segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Como a Suíça criou o país perfeito?

Achei por acaso o vídeo incorporado no final da página, publicado em 19 de novembro de 2025 no canal do Finary, um aplicativo francês que ajuda na gestão das finanças pessoais. Foi gravado por Mounir Laggoune, um dos fundadores e atual CEO da Finary, que tenta explicar brevemente qual seria o “segredo” por trás da riqueza e bem-estar dos habitantes da Suíça, embora ela tivesse tudo pra “dar errado”, ou melhor, a princípio “nada a seu favor”, como ele diz. Decidi o traduzir porque, embora em formato texto fique bastante longo, o vídeo em si é curtinho e contém o essencial dos argumentos que outros vídeos também apresentam.

Laggoune é formado pela Escola Superior de Ciências Econômicas e Comerciais (ESSEC) francesa e, embora não seja historiador nem sociólogo, teve o mérito de apresentar também os pontos fracos do “modelo suíço”. Se você não gostou de suas credenciais, recomendo ver o documentário (26 de março de 2024) da própria TV suíça de língua francesa com o mesmíssimo tema, incluindo honestamente as partes “podres” desse crescimento, como o assentimento em depositar ouro alemão durante a 2.ª Guerra Mundial. Deixei a redação em estilo mais informal, mas qualquer erro que possa haver é de minha responsabilidade: se você achar algum ou se achar que certas passagens podiam ter sido traduzidas de outra forma, pode comentar!

Obviamente nem todas as passagens têm tradução literal, e também inseri algumas explicações entre chaves quando necessário. Lembremos que Laggoune fala enquanto francês, portanto, fiz algumas adaptações quando ele não cita explicitamente a Europa e a França. Por fim, a divisão em parágrafos é minha, mas mantive os subtítulos que ele próprio inseriu e apenas pulei uma parte no meio em que ele simplesmente faz a propaganda de seu Finary:



A Suíça tem tudo pra fracassar. Sem petróleo, sem acesso ao mar. 60% de seu território é coberto de montanhas. Porém, um em cada sete suíços é milionário. Um funcionário do comércio, um caixa ou ainda um recepcionista ganha em média 52 mil euros por ano. Já um engenheiro chega a 102 mil euros por ano. Esse pequeno país e 9 milhões de habitantes intriga pela constância de seu sucesso. Tranquilo, metódico, discreto. Então, como a Suíça transformou seus piores defeitos em seus melhores atributos? Me deixem lhes contar a história excepcional do país que nada tinha a seu favor.

Como a Suíça enriqueceu – A maioria dos países ricos têm um trunfo secreto. Alguns descobriram o ouro negro. Já a Suíça recebeu o ouro neutro. O ouro negro é o petróleo vendido em troca de ouro. O ouro neutro é a neutralidade que atrai o ouro dos outros. Ao contrário do que se podia crer, a famosa neutralidade suíça na verdade não era uma escolha, mas um cruzamento de circunstâncias. Desde seus princípios, a Suíça é um país instável. Ela era conhecida por vender, ao preço mais alto possível, mercenários que estavam entre os melhores da Europa. Aliás, desde sua criação, em 1506, a Guarda Pontifícia sempre foi suíça.

Congresso de Viena, 1815, Napoleão foi vencido. A Grã-Bretanha, a Áustria, a Prússia e a Rússia selam o destino da Suíça. As maiores potências querem pacificar a Europa. Em comum acordo, elas impõem a neutralidade à Suíça. Alguns anos mais tarde, a Constituição Federal de 1848 ratifica definitivamente o fim do mercenariado suíço, que era, porém, um ramo componente da economia. O plano das grandes potências deu certo. Concretamente, a neutralidade suíça não é uma escolha moral, mas uma obrigação. Mas ao contrário do petróleo, que pode ser vendido imediatamente, a neutralidade permanece como um estatuto diplomático, uma assinatura sobre o papel.

Durante 100 anos, a Suíça permaneceu como um país médio, nem rico, nem pobre. Foi em 1914 que tudo vai mudar. Os beligerantes da Grande Guerra procuram um lugar seguro pra seus ativos. A Suíça lhes apresenta três argumentos convincentes. O primeiro, segurança física. Eram os próprios signatários do Congresso de Viena que estavam em guerra: ocupados com a defesa de suas fronteiras ou a condução de invasões, violar o acordo invadindo a Suíça não lhes traria nenhum ganho estratégico. Portanto, a Suíça não vai ser invadida.

