sábado, 16 de março de 2019

Ser ateu é bom? (1: questão de valores)


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Na segunda metade de 2011 escrevi uma trilogia de pequenos artigos que revisei levemente em meados de 2012 pra republicar no blog Materialismo.net. O título geral é “Ser ateu é bom?”, e com ideias pessoais tento explicar as possíveis vantagens e poréns do abandono da própria religião ou mesmo da crença em deuses. Como eu disse outras vezes, não mais me preocupo tanto com autodefinição religiosa, e algum estudo histórico bastaria pra relativizar certas assertivas que lancei. Porém, esse exercício foi importante pra eu treinar redação e argumentação com textos e buscar libertar minha própria mente de certos medos. No número 1, “Questão de valores”, tento dar minha definição particular de ateísmo e desfazer, mesmo que de modo um tanto rasteiro, alguns mitos a respeito. Segue abaixo sem alterações.



Será que ser ateu é bom? Será que o ateísmo é melhor do que a religião? Isso depende do que você faz de sua vida depois que abandona a crença em deuses e em sacerdotes, portanto ela pode se tornar melhor ou pior. Mas uma coisa é certa: as vantagens são garantidas se a transformação se dá no sentido da preocupação com o outro, do desenvolvimento do senso crítico e da supressão de medos espirituais.

Primeiro, o que é o ateísmo, afinal? Longe das definições filosóficas estritas, neste texto vale o seguinte consenso, com base no que se observa mais comumente: rejeição da crença em seres ou mundos sobrenaturais e da condução da vida conforme regras ditadas por pessoas que dizem tê-las aprendido por revelação ou iluminação instantânea, portanto regras sagradas. Não é a ausência de crença, mas a crença numa ausência, ou seja, no mais das vezes, “ateísmo forte”. Se fosse só ausência de crença, todos os não teístas (taoístas, budistas, confucionistas, agnósticos, céticos e outros) seriam ateus, o que excluiria a frequente negação de antigas tradições consolidadas.

Ora, mas muita gente não matou em nome do ateísmo? Na verdade, não. Na Revolução Francesa, teístas ou deístas também mataram, acima de tudo, representantes de um poder absolutista opressor e atrasado, inclusive de seu braço espiritual, a Igreja Católica. Já nos países socialistas, a perseguição foi contra os adversários do regime e da filosofia marxista que virou doutrina de Estado. Nesses expurgos, muitos comunistas ateus fiéis também foram subtraídos de suas vidas.

Mas o ateísmo não implica a ausência de valores morais? Não necessariamente. Para começar, muitos dos valores ocidentais modernos vieram de fora do cristianismo: liberdade de expressão e pensamento, democracia política, tolerância à fé e às ideias alheias, estima da inteligência e do raciocínio, livre comércio, Estado laico, sexo sem culpa e por aí vai. Houve e há muitos ateus cretinos, mas houve e há também religiosos iguais. Herança genética e criação familiar e social parecem ter mais peso sobre a formação do caráter, e o que nele há de bom ou de ruim pode ser potencializado pela tranquilidade ou agressividade com que se defende uma crença, religiosa ou não.

Na verdade, a libertação da religião impele a pessoa a buscar valores mais ligados à própria vontade, felicidade e capacidade ou disposição a contribuir para o bem da humanidade. O ateu consciente aproveita para preencher a nova lacuna com uma ética construtiva e altruísta, centrada no respeito ao próximo, na desconfiança cética dos dogmas cegos, no amor ao conhecimento e ao aprimoramento pessoal, na busca de um prazer livre de arrependimentos, mas sem excessos, e na conservação do meio-ambiente e da qualidade de vida.

É claro que cada um vai traçar sua própria hierarquia de prioridades, mas é certo que o ateísmo, conservada sua roupagem progressista e democrática original, é muito bom. Ele nos leva a sermos donos de nossa própria consciência, a assumirmos a responsabilidade por nossos próprios sucessos e fracassos e a nunca nos contentarmos com uma só fonte de informação, mas aceitarmos sempre comparar opiniões diferentes em busca do correto e do verdadeiro.


Bragança Paulista, 17 de setembro de 2011.
Levemente modificado a 11 de julho de 2012.


quinta-feira, 14 de março de 2019

Que significa o domínio .SU da internet


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Na foto acima, bem como na última que ilustra esta página, vocês podem ver um dos modelos do computador soviético Rassvet. A peça integra a coleção particular do russo Sergei Frolov, que tirou suas fotos em 2009 e as postou numa página pessoal, além de ter postado explicações em russo num fórum. Este dinossauro feito de um verdadeiro aparelho de TV tinha memória RAM com incríveis 32 KB!

Anteontem, dia 12 de março, fez 30 anos que surgiu a WWW, rede mundial de computadores que deu origem à nossa internet. Quem já visitou sites russos sobre comunismo e história da União Soviética, ou até com pirataria midiática e bibliográfica, já deve ter se deparado com o domínio .SU no fim de alguns endereços (como .BR é Brasil, .FR é França, .JP é Japão etc.). Às vezes é fácil de confundir com .RU, que é da própria rússia moderna. Mas... o que o primeiro significa?

Quando a internet comercial estava ganhando o mundo, na virada pros anos 90, a União Soviética, segunda potência industrial da época, mas bastante atrasada no quesito tecnológico e computacional, não podia ficar de fora. Como seria a comercialização do serviço numa hipotética URSS sobrevivente, podíamos especular. mas gradualmente, seguindo critérios diversos, cada país começou a receber seu próprio domínio. Pros soviéticos, foi reservado .SU, por vir do inglês Soviet Union: a maioria dos domínios, mesmo de países orientais, foi calcada no inglês.

Porém, apenas 15 meses depois de sua criação, o país deixou de existir. Até 1993, quando foi enfim criado o domínio .RU, as organizações russas continuaram usando o antigo domínio, mas ele continuou sendo disponibilizado pra negociação, apesar das tentativas de extingui-lo. Hoje ele é administrado pelo Instituto Russo para o Desenvolvimento das Redes Públicas, que não prevê sua desativação.

Curiosidade: a partir de 1989 foram sendo criados também domínios pra vários antigos países comunistas da Europa, como .DD (Alemanha Oriental), .CS (Tchecoslováquia) e .YU (Iugoslávia). Mas a história foi injusta:

  • As Alemanhas se reunificaram em 1990, e o domínio .DD foi usado apenas internamente pelas universidades de Jena e Dresden (lado comunista), até ser enfim desativado.
  • A Tchecoslováquia se bipartiu, e embora .CS fosse bastante usado até ser apagado em 1995, a República Tcheca (.CZ) e a Eslováquia (.SK) migraram pros próprios domínios.
  • Já a Iugoslávia, que foi perdendo várias repúblicas, só adotou o nome Sérvia e Montenegro em 2003, e o domínio sobreviveu até 2010. Desde então, só valem os domínios .RS (Sérvia) e .ME (Montenegro) das repúblicas que tinham enfim se separado em 2006.



terça-feira, 12 de março de 2019

Religião é política? E a ciência é ateia?


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NOTA: Este texto meu de 2011 é um dos mais interessantes, pois toca direto nos cernes do problema e tem estilo leve, fluido, sem palavras rebuscadas ou excessiva formatação em negrito ou itálico. Ele ainda é parte daquela onda na qual, tendo tomado contato com o marxismo dialético a partir, sobretudo, de Gramsci, eu enxergava a sociedade como um “todo orgânico” de instituições inter-relacionadas, de forma que suas funções se complementavam ou até intercruzavam. Porém, ainda ansioso por romper com o dogmatismo religioso e a doutrinação forçada, creio que forcei em certas associações e definições quanto ao papel e natureza da religião e a como igrejas e Estados funcionam na prática. O artigo é mais um dos meus inúmeros exercícios de tatear o real naquela época formativa, então tem as limitações compreensíveis do meu pouco estudo, mas vale pela coragem de enfrentar os dilemas e de tentar articular ideias de forma autônoma. Fiz apenas algumas alterações redacionais pra atualização.



Duas perguntas essenciais devem ser respondidas pelos movimentos ateus, céticos e laicos no desenrolar de suas lutas se eles quiserem ir para frente e adquirir consistência visual, teórica e combativa. A primeira é se as religiões instituídas são uma forma de fazer política, ou, mais ainda, se elas mesmas são uma espécie de braço espiritual dos Estados modernos para que estes façam valer seus discursos morais e cívicos. A segunda é se a ciência, tomada como instrumento de análise e transformação racional e padronizada da realidade, deve definitivamente se assumir como partidária do ateísmo e, portanto, combater as religiões de modo militante, em concomitância com sua atividade profissional e objetiva obrigatória.

