Reestruturando. Por erro de ligação com o Drive, vídeos podem não aparecer. Peço paciência, e não hesite em escrever apontando falhas. Entre nos canais do Whats e Telegram.
Eis aqui o mais recente pronunciamento de Rezā Pahlavi, filho do último xá do Irã, Mohammad Rezā Pahlavi (que fugiu da turba em fúria em 1979, covarde igual ao tsar Nicolau 2.º, e não foi “deposto”, como dizem na mídia), logo depois do fim do “líder supremo”. Como de costume, ele manda o povo ir lutar na rua, protegido em seu conforto nova-iorquino, toda vez que ocorre uma crise maior. É mais um representante das incontáveis casas monárquicas inexistentes, dentre as quais se destaca, por sua lacração online, a Família Irreal Bananeira, cuja “membra” mais visível tem sido a princesa Gabiroba.
Não quero arrogar a certeza sobre qual é o futuro ideal pro Irã, mas verdade seja dita: por mais que entre grande parte dos exilados e entre camadas jovens ainda no país o príncipe herdeiro seja popular, sua figura, muito menos uma possível volta da monarquia, estão longe de fazer unanimidade. Não só o reinado do último xá foi marcado por uma repressão comparada à atual, mas também seu pai, que “inaugurou a dinastia”, enquanto militar, dando um golpe em seu antecessor, procurou assimilar outras etnias aos persas dominantes e foi derrubado por não se curvar à sede de petróleo dos EUA. Mohammad não queria nem estava preparado pra reinar, o que o levou a tomar as piores decisões durante os protestos populares; e justamente hoje, o aspirante a rei é contestado por seu alinhamento incondicional a Israel, que o quer no lugar da “república islâmica” a qualquer preço (enquanto o próprio Laranjão não bate o martelo).
Eu traduzi o discurso usando o Google por meio da versão em inglês, já que ela deve ter sido feita pela equipe a partir do original persa e ficaria mais confiável do que se eu usasse este último no tradutor. Mesmo assim, comparei o resultado com o texto de partida e, quando necessário, consultei a respectiva palavra em persa:
Meus compatriotas,
Ali Khamenei, o Zahhāk [personificação do mal na mitologia iraniana] de nossos tempos – o demônio que, há poucas semanas, ordenou o massacre de dezenas de milhares dos melhores filhos e filhas do Irã –, se foi.
Com sua morte vergonhosa, e a de muitos de seus nomeados e aliados, a República Islâmica está dando seus últimos suspiros. Por meio da vontade e coragem de vocês, em breve ela vai ser relegada à lata de lixo da história. A grande nação do Irã busca a queda completa da República Islâmica, e nós vamos derrubar este regime demoníaco.
Minha mensagem aos funcionários remanescentes desta república do terror é esta: rendam-se à nação iraniana. Declarem sua lealdade a meu plano e a nossa estrutura de transição, e entreguem o poder sem mais derramamento de sangue.
Qualquer tentativa dos remanescentes do regime de nomear um sucessor pra Khamenei está fadada ao fracasso desde o início. Quem quer que eles coloquem em seu lugar não apenas vai carecer de legitimidade, mas também ser cúmplice dos crimes deste regime.
Aos militares, às forças policiais e de segurança, eu digo: suas armas devem ser usadas pra defender a grande nação do Irã, não a república do crime, da brutalidade e de seus criminosos anti-iranianos. Unam-se ao povo do Irã e à Revolução do Leão e do Sol. Usem suas armas pra proteger os iranianos contra os mercenários da República Islâmica, pra que este pesadelo de 47 anos termine mais rapidamente.
A morte do criminoso Khamenei, embora não pague o sangue derramado, pode acalmar os corações feridos de pais e mães, cônjuges e filhos, irmãs e irmãos enlutados; um consolo pras famílias orgulhosas dos mártires da Revolução do Leão e do Sol do Irã.
Povo honrado e corajoso do Irã,
A morte do déspota de nosso tempo, embora marque o início de nossa grande celebração nacional, não é o fim da jornada. Permaneçam vigilantes. Estejam preparados. A hora de uma presença ampla e decisiva nas ruas está muito próximo.
Peço a vocês que, mantendo-se em segurança, demonstrem sua satisfação e apoio ao esmagamento da República Islâmica por meio de cânticos noturnos e que gritem suas exigências pro futuro do Irã. Minha força provém da força e do apoio de vocês.
Peço aos iranianos no exterior – que durante semanas, sem cansaço nem pausa, têm trabalhado como a voz poderosa de nossos compatriotas no Irã – que intensifiquem seus esforços. Forcem o mundo a ouvir o apoio do povo iraniano a esta intervenção humanitária e nossa exigência da queda completa do regime.
Temos dias sensíveis pela frente. Juntos, vamos trilhar o caminho da vitória e derrubar a República Islâmica.
O príncipe herdeiro Rezā Pahlavi, filho do último xá do Irã monárquico (que fugiu do país em 1979 após a revolução que se transformou em “islâmica”), apareceu mais uma vez no Équis e no Feisse (de onde tirei a transcrição) pra chamar o povo iraniano a se sublevar contra o “líder supremo” Ali Khāmenei. Após os bombardeios de Israel às centrais nucleares e às instalações do programa nuclear iraniano, que se transformaram em destruição geral de tudo relacionado à teocracia, muitos pensam que o caos gerado por mais esta guerra pode levar a população a finalmente se sublevar, depois de anos de sucessivos protestos esmagados no sangue (o mais recente deles em 2022, que já tinha, porém, levado a mudanças societárias substanciais).
O wishful thinking delirante tomou conta das redes sociais, a começar por esta constrangedora montagem por IA digna do pior produzido sob os regimes baathistas vizinhos. (Tá bom, confesso, a legenda politicamente incorreta é minha!) Analistas sérios são unânimes em dizer que só vai haver mudança se os iranianos quiserem, e que ela não é (ou mesmo nem pode) necessariamente impelida de fora, como os casos anteriores mostraram. Inclusive, salvo raras exceções, apesar de 80% da população odiar os aiatolás, há uma insatisfação generalizada com a destruição de infraestrutura pelo Bibi do Hamas, derivada de um orgulho nacional de império milenar mais forte que o ódio ao atual regime. Ou seja, intrusões externas podem é causar o efeito contrário, e o Estado judeu sequer é citado pelo “príncipe”, nem mesmo à guisa de agradecimento.