O segundo argumento é a estabilidade monetária. Em toda a Europa, a guerra é financiada pela emissão monetária. A cada dia que passa, as moedas perdem seu valor. A fim de evitar uma deflação massiva, o Banco Central Suíço decide abandonar o padrão-ouro. Mas em virtude de sua não intervenção no conflito, o franco suíço resiste bem melhor à inflação do que as moedas vizinhas.

O terceiro é a tributação. A fim de financiar a guerra, os Estados aumentam massivamente os impostos. O resultado imediato é uma fuga de capitais privados rumo à Suíça. Durante a Grande Guerra, os fundos gerados pelos bancos suíços vão triplicar. Pela primeira vez, a neutralidade é convertida em ouro. A Suíça repete exatamente a mesma manobra durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1945, é o único país industrializado com todas as infraestruturas ainda intactas. As fábricas suíças podem produzir pro continente inteiro. Os capitais continuam afluindo.

Mas então, a neutralidade basta por si só pra transformar qualquer país pequeno em caixa-forte mundial? Bem, na verdade não. Em 1939, a Bélgica se declara neutra. Resultado, foi invadida em 1940. Sua neutralidade não protegeu nem suas fronteiras, nem sua economia. Por quê? Até aqui, podíamos acreditar que a Suíça simplesmente teve sorte: uma neutralidade imposta e vizinhos ocupados em guerrearem entre si. Mas a verdade é que a partir do século 20, a Suíça decidiu tomar o controle de seu destino a fim de armar sua neutralidade. Ela entendeu antes de todo mundo que um tratado, na verdade, não protege ninguém. Tinta sobre um pedaço de papel não basta. Pra Suíça, sua postura de entreposto central financeiro e diplomático era uma questão de sobrevivência. Invadir a Suíça implicaria destruir o lugar onde ainda se faziam os negócios. Fosse o ouro aliado ou o nazista, a Suíça não fazia distinção.

O segredo bancário suíço data de 1934, mas há muito tempo os bancos suíços ofereciam contas numeradas. Elas não são anônimas no sentido estrito, mas permitem uma proteção que não é oferecida em nenhum outro lugar. Em 2013, o economista Gabriel Zucman tinha feito este cálculo: 80% das fortunas offshore na Suíça não estariam declaradas às autoridades fiscais dos países de residência. O Banco Nacional Suíço, a imprensa e o consenso universitário mais prudente falam antes em 10%. Mas a Suíça, ao contrário da Bélgica, sabia que a diplomacia não bastaria.

O plano de redução nacional visava implodir o máximo possível de caminhos sob túneis e pontes [em caso de invasão estrangeira]. Contavam-se entre 2 e 3 mil instalações de destruição. O túnel de Gothar, por exemplo, continha 3,5 toneladas de explosivos, o bastante pra condenar a passagem durante ao menos alguns meses ou até alguns anos. O exército suíço não precisava vencer, mas apenas tornar a invasão dispendiosa demais.

O terreno e a criatividade são a dissuasão nuclear da Suíça. Se isso viesse a falhar, a ordem era simples: recolher-se nos Alpes pra forçar o invasor numa guerra em declive contra 430 mil homens que conhecem perfeitamente o ambiente. Dos 4 milhões de habitantes da época, é proporcionalmente mais que a França e inclusive a Alemanha.

A Suíça: um modelo perfeito – Hoje, mesmo se a neutralidade suíça é contestada, a cultura dessa neutralidade continua bem enraizada. Genebra abriga mais de 40 organizações internacionais, entre as quais a ONU, a OMS ou ainda a OMC. Todos os anos, ocorrem aí mais de 3,5 mil reuniões diplomáticas. Ao contrário de diversos países europeus, o serviço militar continua sendo obrigatório na Suíça. Cada cidadão, se assim o deseja, pode guardar em casa sua arma, um fuzil de assalto SIG SG 550. Com 28 armas detidas por cada 100 habitantes, a Suíça é um dos países europeus mais armados. Porém, isso não a impede de ter uma das taxas de homicídio mais baixas do mundo.

As estruturas de redução nacional continuam presentes, mas não são mais operacionais. A isso se juntam mais de 9 milhões de vagas em abrigos subterrâneos que abarcam amplamente a população. A título de comparação, somente 4% dos franceses poderiam garantir uma vaga em um de nossos poucos milhares de abrigos. Concretamente, as coisas não mudam. Se o pior viesse a acontecer, cada suíço podia se refugiar aí. Neutralidade, mas armada.