Não pretendo aqui esgotar a questão, que deve ser resolvida por todos aqueles racionalistas e fiéis que batalham pela não interferência de interesses privados nas esferas coletivas. Ainda assim, desejo dar minha contribuição, mesmo parcial e incompleta. Penso que, de acordo com um conceito mais amplo sobre o que é fazer política, não só as religiões instituídas, ao menos no Brasil e em alguns países em que elas exercem grande influência, são agentes poderosos de interesse e atuam conforme regras de conciliação e acomodação bastante terrenas, como também o Estado ainda lhes reserva uma grande dívida no sentido de mobilizar apoio para seus projetos de unidade patriótica e lhes tributa inúmeros privilégios patrimoniais e fiscais como retribuição ao preenchimento de lacunas, por vários séculos, que o poder público não quis ou não pôde suprir. Da mesma forma, segundo um conceito particular de religião, não julgo ser a ciência totalmente competente para intervir em assuntos de fé, a não ser que estes passem a concernir e a intervir no mundo real e na própria prática científica.

Vamos à questão do Estado, primeiramente. Hoje se defende que o Estado e os poderes públicos devem ser laicos, ou seja, separados de qualquer crença religiosa e de seus responsáveis. Parece-me que a pergunta deve ser não só reformulada, mas também especificada: será que, nos países em que as religiões ainda conservam enorme ou significativo poder, o Estado pode ou tem condições de ser laico? Antes de tudo, é preciso atentar ao fato de que, desde o início da história, os sacerdotes ou mágicos eram parte do poder coercitivo ou ordenativo, e isso tanto nas civilizações que chegaram a desenvolver comércio e escrita quanto nas pequenas tribos isoladas de todo o contato externo. Ou seja, nem se cogitava a separação entre autoridades temporais e espirituais tão corrente hoje. Tal característica passou intocada nos povos grego e romano (primeiro pagão e depois cristão) e nas monarquias feudais, sempre constituindo um crime o desvio ou a contestação do credo oficial.

Só com o Iluminismo do século 18 passou-se a postular a cisão entre Igreja e Estado, embora Hobbes e Locke, um século antes, já tenham contestado a ideia do direito divino dos reis. Veio a Revolução Francesa, que levou a sugestão à prática, mas vieram também Napoleão, que fez a concordata com Roma, e a Santa Aliança, que, no século 19, fez retrocederem todos os movimentos revolucionários. A salvação para o apartamento entre os assuntos eclesiásticos e governamentais na Europa e em países de desenvolvimento semelhante foi o progressivo avanço da ciência, da educação e da cultura, que laicizaram a sociedade – e continuam laicizando – e cujo processo não foi atrapalhado por alguns países que decidiram manter cultos oficiais.

Quanto aos povos de língua portuguesa – e espanhola, em algum grau –, embora pudessem ser citados outros casos semelhantes, as Luzes nunca chegaram com plenitude até aí. No caso do Brasil, a empreitada missionária aportou junto à colonizadora, e por séculos, mesmo após a proclamação da República laica, os jesuítas e outras ordens religiosas, ainda que com cortes pontuais, mantiveram o monopólio de nossa educação. O Império brasileiro foi oficialmente católico até o fim, quando nem mesmo os clérigos suportavam mais a ingerência estatal em seus assuntos. Em Portugal, a atrasada monarquia católica só acabou em 1911, e pouco depois o ditador Salazar ia tornar o clero novamente uma espécie de colaborador privilegiado do regime. Novamente na América, por volta dos anos 1930, mais de 90% de nossa população ainda era católica, e ações que vão desde a construção do Cristo Redentor e a cessão de seus direitos à Igreja até a instituição do feriado de 12 de outubro, em 1980, deixam claro quem ainda emocionava as mentes do povo. Paradoxalmente, desde a década de 1970, alguns setores católicos não desprezíveis se veriam embrenhados na oposição à tirania militar e às torturas e na defesa dos direitos das populações da floresta e dos pequenos agricultores contra a opressão latifundiária.

Hoje em dia, a Igreja controla grande quantidade de dinheiro, pessoas e instituições e não deve ser totalmente marginalizada das polêmicas que envolvam direitos humanos, políticas familiares e projetos de inclusão social, até porque ela já tomou parte em muitas delas com inegável sucesso. No caso das religiões evangélicas pentecostais e neopentecostais, vários dados novos se incluem: a formação de bancadas legislativas fortes, o vertiginoso crescimento do eleitorado, o domínio de gigantescos montantes financeiros e midiáticos e um extremo conservadorismo moral e religioso. Os movimentos secularistas devem ser mais duros com eles, mas isso não impede que o diálogo deva ser paciente, longo e não dogmático, até porque agora também o pentecostalismo penetrou em muitas iniciativas beneficentes, sociais e educacionais. Política é isto: todos cedem algo e todos ganham alguma coisa, em nome de um equilíbrio frágil que só terá fim quando os modelos atuais de Estado e sociedade também tiverem passado. Mas aí os problemas já serão outros...

E a ciência, onde entra nisso? Ela deve tomar parte em assuntos políticos e religiosos? O primeiro traço visível de sua história é que por muito tempo ela não foi separada nem da técnica, nem do poder dominante e nem, portanto, da magia. Os próprios filósofos gregos e romanos não se consideravam cientistas, e suas reflexões, quando não imbricadas ao poder, não se separavam das soluções práticas cotidianas. Na Idade Média, os ofícios profissionais não costumavam teorizar sobre seus procedimentos, e apenas com a Renascença a redescoberta do conhecimento da Antiguidade Clássica, somada às próprias inovações da época, inclusive espirituais (Reforma, heresias etc.), deu margem à autonomia do planejamento intelectual face à execução grosseira da produção material. Muitos cientistas dos séculos 17 e 18 se diziam religiosos, até que no século 19 doutrinas aparentadas em maior ou menor grau ao positivismo cismaram que a ciência deveria suplantar a religião. Marx, Engels e Lenin bem lembraram que os delírios místicos só desapareceriam por si sós quando o mundo alcançasse um alto progresso material, mas vieram lá o nazismo e o stalinismo e, com uma caricatura da superioridade da ciência e da razão, quase exterminaram a humanidade. Pouco depois, parece ter surgindo naturalmente uma tácita separação amigável, mas atualmente a questão voltou à tona com o acirramento dos fundamentalismos religiosos anticientíficos em diversos pontos do planeta. Afinal, a ciência é intrinsecamente ateia e antirreligiosa?

Algumas categorias devem ser postas em pratos limpos. Antes de mais nada, ao contrário dos animais, o ser humano sempre foi um ser de transcendência, quer dizer, constantemente tentou enxergar, e conseguiu, além da realidade que se lhe apresentava em estado bruto e, com isso, não só a transformou segundo suas necessidades como também, com suas elucubrações mentais, erigiu civilizações. Esse processo de reorganização do real na própria mente é extremamente subjetivo, e por isso os conflitos pessoais sempre hão de surgir; ainda está para se verificar, contudo, se existem também “subjetividades grupais” que condicionam uma mesma transcendência a certos grupos de pessoas (países, etnias, religiões, clubes etc.). Essa subjetividade particular não deixa de ser influenciada pelo próprio meio objetivo, comum a todas as pessoas, mas, por causa das diferenças individuais, enxergado de modos diferentes. Essas discrepâncias é que tornaram a raça humana tão multifacetada, mas não impediram que a referida capacidade de transcendência a fizesse evoluir. (Talvez seja esse o sentido da frase de Einstein segundo a qual a religião sem a ciência é cega, e a ciência sem a religião é capenga.)

Por um acaso do destino, alguns desses projetos subjetivos se erigiram em visões de mundo políticas e religiosas consolidadas, e passaram a ser impostos aos outros cidadãos, e o que era apenas uma peculiaridade privada tornou-se lei obrigatória a conjuntos maiores. É um longevo fruto da maldade humana com o qual os cientistas devem lidar. Ainda que os sacerdotes em geral não reconheçam, cada um cria seus deuses – eis a essência original da religião –, e é nisso que a ciência, transformadora do objetivo, não deve se meter, mesmo sendo ela um conflito de subjetividades. Nesse caso, nem classificação ela tem: ateia, agnóstica, antiteísta, nada disso. Todavia, quando o sujeito se metamorfoseia em dado concreto do mundo real, a postura deve ser dialógica: convivência pacífica e negociada com instituições que respeitam a pluralidade do espaço público, crítica e combate daquelas subjetividades que desejam tiranizar suas semelhantes ou a própria dimensão objetiva do entendimento. O tratamento para com as religiões fica aí subentendido, embora só cada ocasião decidirá pela neutralidade ou pelo anticlericalismo.