Finalmente, embora em tese o herdeiro do xá seja o representante “legítimo” após uma eventual queda de Khāmenei, não há consenso sobre a preferência pela volta da monarquia. Afinal, nem todos esqueceram o contexto de violência legado pelo monarca, com sua Sāvāk (polícia política) frequentemente comparada aos atuais Pasdarān, e o empobrecimento geral, contrastado à microelite que enriquecia com o petróleo (aquela dos vídeos “Irã antes de 1979” com patricinhas andando sem véu!) e cuja ostentação ampliou a fúria de uma população ainda apegada ao conservadorismo religioso. São frequentes as críticas de usuários comuns à vida de luxo e segurança da “família real” (procure os Instas das filhas, sobretudo a mais velha, Noor Pahlavi), querendo que a gente ferrada se subleve pros bonitinhos chegarem e tomarem o poder com tudo pronto!
Enfim, segue a tradução que fiz usando o Google Tradutor, mas que deve ter ficado razoável e na qual fiz leves reparos (p. ex. troquei “Isfahan” pela pronúncia correta “Esfahan”):
Compatriotas,
A República Islâmica chegou ao fim e está caindo. Khamenei escondeu-se no subsolo como um rato assustado e perdeu o controle da situação. O que começou é irreversível. O futuro é brilhante e juntos superaremos essa reviravolta na história.
Nestes dias difíceis, meu coração está com todos os cidadãos indefesos que foram prejudicados e vítimas das ilusões e da belicosidade de Khamenei. Há anos tento impedir que nossa pátria seja apanhada no fogo da guerra.
O fim da República Islâmica é o fim de sua guerra de 46 anos contra a nação iraniana.
O aparato de repressão do regime está entrando em colapso. Basta uma revolta popular para acabar com este pesadelo para sempre.
Agora é a hora de nos levantarmos; a hora de retomarmos o Irã. Vamos todos nos unir, de Bandar Abbas a Bandar Anzali, de Shiraz a Esfahan, de Tabriz a Zahedan, de Mashhad a Ahvaz, de Shahrekord a Kermanshah; vamos pôr fim a este regime.
Não nos preocupemos com o amanhã após a queda da República Islâmica. O Irã não sofrerá com guerra civil e instabilidade. Temos um plano para o futuro do Irã e sua prosperidade. Estamos prontos para os primeiros cem dias após a queda, o período de transição e o estabelecimento de um governo nacional e democrático, para a nação iraniana e pela nação iraniana.
Dirigindo-me às forças militares, policiais, de segurança e governamentais, muitas das quais me enviam mensagens ultimamente: “Não se coloquem à frente da nação iraniana para preservar um regime cujo colapso começou e é certo. Não se sacrifiquem por este regime corrupto. Salvem suas vidas apoiando a nação. Desempenhem um papel histórico na transição da República Islâmica e participem da construção do futuro do Irã.”
Um Irã livre e próspero está a nossa frente. Que eu possa estar com vocês em breve.
Na sequência do que publiquei ontem, segue outra canção que gosto muito de ouvir, cujo vídeo copiei deste canal repleto de materiais recuperados do período socialista do Afeganistão (1978-1992). Desta vez foi composta em dari, a variante afegã da língua persa, e trata-se do hino do Partido Democrático Popular do Afeganistão, fundado em 1965 e que praticamente era a mesma coisa que um partido comunista. Ele governou o país exatamente naquele período, após o golpe militar de 1978 chamado “Revolução de Sawr”, em referência ao mês do calendário zoroastrista em que estavam. Seu compositor e cantor que aparece no vídeo é o célebre músico afegão Mas’hur Jamal (1945-2014), que foi filmado em 1986 com a orquestra de Ustad Salim Sarmast, segundo este outro canal.
Ainda sob a monarquia, o comunismo afegão se dividiu em duas facções em 1967: a chamada “Khalq” (lit. “povo”), adepta do dogmatismo “marxista-leninista” mais radical e da tomada violenta do poder, e a chamada “Parcham” (lit. “bandeira”), moderada, reformista e defensora de uma frente ampla de esquerda. (Semelhanças com “bolcheviques e mencheviques” não são mera coincidência...) Em 1978, foram oficiais “khalquistas” que tomaram o poder, mas no fim de 1979, os invasores soviéticos, assustados com o extremismo que desagregava o país, colocaram um “parchamista” na presidência. Outro “parchamista” assumiu em 1987 e acelerou as tendências nacionalistas e islamizantes do governo, a começar pelo abandono das referências marxistas. Em 1990, o PDPA foi renomeado Partido da Pátria, e em 1992, banido pelos mujahedin, tendo sido refundado no exterior em 1997. Tentativas de ser legalizado, porém, inclusive sob o nome antigo, foram barradas pelo regime afegão de 2001-21.
A história de Mas’hur Jamal (que prefiro não escrever com “sh”, pois são dois sons separados), cujo nome de batismo era Jalil Ahmad, merece um parágrafo à parte, sendo difícil encontrar coisas sobre ele; mesmo o artigo da Wikipédia em persa tive que traduzir com o Google. Algumas fontes apontam seu ano de nascimento como 1946, mas o fato é que, tendo se exilado em 1992, morreu em Arnhem, na Holanda, em 2014, após anos lutando conta um câncer. Interessado pelo canto desde criança, ele se formou em Língua e Literatura Persa na Universidade de Cabul e deu aula de persa no Ensino Médio por um tempo. Hora de dizer: outra clivagem era a étnica, em que os “khalquistas” eram majoritariamente camponeses pastós e os “parchamistas”, majoritariamente intelectuais e outras classes médias tajiques. Juntou-se a grupos de cantores amadores na década de 1960, teve sua primeira canção transmitida pela Rádio Cabul em 1963 e chegou a presidir a União dos Artistas do Afeganistão. Conhecido por suas canções patrióticas e de tom descrito como “épico”, recebeu as condolências do então Ministro da Informação e Cultura, nas quais há dados sobre sua biografia.
Pra uma descrição um pouco mais longa do regime socialista afegão em si, sugiro que recorra à publicação de ontem, com o hino nacional (em pastó, provavelmente porque a fração “Khalq” foi a realizadora do golpe) que vigorou naquele período. Não há mais informações sobre a composição do hino do partido, que costuma ser chamado por seu primeiro verso (Você é nosso partido ou Você é nosso partido, nosso partido heroico), e a se julgar pelo álbum em que pode ter sido gravado, já existia em 1981, ou seja, com a fração “Parcham” já entronizada pela URSS. Achei neste canal (que tem também algumas imagens de época) a letra original copiável, que ajustei mais ao áudio, e comparei a tradução feita pelo Google com a versão em inglês do segundo link mencionado acima (canal Interkast). Acabei procurando algumas palavras isoladas no Wiktionary e minha tradução pode não estar literal, mas passa o sentido essencial.
