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18 de janeiro de 2015

Ianukovych diz por que usa russo na Ucrânia


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/kharkiv


Continuando as traduções do ucraniano, estou apresentando uma sugestão dada pela amiga russa Tania Nilova, do Facebook, na época em que eu legendava a entrevista do ex-presidente ucraniano Viktor Ianukovych logo após sua deposição. Nesta outra entrevista, ele justifica por que usa a língua russa nas regiões da Ucrânia onde o russo tem muitos falantes.

Numa coletiva de imprensa a 22 de agosto de 2012 na cidade de Kharkiv (Kharkov, em russo), no leste da Ucrânia, Ianukovych defendia a recém-aprovada “lei das línguas”, que permitia às províncias e cidades escolherem por si, além do ucraniano a nível nacional, uma segunda “língua regional” a ser usada no serviço público e ensinada nas escolas. Embora no leste e no sul a escolha predominante tenha sido pelo russo, o presidente afirmou que o ucraniano não seria prejudicado e prometeu adotar medidas para protegê-lo.

Mesmo assim, um repórter da Radio Svoboda, filial da Rádio Liberdade internacional, pró-Ocidente e sustentada por uma agência de comunicações do governo norte-americano, sugeriu a Ianukovych que a medida teria “rachado” a Ucrânia, e perguntou por que, ao abrir um movimento à independência nacional em Kharkiv naquele dia, ele e outros oradores discursaram em russo, a “língua regional” da cidade. Irritado, o presidente respondeu que falava com as pessoas na língua local, que apenas quem pensava como o repórter é que “rachava” o país e que a “lei das línguas” manteria os serviços públicos iguais para todos. Ianukovych, então, saiu da sala e encerrou a coletiva.

A lei “Sobre as bases da política estatal para as línguas n.° 5029-VI”, também conhecida como “lei das línguas”, foi apresentada ao parlamento da Ucrânia no dia 7 de fevereiro de 2012 pelos deputados Vadym Kolesnichenko e Serhi Kivalov, aprovada em segunda leitura a 3 de julho após muita polêmica e assinada pelo presidente Ianukovych a 8 de agosto, entrando em vigor na data de sua publicação, dia 10 de agosto. Em tese, mantendo o ucraniano como única língua nacional, ela permitia a cada distrito administrativo adotar como “língua regional”, usada e difundida pelo serviço público local, aquela que fosse falada por 10% ou mais da população, mas na prática isso possibilitou uma ampla promoção de status ao russo, falado por muitas pessoas no leste e no sul do país. Apenas algumas localidades promoveram também o húngaro, o moldávio e o romeno.

A 23 de fevereiro de 2014, na sequência da queda de Ianukovych, o partido “Batkivshchyna” fez aprovar a suspensão da “lei das línguas”, sob críticas de vários governos vizinhos e de organismos europeus. A suspensão foi vetada no dia 28 pelo presidente em exercício Oleksandr Turchynov, que designou uma comissão para elaborar um projeto de lei substitutiva à de 2012, que ainda se encontrava, em janeiro de 2015, no estado de “preparação para assinatura”. O novo presidente Petro Poroshenko julgou “um erro” suspender a lei antiga, mas não deu nenhum veto explícito à sua suspensão.

Quem conhece o russo nota que Ianukovych fala em ucraniano com forte sotaque influenciado por aquela língua. Pró-Rússia, o ex-presidente era conhecido por supostamente falar melhor o russo do que o próprio ucraniano, e seu próprio russo, como se nota na entrevista dele após a deposição, também tem marcas do ucraniano.

A Radio Svoboda também publicou na época sobre a coletiva de imprensa e disponibilizou o vídeo do ocorrido, assim como também foi noticiado na mídia em russo. Leia sobre a “lei das línguas” na Wikipédia em inglês e em russo. Eu traduzi e legendei do ucraniano para o português e tive meu trabalho corrigido por Gianluca Alberti. Logo abaixo há também do meu canal O Eslavo no YouTube o próprio vídeo legendado, em que fiz algumas adaptações a esse tipo de mídia, e em seguida, a transcrição em ucraniano e a tradução completa:


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REPÓRTER: Скажіть, будь ласка, а... Ухвалення мовного закону і тепер ухвалення рішень у містах, воно роз’єднало, скажімо так, Україну. Спорт з’єднав, а це, можна так сказати, розкололо. Чи це те, чого прагнула Ваша політична сила і головне – скажіть, будь ласка, Ви відкривали сьогодні пам’ятник незалежності України, чому Ви говорили регіональною в Харкові мовою? Дякую.

(Gostaria que dissesse... A aprovação da lei das línguas, e agora a aprovação das decisões das cidades, digamos que desuniram a Ucrânia. O esporte a uniu, mas isso, pode-se dizer, a rachou. Era isso que pretendia seu grupo político? E gostaria em especial que dissesse por que, inaugurando hoje um monumento à independência da Ucrânia, o senhor falou na língua regional de Kharkiv. Obrigado.)

IANUKOVYCH: Я завжди говорю в будь-яких регіонах мовою людей, які там живуть. А розколюють Україну ті, хто вносить такі пропозиції і задають такі питання, без урахування точки зору людей, які живуть на цій землі. Я завжди був и буду прихильником того, щоб розуміння було в державі, і злагода, незалежно від того, в якому регіоні жили люди. Фінансування, відношення до людей, соціальні програми – вони для всіх будуть однакові... І Ви, як молода людина, про це також щоб Ви почули, і всім іншим розповіли: ми ніколи не будемо ділити людей в залежності від того, хто якою мовою розмовляє і в якому регіоні живе. Всі люди однакові.

(Em qualquer região eu sempre falo na língua das pessoas que vivem aí. Quem racha a Ucrânia são os que exprimem asserções e fazem perguntas como essas, sem considerar o ponto de vista de quem mora nesses lugares. Sempre fui e vou ser favorável a que haja entendimento e acordo no país, independente da região em que as pessoas residem. Financiamentos, atendimento ao povo, programas sociais, tudo será igual para todos... E você, como um jovem rapaz, deve também escutar e contar a todos os outros sobre isto: jamais vamos repartir a população conforme a língua em que conversa e a região em que habita. Todas as pessoas são iguais.)

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Nota (1/2/2015): Minha amiga ucraniana Olga Zasimovych também me mandou depois pelo Facebook algumas sugestões quanto à tradução, mas eram bem poucas e não invalidam o que é lido acima. Mesmo assim, posto aqui suas opções:
  • a aprovação das decisões das cidades = a aprovação destas decisões nas cidades
  • pode-se dizer, a rachou = pode-se dizer, a dividiu
  • Quem racha a Ucrânia são os que exprimem asserções e fazem perguntas como essas = Quem divide a Ucrânia são aqueles que fazem este tipo de proposição e perguntas como essa
  • acordo = bem-estar
  • jovem rapaz, deve = rapaz jovem, deveria
  • repartir a população conforme a língua em que conversa = segregar a população de acordo com a língua falada