Ciência, religião e política como filhas de uma mesma matriz, apartadas pelos azares do tempo e agora, numa dissertação marginal e despretensiosa, colocadas no mesmo saco para complicar ainda mais a análise laicista da sociedade? Se a leitora ou o leitor quiser, sim, uma tese incômoda e complexa. Entretanto, o caso é que a realidade é assim mesmo, um todo orgânico e contraditório de partes aparentemente conflitantes, mas muito interdependentes. Quando parece que encontramos a chave da compreensão do mundo, ela nos escapa como água pega com as mãos. Mas a militância ateia, secularista ou libertária, se quer fazer jus à importância que lhe espera no futuro coletivo, deve abandonar os esquemas simplificadores e abraçar a dialética que nos faz mudarmos a nós mesmos e ao nosso meio. Adaptações, flexibilidades e transigências necessárias para evitarmos nossa própria fossilização histórica e a passagem incólume, sem rastros, pelo cruel rio do progresso humano.


Bragança Paulista, 7 de setembro de 2011.



domingo, 10 de março de 2019

Lepa Brena: “Živela Jugoslavija” (1985)


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Há muitos anos escuto esta canção, mas só agora tive coragem de traduzi-la. Ela se chama Živela Jugoslavija (Viva a Iugoslávia, “Живела Југославија” em alfabeto cirílico), e foi gravada pela artista bósnia Lepa Brena em 1985, num disco conjunto com Miroslav Ilić intitulado Jedan dan života (Um dia da vida). É um hit patriótico elogiando a antiga Iugoslávia, que na época ainda não tinha se desmembrado, mas que já estava sem o fundador da república socialista, o marechal Josip Broz Tito, morto em 1980 e também elogiado na música.

Jedan dan života e Živela Jugoslavija chegaram rapidamente ao topo das paradas, mas as outras faixas também se tornaram sucessos. O produtor Raka Đokić foi o responsável por essa parceria artística entre Lepa Brena e Miroslav, inspirando uma turnê iniciada no verão de 1985 que proporcionou a venda de 800 mil cópias do álbum. A canção aqui legendada é de autoria de Milutin Popović-Zahar (n. 1938), e Lepa Brena já tinha gravado quatro álbuns em 1982 e 1984, com hits até hoje lembrados, sobretudo, na Sérvia. Na verdade, nem sei de onde veio o áudio do vídeo, mas o original gravado no disco é diferente.

Nome artístico de Fahreta Živojinović (sobrenome de solteira, Jahić), Lepa Brena nasceu em 1960 na cidade bósnia de Brčko, localizada hoje no extremo nordeste da República Sérvia, parte sérvia da Bósnia e Herzegóvina. De família muçulmana, desde 1980 vive em Belgrado e lá começou sua carreira de cantora pop-folk, produtora de talentos e atriz, tornando-se a mulher a vender mais discos na antiga Iugoslávia. Aos 19 anos, começou como vocalista da banda Lira Show e logo se tornaria um dos símbolos da cultura popular iugoslava e, décadas depois, da chamada “iugonostalgia”. Ela saiu da antiga banda em 1991 e pausou a carreira de 2000 a 2008, voltando depois, sobretudo, como uma das mais poderosas produtoras artísticas dos Bálcãs.

Živela Jugoslavija teve recepção muito variada e expressou a única convicção política aberta de Lepa Brena: o apoio à Iugoslávia unida, num tempo em que os nacionalismos já começavam a florescer. O caso de Tito é engraçado entre outros ex-ditadores da Europa, porque é um dos que mais conserva vasta popularidade até hoje, em especial na Eslovênia, devido à sua mística de líder antifascista e libertador nacional. Ainda podem se encontrar lojas com suvenires contendo o rosto do marechal. Casada desde 1991 com o tenista sérvio Slobodan Živojinović, hoje aposentado e com quem teve dois filhos, Lepa Brena sempre causou polêmica étnica por causa do marido e do fato de cantar no dialeto ekavica da língua servo-croata, que daria no sérvio literário moderno. (Na variante ijekavica, base do croata moderno, seu nome artístico seria “Lijepa”.) Ela nunca externou religião, mas sempre foi rejeitada por croatas e bósnios por sua aproximação com a Sérvia.

No canal oficial da artista, existem também os links pras suas redes sociais. Embora o design gráfico do álbum Jedan dan života esteja em alfabeto latino, os traços da linguagem usada são claramente “sérvios” (idioma que hoje usa quase sempre o alfabeto cirílico), mas inteligíveis em toda a antiga Iugoslávia. A partir da letra original com a acentuação correta, eu mesmo traduzi direto do servo-croata (sérvio) e legendei este vídeo, cortando algo do quadro. Seguem abaixo a legendagem que postei na TV Eslavo (YouTube), a letra nos dois alfabetos, latino e cirílico, e a tradução em português:




Kad pogledam naše more
Naše reke, naše gore
Svu lepotu gde sam rođena
I sve što bi reći znala
U srcu sam zapisala
Živela Jugoslavija
I sve što bi reći znala
U srcu sam zapisala
Živela Jugoslavija

Zemljo mira, zemljo Tita
Zemljo hrabra, ponosita
Širom sveta o tebi se zna
Volimo te naša mati
Nećemo te nikom dati
Živela Jugoslavija
Volimo te naša mati
Nećemo te nikom dati
Živela Jugoslavija

Tu je rođen maršal Tito
Naše ime ponosito
K’o heroja ceo svet ga zna
Blago zemlji što ga ima
Pamtiće se vekovima
Živela Jugoslavija
Blago zemlji što ga ima
Pamtiće se vekovima
Živela Jugoslavija

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Кад погледам наше море
Наше реке, наше горе
Сву лепоту где сам рођена
И све што би рећи знала
У срцу сам записала
Живела Југославија
И све што би рећи знала
У срцу сам записала
Живела Југославија

Земљо мира, земљо Тита
Земљо храбра, поносита
Широм света о теби се зна
Волимо те наша мати
Нећемо те ником дати
Живела Југославија
Волимо те наша мати
Нећемо те ником дати
Живела Југославија

Ту је рођен маршал Тито
Наше име поносито
К’о хероја цео свет га зна
Благо земљи што га има
Памтиће се вековима
Живела Југославија
Благо земљи што га има
Памтиће се вековима
Живела Југославија

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Quando olhei para nosso mar,
Nossos rios, nossas montanhas,
Toda a beleza de onde nasci
E tudo o que ela poderia dizer,
Registrei em meu coração:
Viva a Iugoslávia!
E tudo o que ela poderia dizer,
Registrei em meu coração:
Viva a Iugoslávia!

Ó, terra da paz, terra de Tito,
Ó, terra corajosa e orgulhosa,
O mundo inteiro conhece você.
Amamos você, nossa mãe,
Não vamos cedê-la a ninguém,
Viva a Iugoslávia!
Amamos você, nossa mãe,
Não vamos cedê-la a ninguém,
Viva a Iugoslávia!

Aqui nasceu o marechal Tito,
Nosso nome orgulhoso,
O mundo todo o vê como herói.
Feliz é a terra que o possui,
Ela vai se lembrar para sempre,
Viva a Iugoslávia!
Feliz é a terra que o possui,
Ela vai se lembrar para sempre,
Viva a Iugoslávia!




sexta-feira, 8 de março de 2019

Religião: opção subjetiva, poder social


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NOTA: Este texto, cujo arquivo Word tem 23 de abril de 2011 como data da última alteração, se chama “Religião: opção subjetiva ou poder social?”, e novamente critica o cerco em torno da então presidenta recém-eleita Dilma Rousseff no tocante às suas crenças religiosas. Mais uma vez reconheço a limitação da minha tendência em tratar tudo como dualismos (“subjetivo” e “objetivo”) e o pouco estudo em história, sociologia e filosofia antes de palpitar sobre assuntos tão complexos. Além de misturar com constância demais os planos da política institucional e da religião organizada, também me preocupava demais em definir conceitos, sentimentos e fenômenos, como se meu processo de esclarecimento devesse ao mesmo tempo se externalizar em palavras públicas. Como eleitor da Dilma e crente em sua adoção do esclarecimento, igualmente tentei “bilndá-la” do assédio cristão, e embora eu agora veja negativamente seu governo, me agrada menos a mediocridade intelectual de Bolsonaro. Apesar de tudo, reitero outra vez o valor do texto como elaborado exercício intelectual, e tentando dá-lo como semente de reflexão também pro presente, apresento-o abaixo sem alterações na forma ou no conteúdo.



