segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Votos de Boris Ieltsin pra 1992

No ano passado, iniciei a coleção completa da tradução dos discursos com os votos de Feliz Ano Novo dos presidentes da Federação Russa a partir de 2000, isto é, Vladimir Putin e Dmitri Medvedev, ambos do partido Rússia Unida. Anteriormente eu já tinha publicado os votos de Boris Ieltsin pro ano 2000 transmitidos em 1999, que tiveram enorme importância porque ele os usou pra anunciar sua renúncia do cargo e logo depois foi sucedido pelos votos de Putin, que, enquanto primeiro-ministro, assumia interinamente até as próximas eleições. A lacuna que ficou e exigia maior pesquisa eram os votos de Ano Novo de Ieltsin ao longo da década de 1990, e hoje continuo a preenchendo. Por razões óbvias, não vou recuar ainda mais e trazer todos os discursos de 31 de dezembro dos líderes soviéticos.

Quando fazemos a busca no site do Kremlin, notamos um material extremamente organizado, mas só encontramos os discursos de Ano Novo a partir de 1999/2000, justamente quando Putin assumiu pela primeira vez. Os votos do antecessor e mentor devem ser buscados em outras fontes, entre elas o YouTube ou o portal oficial do Centro Ieltsin, sediado em Iekaterinburg, seu antigo feudo político. No arquivo oficial dos canais estatais de TV, também há uma coleção incompleta, incluindo alguns vídeos com Ieltsin, mas infelizmente eles não têm uma transcrição que facilitasse o trabalho de tradução. Pra nossa alegria, com raras exceções, a versão russa do Wikiquote traz as transcrições de todos os discursos presidenciais de Ano Novo da Rússia pós-soviética.

Na verdade, quase todos: no Wikiquote, não há os de 1991/1992 e de 1992/1993, e o de 1994/1995 está incompleto. No caso do primeiro, em tese ele quase coincidiu com o discurso de renúncia de Mikhail Gorbachov à presidência da URSS, em 25 de dezembro de 1991. Acabou sendo meio que uma contraposição a ele, pois foi televisionado no dia 30 seguinte, quando Boris Ieltsin, já investido presidente da Rússia em junho pelo inédito voto popular, desceu o pau no comunismo e na antiga União Soviética e defendeu as reformas de mercado. Ainda não estava estabelecida uma tradição de discursos de Ano Novo do presidente russo, mas este acabou entrando pra conta. Este artigo do jornal Kommersant de 2001 (dez anos da renúncia de Gorbachov), baseado em material da Rossiiskaia gazeta, traz parte do discurso de Ieltsin transcrito. Nos arquivos do Centro Ieltsin, há uma versão impressa da transcrição, com poucas anotações à mão, mas não idêntica à fala, com a qual, desta vez, eu tive de cotejar.

Portanto, eu traduzi a partir da versão cotejada com o vídeo que foi exibido na TV soviética de então, que hoje tem um canal no YouTube com atualizações praticamente diárias e a publicação de muito material raríssimo da era comunista. É uma fonte inestimável de estudos, pra qualquer tipo de público. O arquivo do Fundo Ieltsin tinha vários trechos em negrito, mas por não considerar importantes essas ênfases, não as reproduzi aqui. Igualmente, inseri explicações entre colchetes quando necessário, imprimi à tradução meu próprio estilo menos formal e incluí a transcrição completa em russo, pois se trata de um texto pouco fácil de se achar em outras fontes:


Caros russos!

O ano de 1991 está em seus últimos dias. Tradicionalmente, este é um momento pra fazer um balanço e planejar o ano que está chegando.

O ano que passou foi desafiador, e dificilmente podíamos imaginar que tantos eventos, de natureza tão variada, ocorreriam em tão pouco tempo.

Talvez ainda seja cedo pra fazer qualquer avaliação.

Mas há vários momentos importantes que vieram à luz exatamente neste ano.

Primeiro, no final do século 20, estamos vivenciando um momento incomum. Estão ocorrendo transformações profundas, do tipo que talvez só aconteçam uma vez por século. Nem toda geração vivencia algo assim:

– O Estado está se transformando.

– Uma dolorosa transição pra uma nova economia de mercado está em curso.

– Processos complexos estão ocorrendo na vida espiritual – estamos rejeitando miragens e ilusões. E não por razões políticas. Simplesmente ficou claro há muito tempo que são utopias, que o comunismo não pode ser construído.

Estamos nos livrando da militarização de nossas vidas, paramos de nos preparar constantemente pra uma guerra com o mundo inteiro e muito mais.

Não preciso entrar em detalhes – é difícil pro país e pra Rússia, difícil pros russos se exacerbarem todas as contradições.

E, no entanto, conseguimos no essencial manter o desenvolvimento pacífico do país e preservar a paz civil.

Evitamos o cenário iugoslavo, embora, francamente, nossa situação não seja mais fácil, senão mais difícil.

Na Rússia, conseguimos evitar medidas extremas. É claro que em algumas regiões as tensões estão muito altas, mas devemos fazer todo o possível pra manter a situação sob controle.

Considero que a manutenção de condições de vida pacíficas na Rússia é, antes de tudo, um mérito do nosso povo, de seu espírito pacífico, sabedoria, fortaleza e coragem.

É claro que todos estão com os nervos à flor da pele, acumulando um cansaço diante das dificuldades e provações do dia a dia.

Mas há um profundo entendimento de que não devemos em hipótese alguma perder o controle da situação ou recorrer à violência. Esse caminho leva apenas a um beco sem saída.

Estou confiante de que não vamos repetir a guerra civil. É minha convicção. Já temos a trágica experiência dos primeiros anos após outubro de 1917.

Segundo. Um dos principais resultados positivos do ano foi que a dissolução da União [Soviética] não levou à desunião dos povos.

Chamávamos a URSS de império. E há realmente muitos fatos que confirmam a validade dessa definição.

Em nosso enorme país, não há um único povo, inclusive o russo, que se sinta feliz e livre.

E há muito tempo ficou claro que deixar as coisas como estão era simplesmente impossível. Infelizmente, essa questão foi resolvida muito lentamente e houve grande resistência ao desejo dos povos de conquistar a liberdade.

Em 20 de agosto, havia uma possibilidade real do Tratado da União ser assinado. O golpe de Estado lhe desferiu um golpe fatal.

Mas conseguimos evitar o mais importante, o mais terrível: a indisposição irreversível entre os povos.

Em vez da União Soviética, surgiu a Comunidade dos Estados Independentes. Os próprios Estados se uniram voluntariamente não pra interferir uns nos outros, mas pra cooperar.

Nosso princípio: não Estados em prol da Comunidade, mas a Comunidade em prol dos povos, dos cidadãos e dos Estados.

Por mais doloroso que seja separar-se da União, devemos reconhecer que em seu lugar não há um vazio, mas sim uma reunião de povos e Estados. Ela pode se tornar mais resiliente do que a União, que até então se mantinha unida por ordens, coerção e pressão.

Terceiro. Ao longo do ano, a atitude dos países estrangeiros com relação à Rússia mudou. Temos sentido um grande interesse constante nos processos em curso aqui. Mas também houve certa dose de expectativa e cautela. E isso é compreensível.

As relações internacionais sempre foram monopólio do centro [i.e. Moscou], e certos estereótipos se desenvolveram, sendo difíceis de superar.

O ponto de virada ocorreu no dia do golpe de agosto, quando a Rússia recebeu apoio de praticamente todos os países desenvolvidos.

O processo de reconhecimento oficial da independência da Rússia já começou, mas acredito que está acontecendo algo mais do que um simples procedimento legal.

Um novo tipo de relacionamento está sendo estabelecido – não apenas parceria, mas também amizade.

Esse processo é de mão dupla. Afinal, várias gerações de nosso povo viveram sob o lema “se ao menos não tivesse havido a guerra”. Havia uma cortina de ferro entre nós e o mundo, e quase todo o país trabalhava na defesa.

Esses tempos estão ficando para trás, e devemos os deixar sem lamentar. Afinal, nunca vivemos ainda em condições de paz plena, apesar de termos vencido a guerra mais terrível em 1945. O botão nuclear agora está nas mãos da Rússia, mas vamos fazer de tudo pra que ele nunca seja usado.

A Rússia vai continuar seguindo uma política aberta e pacífica.

Somos respeitados na Europa, na América e em outros continentes; eles nos veem como um parceiro sério.

Quarto. Considero que este ano testemunhou uma mudança definitiva também no comportamento das pessoas e em sua atitude perante a vida.

É claro que as coisas estão difíceis pra todos nós agora. Nossos cidadãos às vezes são tomados pela amargura com relação a seu país. Muitas vezes lamentamos nosso atraso, falta de estabilidade e problemas muitos.

Mas é injusto falar da Rússia apenas em termos sombrios e depreciativos.

Não devemos nos sentir derrotados. Não foi a Rússia que sofreu a derrota, mas a ideia comunista, o experimento que foi conduzido na Rússia e imposto a nosso povo. Este ano, o PCUS saiu da arena política.

Muitos de nós acreditávamos nele, dedicando-lhe nossos melhores anos e energias. Mas isso não é culpa de indivíduos ou gerações inteiras. O principal é que chegou um tempo de esclarecimento.

Em 1991, entendemos muitas coisas e as vimos em sua verdadeira luz.

Agora, o mais importante é não sentar de braços cruzados, sofrendo e esperando por tempos melhores. Isso não vai mudar nada. Cada vez mais pessoas começaram a entender esta simples verdade: cada um de nós é capaz de mais do que às vezes pensa. Já temos muitas pessoas que sabem o que fazer e como fazer, estão superando suas dúvidas e demonstrando iniciativa. Em outras palavras, estão aprendendo a viver de uma nova maneira.

Infelizmente, considero que a mídia, incluindo a televisão, está falhando miseravelmente nesse aspecto. Afinal, muitas vezes intimidamos as pessoas com o mercado, retratando as coisas como se apenas alguns escolhidos pudessem alcançar o sucesso, enquanto a vida das pessoas comuns se resume a uma existência miserável, dependente da caridade, ou até mesmo à pobreza.

