2019: Kim e Trump...

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Enver Hoxha, chefe militar e histórico


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Nos últimos tempos, tenho conseguido reunir mais alguns vídeos informativos e documentais sobre a Albânia comunista no período em que Enver Hoxha a governou. É raro achar material que esteja traduzido ou explicado em português, mas ainda assim estou sem tempo pra estudar a fundo a língua albanesa, que acho muito bonita e que seria essencial pra eu traduzir essas coisas direto do original. Por isso, tenho me contentado em postar materiais alheios que já estejam em português ou coisas antigas lançadas na internet, mas das quais só pude melhorar a qualidade de áudio e vídeo.

Na última sexta-feira, por exemplo, o Globo Repórter, apresentado por Glória Maria (que foi até o país) e Sérgio Chapelin, fez uma visita e contou parte da história da Albânia, nação encravada entre Sérvia, Montenegro, Macedônia do Norte e Grécia, tendo o lindo mar Adriático como litoral. Sua topografia é incomumente montanhosa, e a língua não tem nenhum parentesco próximo com outras da Europa, mas possui muitas belezas e riquezas culturais ainda pouco tocadas pelos estrangeiros.

Uma das razões desse desconhecimento, assim como com a maioria dos países dos Bálcãs, foi a existência de um regime comunista autoritário entre 1943, ano em que os partisans expulsaram os nazistas e fascistas, e 1992, quando ocorreram as primeiras eleições multipartidárias (mesmo com o abrandamento do regime desde 1990). Valendo-se de seu prestígio de libertador, o professor Enver Hoxha (lê-se “rôdja”) instaurou uma ditadura brutal, mais do que as outras do antigo Leste europeu (exceto, talvez, a cleptocrática Romênia), apoiado no prestígio que adquiriu junto a Iosif Stalin e Mao Zedong. À medida que esses líderes morriam e a URSS e China se livravam de suas piores heranças, Hoxha rompia com essas potências e os países que orbitavam em torno delas, isolando a Albânia de contatos externos sob o pretexto de manter a pureza do “marxismo-leninismo”.

Hoxha só morreu em 1985, e desde então começaram as ondas de refugiados albaneses em outros países, sobretudo na tão próxima Itália. A ditadura era tão estrita que se você fosse pego com calça jeans ou Coca-Cola, ou captando o sinal de TV de outros países, podia ser imediatamente preso. As religiões foram proibidas e o Estado se declarou “ateu” (algo que não ocorreu nem mesmo na “revisionista” URSS), e 1/5 da população já chegou a estar presa ou encerrada em campos de “reeducação”. A paranoia de Hoxha com invasões externas povoou a paisagem com inúmeros bunkers, os famosos “iglus” que chegavam a custar o preço de uma casa popular e hoje são usados até como “motel” dos pobres. Nos anos 90, o saldo foi de uma Albânia, dizia-se, “paracapitalista”, como escreveu Suely Forganes à Istoé, ou seja, em que nada se produzia, mas se comprava e vendia de tudo, até os próprios bens e objetos velhos no meio da rua.

É claro que a análise dos regimes comunistas em conjunto deve ser bem matizada, pois havia muitas diferenças entre os países e até as ideologias, enquanto muitos arquivos ainda estão sendo abertos e pessoas entrevistadas. Porém, é sempre bom lembrar pra esses moleques retardados de classe média, que ainda defendem Hoxha e outros carrascos semelhantes em seus smartphones, como era “boa” a vida sob o comunismo europeu: só os russos sentem saudades, porque eles parasitavam a economia de meia Europa, e os húngaros, porque depois de 1956 permitiu-se uma forma de regime mais branda após uma quase guerra civil contra as tropas do Pacto de Varsóvia! “Ain, mas o Bozonaro é fascista...” Até agora tem cubano, congolês, angolano e venezuelano correndo pra cá, achando o melhor dos mundos essa “ditadura machista, racista e homofóbica”, como se deleitam em chamá-la os franceses. “Ain, mas a Globolixo é anticomunista, imperialista e apoiou a ditadura militar...” Claro que reportagem com mais fins turísticos que outra coisa (porque é de turistas e visitantes que a Albânia justamente precisa!) é sem dúvida parcial, mas os fatos são doloridos e a maioria deles vai contra Hoxha: pergunta pros velhinhos se gostavam dessa época, façam propaganda pra eles das “façanhas do Partido do Trabalho da Albânia”...

Esta repostagem, em que selecionei os melhores trechos abordando o “Paraíso” comunista da Albânia, tem o mero fim de documentação e curiosidade. É claro que quem quiser saber mais vai pros livros ou pesquisar na internet, mas pra quem gosta de cultura e história, divirta-se:


Se algum de vocês é tarado pela história do comunismo ou pela Albânia de Enver Hoxha, já deve ter se deparado há muitos anos em vários canais com um vídeo chamado Enver Hoxha nderon dëshmorët e Atdheut (Enver Hoxha homenageia os mártires da Pátria). Eu particularmente sempre fui fascinado pelo breve desfile militar que aparece no segundo e terceiro minutos, um dos raros registros de paradas daquele local e época. Tentei então fazer a experiência de baixar o vídeo original e o melhorar usando o programa VirtualDub Portable, que conheço melhor, e melhorar o áudio pelo Audacity.

Como o vídeo-fonte já era muito ruim, consegui apenas melhorar a cor e o brilho e o deixar menos embaçado, e com o áudio consegui tirar o chiado e aumentar o volume. Nesta postagem, deixei apenas a parte em que é cantado o Hino Nacional da Albânia e o rápido desfile militar, no qual acho muito bonita a postura dos soldados. É notável que no regime de Enver Hoxha, a saudação oficial não era nem uma continência, nem um elevar de braços, mas o leve erguimento do punho direito fechado, mais ou menos na altura da orelha. Esse gesto, inclusive, era repetido por todos os que passavam pelo caixão no funeral de Hoxha, em 1985.

Pra aumentar o prazer de vocês, ainda repeti o desfile militar, dispensando a necessidade de voltar o filme. Espero que gostem e que me perdoem pelos erros de minha incipiente carreira de editor de vídeos! Depois, leiam também outra postagem minha com vídeos e textos sobre o culto à pessoa de Enver Hoxha:


terça-feira, 13 de agosto de 2019

Tradução da “Internacional” em iídiche

Achei por acaso um áudio com este vídeo, e com a letra nos dois alfabetos na descrição, e resolvi fazer uma montagem rápida, mesmo sem traduzir. É o famoso hino A Internacional, dos movimentos socialista, anarquista e comunista, em iídiche, língua germânica derivada do alemão medieval, majoritária entre os judeus da Europa até o Holocausto. Depois, muitos deles foram dizimados, e os que foram pra Israel optaram por usar o hebraico moderno, por influência do movimento sionista. Como lembra a Wikipédia, o iídiche, junto com o alemão, inglês, holandês, frísio, luxemburguês, africâner, pomerano, limburguês e ânglico escocês, é classificado como uma língua germânica ocidental, e em registros antigos era chamado “judeo-alemão”. Deve-se lembrar que Lenin, um cara bastante mestiço, tinha parte da ascendência judaica, e que bolcheviques proeminentes, como Leon Trotsky (sobrenome original Bronshtein), Iakov Sverdlov (nome original Solomon), Grigori Zinoviev (nascido Hirsch Apfelbaum) e Lev Kamenev (nascido Leo Rosenfeld), eram de famílias judias. Consultem este artigo de Mark Weber saído em 1994, destacando a proeminência judaica entre os primeiros líderes bolcheviques.

Segundo a Enciclopédia Britannica, o iídiche (ou ídiche) é a língua dos judeus asquenazes, ou seja, que viviam na Europa Central e Oriental, assim como seus descendentes, escrita com o alfabeto hebraico. Tornada uma das línguas mais difundidas do mundo, presente nos países onde havia população judia no século 19, é uma das três principais línguas literárias da histórica dos judeus, junto com o hebraico e o aramaico. Surgindo no século 9, mas começando a se escrever só no século 12, o iídiche se formou com a fusão de uma maioria gramatical e lexical do alemão meridional com elementos hebraicos e aramaicos pós-clássicos e alguns românicos, mais tarde ainda adquirindo palavras eslavas. Entre os muitos dialetos, o ocidental floresceu gradualmente como língua literária, mas virtualmente extinto com a formação da Alemanha, deu espaço ao dialeto oriental no século 19. Mesmo na União Soviética de Stalin, o iídiche sofreu perseguição oficial, assim como o esperanto.

Quem canta nesta gravação é Karsten Troyke, segundo a fonte de onde baixei o áudio. Daí eu também tirei a letra em iídiche, nos alfabetos hebraico e latino, e só fiz leves correções. Troyke (n. 1960) nasceu em Berlim e é um ator, locutor e cantor de músicas judaicas. De mãe não judia e pai judeu, trabalhou também como jardineiro e cuidador de crianças deficientes, e começou a atuar em 1982. Especializou-se na gravação e estudo de canções em iídiche, tendo as gravado em muitos álbuns solo e em conjunto, e ministrando aulas e oficinas sobre o assunto. Também montei o vídeo com as legendas nas duas escritas, sem tradução, porque me parece que o sentido é quase igual ao das versões francesa, russa e portuguesa, que você já conhece. Essa bandeira não existe de verdade, eu é que montei de brincadeira: viva a República Socialista Soviética dos Judeus, rs.