Chamou-me a atenção ontem uma breve entrevista recente para a Folha.com do arcebispo de Brasília, dom João Braz de Aviz, a respeito da relação entre as convicções pessoais de Dilma Rousseff e a Igreja Católica, em especial a resposta a uma pergunta sobre a opinião do clérigo a respeito da separação entre política e religião. Seus argumentos básicos foram os seguintes: 1) religião e política devem separar-se; 2) “Estado laico” não é sinônimo de “Estado ateu”; 3) a “experiência religiosa” não pode ser considerada apenas como algo pessoal, pois haveria também a dimensão social, motivo pelo qual a Igreja estaria recuperando sua atenção à política. Suas declarações dão ensejo a uma discussão interessante sobre as naturezas subjetiva e objetiva da religião e da espiritualidade, algo até hoje complicado e sem consenso, e de suas relações com o poder político.

Parece-me que a consciência humana possui duas dimensões que não se misturam, mas que se complementam dialeticamente: a subjetiva, concernente ao nosso cérebro, à nossa individualidade e ao modo particular como sentimos, gostamos, abstraímos, gozamos ou percebemos as coisas, o que faz de cada ser humano, como se diz, um “Universo à parte”; e a objetiva, relacionada ao que está fora de nosso pensamento, das coisas que podemos sentir, fruir, apreender e vivenciar, enfim, aos objetos materiais em geral. Essas duas dimensões são dialeticamente inseparáveis: por um lado, a subjetividade só pode funcionar e só faz sentido com objetos que ela perceba e apenas a objetividade é fornecedora de realidade, em resumo, é o mundo que fornece material às ideias; por outro lado, nem todas as individualidades percebem o real da mesma forma, porquanto as vicissitudes genéticas, biológicas e patológicas mudam as formas de apreensão e, portanto, a percepção obtida do exterior. Enfim, mundo material e mundo mental condicionam-se e trocam informações mutuamente.

Além disso, creio que “espiritualidade” seria a crença e a comunicação com uma dimensão fora e paralela à material, não raro denominada “espiritual”, compreendida de maneiras diversas, desde o conjunto de nossos decalques não biológicos impalpáveis e invisíveis até simples energia. De “transcendência” chamo a sublime experiência estética, geralmente ligada a valores sagrados, gerada pela reorganização do real em uma nova unidade de sentido que ligue nossa pequenez à infinitude do Universo. Não há grupo humano que não tenha experimentado a sensação da transcendência, individual ou coletivamente, mas não julgo ser isso necessariamente “religião” por esta, em minha opinião, dever conter mais dois elementos: a espiritualidade e a institucionalização. Portanto, as crenças xamânicas e animistas dos povos antigos ou espiritualidades pessoais não seriam religiões, pois carecem de codificação escrita, ortodoxia dogmática e corpo sacerdotal complexo; já a Igreja Positivista, por exemplo, não prescindiria daqueles elementos, mas ainda lhe faltaria a fé em uma realidade não material que influenciasse este mundo. Da mesma forma, certas ideologias e regimes políticos, ainda que de forma não religiosa, também fomentaram a cristalização de transcendências na adulação de líderes e valores supremos e intocáveis.

Aparentemente, se analisarmos por um viés puramente teórico, a experiência transcendental possui um caráter estritamente subjetivo, já que cada pessoa terá uma sensação estética diferente, possuindo reações diversas se submetidas ao mesmo estímulo objetivo junto de outras. A possibilidade de codificar um único estimulante transcendental para que toda a humanidade tenha a mesma sensação é praticamente impossível, porque, mesmo que um grupo humano seja extremamente fechado e seus membros sejam quase indistinguíveis em seu modo de pensar e agir, as características particulares internas de cada um ainda terão algum peso. Sobre o mundo espiritual – a não ser que se tome “espírito” no sentido filosófico, o qual equivale, na prática, a nossa subjetividade –, sua existência empírica é improvável, pois, sendo um elemento imaterial, só pode ser subjetivo, ideal, portanto não pode criar uma realidade material, sensível, porquanto as dimensões subjetiva e objetiva não criam partes uma da outra, mas apenas se moldam; deste modo, ele será posto de lado da discussão. O que se pode concluir por ora é que a religião é um erro naquilo que ela pretende, pois, de um lado, ela procura impor ao mundo objetivo, à crença coletiva universal, um deus que nasceu de uma subjetividade, de uma ideia pessoal ou grupal, portanto sem validade geral; e, por outro lado, intenta que todas as pessoas tenham a mesma reação e a mesma experiência transcendental com os mesmos rituais, dogmas e paramentos consagrados. É provável que as cisões religiosas tenham nascido dessa percepção diferente das escrituras e das práticas sagradas.

Porém, no plano prático, essa análise filosófica não basta; um materialismo coerente deve centrar-se ainda nas consequências materiais de um objeto de natureza material, e não apenas em seus resultados subjetivos. Assim, é claro que as religiões também se constituem em poderes seculares, sociais, políticos, midiáticos e econômicos, e nunca poderiam deixar de ser. É sob esse pensamento que duvido da possibilidade de separação entre o Estado e a Igreja dominante em determinado país: as religiões nasceram como o sustentáculo ideológico dos líderes de suas épocas e lugares, a eles organicamente imbricadas, e assim continuaram até a laicização da política ocidental (porque em grande parte do Oriente essa divisão ainda não existe). Mesmo assim, se religião e Estado, a partir de dado momento, tornaram-se coisas separadas, a primeira nunca deixou de influenciar a segunda, e um governante não pode deixar de atender, de certa maneira, às pressões da religião ou das religiões mais poderosas de seu país, sob o risco de perder apoio material e moral. Basta ver como tal apartação no Brasil data apenas do início da República: exigir um Estado completamente laico nesse período de tempo relativamente curto seria demais. A religião é, como diria Gramsci, um “aparelho privado de hegemonia”, portanto seu desprezo seria um suicídio político; a política sem a religião não é política, e vice-versa, e quando uma desaparecer, acontecerá o mesmo à outra, e elas não serão mais o que são hoje. É difícil perceber esse processo como iminente, dado o pouco tempo, dentro de nossa longa história humana, ainda passado após aquela cisão.

(Existem apenas dois tipos de Estados no que concerne à religião: o Estado religioso e o Estado antirreligioso. Os primeiros se dividem nas seguintes categorias, com ou sem repressão: os que fundem as aparelhagens estatal e eclesiástica; os que apoiam ou subvencionam uma religião oficial – e entre esses estão boa parte dos países nórdicos, inclusive –; e os que são politicamente influenciados por uma ou mais religiões porque são as que a maioria do povo segue. Os segundos, quase sempre confinados aos países comunistas de ontem e de hoje e sempre repressivos, são de dois tipos: os que, na letra da lei, respeitam a liberdade e a diversidade religiosa e os que oficialmente proíbem as religiões, como na Albânia de Enver Hoxha, na qual era instituído o “ateísmo de Estado”. Excluídas essas peculiaridades, não há grandes diferenças práticas dentro de cada tipo. No mais, isso tudo torna inoperante a reflexão sobre se o “Estado laico” é, não é, deve ou não ser “ateu”.)

Agora já temos um bom instrumental para respondermos a esta pergunta: a religião é uma opção subjetiva ou um poder social? É de se notar, antes de tudo, que o arcebispo contradiz-se ao separar religião e política e atribuir à primeira uma dimensão social, já que a essência da política é a sociabilidade, e já que as relações sociais são essencialmente políticas. Igualmente, a inseparabilidade entre religiões (ou ao menos uma delas que seja predominante) e Estado, pelo menos no que tange às barganhas políticas e à divisão de poderes e de esferas em que podem ou não podem, devem não devem atuar ou influenciar, derruba por terra a ideia de que eles se constituem em âmbitos inconciliáveis; pelo contrário, são entidades igualmente públicas que tem como único dever não interferir arbitrariamente na esfera íntima e privada das cidadãs e cidadãos, esta, aliás, o verdadeiro recôndito da transcendência. Entre os comentários à matéria, vi uma citação da frase evangélica “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Não acredito que sua mensagem seja a separação entre Igreja e Estado, ambos instituições bastante terrenas, mas entre o “deus interno”, subjetivo e particular de cada um e as ações públicas, sociais e objetivas que também concernem aos outros.