Copiei a transliteração do comentário a uma das várias versões no YouTube, corrigi conforme o original e padronizei o uso do “sh” e do “ch”, bem como do hífen que separa, pra efeitos didáticos, a conjunção “o” (e) e a ligação possesiva “-(y)e”, ambas átonas. Neste vídeo também montado com cenas de época, Jamal aparece cantando outra música patriótica, e neste outro vídeo documental, dedicado ao papel das mulheres no Afeganistão socialista, há ainda mais mídia das décadas de 1970 e 1980. Mesmo que você não entenda persa/dari (como eu, aliás, rs), é um prato cheio de conhecimento histórico!
Refrão: Você é nosso partido, nosso partido heroico
Nossa esperança, nossa esperança infinita
Nosso hino, nossa existência, nossa alma
O desejo vermelho de nossos caídos
No nome glorioso da galáxia
De nosso sangue saem flores e estrelas
Aos pés daquela bandeira carmim
Damos a vida mil vezes por você
Damos a vida mil vezes por você
Por você, por você
Damos a vida mil vezes por você
Por você, por você
1. Você é o Sol de nosso Sawr imortal
O partido do sangue que lançou a revolução
Rumo às trincheiras e rodas dos tanques
Agora e sempre por você nos sacrificamos
Agora e sempre por você nos sacrificamos
Sacrificamos, sacrificamos, sacrificamos
(Refrão)
2. Tendo passado por esta batalha feroz
Levaremos você à Terra do Sol
E essa sempre foi a última palavra
Vivam seu nome e sua voz
Vivam seu nome e sua voz
Sua voz, sua voz, sua voz
(Refrão)
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Band-e bargadān: Tu hezb-e mā, tu hezb-e qahramān-e mā
Umid-e mā, umid-e bikerān-e mā
Sorud-e mā, vujud-e mā, ravān-e mā
To ārezu-e sorkh-e raftagān-e mā
Banām-e purshuku-he kahkashāniyat
Ze khun-e mā gol u setār-e sar zanad
Ba pāye ān darafsh-e arghavāniyat
Hazār bār jān dehim barā-ye tu
Hazār bār jān dehim barā-ye tu
Barā-ye tu, barā-ye tu
Hazār bār jān dehim barā-ye tu
Barā-ye tu, barā-ye tu
1. Tu āftāb-e Saur-e jāvedān-e mā
Tu hezb-e khun neshsatgān-e inqelāb
Ba sangar-o ba charkh-o lāye khusha hā
Hamesh-e hast-u bud-e mā fedā-ye tu
Hamesh-e hast-u bud-e mā fedā-ye tu
Fedā-ye tu, fedā-ye tu, fedā-ye tu
(Band-e bargadān)
2. Azin guzargahe nabard-e ātashin
Tarā ba shahr-e āftāb me barem
Va in bavad hamesha harf-e vāpasin
Ke zindabād nām-e tu, sadā-ye tu
Ke zindabād nām-e tu, sadā-ye tu
Sadā-ye tu, sadā-ye tu, sadā-ye tu
(Band-e bargadān)
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بند برگردان:
تو حزب ما، تو حزب قهرمان ما
امید ما، امید بیکران ما
سرود ما، وجود ما، روان ما
تو آرزوی سرخ رفتگان ما
بنام پُرشکوه کهکشانیت
ز خون ما گل و ستاره سر زند
به پای آن درفش ارغوانیت
هزار بار جان دهیم برای تو
هزار بار جان دهیم برای تو
برای تو، برای تو
هزار بار جان دهیم برای تو
برای تو، برای تو
۱. توآفتاب ثور جاویدان ما
تو حزب خون نشستگان انقلاب
به سنگر و به چرخ و لای خوشه ها
همیشه هست و بود ما فدای تو
همیشه هست و بود ما فدای تو
فدای تو، فدای تو، فدای تو
(بند برگردان)
۲. ازین گذرگاهی نبرد آتشین
ترا به شهر آفتاب می بریم
و این بود همیشه حرف واپسین
که زنده باد نام تو صدای تو
که زنده باد نام تو صدای تو
صدای تو، صدای تو، صدای تو
No dia 14 de novembro de 2024, Rezā Pahlavi, príncipe herdeiro do antigo Estado Imperial do Irã e filho do último xá, Mohammad Rezā Pahlavi, publicou em seu perfil no X um breve discurso sobre as oportunidades pra derrubar a teocracia islâmica e levar o país no rumo do crescimento e da prosperidade. Ele não falou abertamente em golpe ou revolução, e a ditadura síria de Bashar al-Asad ainda não vivia seus momentos finais. Mas o Irã já vivia uma crise militar e de credibilidade, especialmente com seu retumbante fracasso em influir nos rumos da guerra em Israel e nos territórios palestinos. Eu coloquei o texto em persa no Google Tradutor e comparei com as legendas em inglês disponíveis no vídeo:
Grande Nação do Irã,
Acontecimentos globais e regionais têm nos apresentado uma nova oportunidade de recuperar e salvar nosso amado Irã. Hoje, a República Islâmica está mais fraca do que nunca e mais impotente diante de crises. Em meio a tudo isso, a maior fraqueza desse regime é sua falta de legitimidade e de apoio popular.
Nosso Irã é rico em recursos naturais e capital humano, e seu povo nunca deveria ter de recear a falta de água e pão, de remédios e serviços de saúde, ou de combustível e eletricidade no calor e no frio. Mas como as pessoas recebem em riais, lutam para sobreviver com o dólar a 700 mil riais [em 10/1/2025, já estava a 818,5 mil riais] e com inflação galopante. Os problemas crescentes que vocês enfrentam devem-se à incompetência e à corrupção que estão presentes na própria estrutura deste regime. A República Islâmica carece tanto da vontade quanto da capacidade de governar o país e atender às necessidades mais básicas do povo.
Aqueles que prometeram água e eletricidade gratuitas à nação iraniana drenaram nossa rica terra e a levaram de volta à Idade das Trevas. Substituíram a visão de nossa grande civilização por um grande terror.
Mas agora, neste período crítico e nesta nova conjuntura, temos dois caminhos diante de nós: ou assistimos e esperamos até que outros façam as mudanças que desejam para nós, ou nós mesmos nos tornamos a força motriz da mudança e, com determinação e vontade nacionais, realizamos as aspirações da nação iraniana em nossa terra natal, bem como nos think tanks e corredores do poder ao redor do mundo. Minha escolha, sem dúvida, é pela segunda opção.