Em iídiche, o célebre hino A Internacional se chama Der Internatsyonal (דער אינטערנאַציאָנאַל), mas não sei quem fez a tradução. Você pode nesta publicação minha aprender a ortografia iídiche (latina e hebraica), e no link citado acima sobre o hino em russo, há também a história completa da letra. Seguem as legendas e a letra em iídiche nos dois alfabetos:


1. Shtayt oyf, ir ale, ver vi shklafn,
In hinger leybn miz, in noit!
Der gayst ‒ er kokht, er rift tsi vafn
In shlakht indz firn iz er greyt.
Di velt fin gvaldtatn in laydn
Tseshtern veln mir in dan:
Fin frayheyt, glaykhheyt a Gan-Aydn
Bashafn vet der arbetsman.

Refrão (2x):
Dus vet zayn shoyn der letster
In antshaydener shtrayt!
Mit dem Internatsyonal
Shtayt oyf, ir arbetsleyt!

2. Nayn, kayner vet indz nisht bafrayen:
Nisht Got alayn in nisht kayn held ‒
Mit indzer eygenem kley-zayin
Derleyzung brengen mir der velt.
Arup dem yokh! Genig gelitn,
Genig fargosn blit in shvays!
Tsebluzt dus fayer, lomir shmidn
Kol-zman dus ayzn iz nokh hays!

(Refrão 2x)

3. Der arbetsman vet zayn memshule
Farshpraytn oyf der gantser erd,
In parazitn di mapule
Bakimen veln fin zayn shverd.
Di groyse shturemteg zay veln
Nor far tiranen shreklekh zayn;
Zay konen ober nisht farshteln
Far indz di hele zinen-shayn.

(Refrão 2x)

____________________


1. שטײט אױף, איר אַלע, װער ווי שקלאַפֿן,
אין הונגער לעבן מוז, אין נױט!
דער גײַסט - ער קאָכט, ער רופֿט צו װאָפֿן
אין שלאַכט אונדז פֿירן איז ער גרײט!
די װעלט פֿון גװאַלדטאַטן און לײדן
צעשטערן װעלן מיר און דאַן
פֿון פֿרײַהײט, גלײַכהײט אַ גַן־עֵדֶן
באַשאַפֿן װעט דער אַרבעטסמאַן!

Refrão (2x):
דאָס װעט זײַן שױן דער לעצטער
און ענטשידענער שטרײַט!
מיט דעם אינטערנאַציאָנאַל
שטײט אױף, איר אַרבעטסלײַט!

2. ניין, קיינער וועט אונדז נישט באַפֿרײַען
נישט גאָט אליין און נישט קיין העלד!
מיט אונדזער אייגענעם כּלֵי־זַיִן
דערלייזונג ברענגען מיר דער וועלט.
אַראָפ דעם יאָך! גענוג געליטן.
גענוג פֿאַרגאָסן בלוט און שווייס!
צעבלאָזט דעם פֿײַער, לאָמיר שמידן
כּל־זמאַן דאָס אײַזן איז נאָך הייס!

(Refrão 2x)

3. דער ארבעטסמאַן וועט זײַן מֶמשָלָה
פֿערשפרייטן אויף דער גאַנצער ערד,‬
און פאַראַזיטן די מַפָּלָה
באַקומען וועלן פֿון זײַן שווערד
די גרויסע שטורעם־טעג זיי וועלן
נאָר פֿאַר טיראַנען שרעקלעך זײַן;
זיי קאָנען אָבער נישט פֿאַרשטעלן
פֿון אונדז די העלע זונען־שײַן.

(Refrão 2x)



domingo, 11 de agosto de 2019

Vídeo que me gravei falando em russo


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/eu-russo

Atendendo a um pedido que muitos já faziam em meu antigo YouTube, gravei um vídeo meu falando na língua russa, um texto improvisado, mas elaborado de cabeça com alguma antecedência. Os tropeços foram inevitáveis, já que não uso oralmente o idioma há algum tempo, mas seria sacanagem recomeçar a todo momento algo que estivesse razoável... Assim, espero provar aos internautas que não apenas leio ou traduzo do russo, mas conheço a língua de fato e posso usar com alguma liberdade na vida cotidiana!

Infelizmente, como era de se esperar, passaram dois errinhos que reparei depois de ter gravado o vídeo: quando ao terminar a abertura falo “представить себе” (predstávit sebé), na verdade é “представить себя” (predstávit sebiá), ou seja, com o pronome reflexivo no acusativo, e não no dativo; e depois, “бабa” (bába) não é tão usado pra avó, e sim “бабушка” (bábushka). Mas no resto, acho que não fiquei devendo nada na pronúncia, no vocabulário e na construção. Espero que os russos aprovem, e que vocês também tenham gostado e se animado a estudar uma língua tão complexa. Outra coisa: eu desejei uma boa quinta-feira (chetvérg) porque eu tinha gravado no último dia 8, mas só ontem, no sábado, tive tempo de editar e enviar!

Seguem o texto transcrito em cirílico, a tradução conforme as legendas que eu inseri, mas sem as marcas de oralidade, e o vídeo legendado. Os algarismos também estão indicados por extenso:



“Eu falo russo!!!”


Всем привет! Добрый день! Поскольку многие посетители моего канала сильно просили меня говорить что-то на русском, тогда я решил снять это краткое сообщение, чтобы показать вам мои знания русского языка и представить себя.

Вот, меня зовут Эрик Фишук, мне 31 (тридцать один) год, я бразилец, живу в городе Браганса Паулиста, на севере штата Сан-Паулу, но я родился в городе Гуарульос, в том же штате. Живу с мамой и бабой, потому что мои родители развелись ещё в 88 (восемьдесят восьмом) году, и у меня есть подруга: её зовут Ана Лусия, ей 29 (двадцать девять) лет, она психолог по специальности и живёт в другом городе, Морунгаба, недалеко от Брагансы.

Я ‒ историк, с дипломом Университета Кампинаса, то есть Уникамп, и в настояще время в том же ВУЗе занимаюсь исследованием о связях между Коммунистическим Интернационалом и Коммунистической партией Бразилии с 1924 (тысяча девятьсот двадцать четвёртого) года по 1943 (тысяча девятьсот сорок третий) год. Кроме науки я тоже интересуюсь чтением, политикой, природой, музыкой (особенно народной музыкой из других стран) и, конечно, самостоятельным изучением иностранных языков.

Я изучал русский язык 3 (три) года в университете, но мне не было очень трудно, потому что до поступления в университет я уже знал немного русского языка. Я советую вам учить русский язык, потому что он красивый и благозвучный язык и очень важный в современных международных отношениях. Кроме того, русскую литературу знают во всём мире и она всё ещё является источником красоты и учения.

Но... это было моё сообщение, я надеюсь, что оно вам понравилось, и спасибо за терпение и внимание, и до скорой встречи, хорошего четверга! Пока-пока!


Olá a todos, boa tarde! Visto que muitos visitantes do meu canal me pediram firmemente pra falar alguma coisa em russo, decidi então filmar esta curta mensagem pra mostrar a vocês meus conhecimentos de língua russa e me apresentar.

Bem, meu nome é Erick Fishuk, tenho 31 anos, sou brasileiro, moro na cidade de Bragança Paulista, no norte do estado de São Paulo, mas nasci na cidade de Guarulhos, no mesmo estado. Moro com minha mãe e minha avó porque meus pais se separaram ainda em 88, e tenho uma namorada: o nome dela é Ana Lúcia, tem 29 anos, é psicóloga de profissão e mora em outra cidade, Morungaba, perto de Bragança.

Sou historiador formado pela Universidade de Campinas, isto é, a Unicamp, e atualmente me dedico na mesma IES a uma pesquisa sobre as ligações entre a Internacional Comunista e o Partido Comunista do Brasil dos anos de 1924 a 1943. Além de ciência, me interesso também por leitura, política, natureza, música, sobretudo música folclórica de outros países, e claro, pelo estudo autodidata de línguas estrangeiras.

Estudei a língua russa por 3 anos na universidade, mas pra mim não foi muito difícil, porque antes de entrar na universidade eu já sabia um pouco da língua russa. Aconselho vocês a aprenderem a língua russa, porque é uma língua bonita e sonora e muito importante nas relações internacionais modernas. Além disso, a literatura russa é conhecida no mundo todo e ela continua sendo uma fonte de beleza e ensinamentos.

Mas... essa foi minha mensagem, espero que vocês tenham gostado dela, e obrigado pela paciência e atenção. Até a próxima, e boa quinta. Tchau, tchau!



sexta-feira, 9 de agosto de 2019

A graça da vida (redação Ensino Médio)


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NOTA: Decidi republicar na página o pequeno texto “A graça da vida”, que é na verdade uma redação atendendo a questão proposta à minha classe no 3.º ano do Ensino Médio. Pela data do manuscrito que digitalizei, eu a escrevi em 14 de outubro de 2005 e foi corrigida pela minha professora de Português, Graça Betânia Moraes Hosokawa, renomada escritora e pesquisadora. Como vocês perceberam, o título é uma alusão humorística ao nome dela, e de fato ela me deu, além da nota alta, a seguinte observação escrita: “Adorei o texto! Boa argumentação! Parabéns!”. Ela é uma pessoa muito bondosa e uma profissional muito séria, por isso garanto que o resultado não derivou de nenhuma babação de ovo, hahaha. Eu me formaria no fim do ano, na Viverde Escola de Educação Básica (Bragança Paulista), e logo depois ingressaria no curso de História da Unicamp. Seguem abaixo a questão oferecida pelo simulado, tirada de algum vestibular antigo, e minha redação, ambas com a ortografia atualizada.