Mas isso não é verdade. O mundo inteiro vive sob a mesma ordem pra qual a Rússia está transitando. E estamos implementando reformas, antes de tudo, em benefício de todas as pessoas comuns. Em nosso enorme país, tenho certeza de que há algo para todos.

Nem todos se tornarão empreendedores como Morozov, Ieliseiev ou Fiodorov [magnatas dos tempos do tsarismo]. Mas a grande maioria das pessoas pode ganhar pra ter uma vida digna.

Nosso povo não é pior nem mais preguiçoso que ninguém. Precisamos simplesmente ajudar as pessoas a encontrarem seu caminho nessa nova vida.

Tudo o que mencionei são desenvolvimentos positivos do ano que passou. Mas por enquanto a vida não ficou mais fácil; pelo contrário, ficou mais difícil.

Este ano, a Rússia recuperou da URSS sua economia e seu patrimônio, que lhe foram tomados em 1917.

Recuperamos o que pertence por direito à Rússia. Devo dizer honestamente: a herança que recebemos é simplesmente deprimente.

A sensação é de que um inimigo está no comando de nossa terra. A Rússia herdou uma enorme dívida externa da União: quase 70 bilhões de dólares. O mais triste é que esses fundos colossais foram desperdiçados, se não dilapidados, por muitos anos.

Herdamos da União uma estrutura econômica distorcida.

Criou-se uma economia desumana. A produção tinha, e ainda tem, um forte foco militar. Nos últimos anos, a situação piorou ainda mais. A construção de fábricas de bens de consumo diminuiu, se não parou completamente. Por exemplo, nenhuma fábrica farmacêutica foi construída nos últimos 15 anos. Em muitas áreas cruciais, novas capacidades não foram instaladas por décadas.

Herdamos da União um setor agrícola completamente negligenciado. Milhões de hectares de terra estão contaminados, e os chernozioms [terras pretas, altamente férteis] da Rússia – um de seus maiores recursos – estão gravemente doentes. Há décadas, a Rússia é obrigada a importar enormes quantidades de grãos.

As tradições da agricultura russa se perderam.

Herdamos da União uma base técnica extremamente negligenciada – na indústria, agricultura, transporte, energia e serviços.

Tudo isso está tendo impacto hoje, complicando ainda mais a vida já difícil do nosso povo.

Herdamos um país devastado. Mas acredito que não há motivo pra desespero.

A Rússia está gravemente doente; sua economia está doente, mas não existem doenças econômicas incuráveis.

Por mais difíceis que as coisas estejam hoje, temos a oportunidade de sair deste buraco em que nos encontramos. Hoje, temos oportunidades muito maiores pra começar a nos recuperar.

A Federação Russa finalmente voltou a existir como Estado. É claro que ainda está dando seus primeiros passos, e nem tudo está dando certo. Mas o impasse com o governo central ficou pra trás. Finalmente terminou a guerra das leis, que consumiu uma quantidade inaceitável de tempo e esforço. Pela primeira vez, temos a oportunidade de concentrar toda a nossa atenção e energia na Rússia, nos russos e em seus problemas.

Temos também a vantagem de sermos potencialmente um país riquíssimo.

Ainda possuímos enormes recursos naturais. Com tal base é mais fácil implementar reformas, pois existe certa margem de segurança.

Ao longo do último ano, e especialmente no último mês, tanto o Governo quanto o Soviete Supremo criaram uma base legal bastante sólida pra reforma econômica. Decisões importantes foram tomadas em áreas-chave das transformações – proteção social, impostos, orçamento e reforma agrária.

Também contamos com apoio internacional. A Rússia está recebendo empréstimos, e empréstimos anteriormente concedidos à União estão sendo descongelados pra nós. Durante uma visita à Itália, concordamos em descongelar um empréstimo de US$ 6 bilhões, dos quais 80% vão ser destinados à Rússia.

Grandes remessas de alimentos, comida infantil e medicamentos estão em andamento. Mas há outro aspecto importante nesses contatos: estamos recebendo um apoio técnico significativo. Reformas semelhantes já foram realizadas em diversos países: Alemanha, Coreia do Sul, Polônia, Bulgária, Checoslováquia, México e muitos outros. É importante aprendermos com essa experiência e evitarmos repetir os mesmos erros.

Convidamos 13 proeminentes especialistas de mercado de diversos países pra prestarem um ano de consultoria sobre as reformas em curso na Rússia.

E eles já começaram a trabalhar. Encontrei-me com eles duas vezes e devo dizer que mesmo seus conselhos iniciais foram extremamente úteis pra ajustar algumas de nossas decisões.

O ano que passou também é importante pra nós porque embarcamos numa reforma radical.

Em 2 de janeiro, vai entrar em vigor talvez a medida mais dolorosa, uma medida obviamente impopular que os líderes do país hesitaram em implementar por muitos anos: a liberação dos preços.

Isso já foi discutido e talvez não seja preciso voltar ao assunto.

Gostaria apenas de observar que essa é uma medida necessária e temporária. Decidir por ela não foi fácil, inclusive pra mim pessoalmente. Por dois meses inteiros, buscamos a opção de reforma mais aceitável e menos onerosa. E concluímos que não havia outra saída.

Mas devo dizer que, em todas as circunstâncias, vamos proteger quem esteja passando por mais dificuldades e os ajudar a sobreviver aos meses mais difíceis.

Manteremos um nível mínimo de consumo de 2/3 da chamada cesta básica mínima durante todo esse período.

Às vezes, ouve-se dizer que a reforma econômica consiste toda na liberação dos preços, e isso gera em parte da população uma reação negativa à reforma como um todo.

Na verdade, não é bem assim. Diversas medidas importantes vão entrar em vigor no início de janeiro, com o objetivo de estabilizar e melhorar a economia e, consequentemente, a vida das pessoas.

Primeira medida, a privatização. Na última reunião do Governo, foi discutido o programa de privatização estatal pra 1992. A ênfase principal está na privatização acelerada tanto do comércio quanto dos serviços, bem como de empresas deficitárias e projetos de construção inacabados.

Definimos os níveis da propriedade russa e determinamos quais empresas são de propriedade federal, quais de propriedade de repúblicas, territórios e regiões, e quais são de propriedade municipal.

Todas as instruções pra privatização estão praticamente prontas.

O principal objetivo é simplificar esse procedimento ao máximo. Durante 1992, está previsto privatizar pelo menos metade das empresas nos setores de indústria leve, processamento de alimentos, construção civil, produção de materiais de construção, comércio, alimentação coletiva, serviços ao consumidor e outros.

Isso criará uma base sólida pra uma verdadeira concorrência nesses setores.

Os preços livres vão estimular a produção, forçando-a a aumentar a oferta de bens e serviços, enquanto a concorrência, por sua vez, vai conter o aumento dos preços.

O governo pretende supervisionar rigorosamente o processo de privatização a fim de o apoiar e remover obstáculos.

Um dos objetivos da privatização é revitalizar o grande número de empresas que operam com metade da capacidade. Utilizar a capacidade ociosa, colocar em funcionamento fábricas e oficinas inacabadas, colocar em operação equipamentos, muitas vezes importados e enferrujando nos pátios das fábricas.

E pra alcançar isso, vamos atrair recursos empresariais, poupanças dos cidadãos e investimentos ocidentais.

Ao mesmo tempo, nossa tarefa é impedir que o Estado perca o controle do que constitui o maior patrimônio da Rússia. O programa de privatização inclui uma seção específica que estipula que os seguintes itens não vão ser privatizados em hipótese alguma: subsolo, florestas, recursos hídricos, reservas naturais, sítios histórico-culturais, tesouros artísticos, tesouro estatal, reservas de ouro, fundos cambiais, bens das forças armadas e uma parcela significativa das empresas e instituições vitais (energia, transporte e comunicações).

A privatização é uma das maiores prioridades da reforma, e o Governo vai fazer o que for possível pra evitar contratempos.

Como segunda medida, realizamos uma auditoria das despesas na Rússia e confirmamos que estávamos gastando além de nossas possibilidades.

Pra 1992, estabelecemos a meta de economizar o máximo possível nos gastos. E, pra o primeiro trimestre, elaboramos um orçamento quase equilibrado, talvez o primeiro em muitos anos.

– A economia afetará principalmente os gastos militares. Reanalisamos o orçamento militar e constatamos enormes desequilíbrios. Por um lado, o exército carece das coisas mais básicas. Todos sabem como é a vida de um soldado moderno: alojamentos inadequados, comida escassa. Dezenas de milhares de famílias de oficiais estão em situação precária, vivendo em qualquer acomodação que encontrem. Cortar esses gastos seria simplesmente desumano e imoral, e vamos, pelo contrário, os aumentar. Gostaria também de incentivar o recém-criado comando combativo unificado dos países da Comunidade [CEI] a defender fundamentalmente os interesses do pessoal militar; eu diria, até lutar por eles.

Mas por outro lado, enormes quantias de dinheiro são gastas na compra de armas e equipamentos. A produção de equipamentos obsoletos continua. Vamos continuar convertendo a produção militar em bens civis.

– A partir do próximo ano, vamos praticamente cessar a ajuda a outros países. O montante que outros países nos devem chega a 60 bilhões de rublos. Acho improvável que um dia consigamos receber esses valores. Portanto, com base na prática global, embora nossa dívida seja estimada em 44% [do PIB], ainda faz sentido vender esses títulos e não fornecer mais ajuda ou empréstimos a outros países.

Em 1992, pela primeira vez, eliminamos a tão gigantesca despesa secreta com subsídios ao PCUS. Estou constantemente recebendo documentos que confirmam que o PCUS frequente e profundamente se apropriava dos cofres do Estado, transferindo fundos pra apoiar outros partidos comunistas em muitos países.

