quarta-feira, 3 de abril de 2019

Viabilidade e utilidade do Estado judeu


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/estado-judeu


NOTA: Sei que o tema deste artigo, em cujo arquivo está marcado 29 de maio de 2011 como data da última alteração, ainda hoje é polêmico e incomoda sensibilidades. Mas como ele tem tudo a ver com nossa atualidade brasileira e mundial, resolvi o republicar, fazendo aqui as devidas explicações. Nunca tive a opinião da esquerda extremista, de que o Estado de Israel “deveria ser destruído”, ou ao menos nunca desejei usar essas palavras. Meu foco, como sempre muito conciliador, foi justificar a possibilidade de transformar a Palestina num espaço não controlado por apenas um grupo político-religioso, dada a fragilidade do velho conceito de Estado-nação. Como vemos, apesar dos abalos, Netanyahu ainda é premiê israelense, e os ataques obscurantistas que citei no início se agravaram ainda mais. É paradoxal, mas no início do governo Dilma Rousseff jamais eu imaginava que no futuro teríamos um governo totalmente centrado em pautas cristãs e caudatário da política estadunidense no Oriente Médio. Segue o texto com poucas alterações redacionais.



Eu poderia falar da abominável intimidação política que censurou o “kit anti-homofobia” das escolas públicas, mas não domino bem as discussões sobre a natureza psíquica e biológica da homoafetividade, por isso decidi abordar política internacional. Meu argumento da vez é que, diante da ridícula intransigência do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu na questão palestina, confesso que não acho o Estado judeu atual viável sem o uso da força nem útil para o conjunto da humanidade. Ele é uma ameaça à paz na região e baseia-se numa forma ultrapassada de modelo nacional.

Como surgiu o atual conceito de Estado nacional? Até o século 19, os grandes impérios não eram baseados nos chamados “grupos étnicos”, mas na fidelidade de seu mosaico cultural ao domínio do soberano. É claro que Portugal, já no século 12, exemplifica o primeiro Estado nacional, mas não sob o mesmo pretexto da França e das recém-unificadas Itália e Alemanha. Ao longo do século 19, forjaram-se as ditas “identidades nacionais” ou “raciais”, compostas artificialmente de elementos como o biótipo, a língua, a história, a música, a religião, entre outros. Daí surgiram os movimentos que procuravam estabelecer territórios fixos para essas pretensas etnias, favorecidos, no início do século 20, pela queda dos grandes impérios, como o otomano e o austro-húngaro. O primeiro problema era óbvio: quem não pertencesse à etnia dominante não tinha direito à nova cidadania, o que motivou limpezas étnicas e deportações em massa. E ainda, os traços legitimadores citados acima nem sempre coincidiam, e a própria língua, por exemplo, era mais uma utopia literária do que algo usado pelo povo. Hoje em dia, com o contato frequente entre culturas e a internacionalização do capital, esse modelo esgotou-se, e as guerras em nome dessas identidades não atraem mais nossos jovens poliglotas, informados e de mente aberta.

O caso de Israel é mais complicado, porque a identidade judaica tradicional não tem a ver com língua, história, música ou cor da pele, dada a grande dispersão geográfica dos judeus, mas com algo tido como intocável pelo Ocidente: a religião. Ela foi a única coisa, e ainda assim não unanimemente, que os uniu em dois mil anos de diáspora. No mesmo século 19, iniciou-se o movimento sionista para forjar uma identidade judaica nacional e lutar por um Estado próprio na tão sonhada Palestina. Esta era, então, uma colônia britânica, e para lá muitos judeus começaram a migrar, convivendo em relativa paz com os árabes, porém com certas explosões conflituosas quando os nativos se chocavam com os colonizadores. Com o desmonte dos colonialismos a partir dos anos 1940, estava claro que ingleses e franceses perderiam o rico e estratégico Oriente Médio, inclusive a Palestina, fonte de água e de muita história. Não creio que a comoção com o Holocausto e o lobby sionista nos países ricos tenha sido a causa principal, mas caiu do céu para essas grandes potências, que viram na criação de Israel uma oportunidade para perpetuar uma base frágil, pois cercada de vizinhos hostis, mas bem localizada e armada até os dentes. Já conhecemos bem o histórico de guerras, mortes, desigualdade e exílios após 1948 para que os listemos novamente, mas a longa agonia dos árabes palestinos nos dá o que pensar sobre os falíveis motivos dessa discórdia.

Obviamente há muitos interesses ocultos, fora e dentro de Israel, para deixar as coisas como estão, mas a principal arma de guerra de judeus e palestinos, sem a qual eles podiam facilmente se pacificar, não é a política ou a cultura, mas o fundamentalismo religioso cego, origem de muitos ódios insolúveis no planeta. Primeiramente, lembremos que o hebraico moderno é uma invenção de fins do século 19 e início do 20, uma atualização do hebraico antigo, língua bíblica que não suplantara o iídiche, o ladino ou as línguas locais no cotidiano dos judeus do mundo. Mesmo a razão religiosa para se fundar um país não procede, pois como reger uma vida social tão complexa e diversa por mitos de veracidade impossível escritos há mais de 3000 anos? Da mesma forma, faz sentido que muçulmanos queiram a exclusividade da Palestina apenas por causa da longa permanência ou porque o profeta Maomé fez uma improvável ascensão aos céus na Cidade Santa? Não é à toa que as brigas não terminam, enquanto judeus e árabes poderiam viver muito bem juntos, regidos por um Estado não nacional ou binacional que concedesse direitos iguais a todas e todos independentemente de sua formação cultural e permitisse a livre circulação por qualquer uma das áreas de Jerusalém, a capital unificada desse novo território. Para se ter uma ideia do absurdo, comparemos com o conflito entre sérvios, croatas e bósnios, para o qual a recente prisão de Ratko Mladić pode ter sido um feliz amenizador: povos de mesma língua, história e tradições, separados, todavia, pelo inglório fato de serem, respectivamente, ortodoxos, católicos e islâmicos, divisão sem a qual suas “nacionalidades” não teriam razão de ser.

