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28 de julho de 2019

Discussão aberta sobre comunismo (2)


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Os comentários postados por usuários nos vídeos do meu canal do YouTube, a TV Eslavo, bem como nas publicações que lanço na aba “Comunidade” da página inicial, revelam muito sobre o que eles gostariam de aprender mais e o que eles já sabem sobre determinados assuntos. É claro que muitos só vêm lá pra impôr os próprios pressupostos indiscutíveis e apenas censurar outros usuários só porque eles pensam de forma diferente. Mesmo assim, o engajamento intelectual em meu canal tem crescido bastante, e ao lado de trolls bastante desocupados, têm surgido comentaristas certeiros e com muitas leituras sobre os temas, mesmo que eu não concorde com as posições deles. É óbvio que, dado o material encontrado na TV Eslavo, quase sempre as discussões são a respeito da natureza e consequências dos regimes comunistas do século 20.

Não vou aqui esgotar o tópico nem expor minhas próprias conclusões, mas mostrar como interajo com os internautas e o que mais tem sido julgado correntemente. Nesta segunda postagem reproduzo um texto da aba “Comunidade” em que ataco duas velhas inimigas minhas, a visão anticomunista e a visão pró-Stalin da história. Minha cisma é com os que traçam uma linha contínua e necessária entre Marx e os bolcheviques, seja pra deslegitimar o primeiro com a violência dos segundos, seja pra justificar o bolchevismo traçando uma continuidade com o que Marx teria escrito de melhor. Até sei que anticomunistas, na verdade, não estudam história a fundo, mas me decepciono com certos “marxistas” não porque adotam uma postura militante, mas porque reproduzem sem críticas o mesmo discurso oficial soviético (unilateral, antiacadêmico e empirista), além de fazerem pouco caso das brutalidades sob Lenin e Stalin. Os textos foram corrigidos e tiveram tiradas suas marcas de oralidade ou descontração, exceto ocasionais palavrões.



Meu texto inicial: Será que não ficou claro a ninguém que o leninismo e muito menos o stalinismo não são decorrências necessárias da obra teórica e da atuação política de Karl Marx? Claro que em algum grau nele se inspiram, mas são muito mais explicados por particularidades de sua época e local do que por uma suposta “malevolência” inata ao socialismo. Karl Marx nunca pregou em seus inscritos a perseguição e assassinato de opositores políticos ou ideológicos: quem afirma o contrário nunca leu uma página dele. Claro, também, que inspirações teóricas e intelectuais são algo muito complexo e imprevisível: Friedrich Nietzsche e Richard Wagner não eram “nazistas”. Mas condenar em bloco Karl Marx e Friedrich Engels (cuja obra é tão vasta que nem mesmo no original alemão ainda está totalmente publicada), com base apenas nas experiências bolchevique ou semelhantes e sem sequer considerar a experiência intermediária da 2.ª Internacional (que chegou aos limites do reformismo e do parlamentarismo), é tão errôneo quanto defender a terra plana!

Desculpem aos que dizem que “não existe stalinismo, e sim marxismo-leninismo”, mas me baseio nos seguintes pressupostos: 1) “Marxismo-leninismo” é apenas um rótulo propagandístico que, considerando apenas o nome, não descreve nenhum corpus efetivamente existente na realidade. Nisso sempre segui o conselho do próprio Marx, segundo os quais “uma época nunca deve ser entendida pela descrição que ela faz de si mesma”. 2) Eu uso o termo “stalinismo” não no sentido pejorativo com uso político, mas entendendo que Stalin teve uma atividade e formação intelectual, política, biográfica e comportamental tão peculiares que seria errôneo e injusto traçar uma linha reta ou unificadora dele com Marx e Lenin. Estes são essenciais pra entender Stalin, mas nem de longe esgotam o assunto. Em suma, “stalinismo” não é um termo perfeito, mas já ajuda tanto quanto “trotskismo”, “titoísmo”, “khruschovismo”, “peronismo”, “getulismo”, “franquismo” e “thatcherismo”.

Internauta 1: Mas mesmo as políticas de igualdade salarial e a luta de classes de Marx e Engels já dão a ideia de extermínio de uma parte da população (mesmo que eles não tenham falado isso abertamente). Por que eu falo isso? Primeiro, que só pelo termo “luta de classes”, que é uma rebelião dos trabalhadores, camponeses etc. contra os proprietários, banqueiros etc. (os “opressores”), já dá um conceito de matar uma pessoa, pois não existe rebelião grande sem mortes. E depois, vem o termo “igualdade de salários”, por exemplo, na qual todos na sociedade ganham a mesma coisa. Isso pode gerar sim um conflito entre essas pessoas, pois se fulano se esforçou mais do que os demais, ele não vai querer ganhar a mesma coisa que o fulano que se esforçou menos. Isso gera um conflito e uma rebelião que, se não contidos, podem gerar uma guerra civil e uma possível derrubada do governo.