Estamos cortando custos com a manutenção do aparato. Com a liquidação do centralismo, a Rússia finalmente se libertou do fardo de longa data de manter as estruturas soviéticas.

Sei que a nova geração de líderes às vezes demonstra uma inclinação pro luxo e outros vícios semelhantes. Afirmo categoricamente: sou totalmente contra isso, devemos viver com mais modéstia, é claro, especialmente nestes tempos difíceis pra todos os russos.

Revisamos os princípios da política social. Constatamos que aí também existem muitos gastos desnecessários.

Agora, vamos partir do seguinte princípio: todos os gastos com assistência social devem ser claramente direcionados e voltados pro apoio àqueles que mais precisam.

Outra fonte de redução de custos é a economia. Estamos abandonando a prática perversa de manter empresas deficitárias. É claro que isso não é fácil; muitos se acostumaram a viver de subsídios, mas vamos acabar com esses subsídios a partir do Ano Novo, inclusive pra colcozes [fazendas coletivas] e sovcozes [fazendas estatais] deficitários. Precisamos encontrar uma solução, demonstrar iniciativa. E o Estado, ao conceder autonomia às empresas, está incentivando essa iniciativa.

Ao implementar políticas de austeridade, não temos o direito de aplicar esse princípio à cultura, ciência, educação ou saúde. Reduções no financiamento dessas áreas não serão permitidas; pelo contrário, [ele será] aumentado.

Como terceira diretriz da reforma, fizemos mudanças significativas na política tributária. Tivemos que endurecê-la em algumas áreas (ou seja, nos impostos sobre empresas). Mas essa é, em certa medida, uma política emergencial e temporária. Tentamos manter um regime mais flexível pra pessoas físicas, pequenas empresas e agricultores.

Considero que, à medida que a reforma avança e a situação econômica melhora, o processo tributário vai se tornar mais flexível.

Em janeiro, vamos iniciar importantes medidas de reforma agrária.

Isso diz respeito, sobretudo, à superação do monopólio estatal em setores relacionados. Os fazendeiros ainda não são parceiros iguais dos colcozes e sovcozes; são vulneráveis às ações arbitrárias dos fornecedores de equipamentos e fertilizantes. Vamos corrigir isso.

Considero que chegou a hora de reconhecermos plenamente a propriedade privada da terra, incluindo o direito de comprá-la e vendê-la. Não podemos mais adiar isso.

Esbocei apenas algumas diretrizes de nossa reforma. Vamos implementar essas medidas de forma constante pra que possamos, até o outono, estabilizar a economia e, até o final do próximo ano, como prometi durante a campanha presidencial russa, a vida das pessoas comece a melhorar gradualmente.

Nesse sentido, 1992 vai ser um ano especial. Devemos lançar as bases pra uma nova vida. Obviamente não é uma tarefa fácil, mas ainda somos capazes de a realizar.

Já vivemos tempos mais difíceis no passado, inúmeros abalos: revoluções, guerras, repressões. Mas não só isso. Por décadas o país sofreu com a falta de liberdade e a escassez constante. Os períodos de prosperidade foram muito breves e sempre seguidos por crises.

Nosso povo adquiriu uma experiência colossal, infelizmente, em sobrevivência. Considero, claro, que isso seja suficiente pra aprendermos também sobre o mercado. Tenho confiança que vamos superar este período difícil.

Já o disse muitas vezes e quero repetir: vai ser difícil pra nós, mas esse período não vai ser longo; estamos falando de 6 a 8 meses. Durante esse tempo, precisamos de perseverança. Em hipótese alguma devemos permitir que ocorram desorganização ou pânico; então nossas complexas reformas vão ser implementadas.

Estimados russos!

Hoje é o último domingo antes do Ano Novo.

Muitas preocupações, ansiedades e decepções ficaram pra trás. Mas sei que o ano que passou provavelmente trouxe a cada um de nós não apenas tristezas, mas também alguns momentos felizes na vida. Talvez nem pudesse ser diferente.

Vamos celebrar esta festa de forma mais modesta que nos anos anteriores. Mas ainda assim vai ser uma festa pra cada um de nós, o Ano Novo.

Quero desejar a vocês, estimados russos, estimados telespectadores, um feliz Ano Novo e um Feliz Natal! [Trata-se do Natal ortodoxo, que cai em 7 de janeiro.]

Desejo a vocês e seus entes queridos muita saúde, prosperidade e felicidade.

Não vou esconder que 1992, especialmente o primeiro semestre, não vai ser fácil, mas não percamos a esperança. Nós temos essa esperança. Afinal, já passamos todos por coisas piores.

Agradeço-os pela atenção.


Уважаемые россияне!

1991 год отсчитывает последние дни. По традиции в это время принято подводить итоги и строить планы на будущий год.

Прожитый год был непростым, и едва ли мы могли предполагать, что за этот небольшой отрезок времени произойдёт столько событий, причём разных по своему характеру.

Наверное пока рано давать оценки.

Но есть несколько важных моментов, которые проявились именно в этом году.

Первое. На исходе 20-го века мы переживаем необычное время. Идут глубокие преобразования, которые случаются может быть раз в столетие. Не каждое поколение переживает такое:

– Преобразуется государство.

– Идёт болезненный переход к новой для нас рыночной экономике.

– Сложные процессы происходят в духовной жизни – мы отказываемся от миражей и иллюзий. И не из каких-то политических целей. Просто давно стало ясно, что это утопии, что коммунизм не построить.

– Избавляемся от милитаризации нашей жизни, перестали готовиться постоянно к войне со всем миром и многое другое.

Не надо объяснять долго – тяжело стране и России, тяжело россиянам обострены все противоречия.

И тем не менее, удалось удержать в основном мирный характер развития страны, сохранить гражданский мир.

Мы избежали югославского варианта, хотя надо сказать откровенно, у нас обстановка не легче, а даже тяжелее.

В России нам удалось избежать крайних методов. Конечно, в некоторых регионах уровень напряженности очень высок, но нам надо сделать всё, чтобы удержать обстановку.

Считаю, что сохранение мирных условий жизни в России – заслуга, прежде всего нашего народа, его миролюбия, мудрости, выдержки и мужества.

Конечно, у всех напряжены нервы, накопилась усталость от неурядиц и испытаний повседневной жизни.

Но есть глубокое понимание, что ни в коем случае нельзя сорваться, сделать ставку на насилие. Этот путь ведёт только в тупик.

Уверен, что мы не повторим гражданской войны. Я убеждён в этом. У нас уже есть печальный опыт первых послеоктябрьских 1917 года лет.

Второе. Большой положительный итог года в том, что распад Союза не привёл к разъединению народов.

СССР называли мы империей. И действительно немало фактов, подтверждающих справедливость такого определения.

В нашей огромной стране нет народа, в том числе и русского, который чувствовал бы себя счастливым и свободным.

И уже давно стало ясно, что оставлять так, как есть, просто нельзя. К сожалению, этот вопрос решался очень медленно, было большое сопротивление стремлению народов обрести свободу.

Ещё 20 августа была реальная возможность подписать Союзный договор. Путч нанёс по нему смертельный удар.

Но удалось избежать главного, самого страшного – необратимой разобщённости народов.

На месте Советского Союза возникло Содружество Независимых Государств. На добровольной основе, сами государства объединились чтобы не мешать друг другу, а взаимодействовать.

Наш принцип: не государства ради Содружества, а Содружество ради народов, граждан, государств.

Как бы ни было тяжело расставаться с Союзом, мы должны признать, что на его месте – не пустота, а объединение народов и государств. Оно может стать более прочным, чем Союз, который держался пока на команде, принуждении и выкручивании рук.

Третье. В течение года менялось отношение к России зарубежных стран. Мы всё время чувствовали большой интерес к тем процессам, которые у нас идут. Но было и некоторое выжидание, осторожность. И это понятно.

Международные дела всегда были монополией центра, сложились определенные стереотипы, преодолеть которые было непросто.

Перелом произошёл в день августовского путча, когда Россию поддержали практически все развитые страны.

Сейчас начался процесс официального признания независимости России, но считаю, что происходит большее, чем простая юридическая процедура.

Устанавливаются отношения нового типа – не просто партнёрские, но и дружественные.

Процесс этот двусторонний. Ведь у нас несколько поколений людей жили как-бы под девизом “только бы не было войны”. Между нами и миром был железный занавес, и почти вся страна работала на оборону.

Эти времена уходят в прошлое, и расставаться с ними нужно без сожаления. Ведь мы в условиях полноценного мира по-настоящему ещё и не жили. Несмотря на то, что выиграли в 45-м году самую страшную войну. Ядерная кнопка перешла сейчас к России, но мы сделаем всё, чтобы она никогда не была использована.

Россия будет и впредь вести открытую, миролюбивую политику.

С нами считаются и в Европе, и в Америке, и на других континентах, видят в нас серьёзного партнёра.

Четвёртое. Считаю, что в этом году наметился определенный перелом и в поведении людей, в их отношении к жизни.

Конечно, сейчас всем нам трудно. Наших граждан подчас охватывает чувство горечи за свою страну. Мы часто сетуем на свое отставание, неустроенность, многие проблемы.

Но несправделиво говорить о России только в мрачном цвете, в уничижительном тоне.

У нас не должно быть чувства поражения. Поражение потерпела не Россия, а коммунистическая идея, эксперимент, который был проведён с Россией и который был навязан нашему народу. В этом году КПСС ушла с политической арены.

Многие из нас верили в неё, отдали ей лучшие годы и силы. Но это не вина людей и целых поколений. Главное, что наступило время прозрения.

В 91-м году мы многое поняли и увидели в истинном свете.

Сейчас главное не сидеть сложа руки, страдать и ждать лучших времён. Этим ничего не изменишь. Всё больше людей начали понимать эту простую истину: каждый из нас способен на большее, чем мы иногда думаем. У нас уже появилось много людей, которые знают, что и как делать, преодолевают растерянность, проявляют инициативу. Другими словами, учатся жить по-новому.