A superação desses exclusivismos e dessas fés embaçadas ajudará palestinos e israelenses a conviver em harmonia sem se irritar com as diferenças alheias. Não que devam abandonar suas crenças, mas ao menos mantê-las no foro privado, não usá-las como instrumento político e resolver por si sós suas discordâncias, como fizeram recentemente os grupos palestinos Hamas e Fatah, sem a ingerência de países e agentes econômicos poderosos o suficiente para coordenar a situação conforme seus interesses particulares. O Brasil pode dar o exemplo da paz entre diversos grupos que se unem para a construção do bem comum. O que esperamos, contudo, é que não soframos a mesma sorte da Palestina tendo rixas alimentadas por forças externas que desejam apenas dilapidar nosso patrimônio natural e material.



sábado, 30 de março de 2019

“Dwa serduszka” (traduction française)


Lien court vers ce billet : fishuk.cc/serduszka-fr


Ce morceau est devenu très connu parmi les cinéphiles parce qu’il contient le thème central du film polonais Zimna wojna (Guerre froide), sorti en 2018 et qui a disputé en 2019 l’Oscar du meilleur film étranger. Le film aborde l’ère communiste en Pologne, et qui chante est la protagoniste Joanna Kulig, dans la première vidéo en version jazz arrangée par Marcin Masecki et avec paroles adaptées par Mira Zimińska-Sygietyńska, et dans la deuxième vidéo en choral populaire ayant Kulig à la tête. Le poème original, à vrai dire, est d’origine populaire et a reçu une mélodie composée par Tadeusz Sygietyński. Le mot serduszko en polonais peut exprimer le diminutif de serce (cœur) ou la représentation stylisée d’un cœur, qu’on utilise en général dans des contextes d’amour et passion.

Guerre froide est un film dramatique qui se passe en Pologne et en France dans les années 40, 50 et 60, et a pour sujet central le roman entre un musicien et une jeune chanteuse découverte par lui. Dans la 91e édition de l’Oscar le film dispute les prix du Meilleur film étranger, Meilleur réalisateur et Meilleure photographie, après avoir été très applaudi dans sa première et remporté le Prix de la mise en scène au Festival de Cannes en 2018. Wiktor Warski (joué par Tomasz Kot) et Zula Lichoń (jouée par Joanna Kulig) mènent une relation d’amour profond, obsessif et destructif, mais comme ils vivent à l’époque de la Pologne communiste, ils doivent s’adapter aux règles du régime pour travailler. Quand ils essaient de fuir vers l’Occident pour jouir de la liberté de création, ils voient une occasion qui apparait en France, mais le destin termine par les séparer.

Pianiste et chef d’orchestre d’un groupe folklorique, Wiktor connait Zula en 1949, quand il faisait des compilations de chansons populaires de la campagne, et tombe amoureux d’elle par son caractère et ses talents artistiques. Parmi les plusieurs voyages du musicien et parmi les plusieurs tournées du groupe folklorique de la jeune fille, ils se rencontrent et se séparent souvent. Entretemps, Wiktor arrive même à être détenu dans un camp de travail forcé en Pologne, sous l’accusation de trahison et franchissement illégal de frontières, après être retourné dans son pays. Écoutez toute la chanson enregistrée par Kulig exclusivement pour le film, et aussi une ancienne présentation faite par le célèbre groupe folklorique Mazowsze.

Moi-même ai traduit et sous-titré cette partie de la chanson, en utilisant cette version sans sous-titres avec le couple déjà à Paris, au café L’Éclipse, et cette version sans sous-titres avec la scène au théâtre polonais, dont on peut lire à la porte la bannière avec les mots Partia – Naród (Parti – Peuple). Bien que la première aille un texte en anglais, c’était le meilleur fichier que j’ai trouvé, parce qu’il y en avait un autre sans changements, mais avec délai entre le son et l’image. La fin des paroles, lesquelles j’ai copiées de cette page, est un peu différente entre les deux versions. Regardez ci-dessous les respectifs sous-titrages publiées et lisez le poème en polonais avec les deuxièmes couplets différents l’un après l’autre, et la traduction française :




Dwa serduszka, cztery oczy, ojojoj...
Co płakały we dnie, w nocy, ojojoj...
Czarne oczka co płaczecie,
Że się spotkać nie możecie,
Że się spotkać nie możecie...

Mnie matula zakazała, ojojoj...
Żebym chłopca nie kochała, ojojoj...
A ja chłopca hac! za szyję,
Będę kochać póki żyję,
Będę kochać póki żyję...

Mnie matula zakazała, ojojoj...
Żebym chłopca nie kochała, ojojoj...
Kamienne by serce było,
Żeby chłopca nie lubiło,
Żeby chłopca nie lubiło...

____________________


Deux cœurs, quatre yeux, oï, oï, oï...
Qui pleuraient jour et nuit, oï, oï, oï...
Petits yeux noirs, vous pleurez
Car ne pouvez pas se rencontrer,
Car ne pouvez pas se rencontrer...

Ma maman m’a interdite, oï, oï, oï...
De m’intéresser à un garçon, oï, oï, oï...
Mais je l’ai pris par le cou,
Je vais l’aimer toute ma vie,
Je vais l’aimer toute ma vie...

Ma maman m’a interdite, oï, oï, oï...
De m’intéresser à un garçon, oï, oï, oï...
Il me fallait un cœur de pierre
Pour qu’il n’aime pas le garçon,
Pour qu’il n’aime pas le garçon...



quinta-feira, 28 de março de 2019

Um fim à laicidade forçada (texto, 2011)


Endereço curto: fishuk.cc/forcada

Mais uma daquelas reflexões que escrevi quando tinha 23 anos, em 2011, quase terminando a faculdade de História. Com esse título, eu ainda tinha a obsessão sobre ateísmo e descrença, porque eu mesmo estava tentando me responder várias perguntas. Mas no final das contas, como era minha tendência, acabei misturando com questões históricas e políticas, e estes domínios predominaram na análise. Apesar do típico simplismo, lembrei que é quase impossível governar sem ter alguma conciliação com as grandes igrejas e retomei a noção de que sua separação institucional é muito recente, não cabendo mesmo hoje rupturas radicais. A grande sacada, ainda em 2011, foi supor que a “primavera árabe” tinha toda a possibilidade de se transformar num retrocesso, embora eu não previsse que ia desmontar toda a geopolítica mundial. Segue o texto sem alterações.