No imaginário popular, a Suíça é o país dos bancos e da relojoaria de luxo. Patek Philippe vende o relógio mais caro do mundo por 31 milhões de francos suíços. Os bancos suíços controlam 11,6 trilhões de dólares em ativos, ou seja, cerca de 11 vezes o PIB nacional. Mas no total, a indústria bancária e financeira suíça só representa 10% de seu PIB. Já sua relojoaria mal chega a 1,5%. Reduzir a Suíça aos bancos e aos relógios é ignorar quase 90% do que faz sua riqueza atual.

Pra além dos clichês, eis o que dizem os números sobre os setores em que as suíças e os suíços realmente trabalham. A Suíça não tem acesso ao mar, porém, sedia MSC, o primeiro grupo mundial de transporte marítimo de contêineres. A partir de Genebra, a MSC controla mais de 800 navios e cerca de 20% do comércio marítimo mundial em contêineres. O setor de transportes e logística representa cerca de 4% do PIB suíço. A Suíça não tem nenhuma matéria-prima, porém, é a sede da Nestlé, o maior grupo agroalimentar ao mundo. Vitol, Mercuria, Cargill: Genebra é o principal entreposto do comércio mundial. É aí que se decide o destino de uma parte do petróleo que consumimos ou ainda dos cereais que comemos.

Vocês sabem que a Suíça se constitui de 60% de montanhas, das quais 25% constituem terrenos inacessíveis. Isso não impede o setor imobiliário e de construção de pesarem 21% do PIB em 2025. A Suíça não tem petróleo nem um Vale do Silício, porém, exporta mais valor per capita que a China e os EUA. Seu motor principal é a indústria farmacêutica e química, que representa cerca de 7% do PIB e mais de 49% das exportações suíças. Dois gigantes, Roche e Novartis, dominam o cenário mundial.

Mas então, por que tamanho sucesso? Como esse país de 9 milhões de habitantes sem nada a seu favor é tão presente e influente em tantos setores? Pra começar a entender isso na história da Suíça, suas vantagens sempre se deveram a uma dose de sorte e a decisões ponderadas.

O alinhamento planetário – Eu lhes dizia que a Suíça sempre teve um pouco de sorte. Ela se encontra no coração do que os geógrafos chamam de “banana azul”, o arco europeu que concentra 80% da riqueza e da população do continente. De Londres a Milão, passando pelo Ruhr, por Zurique e Genebra, no corredor econômico mais denso do mundo ocidental. A Suíça está bem no meio, mas a sorte não explica tudo sozinha. Entre os países, a Suíça é como a Apple: ela não busca fazer mais barato, mas melhor. Novartis e Roche desenvolvem medicamentos inovadores e testes que o mundo inteiro adquire. ABB e Georg Fischer produzem equipamentos industriais raros, insubstituíveis e únicos.

A Suíça ocupa o primeiro lugar mundial do Índice Global de Inovação 2025. Seu segredo é um sistema educativo dual, único no mundo. A partir dos 16 anos, cerca de 70% dos jovens escolhem sua grade. Eles alternam entre escola e empresa durante três ou quatro anos. Um marceneiro iniciante pode facilmente ganhar entre 4 e 4,5 mil francos suíços, não descontados os impostos. Os ofícios manuais são respeitados e mesmo concorridos. A trilha da formação técnica na Suíça é bem mais valorizada e socialmente aceita que na França.

As universidades não ficam pra trás e figuram entre as melhores do mundo. O EPFL, o ETH de Zurique e a Universidade de St. Gallen rivalizam todos os anos com o MIT ou Stanford. Aliás, deixam bem pra trás a Politécnica Nacional francesa. Os egressos dessas faculdades vão parar em indústrias de ponta. Farmacologia, finanças, engenharia, tecnologia: 27 ganhadores do Prêmio Nobel são suíços. No país, teoria e prática contribuem de mãos dadas e em pé de igualdade pra competitividade nacional. Resultado, um PIB per capita de 103 mil dólares, o terceiro maior do mundo, mesmo preservando uma taxa horária média de 38 francos suíços, também uma das mais altas do mundo. Já o salário bruto médio é de 7 mil francos mensais, e a taxa de desemprego é de 2,8%, ou seja, três vezes menor que na França.

Mas a Suíça faz mais que produzir recursos: ela produz confiança.