К сожалению, считаю, что здесь много не дорабатывают средства массовой информации, в том числе и телевидение. Ведь у нас нередко просто запугивают рынком, представляют дело так, что достичь успеха могут только избранные, а удел простых людей – прозябание, благотворительные подачки, даже нищество.

Но ведь это не так. Весь мир живёт по тем порядкам, к которым переходит Россия. И мы делаем реформы прежде всего ради всех простых людей. В нашей огромной стране, уверен, каждому найдётся дело.

Не каждый станет предпринимателем Морозовым, Елисеевым, Фёдоровым. Но заработать на достойную жизнь по силам подавляющему большинству людей.

Наш народ не хуже и не ленивее любого другого. Надо просто помочь людям найти себя в этой новой жизни.

Всё то, о чём я сказал, это положительные моменты уходящего года. Но жить пока не стало легче, а наоборот, тяжелее.

В этом году Россия принимала от Союза своё хозяйство, своё достояние, которое о неё отобрали в 1917 году.

Мы вернули себе то, что по праву должно принадлежать России. Надо сказать честно: наследство, которое мы получили, просто удручает.

Ощущение такое, что на нашей земле хозяйничал враг. Россия получила от Союза огромный внешний долг: почти 70 миллиардов долларов. Самое печальное, что эти колоссальные средства на протяжении многих лет уходили в песок, если не сказать, проматывались.

Мы получили в наследство от Союза извращённую структуру народного хозяйства.

Была создана античеловеческая экономика. Производство имело и имеет до сих пор ярко выраженную военную направленность. В последние годы ситуация даже усугубилась. Замедлилось, а то и вовсе прекратилось строительство предприятий по выпуску товаров народного потребления. За 15 лет не построено, например, ни одного фармацевтического предприятия. По многим важнейшим направлениям новые мощности не запускались десятилетиями.

Мы получили в наследство от Союза вконец запущенное селькое хозяйство. Миллионы гектаров земли отравлены, тяжело больны российские чернозёмы – одно из главных богатств России. Уже не один десяток лет Россия вынуждена ввозить огромное количество зерна.

Утрачены традиции российского земледелия.

Мы получили в наследство от Союза крайне запущенную техническую базу – и в промышленности, и в сельском хозяйстве, и на транспорте, и в энергетике, и в сфере услуг.

Всё это сегодня даёт о себе знать, усложняет и без того нерадостную жизнь наших людей.

Мы получили разорёную страну. Но считаю, что не надо приходить в отчаяние.

Россия тяжело больна, больна её экономика, но неизлечимых экономических болезней нет.

Как бы ни было тяжело сегодня, у нас есть возможность выкарабкаться из этой ямы, в которой оказались. Сегодня у нас есть гораздо больше возможностей для того, чтобы начать выздоравливать.

Российская Федерация обрела, наконец, свою государственность. Конечно, она пока делает свои первые шаги, и не всё получается. Но противостояние с центром уже в прошлом. Закончена наконец война законов, которая отнимала непозволительно много и сил, и времени. У нас впервые появилась возможность сконцентрировать всё внимание, всю энергию на России, на россиянах, на их проблемах.

На нашей стороне и то, что Россия потенциально богатейшая страна.

У нас по-прежнему огромные природные ресурсы. Вести реформы на такой базе легче, так как есть определённый запас прочности.

За прошедший год и особенно за последний месяц и Правительством, и Верховынм Советом создана довольно прочная правовая основа экономической реформы. По важнейшим направлениям преобразований приняты крупные решения – и по социальной защите населения, и по налогам, и по бюджету, и по земельной реформе.

Мы имеем поддержку и в мире. России открывают кредиты, для нас размораживают кредиты, данные когда-то Союзу. В ходе визита в Италию договорились разморозить кредит в 6 миллиардов долларов, 80% которого пойдёт в Россию.

Идут крупные поставки продовольствия, детского питания, медикаментов. Но есть ещё одна немаловажная сторона в этих контактах – мы получаем большую профессиональную поддержку. В ряде стран мира проводились уже подобные реформы: в Германии, Корее, Польше, Болгарии, Чехословакии, Мексике, многих других. Нам важно учесть этот опыт и не повторить ошибок.

Мы пригласили на год в Россию 13 ведущих специалистов-рыночников из нескольких стран мира для консультаций проводимых реформ.

И они уже приступили к работе, я с ними дважды встречался и надо сказать, что первые даже их советы имеют огромную пользу дла корректировки некоторых наших решений.

Уходящий год важен нам и тем, что мы приступили к радикальной реформе.

2 января начнётся, пожалуй, самая болезненная мера, непопулярная, конечно, мера, на которую многие годы не решались руководители страны – это освобождение цен.

Об этом уже говорилось, и наверное нет необходимости снова рассказывать о ней. Отмечу только, что это вынужденная, временная мера. Решиться на неё было непросто, в том числе мне лично. Целых два месяца мы искали наиболее приемлемый вариант реформы, менее тяжёлый. И поняли – выхода нет.

Но должен сказать, при всех условиях будем защищать тех, кому приходится особенно тяжко, поможем пережить самые трудные месяцы.

Минимум потребления – 2/3 так называемой потребительской минимальной корзины мы будем всё это время держать.

Иногда можно услышать, что экономическая реформа вся и состоит из освобождённых цен и это вызывает у части населения негативное отношение к реформе в целом.

На самом деле это не так. С начала января начинается несколько крупных мер, которые имеют целью стабилизировать и оздоровить экономику, а соответственно сделать лучшая жизнь людей.

Первое. Приватизация. На последнем заседании Правительства обсуждена государственная программа приватизации на 1992 год. Основной упор делается на ускоренную приватизацию и торговли, и сферы услуг, а также убыточных предприятий и объектов незавершённого строительства.

Мы разграничили уровни российской собственности и определили какие предприятия относятся к федеральной собственности, какие к уровню республик, краёв, областей, а какие к муниципальной собственности.

Практически готовы все инструкции по приватизации.

Главная цель – максимально упростить эту процедуру. За 1992 год намечено приватизировать не менее половины предприятий легкой, пищевой промышленности, строительства, производства стройматериалов, торговли, общественного питания, бытового обслуживания и другие.

Тем самым будет заложена хорошая основа для реальной конкуренции в этих отраслях.

Свободные цены пробудят производство от спячки, заставят наращивать выпуск товаров и услуг, а конкуренция в свою очередь будет сдерживать рост цен.

Правительство намерено строго контролировать процесс приватизации для того, чтобы его поддерживать, снимать преграды.

Одна из задач приватизации – вдохнуть жизнь в огромное количество предприятий, которые работают в полсилы. Задействовать неиспользованные мощности, запустить то, что недостроено – фабрики, цехи. Привести в действие технику, часто импортную, которая ржавеет в заводских дворах.

И для этого будем привлекать средства предприятий, сбережения граждан, западные инвестиции.

Вместе с тем, наша задача – не допустить, чтобы государство выпустило из рук то, что составляет достояние России. В приватизационной программе есть специальный раздел о том, что ни в коем случае не будут приватизироваться: недра, леса, водные ресурсы, заповедники, историко-культурные объекты, художественные ценности, государственная казна, золотой запас, валютные фонды, имущество вооружённых сил, значительная часть предприятий и учреждений, наиболее важных для жизнеобеспечения – энергетика, транспорт, связь.

Приватизация – один из главных приоритетов реформы и Правительство сделает все, чтобы недопустить пробуксовок.

Второе. Мы провели ревизию расходов в России и убедились, что до сих пор мы жили не по средствам.

На 1992 год мы поставили задачу как можно экономнее расходовать средства. И на первый квартал подготовили почти бездефицитный бюджет – пожалуй впервые за многие годы.

– Экономия коснётся прежде всего военных расходов. Мы по-новому взглянули на военный бюджет и увидели там огромные перекосы. С одной стороны, в армии нет самого необходимого. Всем известно, что такое современный солдатский быт. Не обустроенные казармы, скудное питание. В бедственном положении десятки тысяч офицерских семей, живущих в каких-то приспособленных помещениях. Сокращать расходы по этим статьям было бы просто бесчеловечно, безнравственно, и мы их будем, наоборот, увеличивать. И создаваемому новому командованию единую стран Содружества [СНГ] хотел бы пожелать принципиально отстаивать интересы военнослужащих – я бы скалал даже биться за них.

Но с другой стороны – гигантские средства уходят на закупку оружия и техники. Продолжается производство морально устаревшей техники. Здесь мы будем и дальше переводить военное производство на выпуск гражданской продукции.

– Со следующего года практически прекращаем помощь другим странам. Долг, который должны заплатить другие страны, составляет 60 миллиардов рублей. Я думаю, что вряд ли мы получим эти долги. А потому, по мировой практике, хотя наши долги оцениваются и 44%, всё-таки есть смысл эти долги продать и больше уже не оказывать помощи и не выдавать кредиты другим странам.

– В 1992 году впервые мы снимаем такую гигантскую, секретную статью расходов, как дотации КПСС. Я постоянно получаю сейчас материалы, которые подтверждают, что КПСС часто и глубоко залезала в государственный карман, перечисляла деньги на содержание других компартий во многих странах.

– Идём на сокращение расходов на содержание аппарата. С ликвидацией центра, Россия освободилась, наконец, от многолетней дани по содержанию союзных структур.

Знаю, что у нового поколения руководителей иногда проявляется тяга к роскоши и другие подобные болезни. Скажу определённо: я категорически против этого, надо жить, конечно, скромнее, тем более в это трудное для всех россиян время.

Мы пересмотрели принципы социальной политики. Оказалось, что и здесь много бессмысленных затрат.

Сейчас мы исходим из следующего: все расходы на социальную поддержку должны иметь точный адрес, идти на поддержку тех людей, которым наиболее трудно.

Еще один источник сокращения расходов – экономика. Отходим от порочной практики содержания убыточных предприятий. Конечно, это не легко, многие привыкли жить за счёт дотаций, но мы эту дотацию прекращаем с нового года, в том числе убыточным колхозам и совхозам. Надо искать выход, проявлять предприимчивость. Да и государство, предоставив предприятиям самостоятельность, стимулирует инициативу.