Religião é política. E os Estados democráticos não conseguem sustentar-se apartados do apoio e da conivência das grandes Igrejas. Essa verdade incômoda, pouco reconhecida em vários países ocidentais, desmente a possibilidade da existência de Estados realmente laicos dentro do modelo sócio-cultural em que vivemos.

O mesmo padrão é ainda mais verdadeiro às nações pouco desenvolvidas economicamente, nas quais a superstição é um substituto muito comum da ciência e da educação. E foi precisamente nesses países que a história comprovou ser fracassada de antemão qualquer tentativa lançada do alto de laicizar a sociedade ou de reduzir o papel e a influência das religiões na vida nacional.

O caso mais emblemático é o da Rússia soviética. E ele prova ainda que secularizações muito bruscas podem conduzir a formas ainda mais cruas de endeusamento e ritualização da política. Lenin, líder da revolução de outubro de 1917, passou boa parte de sua vida adulta exilado na Europa Ocidental desenvolvida e industrializada, em meio a círculos socialistas oficiosos ou conspiradores, longe do barbarismo e da supersticiosidade do atrasado império tsarista ortodoxo. Não sem antes, claro, ter recebido uma refinada educação típica de famílias abastadas para as quais o trabalho não era uma necessidade premente e ter cursado Direito, uma carreira então muito comum a jovens intelectuais politizados.

Ocidentalizado que era, Lenin aparentemente buscou moldar a Rússia à sua imagem e semelhança, ainda que seja muito duvidoso sugerir que ele pensasse e agisse mesmo como um russo médio ao querer realizar num salto a transição da Idade Média para o industrialismo avançado. E eis que surge Stalin, maior conhecedor da linguagem e das necessidades do povo e que, como já sabemos, amenizou o choque inicial ao criar uma nova espécie de fé orientalista em torno de sua pessoa e converter em teoria sagrada, ainda que em versão disforme, o comunismo marxista.

Em muitos países muçulmanos, o procedimento não foi diferente. Mustafá Kemal Atatürk, ditador que dissolveu o carcomido Império Otomano para fundar a Turquia moderna após a Primeira Guerra Mundial, obrigou a população a usar trajes ocidentais e impôs a substituição do alfabeto árabe pelo latino para escrever a língua nacional. No Irã, a dinastia ocidentalizante dos xás Pahlevi promoveu uma industrialização acelerada e uma inovação dos costumes cujos resultados de corrupção e pobreza ferveram o caldo de cultura propício à ascensão do regime islâmico, em 1979.

O iraquiano Saddam Hussein, recentemente enforcado pelos americanos, realizou diversas reformas, inclusive no tocante aos direitos das mulheres, mas ao custo de reprimir curdos e xiitas e de criar o cenário ideal para a explosão do radicalismo terrorista. Já a junta militar que está governando o Egito se depara com o duplo desafio de preencher o vazio deixado por três presidentes que, de 1953 a 2011, reprimiram a Irmandade Muçulmana, influente grupo extremista do país, e de atender aos clamores de uma população fortemente conservadora no quesito religião. Isso para não citarmos as autocracias laicas do Marrocos, Argélia, Tunísia, Síria, Iêmen e Jordânia, já depostas ou em vias de abalo ou desagregação.

Existem ainda exemplos caseiros e mais inteligíveis. Recentes ondas de ateísmo militante e humanismo secular promovem uma cruzada contra o que chamam de interferência religiosa no Estado laico brasileiro. Elas não conseguem enxergar, todavia, que esse mesmo Estado, por mais de trezentos anos, viveu umbilicalmente ligado à Igreja Católica e que, mesmo durante a República, o velho conúbio prosseguiu dando mostras de vitalidade. Elas não compreendem que, desde tempos quase imemoriais, qualquer estrutura governante sempre esteve atada a uma religião oficial, sendo ambas, por isso, frutos de um mesmo modelo institucional, e que a ideia dessa separação tem apenas pouco mais de dois séculos e meio. Se não é mais o credo romano que monopoliza a influência na política, ainda assim vemos leis que favorecem amplamente as instituições religiosas com isenção de impostos e proteção patrimonial em troca de mobilização de votos e de apoio político, quando os próprios sacerdotes não ocupam cargos nos três Poderes.

Enfim, esses novos movimentos não percebem que a superação das religiões instituídas virá somente quando for superado o atual modelo estatal, ou melhor, quando mudanças sociais mais profundas levarem de roldão esses dois gigantes. Em outras palavras, não é a retirada dos crucifixos das repartições públicas que tornará o serviço melhor, nem a adoção do ateísmo em larga escala que nos deixará mais ricos ou instruídos. Pelo contrário, é a construção de uma sociedade mais próspera, racional, autossuficiente e justa que dispensará o gasto de energia com fantasias sobrenaturais ou mitos consoladores.

O mesmo Lenin que citei atrás, num texto de 1905 chamado “Socialismo e religião”, ensina que a unidade dos trabalhadores para a construção do paraíso na Terra era mais importante do que sua unidade de opiniões sobre o paraíso no céu. Para ele, ainda que os revolucionários se declarem ateus, eles não podem fragmentar as forças que lhes é possível reunir por causa de delírios sem significado político e rapidamente “jogados no ferro-velho” pelo curso do desenvolvimento econômico.

Por isso, quem sabe não colaboremos melhor para a edificação de um mundo mais humano resolvendo nossos problemas materiais imediatos do que sonhando com Inquisições laicas bitoladas em miudezas ornamentais, fabulosas e, quando muito, lúdicas.


Bragança Paulista, 27 de agosto de 2011.



terça-feira, 26 de março de 2019

Joanna Kulig – “Dwa serduszka” (2018)


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/serduszka


Este trecho ficou muito famoso no mundo do cinema por conter o tema principal do filme polonês Zimna wojna (Guerra fria), lançado em 2018 e que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2019. O filme trata do período comunista da Polônia, e quem está cantando é a atriz protagonista, Joanna Kulig, no primeiro vídeo em versão jazz com arranjos de Marcin Masecki e letra adaptada por Mira Zimińska-Sygietyńska, e no segundo vídeo em coral popular com Kulig à frente. O poema original, na verdade, possui autoria anônima, e recebeu melodia própria de Tadeusz Sygietyński. A expressão serduszko pode significar em polonês o diminutivo de serce (coração) ou a figuração estilizada de um coração, que usamos em contextos apaixonados.