Prova de redação: A surrada frase “rir é o melhor remédio” parece ter cada vez mais sentido para a ciência. O cardiologista Michael Miller, da Universidade de Maryland, Estados Unidos, liderou uma pesquisa sobre os benefícios do riso para a saúde do coração. Chegou a resultados surpreendentes. Comparando as atitudes diante da vida de 150 pessoas com histórico de enfarto com o mesmo número de pessoas sadias, descobriu que aquelas que nunca tinham sofrido com problemas no coração eram as que demonstravam bom humor constante. Para evitar problemas cardíacos, Miller recomenda combinar a velha receita de saúde (exercícios físicos regulares e dieta balanceada) com algumas gargalhadas durante o dia. (Revista Superinteressante, n. 173, fev. 2002, adaptado.)

REDIJA um texto dissertativo, explicitando a ideia proposta nesse trecho e acrescentando outras vantagens do bom humor.


Comprovou-se cientificamente que o bom humor faz bem ao coração, mas a ciência é desnecessária para mostrar que ele é benéfico na vida das pessoas, o que é feito pela vivência cotidiana, a maior escola de todas.

O humor é um cartão de visita pessoal, ajudando ou atrapalhando nas primeiras impressões. Pessoas de temperamento aberto, que não apresentam aparência carrancuda ou extremamente séria, ganham mais simpatia e confiança. Se ao longo de uma convivência passam o tipo de humor que faz rir e descontrair, elas reforçam com os outros os mais diversos tipos de laços e aumentam seu círculo de relacionamentos, obtendo, assim, numerosas vantagens materiais e sociais.

O prazer gerado pelo riso causa uma sensação de bem-estar que melhora a autoestima das pessoas e lhes dá mais ânimo e forças para encarar as mais diversas situações, inclusive as mais difíceis, porém sem apagar o respeito que uma certa ocasião exige, em especial uma tragédia. No que resta, ironizar pode ser a saída para que se fique menos chocado com fatos corriqueiros, como a corrupção. É essa ironia que caracteriza o bom humor do brasileiro, que sempre satiriza diversos empecilhos ao desenvolvimento do país.

“Estar de bem com a vida” exige uma boa dose de descontração a fim de melhorar a saúde, a vida social, a imagem perante as pessoas e a força diante dos problemas.




quarta-feira, 7 de agosto de 2019

“Morrer de catapora” e gírias de época


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Como eu achei bastante interessante esta reflexão, decidi transformar num texto, e ainda oferecer um bônus! Um tempo atrás chegou até mim um sticker (figurinha) pelo WhatsApp com o Pica-Pau, famoso desenho animado norte-americano dos anos 60 e 70, comendo alpiste em sua casinha na árvore e dizendo: “Quero morrer de catapora!”. Pesquisando, descobri que se tratava de um trecho do episódio em que um urso fabricante de bolas de boliche tenta derrubar a árvore em que o pássaro mora, mas cujo trabalho vai ser todo estorvado pelo nosso astro. Quando o Pica-Pau começa a sentir que sua árvore está tremendo, ainda sem saber que é por causa das machadadas do urso, ele exclama: “Quero morrer de catapora!”.

Nunca ninguém entendeu essa piada, que parece algo meio sem sentido ou feito de propósito só pra zoar, pelo menos quem viu nos últimos anos. A cena, por isso, virou meio que um meme em alguns meios, embora de alcance não tão amplo. Continuando a busca no YouTube, achei uma canção interpretada por Ângela Maria, gravada em 1970 em ritmo de marchinha de Carnaval antiga, que chamava exatamente Quero morrer de catapora! O refrão diz assim: “Quero morrer de catapora se eu não contar que você comeu amora... Quero morrer de catapora se eu não contar que você namora...” Ou seja, tempos em que namoros e sexo ainda eram tratados como tabu, sobretudo sem autorização dos pais, com a expressão “quero morrer de catapora” significando, essencialmente, que a pessoa não acredita de jeito nenhum que o acontecimento em sua expectativa possa não acontecer. O acontecimento seria tão certo que a pessoa metaforicamente arrisca sua vida se houvesse possibilidade de falhar.

Se bem que “catapora”, no senso comum (ainda mais que hoje é muito mais rara do que no passado), não parece ser uma causa de morte muito brutal ou heroica... tanto que esse foi o motivo da piada dos internautas. Entre os comentários, estava o de que “eis que você é um sadboy, mas só tem 9 anos”. Acontece que no fim do século 20, parece que a maioria dos cartuns “infantis” era destinada mais a adultos do que a crianças, não só porque eles entendiam as referências à cultura de massas (algo bem verdadeiro pra Turma da Mônica), mas também porque as obras eram cheias de conteúdo “politicamente incorreto”. É fato que muitos adultos consumiam, sim, desenhos e gibis infantis, porque não eram tão açucarados, inocentes ou direcionados quanto a produção atual, e porque a variedade de opções na TV aberta e o baixo preço das revistinhas os tornavam mais acessíveis, e até interessantes.

Mas acredito também que no passado, como é meu caso, as crianças compartilhavam mais o mundo com os adultos, dada a variedade menor de entretenimentos, faltando os canais a cabo, canais do YouTube, livros inteiros, smartphones e toda uma cultura que fechou os pequeninos dentro de uma “bolha” em que só encontram seus semelhantes. Isso, claro, se estendeu a outros domínios da vida que, como no passado, nos obrigavam mais a viver cara a cara com pessoas diferentes. Com o passar do tempo, a produção infantil passou a ser mais “peneirada”, pra evitar o que seriam choques desnecessários, ainda mais que hoje, na verdade, o mundo adulto está é mais violento, letal e intolerante. No meu tempo, éramos educados “na marra”, vivendo muitas coisas iguais ou semelhantes às dos adultos, como músicas, novelas, programas de TV, revistas etc., muitas vezes contendo até sexo quase explícito. As novas tecnologias, na verdade, aumentaram a possibilidade de controle, portanto de assepsia. Por isso, discordo do Nando Moura quando ele falava que Xuxa e Angélica levavam a uma “sexualização precoce” (como assim? hahaha): acho apenas que eram tempos diferentes.

A partir do upload que citei acima, segue a montagem que eu mesmo fiz e na qual inseri a canção de Ângela Maria e repeti várias vezes o “Quero morrer de catapora”:


Meme de 2011 relacionado, mais adulto (desculpe, não resisti, rs):


Esta velha manchete do Jornal Nacional ficou perdida por uns anos, e depois se fixou no YouTube. Lembro que em algum momento dos anos 2000 recebi esse vídeo por e-mail, relembrando a matéria que eu tinha visto pela televisão, mas não o salvei. Pela imprensa da época (já online) que consegui achar no Google, o padre se chamava (pasmem!) Francisco de Assis, tinha 38 anos e foi afastado de suas funções após agredir uma fiel, deficiente mental, no meio de um batizado na paróquia São José em Ituiutaba, MG. Ele teria sido transferido pra São Paulo e lá submetido a tratamento psiquiátrico, já que o fato teria se repetido antes em outra paróquia da região.

O padre, que batizava 26 crianças num domingo e era filmado por um cinegrafista amador (figura comum antes dos smartphones), veio do Rio Grande do Norte e há mais de um ano atuava na região. Identificada como Milena Silvéria, a mulher negra se colocou ao lado da pia batismal e começou a discutir com o padre, que começou a xingá-la e mandar que se afastasse, proferindo a célebre frase: “Paiaço [sic] é você, idiota!”. A hora que ela resolveu dar uma sacolada nele, Francisco de Assis estourou, jogou água benta nela e começou a esmurrá-la.

Essas informações são da Folha de Londrina (Paraná) de 12 de dezembro de 1997. Já segundo o caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo de 11 de dezembro, o motivo da expulsão teria sido o fato dela não ter sido convidada pra participar da cerimônia (já que os batizados eram familiares). Os moradores da cidade que fica a cerca de 695 km de Belo Horizonte afirmaram que Francisco não gostava de Silvéria porque era teria o costume de “falar alto” durante as missas.

Um blog anticlerical, por sua vez, misturou os fatos, dizendo que a irritação tinha sido porque ela estava falando alto durante o batizado, e ainda adicionou que ela tinha problemas mentais. O site vem com essa história de dízimo e não sei o quê, mas é notável como em muitas igrejas do interior (SP, MG, GO) parece sempre ter essa figura de uma pessoa um pouco deficiente que está sempre frequentando as missas, ou ao menos ajudando.

Outras fontes que consultei chamavam Francisco de Assis de “Padre Ryu”, rs. Mas em todo caso, não descobri o que houve depois com ele, já que os periódicos diziam que o alto clero decidiria seu destino enquanto estivesse em São Paulo. Muitas das repostagens, como esta que baixei, são de 2006, logo que o YouTube surgiu, mas outras são de depois. Eu apenas recortei o quadro, melhorei o áudio e a imagem e adicionei as famosas repetições.


segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Cresce nicho do detox digital (França)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/detox-digital

NOTA: Enquanto eu navegava no site da Rádio França Internacional (RFI) e escutava as notícias em francês, encontrei por acaso este artigo de tecnologia, do qual gostei muito e resolvi traduzir o quanto antes pra postar aqui. Seu título é: O “detox digital”: quando a desconexão se torna urgente. Publicado em 3 de agosto de 2019, a autoria é do jornalista David Pauget, que discorre sobre o crescente vício dos franceses em tecnologias digitais, sobretudo a internet nos smartphones, e o crescente mercado de serviços com atividades e tratamentos alternativos pra reduzir os efeitos da fadiga e ansiedade dos e-mails e redes sociais. O chamado “detox digital”, que não é novidade no Brasil, convida pra que nessas férias do verão europeu os leitores repensem seu uso viciante de celulares e computadores, aprendendo a gerir o escasso tempo livre em prol da conservação da saúde mental e corporal. Nossa modernidade é tão paradoxal que precisamos oferecer tratamentos (às vezes caros) contra os efeitos colaterais de tecnologias que tinham vindo facilitar nossas vidas e, a princípio, tornar-nos mais felizes! E além dos mais velhos já viciados, estão chegando as gerações que praticamente vivem mais ou só a vida paralela criada como escape dentro da internet.



Três em cada quatro franceses afirmam ser dependentes de seus aparelhos conectados

E-mails profissionais, SMS, redes sociais… Para alguns, as férias de verão são o momento ideal para tentar se desconectar e se revigorar. Uma abstinência que se revela cada vez mais difícil numa sociedade hiperconectada.

Antes de sair de férias, Alexandre, 30 anos, tinha prometido largar tudo: não consultar mais seus e-mails profissionais, não correr ao celular após a menor notificação e parar de atualizar o tempo todo seu feed do Twitter. Dois dias depois, o resultado é implacável: um fracasso.

“O celular devora minha vida. Ele está direto na minha mão, desde a hora em que acordo até quando eu me deito. Impossível passar sem ele”, suspira exausto esse funcionário de uma grande empresa. O vício é forte demais, e a culpa é do trabalho, segundo ele. “Meus colegas confiam tudo para mim. Alguns usam e abusam disso. Tenho que responder no mesmo instante, senão vou ficar por fora de todo o trabalho”.

Riscos para a saúde ‒ Como Alexandre, muitos são os que tentam retomar o controle de seus aparelhos eletrônicos, cientes de terem se tornado viciados neles. Três em cada quatro franceses, portanto, dizem ser dependentes de seus aparelhos conectados, segundo um estudo publicado em junho passado pelo instituto de pesquisas BVA.



Três quartos (73%) dos franceses dizem ser dependentes face a seus aparelhos conectados: não responderam (azul, 1%), nada dependentes (verde-claro, 5%), pouco dependentes (verde-escuro, 21%), um tanto dependentes (rosa, 50%), totalmente dependentes (vermelho, 23%).


Há dois anos, Clémence, gerente de projetos numa ONG, foi diagnosticada com TAG (transtorno de ansiedade generalizada). Para reagir à angústia e à ansiedade que a preocupavam, seu terapeuta lhe sugeriu que passasse menos tempo na frente das telas. “Eu desinstalei meu e-mail profissional do celular para não o consultar fora do horário de trabalho. Nos fins de semana e durante as férias, eu também desativo os aplicativos do Instagram e do Facebook”, ela explica.

“O fato de estar o tempo todo conectada, sendo chamada à ordem para compartilhar e esquematizar minhas atividades também pelo Instagram, não me deixava separar um só minuto para gerir melhor o estresse do meu dia a dia”, explica a moça de 24 anos que, desde que começou a dieta digital, se dedica ainda à música e ao desenho.

A que corresponde exatamente o termo “detox digital”? Virginie Boutin, coach profissional e coautora do livro 2h chrono pour se déconnecter (2h no cronômetro para se desconectar), prefere falar de “consciência ou regulação digital”. Segundo ela, o importante não é conseguir uma abstinência 2.0 total, mas um equilíbrio justo: “Precisamos fazer a triagem entre o que nos beneficia no emprego do digital e o que nos cansa e nos irrita, o que come nosso tempo e devora nossa energia [ce qui est chronophage et énergivore]. E depois, cuidar para mantermos só os usos benéficos, como ficar em contato com a família, e tirarmos ou reduzirmos o resto o quanto pudermos”. O “detox digital” também permitiria retomarmos uma capacidade de concentração, de criatividade e de inovação.

Pressão social para estar conectado ‒ “Sou muito reativa quando recebo uma notificação, e mesmo no caso contrário, sou propensa a passar de aplicativo em aplicativo procurando conteúdo novo: feed do Facebook ou Instagram, stories, e-mails...”, explica Myriam, graduanda em ciência política. Para ela, é impensável não consultar ao menos uma vez por dia seus e-mails e mensagens, “por medo de perder as informações”, o famoso FOMO (fear of missing out, “medo de ficar por fora” em inglês).

“Há uma pressão social pela conexão perpétua. Mesmo de férias, é preciso explicar a seus próximos, a seus colegas sobre por que não se estava conectado. Estamos numa sociedade em que o imediatismo comunicativo se tornou a norma para administrarmos o tempo”, analisa Francis Jauréguiberry, sociólogo dos usos das tecnologias de comunicação na Universidade de Pau.

Nesse contexto, a desconexão aparece como uma provação certamente dolorosa, mas no longo prazo benéfica. “Querer reintroduzir o tempo, cabines temporais em que haja silêncio, por que não tédio... É o fruto de nossa vontade. Se a tentativa dá certo, isso sempre se traduz em uma imensa satisfação”, explica Francis Jauréguiberry. Três em cada quatro franceses, aliás, reconhecem que limitar o tempo passado diante das telas faria bem para sua saúde.



Três quartos (72%) dos franceses julgam que a desconexão é benéfica: nada benéfica (vermelho, 3%), pouco benéfica (laranja, 25%), bastante benéfica (verde-claro, 48%), muito benéfica (verde-escuro, 24%).


Um negócio em expansão ‒ Uma coisa é certa: com tantas pessoas viciadas em suas telas, o mercado da desconexão tem belos dias pela frente. Os hotéis, acostumados a receber hóspedes que buscam se desconectar, estão propondo agora mais e mais tratamentos. “Esgotado, estressado, sobrecarregado? Desconecte-se temporariamente da internet para preservar sua saúde”, indica, por exemplo, o folheto do programa de “detox digital” do Vichy Célestins Spa Hotel. Logo ao chegar, o cliente é convidado a colocar seus aparelhos eletrônicos numa caixa-forte. São oferecidas atividades esportivas e de relaxamento por um custo total de 1035 euros por três noites.

São ofertas que encontramos igualmente nas pousadas. É o caso do Château La Gravière, no sudoeste da França, que propõe um acompanhamento personalizado durante toda a estadia e põe à disposição, entre outras coisas, bicicletas e jogos de tabuleiro. A tarifa sobe para 210 euros o dia, porém sem incluir alojamento e refeições.

Start-ups também estão entrando nesse nicho, como a Into the Tribe, agência de “detox digital” criada em 2015. Ela oferece palestras de desconexão para empresas, bem como cursos e conferências. “A maioria dos participantes vem da zona urbana e são jovens que têm entre 25 e 45 anos. Eles estão em empregos que exigem conexão e passam muito tempo diante das telas, mesmo em suas vidas pessoais”, detalha Vincent Dupin, fundador da start-up. Os preços são combinados dependendo do orçamento e das exigências das empresas.

Antes de chegar ao ponto de pagar uma nota por uma abstinência digital, alguns experimentam seus próprios truques para o verão. Baptiste, professor de 25 anos, decidiu assim deixar seu smartphone em casa. No lugar, ele saiu de férias com um velho celular Nokia, sem internet. “É para poder ligar em caso de emergência, mas antes de tudo para evitar qualquer tentação.”



sábado, 3 de agosto de 2019

Nazismo de esquerda e mais absurdos


Endereço curto: fishuk.cc/comunazi


Os comentários postados por usuários nos vídeos de meu antigo canal do YouTube, bem como nas publicações que lançava na aba “Comunidade” da página inicial, revelam muito sobre o que eles gostariam de aprender mais e o que eles já sabem sobre determinados assuntos. É claro que muitos só vêm lá pra impôr os próprios pressupostos indiscutíveis e apenas censurar outros usuários só porque eles pensam de forma diferente. Mesmo assim, o engajamento intelectual em meu canal tem crescido bastante, e ao lado de trolls bastante desocupados, têm surgido comentaristas certeiros e com muitas leituras sobre os temas, mesmo que eu não concorde com as posições deles. É óbvio que, dado o material encontrado no canal, quase sempre as discussões são a respeito da natureza e consequências dos regimes comunistas do século 20.

Não vou aqui esgotar o tópico nem expor minhas próprias conclusões, mas mostrar como interajo com os internautas e o que mais tem sido julgado correntemente. Continuando a série, mudo de assunto reproduzindo um texto da aba “Comunidade” em que critico a ideia bizarra e estropiada de que o nazismo teria sido uma ideologia “de esquerda” e que o regime nazista teria sido de caráter “socialista”. Mesmo os mais renomados acadêmicos sempre fizeram comparações entre Iosif Stalin e Adolf Hitler, demonstrando vários pontos de aproximação entre os dois governos e as duas personalidades. E inclusive intelectuais muito anticomunistas e pró-liberais como Ernst Nolte, François Furet e Stéphane Courtois, mesmo não sendo definitivos quanto à posição do nazismo e do fascismo no espectro ideológico, jamais disseram que ele seria nitidamente de esquerda, muito menos que o nazismo veio do comunismo ou que ambos tiveram a mesma fonte intelectual.

