terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A Pérsia “roubou” o conceito de Irã!

Há algum tempo acompanho no YouTube o canal Hikma History, de um rapaz com sotaque (a meus ouvidos) levemente britânico e identificado como Tariq, que afirma estar fazendo seu PhD em História. Entre outras coisas, “hikma” em árabe significa “conhecimento, sabedoria”, e o assunto é justamente a história política do mundo muçulmano desde a Idade Média europeia, abrangendo de antigos impérios até os ditadores modernos. De um ponto de vista laico, sem proselitismos. Eu também achava que sua pronúncia de alguns nomes era baseada no persa, ainda que desconfiasse que ele não fosse iraniano.

Porém, após uma pesquisa, descobri esses dias que o estudante é um imigrante afegão de nome completo Tariq Basharat, sua língua materna é o pastó – e não o persa, do qual ele teria um conhecimento básico – e ele mora nos EUA, e não no Reino Unido. Há poucas informações soltas sobre sua biografia, e embora sua data de nascimento seja desconhecida (ao menos sem uma conta no LinkedIn; aparenta estar na faixa dos 30), ele teria vindo do Afeganistão com oito anos de idade, segundo uma página que reúne informações sobre youtubers relevantes. Exceto em vídeos antigos, só recentemente ele começou a mostrar mais seu rosto, intercalando com as já célebres gravuras lindíssimas.

Praticamente TODOS os seus vídeos são ótimos e úteis, mas raramente resolvo os traduzir pra transformar em texto aqui, como fiz ontem com o vídeo do francês Mounir Laggoune, da Finary, sobre a Suíça. Sendo um vídeo explicando como o atual Irã, que até 1935 se chamava Pérsia e era herdeiro de um império milenar, “surrupiou” a identidade iraniana – que abarca diversos povos – como exclusividade dos persas, possui considerável interesse e utilidade pros brasileiros hoje, se acompanham o noticiário internacional. Imprimi um tom mais informal à linguagem e, sempre que possível, tentei achar versões portuguesas dos nomes endógenos.



A história é um tema muito útil no âmbito da política. Ela pode ser usada pra conectar uma nação a um passado antigo, repleto de contos de glória e conquistas. No período moderno, vários países muçulmanos começaram a demonstrar grande interesse pela história de suas nações. A Pérsia, bastião da civilização que sempre foi, abraçou esse desenvolvimento com entusiasmo. Tanto que seu governante autocrático e modernizador, Reza Shah Pahlavi, decidiu mudar oficialmente o nome do país pro seu nome histórico, “Irã”. Esse era o termo pelo qual a região era conhecida no passado.

O único problema era que o termo, na verdade, implicava uma área muito maior que apenas o atual Irã. Pérsia deriva de Fars, que é apenas uma das muitas províncias do Irã. Consequentemente, os persas tiveram um papel dominante na formação da cultura iraniana. No entanto, a mudança oficial do nome foi criticada por muitos intelectuais em países vizinhos como o Afeganistão, porque “o nome do todo foi dado a uma parte”. Junte-se a mim enquanto discuto a formação das identidades modernas e como a história pode moldá-las.

Nem todos os iranianos são persas, bem como nem todas as pessoas que se identificam como persas são necessariamente de origem iraniana. Eu explico: em sua definição mais literal, alguém é iraniano se a língua nativa de seus ancestrais puder ser incluída no grupo linguístico iraniano do ramo indo-iraniano, que por sua vez pertence à grande família linguística indo-europeia. De acordo com essa definição, um osseto cristão lutando contra a Geórgia e a Rússia hoje é tão iraniano quanto um persa xiita comerciando em Shiraz. Existem hoje aproximadamente 200 milhões de falantes nativos de línguas iranianas, como o pastó, o curdo e o persa, que por si só representa quase metade desses 200 milhões. Todas essas línguas descendem da mesma língua hipotética proto-iraniana, que surgiu há cerca de 4 mil anos na estepe pôntica-cáspia, após a separação dos povos iranianos e indo-arianos ou índicos.

Os antigos iranianos cultuavam um panteão de deuses, com Aúra-Masda como ser supremo. Eles se distinguiam por sua devoção a Aúra-Masda e se definiam por essa devoção: a coleção de textos sagrados zoroastrianos conhecida como Avestá define “Arya” – um termo que se traduz mais ou menos como “iraniano” nos dias de hoje – em parte pelo culto da pessoa a Aúra-Masda. Se ela não a cultuava, essa pessoa não era iraniana. Os diversos povos iranianos gradualmente se espalharam pela Europa Oriental, Ásia Central e Oriente Médio. Entre os diversos grupos de iranianos, nenhuma cultura teve uma presença mais duradoura em toda a região do que a dos persas.