O filme Guerra fria é um drama que se passa na Polônia e na França entre as décadas de 40 e 60, e tem como centro do enredo um diretor musical que descobre uma jovem cantora e termina engatando um romance com ela. Nesta edição 91 do Oscar, a película concorreu aos prêmios de Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Fotografia e Melhor Diretor, tendo sido muito aclamado ao estrear e ganhar a palma de Melhor Diretor no Festival de Cannes em 2018. Wiktor Warski (com o ator Tomasz Kot) e Zula Lichoń (interpretada por Joanna Kulig) levam uma relação de amor profundo, obsessivo e destrutivo, mas como vivem no período da Polônia comunista, têm que se adequar às regras do regime pra trabalhar. Tentando fugir pro Ocidente pra desfrutarem de liberdade criativa, veem uma oportunidade surgir na França, mas o destino acaba os separando.

Pianista e maestro de um grupo folclórico, Wiktor encontra Zula em 1949, quando fazia compilações de canções populares no interior, e se apaixona por seu caráter e talento de voz e dança. Entre as muitas viagens do músico e entre as muitas turnês do grupo folclórico da moça, eles vão se encontrando e se separando. Nesse meio Wiktor é inclusive preso num campo de trabalhos forçados na Polônia, acusado de traição e cruzamento ilegal de fronteiras, quando retornou um dia a seu país. Kulig gravou a faixa completa especialmente pro filme, e o famoso grupo folclórico Mazowsze também já tinha sua apresentação.

Eu mesmo traduzi e legendei o trecho da canção, tendo baixado um vídeo sem legendas com a cena do casal no bar L’Éclipse, em Paris, e outro vídeo sem legendas com a cena no teatro polonês, em cuja entrada há inclusive uma faixa escrita Partia – Naród (Partido – Povo). Apesar do primeiro ter legendas em inglês, foi o melhor que achei, pois um que estava sem intervenção nenhuma não tinha sincronia do som com a imagem. O final da letra, a qual copiei desta página, difere um pouco nas duas versões. Seguem as respectivas legendagens, a letra em polonês com as segundas estrofes diversas se seguindo, e a tradução em português:




Dwa serduszka, cztery oczy, ojojoj...
Co płakały we dnie, w nocy, ojojoj...
Czarne oczka co płaczecie,
Że się spotkać nie możecie,
Że się spotkać nie możecie...

Mnie matula zakazała, ojojoj...
Żebym chłopca nie kochała, ojojoj...
A ja chłopca hac! za szyję,
Będę kochać póki żyję,
Będę kochać póki żyję...

Mnie matula zakazała, ojojoj...
Żebym chłopca nie kochała, ojojoj...
Kamienne by serce było,
Żeby chłopca nie lubiło,
Żeby chłopca nie lubiło...

____________________


Dois corações, quatro olhos, oi, oi, oi...
Que choravam dia e noite, oi, oi, oi...
Olhinhos negros, vocês choram,
Pois não podem se encontrar,
Pois não podem se encontrar...

Minha mamãe me proibiu, oi, oi, oi...
De gostar de um rapaz, oi, oi, oi...
Mas o agarrei pelo pescoço,
Vou amá-lo por toda a vida,
Vou amá-lo por toda a vida...

Minha mamãe me proibiu, oi, oi, oi...
De gostar de um rapaz, oi, oi, oi...
Só sendo um coração de pedra
Para ele não amar o rapaz,
Para ele não amar o rapaz...



domingo, 24 de março de 2019

Ser ateu é bom? 3 – Ter ou não ter fé?


Endereço curto: fishuk.cc/ateubom3

Na segunda metade de 2011 escrevi uma trilogia de pequenos artigos que revisei levemente em meados de 2012 pra republicar no blog Materialismo.net. O título geral é “Ser ateu é bom?”, e com ideias pessoais tento explicar as possíveis vantagens e poréns do abandono da própria religião ou mesmo da crença em deuses. Como eu disse outras vezes, não mais me preocupo tanto com autodefinição religiosa, e algum estudo histórico bastaria pra relativizar certas assertivas que lancei. Porém, esse exercício foi importante pra eu treinar redação e argumentação com textos e buscar libertar minha própria mente de certos medos. Na parte 3, “Ter ou não ter fé?”, relativizo o chavão de que o ateu seja necessariamente uma pessoa seca, amarga, apática ou obscura, coisas que na verdade ocorrem quando não se tem uma meta na vida. Pelo contrário, se antes as crenças religiosas podiam nos inibir, agora nos sentimos senhores de nosso destino e livres pra edificar uma felicidade real. Isso, claro, exige responsabilidade, pois não podemos atribuir nossas falhas a forças maiores nem atrapalhar a liberdade alheia. Segue abaixo o texto sem alterações.



Uma acusação quase sempre imputada ao ateu é a de que ele “não tem fé em nada”, ou seja, leva uma vida seca, sem regras, obscura e triste, portanto, sem moralidade, sem freios aos impulsos naturais e sem motivos para respeitar as outras pessoas. Assim, o ateu seria naturalmente alguém vazio e, ocasionalmente, até criminoso. Pode-se contrapor a isso que a fé, entendida como crenças pessoais, não é uma exclusividade das religiões, e que um ateu, por isso, pode levar uma existência radiante e plena de significado.

É claro que dizer que o ateu pode adotar princípios individuais edificantes não significa que ele deva fazê-lo, ou que sempre o faça. Não existem regulamentos que determinem no que o ateu deve ou não acreditar ou seguir, até porque, como eu já disse, o ateísmo por si só é a “crença numa ausência”, por isso não implica valores positivos compulsórios. Desse modo, podem existir ateus muito desorientados, mas o fato principal é que nem todo religioso alcança a felicidade e a satisfação com seus dogmas. Às vezes, eles lhe foram impostos de fora, sem escolha consciente, e se incrustaram em seu psicológico, constituindo, pois, mais um fardo do que um guia de aconselhamento. Esse foi o meu caso, e por isso meu rompimento com a religião foi mais doloroso.