E outra, você já notou que não teve ditadura comunista que não matou sequer algumas centenas de pessoas? Seja pela força policial para conter alguma rebelião ou conspiração, seja pela fome gerada pelo sistema ultraburocrata, reformas agrárias, coletivização etc. O que eu estou querendo dizer é que essas políticas matam ou perseguem pessoas de uma forma ou de outra, pois o socialismo/comunismo é uma ditadura, e ditaduras sempre matam. Claro que sempre tem ditaduras que matam mais, como a de Stalin, outras que matam menos, como a de Maduro: isso varia pelos métodos extras (além das políticas de Marx) que eles usam na sociedade. Por isso que existem maoismo, stalinismo e leninismo. E todas elas seguem os preceitos marxistas (que é o básico de uma sociedade socialista/comunista) com algumas formas extras de se governar.

Eu (TV Eslavo): Agradeço sua reflexão e sua opinião, mas... 1) Marx não fala abertamente em “liquidação física”, mas em liquidação “como classe”, ou seja, a burguesia ia ser abolida como classe, mas, sei lá, seus integrantes podiam se tornar trabalhadores, camponeses ou o que fosse. O que ia determinar se haveria mortes ou não (o que Marx não dá como pressuposto) é o encarniçamento da luta contra a opressão, e em Marx nunca há a indicação de que em todo lugar ia se dar a mesma coisa. Aliás, mortes e eliminações já ocorriam pelo próprio poder burguês: temos que entender que no século 19, a condição operária era muito dura, e às vezes o mínimo protesto pacífico gerava uma reação patronal desproporcional. Essa coisa de que “ah, ele é pobre porque quer” é um mito! Férias, fim de semana, fim do trabalho infantil, aposentadoria, jornada limitada, fim de castigos físicos, ambiente salubre, tudo isso pôde ter sido dado de cima, mas por pressão de baixo, porque se sabia que alguma hora a bomba ia estourar. Em suma, o marxismo não é mais que a constatação de que ninguém numa situação de opressão ou assédio laboral aguenta muito tempo, e que uma hora essa massa operária (a enorme maioria!) não ia mais aguentar passiva.

2) Marx nunca disse que todos iam ganhar igual, embora nesse caso fiquemos no campo da especulação, pois pensaríamos numa sociedade ideal que jamais existiria. O lema dele era justamente “De cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades”. Ou seja, num mundo utópico, todo mundo ia receber o quanto precisasse, contanto que pra isso trabalhasse o necessário pra tanto. Na época de Marx, operária ralava 10, 12 horas em mina de carvão e não tinha nem com o que comer... Conhecendo história, é difícil naturalizar a situação em que a gente vive.

3) Já deve ter ficado subentendido que a política de implantação do próprio capitalismo em sua origem, tanto na Europa quanto do resto do mundo, levou à morte de muitas pessoas ou até povos, seja pelo extermínio direto, seja pela piora das condições naturais ou de vida. Isso está amplamente documentado pela historiografia. É claro que mesmo que uma “revolução utópica” levasse ao extermínio físico da classe burguesa (que mesmo assim, ainda seria uma ínfima minoria ante proletários e camponeses), a guerra egoísta de interesses poderia levar a conflitos entre trabalhadores, porque ao contrário do que pensavam Marx e Lenin, essa massa não pensa do mesmo jeito. O problema foi querer encaixar todo mundo na mesma fôrma. Mas fora os achismos soltos que você trouxe (“socialismo é ditadura”, “Maduro é marxista”), a grande chave pra entender as mortes sob o comunismo (as quais não nego, bem entendido!) penso ser não a adoção do marxismo em si (que nem seria a “letra” de Marx, mas uma ou outra interpretação particular), mas a modernização hiperacelerada que levou ao mesmos problemas, mas num espaço de tempo muito mais comprimido, do início do capitalismo: poluição, repressão, sufocamento de antigos modos de vida, supressão de regionalismos culturais, espoliação de propriedades comunais seculares etc.