A leitura da historiografia séria e o conhecimento dos fatos históricos e do contexto da época, mesmo que as interpretações variem demais, desmentem esse delírio tipicamente brasileiro de que “o nazismo é de esquerda” e que “Lenin ou Stalin engendrou Hitler”. Estamos virando uma vergonha no resto do mundo, sobretudo porque queremos ter uma certeza arrogante sobre a Europa, mas sem nenhuma leitura ou bagagem aprofundadas! Basta lermos um ou dois artigos de qualidade duvidosa, um ou dois vídeos bem feitos por personalidades histéricas, e pensamos ter o mapa do tesouro, só porque são os argumentos que nos agradam mais. Os textos foram corrigidos e tiveram tiradas suas marcas de oralidade ou descontração, exceto ocasionais palavrões. As repostas dadas no canal mesmo estão marcadas com “TV Eslavo”, e as que escrevi pra esta postagem, com “O que penso”.


Meu texto inicial: Se o nazismo era “de direita” ou “de esquerda” é uma questão bizantina, que nada tem a ver com o essencial: sob Hitler, a Alemanha se tornou um país mais fortemente capitalista. E por quê? Não foi abolido o mercado, não foi expropriado o capital, foram destruídas todas as organizações operárias pra que o patronado controlasse absolutamente as condições de trabalho, foi ampliada a industrialização (que, tal como na história dos EUA, se move sobretudo por meio da produção bélica) e controlada a inflação, e não mudou de forma alguma a organização social (os ricos ficaram mais ricos, os pobres continuaram pobres e a antiga classe feudal prussiana continuou poderosa, mas agora virando industrial).

Os binômios “estatismo/liberalismo”, “capitalista/socialista”, “direita/esquerda” e “ditadura/democracia” não têm nenhuma correlação entre si. Por quê? Existem ditaduras capitalistas liberais de direita (Pinochet); ditaduras capitalistas estatistas de direita (Brasil militar e, pasmem, Vargas); democracias capitalistas estatistas de esquerda (Inglaterra trabalhista pré-Thatcher); democracias capitalistas liberais de direita (Inglaterra de Thatcher, e o objetivo de Bolsonaro); democracias capitalistas liberais de esquerda (FHC, social-democracia no Chile, Europa dos anos 90 e 2000 ‒ incluindo trabalhismo pós-Thatcher ‒ etc.); democracias capitalistas estatistas de esquerda (Lula e Dilma); ditaduras capitalistas estatistas de esquerda (Egito pré-2011, Mugabe, Gaddafi, Assad, em algum grau Putin e Chávez/Maduro); ditaduras comunistas estatistas de esquerda (URSS, China maoista e similares, além da Iugoslávia, mas com mercado um pouco mais livre); ditaduras capitalistas estatistas de esquerda (China atual: sim, há capitalistas, mas supercontrolados).

Enfim, vai do gosto do freguês, mas só pra dizer o óbvio:

  1. Correlação de que direita é necessariamente capitalista, que é necessariamente liberal e que é necessariamente democrática só existe em cabeça de adolescente, porque o que define capitalismo é a propriedade privada dos meios de produção (i.e. do capital), e não mais ou menos Estado, mercado livre ou controlado, Estado ditatorial ou democrático.
  2. Mesmo regimes capitalistas democráticos às vezes recorrem a uma intervenção maior do estado justamente pra manter o domínio privado do capital (contra ameaças do tipo insurreição operária), sejam de direita (de Gaulle na França) ou esquerda (Attlee na Inglaterra).

O fato de dizer que o nazismo era capitalista (ou, talvez, mesmo de direita nos valores) não deve irritar os capitalistas liberais democratas de direita, exatamente porque a análise histórica concreta nada tem a ver com reducionismos feitos por polemistas toscos de esquerda, que acham que “capitalismo é direita e direita é nazismo”, ou que “esquerda é democrática em sua essência, portanto Maduro, Assad, Mao e Stalin são democratas”. Certas direitas não devem incorrer no mesmo erro de achar que o mundo é feito de binômios!

Depois de uma galera ficar resmungando que eu “não conhecia a terceira posição” ou “não sabia o que ela era”, como se isso fosse resolver a discussão e como se eles quisessem achar que sabiam mais que eu “lacrando” a discussão de modo simplista, com rótulos e categorias que eles acham aleatoriamente na internet, fiz este adendo:

“Terceira posição” é um rótulo que o próprio Hitler e semelhantes inventaram pra dizer aos olhos do povo que não eram “nem direita, nem esquerda”, ou seja, algo “novo”, o que era absolutamente falso. Sem fazer equiparações, mas é a mesma coisa que o Bolsonaro dizer que representa “o novo”, mas ter passado 30 anos sem resultado concreto na atividade parlamentar, e como presidente recorrendo às mesmas práticas de barganha e negociação com o Congresso, as quais, na verdade, são essenciais pro funcionamento do país.

Voltando ao fascismo, nunca devemos aceitar os rótulos que os próprios autores se dão ao longo da história, mas analisar a estrutura social subjacente à “superfície” política. A primeira coisa que Hitler e Mussolini fizeram foi esmagar e destruir, fora de qualquer restrição judicial, o movimento operário organizado, e com mais ferocidade ainda os sociais-democratas (ou socialistas) e os comunistas. O resultado que isso teve foi uma liberdade imensa pra que patrões pudessem ter suas taxas de lucro aumentadas, explorassem o quanto quisessem os trabalhadores e proibissem qualquer reivindicação operária substancial. Em resumo, o capital (i.e. empresariado e industriais) se valeram de um regime de força pra que pudessem manter a economia funcionando como eles mesmos queriam. E essas oscilações “à direita” e “à esquerda” são comuns em regimes capitalistas, mas se referem apenas à troca de governos, em que capitalistas aceitam um controle mais ou menos restrito às suas atividades, mas não cedem suas propriedades, como ocorreu exatamente no governo “comunista” (!) do Lula (não por menos, vários analistas da época apontaram semelhanças entre a política econômica de Dilma e a do ditador militar Ernesto Geisel).

Por isso mesmo é um acinte à inteligência dizer que nazismo e fascismo são socialistas, ou mais ainda de esquerda! Assim, podemos tranquilamente encaixar fascismo e nazismo como ditaduras (forma de governo) capitalistas (formação socioeconômica) estatistas (papel do Estado, sobretudo na vida do povo, mas sem tocar nos capitalistas, que em algum grau aceitaram essa intervenção, mas pra manter o próprio poder) de direita (no plano dos valores, mantendo o tradicionalismo, a religião e a hierarquia).

Terceira via é uma forma envergonhada de dizer que Hitler não seria “de direita” ou “de esquerda”. Exatamente porque numa formação social em que predomina o capitalismo, não precisa haver exatamente um governo de direita. Partido ou ideologia política é uma coisa, formação socieconômica é outra e não se altera da noite pro dia. E foi justamente porque Hitler não alterou a propriedade do capital é que o país continuou sendo economicamente capitalista. E como eu disse, maior ou menor intervenção do Estado não altera esse caráter, que é justamente o erro de alguns liberaloides: mais ou menos Estado nada tem a ver com a posse efetiva do capital (a diferença no caso da URSS é que justamente o capital foi expropriado, o que não ocorreu em outros países).

E o que poucos conhecem ou fingem conhecer: nunca na Alemanha os capitalistas tiveram tamanha liberdade de explorar os trabalhadores, embora um ou outro empresário fosse antinazista. Neste caso, é óbvio que ele foi perseguido por razões políticas, e não econômicas. Reiterando o argumento: o que determina se um país é “capitalista” ou “socialista” não é ter respectivamente um governo “de direita” ou “de esquerda” ou ter “Estado mínimo” ou “Estado interventor”, e sim se o capital ou os meios de produção são de propriedade privada (caso da imensa maioria do mundo) ou pública (em tese, propriedade popular ou operária, mas na prática do Estado que afirma representar o povo).

Internauta 1: É como se estivéssemos ainda no período da bipolaridade. Eu diria que você é centrista, mas eu acho que na real é isso mesmo. Pelo que li no meu livro de História, o governo de Hitler era de extrema-direita, pois além de perseguir pessoas com deficiência, mórmons, evangélicos, católicos e Testemunhas de Jeová, ele cultivava ódio aos comunistas. Fora que não foi só isso: do socialismo (implantado pelas ideias de Karl Marx) evoluiu ao fascismo (comandado por Benito Mussolini), que evoluiu ao nazismo, enfim chegando a Adolf Hitler. O estopim da revolta socialista foi o impasse, na Revolução Russa, no POSDR (Partido Operário Social-Democrata Russo), em que de um lado estavam os bolcheviques (socialistas) e do outro lado estavam os mencheviques (capitalistas): um era liderado por Lenin, o outro era liderado por Iuli Martov.

O que penso: Hitler não perseguiu “evangélicos e católicos”, mas evangélicos e católicos que se opunham ao regime. Tanto que vários autores lembram o “vergonhoso passado” de colaboração do alto clero de ambas as igrejas (luterana, no caso dos evangélicos) com o regime nazista. Um dos padres simples perseguidos por Hitler foi o alemão Joseph (José) Kentenich, que quando veio ao Brasil fundou em Atibaia, SP, a comunidade de Nossa Senhora de Schoenstatt.