Проводя политику жёсткой экономии мы не имеем право использовать этот принцип для культуры, науки, образования, здравоохранения. Сокращение финансирования этих сфер не будет допущено, а наоборот, [оно будет] увеличимым.

Третье направление реформы. Мы пошли на серьёзные изменения в налоговой политике. Кое в чём пришлось её ужесточить – имеется в виду налоги с предприятий. Но это в какой-то степени чрезвычайная, временная политика. Старались сохранить более мягкий режим для людей, для малого бизнеса, для фермеров.

Считаю, что по мере продвижения реформы, улучшения экономической ситуации, налоговый процесс будет смягчаться.

В январе мы начинаем крупные мероприятия по аграрной рефоре.

Речь идёт прежде всего о преодолении монополии государства в смежных отраслях. Фермер до сих пор не является равным партнёром для колхозов и совхозов. Он беззащитен перед произволом поставщиков техники, удобрений. Будем это исправлять.

Считаю, что пришло время полного признания частной собственности на землю, включая право на её куплю и продажу. Тянуть с этим больше нельзя.

Я назвал лишь некоторые направления нашей реформы. Будем неуклонно проводить их в жизнь, с тем, чтобы уже к осени стабилизировать экономику, а к концу следующего года, как я и обещал в предвыборный период по выборам президента России, начнётся постепенное улучшение жизни людей.

1992 год в этом отношении будет особым. Нам предстоит создать основы новой жизни. Конечно это нелегкая работа, но всё же она нам по силам.

Мы переживали в прошлом более сложные времена, множество потрясений: революции, войны, репрессии. Но не только их. Десятилетия страна мучилась в условиях несвободы, постоянных дефицитов. Времена благополучия были очень краткими и всегда сменялись кризисами.

Наш народ приобрёл колоссальный опыт, к сожалению, выживания. Считаю, конечно, его достаточно, чтобы мы научились и рынку. Уверен, мы пройдём этот трудный период.

Говорил не раз и хочу повторить: нам будет трудно, но этот период не будет длинным, речь идёт о 6-8 месяцах. В это время нужна выдержка. Ни в коем случае нельзя допустить срыва, паники и тогда наши сложнейшие реформы удастся провести.

Уважаемые россияне!

Сегодня последнее воскресенье перед Новым годом.

Позади немало волнений, тревог, разочарований. Но знаю, что уходящий год каждому из нас, наверное, принёс не только одни печали, но и какие-то светлые моменты в жизни. Иначе, наверное, просто не бывает.

Этот праздник мы проведём скромнее, чем в прошлые годы. Но всё-таки это будет для каждого из нас праздник, Новый год.

Хочу поздравить вас, уважаемые россияне, уважаемые телезрители, с наступающим Новым годом, с Рождеством!

Желаю крепкого здоровья вам и вашим близким, благополучия и счастья.

Не скрою, 1992 год, особенно его первая половина, не будет лёгкой, но не будем терять надежды. Эта надежда у нас есть. Ведь мы с вами переживали и не такое.

Благодарю вас за внимание.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Viva a Federação Haitiana de Esqui!

Não, “haitiski” não é uma russificação humorística do gentílico do Haiti, e não, isso não é um meme, a Federação Haitiana de Esqui (e de esportes de inverno em geral) realmente existe. Que tal dar uma conferida em sua conta no Instagram? Selecionei também o melhor de seu conteúdo:



Veja a mensagem que a federação tem pro público (traduzida do francês pelo Google) e não perca a programação das modalidades em que nossos dois bravos atletas vão participar! (Não sei o que é “não treme”, saiu por acidente.)




Este é um print que fiz do curto vídeo com a tomada de ambos entrando na cerimônia de abertura. Pena que a equipe haitiana tenha se reduzido tanto em relação aos pioneiros dos Jogos de Inverno de Pequim (2022), que trouxeram o país pro circuito gelado com incríveis cinco membros (TBT recente do próprio Instagram):




Porque no Haiti, pra além das “Boas Festas 2025” (na verdade, votos pra 2026), eles esquiam em cachoeira, patinam na areia, hasteiam bandeira em coqueiro e você pode passar direto das picas levadas dos picos nevados pra floresta tropical, né? Rs:


Mas sem brincadeira, fico tocado como no site oficial eles usam o esporte pra tentar promover boas causas em seu país, tão assolado por violência, fome, corrupção e descaso internacional (a começar por nossa ex-querda bananeira, quenga de ditador e terrorista, passando pelo Zesteite, que sempre vendeu arma pras gangues). A culpa é minha por não ter localizado “Contina” no mapa, mas além do espírito artístico peculiar, vale a pena você dar uma lida no conteúdo, mesmo que esteja na língua de Molière:


sábado, 14 de fevereiro de 2026

[REPOST] Giovinezza (hino fascista, 1925)



Quando publiquei este conteúdo pela primeira vez, em 30 de julho de 2019, minha intenção era apresentar o modo como se tocava em geral o “Hino da Itália” em cerimônias oficiais durante a era fascista de Benito Mussolini (ou “Vintênio Fascista”, 1922-1944): a primeira parte da Fanfara e Marcia Reale d’Ordinanza (Fanfarra e Marcha Real da Ordenança), por vezes tocada sem a Fanfara, como nos áudios abaixo, logo seguida por uma execução instrumental da canção patriótica Giovinezza (Juventude; em italiano moderno, a palavra mais corrente é “gioventù”), adaptada em 1925 pra ser o hino do Partido Nacional Fascista (PNF).

Porém, minha intenção era atualizar a publicação no futuro, com a letra inteira de Giovinezza traduzida pro português, pois eu só tinha inserido a primeira estrofe e o refrão. Só hoje tomei coragem pra fazer isso, e abaixo temos a versão que foi adotada e oficializada pelo PNF em 1925, a mais conhecida ao redor do mundo. Há uma primeira versão datada de 1922, quando Mussolini foi escolhido primeiro-ministro, e outra de 1944, quando o ditador em fuga tentou fundar uma república fascista no norte da Itália; não as traduzi. Mas a história da canção, como se lê abaixo, é mais antiga e complexa.

Adaptei levemente o conteúdo de 2019, e apenas adiciono que era comum, sobretudo na última versão, cantar-se no fim do refrão “Per Benito Mussolini:/Eja, eja, alalà!”. Pode-se traduzir a ideia como “Por Benito Mussolini:/[Gritemos] Hip, hip, hurra!”, mas a versão italiana do grito de guerra, posteriormente indissociável dos ritos fascistas, foi criada por Gabriele D’Annunzio em 1917, enquanto lutava na 1.ª Guerra Mundial, justamente pra substituir o “bárbaro” Hip, hip, hurra! D’Annunzio é considerado uma das maiores inspirações do fascismo italiano, sobretudo no aspecto ritual, mas ele mesmo nunca participou ativamente da ditadura nem se autodeclarava fascista.

A Marcia Reale foi a melodia empregada pelo Reino da Itália desde a unificação, em 1861, até a proclamação da república por um plebiscito, em 1946. Não está claro como e quando surgiu a Fanfarra e Marcha Real, em algum momento do início da década de 1830, mas a versão atual da Marcha é atribuída a Giuseppe Gabetti. Com a abolição da monarquia, em 1946, a melodia foi abandonada, nunca chegando a ter uma letra oficial, apesar dos muitos textos apresentados. Mesmo sob o comando de facto do “Duce” desde 1922, a Itália continuou sendo formalmente uma monarquia, nunca também chegando a se chamar “Império Italiano”, apesar de existir um incipiente império colonial na África e nos Bálcãs até o fim da 2.ª Guerra Mundial.

Giovinezza era originalmente uma canção estudantil com melodia de Giuseppe Blanc e letra de Nino Oxilia, surgida em 1909 sob o título Il commiato. Com letras sempre mudadas, a melodia também baseou os hinos da seção dos “Arditi” do Exército Italiano (1917, letra anônima), dos esquadristas paramilitares do fascismo (1919, letra de Marcello Manni) e finalmente do partido fascista (1925, letra de Salvatore Gotta). Acossado pelos Aliados, ao fundar a breve República Social Italiana (ou República de Salò, 1943-45), Mussolini adotou Giovinezza, com outra letra, como hino único dessa entidade, já desligada da monarquia. Hoje, embora a Itália proíba a apologia do fascismo ou a refundação de seu partido, não há lei que interdite a execução pública de Giovinezza.

Entre 1943 e 1944, o Reino da Itália chegou a utilizar La canzone del Piave como hino nacional, no processo de crise institucional e de desintegração causado pelo conflito mundial. Logo depois a Marcia Reale d’Ordinanza foi reintroduzida, na esperança de que a monarquia pudesse seguir seu caminho livre do fascismo. Mas um referendo promovido em 2 e 3 de junho de 1946, com resultado proclamado no dia 10, optou pela adoção do regime republicano (54,3% contra 45,7%), com a maior parte do sul da Itália (incluindo a Sicília e a Sardenha), que já tinha sido um reino independente no passado, votando a favor do rei. Umberto 2.º, o último monarca, filho e sucessor do célebre Vittorio Emanuele (Vitório Emanuel) 3.º, partiu então ao exílio, pra nunca mais voltar.

Como hino nacional da nova República Italiana, adotou-se então na prática Il Canto degli Italiani, canção que data de 1847, mas só em 2017 foi oficializada por lei. Curiosidade: apenas em 1945, ainda antes do fim da guerra e com o norte da Itália ocupado pelos alemães pró-Mussolini, o governo de Roma permitiu por decreto o sufrágio feminino, praticado pela primeira vez no plebiscito de 1946, quando mais mulheres do que homens estavam aptas a votar. Eu baixei a Marcia Reale desta página, tendo somente, no primeiro vídeo, diminuído um pouco o andamento pra você aproveitar melhor, e no segundo, cortado alguns trechos que não eram essenciais pra ilustração. A versão de Giovinezza é cantada por Beniamino Gigli, mas conservei apenas a abertura instrumental, que alonguei um pouco pra poder ilustrar bem.