O primeiro Império Persa, fundado por Ciro, da dinastia dquemênida, por volta de 559 AEC, foi mais poderoso e influente que qualquer outro império na história que o precedeu. A cultura persa era vista pelos contemporâneos como refinada e irretocável, enquanto Ciro era conhecido como um adversário implacável e um governante benevolente. À medida que ele e seus sucessores xás conquistavam mais territórios, interagiam com os diversos povos do Levante, da Mesopotâmia e da Ásia Central. Com o tempo, muitos desses povos adotaram os costumes persas e ampliaram a extensão do Grande Irã. De fato, a cultura persa era tão estimada que os conquistadores de terras persas tentavam se legitimar como governantes por meio de suas próprias conexões com o prestígio persa. Alexandre [“o Grande”] da Macedônia misturou elementos helenísticos e persas em sua conquista do Império Aquemênida, frequentemente enfatizando demais o aspecto persa aos olhos de seus súditos macedônios.

Mesmo cerca de um milênio após a conquista muçulmana, permaneceu na moda entre os não persas reivindicar descendência genética ou filosófica de figuras como Ciro. Mais tarde, em 224 EC, surgiu um segundo Império Persa sob a dinastia sassânida, cujos governantes patrocinaram avanços incríveis na ciência e na literatura e buscaram ativamente emular seus predecessores aquemênidas. Até a era sassânida, o termo “Ērān” era usado apenas em referência às terras onde os iranianos viviam, sendo, portanto, mais conceitual do que tangível. Foi durante a era sassânida que Ērān passou a ser usado também para se referir às terras controladas pelo Ērānšahr [ou Iranshahr], endônimo sassânida que significa Império dos Iranianos.

Essencialmente, o conceito de Irã é anterior à hegemonia persa, embora as noções de identidades iraniana e persa continuem a interagir e se influenciar mutuamente. A noção de Irã como uma nação com fronteiras, no entanto, é uma ideia inerentemente persa. A rápida conquista de todo o Império Sassânida pelos califas islâmicos destruiu o Irã politicamente. Mas a cultura persa sobreviveu aos califados ortodoxo [rashidun] e omíada, até permear a cultura dos califas abássidas muçulmanos. Então, no contexto do declínio dos abássidas no século 9, diversas dinastias iranianas muçulmanas afirmaram sua autoridade no Iraque, na Pérsia, no Corassã e na Transoxiana. Esse período ficou conhecido como o Interlúdio [Intermezzo] Iraniano ou Renascimento Persa.

Apesar de estarem sob a suserania dos abássidas, na prática esses Estados desfrutavam de independência, que utilizaram para revitalizar o espírito nacional iraniano. Curiosamente, dos cerca de 15 estados regionais durante o Interlúdio, apenas dois (taíridas e buídas) eram provavelmente de origem étnica persa. Os 13 restantes incluíam três dinastias de origem iraniana oriental, quatro dinastias de origem iraniana cáspia, cinco dinastias de origem curda, pelo menos em parte, e uma dinastia de origem turca que tinha sido culturalmente persianizada. Apesar de suas origens díspares, cada uma dessas dinastias contribuiu de alguma forma pra revitalizar a influência cultural persa no Grande Irã.

O Interlúdio serviu como uma expressão de rebelião contra a dominação cultural e política dos árabes sobre os iranianos. Isso se estendeu à esfera religiosa, já que alguns dos Estados do Interlúdio eram xiitas. Os buídas do Irã e do Iraque simbolizavam isso: eram xiitas duodecimanos que orgulhosamente destacavam seus laços com a Pérsia pré-islâmica. Os governantes buídas gravaram muitas inscrições na capital aquemênida, Persépolis, e fizeram referência constante ao Ērānšahr, ou Grande Irã. De muitas maneiras, o xiismo ofereceu aos iranianos a possibilidade de serem diferentes, mantendo sua recém-descoberta identidade islâmica, que a essa altura já estava integrada à consciência iraniana. Isso se tornou importante aos safávidas mais tarde, quando buscavam se diferenciar dos otomanos.

Além disso, o xiismo lhes deu espaço pra expressar suas práticas culturais juntamente com suas práticas religiosas, considerando que o xiismo era muito menos ortodoxo que o islamismo sunita dominante. Nesse contexto, a rebelião antiabássida do Movimento Curramita foi uma seita sincrética que se inspirou tanto no islamismo xiita quanto no zoroastrismo. Na época, os xiitas ainda estavam formulando o cânone de suas crenças – pros xiitas duodecimanos, esse processo só se completou no século 17 com as obras de Mohamed Baqer al-Majlesi.

Mais ao norte dos emirados buídas, nas costas isoladas do mar Cáspio, a antiga religião zoroastriana ainda mantinha uma forte presença. No Tabaristão, Mardavij estabeleceu a dinastia ziárida com a intenção de restaurar um império iraniano nativo, com o zoroastrismo como religião oficial. Logo depois, os ziárias se converteram ao islã, mas os cronistas árabes consistentemente se referiam aos dailamitas e guilitas que viviam na região como ateus, provavelmente devido à sua heterodoxia religiosa. Assim, de modo geral, o Interlúdio Iraniano permitiu que marcadores de identidade pré-islâmicos – a herança aquemênida e sassânida, o zoroastrismo, bem como a língua persa – fossem incorporados de forma robusta a uma identidade iraniana muçulmana.

Falando em persa, a obra quintessencial da literatura iraniana, a Epopeia dos Reis [Shāhnāmeh], também surgiu durante este Interlúdio. Desde sua conclusão, há mais de mil anos, moldou o conceito de nacionalidade iraniana. Servindo nas cortes dos samânidas e dos gasnévidas, o poeta Ferdusi compilou centenas de contos persas de grande importância cultural, incluindo textos do Irã pré-literário e histórias de sua própria autoria. A origem persa dos contos da Epopeia dos Reis, portanto, vinculou para sempre os iranianos a uma herança cultural persa compartilhada. A Epopeia redefiniu o significado de ser iraniano e até hoje permanece uma fonte de unidade e reverência para milhões de iranianos.

Mais de 900 anos após a Epopeia dos Reis definir a identidade iraniana, o espectro do imperialismo europeu do século 20 desencadeou intensos debates sobre a melhor forma de proteger a nação iraniana – e a quem essa nação pertencia. Em 1925, após anos conduzindo o Irã à ruína, a dinastia cajar foi deposta por Reza Shah Pahlavi. O novo xá declarou à comunidade internacional em 1935 que não era o “Xá da Pérsia”, mas sim o “Xá do Irã”, e que a partir de então seu país deveria ser chamado apenas “Irã”. O pedido de Reza Shah tinha como objetivo obter legitimidade histórica pra sua nação. As nações ocidentais prontamente adotaram a mudança de nome, mas a declaração de Reza Shah provocou uma reação muito mais diversa entre os não persas no Grande Irã.

Nesse período, no mundo islâmico, houve uma explosão repentina de interesse pela herança pré-islâmica, especialmente por sua capacidade de legitimar o Estado-nação. No Afeganistão vizinho, havia uma intelectualidade vibrante e em expansão, ansiosa por explorar o rico passado antigo de sua nação. O historiador afegão Ahmad Ali Kohzad denunciou a mudança de nome como uma tentativa persa de reivindicar a posse do Grande Irã em sua totalidade, opinando amargamente que “o nome do todo foi dado a uma parte”. Contudo, Kohzad também reconheceu, ainda que relutantemente, a enorme influência persa sobre o Grande Irã como um todo.

Nesse sentido, Reza Shah, que nasceu Reza Khan numa família mazandarani do Cáspio, lançou uma campanha de persianização que visava eliminar as identidades culturais de não persas, incluindo os mazandaranis étnicos. Os povos turcos foram os principais alvos, embora muitos dos arquitetos e apoiadores mais fervorosos dessa política de assimilação forçada fossem azerbaijanos étnicos que tinham rejeitado sua etnia turca em favor de uma identidade persa.

Além do Oriente Médio, a política identitária desempenhava um papel fundamental na política europeia. Reza Shah era um admirador de Hitler. Da mesma forma, seu filho e sucessor, Mohammed Reza Shah, chegou a fazer alusão positiva à teoria da raça ariana ao descrever o Irã como semelhante às “outras nações arianas da Europa”. Lembremos que na época, a Europa e o Ocidente eram vistos como o ápice da civilização. Muitos líderes do Oriente Médio, incluindo Atatürk, amigo de Reza Shah, sentiam que precisavam se tornar semelhantes aos europeus pra serem fortes e poderosos como eles.

Ambos os xás da dinastia Pahlavi fomentaram essa fusão entre o excepcionalismo persa e o secularismo radical que o acompanhava e reprimiram brutalmente qualquer descontentamento manifestado pelos influentes clérigos islâmicos do país e pelas massas iranianas em geral. Isso culminou com a deposição de Mohammad Reza em 1979 e a instalação de uma teocracia islâmica ultraconservadora em seu lugar, inaugurando uma Pérsia sem monarquia pela primeira vez na história registrada e um futuro instável.

As identidades iraniana e persa se misturaram e divergiram com tanta frequência ao longo de mais de 2 mil anos que, às vezes, é difícil discernir quais aspectos de cada uma são distintos. A autoridade duradoura e relativamente incontestada da república islâmica, portanto, pode potencialmente redefinir permanentemente a identidade iraniana mais uma vez. O domínio do islã no Irã não é novidade, mas a rejeição da herança persa pela liderança iraniana, sim. Ferdusi relatou com orgulho mais de mil anos de tradição cultural persa zoroastriana na Epopeia dos Reis, embora ele próprio fosse muçulmano.

O atual Estado iraniano se mantém distante de grande parte da herança persa, intrinsecamente ligada à terra. Só o tempo vai dizer se ele vai se engajar com a identidade persa histórica ou contribuir pro desenvolvimento de uma nova. Meu palpite é que vai ter o mesmo efeito pendular das reformas modernizadoras dos Pahlavi: fazer com que, no final, um número suficiente de iranianos retorne ao extremo oposto.



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