Quando vocês chamarem, estarei pronto para liderar essa mudança e conduzir a transição. Minha capacidade repousa sobre a força de vocês. Usarei a energia que obtenho com a continuação de suas lutas e protestos justos para estabelecer um governo nacional no Irã e angariar o máximo apoio global para realizá-lo.
Agora é hora de escolher. Avancemos em direção a um futuro brilhante e livre, próspero e frutuoso.
Viva o Irã!
ملت بزرگ ایران،
تحولات جهانی و منطقهای، فرصت تازهای را برای بازپسگیری و نجات ایران عزیزمان پیش روی ما قرار داده است. امروز، جمهوری اسلامی از هر زمان دیگری ضعیفتر، و در مواجهه با بحرانها، درماندهتر است. در این میان، بزرگترین نقطهٔ ضعف این رژیم، نداشتن مشروعیت و مقبولیت مردمی است.
ایران ما سرشار از منابع طبیعی و ثروت انسانی است، و مردمش هرگز نباید دغدغهٔ آب و نان، دارو و درمان، و سوخت و برق را در گرما و سرما داشته باشند؛ به ریال دستمزد بگیرند، اما با دلار ۷۰هزارتومانی و گرانی افسارگسیخته، به سختی روزگار بگذرانند. مشکلات روزافزونی که شما با آن مواجه هستید، ناشی از بیکفایتی و فسادیست که با تار و پود این رژیم، گره خورده است. جمهوری اسلامی، اساسا، اراده و توان ادارهٔ کشور و تامین ابتداییترین نیازهای مردم را ندارد.
آنها که به ملت ایران، وعدهٔ آب و برق مجانی میدادند، سرزمین ثروتمند ما را خشک کردند و به عصر تاریکی بازگرداندند: چشمانداز تمدن بزرگ ما را با وحشتی بزرگ، جایگزین کردند.
اما اکنون، در این دورهٔ حساس، در این فرصت نو، دو راه پیش روی ماست: یا نظارهگر و منتظر باشیم تا شاید دیگران، تغییرات دلخواه خود را برای ما رقم بزنند؛ یا اینکه با عزم و ارادهٔ ملی، خود، موتور محرک تغییر باشیم؛ و خواست ملتِ ایران را در میهنمان، و در اتاقهای فکر و دالانهای قدرت در سراسر جهان، به کرسی بنشانیم. انتخاب من، بدون تردید، گزینهٔ دوم است.
من بنا به خواست شما، آمادگی خود را برای هدایت این تغییر، و رهبری دوران گذار اعلام کردهام. توان من ناشی از قدرت شماست. نیرویی را که از تداوم مبارزه و اعتراضات حقطلبانهتان میگیرم، در مسیر استقرار دولتی ملی، و جلب حمایت حداکثری جهانی برای تحقق آن، به کار میبندم.
اینک، زمان انتخاب است. بیاییم با عزمی راسخ، به سوی آیندهای روشن، آزاد، مرفه و آباد حرکت کنیم.
À guisa de disclaimer, gostaria apenas de ressaltar algumas ideias, em parte fatos constatados, em parte posições minhas:
Os ataques do Hamas a Israel devem ser condenados, em qualquer hipótese, por qualquer ser pensante; não se precisa “apoiar” nenhum dos lados pra condenar as violências de ambos.
Os abusos de Israel ao longo das décadas não justificam nem podem ser vistos como tendo esses ataques por “cúmulo” ou “resposta legítima”; o Hamas não pensa na população, e sim em poder, e essa “mostra de força” visa lhe dar mais capital político.
Os usos que o bolsonarismo tem feito da imagem de Israel, desde sempre até esta guerra, são nojentos.
A destruição de fato da Faixa de Gaza, que está em curso, é uma resposta errônea e, longe de resolver, vai agravar o problema.
A criação de Israel em si não foi “um erro”, mas como todo Estado recém-criado, tem problemas e comete erros; e já havia ampla imigração judia do mundo todo pra lá, fugindo do antissemitismo, antes mesmo da fundação do movimento sionista.
O direito dos povos palestino e judeu terem seus próprios Estados são igualmente legítimos e não podem conhecer hierarquia entre si.
A Autoridade Palestina, comandada pelo Fatah e adversária do Hamas, o qual não controla, está corrompida e fraca, e está desacreditada entre os próprios palestinos; os terroristas são tão repulsivos que até o Egito, com medo de fugas, está atravancando a abertura da fronteira com Gaza, já que conhece as “belezas” da Irmandade Muçulmana, irmã do Hamas.
As maiores culpadas pela briga entre os dois povos são as grandes potências, sobretudo o Reino Unido (quando governou a Palestina no entreguerras) e os EUA, que apoiou cegamente todos os governos israelenses; mas também as potências regionais, como Egito, Irã, Síria e Arábia Saudita, que instrumentalizaram a causa palestina quando convinha ou botaram lenha na fogueira.
Binyamin Netanyahu não representa toda a história de Israel, muito menos seu povo, que no geral o detesta e o acha incompetente; em vários momentos ele executou políticas repulsivas quanto aos terroristas, seja “comprando” o Fatah, seja deixando livre o Hamas pra enfraquecer aquele.
A ditadura terrorista do Irã jamais deve ser defendida sob o pretexto de um falso “anti-imperialismo”, e sendo um regime em crise, está promovendo esta guerra por procuração, já que morre de medo de encarar Israel de frente.
Síria e Irã também combatem o Daesh, mas assim como os EUA, por interesse próprio: al-Assad foi o tirano que, com a cobertura de Putin, lançou bombas de fósforo contra a própria população, e Ali Khamenei sustenta a “rebelião” xiita no Iêmen, parte de cujo lema é “Morte a Israel, malditos sejam os judeus”.
Dito isto, gostaria de mostrar uma coisa que, nessa semana tão violenta, finalmente lavou minha alma e provavelmente não vai aparecer nas mídias bananeiras, nem na hegemônica, nem na “alternativa”! No Estádio Azadi de Teerã, no dia 8 de outubro de 2023, no dia seguinte do ataque do Hamas a Israel, os esbirros da guarda “revolucionária” da ditadura terrorista do Irã (um país não árabe) tentaram distribuir bandeiras da Palestina à torcida e instigá-la a expressar apoio ao Hamas. Porém, nesse jogo entre o Gol Gohar e o Persepolis, a torcida deste tomou coragem e desafiou os mulás cantando: “Enfie essas bandeiras palestinas no c..., enfie no c..., enfie no c...!” Nos últimos dias, o regime promoveu “manifestações” de rua que, na verdade, foram recheadas de militares e funcionários públicos sem muita escolha, mas o povo já esmagado pela repressão tem simplesmente ignorado essas mascaradas.