O terceiro vídeo é parte da cena em que o general fascista Rodolfo Graziani chega a Benghazi, na Líbia italiana, pra combater uma rebelião anticolonial liderada pelo imã e professor Omar al-Mukhtar em 1931. Ela foi extraída do filme líbio Lion of the Desert (O leão do deserto), que foi estrelado em 1981 pelo célebre Anthony Quinn (Zorba, o grego) no papel de Al-Mukhtar e chegou a ser censurado na Itália (Il leone del deserto) logo depois de ser lançado. Segundo o então primeiro-ministro Giulio Andreotti, a obra “ofende a honra do exército italiano”, mas teve a execução pública enfim liberada em 2009, com diversas reprises pela plataforma Sky. Com filmagens nos EUA, na Itália e na Líbia, o ex-ditador líbio Muammar Gaddafi financiou parte dos trabalhos com 35 milhões de dólares, chegando a pedir a inclusão de uma cena historicamente inexata, mas transmitindo várias vezes o filme na TV líbia. Oliver Reed esteve no papel do general Graziani, e Rod Steiger no de Benito Mussolini.

Na cena do filme, Graziani é acompanhado ainda do príncipe Amedeo (Amadeu) de Saboia-Aosta, o duque de Aosta (1898-1942), que deu apoio ao fascismo e foi vice-rei da Etiópia (1937) e governador-geral e comandante-em-chefe da África Oriental Italiana. Sky du Mont faz seu papel em O leão do deserto. Eu baixei o vídeo desta página, que já tem um trecho selecionado (da dublagem francesa do filme), e eu fiz mais cortes ainda no começo e no fim.

Todos os dados históricos e sobre o filme, bem como os arquivos das bandeiras, estão na Wikipédia italiana. No primeiro vídeo, a bandeira era a nacional e mercantil do Reino da Itália, sendo uma versão com a coroa em cima do brasão (bandeira igual à do Reino da Sardenha em 1851-61) usada como “bandeira de Estado” em escritórios, residências dos monarcas, sedes parlamentares e representações diplomáticas. No segundo vídeo, a outra bandeira era usada apenas como bandeira de guerra da República de Salò, sendo a nacional idêntica à atual, ou seja, sem o brasão real nem a águia. Seguem abaixo os três vídeos, a letra em italiano da Giovinezza fascista (1925) e sua tradução:






Prefiro não comentar...

1. Salve o popolo d’eroi,
salve o patria immortale,
son rinati i figli tuoi
con la fede e l’ideale.
Il valor dei tuoi guerrieri,
la virtù dei tuoi pionieri,
la vision dell’Alighieri
oggi brilla in tutti i cuor.

Ritornello (2x):
Giovinezza, giovinezza,
primavera di bellezza,
per la vita, nell’asprezza,
il tuo canto squilla e va!

2. Nell’Italia nei confini,
son rifatti gli Italiani,
li ha rifatti Mussolini
per la guerra di domani.
Per la gloria del lavoro,
per la pace e per l’alloro,
per la gogna di coloro
che la Patria rinnegar.

(Ritornello 2x)

3. I poeti e gli artigiani,
i signori e i contadini,
con orgoglio d’Italiani
giuran fede a Mussolini.
Non v’è povero quartiere,
che non mandi le sue schiere,
che non spieghi le bandiere
del Fascismo redentor.

(Ritornello 2x)

____________________


1. Salve, ó povo de heróis!
Salve, ó pátria imortal!
Os seus filhos renasceram
com a fé e com o ideal.
A bravura dos seus soldados,
a virtude dos seus pioneiros
e a ampla visão de [Dante] Alighieri
brilham hoje em cada coração.

Refrão (2x):
Juventude, ó juventude,
primavera cheia de beleza,
pela vida, nas dificuldades,
o seu canto segue ressoando!

2. Nos confins da Itália,
os italianos foram refeitos,
Mussolini os refez
para a guerra de amanhã.
Pela glória do trabalho,
pela paz e pelo louro [i.e. vitória],
pela vergonha daqueles
que renegaram a Pátria.

(Refrão 2x)

3. Os poetas e os artesãos,
os fazendeiros e os camponeses,
com orgulho de italianos
juram fé a Mussolini.
Não existe bairro pobre
que não mande suas tropas,
que não desfralde as bandeiras
do Fascismo redentor.

(Refrão 2x)



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O putinismo é o novo fascismo (2022)

Esses dias, um amigo meu me repassou este artigo escrito pela historiadora Tamara Eidelman em 2022 e publicado na coluna “State of Affairs” da revista ortodoxa The Wheel. Não sei se foi escrito direto em inglês ou se foi traduzido a partir do russo. Em português, ele se chama “O putinismo como o novo fascismo” e, em pleno início da invasão russa à Ucrânia, a renomada intelectual associa vários aspectos da ditadura de Vladimir Putin – que ficariam muito mais fortes e evidentes no decorrer da matança – ao que o filósofo Umberto Eco chamava de “fascismo eterno” ou “ur-fascismo”. São algumas características de ideologias, partidos ou regimes que o escritor italiano associava não ao encaixe automático no rótulo de fascismo, mas à possibilidade de evoluírem nesse sentido e, portanto, causarem os mesmos estragos.

O sufixo “ur-”, típico do inglês e, sobretudo, do alemão, significa “proto-”, “primitivo”, “original”, ou seja, o núcleo mínimo pra que possa aparecer um fenômeno fascista; não precisa ser a lista completa, mas a verificação da maioria dos itens já acende o sinal de alerta. Se jogarmos no Google, o texto de Eco costuma estar associado a portais de esquerda na década de 2010, sobretudo quando Jair Bolsonaro começava a ganhar notoriedade. Contudo, se aguçarmos nosso senso crítico, podemos associá-lo não só ao putinismo (em especial a Aleksandr Dugin, seguidor de Julius Evola), mas também a Iosif Stalin e ao inferno no qual ele transformou a URSS. O ex-querdista mérdio vai repugnar ambas as associações, só tendo consumido, claro, material de propaganda, e até hoje vai suportar a vergonha de vociferar que “Putin é de extrema-direita, mas não fascista”.

Eidelman, hoje obviamente exilada, tem seu próprio canal no YouTube, com verdadeiras aulas magnas sobre vários períodos da história e uma abordagem pra fazer qualquer ur-idiota útil ou ur-quenga de ditador, à direita ou à esquerda, querer enterrar a cara no chão. Vitório Sorotiuk já dissertou magistralmente sobre o que os ucranianos batizaram então “rashizm”, mas pôde ser facilmente adaptado pro português como “ruscismo” (russo + fascismo). O historiador Timothy Snyder foi outro que defendeu a pertinência e até a “elegância” do termo. Sem mais, e com ocasionais notas e adaptações minhas, vamos lá:


Muitas vezes me pedem para comparar a situação atual na Rússia com a União Soviética de Stalin e a Alemanha de Hitler. Não sou a favor de tais comparações. Elas sempre me parecem um tanto artificiais. Países, épocas e pessoas são sempre diferentes, e tais comparações só podem ser usadas como jogos mentais. É possível observar algumas características em comum, mas é evidente que o regime atual na Rússia é mais brando do que na época de Stalin, e tenho certeza de que não é tão terrível quanto a Alemanha na década de 1930 – por enquanto. Mas, ao mesmo tempo, todo historiador pode tentar analisar e descrever a situação de um país. E para mim, é claro que o regime político russo, a Rússia no momento, pode ser descrito como fascista.

O grande linguista e filósofo italiano Umberto Eco formulou uma lista de 14 características do fascismo. Infelizmente, podemos ver todas ou a maioria delas na Rússia de hoje. Devemos entender que o fascismo nem sempre é a Alemanha nazista, nem sempre é Auschwitz, mas possui muitas características desagradáveis. Vejamos o que Umberto Eco escreveu.

1. O culto à tradição. “Basta olhar para o programa de estudos de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista foi alimentada por elementos tradicionalistas, sincréticos e ocultistas.” (Umberto Eco, “Ur-Fascism,” New York Review of Books, June 22, 1995,)

O culto à tradição certamente está presente na Rússia. Não apenas hoje, é claro. Teoricamente, o culto à tradição sempre esteve presente. Mas nos últimos 10 ou 20 anos, ele se tornou cada vez mais forte, e a tradição agora é percebida como uma compreensão muito agressiva e fundamentalista do cristianismo e das antigas tradições russas em geral. Isso significa uma vida familiar muito tradicional, juntamente com a permissão moral e até judicial da violência doméstica. Ao mesmo tempo, fica claro que o Estado russo hoje se entende como a continuação do Estado russo anterior à revolução. Podemos identificar muitas coisas boas na Rússia antes de 1917, mas a Rússia de hoje em dia absorve principalmente aquilo que, na minha opinião, levou à revolução há mais de cem anos, como o cristianismo rígido, o desejo de impedir quaisquer reformas e assim por diante. Portanto, sim, o culto à tradição faz parte da Rússia atual.

2. Rejeição do modernismo. “O Iluminismo, a Idade da Razão, é visto como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o ur-fascismo pode ser definido como irracionalismo.”

A Era do Iluminismo está fortemente ligada ao desenvolvimento europeu moderno. Na maioria dos países europeus, a vida se baseia hoje nas ideias da Revolução Francesa: liberté (liberdade), fraternité (fraternidade), égalité (igualdade). Essas ideias foram formuladas no final do século 18 e vêm se desenvolvendo desde então. No momento, a Rússia está rejeitando a maioria das coisas que vêm do Ocidente, especialmente aquelas relacionadas aos direitos humanos (que também vieram do Iluminismo), e está promovendo a velha ideia de que o Ocidente é frio demais, racional demais, intelectual demais, enquanto a Rússia é emocional, o que significa irracional.