Ficam patentes, de quebra, mais dois problemas na fala de dom João Braz de Aviz com relação à religiosidade de Dilma. O primeiro é o pedido de explicitação de suas opiniões sobre “assuntos caros à igreja” (homossexualidade, aborto etc.), que aparece relacionado às convicções religiosas da presidente. Exige-se aí uma coerência entre temas públicos, terrenos, e fé pessoal que não existe mais em nenhuma pessoa comum: se não fosse por isso, não haveria tantas católicas e católicos se divorciando, mantendo relações sexuais antes do casamento – com ou sem camisinha –, introduzindo em sua vida elementos de outras crenças e até mesmo abortando; aliás, transigir em vários pontos e fazer vista grossa às “escapadinhas” – sobretudo dos famosos e dos poderosos – foi o segredo da Igreja para manter sua influência. O segundo é a vontade de explicação das próprias posições religiosas de Dilma, o que mostra as cobranças a que são submetidos os governantes pelas hierarquias eclesiásticas. Com efeito, esse laço é tão forte que o fato de ela, na campanha, não ter podido confessar qualquer descrença – fosse ela verdadeira ou não – sob o risco de perder votos e, agora, não poder fazer o mesmo pelo temor de acusações de oportunismo político, deixa-a em um beco sem saída. É uma verdadeira “saia justa” derivada da intransigência dos religiosos, sumamente os evangélicos, que ao mesmo tempo foram os maiores detratores e os verdadeiros vencedores do último pleito: mesmo que ela dissesse em campanha “sou descrente e vocês são religiosos; eu não persigo vocês por serem religiosos e vocês não me perseguem por ser descrente, combinado?”, os religiosos continuariam a detração, pois a correlação entre descrença e maldade ainda tem audiência em nossa sociedade pouco conscientizada. Foi pensando justamente nisso que os candidatos dançaram conforme a música, pois só a perda dos 25% de eleitorado evangélico já seria uma tragédia imensurável.

O vocabulário ocidental para fatos espirituais e transcendentais, condicionado pelas três religiões monoteístas, ainda é bastante limitado, e apenas uma grande revolução em nosso pensamento nos permitiria expressar sensações e experiências que ultrapassam os estreitos limites do dogmatismo religioso; nesse aspecto, o Oriente está anos-luz distante de nós. Ainda engatinhamos no patamar de ritualismos amasiados com o aparato estatal, de cultos oficiais legitimadores do poder institucional, e, por isso mesmo, temos um desenvolvimento muito escasso e pouco difundido de formas profundamente eróticas e estéticas de reorganização subjetiva do real. Para piorar, nossa visão sobre política não vai além de considerações sobre os aparelhos institucionalizados, de representação indireta, tornando inútil a questão do “Estado laico”, da separação entre religião e política, quando, na verdade, trata-se de superar os modelos políticos e religiosos atuais. Enquanto isso, resta somente o campo da conciliação, das negociações e dos acordos provisórios feitos “por cima”, para que pelo menos a violência dos choques tribalistas cotidianos seja amenizada e espere ser dizimada pela emergência das massas como definidoras de seu próprio destino.



quarta-feira, 6 de março de 2019

Poesia russa traduzida a português (1)


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Eu gosto muito de traduzir poesia estrangeira pro português, sobretudo das línguas eslavas, que são muito raras no Brasil e me desafiam mais, por serem bem concisas e eu precisar de formas igualmente concisas pra expressar na minha língua! Mas infelizmente não tenho tanto tempo quanto queria pra isso, pois atualmente me concentro mais no estudo de idiomas, na manutenção desta página e na pesquisa do doutorado. Mesmo assim, de vez em quando sai alguma coisa interessante, e quando junto uma quantidade suficiente, faço uma postagem aqui.

Antes de começar a tradução do poema épico Ievgeni Onegin, de Aleksandr Sergeievich Pushkin, na qual me lancei em novembro do ano passado, decidi procurar algo mais simples do grande poeta e escritor que eu pudesse divulgar às pessoas. Achei por acaso o livro “Стихи не для дам” (Stikhi ne dlia dam), Poemas não para damas, coletânea com os mais diversos estilos e cujo título já alude à intenção de chocar, subverter e criticar. Muitos poemas não eram tão simples ou curtos, e um que realmente achei mais rápido e fácil foi “Христос воскрес” (Khristós voskrés), literalmente “Cristo ressuscitou”, de 1821, com apenas 10 versos. O nome alude a uma saudação de Páscoa comum das pessoas se fazerem em países ortodoxos, mas o tema geral são as barreiras inter-religiosas e interculturais de uma Rússia imperial ultracristã que marginalizava os judeus.

Antes que alguém me pergunte: sim, embora já haja uma tradução consagrada, estou tentando fazer uma outra mais pessoal e moderna de Ievgeni Onegin centrada no português brasileiro, mas que também seja inteligível por africanos e portugueses. Mas tenho interrompido constantemente porque, como eu já disse, tenho muitos outros focos. Quanto a “Cristo ressuscitou”, na minha mão se transformou em “Ressurreição”, título que tem a mesma métrica do título original. Obviamente não busquei ser literal e mudei um pouco o esquema de rimas, mas o ritmo ficou o mesmo. A tradução foi uma iniciativa isolada e por enquanto não pretendo encaixá-la em nenhuma projeto maior.

Pouco tempo depois, conheci a tártara Elvira Gilmutdinova, que mora em Kazan, terceira maior cidade da Rússia. Ela é do marketing, mas também gosta de escrever poesia, e às vezes faz alguns trabalhos amadores, segundo ela, “inspirados do coração”. Na conta pessoal no Instagram ela publica alguns desses versos em russo ou tártaro, acompanhados de fotos suas ou da natureza local. Um dos poemas em russo que me chamou a atenção foi “Кто я?” (Kto iá?), “Quem sou eu?”, que pra ficar do mesmo tamanho do título original chamei “Quem sou?”. Ela postou em 10 de outubro de 2018 e eu traduzi no fim de janeiro de 2019, tendo Elvira autorizado e gostado do resultado.

Ele também segue abaixo, nas suas versões original e traduzida. No caso de “Quem sou?”, foi muito mais uma recriação minha, porque a autora não seguiu padrões poéticos rígidos, e a tradução ficou quase literal, inclusive. Eu que dei rimas mais próximas e verdadeira métrica:


Христос воскрес (1821)

Христос воскрес, моя Реввека!
Сегодня следуя душой
Закону Бога-человека,
С тобой целуюсь, ангел мой.
А завтра к вере Моисея
За поцелуй я не робея
Готов, еврейка, приступить —
И даже то тебе вручить,
Чем можно верного еврея
От православных отличить.

Ressurreição (15/12/2018)

Ressurreição, Rebeca minha,
É hoje, se de coração
Seguimos ritual cristão,
E então te beijo, linda anjinha.
Na hora passo à fé mosaica
Por mais um beijo teu, hebraica,
Com prontidão, sem hesitar;
Comprovo a profissão judaica
Tratando-te como quem já
Os patriarcas vai deixar.

____________________


Кто я? (11/10/2018)

Кто я? Вопрос извечный.
Может начинающий поэт?
Может снаружи уже старик,
А в душе ещё пылкий студент?

Кто я? Прекрасная богиня?
Иль провинциалка у крыльца?
Может стервозная тигрица,
Прикрывающий от слёз глаза.

Кто я? Профессионал?
Трудяга не жалеющий сил?
Чудак, рискующий по жизни?
Или заботливый семьянин?

Кто я? Пекарь или сталевар?
Учитель? Успешный бизнесмен?
Знаменитость иль просто маляр?
Не важно! Важно, что Человек!

Важно, что сердце добротой полна,
Что мысли ясны и цель видна!
Сама судьбу выбирать вольна
И человечность в душе жива.


Quem sou? (jan. 2019)

Quem sou?, eterna indagação.
Talvez poeta iniciante?
Talvez por fora um ancião,
Mas alma de ávido estudante?

Quem sou? Maravilhosa deusa?
Ou serva de quintal pagã?
Talvez estúpida tigresa
Que esconde a lágrima vilã.

Quem sou? Qualquer profissional?
Obreiro até perder as forças?
Arrisco a vida sem moral
Ou mesmo ajudo a lavar louças?

Sou fundidor ou sou padeiro?
Sou milionário, professor?
Celebridade ou Zé Pedreiro?
É tudo igual: HUMANO sou!