Eis a versão Zaratustra do “You can shove your coronation up your arse!” entoado recentemente nos estádios escoceses, quando da entronização de Charles 3.º! Segundo uma amiga minha iraniana, que mora na Turquia e confirmou a veracidade do vídeo (que está circulando em diversos perfis de iranianos), esta é a transcrição:
پرچم فلسطین را بکن تو کونت بکن تو کونت
Cuja transcrição pra você cantar é: Parcham-e felestin (r)â bokon to kunet, bokon to kunet!Emily Schrader, jornalista e ativista israelense, publicou a versão mais replicada na rede X, mas o fato também foi amplamente noticiado tanto na mídia iraniana exilada quanto na imprensa israelense, das quais tirei as informações fatuais. Pra mim o negócio funciona mesmo na base do deboche e da zoeira, mas reitero que não tenho nenhuma intenção de ofender a causa palestina (a qual, infelizmente, não merece os “defensores” que tem), e sim a instrumentalização que criminosos como o ditador do Irã fazem dela, bem percebida por seu povo que não aguenta mais essa hipocrisia sanguinária pra ex-querdista ver.
Adendo (10/1/2025): Como diriam os vilões do Pica-Pau, “aconteceu de novo!”, rs. Achei outro dia por acaso esta nova versão do clássico, agora publicada por uma conta monarquista no Équis em 6 de maio de 2024. Pela descrição, agentes da ditadura tentaram hastear a bandeira palestina no Estádio Vatani durante uma partida entre os clubes Nassaji e, sempre ele, Persépolis, na cidade de Qāem Shahr, antes conhecida como Shāhi. Ao que parece, o crédito original do vídeo cabe a um militante chamado Najāt Bahrāmi!
Este é o Hino Nacional da República Socialista Soviética do Tajiquistão (Суруди миллии Ҷумҳурии Шӯравии Сотсиалистии Тоҷикистон, Surudi millii Jumhurii Shūravii Sotsialistii Tojikiston), a mais pobre da antiga URSS, encravada no meio da Ásia Central e de cultura essencialmente persa (ou seja, muçulmana e com uma variante da língua ainda falada no Irã). Essa república foi desdobrada em 1929 da antiga RSS do Uzbequistão, de cultura túrquica, dentro da qual tinha sido antes uma RSS autônoma desde 1924. A capital, hoje chamada Dushanbe (“segunda-feira”), se chamou Stalinabad até 1961, e em fevereiro de 1990 ocorreram aí tumultos que levaram a 26 mortes. Em 24 de agosto de 1990 o Tajiquistão declarou soberania sobre seu próprio território, em 31 de agosto de 1991 adotou o nome de “República do Tajiquistão” e em 9 de setembro declarou sua independência da URSS. Eu prefiro escrever “Tajiquistão”, sem “d”, e não “Tadjiquistão”, que não soa natural em nossa língua.
O Hino Nacional da RSS do Tajiquistão foi composto e adotado em 1946, com letra do poeta e ativista Abulqosim Lohutī (1887-1957), nascido no Irã, e melodia do compositor Suleyman Yudakov (1916-1990), que era da etnia judia de Bukhara. Em 1977 a letra foi levemente modificada no final da segunda estrofe pra tirar as referências a Stalin, algo que ocorreu nos hinos de todas as outras repúblicas soviéticas. A versão deste vídeo é exatamente a modificada. O Tajiquistão é um dos poucos países que manteve a mesma melodia do hino soviético, apenas adotando em 1994 uma nova letra, chamada simplesmente de Hino Nacional (Surudi Millī) e composta pelo poeta Gulnazar Keldī (1945-2020), que morreu de covid. Assim como nas outras repúblicas centro-asiáticas, a execução e exibição públicas de antigos símbolos soviéticos não é criminalizada, e o próprio ditador nepotista atual, Emomali Rahmon, tinha sido um burocrata comunista.
O hino da RSS tajique é um dos poucos que destoa da estrutura poética dos outros hinos, consistindo de três estrofes com seis versos cada, sem um refrão. Mas a temática, como vemos, não muda. O tajique é apenas uma variante do persa, língua nacional do Irã, portanto guarda também um distante parentesco com o português. A diferença é que se escreve em alfabeto cirílico, e não numa modificação do árabe, mas como só tenho um conhecimento primário de ambos, traduzi a partir das versões em russo (literal, não poética) e inglês da Wikipédia, apenas jogando depois o original no Google Tradutor pra ver o resultado. A transliteração que usei é a mais comum, incluindo o uso de “ī” e “ū” pras vogais nativas “ӣ” e “ӯ”. Seguem abaixo o vídeo, a letra em cirílico tajique e a tradução:
Quando a mão da Rússia nos ajudou,
Formou-se a irmandade do povo soviético,
Iluminou-se a estrela de nossa vida.
Nosso passado glorioso veio à tona
E em nossa terra, em nossa terra
Criou-se o Estado independente dos tajiques.
Fervendo em plena noite
Ressoou com força o chamado de Lenin,
A luz de sua bandeira deu fim às trevas da opressão.
A eterna prosperidade nesta terra
Foi obtida do Partido pra nós, parabéns ao Partido,
É a pessoa generosa que nos educou como novos.
Nosso lema vai se erguer:
Igualdade, fraternidade entre nosso povo.
Ninguém de nossa família vai ficar de lado,
Vamos fazer um escudo de unidade.
Seguimos à vitória sob o comunismo, sempre adiante.
Vivam nossa família, nosso povo, nossa URSS.
Neste vídeo raro, é possível vermos os últimos minutos de vida do aiatolá iraniano Ruhollah Khomeini (1902-1989), que liderou a Revolução Islâmica de 1979 contra o xá (imperador) Mohammad Reza Pahlavi e liderou o país até morrer. No islã xiita, majoritário no Irã, “aiatolá” é um alto título honorífico, mas o clérigo Khomeini também era “imã”, ou seja, um condutor das preces nas mesquitas e um líder da comunidade islâmica. Com a saúde debilitada há vários anos, ele teve cinco infartos nos dez dias anteriores à morte, mas há quem fale também em hemorragia no sistema digestório. Morreu no hospital privado de Jamaran, próximo à sua residência.