A cultura da confiança, do trabalho e da disciplina financeira – Na Suíça, a democracia direta dá aos cidadãos um poder único. Eles podem bloquear ou aprovar qualquer lei por referendo. Crescimento rima com estabilidade. Na Suíça, a democracia direta provoca decisões, de fato, lentas, mas raramente erradas. Sem crise política explosiva, sem revolução fiscal, sem ideologia dominante, somente um pragmatismo frio. Tomemos o exemplo do sistema de transporte ferroviário: em 2024, 93,2% dos trens suíços chegaram pontualmente. Na Suíça, “pontualmente” significa menos de três minutos de atraso, contra cinco minutos na França, seis na Alemanha e 15 na Itália. A Suíça ocupa o primeiro lugar no ranking europeu de pontualidade global. A França, com 91,9% de pontualidade pra seus trens regionais em 2019, fica no 11.º lugar entre 16 países analisados.

É isso o pragmatismo suíço. Além disso, esse modelo de democracia valoriza a responsabilidade individual e reforça uma cultura da confiança. 62% dos suíços entrevistados confiam em suas instituições. A média da OCDE está em 39%. Na França, esse número até cai pra 30%. Essa confiança também se reflete na relação com o dinheiro. Trabalhar, gastar pouco, poupar, investir. O sistema previdenciário suíço se assenta em três pilares: a aposentadoria pública, a previdência profissional obrigatória e a poupança privada voluntária. Esses dois últimos pilares funcionam por capitalização: os suíços poupam e investem ao longo de toda a sua vida ativa. Resultado, uma das taxas de poupança mais altas do mundo e uma população acostumada a pensar no longo prazo.

Mas é sobretudo na disciplina orçamentária que essa cultura se revela. Na década de 1990, as finanças federais suíças sofreram uma profunda crise. O endividamento explodiu em várias dezenas de pontos do PIB em uma década. A resposta: em 2001, os suíços aprovam por 85% um novo artigo constitucional sobre o freio ao endividamento. A regra é muito simples: as despesas não podem ultrapassar as receitas, exceto em caso de crise econômica maior. Desde então, o Parlamento e o Conselho Federal são constitucionalmente obrigados a respeitar essa regra durante a elaboração do orçamento, o que trouxe a disciplina de volta. Em 2024 o orçamento consolidado da Confederação apresentou um superávit de 11,3 bilhões de francos suíços. Não são os impostos que permitem isso, mas um sistema econômico público espantosamente performático. Mas então, pra onde vai esse excedente? Em grande parte, pro reembolso de dívidas anteriores e pra constituição de reservas.

Os paradoxos suíços – A Suíça parece regulada como um relógio, ao menos na aparência: por trás do mostrador bem cuidado, a engrenagem ainda está longe de funcionar perfeitamente. Como eu lhes dizia há pouco, o salário bruto médio na Suíça é de cerca de 7 mil francos mensais. Pra uma família de quatro pessoas, os gastos correntes atingem de 5 a 6 mil francos. Um apartamento de 60 m² em Lausanne fica entre 2,4 e 2,8 mil francos suíços por mês. Já a alimentação é 58% mais cara que na França. Pra certos produtos, os preços chegam a dobrar. Se ajustamos o poder de compra, os suíços seriam apenas 11% mais ricos que os alemães. Apesar dos salários duas vezes maiores, eles são apenas entre 30 e 50% mais ricos que os franceses. Não há método milagroso: os salários suíços são acompanhados de preços suíços.

A Suíça tem um dos melhores sistemas de saúde do mundo. Mas esse sistema não é gratuito. Todo adulto deve contratar um plano básico obrigatório que custa entre 350 e 450 francos suíços por mês. Na Suíça, as deduções obrigatórias são menores, mas cada um é responsável por sua saúde. Claro que quanto mais recursos você tem, melhor vai ser sua cobertura.

A Suíça é classificada como o 4.º pior país da Europa em termos de déficit habitacional. A taxa de proprietários é de 42%, uma das mais baixas da Europa. Em outras palavras, 58% dos lares pagam aluguel. No cantão de Zurique, um dos mais ricos da Suíça, apenas 9% dos casais entre 30 e 40 anos podem pensar em comprar um apartamento.

A Suíça está longe de ser um modelo de justiça social entre os países ricos. Na Suíça, a pobreza está igualmente presente. Nesse país liberal por excelência, 8,1% da população vive abaixo da linha da pobreza. Curiosamente, a taxa é de 10,1% na Noruega, um país igualmente rico que apostou, contudo, numa abordagem radicalmente oposta e baseada na redistribuição. A taxa também está entre 14 e 15% na França. Mas ao contrário da Noruega, a Suíça ainda está atrasada com relação à paridade entre homens e mulheres. Elas ganham em média 19% menos que os homens. Em participação econômica feminina, a Suíça ocupa o 20.º lugar entre os 33 países da OCDE. Isso se deve, sobretudo, ao custo exorbitante do cuidado com as crianças, um dos mais elevados do mundo.