Agora, uma questão crucial. Estudos clínicos dizem que as pessoas ativamente religiosas (trocando em miúdos, as que têm mais fé) vivem mais e são menos propensas a ficar doentes. E é verdade, além do que suas crenças constituem muitas vezes um consolo na fraqueza ou na iminência da morte. Admito isso, mas outras pesquisas também apontam que a moralidade não vem da religião, mas sim, de fatores bastante terrenos, desligados do seguimento a este ou aquele mito específico. Vamos tentar extrair um denominador comum: confiança em si, autonomia intelectual e perspectiva de um futuro cheio de planos ligados à realização pessoal. Pronto: o fator esperança!

A esperança, sim, é o denominador comum de todas as formas de confiança nos próprios princípios e na própria capacidade de superar problemas. Ela provém da consciência do quanto somos importantes para nós mesmos, para nosso círculo íntimo ou talvez até para grupos maiores. E como cada ser humano é um universo em si, apenas ele mesmo irá determinar o que desperta sua segurança. Deve-se reconhecer que a religião tem fatores que a deixam na frente, como a mitologia costumeiramente otimista e grandiloquente, o ritualismo hipnotizador e o senso de pertencimento a uma comunidade unida e solidária. Contudo, nada que possa ter papel diferente da leitura ou contato com exemplos de vida enobrecedores, da fruição do que há de melhor na arte visual e musical e de um círculo de amigos ou coidealistas fiel e sincero.

Além disso, a lista de prioridades ético-sociais (sempre ligada, como se afirmou acima, a uma suficiente autoestima e a um conhecimento da importância do sujeito para o meio em que vive) varia muito de acordo com as experiências particulares. Um ponto pacífico é que, por razões evolutivas e históricas, nunca nos sentimos bem ou seguros quando os outros são prejudicados (ao menos que sejamos vítimas de um rancor anormal), já que cada vez mais ampliamos nossa capacidade comunitária existente desde a condição de primatas. E o que condiciona a manutenção desse estado é justamente a liberdade para que todos sejam si mesmos, desde que isso não prive os vizinhos do mesmo direito. E, o mais importante, nós mesmos não nos privarmos de tal desfrute, seja por pressões internas ou externas à nossa mente.

Encontramos, finalmente, a essência da “fé do ateu”, se é que pode ser assim chamada e se é que, por vicissitudes próprias, todos comungam desta mesma qualidade: o fim da escravidão às unanimidades forçadas e a coragem de se colocar como subjetividade autônoma, cujas vivências e contribuição ao mundo têm valor igual ou maior ao de iluminações privadas transformadas em códigos imutáveis, idólatras e alienantes.


Bragança Paulista, 25 de setembro de 2011.
Levemente modificado a 16 de julho de 2012.


sexta-feira, 22 de março de 2019

Tito e Fidel, comunistas dos anos 1960


Endereço curto: fishuk.cc/comunas60

Estes dois vídeos foram iniciativas de postagem isoladas, por isso não se encaixavam a princípio num tema comum que pudesse ser transformado num texto desta página. Mas sendo filmagens com dois líderes destacados do movimento comunista no início dos anos 1960, achei que valia a pena apresentá-los juntos aqui. Nessa década, o movimento comunista chegaria ao auge de seu prestígio, e as lutas anticoloniais e de libertação nacional, apoiadas ainda pelos chamados “países não alinhados”, constituiriam um novo campo fértil pra experiências políticas vindas de Moscou.

Contudo, a partir do fim da década, sobretudo depois da intervenção contra as reformas na Checoslováquia em 1968, a popularidade do comunismo soviético caiu gradualmente. Desde o mesmo ano, com as explosões de revolta juvenil em Paris e outras capitais ocidentais, o maoismo chinês parecia ser uma nova alternativa, mas ele também logo se revelaria autoritário e dogmático. Tito, da antiga Iugoslávia, tinha ganhado prestígio como chefe da resistência antifascista nos Bálcãs, mas sua experiência já estava fortemente institucional. Fidel Castro, de Cuba, gozava da aura jovem que passava a maioria dos líderes de sua revolução, e ainda hoje exerce razoável fascínio nas esquerdas latino-americanas. Mas o experimento real do socialismo cubano perdeu grande parte da atratividade, pois as lideranças não se renovaram, Fidel morreu em 2016 e as presentes reformas convivem com estagnação e pobreza.


O primeiro vídeo é um trecho de documentário soviético que eu mesmo já traduzi e legendei, contando a visita de Fidel Castro Ruz, líder de Cuba, a Moscou e outras localidades da URSS em 1963. Comandante da Revolução Cubana de 1959, ele está fazendo o encerramento do discurso aberto ao público em 28 de abril, na tribuna do mausoléu de Lenin na Praça Vermelha. Parece que só existe uma cópia sem legendas da cinecrônica inteira no YouTube, postada por alguém que fala espanhol e ainda com poucas visualizações.

Na montagem que eu fiz, vocês podem escutar o discurso três vezes, com legendas em português, espanhol (língua original) e russo. Nesta edição em PDF do jornal soviético Krasnoe znamia podem-se ler os discursos completos de Nikita Khruschov e Fidel Castro em russo. Como o que foi dito durante a interpretação consecutiva não é idêntico ao que foi transcrito no jornal, segue o texto em russo, com algumas divergências entre colchetes:

“Позвольте мне от полноты чувств [как самое справедливое выражение моих чувств] [в честь того, кто больше был достоин] воскликнуть – слава Ленину! Да здравствует пролетарский интернационализм! Да здравствует дружба между кубинским и советским народами! Да здравствует Советский Союз! Родина или смерть! Мы победим!”

(Permitam-me, como a mais justa homenagem a quem teve o mérito maior, exclamar: Viva Lenin! Viva o internacionalismo proletário! Viva a amizade entre o povo soviético e o povo cubano! Viva a União Soviética! Pátria ou morte! Venceremos!)


O segundo vídeo são breves frases de um famoso discurso público de Josip Broz, o Marechal Tito, presidente da Iugoslávia socialista, feito na cidade croata de Split, em 7 de maio de 1962. Um vídeo com os principais trechos do discurso está há mais de 10 anos no YouTube, mas nunca achei a transcrição da fala. Mesmo tendo estudado um pouco de servo-croata por algum tempo, ainda não me sinto capaz de transcrever só de ouvido, até porque às vezes o líder fala meio rápido.

