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21 de janeiro de 2018

O saudoso hábito da escrita


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Por Erick Fishuk

O que está acontecendo com a comunicação entre as pessoas no mundo? Por que parecemos não compreender mais nem mesmo nossos compatriotas? O mundo digital multiplicou as possibilidades e potenciais de transmissão, armazenamento e pesquisa, mas nosso modo de nos relacionar e expressar não evoluiu no mesmo ritmo. Parecemos hominídeos ou animais primitivos que pegam numa arma ou ferramenta avançada, mas sem saber o que fazer com ela, sacudem-na e avariam-na.

Antigamente, tínhamos ideais muito diferentes de compreensão, aprendizado e ambições. Não quero parecer saudosista, mas apenas pontuar a diferença. Ensinavam-nos desde a escola que devíamos buscar a paz entre os povos, aceitar e entender as diferenças entre línguas e culturas. Inculcavam-nos a busca constante por saber coisas novas e diziam-nos que quanto mais aprendêssemos, menos o mundo pareceria obscuro e misterioso, e alcançaríamos melhores posições na sociedade. Enfim, já se considerava que saber era poder, mas o conhecimento, consolidado pela prática incessante da escrita e da leitura, era valorizado como um passaporte à cidadania e ao bem-estar. Cientistas e escritores eram estimados e promovidos como a glória das nações.

O que estimamos e promovemos hoje? Por um lado, como valores, preferimos a celebridade instantânea, a egolatria, a satisfação acelerada de necessidades, o esforço mínimo, o consumismo e desfrute desenfreados, o desprezo pelos professores e pelo estudo, a zombaria em detrimento da empatia. Por outro lado, como ídolos, celebramos ricaços esbanjadores, artistas ostentadores, esportistas encrenqueiros, gente da mídia e da internet que ganha pão ou atenção com opiniões arrogantes sobre assuntos e grupos que conhece mal, desconhecidos e desqualificados que fazem estripulias impensáveis (“virais”) apenas para saturar de conteúdo superficial e efêmero a comunicação.

Hoje, poucos ou ninguém escreve de maneira articulada, correta e coerente. Até mesmo os ditos “intelectuais” apenas curtem, compartilham, comentam, respondem com “gifs” e carinhas, retrucam sem sequer se dar ao trabalho de reler postagens com quatro linhas impulsivas. Se por vezes maldizemos a “inclusão digital” e as mensagens das pessoas comuns, com suas cores, luzinhas e desarticulação, nem reparamos que as matérias online dos grandes veículos já estão saindo com erros grosseiros de digitação. Inclusive doutorandos e professores universitários andam não conseguindo produzir um parágrafo sem escorregar na ortografia, concordância ou sintaxe.

O que está ocorrendo com nossa capacidade de redigir, articular ideias, fazer-nos entendidos, compreender a posição do outro sem atacar a pessoa ou o simples ato de nos confrontar? Claro que as redes sociais e os aplicativos de mensagem têm seu papel na desagregação das comunicações, fazendo pensar que a reação rápida substitui a aptidão em expressar sensações e argumentos. Quem os usa conforme a própria lógica visada pelas empresas, afeta os próprios hábitos duramente adquiridos de reflexão, estruturação e esclarecimento. Mas o uso excessivo dessas ferramentas tem suprimido todo espaço de diálogo e olho-no-olho, tornando “árduo” ou “desnecessário” o sangue-frio, a análise da reação alheia e a atenção à forma. O interlocutor é um perfil, um telefone.

A pior consequência não é a guerra entre “coxinhas” e “mortadelas”, mas toda uma geração de políticos e estudantes desprovidos da capacidade empática, da ciência quanto à diversidade nacional-cultural e da paciência para sanar problemas. É curioso, pois, que o fim das fronteiras físicas tenha favorecido o erguimento de muros virtuais.

Não há como escapar desses novos utilitários eletrônicos, já incorporados ao cotidiano urbano e ocidental. Mas não devemos permitir a seu modo de operação abalar precisamente os alicerces da civilização: escrita, argumento, diálogo e coesão.


Bragança Paulista, 11 de janeiro de 2018