Desde 2018, os bancos suíços são legalmente obrigados a coletar os dados discais de seus clientes que residem no exterior e, a seguir, partilhá-los com as autoridades fiscais dos países parceiros: trata-se do EAR, o Intercâmbio Automático de Informações. Porém, a recente falência do Crédit Suisse gera questionamentos: nos cofres do banco, contas ligadas a criminosos de alto nível, traficantes e oligarcas. Apesar da regulação, a cultura da discrição segue resistente.

As lições do laboratório suíço – A Suíça é um paradoxo vivo: um país minúsculo, sem acesso ao mar, sem petróleo, em um século se tornou uma caixa-forte, uma fábrica de patentes e um porto de estabilidade. Deveríamos então importar o modelo suíço pra França? A Suíça prova que um país rico pode muito bem focar a educação em torno de suas subsidiárias profissionais, uma lição pro elitismo francês das grandes écoles [grandes escolas superiores].

Já a neutralidade suíça constitui um atributo inigualável. Mas pra França, seria muito complicado adicionar esse atributo a seu arsenal. Com a bomba nuclear e territórios nos cinco continentes, a França se engaja em numerosos jogos de alianças pra proteger seus interesses e sobrevivência. É simplesmente impossível pensar em neutralidade.

A democracia suíça é frequentemente citada como o sistema político perfeito. Podíamos ser inspirados por ela? A resposta a essa pergunta mereceria um vídeo inteiro. Não se pode negar que a Suíça é um ideal de riqueza e gestão orçamentária. Mas atenção: não é uma condição suficiente pra garantir a felicidade de seus habitantes. O país ocupa o 3.º lugar na classificação do PIB per capita, mas o 13.º entre os países mais felizes, logo atrás da Nova Zelândia, que só ocupa, porém, o 25.º lugar em termos de PIB per capita.

O laboratório suíço tem o mérito de provar que um jogo aparentemente perdido de antemão não sela o destino de uma nação. Com as decisões certas e um pouco de criatividade, ela pode até fazer disso uma vantagem brilhante. Hoje, a questão mais inquietante é o reverso da medalha da lendária estabilidade suíça. A produtividade só cresce entre 0,3 e 0,5% por ano, ou seja, duas vezes mais devagar do que na década de 1990. É o indício de uma economia com dificuldades pra inovar no plano tecnológico fora das finanças e da farmacologia. Os dois gigantes Roche e Novartis respondem sozinhos por quase 40% das despesas privadas com pesquisa e desenvolvimento do país.

Mas ao contrário do que se poderia crer, no quesito startups, a Suíça se destaca com admiráveis 13 “unicórnios” [que ultrapassam valor de mercado de US$ 1 bilhão] registrados. Na França, há 29 “unicórnios”. Porém, você talvez nunca tenha ouvido falar dos “unicórnios” suíços: os investimentos em startups suíças são predominantemente voltados pra deep tech e pra bio tech. São setores conhecidos por seus tempos extremamente longos de maturação e suas gigantescas demandas de capitais.

Essa escolha se coaduna com o posicionamento econômico da Suíça: não fazemos mais barato, fazemos melhor. Por isso, apesar dessas inovações, a estagnação continua inquietando. Uma estagnação dourada e confortável, mas perigosa. Apesar da excelência de sua educação científica, a Suíça ocupa apenas o 12.º lugar mundial em IA. Já a França ocupa o 5.º lugar. Cerca de 60% da energia suíça ainda provêm do petróleo e do gás. Atualmente, o país está atrasado em suas metas de transição energética pra 2030.

Finalmente, a pergunta levantada pela Suíça e que todos os países ricos se fazem mais cedo ou mais tarde é parecida com a da Noruega: deve-se correr atrás do crescimento quando o conforto basta? Em outras palavras, a verdadeira riqueza não consiste naquele momento em que nos permitimos desacelerar? A Suíça ainda não tem a resposta, mas é um excelente laboratório pra encontrá-la. A Noruega, com condições de partida parecidas e com a mesma riqueza, tomou a direção totalmente oposta. Qual desses dois modelos vai triunfar, é o futuro que vai dizer.



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