Segue abaixo a tradução das legendas em inglês, que provavelmente são a fala de algum seguidor próximo. A idade citada não é a que aparece em sua certidão de nascimento (1900), mas a de seu nascimento real (1902):
“Esta foi a última prece do Imã Khomeini. Posso dizer que fui o último a estar sobre sua cabeça, e eu vi que ele estava mexendo a cabeça. Acredito que ele estava rezando. Só Alá sabe. Imaginei que ao mover os dedos desta forma, ele estivesse rezando. Então apaguei a luz e saí, e ele fechou os olhos e não retomou mais a consciência. Os médicos vieram depois e tentaram restaurar seus batimentos. Por meios artificiais, eles tentaram reavivar o coração e os pulmões. Eles disseram que ele abriu os olhos por um instante e olhou para o céu. Essas foram suas últimas palavras, e esse foi seu último movimento. O Imã Khomeini faleceu no sábado à noite, no cair do mês islâmico [Hégira] de Shawwal, em 3 de junho de 1989. Ele tinha 87 anos, 9 meses e 10 dias.”
Sei que não tem muito a ver, mas decidi aproveitar esta publicação pra relançar isto também... Achei por acaso este trecho de uma conferência do aiatolá e líder supremo iraniano, Sayyed Ali Khamenei, em que ele fala em persa e com o vídeo legendado em francês. Como meu conhecimento da língua do Irã é ainda de iniciante, eu traduzi a partir das legendas em francês e fiz minhas próprias legendas em português, assumindo o risco de qualquer erro ou imprecisão.
O religioso islâmico está falando no que, segundo o Google Tradutor, é a reunião de um grupo de mulheres estudantes de hawzas (seminários religiosos xiitas) e universidades. Eu penei pra entender que, no vídeo original, a data indicada em algarismos ocidentais não é, na verdade, 5 de novembro, mas 11 de maio de 2013. E que a data indicada na apresentação em persa não é do calendário islâmico lunar, mas solar, ou seja, do “calendário persa”: 21 de Ordibehesht (mês 2) de 1392.
Parece zoeira pra um regime misógino, mas ele diz que a mulher é o verdadeiro sexo forte, pois ela pode dominar qualquer homem usando a perspicácia e a delicadeza de pensamento. Não deixa de ser um pensamento um tanto machista, pois assume a noção comum no mundo islâmico de que a mulher é um ser ardiloso, astucioso, uma tentação a ser controlada. Basta lembrarmos o mito de Adão e Eva, em que a serpente engana a mulher com o fruto da árvore do conhecimento, e esta engana o homem pra que ele comesse o fruto... Num dado momento, ou as mulheres riem de bobas, ou tão achando o velhinho um tanto bobo mesmo!
Estou postando aqui algumas canções que o cantor tajique Iskandar Qalandarov (cirílico: Искандар Қаландаров) interpretou durante uma festa celebrando o Ano Novo persa (Nowruz), provavelmente em 2019, e que tinham sido publicadas em meu extinto canal do YouTube, pro qual também eu queria separar outras faixas. Antes do fim do Pan-Eslavo Brasil, eu as tinha carregado sem tradução mesmo, traduzindo apenas os títulos em tajique que apareciam ao longo do vídeo, e queria separar quantas eu pudesse pra presentear os brasileiros com algo diferente de nossa cultura de massas. Se eu tiver tempo, vou separar as outras músicas do vídeo original e incorporar aqui também ou em outra publicação. Porém, eu queria colocar duas antes das outras, porque elas têm um significado especial.
Pode-se facilmente perceber que a primeira canção tem a mesma melodia de La paloma, muito conhecida no mundo hispânico. O nome apresentado é “Дилбарам” (Dilbaram), literalmente Minha amada (Dilbar também é um nome feminino na Rússia e países centro-asiáticos), embora pareça mais que ele pronuncie delbaram, forma da língua irmã persa (دلبرم).
Qalandarov também canta no grupo tajique Iqbol (Иқбол) e foi um de seus fundadores, em 1999. Quem gosta da língua tajique (ou do persa em geral) e da cultura da região, o canal dele é um prato cheio. Mesmo se não entendemos o idioma, o ritmo e a voz são muito bons! Quem tem uma cultura mais ampla, lembra que La paloma já foi gravada por Julio Iglesias, e quem tem mais idade lembra que a extinta dupla João Paulo & Daniel também a gravou em português como Paloma ainda em 1987, mas só estourou na década de 1990. Na verdade, La paloma foi escrita pelo compositor espanhol Sebastián de Iradier y Salaverri (1809-1865) por volta do distante 1863, com uma letra toda diferente da gravada por Iglesias.
Devido ao enorme sucesso que fez no México no fim do século 19, sobretudo por ter sido uma das canções preferidas dos imperadores Maximiliano e Carlota (no curto período em que o país teve uma monarquia), La paloma é erroneamente considerada uma obra mexicana. Em todo caso, é uma das melodias mais executadas do mundo, talvez até mais do que Yesterday dos Beatles, e citada até mesmo em O crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, como “A Chiquita, uma velha canção mexicana”. Não por menos, foi parar até no Tajiquistão... Infelizmente, não achei o texto completo e não conheço bem tajique pra traduzir literalmente.
O nome da segunda canção é “Соқӣ, ба нури бода” (Soqi, ba nuri boda), que originalmente é um poema do escritor persa Hafez de Shiraz (1315-1390), ou Hafez-e Shirazi, em tajique “Hofizi Sherozi” (Ҳофизи Шерозӣ). Hafez nasceu no atual Irã e foi também um místico sufi, escrevendo muito sobre o vinho e seus prazeres. Não tenho certeza, mas o título talvez signifique Garçom, sirva vinho, sendo que soqi era um responsável por servir bebidas em jantares de cerimônias nobres ou em ofertas pra deuses nos templos.
Infelizmente, não achei o texto completo desta canção e não conheço bem tajique pra traduzir literalmente. Mas aproveitem o conteúdo inusitado! O poema Garçom, sirva vinho, do qual essas são as primeiras palavras, e não tanto um título, também foi cantado e musicado por outros artistas. Segue o texto de Hafez que encontrei no Facebook (não conferi a correção com o áudio nem transliterei):
A professora iraniana Leyla Shams, hoje residente no estado norte-americano do Texas com seu marido e três filhos, fundou há 12 anos uma pioneira iniciativa online em inglês, chamada Chai and Conversation (tchái = “chá” em diversas línguas orientais, inclusive russo), que consiste basicamente na produção de podcasts ensinando a variante iraniana coloquial da língua persa (que é muito diferente da variante escrita!), da qual havia então pouco material disponível. Hoje a iniciativa cresceu, e além de terem site próprio e canal no YouTube, também ensinam a escrita perso-arábica, noções essenciais da língua escrita e muita, muita poesia persa tradicional. Felizmente, há muito material bom de persa (iraniano, dari e tajique) na internet, mas eu recomendaria sem pestanejar o trabalho da Leyla, que de quebra ainda é uma pessoa muito gentil no trato pessoal!