Importa o bem no refletir,
Esclarecidas atitudes,
Escolha própria do porvir
E humanidade por virtude.



segunda-feira, 4 de março de 2019

Quem venceu eleições brasileiras 2010


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NOTA: Este texto, cujo arquivo Word tem 5 de fevereiro de 2011 como data da última alteração, é “Quem venceu as eleições brasileiras de 2010?”, ao mesmo tempo uma profecia e um autoengano. Profecia porque deu em linhas gerais exatamente o que se consolidaria sob a presidência Bolsonaro: um governo de bandeiras cristãs reacionárias amparado por um Congresso Nacional eleito entre clérigos e fiéis de igrejas evangélicas radicais. Autoengano porque eu não queria que seguíssemos esse caminho, e achava mesmo que tínhamos condições de evitar segui-lo por causa da onda progressista e racionalista que também se delineava. Como não costumo separar questões políticas de questões (pelo menos se concernem o social) religiosas, julguei que Dilma Rousseff pudesse ao mesmo tempo mitigar o esquerdismo de Lula e abraçar bandeiras racionalistas. Mas vimos que ela terminou se amparando nos pentecostais e instrumentalizando a ideologia, até levar o país ao caos econômico e à discórdia valorativa. A instrução científica da população ainda é uma utopia que estamos esperando alcançar. O mais incrível é que esses artigos guardados, “congelando” ideias daquela época, registraram dados e fatos dos quais nem agora eu tinha memória! Por tudo isso, dou-lhes pra desfrute sem alterações.



Nossa campanha presidencial de 2010 foi uma das que teve o nível mais baixo da história, tanto no sentido defensivo quanto no ofensivo, e dentre os aparelhos privados de hegemonia que procuraram ampliar seu poder e influência durante a disputa, apenas um mostrou-se como o maior vencedor: o conjunto das Igrejas cristãs evangélicas, as verdadeiras propulsoras da baixaria que se tornou o evento. Não foram os católicos, nem os ateus, nem outros grupos laicos que se favoreceram com o debate de opiniões; os resultados positivos de sua maior ou menor visibilidade foram ínfimos, e agora precisam torcer para que o novo equilíbrio de forças no Congresso Nacional, amplamente a favor de Dilma Rousseff, reverta-se em ganhos reais.

Uma época de progressos sociais e científicos se avizinha hoje no mundo inteiro, sendo mais intenso seu impacto na religiosa e intransigente América, formada moralmente pelo catolicismo tridentino e pelo puritanismo protestante. Ao contrário do que pensam alguns comentaristas condescendentes com o medonho conservadorismo dos discursos políticos oficiais, não é a antirreligiosidade dessas mentes inovadoras que alimenta o ódio à ciência em todos os fundamentalistas; trata-se de uma verdadeira crise de valores cujas consequências e desfecho ainda não podemos prever. Os choques entre situação e inovação sempre ocorreram na história da humanidade, e no último pleito não foi diferente: o passado de afirmações polêmicas e de militância esquerdista de Dilma, além de alguns fatos relacionados ao governo Lula e a reuniões deliberativas do PT, insuflaram a preocupação de setores mais ligados ao status quo, e a bomba foi lançada pelos evangélicos: a candidata seria a favor do aborto e do casamento homoafetivo.

O protestantismo brasileiro estava em vantagem, pois a posse de 25% do eleitorado lhes respaldaria politicamente, a nível federal, uma dominação que já se traduzia em um grande aparato midiático, editorial, financeiro e religioso; era a chance de moldar o Brasil à sua imagem e semelhança e de consolidar impérios pessoais baseados no ludíbrio e no medo. Não seria nem preciso escolher um presidente que fosse um decalque de seus sacerdotes – de fato, Serra não usava uma linguagem explicitamente fideísta, e Marina Silva, evangélica próxima de um progressismo modista, separara publicamente suas convicções pessoais do futuro encargo público –: nosso sistema político não permite que o Executivo possa governar sem o Congresso, para o qual podem livremente concorrer as mais caricatas bazófias humanas. E foi o que aconteceu, afinal: a bancada protestante aumentou e já se mostrou disposta a mostrar suas garras barrando qualquer projeto que contrarie suas crenças particulares, numa clara mostra de violação do interesse público por quinquilharias privadas.

Cabe ainda uma palavra sobre dois atores da comédia trágica; um, já velho conhecido nosso, e outro, ainda engatinhando na vida pública. A Igreja Católica, confusa em escândalos internos e na baixa credibilidade entre vários setores da população, sobretudo os mais instruídos ou influentes, bem que tentou aproveitar-se da maré reacionária levantada pelos evangélicos, porquanto, afora as divergências doutrinárias, a rabugice em questões que os clérigos minimamente se informam ainda salva a possibilidade de uma “Santa Aliança ecumênica”. Pura quimera: o máximo que ganharam foi a eleição de Gabriel Chalita – já rompido com o PSDB, por sinal – para a Câmara dos Deputados, muita paulada de internautas em sites de notícias que exibiam declarações da CNBB e um direito de resposta petista em uma TV católica a propósito de uma homilia anti-Dilma. Já os laicistas e ateus, felizmente mais propensos à democracia e à transparência política, continuam com sua militância restrita aos meios eletrônicos, não podendo fazer muita coisa contra o fisiologismo e o caciquismo imperantes há décadas nas duas Casas legislativas. Mesmo assim, alguns legisladores progressistas alçados a Brasília, como o gay e ex-católico Jean Wyllys (PSOL-RJ) e a eterna sexóloga Marta Suplicy (PT-SP), se não forem enredados pelas famosas tramas corruptoras e negocistas, são uma fonte de esperança no deserto por já prometerem reverter a situação das questões do abortamento e dos direitos homossexuais.

O mundo da política institucional brasileira ainda causa ilusão em certas almas revolucionárias que desejam alcançar aquele distante mundo para “transformar o país e fazer o bem aos cidadãos”, mas não enxergam o desgaste das barganhas e das concessões a que devem submeter-se para alcançar lá o mínimo de visibilidade e voz. É preciso ensinar ao povo que o cerne do fazer político encontra-se no cotidiano, nas ruas, nas associações de bairro, nas escolas, nos clubes, nos sindicatos e em outros ajuntamentos que traduzem os problemas reais de vivências palpáveis, o palco onde definitivamente recaem as decisões dos três Poderes. Enquanto essa consciência não se massifica, cabe buscar reger, como disse Gramsci, todos os meios culturais, educacionais e políticos das classes dominantes para que, voltando-se para quem realmente precisa, eles ajudem a fundir governantes e governados em uma só dimensão.



sábado, 2 de março de 2019

“Quel mazzolin di fiori” (canção alpina)


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Há muito minha família e eu conhecíamos esta canção, por ser tocada entre famílias de ascendência italiana da Serra Gaúcha, no interior do Rio Grande do Sul. Porém, por um acaso achei este áudio, cuja batida me agradou bastante, e mais ainda à minha mãe (cuja avó materna é filha de italianos), que insistiu pra eu traduzir e fazer uma montagem legendada com este áudio. O nome da música é Quel mazzolin di fiori (Aquele buquezinho de flores) e é típica do vale Valsugana e da região da Lombardia, no norte da Itália. Pelo que pude apurar, quem canta é uma dupla chamada Leo & Gabry, mas não achei nada sobre eles.

O autor da canção é anônimo, mas o primeiro a atestar sua existência foi Ludwig Hörman, que em 1870 a mencionou na revista Zeitschrift des Ferdinandeums für Tirol und Vorarlberg (o alemão sempre foi uma língua influente no norte da Itália). Na província de Trentino, a música já se achava registrada em coletâneas do fim do século, e a seguir entraria em outras coleções e em todos os cancioneiros alpinos. A base linguística do texto é o italiano padrão, mas ele é recheado de elementos da língua lombarda, que também tem substrato gálico e céltico, mas pra muitos é considerada dialeto. A obra não tem relação com nenhuma guerra, mas por ter sido cantada pelos soldados dos Alpes durante a 1.ª Guerra Mundial, ficou famosa em toda a Itália.

A canção também foi gravada por Gigliola Cinquetti em 1972 no álbum Su e giù per le montagne, bem como no álbum de 1974 Topo Gigio a Canzonissima, referente ao famoso ratinho de brinquedo. Na França, a gravação foi realizada pelo grupo Les Compagnons de la chanson, no álbum Nos Jeunes Années de 2005. Embora a música seja conhecida entre os imigrantes italianos de origens diversas, sobretudo vênetos, no Brasil a língua lombarda é preservada em Botuverá – SC, no vale do Itajaí, cidade cujos fundadores vieram, sobretudo, da planície entre Treviglio e Crema, preservando, pois, o falar dessa zona de origem. Como toda canção folclórica, existem inúmeras variações da letra, mas no vídeo pode-se ler a reconstituição que fiz conforme o áudio e a comparação de diversas fontes incluindo traduções em português.