3. O culto da ação pela ação. “Sendo a ação bela em si mesma, ela deve ser tomada antes ou sem qualquer reflexão prévia. Pensar é uma forma de castração [lit. “emasculação”].”

Pode não ser tão claro quanto era na Alemanha da década de 1930 ou na Itália de Mussolini, mas o sr. Putin se promove como uma imagem de tal ação. Pelo menos, ele tentou antes da guerra. Hoje em dia o vemos muito raramente, mas antes da guerra e antes da covid, ele sempre se apresentava como uma pessoa fisicamente muito forte, alguém que podia andar a cavalo, voar de parapente, nadar, lutar e assim por diante. Era a imagem de um machão que nunca pensa muito, um exemplo para o povo russo.

4. Discordar é traição. “O espírito crítico faz distinções, e distinguir é um sinal de modernismo. Na cultura moderna, a comunidade científica elogia a discordância como uma forma de aprimorar o conhecimento.”

Na Rússia, é claro que discordar é traição. Lembre-se das centenas, talvez milhares, de russos que tentaram demonstrar sua discordância. Primeiro, Aleksei Navalny, um dos mais importantes líderes da oposição na Rússia, que agora está preso e recebe uma nova sentença a cada poucos meses [como se sabe, ele “seria morrido” em fevereiro em 2024]. E é claro que a ideia das autoridades de Putin é mantê-lo na prisão o máximo de tempo possível. Mas outras pessoas que não são tão famosas quanto Navalny também são presas por discordar, por dizer que a paz é melhor do que a guerra, ou simplesmente por aparecer num local público com um pedaço de papel em branco no qual nada está escrito. Até mesmo algo assim é entendido como discordância perigosa.

5. Medo da diferença. “O primeiro apelo de um movimento fascista ou prematuramente fascista é um apelo contra os intrusos. Assim, o ur-fascismo é racista por definição.”

É evidente que a Rússia é um país verdadeiramente racista, e esse racismo é apoiado e promovido pelo Estado. Temos exemplos terríveis e repugnantes de atitudes racistas contra migrantes da Ásia Central e contra pessoas não brancas. No momento, por mais absurdo que isso pareça, existe uma espécie de racismo contra o povo ucraniano, que é todo apresentado como nazista, como um inimigo perigoso.

6. Apelo à frustração social. “Uma das características mais típicas do fascismo histórico foi o apelo a uma classe média frustrada, uma classe que sofria com uma crise econômica ou sentimentos de humilhação política e que se sentia amedrontada pela pressão dos grupos sociais mais baixos.”

Não tenho certeza se o regime russo visa exatamente a classe média russa, porque a classe média é bastante fraca na Rússia, mas é claro que Putin, desde o início de seu governo, explorou esse sentimento de frustração social que milhões de russos infelizmente sentem desde a década de 1990. Após o colapso da União Soviética, as pessoas se sentiram humilhadas pela má situação econômica, o que levou muitas pessoas – que estavam acostumadas a um certo nível de conforto nos tempos soviéticos – a perderem seus cargos, seus empregos, seu respeito próprio e, claro, seu grande império soviético, com o qual se identificavam. Assim, quando Putin começou a promover sentimentos imperialistas com a anexação da Crimeia em 2014, isso, estranha e tristemente, deu a muitas pessoas um sentimento de orgulho nacional, justamente por causa da frustração social que sentiam antes.

7. Obsessão por conspirações. “Na raiz da psicologia ur-fascista está a obsessão por conspirações, possivelmente internacionais. Os seguidores precisam se sentir sitiados.”

Esta é uma ideia favorita agora; muitas forças diferentes estão conspirando contra a Rússia! O imperialismo americano, claro, é suspeito de querer derrubar o regime russo e enfraquecer a Rússia, como se a Rússia não fosse fraca por si só. Agora os europeus também são considerados inimigos. A União Europeia está conspirando contra a Rússia; eles não querem nosso gás e petróleo. Os ucranianos fazem parte dessa conspiração. E a oposição russa é vista como ligada a esses inimigos terríveis.

8. O inimigo é forte e fraco ao mesmo tempo. “Por meio de uma mudança contínua do foco retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, muito fortes e muito fracos.”

Isso fica claro se observarmos a imagem dos Estados Unidos na propaganda russa. Por um lado, as pessoas são informadas de que os EUA estão tramando para destruir a Rússia. Estão tentando trazer uma série de coisas ruins, do McDonald’s à corrupção moral. Essa imagem mostra os EUA como um inimigo forte e terrível. Ao mesmo tempo, a propaganda apresenta os EUA como um país fraco. Pessoas que se consideram especialistas em política explicam que o país logo entrará em colapso, que a economia americana é fraca, que a situação política americana é muito turbulenta. Assim, os EUA, por um lado, são um inimigo terrível, mas, por outro, caminham rapidamente para sua ruína.

9. O pacifismo é negociar com o inimigo. “Para o ur-fascismo, não há luta pela vida, mas sim a vida é vivida para a luta.”

No momento, na Rússia, não se pode nem chamar de “guerra” o que está acontecendo na Ucrânia. Há uma expressão usada, uma descrição muito estranha dessa situação: a “operação especial”. Não se pode criticar a guerra porque a Rússia não está em guerra com ninguém. A Rússia é apresentada como um país pacífico, embora ao mesmo tempo seja um país que avança com seus exércitos porque luta pela razão certa. Você não pode se opor a isso. Se o fizer, você é um inimigo; ou pior ainda, você é um traidor.

10. Desprezo pelos fracos. “O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária.”

Ser uma pessoa fraca, ou ter qualquer tipo de fraqueza, é considerado vergonhoso na Rússia. Existem milhares e milhares de pessoas com deficiência, que recebem muito pouca ajuda do Estado. E (talvez ainda pior) pessoas com deficiência, crianças com problemas físicos ou mentais, são constantemente ridicularizadas, às vezes perseguidas na escola, deixadas em isolamento. Idosos, assim como qualquer um que não seja fisicamente forte e capaz de espancar quem quiser, são considerados ninguém ou quase ninguém.

11. Todos são educados para se tornarem heróis. “Na ideologia ur-fascista, o heroísmo é a norma. Esse culto ao heroísmo está estritamente ligado com o culto à morte.”

Era muito forte na época de Stalin. Os atos suicidas durante a guerra eram apresentados como uma espécie de modelo para todos. Todos deveriam estar preparados para morrer pela pátria. E agora, durante esta guerra que não diz seu nome, também se espera que as pessoas lutem pela pátria – pelo menos é o que dizem (não se pode julgar o que elas sentem ou pensam). Dizem que estão prontas para morrer e para entregar seus filhos ao Estado, porque ser um herói é melhor do que estar vivo.

12. Machismo e armamentismo. “O machismo implica tanto desprezo pelas mulheres quanto intolerância e condenação de hábitos sexuais não convencionais, da castidade à homossexualidade.”

Não tenho certeza sobre a castidade, mas quanto à homossexualidade, assim como aos direitos das mulheres, tudo isso está fora de questão na Rússia de hoje. A homofobia é generalizada; a violência doméstica está em toda parte e é mais ou menos apoiada pelo Estado e pela Igreja. É visto como uma antiga tradição russa que o marido possa bater na esposa e o pai possa espancar e maltratar os filhos. Não há nada de errado nisso. Talvez se deva moderar a violência – não os espancar até a morte –, mas a ideia de maus-tratos físicos é considerada uma tradição russa.

13. Populismo seletivo. “Há em nosso futuro um populismo da televisão ou internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a Voz do Povo.”

Isso é constantemente evidente na TV e em comícios organizados pelo Estado, onde milhares de professores, profissionais da saúde ou outros que recebem salário do Estado são convocados para demonstrar seu apoio. Jovens choram e gritam o quanto adoram seu presidente. Às vezes, tudo isso é completamente falso. Às vezes, as pessoas são dominadas por essa onda de entusiasmo organizado, e esses eventos são apresentados como a vontade de todo o país. Agora temos um debate acalorado sobre quantas pessoas realmente apoiam a guerra. Embora seja claro que muitas pessoas apoiam, nem todos têm tanta certeza de que os apoiadores da guerra sejam realmente tão numerosos quanto a propaganda apresenta. Mostrar todos esses comícios e grupos de idosas gritando seu apoio a Putin é uma forma de sugerir o quanto as pessoas amam seu presidente.

14. O ur-fascismo fala em novilíngua. “Todos os livros escolares nazistas ou fascistas faziam uso de um vocabulário empobrecido e uma sintaxe elementar, a fim de limitar os instrumentos para o raciocínio complexo e crítico.”

Não é tão fácil explicar isso para um público de língua inglesa, mas a novilíngua, como entendida por George Orwell, está claramente presente na Rússia. A língua russa está se tornando cada vez mais empobrecida, cada vez mais primitiva. Há um ou dois anos, um linguista russo muito importante e conhecido, Gasan Guseinov, escreveu um artigo chamando o idioma russo oficial – o idioma usado na mídia atualmente – de uma língua “porcaria”. Isso gerou uma onda de protestos e mudou a posição social desse acadêmico anteriormente respeitado. Ele deixou a Rússia e agora leciona em algum lugar da Europa. Ficou claro que todos os protestos e discursos de ódio dirigidos contra essa pessoa e suas ideias foram inspirados pelo Estado, porque o Estado reconheceu a veracidade de suas acusações.

Todas essas 14 características do fascismo estão presentes na Rússia de hoje, algumas em maior e outras em menor grau. É uma conclusão muito triste e eu realmente espero que não seja assim para sempre. Espero que eu ainda esteja viva para ver mudanças. Digamos não à guerra.