Só sei que na Biblioteca de Belgrado há um exemplar, não disponível online, desse discurso completo em Split, e certamente sem grandes alterações. Após algum esforço, consegui achar apenas a transcrição da segunda parte deste vídeo, cujo editor felizmente lhe melhorou a qualidade. São dois trechos isolados, usuais em sites de citações. O grande problema foi que, assim como outros trechos do discurso, não consegui achar nem mesmo o que Tito fala na primeira parte.

Comparando com várias fontes e com o áudio de Tito, eu mesmo fiz uma transcrição fixa, traduzi, legendei e cortei o quadro e alguns trechos do upload citado, cujo canal recomendo que vocês visitem com mais atenção. Ao final, Druže Tito, mi ti se kunemo (Camarada Tito, somos fiéis/leais a você) era uma espécie de refrão popular cantado na época da ditadura, sob diferentes versões. Seguem o texto em servo-croata (alfabetos latino e cirílico) e as traduções em português e francês (esta feita pra um grupo de debates):

“Mi smo more krvi prolili za bratstvo i jedinstvo naših naroda. E nećemo nikome¹ dozvol’ti da nam dira ili da nam ruje iznutra, da se ruši to bratstvo i jedinstvo. [...] Ni jedna naša republika ne bi bila niko i ništa, da nismo svi zajedno! A mi moramo stvarati... a mi moramo stvarati svoju istoriju, svoju jugoslavensku² socijalističku istoriju i jedinstvenu ubuduće.”

¹ Forma mais comum: “nikomu”.
² Forma mais comum: “jugoslovensku”.

“Ми смо море крви пролили за братство и јединство наших народа. Е нећемо никоме дозвол’ти да нам дира или да нам рује изнутра, да се руши то братство и јединство. [...] Ни једна наша република не би била нико и ништа, да нисмо сви заједно! А ми морамо стварати... а ми морамо стварати своју историју, своју југославенску социјалистичку историју и јединствену убудуће.”

(Derramamos um mar de sangue pela fraternidade e unidade de nossos povos. E não permitiremos que ninguém nos ataque, nem conspire de dentro, nem destrua essa fraternidade e unidade. [...] Nenhuma república nossa seria algo ou alguém se não estivéssemos todos juntos. E devemos escrever... e devemos escrever nossa própria história, nossa própria história socialista iugoslava e unida para o futuro.)

(Nous avons versé une mer de sang pour la fraternité et l’unité de nos peuples. Nous ne permettrons pas que personne ne nous attaque, conspire de dedans, détruise notre fraternité et unité. Aucune république à nous ne serait rien si nous n’étions pas tous ensemble. Nous devons créer notre propre histoire socialiste yougoslave et unie pour l’avenir.)



quarta-feira, 20 de março de 2019

Ser ateu é bom? 2: ciência e subjetivos


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/ateubom2


NOTA: Na segunda metade de 2011 escrevi uma trilogia de pequenos artigos que revisei levemente em meados de 2012 pra republicar no blog Materialismo.net. O título geral é “Ser ateu é bom?”, e com ideias pessoais tento explicar as possíveis vantagens e poréns do abandono da própria religião ou mesmo da crença em deuses. Como eu disse outras vezes, não mais me preocupo tanto com autodefinição religiosa, e algum estudo histórico bastaria pra relativizar certas assertivas que lancei. Porém, esse exercício foi importante pra eu treinar redação e argumentação com textos e buscar libertar minha própria mente de certos medos. Na parte 2, “Ciência e subjetividade”, critico a elevação da atividade científica como se fosse uma nova espécie de verdade imutável e afirmo que a maior missão do ateísmo deve ser a busca por uma nova escala de valores e de vivência pessoal da realidade. Isso porque, segundo penso, o excessivo cientificismo também pode levar a extremos autoritários. Segue abaixo quase inalterado.



Muitas vezes, o ateísmo é associado a uma sobrevalorização da ciência, e de fato, quando deixam de seguir os regulamentos religiosos, os ateus costumam guiar sua vida e seu raciocínio pelas descobertas científicas e pela autonomia crítica. Porém, é um erro pensar que a ciência é uma nova deusa que resolve todos os problemas, e mesmo o ateu que pensa assim termina por castrar sua inteligência e seus sentimentos.

Na sociedade ocidental, ciência e religião só começaram a separar-se na prática por volta do fim da Idade Média, no início da revolução renascentista. Antes, não se desligavam os ofícios eclesiásticos das atividades intelectuais, e por isso tantas igrejas originaram universidades, e tantos sacerdotes foram homens de letras e de investigações empíricas. A laicização do Ocidente fez com que se reconhecesse oficialmente essa separação epistemológica efetiva entre produção do conhecimento e serviço espiritual.

No contexto cultural ocidental, a negação de Deus está relacionada à superação das categorias duais corpo/mente, carne/espírito, razão/emoção e outras correlatas, intrínsecas ao encontro da filosofia neoplatônica com a patrística cristã. Outras civilizações trataram de abordar os mistérios do pensamento e da realidade em termos bastante diferentes, ou até mesmo mais integrados, e por isso “seus” ateus e secularistas podem raciocinar com leves diferenças. Mas agora, cabe tentar fechar o círculo que frequentemente vincula o ateísmo ao primado da apreensão da realidade bruta.

A partir da laicização citada acima, os benefícios trazidos pelo progresso técnico implicaram num gradual reconhecimento de sua utilidade e predominância sobre as concepções mágicas do mundo. Porém, eles também evoluíram lentamente em doutrinas que julgaram ser a percepção exterior passiva a única forma de encontrar a si mesmo no mundo, negando, portanto, qualquer valor das particularidades de cada sujeito na construção do próprio ser. Essa “ditadura da objetividade” descambou nos totalitarismos e formas de supressão da subjetividade conhecidos no século 20, e fez com que muitos oportunistas clericais caíssem no outro extremo ao conferir à iluminação divina o único mérito pelo conhecimento autêntico, ou ao menos pregassem a existência de uma “dimensão religiosa” inerente a todos (que não seria uma ideia má se não fosse imbricada à própria crença de quem a postula).