O “comunismo” do século 20, no fundo, cumpriu a mesma função “modernizante” (sem conotação de valor) do capitalismo, mas de forma diferente. E mesmo assim, se levarmos em conta os países que realmente adotaram o regime, quantos deles tinham governos realmente democráticos ou não eram tiranias absolutistas (isso quando o país existia)? Nenhum! Ou seja, mesmo se considerarmos a crueldade do comunismo (que ainda assim deve ser estudada muito menos com base na comparação com textos de Marx do que na análise concreta da própria época), os países que o viveram tinham regimes tão ruins ou piores, e mesmo onde houve grandes ondas de fome (URSS dos anos 1921-22 e 1932-33 e China dos anos 50) ou repressão política (URSS dos anos 1936-38 e China dos anos 1966-76), eram episódios esporádicos, e não a regra, a qual de fato era antes uma espécie de normalização autoritária (extremamente comum no resto do mundo no século 20, e mesmo hoje), já que nenhuma sociedade dura muito apenas na base do terror cotidiano. E mesmo as piores crises foram antes causadas por políticas voluntaristas e destrambelhadas, logo corrigidas pelos próprios ditadores e pouco preocupadas em seguir o que Marx ou Lenin disse ou não disse.

Sobre as sociedades comunistas “antes democráticas”, só quero fazer um adendo: a) a Alemanha Oriental de fato era parte de uma antiga potência, mas pode-se considerar que o único período “democrático” da Alemanha (que só se unificou em 1871) até então tinha sido a instável república de 1918-33; b) a Tchecoslováquia de fato era democrática e industrializada, mas só passou a existir em 1918 e ainda assim sempre ameaçada de invasão e dissolução; c) a Polônia de fato era uma nação há muito mais tempo, mas no entreguerras já era praticamente uma ditadura, enquanto durante o comunismo o problema era muito mais com o secular expansionismo russo do que com o marxismo em si; d) os países bálticos, que já viviam sob a opressão tsarista e foram independentes fora da URSS no curto período de 1918-41, mesmo com um pouquinho de democracia, eram praticamente governos-fantoche da Inglaterra ou da França que conduziam uma clara política antioperária; e) dados esses 4 pontos, se comprarmos o status hiperatrasado anterior dessas nações, podemos concluir que na maioria dos casos, apesar da ditadura comunista, esses países ganharam pela primeira vez uma economia industrial estruturada, formas de representação popular, mesmo que mínimas, um Estado de direito que era ditatorial, mas era minimamente previsível, e, no melhor dos casos, até a própria autonomia ou organização nacional antes inexistente, que às vezes foi plenamente finalizada após o abandono do comunismo.

Em resumo, mesmo que o balanço pro comunismo seja negativo, a análise histórica deve se basear na situação concreta global e nos resultados visíveis, e não em julgamentos de valor, avaliações morais, escolhas parciais (de períodos ou governantes) ou comparação com critérios etéreos.

Internauta 2: Dark window: Lenin nunca escolheu Stalin como sucessor. Leia a biografia do Stalin escrita por Dmitri Volkogonov, é excelente. Mostra o quanto Stalin fugiu das ideias de Lenin e mostra a angústia deste frente a um sucessor. Recomendo muito.

Eu já ouvi mais de uma vez que o Stalin sequestrou no caminho uma carta do Lenin ao Politburo na qual deixava nomeado o Trotsky como o seu sucessor, já que as idéias dele o representavam mais e melhor que as de quem veio lhe suceder efetivamente na história.

Eu (TV Eslavo): Tenho Os sete chefes do império soviético, também dele, mas nunca li de cabo a rabo, só consultei. Você e eu concordamos em que Stalin foi um pensador e ativista autônomo, bem como Lenin realmente não achava ninguém pra “sucedê-lo”.

Enquanto a Rússia não liberar definitiva e livremente os arquivos, coisa pra qual não vejo boas perspectivas sob Putin, nunca vamos saber o que aconteceu de fato. A versão da carta que saiu sob Khruschov, após a morte de Stalin (e que inclusive foi publicada elo PCB em 1956), condenava tanto Trotsky por teimosia e vaidade quanto Stalin por grosseria e impulsividade. A grande questão é: em 1956, interessava pra legitimação de Khruschov queimar o filme de Stalin, sem contar que Trotsky nunca foi reabilitado, nem na época da perestroika, porque o combate ao “trotskismo” era, por assim dizer, cláusula pétrea na URSS. Ou seja, o que vem de regimes comunistas deve ser sempre visto com um pé atrás.

O fato é que Lenin nunca disse explicitamente (até onde sabemos pelo que há de documentação) que queria ser sucedido por Trotsky, e embora este se aproxime de Lenin em vários aspectos mais do que Stalin (sobretudo na experiência internacional), era algo muito difícil de acontecer com quem foi menchevique e crítico de Lenin até março de 1917 e que, mesmo se aliando, não deixava de ser constantemente criticado por Lenin (mas aí, claro, já dentro do livre debate de ideias, enquanto ele existia). Analistas mais confiáveis dizem que na estima de Lenin estavam muito mais Iakov Sverdlov (morto prematuramente em 1919) ou Nikolai Bukharin (opositor de Zinoviev e Trotsky com Stalin desde 1924, opositor de Stalin com aqueles desde 1927, e enfim morto nos expurgos de 1936-38). Mas como acadêmico, acho muitíssimo menos importante confabular uma sucessão com história conjetural do que se ater ao disponível: explicar quais consequências teve a sucessão prática por Stalin e como ele chegou até essa posição.

Além disso, eu não disse que Lenin escolheu Stalin pra “sucedê-lo”, mas que o escolheu pro cargo recém-criado de “secretário-geral” do PC, que devia ser uma espécie de organizador geral sem grande importância, mas que com Stalin acabou acumulando muito poder. E, de fato, a saída de Lenin foi súbita demais pra que ele esclarecesse as coisas, e embora se falasse em “direção coletiva” após sua morte em 1924, Stalin só controlaria a situação a partir de 1929, após cruenta luta interna. O grande problema que se repetiria em todo regime calcado no bolchevique era que não havia nem um mecanismo definido de sucessão (muito menos de mandatos limitados, uma “frescura burguesa”), nem uma clareza quanto à função de cada cargo.

Daí que, embora na teoria quem governava a URSS era o chamado “Comitê Executivo Central”, que tinha ainda um presidente (predsedátel, e não prezidént), na prática quem mandava era a liderança do partido (já que partido e Estado tinham se tornado uma coisa só), então nas mãos de Stalin, o tal “secretário-geral”. Na própria URSS, mesmo não havendo uma titularidade quanto ao secretário-geral do PCUS (cargo que Lenin nunca ocupou) ser o líder do país, era o que de fato ocorria com Khruschov, Brezhnev (e com Andropov e Chernenko por breve tempo) e Gorbachov. Este mesmo, só quase no fim “se investiu” do cargo de prezidént da URSS (que não foi sucedido pelo presidente da Rússia, já que ainda em 1990 Ieltsin tinha sido eleito presidente da RSFS da Rússia, futura Federação Russa) e deixou a “secretaria-geral” do PCUS a outro sujeito.

Internauta 3: O que você achou da Ucrânia equiparar o nazismo com o comunismo? Sei que nos moldes de Marx, nós nunca tivemos um “Estado” comunista, mas apenas Estados socialistas. Você não acha que essa medida da Ucrânia é um pouco hipócrita, já que o Batalhão Azov continua suas atividades?

Eu (TV Eslavo): O problema da Ucrânia, como o de vários países vizinhos, é muito complexo, porque na verdade eles associam “comunismo” ou “bolchevismo” ao imperialismo russo, isto é, à vontade de Moscou de manter submissos os povos vizinhos (no caso da Ucrânia, incluindo o território na composição da URSS). Além disso, a discussão sobre se é “socialismo” ou “comunismo”, ou se um ou outro foram realmente implantados, não faz o menor sentido, porque o que tivemos de fato foi a expropriação do capital pelos Estados fundidos ao partido único e a condução estatal de um processo hiperacelerado de modernização e, muitas vezes, unificação nacional (ou formação nacional, como no caso dos povos da Ásia Central). Na verdade, mesmo nos países capitalistas, a partir de 1929, houve tentativas mais ou menos extensas de estatizar uma parte da economia, sendo nos países ditos “socialistas” alcançado o extremo. De resto, nada há que difira essas sociedades das “capitalistas”.

Voltando à Ucrânia, o que conhecemos hoje como “Ucrânia” é uma construção bem recente, cuja existência como Estado só se deveu, pasme, à política federativa soviética! De resto, é um território extremamente fragmentado e, na prática, sem unidade linguística ou mesmo cultural. O que em geral idealizamos aqui como “Ucrânia” corresponde, sobretudo, ao extremo Oeste, culturalmente mais afinado a Belarus, Polônia e Eslováquia, extremamente católico, reacionário, antirrusso, agrário (o celeiro do país) e, não raro, racista (de fato, algo comum em toda a Europa Oriental). É muito diferente do Leste, pró-russo e industrializado (que era historicamente, de fato, um território etnicamente russo). Banditismo existe tanto da parte dos Azov e Svoboda quanto da parte dos separatistas, em geral movido por ódio linguístico e religioso, comodamente instigado tanto por EUA e UE quanto pela Rússia. Mas realmente, Kyiv não controla boa parte do território, que tem costumes, “leis” e “exércitos” próprios: como você vai proibir o comunismo no Donbass, que o associa à herança russa, não raro misturado com elementos religiosos ortodoxos? Enfim, embora de efeito simbólico, a “proibição” do comunismo fica de fato inefetiva diante da anarquia cotidiana, e infelizmente essa proibição é muito mais “efetivada” (e de forma cruel) onde os bandos neonazistas dominam.

Internauta 4: Churchill junto com os EUA falhou em não destruir a URSS de Stalin após a queda do Reich. Tenho certeza que se não fosse tal falha, hoje nós teríamos o comunismo juntamente com o nazismo proibidos mundialmente.

Eu (TV Eslavo): Falha? Nenhum dos dois se preocupava em destruir ativamente a URSS. Já ouviu falar da guerra civil russa de 1919-20? Vários exércitos ocidentais e orientais, liderando ainda outras tropas monarquistas ou anticomunistas dentro da Rússia, tentaram derrubar Lenin deixando no caminho um rastro de destruição que atingiu muito mais a população comum do que o Partido Comunista, e o que aconteceu? Perderam! Como podia ser isso pra grandes potências militares? É óbvio que depois desse sopapo nenhum europeu ia se atrever a intervir na Rússia de novo, e pra piorar a URSS de Stalin tinha se armado até os dentes. Como um ataque direto não ia ficar sem resposta, como não ficou com Hitler em 1941? Pelo estado das pesquisas atuais, julga-se que pra Inglaterra e França (os EUA tavam cagando pra Europa) o ideal seria um Hitler voltado contra a URSS, deixando-as por um bom tempo e paz. Acontece que esse desleixo custou caro, porque Hitler ficou ainda mais forte pra atacar a oeste, e nos fatos a quebra dos nazistas na URSS foi em grande parte responsável (mas não só ela) pelo alívio a Inglaterra e França. No fim, o jeito foi se aliar à URSS tardiamente, porque não tinha como fazer diferente.

Os EUA só se colocaram no conflito quando ele já estava com encaminhamento resolvido, mas apenas aceleraram o fim, enquanto antes da guerra, na verdade, como sua maior preocupação era uma URSS que atiçava o movimento operário americano, também fizeram vista grossa ao nazismo. Ou seja, se contarmos ainda as ações militares iniciais conjuntas de Hitler e Stalin (em 1939-41), como a brutal invasão da Polônia, concluímos que todas as grandes potências tiveram sua parcela de culpa no crescimento do nazismo. Por isso, tiveram que incomodamente se unir pra destruí-lo junto, e se depois resolvessem se embater de novo, já ia ser o fim do mundo: EUA e URSS já tinham bomba atômica, era preciso prudência! Mas enfim, o grande fundo da questão é que, apesar das ditaduras da URSS e Alemanha, os países capitalistas nada tinham de santinhos ou benevolentes.

Internauta 5: Me parece raso e errôneo dizer que o “marxismo-leninismo é apenas um rótulo propagandístico que, considerando apenas o nome, não descreve nenhum corpus efetivamente existente na realidade”, visto que Lenin, por meio de seus estudos, escritos e práxis, foi responsável por utilizar o materialismo histórico no contexto real de seu país feudal, de periferia do capitalismo e com a clareza de que o colonialismo é intrínseco ao capitalismo e, quando mais desenvolvido, se chama imperialismo. Isso é de uma relevância absurda na teoria marxista. Essa vertente foi capaz de derrotar a aristocracia russa e os aliados burgueses e fazer uma revolução: me parece que pro contexto da época o leninismo foi uma decorrência necessária.

Eu (TV Eslavo): Não foi a “vertente” ou a “teoria” que fez a revolução, e sim as massas que forçaram o tsar a renunciar. Claro que lá pra agosto-setembro Lenin foi perspicaz ao entender as aspirações das massas, mas não porque Marx ou Engels disseram isso ou aquilo, mas porque ele era sensível aos problemas causados pela guerra. Mas a grande questão é esta: neocolonialismo, imperialismo, capitalismo de Estado foram categorias que o próprio Lenin desenvolveu, ou seja, ele teve de “revisar” Marx, o ampliando, justamente porque eram questões que não se punham na época de Marx. O próprio problema da revolução ter se dado na Rússia, e não nos países mais desenvolvidos, já bota um problemão pro marxismo “original”.

De fato, ainda que Lenin tenha sido um grande executor do método materialista e dialético de Marx, não podemos esquecer que boa parte de sua produção teve um caráter prático, ou seja, respondia muito mais a necessidades do momento do que intelectuais ou de pesquisa. E nisso, Lenin acabou fazendo algo inteiramente novo. Por isso, sobretudo, que rejeito o rótulo “marxismo-leninismo” (que, ainda por cima, era usado pra designar quase exclusivamente a interpretação de Stalin), além do que entendo que Lenin teve, também, influências de seu meio de origem (Rússia) e vivência (exílio europeu). Além do mais, infelizmente não houve teoria que desse conta da fome, guerra civil, rivalidades e protesto popular nos anos 20, sendo de fato mais urgente recorrer à violência, coerção, realismo e reflexo rápido... tanto que até os anos 30 a vitória bolchevique parecia muito mais uma “vitória de Pirro” (ou seja, com pesadas consequências). Só que Lenin não viveu o bastante pra governar, escrever e teorizar mais, o que nos deixa como uma incógnita uma suposta URSS sem Stalin.