Quanto à evolução “do socialismo ao fascismo e ao nazismo”, isso não existiu, sobretudo com Hitler: quando fundou o partido fascista, Mussolini tinha rompido com o socialismo (na época, o reformismo da 2.ª Internacional), e não o desenvolvido, enquanto Hitler jamais foi socialista; muito pelo contrário, se envolveu com grupos militaristas e ultranacionalistas logo depois de ter lutado na 1.ª Guerra Mundial (na qual foi ferido e ganhou a Cruz de Ferro por bravura) e entrou no futuro partido nazista ainda no comecinho dos anos 20, enquanto era desmobilizado do exército. Hitler, portanto, não fundou o NSDAP, mas logo lhe tomou a liderança e deu a forma final. Na mesma época, elaborou o grosso da doutrina nazista escrevendo o livro Minha luta adivinhem onde? Na prisão, onde ficou por apenas uns meses por ter tentado um golpe de Estado na região da Bavária!

Das duas uma: ou o livro de História dele é ruinzinho, ou o menino é ruim em interpretação de texto...

Internauta 2: Gostei da explicação, mas para simplificar, sugiro a todos que afirmam que o nazismo era de esquerda, que vão a qualquer manifestação neonazista portando qualquer símbolo caro à esquerda (a foice e o martelo, bandeira vermelha, fotos de Marx, Lenin, Che ou Lula) ou gritando qualquer palavra de ordem esquerdista (“Abaixo o controle dos meios de produção”, “Cuba sim, ianques não” ou um inofensivo “Lula livre”). Sintam a reação dos “esquerdistas” à sua volta. Essa é a resposta mais clara, simples e prática para quem ainda tem dúvida nessa questão.

Internauta 3: A cabeça dessa galera iria explodir se eu mostrasse o socialismo de direita de Saint-Simon baseado em Adam Smith, que existia bem antes de Karl Marx, e que o anarquismo é socialismo sem Estado.

Internauta 4: Já vi ancap [anarcocapitalista] dizendo que a ditadura militar foi uma ditadura socialista de centro-esquerda!

Internauta 5: Antes da guerra, em 1934, os nazistas já controlam a iniciativa privada, tipo o que era produzido, como deveria ser produzido e a quem seria distribuído, e preços e salários eram decididos pelo governo. Então não era muito pró-livre mercado, embora a maior parte da economia fosse “privada”.

O que penso: E o que foi que eu acabei de dizer? O capital era privado, sem aspas, porque continuava como propriedade dos capitalistas, enquanto a intervenção estatal na economia, como eu disse (e que o rapaz citou), não é suficiente pra definir socialismo. Como escreveu Ralph Miliband, o patronado nazista aceitou essa intervenção pontual, sem expropriação, pra controlar o movimento operário (achatando salários e fechando sindicatos) e aumentar os lucros. Tanto que quando o nazismo caiu, os empresários não moveram uma palha pra defendê-lo e aceitaram igualmente a ocupação ocidental no lado oeste da Alemanha, que igualmente suprimiu o movimento operário e garantiu condições conservadoras de reconstrução. Além disso, as economias de guerra da Europa, dos EUA e mesmo do Brasil exigiram então um forte controle estatal de preços, produção e distribuição, sem que por isso falássemos em “esquerda” ou “socialismo”. O nazismo, na prática, se transformando numa indústria bélica gigantesca, vivia em permanente estado de guerra, porque o expansionismo estava justamente no cerne da ideologia (ao contrário, por exemplo, do comunismo).

Internauta 6: Eu acho que é terceira posição ideológica. Até porque o Führer chamava o Churchill de “porco capitalista”, odiava todas as potências ocidentais com sistema capitalista e chamava os comunistas de “praga vermelha”.

O que penso: “Eu acho” e “ele disse” são suficientes pra não merecer resposta. Discurso público é um terreno tão pantanoso, que é justamente o que diz mais sobre as contradições de um agente histórico e político. Basta lembrarmos que até a 2.ª Guerra Mundial, a política adotada por Inglaterra e França (com os EUA alheios ao assunto) foi de “apaziguamento” de Hitler, ou seja, a aceitação gradual de todas as anexações territoriais que ele ia fazendo, pra ver se ele enfim parava de vez: não adiantou. Vemos também que Stalin foi muito cauteloso, até 1941, em adotar um discurso antifascista consequente, tanto que a Comintern mal conseguiu sequer chegar a uma definição clara de fascismo e de como o combater até 1935, quando praticamente entrou em coma. E o pacto Molotov-Ribbentrop, por acaso seria suficiente pra chamar Hitler de “esquerdista” e Stalin de “direitista”, sendo que todos os países na mira da Alemanha menos procuravam acabar de vez com a ameaça do que ganhar tempo? O fato do regime nazista ter sido uma ditadura capitalista estatista de direita nada tem a ver com Hitler “odiar” as potências capitalistas, já que, como eu disse, o que define capitalismo é propriedade privada dos meios de produção, e não forma ou discurso de governo. A guerra entre as potências europeias era muito mais por mercados econômicos do que por concepções de política ou de civilização.

Internauta 7: Nem de direita, nem de esquerda. O nazismo é apenas uma ideologia nacionalista e socialista, algo próximo da atual Coreia do Norte.

O que penso: Mais um que não entendeu o que define “capitalismo” e “socialismo”. E é exatamente esse ponto que distingue a Alemanha nazista da Coreia do Norte, porque neste país sequer existe mercado ou propriedade privada. Impossível comparar as duas estruturas! Além disso, as circunstâncias históricas são diversas: enquanto o nazismo foi um fenômeno de reação interna à intervenção do Tratado de Versalhes na soberania do país, a Coreia do Norte foi um satélite da URSS (e depois da China) surgido como solução de compromisso à expulsão dos japoneses da península, em que soviéticos e norte-americanos dividiram o controle territorial, levando à posterior criação de dois países (exatamente como na Alemanha pós-1949). A Coreia do Norte se tornou então praticamente uma concessão feudal à família Kim, em que o fundador Kim Il-sung implantou uma espécie de governo e ideologia com características absolutamente irracionais, bizarras e idiossincráticas, traços continuados pelo igualmente idiossincrático filho Kim Jong-il. Na Alemanha, a estrutura política era muito complexa pra que fosse tornada de propriedade familiar, o que mesmo Hitler (que não deixou descendentes) não fez nem tentou fazer.

Internauta 8: Não é capitalismo se existe Estado, e Hitler apoiava o socialismo. [Esse fumou legal...]

TV Eslavo: O capitalismo só pôde se implantar com o apoio primeiro dos Estados absolutistas, depois dos Estados burgueses, que promoveram, sobretudo, a barbárie colonialista, razão maior pela qual a Europa hoje é rica. Nenhuma iniciativa sobrevive sem um investimento mínimo de Estados eficientes (e até conservadores reconhecem isso) em educação, infraestrutura, energia etc., projetos gigantes que a iniciativa privada (ainda) não tem condições de bancar. Quanto a Hitler, sugiro que leia qualquer escrito ou discurso dele, em que jura de morte o marxismo, o socialismo, o comunismo e coisas semelhantes (e não, o fato do nome do partido ser “nacional-socialista” em nada indica que era de esquerda, já que na época podia haver socialistas com posições pró-mercado ou conservadoras). Ou que conheça a história: os primeiros partidos que ele fechou em 1933 foram o social-democrata e o comunista...



quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Postagem n.º 500 e os 5 anos da página


por Erick Fishuk


Por uma armação do destino, coincidiu que a postagem número 500 da minha página coincidisse com a data de cinco anos de lançamento do site como um todo. Isso porque no fim do ano passado, quando anunciei uma breve pausa em meus lançamentos, esse texto também contou pro cálculo, e somando ainda o período que fiquei fora na maior parte de dezembro de 2018, além do período entre 14 de junho e 14 de julho de 2019, os aniversários casaram certinho.

Mas o que significa o número de 500 postagens ou o aniversário de cinco anos de uma iniciativa online? Alguns anos atrás, quando celebrei a postagem n.º 200, aproveitei muito mais pra contar sobre minha história como pessoa, estudante, historiador e tradutor. Na época, eu ainda estava essencialmente transferindo pra página traduções que já estavam postadas em forma de vídeos legendados no meu canal do YouTube “TV Eslavo” (que já se chamou no passado “Pan-Eslavo Brasil”, “Pan-Eslavo”, “Canal Eslavo”, “O Eslavo” e simplesmente “Eslavo”) ou republicando os textos mais substanciais que eu já tinha escrito, mas antes postados em outros meios ou sequer divulgados. Eu estava, portanto, criando uma massa crítica pra que pudesse formar um razoável cartão de visitas cultural e vinculando gradualmente o conteúdo da página ao do canal no YouTube. Além disso, a frequência de publicações foi aumentando ao longo do tempo (exceto nos períodos em que tive de dar uma pausa): as postagens eram primeiramente semanais, depois saíam toda quinta-feira e domingo, e a partir de meados de 2016, quando eu tinha muito material acumulado, decidi lançar coisas a cada dois dias, ritmo que mantenho até agora.