Mas seria desagradável voltar à situação de antes. Nem mesmo para os laicos a tentação dualista confere produtividade na apreensão do meio, e certamente um imanentismo saudável, que considere a validade igual das contribuições pessoais e dos compartilhamentos coletivos, acabe de vez com a perpetuação de categorias que escravizam o Ocidente há dois mil anos. Não se trata mais de lutar de modo quixotesco contra seres mitológicos, mas, acima de tudo, de extirpar os autoritarismos de nosso modo de pensar e de agir: tanto o do “corpo do povo” que tiraniza o indivíduo quanto o do sonho privado jogado goela abaixo dos subordinados ou concidadãos.

Assim, chegamos à conclusão de que um passo importante do “fato ateu” é superar, ao mesmo tempo, o fracionamento das experiências humanas em partes desconectadas e a supressão do eu em prol de falsos universais, mais semelhantes à castração a ser combatida do que à emancipação humana pretendida com o fim da religião.


Bragança Paulista, 24 de setembro de 2011.
Levemente alterado a 13 de julho de 2012.


segunda-feira, 18 de março de 2019

Bobby Solo: Una lacrima sul viso, 1964

Esta é a famosa canção romântica italiana Una lacrima sul viso (Uma lágrima no/sobre o rosto), cantada pelo artista Bobby Solo e gravada em disco pela primeira vez em 1964. Ela é composição conjunta do próprio cantor com o letrista, produtor e escritor Giulio Rapetti “Mogol” (n. 1936), com a qual ele concorreu no Festival de Sanremo de 1964. Eu mesmo traduzi, legendei e cortei o quadro do vídeo original.

Como se lê na Wikipédia italiana, a letra “descreve os sentimentos de um homem que descobre os sentimentos de uma garota por meio de uma lágrima no rosto dela; descoberta que leva a florescer o amor recíproco”. Naquela edição de Sanremo, Bobby Solo dividiu o palco com o cantor americano Frankie Laine, que interpretou uma versão em inglês da música, com o nome For Your Love. Por sua semelhança com Elvis Presley, Bobby foi a revelação do festival, mas na final ele teve de atuar usando um playback, pois tinha sido acometido por uma laringite. Como isso infringia o regulamento, a canção não venceu o concurso, mas por 8 semanas Una lacrima sul viso ficou no topo das paradas. Na sequência, foi produzido um filme com o mesmo título, do gênero então chamado musicarello, no qual Bobby Solo atuou com Laura Efrikian, a mesma de Gianni Morandi que já citei outras vezes.

A música de Bobby e Mogol saiu em fevereiro de 1964 num compacto junto com a faixa Non ne posso più, álbum que vendeu 3 milhões de cópias no mundo todo e ganhou um disco de ouro. Vários outros cantores regravaram a canção, assim como músicos que lhe deram versões instrumentais, e ela também apareceu em filmes de diversas origens. Porém, como Roberto Satti (nome real de Bobby Solo) não era então registrado na Sociedade Italiana de Autores e Editores, quem assinou Una lacrima sul viso com Mogol, sob o pseudônimo Lunero (como podemos ver no upload original), foi Iller Pattacini (1933-2006), músico, compositor, arranjador e maestro italiano. Nascido em 1945 numa família do nordeste, Bobby já se interessava por rock e por Elvis (a quem imitava) desde adolescente, e já em 1963 gravaria seu primeiro compacto. O ápice do sucesso se deu na década de 1960, tendo se dedicado na década seguinte mais à produção e, depois, voltado gradualmente à cena, com carreira prolífica até hoje.

Esta é das muitas canções que, por ter sido “top” na Itália, também chegou a ser muito admirada no Brasil, sobretudo nos centros urbanos do Sul e do Sudeste com ascendência italiana. Muitas senhoras de idade sempre se recordam dela, e há alguns anos, antes do império das redes sociais, vídeos com apresentações de Bobby Solo ao vivo circulavam pelos e-mails. Como, por isso, a conheço há bastante tempo, tenho um carinho especial por ela. A letra é bem conhecida, então pode ser encontrada em diversas fontes, tendo eu feito apenas uns reparos redacionais. Seguem abaixo as legendas, a letra em italiano e a tradução:


Da una lacrima sul viso
Ho capito molte cose.
Dopo tanti, tanti mesi, ora so
Cosa sono per te.

Uno sguardo ed un sorriso
M’han svelato il tuo segreto:
Che sei stata innamorata di me
Ed ancora lo sei.

Non ho mai capito,
Non sapevo che...
Che tu, che tu,
Tu mi amavi ma,
Come me, non trovavi mai
Il coraggio di dirlo, ma poi...

Quella lacrima sul viso
È un miracolo d’amore
Che si avvera in questo istante per me,
Che non amo che te.

Non ho mai capito,
Non sapevo che...
Che tu, che tu,
Tu mi amavi ma,
Come me, non trovavi mai
Il coraggio di dirlo, ma poi...

Quella lacrima sul viso
È un miracolo d’amore
Che si avvera in questo istante per me,
Che non amo che te...
Che te, che te...
Te...

____________________


Por uma lágrima no rosto
Pude entender muita coisa
Após tantos meses, agora sei
O que represento para você.

Um olhar e um sorriso
Me revelaram seu segredo:
Você tinha paixão por mim
E ainda está apaixonada.

Eu nunca compreendi,
Eu não sabia que...
Que você, que você,
Você me amava, mas,
Como eu, nunca tomava
Coragem para dizer, mas aí...

Aquela lágrima no rosto
É um milagre de amor
Feito neste instante para mim,
Que amo somente você.

Eu nunca compreendi,
Eu não sabia que...
Que você, que você,
Você me amava, mas,
Como eu, nunca tomava
Coragem pra dizer, mas daí...

Aquela lágrima no rosto
É um milagre de amor
Feito neste instante para mim,
Que amo somente você...
Só você, somente você...
Você...



sábado, 16 de março de 2019

Ser ateu é bom? (1: questão de valores)

Na segunda metade de 2011 escrevi uma trilogia de pequenos artigos que revisei levemente em meados de 2012 pra republicar no blog Materialismo.net. O título geral é “Ser ateu é bom?”, e com ideias pessoais tento explicar as possíveis vantagens e poréns do abandono da própria religião ou mesmo da crença em deuses. Como eu disse outras vezes, não mais me preocupo tanto com autodefinição religiosa, e algum estudo histórico bastaria pra relativizar certas assertivas que lancei. Porém, esse exercício foi importante pra eu treinar redação e argumentação com textos e buscar libertar minha própria mente de certos medos. No número 1, “Questão de valores”, tento dar minha definição particular de ateísmo e desfazer, mesmo que de modo um tanto rasteiro, alguns mitos a respeito. Segue abaixo sem alterações.