Infelizmente, o Irã está passando por mais uma onda de protestos violentos contra sua ditadura clerical paranoica, assassina e retrógrada, que teve como estopim o assassinato da jovem curda Mahsa Amini pela “polícia dos costumes”, apenas devido a um uso incorreto do véu feminino de uso público obrigatório. Estopim, porque além do cansaço com a crise econômica e o marasmo político, confirmado pelo empossamento sem real sufrágio popular do presidente Ebrahim Raisi, as novas gerações estão mais bem instruídas e mais abertas ao mundo, e por isso mesmo não aceitam as restritivas regulações de base religiosa. Somam-se a isso as tensões nacionais, já que não são apenas persas xiitas que habitam o Irã, mas diversos outros povos e crenças, sendo os curdos sunitas os mais problemáticos, pois também reivindicam autonomia ou independência em outros países da região, cuja fronteira foi basicamente desenhada pelas potências europeias ao longo do século 20.
A maioria das grandes revoltas juvenis ou estudantis das últimas décadas acabou sufocada em vergonhosos banhos de sangue, como foi o caso da contestação da eleição do presidente reacionário Mahmud Ahmadinejad em 2009. Mas mesmo quem acompanha o Irã há décadas afirma que os acontecimentos de 2022 estão muito diferentes, não só por causa do uso massivo das redes sociais, mas também porque estão sendo comandados por mulheres, apoiadas massivamente pelos homens e também pelas gerações mais velhas, que costumam ser mais relutantes. E mesmo após o endurecimento da repressão nos últimos dias, os focos de protesto continuam, não se consegue contê-los, e facções da cúpula do poder iraniano já cogitam algumas concessões. Parte da nossa intelectualidade antiamericana culpa as sanções pela ruína econômica, mas desde o começo da revolução, em 1979, a economia já foi entregue a mãos incompetentes, por razões ideológicas, que causaram enormes estragos. E mesmo que admitamos alguma intervenção estrangeira na insurreição (Rússia e China parecem hoje perigos mais prementes pra OTAN), não há como negar que o regime dos aiatolás é completamente terrorista e ilegítimo, e uma das provas disso é o fornecimento de armas a Putin pra matar ucranianos inocentes.
A canção em persa Barā-ye (برای), Por causa de, composta e interpretada pelo jovem músico iraniano Shervin Hajipour (n. 1997), que se baseou em tuítes de meninas que explicavam a razão de estarem saindo às ruas (muitas das quais queimavam seus véus e dançavam de cabeça descoberta em praça pública), se tornou um hino não oficial das manifestações, junto com uma versão local de Bella Ciao. As moças postavam no Twitter mensagens sempre começadas pela preposição barā-ye (por causa de), ação que viralizou e inspirou Shervin a fazer sua própria canção de protesto. Ele a publicou pela primeira vez no Instagram em 28 de setembro, tendo sucesso imediato, mas o vídeo saiu do ar quando ele foi preso, bem no dia seguinte. Shervin foi solto após pagar fiança em 4 de outubro, mas vários artistas já tinham republicado o vídeo e feito covers ao vivo ou em suas redes sociais, replicando o sucesso nos vários protestos por Mahsa Amini ao redor do mundo. A letra termina, inclusive, aludindo ao principal lema dessa “revolução”, “zan zendegi āzādi” (زن زندگی آزادی), “mulher, vida, liberdade”. Recomendo que leiam os artigos na Wikipédia em inglês sobre o cantor e essa canção!
Leyla Shams foi uma dessas pessoas que, com poucas edições, reproduziu o vídeo em seu Instagram, e em mensagens nos e-mails de todos que temos uma conta em seu site, mandou sua própria tradução da música com a transliteração no alfabeto latino. Claro que há várias traduções em inglês circulando por aí, como as feitas nos comentários ao canal de Shervin e a da própria Wikipédia anglófona, mas aqui estou me baseando naquela feita pela Leyla pra retraduzir em português, já que meu persa é incipiente demais. Segundo ela, houve muitos pedidos pela tradução, já que ela traduz a todos uma canção por mês, mas a palavra barā-ye em si já traz dificuldades: ela pode significar “porque”, “por causa de” ou apenas “por”. Em sua versão, Leyla escolheu usar a palavra inglesa for (por) porque se aproximaria mais do significado de “What are we protesting for?” (Por/Pelo que estamos protestando?) – “For this reason!” (Por esta razão!).
Tenho que fazer um adendo próprio a respeito do sistema de transliteração, porque Leyla tem em vista, sobretudo, um público anglófono, portanto ela sempre translitera o som do “i” (quase sempre longo) como “ee”, e o som do “u” (também em geral longo) como “oo”, o que pode confundir um falante de português. Também não sou fã de sua opção de usar a grafia “é” pro nosso som de “ê”, sobretudo no fim das palavras, que é baseada essencialmente no francês e pode ser simplificada apenas como “e”. Essa diferença, assim como outra relacionada ao fenômeno “ezāfe” de ligação entre as palavras, me fez evitar o acento agudo e muitas vezes usar um hífen (“-e” ou “-ye”) separando essa letra, caso em que ela nunca deve ser tônica. No caso de ocorrerem, embora não seja comum fazer isso, também prefiro usar hífen em terminações possessivas (átonas) pra distingui-las do verbo “ser” posposto (tônico), como por exemplo em pedaram (sou pai, sou um pai) e pedaram (meu pai).