Internauta 6: O texto peca ao tentar desvincular os acontecimentos da era Stalin à ciência do proletariado (marxismo), o que é próprio de anti-comunista. Você esquece que Marx não foi apenas um intelectual, mas também uma figura política, e tenta desvincular os movimentos sociais do século 20, especialmente movimentos revolucionários, da própria militância política de Marx: é no mínimo ignorância ou desonestidade. Aliás, Lenin, Stalin e Mao, que não tiveram acesso aos últimos escritos de Marx, defenderam até uma interpretação menos acirrada da luta de classes, tratando a classe camponesa como uma aliada, e não mais como “extremamente reacionária”, como diz Karl Marx. E se você ler as diretrizes da Primeira Internacional, verá que ela é a base da Terceira Internacional comunista, que veio justamente resgatar os aspectos revolucionários da primeira, que foram abandonados de maneira revisionista pela Segunda Internacional.

Eu (TV Eslavo): Seu avatar com foto de Stalin jovem já diz tudo, além do que já tenta “lacrar” a discussão com um “anticomunista”, mesmo que aplicado ao meu argumento. Tudo o que você falou nem merecia resposta, não só porque já cansei de falar que historiador não tem que repetir e decalcar exatamente o mesmo discurso emitido pelos Estados nacionais (no fim, Stalin e Mao, mais que revolucionários, se tornaram líderes de potências e máquinas poderosas, portanto com um poder quase ilimitado), como também eu disse que não é continuidade necessária, e não que não era continuidade.

Em resumo, ao contrário de você, que insiste em achar que só Lenin, Stalin e Mao estão certos, e que são uma linha contínua por Marx, repetindo apenas o discurso oficial, e não analisando a complicadíssima história da época (e não só política, mas também ideológica, econômica, diplomática, cultural), eu penso que todas as interpretações de Marx merecem ser analisadas, mesmo que umas se “desviem” mais do que outras (e o que tem? Ciência social não é gravada em pedra). Inclusive as social-democratas, porque em ciência não podemos jogar fora pura e simplesmente aquilo de que não gostamos, mas entender cada época e fenômeno, sem achismos ou preferências.

Isso porque Marx, cuja obra é muito complexa pra render uma só interpretação, escreveu numa época, e os bolcheviques absolutamente em outra, não tem como decalcar nem continuar diretamente (embora inspirar, sim). Essa sua argumentação é justamente o que tem estragado a imagem das esquerdas no Brasil, sobretudo essa “ligação” automática com o proletariado, como se ele já nascesse comunista ou marxista, ou pensasse todo do mesmo jeito. Desculpe, mas em história científica, mesmo que tenhamos uma posição ideológica definida (que nem sempre se confunde com partidarismo político), tudo tem que ser problematizado, mesmo o que achamos mais lindo e coerente.

Adendo: Acabei deixando o rapaz sem a nova resposta, mas acredito que a “pancada” teha sido tão forte que ele parece ter se resignado. Porém, como não quero ser injusto com ninguém, desenvolvo de modo mais sóbrio e sistemático minhas críticas ao dito “marxismo-leninismo” codificado por Iosif Stalin, a partir do comentário à minha postagem.

Desde os meus tempos de Facebook, tenho uma birra especial com a turma ligada aos “periódicos” A Nova Democracia e Hora do Povo (não exatamente com a linha editorial dos jornais). Não por causa do anticapitalismo intransigente e da posição inquebrantável pelas causas populares e de esquerda, mas justamente pela reprodução acrítica dos discursos ideológicos, políticos e filosóficos de Iosif Stalin e Mao Zedong. Não me refiro nem à violência extraordinária que reinou durante esses regimes, embora a ocorrência de semelhantes fenômenos sob o capitalismo não nos permita escapar pela tangente. Como historiador, meu incômodo é que se queira usar esses autores como inspiração suprema pra explicar ou solucionar os problemas brasileiros, numa postura semelhante aos liberais que acham que modelos ingleses ou norte-americanos funcionam plenamente no Brasil.