No dia de hoje, quando a página já está muito conhecida por fornecer material em certos nichos e meus leitores e visitantes da TV Eslavo me conhecem nos traços pessoas e intelectuais básicos, vou dispensar novas apresentações e apenas contar sobre minhas experiências virtuais nos últimos anos, além de dissertar sobre as características e desafios que encontram os atuais empreendimentos culturais na internet. De alguma forma, o balanço deixa de ser apenas pessoal ou individual pra se integrar no mundo mais amplo das interações à distância, dentro do Brasil e com outras partes do mundo.

Pra começar, eu acho que manter a página foi uma experiência positiva e contendo somente frutos exitosos? No geral sim, porque uma espécie de serviço intelectual mais “manual”, que envolve formatação de textos às vezes já prontos (incluindo descrições de vídeos no YouTube) e sua transformação num código HTML, bem como a adaptação da redação pro formato de escrita fixa, envolve raciocínio saudável, concentração e noções de estética e redação clara. Esse é um bom treino pra minha mente, e envolve um esforço que ultrapassa a mera passividade de leituras ou pesquisas. É uma das poucas atividades redacionais em que me sinto à vontade, por exemplo, pra escutar músicas, notícias ou telejornais, e até conversar com amigos no WhatsApp. O próprio ato de escrever ou adaptar também é um treino pra trabalhos intelectuais mais sérios, como artigos acadêmicos, avaliações universitárias, mensagens pra entidades hierárquicas e as próprias teses de grau (mestrado e doutorado). E outra coisa que me agrada é ver o conteúdo da TV Eslavo sintetizado, tanto com a possibilidade de divulgar os vídeos em outros meios quanto de proporcionar ao espectador outro tipo de vivência que não seja apenas a assistência passiva.

Quanto aos ganhos culturais e humanísticos, não há qualquer comparação ou disputa: o fato de ter um espaço próprio e desenvolvido pra publicar textos e outros materiais de leitura (escritos ou não por mim, ou traduzidos por mim), o que inclui expressão de ideias e compartilhamento de experiências, já é uma grande felicidade pra quem desde pequeno foi atraído pelas letras e humanidades. E se publico, é porque não quero que o conteúdo fique limitado a mim ou a pequenos grupos, mas disponível a quem quer que se interesse ou precise, por ser de interesse geral, e não particular ou grupal. A partilha e a ajuda sempre foram os motores de minha vida social, e é a empatia, ou o sentimento conjunto das necessidades alheias, que define meu campo de atuação. O auxílio acadêmico, intelectual, informativo e documental não se limita, pois, a mim mesmo, que em todo caso tenho referências de consulta própria ou prontas pra repassar a outras pessoas; estudiosos e curiosos interessados têm à disposição um razoável material de pesquisa e supressão de dúvidas.

Porém, quem analisa o cenário cultural e educativo global e as relações interpessoais nas mídias digitais tem invariavelmente feito um balanço pessimista e crítico. E esse cenário tem uma ligação indissolúvel com os atuais movimentos políticos e sociais do mundo inteiro, incluindo o Brasil. Tal análise me preocupa e também me concerne, pois se quero difundir conhecimento, preciso saber do que os internautas precisam, por que disso precisam e o que acham do que eu publico. Nesse âmbito, o balanço é inquietante: a chamada “alta cultura” está se diluindo, há um ódio (ou no mínimo desconfiança) crescente contra os intelectuais e os acadêmicos, o grau de leitura das populações está diminuindo, as universidades são cada vez mais atacadas pelos governos (material e moralmente), as agências de notícias estão assediadas por quem simplesmente discorda de sua linha editorial (e, paradoxalmente, a crença em manchetes falsas que circulam pelos smartphones se reforçou), os chefes de Estado procuram convencer os eleitores e governados muito menos pelo argumento racional do que pelo sentimento passional, a xenofobia e o chauvinismo voltam a assombrar a civilização ocidental e a produção artística é valorizada muito mais por sua capacidade de idolatria, lucro rápido e descarte do que pela profundidade da mensagem, qualidade técnica e enraizamento temporal. O “politicamente correto”, na verdade um conjunto mutável de valores e etiquetas que nos orienta para evitar a discriminação ou vexação de grupos mais vulneráveis à sátira dos privilegiados pelo status quo, é acusado de promover censura intervencionista e tirar a graça de espetáculos e entretenimentos sem utilidade evidente.

Há quem diga que são todos indícios de uma barbarização ou mesmo fascistização do Ocidente capitalista e dos territórios externos ligados a ele, decorrente de mais uma deriva autoritária destinada a manter os altos rendimentos privados das indústrias e bancos, socializar a inescapável pobreza e consolidar a condição de meros fantoches manipuláveis do sistema (o célebre “gado” de que falam atualmente os jovens) à massa colossal que consome produtos ou usa recursos tecnológicos acriticamente. Eu diria brincando que estamos passando de uma “república” como modelo ideal de governança a uma “rês pública”, ou falando em latim, da coisa pública original (“res publica”) estamos virando uma “grex publica”, isto é, a manada que prefere vibrar em torno de líderes carismáticos do que ouvir propostas concretas. Não só no Brasil, mas no mundo todo. E os governantes, ainda por cima, apresentam traços externos e discursivos de falta de alteridade, banalização da vida humana e elogio da violência e contorno das leis como forma de resolver rapidamente os problemas e obter um crescimento econômico focado somente no aspecto quantitativo e vertical, e não na qualidade de vida e na manutenção e aperfeiçoamento do capital humano. A outra face dessa tendência, já vulgarizada entre boa parte do público, é tratar o ecologismo como “histeria ideológica”, legitimando a predação produtiva dos frágeis recursos naturais planetários e negando suas nefastas consequências sociológicas e ambientais, já comprovadas solidamente por evidências científicas.

Esse diagnóstico é contemporâneo e não leva necessariamente em conta a evolução desde a inauguração de minha página, em 1.º de agosto de 2014, ou desde a citada postagem n.º 200. Eu poderia ir além e pensar o que aconteceu desde 20 de novembro de 2010, bem no fim da Era Lula e perto de iniciar o primeiro mandato de Dilma Rousseff, quando criei a TV Eslavo nos primórdios da popularização do YouTube. Não é a mesma coisa do que refletir sobre outros sites, canais e espaços midiáticos voltados apenas a entreter e desligados ou pouco relacionados aos acontecimentos nacionais e internacionais, porque tudo ou a maioria do que disponibilizo, tanto pela circunstância de aparecimento quanto pelo caráter do conteúdo, está estreitamente relacionado a política, histórica, sociedade, cultura, educação e idiomas, resumindo, temas de valor mediato, e não efêmero, pra quem desfruta das plataformas digitais. E com a democratização e inclusão da informática, mais e mais gente tem desejado saber mais e mais coisas, e ao mesmo tempo se julga mais e mais apta a dar opiniões sobre qualquer assunto, sem estudo aprofundado. Se a democratização tecnológica já é em si uma revolução, também o é a democratização dos foros opinativos e, mais ainda, o potencial de pressão, intervenção ou até intimidação nos que opinam nessa zona livre, fato inédito na história das ideias e das inter-relações. Tal capacidade de atingimento é o perigo maior, e quem lida com conteúdos sensíveis, mesmo que não tenha sido seu elaborador, está mais vulnerável à perseguição da “ciberturba”.

Por que afirmo tudo isso? Voltando agora mais detidamente à minha atuação, todos estão cansados de saber que o teor das traduções e legendagens se deve à minha especialização em história social do trabalho, mais especificamente em história política do Brasil República e da Europa no século 20, porquanto sempre me foi mais fácil traduzir a partir de temas que já eram familiares e mais fácil saber as demandas de quem pertencia à mesma área do que a outras dos estudos históricos ou mesmo de outras disciplinas superiores. O assunto no qual acabei me aperfeiçoando foi o do comunismo no Ocidente e na Europa Oriental, seja como partidos político-eleitorais, seja como regimes instituídos. A temática comunista já causava sensação no início desta década? Sempre causou, e nunca deixou de despertar paixões favoráveis ou contrárias, inclusive nos primeiros recursos disponíveis pra publicação na internet. Desde muito cedo, nunca foram volumosos os comentários deixados nas postagens desta página, por isso não hesitei em desativar esse recurso, ante a atual popularidade escassa dos blogs como ferramentas de exposição e escrutínio textuais. Pra ser sincero, o maior motivo de eu ter mantido o Fishuk.cc foi minha recorrência predominante à escrita e à leitura na carreira profissional do que ao audiovisual: se o contrário ocorresse, era a TV Eslavo que teria frequência fixa de atualização, e não a página.

No canal do YouTube, a dinâmica foi diversa: em 2010 e 2011, poucos tinham uma conta, que aliás não era vinculada ao hoje extinto Google Plus, a rede social do gigante informático, e por isso as seções de comentários não serviam como fóruns de discussão à parte. A partir de 2012, sobretudo de 2013, com a maior articulação política dos brasileiros, as conexões online mais modernas e previsíveis, o fim das desconfianças face às redes sociais e o refinamento das técnicas audiovisuais, Facebook, WhatsApp, Instagram e YouTube começaram a cair no gosto popular, de início um pouco como imitação dos hábitos dos países desenvolvidos, mas com gradual aclimatação ao cenário nacional e, assim, “orkutização” das participações, em outras palavras, poluição visual e histrionia discursiva acentuadas. Pari passu, como é óbvio, caminhou a difusão e acessibilidade dos smartphones, que dispensavam a necessidade de estar parado, sentado a qualquer tipo de computador de mesa, pra interagir com outros ou ficar informado. Facilitação das vantagens, facilitação dos atritos. A frequência dos comentários no hospedeiro de vídeos disparou, as brigas também, e em vários momentos me vi obrigado ou inspirado a interditar essa seção, atitude que ficou cada vez menos frequente, porque a abertura ou fechamento deviam ser feitos em cada vídeo, e com cerca de 700 vídeos atuais, qualquer mudança é broxante.