Será que ser ateu é bom? Será que o ateísmo é melhor do que a religião? Isso depende do que você faz de sua vida depois que abandona a crença em deuses e em sacerdotes, portanto ela pode se tornar melhor ou pior. Mas uma coisa é certa: as vantagens são garantidas se a transformação se dá no sentido da preocupação com o outro, do desenvolvimento do senso crítico e da supressão de medos espirituais.

Primeiro, o que é o ateísmo, afinal? Longe das definições filosóficas estritas, neste texto vale o seguinte consenso, com base no que se observa mais comumente: rejeição da crença em seres ou mundos sobrenaturais e da condução da vida conforme regras ditadas por pessoas que dizem tê-las aprendido por revelação ou iluminação instantânea, portanto regras sagradas. Não é a ausência de crença, mas a crença numa ausência, ou seja, no mais das vezes, “ateísmo forte”. Se fosse só ausência de crença, todos os não teístas (taoístas, budistas, confucionistas, agnósticos, céticos e outros) seriam ateus, o que excluiria a frequente negação de antigas tradições consolidadas.

Ora, mas muita gente não matou em nome do ateísmo? Na verdade, não. Na Revolução Francesa, teístas ou deístas também mataram, acima de tudo, representantes de um poder absolutista opressor e atrasado, inclusive de seu braço espiritual, a Igreja Católica. Já nos países socialistas, a perseguição foi contra os adversários do regime e da filosofia marxista que virou doutrina de Estado. Nesses expurgos, muitos comunistas ateus fiéis também foram subtraídos de suas vidas.

Mas o ateísmo não implica a ausência de valores morais? Não necessariamente. Para começar, muitos dos valores ocidentais modernos vieram de fora do cristianismo: liberdade de expressão e pensamento, democracia política, tolerância à fé e às ideias alheias, estima da inteligência e do raciocínio, livre comércio, Estado laico, sexo sem culpa e por aí vai. Houve e há muitos ateus cretinos, mas houve e há também religiosos iguais. Herança genética e criação familiar e social parecem ter mais peso sobre a formação do caráter, e o que nele há de bom ou de ruim pode ser potencializado pela tranquilidade ou agressividade com que se defende uma crença, religiosa ou não.

Na verdade, a libertação da religião impele a pessoa a buscar valores mais ligados à própria vontade, felicidade e capacidade ou disposição a contribuir para o bem da humanidade. O ateu consciente aproveita para preencher a nova lacuna com uma ética construtiva e altruísta, centrada no respeito ao próximo, na desconfiança cética dos dogmas cegos, no amor ao conhecimento e ao aprimoramento pessoal, na busca de um prazer livre de arrependimentos, mas sem excessos, e na conservação do meio-ambiente e da qualidade de vida.

É claro que cada um vai traçar sua própria hierarquia de prioridades, mas é certo que o ateísmo, conservada sua roupagem progressista e democrática original, é muito bom. Ele nos leva a sermos donos de nossa própria consciência, a assumirmos a responsabilidade por nossos próprios sucessos e fracassos e a nunca nos contentarmos com uma só fonte de informação, mas aceitarmos sempre comparar opiniões diferentes em busca do correto e do verdadeiro.


Bragança Paulista, 17 de setembro de 2011.
Levemente modificado a 11 de julho de 2012.


quinta-feira, 14 de março de 2019

Que significa o domínio .SU da internet


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/dominio-su




Na foto acima, bem como na última que ilustra esta página, vocês podem ver um dos modelos do computador soviético Rassvet. A peça integra a coleção particular do russo Sergei Frolov, que tirou suas fotos em 2009 e as postou numa página pessoal, além de ter postado explicações em russo num fórum. Este dinossauro feito de um verdadeiro aparelho de TV tinha memória RAM com incríveis 32 KB!

Anteontem, dia 12 de março, fez 30 anos que surgiu a WWW, rede mundial de computadores que deu origem à nossa internet. Quem já visitou sites russos sobre comunismo e história da União Soviética, ou até com pirataria midiática e bibliográfica, já deve ter se deparado com o domínio .SU no fim de alguns endereços (como .BR é Brasil, .FR é França, .JP é Japão etc.). Às vezes é fácil de confundir com .RU, que é da própria rússia moderna. Mas... o que o primeiro significa?

Quando a internet comercial estava ganhando o mundo, na virada pros anos 90, a União Soviética, segunda potência industrial da época, mas bastante atrasada no quesito tecnológico e computacional, não podia ficar de fora. Como seria a comercialização do serviço numa hipotética URSS sobrevivente, podíamos especular. mas gradualmente, seguindo critérios diversos, cada país começou a receber seu próprio domínio. Pros soviéticos, foi reservado .SU, por vir do inglês Soviet Union: a maioria dos domínios, mesmo de países orientais, foi calcada no inglês.

Porém, apenas 15 meses depois de sua criação, o país deixou de existir. Até 1993, quando foi enfim criado o domínio .RU, as organizações russas continuaram usando o antigo domínio, mas ele continuou sendo disponibilizado pra negociação, apesar das tentativas de extingui-lo. Hoje ele é administrado pelo Instituto Russo para o Desenvolvimento das Redes Públicas, que não prevê sua desativação.

Curiosidade: a partir de 1989 foram sendo criados também domínios pra vários antigos países comunistas da Europa, como .DD (Alemanha Oriental), .CS (Tchecoslováquia) e .YU (Iugoslávia). Mas a história foi injusta:

  • As Alemanhas se reunificaram em 1990, e o domínio .DD foi usado apenas internamente pelas universidades de Jena e Dresden (lado comunista), até ser enfim desativado.
  • A Tchecoslováquia se bipartiu, e embora .CS fosse bastante usado até ser apagado em 1995, a República Tcheca (.CZ) e a Eslováquia (.SK) migraram pros próprios domínios.
  • Já a Iugoslávia, que foi perdendo várias repúblicas, só adotou o nome Sérvia e Montenegro em 2003, e o domínio sobreviveu até 2010. Desde então, só valem os domínios .RS (Sérvia) e .ME (Montenegro) das repúblicas que tinham enfim se separado em 2006.