Existe outro erro fundamental desses “militantes”, que é o de desprezar profundamente toda e qualquer produção acadêmica sobre o comunismo, como se os “possuidores da ciência do proletariado” fossem os únicos autorizados a falar sobre o tema, mesmo eles próprios não tendo realizado um estudo especializado sobre a URSS ou a China de Mao. Pra eles, basta seguir as “obras sagradas” dos ditadores, e tudo está explicado. Esse anti-intelectualismo está na própria raiz do comunismo de Stalin, pois mesmo Lenin e Trotsky julgavam o debate algo necessário ao desenvolvimento da democracia política. Já pras ditaduras, toda crítica intelectual é perniciosa, desinstabiliza, incomoda, e fica muito mais fácil recorrer à censura ou imputar os intelectuais como “alheios à realidade” e “inimigos do povo”. O ódio é muito maior contra a produção crítica a esses regimes: não apenas a ultraliberal, raivosa e moralista, mas também a documentada, consagrada, fundada em estudos sociais que ultrapassem a superfície das instituições políticas. A todos são guardados os mesmos rótulos de “anticomunistas”, “oportunistas”, “burgueses”, “acadêmicos”, “alienados”, “antipovo”, sem sequer se tocar nos argumentos e métodos principais.

Esse tipo de “esquerda”, que assim como os reacionários raivosos, encontrou voz e vez com o advento das redes sociais, pôde angariar jovens perdidos e viciados em internet, brincando de ser revolucionários por meio do assédio e do bullying virtual aos que discordavam de seus dogmatismos. O grande problema é que infelizmente quase sempre seus interlocutores (quando ainda existia partilha de espaços) eram direitistas mal informados e que repetiam os mesmos chavões da “guerra fria” a respeito da ideologia e da história. Como as redes sociais são o que a maioria das pessoas acaba conhecendo sobre pensadores e correntes políticas, houve um duplo prejuízo: toda e qualquer crítica ao comunismo passou a ser taxada de “reacionária” (e mesmo nos cursos de humanas, se você se define apenas intelectualmente como anticomunista ou antibolchevique, já é visto a priori com um pé atrás pelos colegas), enquanto os verdadeiros reacionários, que tiveram a sorte de encontrar em Jair Bolsonaro a canalização de suas esperanças e recalques, associaram toda a esquerda ou mesmo progressismo a essa militância radical de bravata. O diálogo online se tornou impossível.

A polarização política do Brasil, que atingiu em cheio as universidades (tanto por um Planalto que nunca soube a verdadeira função da academia e das ciências humanas quanto por uma docência que sucumbe ao prazer das curtidas e bajulações após a “lacração” mais simplória nas redes sociais), chegou antes que pudesse ser traduzida ou popularizada a melhor bibliografia produzida desde os anos 90, em diversas línguas e após a abertura dos arquivos de Moscou, sobre os regimes comunistas e os partidos comunistas em países capitalistas. Ficamos reféns de uma bibliografia antiga, da “boa-vontade” dos esquerdistas em levantar o assunto e dos velhos traços estruturais ausentes da formação do jovem secundarista ou universitário brasileiro, como a paciência pra leitura, a interpretação crítica e o domínio de outros idiomas. Com a TV Eslavo e com esta página, na medida do possível, tentei levar ao maior público possível esse universo quase inexplorado, aproveitando as boas condições financeiras e educativas que tive.

Infelizmente, a turminha de no máximo 20 e poucos anos que ainda diz reivindicar o “maoismo” (!) no Brasil faz bastante barulho, e não quer saber de cair nos estudos. Reitero que a compaixão pelos pobres e a opção pela esquerda não são em si condenáveis. Mas a prisão a fórmulas prontas, ao voluntarismo teórico, à rejeição da maioria dos estudos acadêmicos e o anti-intelectualismo, justificados apenas porque não seriam tão urgentes na luta ou porque as massas não entenderiam essa linguagem, não servem de forma alguma como desculpa a quem deseja estar na “vanguarda”. E o pior de tudo são os “ismos”, a arrogância, a falsa erudição, o espírito de certeza e superioridade e a aparente falta de entendimento de texto com que eles nos respondem quando apenas fazemos observações críticas à lógica de suas análises, e não exatamente à sua escolha política! Dá vergonha como professor, dá vergonha como progressista e dá vergonha como podemos nos prestar a pessoas que distorcem todos os nossos argumentos.

Sobre o comentário em si do rapaz, o erro já começa no uso da expressão “ciência do proletariado”, que começou a circular com Engels, mas nunca esteve em Marx e nunca foi desejado por ele. Tanto Engels quanto Lenin erigiram o marxismo em “ciência”, em “visão de mundo”, quando na verdade Marx quis fornecer um instrumento de análise da sociedade burguesa, e a partir dele fazer o proletariado politizado tirar as próprias conclusões, e nunca aceitar um pacote de interpretações prontas legado por outros. Não só uma ciência não é um sistema fechado nem imune a críticas, como também não pode ser “proletária” ou “burguesa”: seus pressupostos ou usos sim, mas nunca o fazer científico como um todo!