A primeira e principal fonte foi o Wikisource italiano, cujo texto, porém, tem grafias errôneas ou arcaicas. As fontes com traduções mais ou menos corretas em português, mas textos italianos diferentes, são a do site de Jaciano Eccher, especialista no idioma vêneto brasileiro, a do site Músicas Italianas de Giuseppe Ulivi e a do site Vagalume, em que faltam, porém, as duas últimas estrofes. Com a transcrição feita por um museu de cultura regional da província de Trentino, em cuja página há informações adicionais, tive a palavra final, tirando a dúvida, sobretudo, quanto ao verso Ei non è vegnù da me, que sempre vinha como Lui non è vegnù da me, mas que eu não ouvia assim. Ei é uma variante de elli, forma arcaica de egli, por sua vez opção formal de lui.

No fim de tudo, eu sou o responsável pela transcrição final, tradução e montagem. Vejam o vídeo duas vezes, lendo uma legenda a cada vez! A tradução pode não estar correta, mas foi o que compreendi de um gênero textual que não raro se presta à imprecisão e ambiguidade. Seguem abaixo minha legendagem do antigo YouTube, o texto em italiano/lombardo e a tradução em português (cada par de versos é cantado duas vezes):



Quel mazzolin di fiori
Che vien dalla montagna,
E bada ben che non si bagna,
Ché lo voglio regalar.

Lo voglio regalare
Perché l’è un bel mazzetto,
Lo voglio dare al mio moretto
Questa sera quando vien.

Stasera quando viene
Sarà una brutta sera.
E perché sabato di sera
Ei non è vegnù da me?

Non è vegnù da me,
L’è andà dalla Rosina.
E perché mi son poverina,
Mi fa piange e sospirar.

Mi fa piange e sospirare
Sul letto dei lamenti.
E cosa mai dirà la gente,
Cosa mai dirà di me?

Dirà che son tradita,
Tradita nell’amore,
E perché a me mi piange il cuore
E per sempre piangerà.

____________________

Aquele buquezinho de flores
Que vem da montanha,
Cuidado para não o molhar,
Pois quero dá-lo de presente.

Quero dá-lo de presente
Porque é um lindo ramalhete,
Quero dá-lo ao meu moreninho
Quando ele vier hoje à noite.

Quando ele vier hoje à noite
A noite vai estar feia.
E por que na noite de sábado
Ele não veio à minha casa?

Não veio à minha casa,
Foi à casa da Rosina (Rosinha).
Só porque sou pobrezinha,
Ele me faz chorar e suspirar.

Me faz chorar e suspirar
Na cama das lamentações.
O que é que o povo vai falar,
O que é que vão falar de mim?

Vão dizer que sou azarada,
Azarada no amor,
Já que meu coração chora
E vai chorar para sempre.



quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Esvaimento do rebanho católico (2011)


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NOTA: Este texto, cujo arquivo Word tem 10 de janeiro de 2011 como data da última alteração, se chama “Por que o rebanho católico se está esvaindo?”, e também é um dos mais precoces com reflexões sobre os laços entre religião e política. Como eu disse outras vezes, era minha contestação social que também estava despertando, portanto eu sempre a relacionava com a libertação religiosa e espiritual. Neste caso, o artigo parece menos inatual, embora possamos complementar com números sobre o abandono do catolicismo e a adesão à irreligião ou ao ateísmo em sentido estrito. É notável como nunca desliguei a emancipação intelectual e educativa da melhoria das condições de vida da população como um todo, tanto pela necessidade que sempre vi de boas escolas quanto pelo dano que uma potência material pode causar junto à confusão mental. Também creio que pode ajudar num outro debate recente, sobre a formação e dissolução de mitos, ídolos e movedores de massas, mesmo que hoje eu nem sempre o vincule diretamente à substituição do “Deus cristão” por outros “deuses laicos”. Segue o texto sem qualquer alteração.



A queda progressiva na porcentagem de católicos romanos no Brasil apontada pelo Censo nas últimas décadas é um sintoma da confluência de três fenômenos principais de nosso cenário religioso: a inaptidão da Igreja Católica em acompanhar o vertiginoso progresso social, científico e tecnológico do mundo; o encaixe perfeito entre a mentalidade capitalista e os protestantismos, sobretudo os pentecostais; e, como resultado dos avanços educacionais, o crescimento gradual do grupo genericamente chamado de “sem religião”.

Apesar das constantes atualizações e acréscimos nos ritos e nos dogmas, o Vaticano segue princípios estabelecidos, em seu básico, no início da Idade Média e consolidados, com algumas revisões e fortalecimentos, por volta do final desse período. Durante esse milênio, a mentalidade da Antiguidade Clássica, traduzida em deuses atentos às necessidades e vontades terrenas de seus adoradores, foi substituída por um cristianismo ascético, supressor dos prazeres e apegos mundanos e valorizador da graça divina em detrimento das ações humanas. Pode-se notar aí um cenário de imobilismo díspar ao crescimento econômico e artístico resultantes da renascença cultural e comercial europeia, mas que se dissolveu lentamente à medida que o planeta ia interligando-se e as culturas iam misturando-se. Até hoje, aquela mentalidade pré-capitalista e milenarista do catolicismo é enfrentada pela busca de soluções rápidas para os problemas da vida e pela recriação e fusão incessante de costumes e valores.

Segundo a ideia tornada lugar-comum pelo livro A ética protestante e o espírito do capitalismo, de Max Weber, os protestantismos são, por assim dizer, a “religião orgânica” do capitalismo, pois substituíram o princípio da graça pelo do mérito e limitaram as restrições católicas feitas a aquisições materiais cada vez mais abundantes entre a burguesia. Com efeito, as religiões protestantes instituídas, com seus preceitos e rituais mais simplificados, destoavam do intenso apelo ao mágico, ao pomposo e à obediência cega predominantes até então no cristianismo e tornados velharias pelo nascente imediatismo capitalista. Esse processo de simplificação extremou-se com os recentes pentecostalismos, destacando-se a Igreja Universal do Reino de Deus, que transformou a bênção divina em um artigo comercial cujas qualidade e quantidade são proporcionais ao dinheiro que o fiel sacrifica em nome de sua afiliação. A ânsia por consolo imediato e eficaz, contrária ao clima de eterna espera e paciência da Igreja Católica, embora nem sempre envolva finanças, também é comum em outros cultos que lhe tiraram vários seguidores, como é o caso do espiritismo, entre tantos.

Devido a nossa educação ibero-católica e a despeito da tolerância que as diferentes religiões demonstram entre si, ainda são poucos os brasileiros que se dizem irreligiosos, e em número menor ainda são aqueles que assumem dispensar a crença em um ou mais deuses ou em providências sobrenaturais. É notável que mesmo os ditos simplesmente “cristãos” ou aquelas pessoas que afirmam “crer em Deus independentemente de religião” estão confinados a camadas mais educadas ou materialmente prósperas da sociedade brasileira. Em todo o caso, a livre reflexão e a decisão autônoma são realmente um apanágio de grupos que podem informar-se melhor e têm mais tempo e energia para longas reflexões pessoais; a submissão irrefletida a normas vindas de fora e a promessas de paraísos fica por conta dos apressados e fatigados. E são essas lacunas que os grupos secularistas, ainda centrados em questões mais abstratas, não estão conseguindo preencher: após desmistificar o pensamento teológico e religioso perante um público maior, esses coletivos deverão superar sua distância da realidade de pobreza material, intelectual e educacional que o País ainda precisa enfrentar.

O rebanho católico se está esvaindo, mas o comodismo comum às inteligências brasileiras faz com que as ovelhas, em última instância, procurem apenas outro pastor para conduzi-las. Atualmente, faz-se necessário começar a extinguir a mentalidade de pastoreio, mesmo entre os ateus, e criar águias livres e desbravadoras, guiadas apenas por uma consciência reta cultivada pela democratização da saúde, da instrução e da cultura.



terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Orações feitas em latim eclesiástico (2)


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Quando legendei a mensagem de Natal e a bênção Urbi et Orbi (Para Roma e para o mundo), seguida de indulgência plenária, pronunciadas pelo papa Francisco, líder supremo da Igreja Católica Romana, em 25 de dezembro de 2018 na Praça São Pedro, na cidade-Estado do Vaticano, não reparei de antemão que ele tinha falado ainda outras duas orações conhecidas no mundo católico. Elas ocorrem em horas solenes, e se tratam do “Ângelus” (tem esse nome porque começa com “O Anjo do Senhor...”) e da curta “Oratio pro Fidelibus Defunctis” (Oração pelos Fiéis Defuntos), postas antes da Urbi et Orbi.

As bênçãos estão na língua latina, idioma litúrgico dos católicos, e decidi reservar um vídeo só pra essa parte, que fica bem no meio do vídeo integral principal. É possível encontrar uma versão diretamente dublada em português, oficial do Vaticano, pra quem dispensa ouvir a voz de Francisco (íntegra). Pra traduzir o “Ângelus”, eu comparei as versões publicadas na Wikipédia e nos sites Aleteia e A Caminho, e neste localizei também a Oração pelos Defuntos. Pra esta oração, consegui achar uma versão pra comparação na Wikipédia apenas no verbete “Ladainha de Todos os Santos”, e aparece nas orações finais. Pra Urbi et Orbi, a mesma tradução pode ser encontrada no site iCatólica e no site da Canção Nova. Quanto à fala do cardeal, eu mesmo transcrevi e traduzi direto do italiano.

A “Hora do Ângelus” (ou “das Ave-Marias”) são três momentos do dia (às 6, 12 e 18 horas) em que os católicos tradicionalmente meditam sobre o mistério da Anunciação, quando o anjo Gabriel teria anunciado à Virgem Maria sua gravidez e concepção de Jesus Cristo. Consiste em algumas ladainhas acompanhadas de três ave-marias, além de uma oração e um Glória. Muitas TVs e rádios católicas do Brasil e de Portugal ainda transmitem essa meditação, algumas delas diretamente do Vaticano. Não traduzi nem legendei as ave-marias porque é uma oração muito conhecida e nesta postagem pode ser lida e ouvida em latim. A presente postagem foi feita como continuação dessa primeira, buscando documentar a maior parte das preces católicas.

Na expressão Urbi et Orbi, as palavras Urbs e Orbis estão no caso dativo (objeto indireto), e tradicionalmente Urbs se refere também à cidade de Roma, em especial na Antiguidade, quando era um modelo por excelência. Essa bênção é dada na Páscoa e no Natal, junto com uma mensagem com a qual o papa se dirige diretamente ao público. Realizada na varanda central da Basílica de São Pedro, é precedida pela entrada de uma cruz processional e dos cardeais diáconos e também se concede após a eleição do pontífice, ou seja, no final do conclave. O traço maior da bênção é que dá uma penitência e uma indulgência plenária sob condições definidas pelo direito canônico (ter confessado e tomado a comunhão, e não ter caído em pecado mortal).

Vou fazer umas observações sobre a linguagem. Minha escolha mais evidente foi o uso da letra “j” pro som do “i” semivocálico, e o uso das ligaturas “æ” e “œ” no lugar das letras “ae” e “oe” separadas. Neste segundo caso, as ligaturas indicam os ditongos “ái” e “ói” clássicos, que na língua medieval passaram a pronunciar-se “é” aberto. A escolha pelo “j” explica por que se leem, por exemplo, Jesus, judicare, Jordanem, bajulavit (Jesus, julgar, Jordão, carregou – cf. “bajular”), e não Iesus, iudicare, Iordanem, baiulavit. Lembre-se, então: a letra “i” é sempre vogal, nunca consoante, então dizemos “fi-li-us”, e não “fi-lius”, “ter-ti-a”, e não “ter-tia”, “ho-di-e”, e não “ho-die”. A sílaba tônica também vem marcada com um acento agudo nas transcrições abaixo, embora textos latinos usualmente não levem sinais diacríticos. Pra comodidade do leitor, acentuei todas as palavras com duas ou mais sílabas, inclusive as de fácil dedução, e removi a distinção entre vogais curtas e longas, sem as marcar com braquia ou mácron. Assim, perde-se a diferença entre terra (nominativo) e in terrā (ablativo).

Seguem minha legendagem do evento, o texto latino das orações, o texto italiano da introdução do cardeal e a tradução em português de tudo isso:


ÁNGELUS:

– Ángelus Dómini nuntiávit Maríæ. – Et concépit de Spíritu Sáncto. (Ave-Maria)
– Écce Ancílla Dómini. – Fíat míhi secúndum Vérbum túum. (Ave-Maria)
– Et Vérbum cáro fáctum est. – Et habitávit in nóbis. (Ave-Maria)

Óra pro nóbis, Sáncta Déi Génetrix. Ut dígni efficiámur promissiónibus Chrísti.

Orémus: Grátiam túam quǽsumus, Dómine, méntibus nóstris infúnde; ut qui, ángelo nuntiánte, Chrísti Fílii túi Incarnatiónem cognóvimus, per passiónem éjus et crúcem, ad resurrectiónis glóriam perducámur. Per eúndem Chrístum Dóminum nóstrum. Ámen.

Glória Pátri, et Fílio, et Spíritui Sáncto. Sícut érat in princípio, et nunc et sémper, et in sǽcula sæculórum. Ámen.


ORÁTIO PRO FIDÉLIBUS DEFÚNCTIS:

Pro fidélibus defúnctis: réquiem ætérnam dóna éis Dómine. – Et lux perpétua lúceat éis. – Requiéscant in páce. Ámen.

O cardeal: Il Santo Padre Francesco, a tutti i fedeli presenti e a quelli che ricevono la sua benedizione a mezzo della radio, della televisione e delle nuove tecnologie di comunicazione, concede l'indulgenza plenaria nella forma stabilita dalla Chiesa. Preghiamo Dio Onnipotente perché conservi a lungo il Papa a guida della Chiesa e conceda pace e unità alla Chiesa in tutto il mondo.


ÚRBI ET ÓRBI:

Sáncti Apóstoli Pétrus et Páulus: de quórum potestáte et auctoritáte confídimus ípsi intercédant pro nóbis ad Dóminum. (Amen) Précibus et méritis beátæ Maríæ sémper Vírginis, beáti Michaélis Archángeli, beáti Joánnis Baptístæ, et sanctórum Apostolórum Pétri et Páuli et ómnium Sanctórum misereátur véstri omnípotens Déus; et dimíssis ómnibus peccátis véstris, perdúcat vos Jésus Chrístus ad vítam ætérnam. (Ámen) Indulgéntiam, absolutiónem et remissiónem ómnium peccatórum vestrórum, spátium véræ et fructuósæ pœniténtiæ, cor sémper pœnitens, et emendatiónem vítæ, grátiam et consolatiónem Sáncti Spíritus; et finálem perseverántiam in bónis opéribus tríbuat vóbis omnípotens et miséricors Dóminus. (Ámen) Et benedíctio Déi omnipoténtis, Pátris et Fílii et Spíritus Sáncti descéndat súper vos et máneat sémper. (Ámen)

ÂNGELUS:

– O Anjo do Senhor anunciou a Maria. – E ela concebeu do Espírito Santo. (Ave-Maria)
– Eis aqui a escrava do Senhor. – Faça-se em mim segundo a vossa palavra. (Ave-Maria)
– E o Verbo se fez carne. – E habitou entre nós. (Ave-Maria)

Rogai por nós, Santa Mãe de Deus. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Oremos: Derramai, Senhor, como vos pedimos, a vossa graça em nossos corações, para que, conhecendo pela mensagem do anjo a Encarnação de Jesus Cristo, vosso filho, sejamos conduzidos, por sua Paixão e Cruz, à glória da Ressurreição. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Assim como era no princípio, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.


ORAÇÃO PELOS FIÉIS DEFUNTOS:

Oremos pelos fiéis defuntos: concedei-lhes, Senhor, o eterno descanso. – E que a luz perpétua brilhe sobre eles. – Que eles descansem em paz. Amém.

O cardeal: O Santo Padre Francisco, a todos os fiéis presentes e aos que recebem sua bênção por meio do rádio, da televisão e das novas tecnologias de comunicação, concede a indulgência plenária na forma estabelecida pela Igreja. Oremos a Deus Todo Poderoso para que mantenha longamente o Papa à frente da Igreja e conceda paz e unidade à Igreja no mundo todo.


PARA ROMA E PARA O MUNDO:

Que os santos apóstolos Pedro e Paulo, em cujo poder e autoridade temos confiança, intercedam por nós junto ao Senhor. (Amém) Que por meio das orações e dos méritos da santíssima Virgem Maria, de são Miguel Arcanjo, de são João Batista, dos santos apóstolos Pedro e Paulo e de todos os santos, Deus todo-poderoso tenha misericórdia de vós, perdoe os vossos pecados e vos conduza à vida eterna em Jesus Cristo. (Amém) Que o Senhor todo-poderoso e misericordioso vos conceda indulgência, absolvição e remissão de todos os vossos pecados, em tempo para uma verdadeira e frutuosa penitência, sempre com coração contrito, e a benção da vida, a graça, a consolação do Espírito Santo e perseverança final nas boas obras. (Amém) E que a bênção de Deus todo-poderoso, Pai e Filho e Espírito Santo desça sobre vós e permaneça sempre. (Amém)