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Concurso de História da República (USP)

Este homem de boina é Lincoln Secco, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Lindo, tesão, bonito e gostosão, todos já sabemos. Mas este é um momento peculiar: a aplicação da prova escrita, na manhã de 9 de dezembro de 2025, pro concurso de professor doutor em História do Brasil República no Departamento de História da mesma FFLCH. Sim, foi pouco antes do início da aplicação. Sim, o evento não era público. Sim, Lincoln não me deu autorização pra que eu o fotografasse. Porém, ele não está fazendo nada de mais (tipo usando uma sunguinha de onça), não estou revelando nenhum segredo protegido por contrato e não há qualquer montagem por IA, essa praga que hoje assola nossas relações sociais. Ele está apenas de pé, apoiado numa mesa e segurando seu exemplar do dia da Folha de S. Paulo com o novo tamanho zoomer.

Como se pode deduzir do que eu escrevi acima, participei do concurso: era a primeira vez que ia à FFLCH sozinho, de carro, desde maio de 2019, quando conheci o local ao ler uma comunicação num evento de Humanas. A prova escrita teve a peculiaridade de não ter “nenhuma chamada”, ou seja, sorteado um dos pontos anunciados no edital (neste caso o 9, isto é, “O uso da violência como política de Estado: fundamentação e políticas repressivas”), simplesmente tínhamos que nos virar. Minha primeira ideia foi fazer um texto dissertativo, no modelo de uma redação de vestibular, versando sobre o tema, com o tamanho e conteúdo que você pode ver abaixo. Novamente, pra tornar as coisas “mais rápidas”, não digitei nem digitalizei o texto, mas apaguei as rubricas dos cinco professores da banca, que estavam embaixo. Na primeira hora, antes de começarmos a redigir o texto final, pudemos consultar todo o material que conseguíssemos trazer; como na parte propriamente “histórica” eu achava que me garantia, tentei apenas trazer livros sobre temas “transversais”, como gênero, raça e esse ponto 9 que caiu.

Por sorte, me deu na cachola de trazer o Estratégias da ilusão, de Paulo Sérgio Pinheiro, sobre a estratégia da Comintern pra América Latina, mas que tem o famoso “livro dentro do livro” – um capítulo que trata da violência institucionalizada pelo Estado e seu recorte classista –, e duas coletâneas com artigos publicados pelo centro de pesquisa ao qual eu era afiliado na Unicamp, o CECULT, sobre cultura popular e manifestações sociais. Não tive problemas em redigir tudo à mão de uma vez, embora eu não ache ideal minha própria letra manuscrita; na verdade, ninguém nunca gosta da própria, mas garanto que se eu optasse pela cursiva que aprendemos na escola, ia sair muito pior do que esse estilo “americano”. À tarde, li esta cópia da prova, que me foi dada, em voz alta diante da banca, procedimento considerado arcaico e que muitas universidades já abandonaram.

No dia seguinte, as “leituras” continuariam, mas o primeiro imprevisto foi um acidente nesse mesmo dia 10 com uma das membras da banca, dia em que São Paulo também sofreu com uma ventania histórica como não se registrava desde a década de 1960. O processo foi imediatamente suspenso, e recebemos por e-mail o comunicado de que as outras leituras e o anúncio do resultado parcial tinham sido postergados pra 3 de fevereiro de 2026. Minha ansiedade continuou nesses quase dois meses, pois ainda por cima não sabia se valeria a pena estudar mais um pouco, mesmo não sabendo se passaria ou não pra segunda fase (arguição do dossiê e prova didática). No dia marcado, fui à capital só pra saber que eu tinha sido eliminado, portanto, acredito que tudo o que se encontra aqui pode “passar pra história”...

Se você não gosta de homens maduros de boina apoiados numa mesa e segurando um jornal, deixo outras duas imagens mais saborosas, antes do “saber sabor”: meus respectivos almoços dos dias 8 (estrogonofe) e 9 (lasanha) de dezembro no restaurante italiano que fica no subsolo do “prédio das Letras” da FFLCH e que recomendo fortemente, rs:



















quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A ciência de viver bem... em 2006

Nunca assinei revistas, mas de 2003 a 2005 eu comprava na banca toda semana a revista Mundo Estranho, que inicialmente era mais voltada pra educação e curiosidades, mas depois foi se tornando um pastiche chato de entretenimento nerd (do qual nunca gostei). Ela era fininha, portanto, mais confortável de manejar e mais rápida de ler, mas depois fiz minha transição pra realmente densa Superinteressante, com matérias mais longas e mais exigentes de atenção, a qual comprei até 2007. Achei nela o mesmo conteúdo de que a Mundo Estranho, a meu ver, começou a carecer, mas com o tempo os temas também se tornaram desinteressantes ou apelativos e minhas horas livres pra concentração, agora dedicadas à graduação em História, foram escasseando.

Pode parecer estranho, mas não fui um nerd “típico” como se podia pensar de um adolescente da primeira metade dos 2000. Meu lance sempre foram os estudos normais e a busca por conhecer mais assuntos internacionais, e não diversões, filmes, jogos e literatura com conteúdo peculiar, fantástico ou complexo, em comparação com o padrão idiota de uma revista Capricho ou de uma MTV da vida. Por isso, curiosamente, assuntos que já em 2006-2007 não me atraíam muito eram incursões exaustivas em exatas e biológicas e até mesmo séries (incluindo as distópicas) estrangeiras! E quanto mais as revistas iam passando pra essa pegada de “cultura pop”, mais eu as ia deixando.

Mesmo assim, mantive pequenas coleções de ambas as revistas por alguns anos (eu tinha guardadas até mesmo umas Veja com matérias que tinham me agradado muito, rs), mas antes de me desfazer delas, escaneei esta matéria não muito longa, saída há pouco mais de 20 anos e que me impressionou muito na época. Eu guardo um afeto por ela porque exatamente nessa época fiz o vestibular e entrei na faculdade, olha só, duas décadas redondas! Com texto de uma tal Mariana Sgarioni e somada ao “descolado” editorial do jornalista Denis Russo (que se tornaria um objeto de ódio do finado Olavo de Carvalho no futuro), essa peça em pleno apogeu do Orkut e pouco anterior à era dos smartphones me impressiona em retrospecto por duas razões: a pertinência, até maior e muito mais comprovada, de vários dos conselhos citados e o abismo entre o tipo de sociedade a que leitores e editores aspiravam na época e o fosso civilizacional, com pitadas do velho apocalipse nuclear da “guerra fria”, em que parecemos nos encontrar em 2026!

Se “Está bom 2006” pra quem ainda se informava basicamente pela imprensa e pela TV, quando até os portais de notícias estavam engatinhando e Denis Russo externalizava seu humor de tiozão pra comemorar o sucesso de vendas, 2026 consegue estar medonho até pra quem, com o celular na chupeta (não aquele, claro, de telinha azul e que só suportava ligação e SMS!), já nasceu no início daquela década, quando mendigamos curtidas, visualizações e comentários num oceano de violência gratuita e, coroando a “era da pós-verdade”, montagens por IA. A passagem do tempo consegue tornar as coisas tão engraçadas ou constrangedoras que só a capa acima já traz elementos sobre os quais poderia passar horas dissertando:

  • A copa da Alemanha, quatro anos depois da euforia do “penta” sobre a mesma Alemanha e que inauguraria nossa “maldição das quartas” com aquela suspeita “arrumada na meia” por Roberto Carlos e a derrota por um único gol da França após esse arroubo estético.
  • Como assim, “Por que os gays são gays”??? Cada um faz o que quiser da vida, e hoje já nem cabe tanta letra no antigo “GLS”, pra não falar das “dezenas de gêneros” (como diria Putin) que atemorizam os criadores de formulários!
  • “A revolução do software livre”... caí de rir de minha cadeira! Esse era o mantra de meus conhecidos fissurados em Linux, mas depois dos GAFAM, foi mais um sonho que passou.
  • O melhor drone, ops, avião de papel do mundo... A Ucrânia não gostou nada disso!
  • “Você já quis matar alguém?” Melhor ficar quieto, ainda mais que hoje, com as redes antissociais, você não precisa “querer”, mas já ameaça alguém diretamente! E tenho um pensamento sério pelas cada vez mais frequentes vítimas de feminicídio.

Por preguiça e ânsia de produção, não copiei o texto de meu PDF codificado, mas apenas transformei o arquivo em várias imagens separadas. Se alguém se interessar pela cópia original, pode entrar em contato comigo por comentário ou outros meios, e eu repasso por e-mail. O legal é que o “Desligue a TV” me lembra muito uma comunidade orkutiana chamada “Desligue a TV e vá ler um livro”, que pelo jeito não deixou adeptos, rs. Não colar a cara no computador (que nem era visto como um “perigo”), então, nem previa o dano generalizado que os smartphones iam causar em nosso organismo. Pra não falar das vacinas.

Tire suas próprias conclusões sobre 2006 ou 2026 (e 2016, Dilma?) estar ou ter sido bom ou ruim... E lembre-se: use camisinha antes de comer macacos!























terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Turismo na República Checa (2026)

Este folheto de 12 páginas veio junto com uma revista de viagens da Editora Europa que minha mãe assina. Coloquei o ano porque se alguém chegar aqui no futuro, algumas informações podem ter envelhecido, descontados os dados culturais em geral. Não é meu objetivo nem fui pago pra fazer propaganda da agência nem do consulado checo no Brasil, apenas achei as imagens bonitas e decidi reproduzir aqui, rs. Quem sabe você mesmo não ache útil o conteúdo? Portanto, bom proveito!

De fato, existe essa oscilação na ortografia e na nomenclatura. O gentílico “tcheco” imita a pronúncia original, mas como o som “tch” não é nativo do português, tem sido habitual assimilar pra “checo”; ambas as formas são consideradas corretas, embora eu sempre prefira tudo o que seja o mais assimilado possível. Quanto ao país, “República (T)Checa” sempre foi comum, porque ela só existe separada da Eslováquia desde 1993 e nos acostumamos ao nome oficial. A forma abreviada, mais prática, já é comum em inglês (Czechia) e em alguns idiomas da região e está ganhando espaço no português; portanto, apesar do título desta publicação, sempre que possível uso e vou usar Chéquia na página.