Mais abaixo, o rapaz novamente demonstra que não entendeu meu texto, porque diz que eu desvinculei a militância política de Marx dos acontecimentos políticos do século 20. Ora, eu não estava falando da relação entre ideologia e militância, eu estava justamente falando do caráter particular da ideologia e da militância em cada época, uma não podendo ser reduzida à outra. Eu não neguei que a teoria e prática de Marx fossem desvinculadas dos movimentos do século 20, mas que estes deviam ser entendidos em sua maior parte como frutos originais de suas origens geográficas e de seus líderes, porque era impossível uma ressurreição de Marx! E é justamente esse argumento da continuidade incondicional que dá margem pra que Marx seja criminalizado por todas as barbaridades do “curto século” (as quais, me parece, os comunistas mais fanáticos jogam pra debaixo do tapete).

E se, vejam só, como Lenin, Stalin e Mao não tiveram acesso aos últimos escritos de Marx, como não defender que estavam criando algo quase absolutamente novo, ou ao menos com alto grau de originalidade? E ainda mais reinterpretando (como o rapaz mesmo diz) postulados de Marx, mostrando que a inovação daqueles autores consistia justamente em ultrapassar o quadro limitado que havia no século 19? Ora, com o material que temos hoje, podemos dizer então que nós mesmos estamos com muito mais condições de entender o marxismo do que os antigos revolucionários, já que nesse aspecto eles estavam gravemente limitados, em vista da complexidade e imensidão das obras de Marx e Engels! Por isso, ou não entendo a histeria quando se falava de “revisionismo” no movimento comunista, ou realmente apenas as interpretações oficiais podiam ser consideradas corretas, enquanto os desviantes eram “revisionistas”, “divisionistas”, “oportunistas”, “sabotadores”, “antipopulares”, “inimigos do povo”... E isso é o que mais justamente me irrita quando os jovens de hoje insistem em reproduzir os discursos oficiais das ditaduras sem sequer consultar uma bibliografia séria mais recente, amplamente disponível de graça na internet, mas que eles preferem comodamente chamar de “burguesa” pra se esquivar do complexo debate.

Quanto à Internacional, aí está a maior bravata, e digo com conhecimento de causa (“ai, falou agora o doutorzinho”, mimimi...), porque a Comintern é justamente meu tema de pesquisa. É óbvio que a alegação de continuidade da 1.ª Internacional pela Terceira foi apenas um discurso legitimador inventado por Lenin, pois a própria estrutura das entidades e o propósito a que serviam eram totalmente diferentes. A fundação da Comintern seguiu toda uma lógica decorrente da evolução da Revolução Russa e da crença de que ela se tornaria mundial, dada a instabilidade ainda reinante na Europa após a 1.ª Guerra Mundial. Mas mesmo dentro da ala radical do movimento socialista que decidiu seguir os bolcheviques, não foi unânime a opinião sobre a viabilidade de se fundar uma nova Internacional, dado o isolamento de Moscou e o aferramento proletário às antigas ideologias. Isso porque a 2.ª Internacional, dentro da qual as diferenças de opinião eram enormes, foi exatamente o seio da própria teoria e prática políticas de Lenin, e ele em todo caso sabia que a ruptura ia ser difícil. Tanto que ainda no começo dos anos 20, o dilema era se os partidos socialistas deviam ser ganhos pro comunismo ou se em todo lugar as cisões comunistas (que podiam enfraquecer as já tênues bases operárias) eram necessárias. O próprio Lenin não reivindicava somente a 1.ª Internacional, mas o que ele chamava de “melhores tradições” da Segunda, porquanto na Europa quase todo militante de esquerda tinha passado por ela.

Obviamente, Lenin não era onisciente sobre o movimento revolucionário europeu e não raro fazia análises errôneas, não devendo ser o metro pra julgar tudo, como pregam os historiadores soviéticos: quem discordava dele não era simplesmente “reacionário” ou “enganado”. Tanto que logo após a morte de Lenin e o isolamento da Revolução Russa, o fim previsível da Comintern ocorreu: tornou-se um apêndice da política externa da URSS e perdeu sua razão de ser, ao pregar desde 1924 que todos os outros PCs deviam simplesmente copiar o modelo insurrecional russo (a famigerada “bolchevização”). E pra piorar, apesar dos relatos oficiais romantizados e apesar da real vontade e abnegação que moviam muitos dos militantes simples, Stalin dedicou pouca importância à Comintern, preferindo deixar o Estado soviético e o Exército Vermelho como agentes da “revolução” mundial, como de fato ocorreu após a 2.ª Guerra Mundial. Prova cabal disso é a raridade com que passaram a se reunir, a partir dos anos 20, tanto os congressos da Comintern quanto os plenos de seu Comitê Executivo.