quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Votos de Emmanuel Macron pra 2026

Eu mesmo traduzi a partir do texto original publicado no portal da presidência francesa, e seguem abaixo o discurso completo e o vídeo incorporado a partir do canal pessoal de Emmanuel Macron:


Francesas e franceses, meus caros compatriotas,

Nesta noite de 31 de dezembro, antes de tudo, penso em quem garante a continuidade da Nação: forças de segurança, bombeiros, voluntários, profissionais de saúde, trabalhadores, todos que esta noite, como sempre, estão na linha de frente diante das dificuldades. Proteger, cuidar, alimentar, ajudar, prestar auxílio e fraternidade, assim segue a vida nas grandes nações que resistem a cada dia graças à dedicação de seus cidadãos. Penso, em nome de todos vocês, em quem está sozinho, doente, sofrendo ou desamparado. Sei como a situação é difícil pra muitos vocês, enfrentando sofrimentos pessoais e infortúnios da vida, e quero lhes expressar nosso apoio e afeto.

Graças ao empenho de todos, graças a vocês, estamos resistindo. Sim, nosso país resiste. Reforçado por suas instituições, serviços públicos, pelas forças armadas mais eficazes da Europa e pelo empenho de seus soldados. Reforçado por nossa economia, na qual nunca tantos franceses quanto agora tiveram um emprego, o crescimento segue estável e nossa inflação está entre as mais baixas da zona do euro. Reforçados por nossa pesquisa, excelência acadêmica e, também, iniciativas diplomáticas, seja pela paz, pelo clima ou por nossos oceanos.

Mas, além de tudo isso, ninguém ignora as desordens do mundo e nossas próprias falhas. Nosso mundo está se tornando mais hostil a cada dia. A guerra e a instabilidade persistem no Oriente Médio e no Oriente Próximo, impactando nossas economias, interesses e, às vezes, coesão. E a guerra continua devastando o solo europeu, com particular intensidade desde que a Rússia decidiu agredir novamente a Ucrânia, há quase quatro anos. Estamos assistindo ao retorno dos impérios, o questionamento da ordem internacional, uma vastidão de guerras comerciais, competição tecnológica e, frequentemente, instabilidade.

[NOTA: No vocabulário geopolítico do colonialismo europeu, “Oriente Próximo” costumava designar mais ou menos a região histórica do Levante (Al-Shaam), a Turquia e, por vezes, o Egito. O termo “Oriente Médio” nasceu nos EUA durante a “guerra fria” e absorveu o primeiro em frequência, alargando-se à Líbia, à região do Golfo (incluindo Iraque) e ao Afeganistão. Na França, “Oriente Próximo” ainda costuma ser usado, sem muito critério, como sinônimo de “Oriente Médio”, embora ambos os termos sejam problemáticos do ponto de vista da precisão e da decolonialidade.]

Vejo também nossas próprias divisões e dúvidas, a crescente solidão existente na sociedade, o declínio de nossa natalidade, a insegurança e as dificuldades com o poder de compra.

Sei de todas as inquietudes, por vezes ódios, que continuam existindo no país e partilho muitos desses sentimentos. Essas premências exigem respostas. Desde as primeiras semanas do ano que começa, o Governo e o Parlamento vão ter de chegar a acordos pra garantir que a nação tenha um orçamento. É indispensável. A partir do início de 2026, vamos ter de agir, apoiar nossos agricultores perante as crises e os proteger de decisões que possam ameaçar a nossa capacidade de produção, bem como nossa segurança alimentar. Vamos ter de fortalecer ainda mais nossa economia, simplificando as regras pra nossos empresários, bem como pra nossos agricultores. Vamos ter de perseverar nos esforços contra a insegurança e todas as formas de incivilidade, travando um combate incansável ao tráfico de drogas em todas as suas formas. Vamos ter de seguir recuperando o controle de nossas fronteiras francesas e europeias face à imigração ilegal, buscando a formação de nossos professores e dotando os ensinos fundamental e médio dos recursos necessários a uma transmissão melhor dos saberes fundamentais, reconhecendo as competências de nossos médicos nos consultórios e hospitais, simplificando seu trabalho e lhes permitindo de tomar mais decisões e organizar suas atividades. Vamos ter de implementar uma descentralização concreta e radical, desenvolvida em conjunto com nossos políticos locais, visando simplificar o funcionamento do país, economizar e, dessa forma, responder também às legítimas aspirações da Córsega e de vários territórios ultramarinos. Por tudo isso, e poderia enumerar aqui todos os projetos que nos aguardam, sei que o Governo está a postos e o Primeiro-Ministro, determinado a servir ao país, e a eles quero agradecer sinceramente esta noite. Isso vai exigir também a mobilização e o esforço de todos e cada um.