Mantive outras opções da Leyla, como o uso de “ā” pra indicar o “a” longo ao invés de “â” (que pode confundir) ou “aa” e o uso dos dígrafos “ch”, “sh”, “zh”, “kh” e “gh”. Onde o “h” não forma um desses dígrafos, mas tem seu som aspirado, o separei com hífen também. Tirei o acento do “ō”, que é uma transliteração pra pronúncia “o” da conjunção “va” (e). A responsabilidade pelo texto em português é minha, portanto se você é fluente em persa (lembrando que a letra está em linguagem essencialmente coloquial!) e tem outras sugestões ou quer falar algo sobre a transliteração da escrita perso-arábica, pode me mandar um e-mail sem medo. No canal do cantor, há também a letra em sua escrita original. Em todo caso, no final estou deixando a tradução em inglês da Leyla pra eventual comparação:
Barā-ye tu-ye kuch-e raghsidan – Pela dança nas ruas
Barā-ye tarsidan be vakht-e busidan – Pelo medo na hora de beijar (1)
Barā-ye khāhar-am khāhar-et khāharā-mun – Por minha irmã, sua irmã, nossas irmãs
Barā-ye taghir-e maghz-hā ke pusidan – Pela mudança das mentes que apodreceram
Barā-ye sharmandegi, barā-ye pipuli – Pelo constrangimento de ficar sem dinheiro
Barā-ye hasrate yek zendegi-ye ma’muli – Pelo lamento por uma vida normal
Barā-ye kudak-e zobālegard o ārezuhāsh – Pela criança que revira o lixo e pelos sonhos dela
Barā-ye in eghtesād-e dasturi – Por essa economia dirigista (2)
Barā-ye in havā-ye ālude – Por esse ar poluído
Barā-ye Vali Asr o derakhthā-ye farsude – Pela rua Vali Asr e suas árvores desgastadas (3)
Barā-ye Piruz o ehtemāl-e engherāzesh – Pelo Piruz e a probabilidade de sua extinção (4)
Barā-ye sag-hā-ye bigonāh-e mamnu’e – Pelos cães inocentes que estão contra a lei (5)
Barā-ye geryehā-ye bivakhfe – Pelas lágrimas que não têm fim
Barā-ye tasvire tekrār-e in lahze – Pelas imagens que repetirão esse momento (6)
Barā-ye chehreyi ke mikhande – Pelo rosto que ri
Barā-ye dānesh āmuz-hā, barā-ye āyande – Pelos universitários e por seus futuros
Barā-ye in behesht-e ejbāri – Por esse Paraíso forçado (7)
Barā-ye nokhbehā-ye zendāni – Pelas mentes brilhantes atrás das grades
Barā-ye kudakān-e afghāni – Pelas crianças afegãs (8)
Barā-ye in hame “barā-ye” ghayr-e tekrāri – Por todos esses “por” únicos e infinitos
Barā-ye in hame sho’ārhā-ye tu khāli – Por todos esses slogans que não levam a lugar nenhum (9)
Barā-ye āvār-e khunehā-ye pushāli – Pelas casas mal construídas que estão em ruínas (10)
Barā-ye ehsās-e ārāmesh – Pelo sentimento de tranquilidade
Barā-ye khorshid pas az shabhā-ye tulāni – Pelo nascer do Sol após uma longa madrugada
Barā-ye ghors-hā-ye asāb o bikhābi – Pelos comprimidos que ajudam contra ansiedade e insônia
Barā-ye mard mihan ābādi – Pelo homem, pela pátria e pela prosperidade
Barā-ye dokhtar-i ke ārezu dāsht pesar bud – Pela menina que queria ser um menino (11)
Barā-ye zan, zendegi, āzādi – Pela mulher, pela vida, pela liberdade
Barā-ye āzādi – Pela liberdade
For dancing in the streets; For the fear when it comes time to kiss; For my sister, your sister, our sisters; For changing the minds that have rotted; For the embarrassment of not having any money; For the longing for a normal life; For the child looking through the dumpster, and for his/her dreams; For this forced economy; For this polluted air; For Vali Asr Street and its ruined trees; For Pirouz and the probability of his extinction; For the innocent dogs that are against the law; For the tears that are endless; For the repeat images of this moment; For the face that laughs; For the college students and for their future; For this forced paradise; For the brilliant minds behind bars; For the Afghan children; For all these unique and endless ‘fors’; For all these slogans that go no where; For the poorly constructed buildings that are in ruins; For the feeling of calmness; For sunshine after a long night; For pills to help with anxiety and insomnia; For man, homeland, and prosperity; For the girl that wished to be a boy; For woman, life, freedom; For freedom.
Nos comentários a um dos vídeos de Shervin, achei também traduções voluntárias em italiano e russo, que me ajudaram um pouco a fazer a comparação final, e a segunda tinha várias explicações que me ajudaram a redigir as minhas próprias, quanto a alguns pontos da letra, que seguem abaixo:
(1) Provavelmente é uma referência à proibição do namoro em público no islã xiita. Nessa vertente, os futuros noivos sequer podem se tocar antes do casamento; o namoro, portanto, não passa de uma amizade aprofundada.
(2) “Dirigismo” é a doutrina que prega a intervenção total do Estado na economia; Dilma Rousseff foi acusada de “dirigismo” durante sua presidência, o que teria levado à crise de 2015-16. Os termos “forçada”, “imposta” ou “planificada” que encontrei não davam conta nem da exatidão, nem do caráter negativo que o termo podia comportar (eu mesmo tendo mais ao liberalismo). Portanto, ao baterem o olho, os entendedores entenderão.
(3) Vali Asr é a principal avenida, bastante arborizada, que corta Teerã, capital do Irã.
(4) “Piruz” é uma espécie de guepardo ou chita nativo do Irã, que é considerada a última espécie asiática ainda existente.
(5) O cão é um animal depreciado na cultura islâmica, e o regime iraniano tem uma aversão particular por eles, o que pode indicar dois fatos. Primeiro, com os anos o problema dos cães de rua (muitos deles atacando transeuntes) tem crescido, sobretudo em Teerã, e o governo é acusado de lidar cruelmente com eles. Em julho de 2022, por exemplo, ele teria simplesmente abatido mais de 1700 em todo o país. Segundo, na mesma época e antes dos grandes protestos, o regime tentava passar uma lei que proibia ter vários tipos de animais como mascotes, incluindo cães, o que foi considerado discussão inútil mesmo pelos políticos autorizados. Em Teerã, passear com pets na rua já é proibido.
(6) Em 8 de janeiro de 2020, um avião ucraniano de passageiros que voaria de Teerã a Kyiv foi abatido sem motivo aparente pela Guarda Revolucionária iraniana, logo após a decolagem, tendo matado todos os 176 passageiros. Segundo o comentário, seria uma referência à última visão que o ativista, escritor e dentista Hamed Esmaeilion teve de sua esposa e sua filha criança antes do voo. Esmaeilion preside hoje a associação das famílias das vítimas desse voo.
(7) Referência à imposição de leis religiosas ao conjunto do país.
(8) Com a volta dos Talibã ao poder no Afeganistão, os afegãos (muitos dos quais falam uma variante do persa) se tornaram o maior povo com refugiados no Irã.
(9) Referência às palavras de ordem ou frases de efeito simplistas e lacradoras que regimes autoritários em geral lançam contra seus inimigos na propaganda midiática e em eventos celebrativos.
(10) Referência à enorme corrupção que existe nas áreas de construção e habitação popular, levando à má qualidade das obras e não raro a catástrofes letais.
(11) Óbvia referência à transfobia reacionária.