Indo direto ao ponto, quem predomina hoje: comunismo ou anticomunismo? Uma teorização de como evoluíram as interações e o acesso a conteúdos no YouTube pode ajudar a explicar o resultado. No passado, as pessoas só encontravam o que procuravam, portanto num vídeo de conteúdo comunista era claro que a maioria dos comentários ia ser de comunistas, socialistas ou esquerdistas em geral, apoiando os que produziram o hino, canção ou documentário. O mecanismo de oferta de sugestões ou de notificação de atualizações era bastante primário, levando à pouca exibição do que não lhes interessava. Quem criticava o bolchevismo ou a URSS quase sempre eram internautas atraídos pela minha proposta original de ser “pan-eslavo”, ou seja, abordar o máximo possível de línguas eslavas sem me limitar a um ou poucos temas, e que quando viam algo comunista, reclamavam se não gostavam. Mas cada um usualmente ficava na sua, e não sentia a necessidade de provocar ou muito menos ofender quem pensava diferente. Quando havia troca de ideias, mesmo se eram opostas, o debate continuava amigável.

Muita coisa mudou de lá pra cá. Ainda me concentrando na TV Eslavo, a grande maioria do público passou a ser de jovens que já cresceram, desde muito cedo, com acesso a internet de qualidade ou mesmo recursos mais avançados como laptops (até certa época), smartphones e tablets. O ensino escolar passou a priorizar cada vez mais desempenho em provas pontuais, com mais memorização de tópicos do que absorção e utilização de conhecimento, tornando os vestibulares e até mesmo o ENEM um caso muito mais de vida ou morte do que na minha época (2005), quando praticamente só estudei com livros, e separando o aprendizado da vida real e da dignidade ou identidade social. O acirramento da mentalidade concorrencial e a mordomia tecnológica levaram a epidemias de ansiedade, depressão, baixa autoestima e até suicídio, pois a mínima falha técnica era motivo de desespero, o desempenho na escola e no escritório exigia metas desumanas, a disputa de vaidades ou cotidianos irreais nunca chegava a um termo e a sensação de ser contrariado numa troca opinativa era equiparada a uma derrota moral ou a um atestado de inépcia. Acrescente-se o secular espírito de rebanho, e note-se como o novo comportamento literalmente “viralizou”, como dizemos hoje.

E o comunismo, onde entra nisso? Bem, do ponto de vista intelectual, evidencia-se uma popularização das ideias conservadoras de direita, tradicionalmente avessas aos comunistas e a outras formas de esquerda radical. Essa predominância de “direita” e “esquerda” na opinião pública, a meu ver, é rotativa e ocasional, pois o que nossa cultura popular tem de mundana ou puritana, ao contrário do que muitos pensam, nada tem a ver com o espectro ideológico de extração europeia, o qual termina concernindo, portanto, a um domínio tão distante da vida comum quanto a vida parlamentar e a troca de governos. Explica-se, então, por que parece haver nos comentários do YouTube, em meu canal e em outros, uma predominância da “direita” ou do “conservadorismo”, mais ou menos associado ao apoio à figura do presidente Jair Bolsonaro. Acontece que esse encurtamento de distâncias apenas virtual, e não físico, na esteira da supracitada banalização da vida humana, fez o homem comum agir com muito mais violência, crueldade e pressa ao externar seu incômodo com quem não lhe dá razão. Esquecemos que por trás de perfis, contas ou até “fakes” existem pessoas, vidas, experiências, sentimentos, fragilidades, e a mistura de vaidade, prepotência e egoísmo faz o resto. Ninguém é contestado por seus argumentos ou coerência, mas desumanizado sem dó meramente por ter se definido “de direita” ou “de esquerda”, ou por ter o outro achado precocemente que ela(e) assim se rotularia.

Infelizmente, não são apenas os “bolsominions” ou “coxinhas” que agem dessa maneira: tenho inabalável certeza de que os apoiadores do PT e os militantes antissistema radicais forjaram esse modo de agir, rapidamente apropriado, adaptado e aperfeiçoado pelo outro lado da barricada. Desde 2013 pelo menos, presencio pessoal ou virtualmente a atitude dos que chamam de “reacionários” e “fascistas” os que simplesmente expressaram críticas mais ou menos articuladas ou incisivas aos governos de Lula e Dilma, aos regimes autoritários de esquerda ao redor do mundo e à corrupção e gastança pública que grassaram em Brasília (aí incluídos, claro, os ocasionais apoiadores despolitizados do “centrão”). Isso me dava nojo e me fez deixar de seguir muitos blogs, páginas e canais que, fora isso, apresentavam conteúdos muito didáticos e interessantes. A postura dogmática e arrogante do PT (em parte, creio, derivada do próprio jeito presunçoso de Lula) e de outros esquerdistas afugentou muitos eleitores potenciais, num momento em que conquistado o Estado, pensava-se que nada mais se havia de fazer pra legitimar a hegemonia. Daí uma boa parte do eleitorado popular petista ter facilmente passado ao PSDB novamente ou ao PSL. Em suma, como virou lugar-comum se dizer, a polarização e o ódio se generalizaram, tornando a política menos um caso de valores e persuasão do que de adesão fanática e blindagem passional.

Quem produz conteúdo relativo ou voltado à história e à política não podia passar imune a esse clima. O campo do conhecimento é o mais facilmente visado ou atingido pelos que desejam manipular fatos e mobilizar exércitos. As humanidades têm essa estranha propriedade de parecer tão fluidas ou tão próximas do dia a dia, que qualquer um se sente no direito ou capacidade de emitir pareceres sobre seus procedimentos e conclusões. A verdade é que história, ciência política, sociologia, filosofia, redação, linguística, literatura, tradução, legendagem e o que mais seja afim a meu trabalho de divulgação cultural, tudo isso se domina apenas com longo aprendizado, cansativa disciplina e reflexão sóbria, mesmo que seja inevitável a intervenção apaixonada ou a opção partidária em querelas sociais mais abrangentes. O essencial é não confundir meios com fins, nem sacrificar os primeiros aos segundos, mantendo uma relativa independência da área técnica, científica e acadêmica. Mais do que nunca, urge uma tradução pro português do pequeno mas instigante artigo do historiador francês Pierre Nora, L’histoire au péril de la politique (A história sob o perigo da política), que pretendo fazer em breve, advogando pela não instrumentalização de nosso ofício e pela aceitação geral dos resultados de pesquisas, a despeito do que se vá ou não pensar delas.

A página “Traduções de Erick Fishuk” e o canal “TV Eslavo” surgiram exatamente com o propósito humanístico de ultrapassar as rixas político-ideológicas, sem contudo perder o contato com elas. É chavão afirmar que a história dá lições sobre o que devemos ou não fazer, sobre o que causou ou não grandes retrocessos civilizatórios, porém mais do que isso, sua utilidade e obrigação é dar à interação social um chão mínimo pra pensarmos que resultamos de uma jornada muito mais longa e dolorida do que entendem nossos confortos, pra lembrarmos que nosso modo de vida não é o único possível e pra internalizarmos de vez que a condição humana, portanto todas as suas carências, riscos, potenciais e fragilidades, são compartilhados por pessoas muito distantes de nós no espaço, no tempo, nos pertencimentos e nas escolhas. Soa estranho uma página de traduções e um canal de legendagens adotarem um projeto valorativo, mas se nos damos conta do input humano por trás de cada empresa do tipo, compreendemos por que o objetivo das traduções é aproximar, desvelar, incomodar, e por que não me limito à tradução “seca”, mas incorro às vezes em montagens e misturas culturais, despertando o senso de absurdo que faz a essência da arte. Como disseram vários grandes intelectuais ocidentais, a atividade tradutória enriquece cultura, engendra progressos literários e estimula, ao invés de desencorajar, o conhecimento de novas línguas e realidades.

Não há razões pra desanimar ou calibrar a esperança: a vida é um mosaico de imprevistos e possibilidades, e a civilização sempre encontra pedras no caminho antes de alcançar estágios mais avançados. A função da cultura, da ciência e da arte não é acelerar ou deter a marcha, mas apenas mantê-la constante e direcioná-la no caminho do esclarecimento, da conservação e da intercompreensão. Jogando ao acaso, os frutos permanecem misteriosos, mas a virtude não está em produzir isto ou aquilo, mas em continuar apostando, aceitando os desafios que um mundo natural e humanamente hostil nos põe diariamente. Quem age mais e julga menos, quem pensa com humildade e faz com abnegação, consegue mais facilmente seu lugar ao sol, mesmo que no edifício da história ela(e) se torne um tijolo pequeno, nem por isso descartável. Que minha página e meu canal sigam prestando nesse sentido, que mais gente encontre neles um auxílio e que sejam mais cinco, dez vinte ou cinquenta anos, com incontáveis postagens!


Bragança Paulista, 31 de julho de 2019