Este ano também vão se realizar eleições municipais em nossas cidades e vilas. E quero reiterar esta noite, a todos os prefeitos e a nossos políticos, meu reconhecimento e gratidão para com eles. Eles estiveram a meu lado e a serviço de vocês durante esses últimos anos, em cada luta, em cada crise.

Este ano, portanto, deve ser, e vai ser, um ano produtivo.

Vou cuidar com especial atenção pra que vários projetos importantes sejam concluídos. Vamos ver os primeiros passos do serviço nacional pro engajamento de nossos jovens, o que vai fortalecer o vínculo entre nossas Forças Armadas e a nação. Vamos proteger nossas crianças e adolescentes das redes sociais e das telas. Finalmente, vamos concluir o trabalho legislativo sobre a eutanásia, um tema sobre o qual me comprometi perante vocês em 2022.

No final do ano, quando for o momento certo, vai começar gradualmente a próxima campanha presidencial de 2027, a primeira em dez anos da qual não vou participar.

No entanto, vou trabalhar até o último segundo, me esforçando diariamente pra estar à altura o mandato que vocês me confiaram, e fazer de tudo pra garantir que as eleições presidenciais ocorram da forma mais pacífica possível, em particular, livres de qualquer interferência estrangeira.

Além dos projetos que temos pela frente, quero fazer três votos pra nossa nação.

Primeiro, um voto de unidade. Quaisquer que sejam os desafios, nossa história nos ensina que podemos superar e enfrentar tudo se soubermos permanecer unidos. Nunca nos esqueçamos de que nossas razões pra vivermos juntos são cada dia mais fortes do que aquilo que pode nos dividir, do que a enxurrada de emergências, sensacionalismo ou más notícias. Nossa unidade exige um combate implacável ao antissemitismo, ao racismo, a todas as formas de discriminação. Nossa unidade exige reconhecer que cada francesa e cada francês tem um papel a desempenhar na superação dos desafios diante de nós, que cada um de nós é essencial e deve ser encorajado e reconhecido. Sim, em nosso dia a dia, no fundo, desejo que tenhamos mais gentileza e humanidade.

Meu segundo voto é de força e independência. Enquanto a lei do mais forte tenta se impor nos assuntos mundiais e nossa Europa é assediada por todos os lados, devemos defender nossa independência e nossas liberdades.

Nossa independência exige que continuemos investindo em nossas Forças Armadas, forças de segurança, serviços públicos e economia, apesar das dificuldades financeiras. Por 10 anos tenho defendido amplamente, e temos feito muito, pra fortalecer essa independência enquanto europeus, e devemos acelerar o passo. A Europa enquanto defesa tem sido longamente debatida; está começando a tomar forma e, em 2026, vai acelerar. No dia 6 de janeiro, em Paris, diversos Estados europeus e aliados vão assumir compromissos concretos pra proteger a Ucrânia e garantir uma paz justa e duradoura em nosso continente europeu. Protejamos também nossa Europa industrial e agrícola, estabelecendo regras comerciais justas e equitativas diante do resto do mundo. Ousemos ser uma verdadeira potência que prioriza os empregos e as empresas europeus.

Construamos uma Europa independente na indústria espacial, na computação quântica ou na inteligência artificial. Disso depende nossa prosperidade na França e na Europa.

Meu último voto é de esperança, esperança pra nós mesmos e nossos filhos.

Não desistamos. Não desistamos do progresso, ainda possível desde que o construamos, trabalhemos duro, invistamos a longo prazo e reconheçamos que os verdadeiros avanços não ocorrem da noite pro dia, mas por vezes levam uma geração.

Não desistamos de conciliar clima, biodiversidade, crescimento e independência. Não desistamos das grandes descobertas científicas, do amor pela ciência e pela pesquisa, dos sucessos econômicos.

Não desistamos da importância da leitura, do belo e da cultura. Não desistamos, a cada dia, de ser uma nação mais solidária e fraterna. Sim, no fundo, desejo que simplesmente resistamos às tendências passageiras, porque somos franceses. Devemos nos aferrar ao que prezamos: humanidade, paz e liberdade. Vamos conseguir. Portanto, olhemos pra frente e olhemos longe, enquanto cidadãos e enquanto nação.

Meus caros compatriotas da França continental, do ultramar e que vivem no exterior, lhes desejo um 2026 muito belo e feliz.

Viva a República! Viva a França!



Este ano, visitando militares no exterior, Macronaro também resolveu fazer umas frecções igual seu ex-colega brasileiro pra ficar “bem na fita” (gíria de tiozão dos anos 90), rs: