domingo, 8 de fevereiro de 2015

A “Canção do exílio” em interlíngua


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Revelo pouco às pessoas, mas tenho uma incipiente veia poética, por vezes manifesta em originais em português ou outras línguas, por vezes em traduções de clássicos da língua portuguesa para outras línguas. À medida que minhas obrigações acadêmicas foram apertando, e que me centrei mais na tradução de prosa histórica, fui deixando a poesia de lado, mas ainda guardo com carinho muitos resultados.

Um deles é a tradução da famosa “Canção do exílio”, escrita em 1843 pelo poeta brasileiro Gonçalves Dias (1823-1864), para a interlíngua, um idioma auxiliar planejado que veio à luz nos Estados Unidos em 1951, é muito parecido com as principais línguas românicas e tentou ocupar o lugar do esperanto como principal candidato a língua internacional que substituísse o inglês e o francês como instrumentos da diplomacia, do intercâmbio entre os povos e da difusão cultural. Mantive o esquema métrico e de rimas, embora não mantivesse todas as rimas iguais entre uma versão e outra, e consegui não colocar nenhum adjetivo, assim como na versão em português. Como toda tradução poética, esta não é literal, mas tentei passar ao máximo a mesma ideia da primeira versão.

A versão final de minha tradução está datada de 13 de dezembro de 2012, mas minha declamação em áudio só foi dada a público em 4 de março de 2013, no site da Radio Interlingua, administrada por meu amigo húngaro Péter Kovács, na emissão concernente àquele mês que pode ser escutada na própria página clicando em “Ascolta”, ou baixada, clicando em “discarga file audio”. Você também pode assistir ao vídeo abaixo (legendas) apenas com o áudio da minha declamação, sem o programa. Após o texto do poema, dou outras informações sobre a interlíngua!

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Canto del exilio

Mi pais habe palmieros,
Ubi canta un Sabia;
Ci le aves nunquam trilla
Equalmente como la.

Nostre celo: plus de stellas,
Nostre valles: plus de flores,
Nostre boscos: plus de vita,
Nostre vita: plus de amores.

In soniar sol in le nocte
Io gaude me plus la;
Mi pais habe palmieros,
Ubi canta un Sabia.

Mi pais ha meravilias
Que le terra ci non da;
In soniar – sol, in le nocte –
Io gaude me plus la;
Mi pais habe palmieros,
Ubi canta un Sabia.

Ante deceder, oh Deo,
Io vole vader la;
E fruer le meravilias
Que le terra ci non da;
E vider ille palmieros,
Ubi canta un Sabia.



A interlíngua, também conhecida como Interlingua de IALA, resultou de um intenso trabalho de pesquisa conduzido entre 1924 e 1951 por especialistas reunidos na IALA (sigla em inglês para Associação para a Adoção de uma Língua Internacional), dos EUA. Levando ao extremo o ideal de compreensão imediata e visando menos à regularidade gramatical do que, por exemplo, o esperanto, teve editados, ao final dos trabalhos, um dicionário interlíngua-inglês e uma gramática em inglês, especialmente por obra do alemão naturalizado norte-americano Alexander Gode (1906-1970) e do norte-americano Hugh Blair (1909-1967).

É considerada sua característica principal a compreensibilidade praticamente perfeita a falantes de idiomas ocidentais, especialmente os românicos, por ter como fonte elementos que aparecem ao menos em duas ou três das principais línguas de cultura do mundo ocidentalizado: o inglês, o francês, o italiano e, considerados em conjunto, o espanhol e o português. Também são utilizados abundantes radicais latinos e gregos de uso internacional, e são aceitas ainda palavras eslavas, germânicas ou de outras origens que tenham se difundido mundialmente.

Para saber mais sobre a interlíngua em português, conheça a União Brasileira Pró-Interlíngua, e para saber na própria interlíngua, verificando se você já a entende à primeira leitura, visite a página da Union Mundial Pro Interlingua. Você pode ainda ler o ótimo artigo da Wikipédia em inglês a respeito ou visitar o blog de um amigo americano, Interlingua multilingue, também com vários textos em interlíngua, mas que não é atualizado desde 2011.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

“Encantação pelo riso”, de Khlebnikov


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Sempre gostei de traduzir prosa, especialmente textos em russo do período soviético, com cujo vocabulário estou acostumado. Mas hoje estou me arriscando pelo caminho pétreo da tradução de poesia, cujas dificuldades residem exatamente no fato de termos que sacrificar muito do conteúdo para manter o efeito da forma, e às vezes nem sempre serem iguais os valores do que é ou não poético em uma ou outra sociedade. Por isso mesmo, em poesia nem sempre devemos esperar “corretas traduções literais”, como nos ensinam um dos miniclássicos no assunto, Oficina de tradução: a teoria na prática, de Rosemary Arrojo, e, mais recente e mais específico sobre poesia, Tradução: teoria e prática, de John Milton.

Tendo conhecido meu trabalho de tradução e legendagens, um rapaz me contatou pelo Facebook para falar de um poema do russo Viktor Vladimirovich Khlebnikov, mais conhecido sob o nome artístico de Velimir Khlebnikov (Велимир Хлебников), nascido em 1885 e falecido em 1922. Também dramaturgo, foi cronologicamente o primeiro vanguardista na poesia russa e uma figura central no movimento futurista nacional, embora sua influência tenha ultrapassado essas fronteiras. O referido poema, denominado “Заклятие смехом” (Zakliatie smekhom) e escrito em 1908 ou 1909, foi traduzido no Brasil pelos irmãos Campos nos anos 1950, e era uma versão de que aquele jovem gostava muito, com o título “A encantação pelo riso”. Ele também havia encontrado, após alguma pesquisa, uma versão em inglês, cuja fonte, título e tradutor ele não soube me dizer, e que em sua opinião “é muito fechada e peremptória, me remete quase que a Joyce”, enquanto a brasileira “é muito mais lúdica, apesar dos termos”.

Seu desejo que o motivou a me escrever era o de sempre querer “saber em russo como é, se o poema está mais bem traduzido em português ou inglês, qual o verdadeiro sentido que Khlebnikov quis lhe dar”; enfim, “saber qual que se aproxima mais do original”, “tentar alcançar o que o Khlebnikov realmente quis dizer”. Por isso, quebrando um pouco a ordem cronológica de nossa conversa, vou postar primeiro a versão em russo, que achei na Wikipédia, depois em português e finalmente em inglês:


«Заклятие смехом»

О, рассмейтесь, смехачи!
О, засмейтесь, смехачи!
Что смеются смехами, что смеянствуют смеяльно,
О, засмейтесь усмеяльно!
О, рассмешищ надсмеяльных — смех усмейных смехачей!
О, иссмейся рассмеяльно, смех надсмейных смеячей!
Смейево, смейево,
Усмей, осмей, смешики, смешики,
Смеюнчики, смеюнчики.
О, рассмейтесь, смехачи!
О, засмейтесь, смехачи!


“A encantação pelo riso”

Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!


O, laugh, laughers!
O, laugh out, laughers!
You who laugh with laughs, you who laugh it up laughishly
O, laugh out laugheringly
O, belaughable laughterhood - the laughter of laughering laughers!
O, unlaugh it outlaughingly, belaughering laughists!
Laughily, laughily,
Uplaugh, enlaugh, laughlings, laughlings
Laughlets, laughlets.
O, laugh, laughers!
O, laugh out, laughers!


Como eu havia dito, embora eu tenha traduzido alguma poesia para o esperanto e para a interlíngua, nunca fui um especialista no assunto, e o que respondi ao rapaz foi uma percepção baseada naqueles dois livros que citei inicialmente. A primeira coisa que notei de cara é que não há preocupação com métrica: essa despreocupação também passou às traduções. Segundo minha pesquisa na Wikipédia em russo, o poema original nasceu de uma técnica do Khlebnikov que consistia em formar famílias de neologismos a partir de um mesmo radical, o que achei semelhante a um famoso hábito de Guimarães Rosa. Por isso abundam prefixos, sufixos, mutações consonânticas e flexões... O russo é uma língua muito rica e frutífera nessas derivações, então ele pôde jogar inclusive com terminações de adjetivos, verbos etc., em suas várias pessoas e casos. Além de tudo as palavras são bem compridas, o que dá dinamismo à fala.

A sacada principal do poema foi jogar com três formas de um radical do russo que passa a ideia de “riso”, “graça”, e que se encontram nestas palavras: “смех” (smekh – riso), “смеяться” (smeiatsia – rir) е “смешно” (smeshno – engraçado). Assim, esses três radicais (smey-, smekh-, smesh-) se combinam com uma infinidade de prefixos e sufixos que dão os mais finos matizes de significado. Por exemplo, “рассмейтесь”, “смехачи”, “засмейтесь”, “смеянствуют”, “усмеяльно”, “рассмешищ”, “смейево”, “смеюнчики” etc.

Esses radicais e afixos promovem uma riqueza sonora que passa a ideia do riso, da zombaria, do fuxico, do sussurro, e que se dá essencialmente em torno das consoantes С (som de SS, especialmente em sua versão branda, palatizada; escute a palavra russa “семь”, com essa palatal), Х (que soa como o J espanhol) e Ш (versão dura do nosso CH). Acresçam-se também vários sufixos diminutivos em que aparecem as consoantes Ч (TCH) e Щ (versão branda do nosso CH; escute a palavra russa “щи”, com essa consoante), também chiantes. Acredito que a repetição das vogais Я (YA), Е (YE) e Ю (YU), além da semivogal Й (Y, como no inglês “yard” ou “say”), também ajuda no efeito.

Flexões ricas e palavras compridas são propriedades muito presentes no russo, um pouco menos no português e quase ausentes no inglês, e isso justifica a impressão do rapaz, para quem a versão nesta língua seria repetitiva e breve. Acredito que os três poemas também trabalham com os sons que cada língua considera característicos do riso: a concepção de russo e do português é mais consonântica, e a dos ingleses, mais vocálica, e acredito que com um toque de glotalismo. Por isso a versão em inglês fica limitada à combinação dos sons “ló”, “lóf”, derivada do único radical repetido (“laugh”), enquanto a versão em português nos oferece no máximo duas consoantes associadas ao riso e à zombaria (RR e Z), a partir de derivados de “rir” e “riso”. Como falei acima, o russo tem uma repetição de chiantes, sibilantes, fricativas e palatais inimitável em qualquer tradução.

Além da parte formal, ainda não falei do conteúdo. Afinal, como disse nosso amigo do Facebook, “Eu queria saber qual que se aproxima mais do original. Queria tentar alcançar o que o Khlebnikov realmente quis dizer”. De fato, logo após começar a consultar dicionários, eu desisti, pois quase todas as palavras estão ausentes de dicionários russos, e a saída dos tradutores deve ter sido, portanto, “inventar” eles também palavras novas em suas línguas para manter a graça do poema. A qualquer um que leia o poema em russo resta a alternativa de captar nos prefixos e sufixos as ideias de “início”, “dispersão”, “excesso”, “agentes”, “maneiras”, “propriedades”, enfim, combiná-las com a ideia mais geral de “riso” ou “graça” e ao menos entender o sentido global de cada palavra, e não tentar achar outras palavras que traduzam literalmente esses neologismos.

Portanto, de forma geral, as duas traduções estão “próximas” na semântica, mas o português consegue recriar um pouco mais que o inglês o efeito sonoro. Mesmo assim, na verdade os dois estão muito longe de recriar o efeito primário, e se o objetivo do leitor é buscar o que Khlebnikov quis dizer, que ele “largue mão”, como dizemos no interior de São Paulo: tradução não é transposição de palavras, mas interpretação (quase sempre subjetiva) do conteúdo da língua de chegada e recriação da forma na língua de partida. E ainda mais em poesia, geralmente o conteúdo é sacrificado em favor da forma. Por isso falei que na busca de tentar recriar as invenções neologísticas do russo, os dois autores acertaram, mas a língua russa tem vários aspectos formais que se mostraram irreproduzíveis: a riqueza de consoantes sibilantes, chiantes e palatais; a riqueza de prefixos e sufixos formadores de todas as classes de palavras e que dão vários matizes precisos de significado; a riqueza das terminações de caso, que permitem ampliar ainda mais os efeitos sonoros.



domingo, 25 de janeiro de 2015

John Kerry lamenta “Charlie Hebdo” em francês


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No dia 7 de janeiro de 2015, o Secretário de Estado dos EUA John Kerry deu uma entrevista condenando o ataque armado de extremistas ao jornal satírico francês Charlie Hebdo, ocorrido no mesmo dia. Na ocasião, Kerry falou em francês por pouco mais de dois minutos, solidário com o luto dos franceses e proclamando fé na invencibilidade da liberdade de expressão. Na ocasião, o Ministro das Relações Exteriores polonês Grzegorz Schetyna visitava o Departamento de Estado norte-americano para tratar de assuntos estratégicos, por isso a bandeira da Polônia ao fundo, junto com a dos EUA.

Traduzi e legendei o vídeo da mensagem em caráter experimental, testando novas opções de design nas legendas e novas ferramentas de conversão de vídeos. O vídeo original foi baixado do canal YouTube do Departamento de Estado norte-americano e pode ser assistido nesta página. Abaixo, além da transcrição do texto em francês e da tradução em português (sem traços de oralidade e com erros de francês corrigidos), está também o próprio vídeo legendado, no qual sempre são feitas as necessárias adaptações a esse tipo de mídia:


Je veux m’adresser directement aux Parisiens et à tous les Français pour leur dire que tous les Américains se tiennent à leur côté, non seulement dans l’horreur, la colère et la condamnation de ce terrible acte de violence, mais que nous sommes également solidaires de votre engagement dans la bataille, la lutte contre l’extrémisme et de votre détermination à protéger la valeur qui fait si peur à l’extrémisme et qui a toujours uni nos deux pays : la liberté, c’est ça. Aucun pays ne sait mieux que la France que la liberté a un prix, parce que c’est en France que de nombreux idéaux démocratiques ont vu le jour. La liberté d’expression et la liberté de la presse sont des valeurs fondamentales, universelles. Il arrive que ces principes soient attaqués, mais jamais il ne pourront être éradiqués, parce que partout dans le monde des hommes et des femmes se dresseront toujours avec courage contre l’intimidation et la terreur qui voudraient reprendre ceux qui cherchent, et les détruire. Je suis d’accord avec l’imam de France, qui a dit aujourd’hui que les journalistes assassinés sont des « martyres de la liberté ». Les assassins ont proclamé aujourd’hui que « Charlie Hebdo est mort ». Soyez sûrs d’une chose : ils ont tort. Aujourd’hui, demain, à Paris, en France et à travers le monde, le pouvoir de la liberté d’expression vaincra dans la lutte contre l’obscurantisme.

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Quero me dirigir diretamente aos parisienses e a todos os franceses para lhes dizer que todos os americanos estão do seu lado, não somente no horror, na raiva e na condenação deste terrível ato de violência, mas também na solidariedade ao seu empenho na batalha, na luta contra o extremismo e à sua determinação em proteger o valor que dá tanto medo ao extremismo e que sempre uniu nossos dois países: é a liberdade. Nenhum país sabe melhor que a França que a liberdade tem um preço, pois foi aí que nasceram inúmeros ideais democráticos. A liberdade de expressão e a liberdade de imprensa são valores fundamentais, universais. Esses princípios podem ser atacados, mas nunca poderão ser erradicados, pois no mundo inteiro homens e mulheres sempre se oporão com coragem à intimidação e ao terror dos que desejarem censurar e destruir aqueles que investigam. Concordo com o imã da França, que disse hoje que os jornalistas assassinados são “mártires da liberdade”. Os assassinos proclamaram hoje que “o Charlie Hebdo está morto”. Estejam certos de uma coisa: eles se enganam. Hoje e amanhã, em Paris, na França e através do mundo, o poder da liberdade de expressão vencerá a luta contra o obscurantismo.



domingo, 18 de janeiro de 2015

Ianukovych diz por que usa russo na Ucrânia


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Continuando as traduções do ucraniano, estou apresentando uma sugestão dada pela amiga russa Tania Nilova, do Facebook, na época em que eu legendava a entrevista do ex-presidente ucraniano Viktor Ianukovych logo após sua deposição. Nesta outra entrevista, ele justifica por que usa a língua russa nas regiões da Ucrânia onde o russo tem muitos falantes.

Numa coletiva de imprensa a 22 de agosto de 2012 na cidade de Kharkiv (Kharkov, em russo), no leste da Ucrânia, Ianukovych defendia a recém-aprovada “lei das línguas”, que permitia às províncias e cidades escolherem por si, além do ucraniano a nível nacional, uma segunda “língua regional” a ser usada no serviço público e ensinada nas escolas. Embora no leste e no sul a escolha predominante tenha sido pelo russo, o presidente afirmou que o ucraniano não seria prejudicado e prometeu adotar medidas para protegê-lo.

Mesmo assim, um repórter da Radio Svoboda, filial da Rádio Liberdade internacional, pró-Ocidente e sustentada por uma agência de comunicações do governo norte-americano, sugeriu a Ianukovych que a medida teria “rachado” a Ucrânia, e perguntou por que, ao abrir um movimento à independência nacional em Kharkiv naquele dia, ele e outros oradores discursaram em russo, a “língua regional” da cidade. Irritado, o presidente respondeu que falava com as pessoas na língua local, que apenas quem pensava como o repórter é que “rachava” o país e que a “lei das línguas” manteria os serviços públicos iguais para todos. Ianukovych, então, saiu da sala e encerrou a coletiva.

A lei “Sobre as bases da política estatal para as línguas n.° 5029-VI”, também conhecida como “lei das línguas”, foi apresentada ao parlamento da Ucrânia no dia 7 de fevereiro de 2012 pelos deputados Vadym Kolesnichenko e Serhi Kivalov, aprovada em segunda leitura a 3 de julho após muita polêmica e assinada pelo presidente Ianukovych a 8 de agosto, entrando em vigor na data de sua publicação, dia 10 de agosto. Em tese, mantendo o ucraniano como única língua nacional, ela permitia a cada distrito administrativo adotar como “língua regional”, usada e difundida pelo serviço público local, aquela que fosse falada por 10% ou mais da população, mas na prática isso possibilitou uma ampla promoção de status ao russo, falado por muitas pessoas no leste e no sul do país. Apenas algumas localidades promoveram também o húngaro, o romeno e seu dialeto “moldovo”.

A 23 de fevereiro de 2014, na sequência da queda de Ianukovych, o partido “Batkivshchyna” fez aprovar a suspensão da “lei das línguas”, sob críticas de vários governos vizinhos e de organismos europeus. A suspensão foi vetada no dia 28 pelo presidente em exercício Oleksandr Turchynov, que designou uma comissão para elaborar um projeto de lei substitutiva à de 2012, que ainda se encontrava, em janeiro de 2015, no estado de “preparação para assinatura”. O novo presidente Petro Poroshenko julgou “um erro” suspender a lei antiga, mas não deu nenhum veto explícito à sua suspensão.

Quem conhece o russo nota que Ianukovych fala em ucraniano com forte sotaque influenciado por aquela língua. Pró-Rússia, o ex-presidente era conhecido por supostamente falar melhor o russo do que o próprio ucraniano, e seu próprio russo, como se nota na entrevista dele após a deposição, também tem marcas do ucraniano.

A Radio Svoboda também publicou na época sobre a coletiva de imprensa e disponibilizou o vídeo do ocorrido, assim como também foi noticiado na mídia em russo. Leia sobre a “lei das línguas” na Wikipédia em inglês e em russo. Eu traduzi e legendei do ucraniano para o português e tive meu trabalho corrigido por Gianluca Alberti. Logo abaixo há também o próprio vídeo legendado, em que fiz algumas adaptações a esse tipo de mídia, e em seguida, a transcrição em ucraniano e a tradução completa:


REPÓRTER: Скажіть, будь ласка, а... Ухвалення мовного закону і тепер ухвалення рішень у містах, воно роз’єднало, скажімо так, Україну. Спорт з’єднав, а це, можна так сказати, розкололо. Чи це те, чого прагнула Ваша політична сила і головне – скажіть, будь ласка, Ви відкривали сьогодні пам’ятник незалежності України, чому Ви говорили регіональною в Харкові мовою? Дякую.

(Gostaria que dissesse... A aprovação da lei das línguas, e agora a aprovação das decisões das cidades, digamos que desuniram a Ucrânia. O esporte a uniu, mas isso, pode-se dizer, a rachou. Era isso que pretendia seu grupo político? E gostaria em especial que dissesse por que, inaugurando hoje um monumento à independência da Ucrânia, o senhor falou na língua regional de Kharkiv. Obrigado.)

IANUKOVYCH: Я завжди говорю в будь-яких регіонах мовою людей, які там живуть. А розколюють Україну ті, хто вносить такі пропозиції і задають такі питання, без урахування точки зору людей, які живуть на цій землі. Я завжди був и буду прихильником того, щоб розуміння було в державі, і злагода, незалежно від того, в якому регіоні жили люди. Фінансування, відношення до людей, соціальні програми – вони для всіх будуть однакові... І Ви, як молода людина, про це також щоб Ви почули, і всім іншим розповіли: ми ніколи не будемо ділити людей в залежності від того, хто якою мовою розмовляє і в якому регіоні живе. Всі люди однакові.

(Em qualquer região eu sempre falo na língua das pessoas que vivem aí. Quem racha a Ucrânia são os que exprimem asserções e fazem perguntas como essas, sem considerar o ponto de vista de quem mora nesses lugares. Sempre fui e vou ser favorável a que haja entendimento e acordo no país, independente da região em que as pessoas residem. Financiamentos, atendimento ao povo, programas sociais, tudo será igual para todos... E você, como um jovem rapaz, deve também escutar e contar a todos os outros sobre isto: jamais vamos repartir a população conforme a língua em que conversa e a região em que habita. Todas as pessoas são iguais.)

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Nota (1/2/2015): A ucraniana Olga Zasimovych também me mandou depois pelo Facebook algumas sugestões quanto à tradução, mas eram bem poucas e não invalidam o que é lido acima. Mesmo assim, posto aqui suas opções:

  • a aprovação das decisões das cidades = a aprovação destas decisões nas cidades
  • pode-se dizer, a rachou = pode-se dizer, a dividiu
  • Quem racha a Ucrânia são os que exprimem asserções e fazem perguntas como essas = Quem divide a Ucrânia são aqueles que fazem este tipo de proposição e perguntas como essa
  • acordo = bem-estar
  • jovem rapaz, deve = rapaz jovem, deveria
  • repartir a população conforme a língua em que conversa = segregar a população de acordo com a língua falada

domingo, 11 de janeiro de 2015

Natalia Buchynska – Перемога (Vitória)


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Iniciando as comemorações dos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, postei como primeiro vídeo de 2015 a primeira produção que traduzi diretamente do ucraniano, sem o intermédio de nenhuma outra tradução. Esta linda canção se chama “Перемога” (Peremoha), palavra que em ucraniano significa “Vitória”. E ela trata justamente da vitória dos soviéticos, nesta canção representados pelos ucranianos, sobre o Eixo na Segunda Guerra, com a qual a população da antiga URSS tanto sofreu. É interpretada pela cantora ucraniana Natalia Buchynska, teve a letra escrita por Iuri Rybchynsky e a melodia composta por Nikolo. Foi gravada em seu álbum Divchyna-vesna (Garota-primavera), de 2004.

Natalia Liubomyrivna Buchynska, também conhecida em russo como Natalia Liubomirovna Buchinskaya, é uma cantora que nasceu na cidade de Lviv em 1977, quando a Ucrânia ainda era uma república socialista soviética. Também em 2004, recebeu o título de Artista Popular da Ucrânia. Ao postar o vídeo, pretendi que a música aquecesse um pouco os corações dos brasileiros que admiram a Rússia e a Ucrânia, ou um dos dois, ou mesmo daqueles que vieram desses países para viver no Brasil, e os fizesse entender que todos os povos da antiga URSS tiveram colaboração na derrota dos nazistas e que os russos não podem se arrogar o monopólio do antifascismo, e nem os ucranianos podem ser acusados de colaboracionismo em bloco: havia mocinhos e bandidos dos dois lados.

Achei bonito comentar uma dica de tradução que me deu Iván Kindra, um amigo ucraniano do Facebook. No refrão, a frase “Свято миру, свободи, весни!” significa literalmente “Festa de paz, liberdade e primavera!”. Como não julguei sonora para um brasileiro a inserção da palavra “primavera” aí, eu quis substituir por “renascimento”, e Iván não só me disse que “renascimento” literalmente seria “відродження” como escreveu: “Aqui no Brasil, a primavera não significa praticamente nada, mas lá na Ucrânia, onde o inverno ‘mata tudo’, a primavera, como estação do renascimento, é importantíssima!”. Portanto, deixei a palavra, pela importância que tinha para os ucranianos.

A letra em ucraniano pode ser lida nesta página, mas abaixo também há uma cópia. Esse site onde está a letra, no geral, também é muito bom, pois tem inúmeras canções em ucraniano de vários gêneros, com todas as informações sobre sua produção. Logo abaixo, o vídeo legendado:


В цей день цвітуть салюти і чути дзвін пісень,
Не дай нам Бог забути який сьогодні день,
Не дай нам Бог забути, не дай нам Бог забути,
Не дай нам Бог забути про цей травневий день.
Страшні чотири роки ми йшли до цього дня,
Всі муки і тривоги ми випили до дна,
Крізь муки і тривоги ми йшли чотири роки,
Ми йшли до перемоги, а з нами йшла весна.

Приспів:
Перемога свята, перемога!
Свято миру, свободи, весни!
Чом тоді мої очі вологі?
Бо не всі повернулись з війни.
Сплять мільйони загиблих в окопах,
Це моєї країни сини.
Де була б ти сьогодні Європа?
Де була б ти якби не вони?

В цей день оркестри грають на радість дітворі,
І знову серце крають мелодії старі.
В цей день оркестри грають і знову серце крають,
І знову серце крають мелодії старі.
І сиві ветерани згадавши ту війну,
В цей день кладуть тюльпани до Вічного вогню.
І сиві ветерани в цей день кладуть тюльпани,
В цей день кладуть тюльпани до Вічного вогню.

(Приспів)

Сплять мільйони загиблих в окопах,
Це моєї країни сини.
Де була б ти сьогодні Європа?
Де була б ти якби не вони?
Перемога свята, перемога!
Свято миру, свободи, весни!

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Neste dia florescem salvas militares e ressoam canções,
Deus não nos deixe esquecer que dia é hoje,
Deus não nos deixe esquecer, Deus não nos deixe esquecer,
Deus não nos deixe esquecer este dia de maio.
Passamos quatro anos terríveis antes deste dia,
Sofremos ao máximo todos os tormentos e horrores,
Por entre tormentos e horrores passamos quatro anos,
Marchando até a vitória, e conosco ia a primavera.

Refrão:
Vitória, sagrada vitória!
Festa de paz, liberdade e primavera!
Por que então meus olhos estão marejados?
Porque nem todos voltaram da guerra.
Milhões dormem mortos nas trincheiras,
São filhos da minha pátria.
Onde você estaria hoje, Europa?
Onde você estaria se não fossem eles?

Neste dia orquestras tocam para a alegria das crianças,
E antigas melodias cortam novamente o coração.
Neste dia orquestras tocam e novamente cortam o coração,
E antigas melodias cortam novamente o coração.
E os veteranos grisalhos, relembrando essa guerra,
Neste dia colocam tulipas junto ao Fogo Eterno.
E os veteranos grisalhos neste dia colocam tulipas,
Neste dia colocam tulipas junto ao Fogo Eterno.

(Refrão)

Milhões dormem mortos nas trincheiras,
São filhos da minha pátria.
Onde você estaria hoje, Europa?
Onde você estaria se não fossem eles?
Vitória, sagrada vitória!
Festa de paz, liberdade e primavera!

(Refrão)



domingo, 4 de janeiro de 2015

Hino da República Popular de Donetsk


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Esta canção, intitulada Vstavai, Donbass! (Levante-se, Donbass!), foi composta no início de 2014 pelo grupo local de punk-rock Den Triffidov para ser o Hino Nacional da República Popular de Donetsk, proclamada por guerrilheiros pró-Rússia na região do Donbass, no leste da Ucrânia, e de legitimação escorada em referendo popular. Embora a canção ainda seja considerada o hino dessa república, as informações a respeito são bem díspares na mídia em língua russa.

Em 14 de abril de 2014, foi lançada como “hino oficial” da República de Donetsk a canção Vstavai, Donbass!, imediatamente anunciada no noticiário de língua russa e postada no YouTube em algumas versões de clipes cantados pela banda de punk-rock Den Triffidov, conhecida por suas canções de cunho social e nacionalista e atuante especialmente na própria região do Donbass. A autoria é atribuída à própria banda, que buscou fazer uma composição que exaltasse o espírito patriótico local e estimulasse os soldados no combate.

Den triffidov é a tradução russa do romance de ficção científica The Day of the Triffids (ou O dia das trífides), publicado em 1951 pelo autor inglês John Wyndham e em cuja história os habitantes da Terra, tendo se tornado cegos, permitem o espalhamento de sementes de “trífides”, plantas carnívoras devoradoras de humanos supostamente desenvolvidas na União Soviética. Seguindo o clima da “guerra fria” com as lembranças ainda vivas do conflito mundial, o livro retrata os EUA como salvadores do mundo e a Rússia como um país obscuro, fechado, em que não por coincidência ainda vigorava na biologia o paradigma lysenkista, reputado como a causa de vários fracassos em colheitas e outros atrasos científicos. Contudo, a banda Den Triffidov, que se proclama “uma das mais célebres da Ucrânia”, parece ter ganhado maior visibilidade apenas com a composição de Vstavai, Donbass!, sendo que nem criador nem criatura tinham sequer artigo na Wikipédia em russo ao terminar 2014.

Apesar do sucesso e muitas visualizações que os vídeos com a canção ganharam, a escolha do hino da República de Donetsk, e depois da Nova Rússia, continuou em aberto. Em outubro de 2014, o governo rebelde da região tencionava pedir ajuda a ligas de artistas e compositores da Rússia para compor seu hino, e no dia 27, contrariando proibições do governo ucraniano de entrar no país, Iosif Kobzon, cantor, deputado e assessor cultural da Duma Estatal russa, deu shows em Donetsk e Luhansk nos quais apresentou a própria versão para um “hino do Donbass”, em disputa com outras 30 composições. A música, chamada Moskva – Donbass (Moscou – Donbass), é por vezes indicada como “hino” em noticiários, mas não se encontram nos buscadores seu texto ou seu uso posterior. Kobzon, proclamado Artista Popular da URSS em 1987, nasceu na província de Donetsk em 1937 e é conhecido por seu estreito alinhamento a Putin, tendo chamado o novo governo ucraniano de “fascista” e perdido o título de “cidadão honorário” de várias cidades da Ucrânia.

Embora se previsse que o Parlamento da República de Donetsk aprovaria um hino oficial até o final de 2014, nada mais se publicou sobre o assunto depois de outubro, e na Wikipédia em russo Vstavai, Donbass! ainda consta como hino tanto da República de Donetsk quanto da República Popular de Luhansk (em russo, Lugansk), ambas componentes da Nova Rússia proclamada pelos insurgentes.

Uma versão russa em texto, além de um dos vídeos da banda Den Triffidov, podem ser vistos nesta página, mas como de costume, postei também aqui o texto da canção, seguido de sua tradução em português. Logo abaixo, o vídeo pro qual praticamente não fiz alterações na letra, já que com música temos limites mais flexíveis pra fazer legendagem. O vídeo que usei já veio com as legendas em russo, e inseri abaixo as legendas em português. Nele parece haver umas poucas divergências entre os textos e a fala em russo, mas considerei o texto daquele link anterior pra escrever as legendas:



1. Полощет ветер флаги перемен
Донбасс готов врага с земли смести
Он как боец поднимется с колен
Чтоб вновь свободу обрести

Припев:
Отступать больше некуда
Так бывало не раз
Возродится Отечество!
Возродится Донбасс!

2. Донбасс устал, но духом он не пал
К земле прижался лишь передохнуть
У нас народ и крепок и удал
К победе светел наш нелегкий путь

(Припев)

3. Вставай, Донбасс, рабочий исполин!
И вдоль дорог среди шипов и роз
Возьми всю силу матушки Руси
И мир увидит твой гигантский рост

(Припев)

Возвратится в Отечество
Возрожденный Донбасс...

____________________


1. O vento agita as bandeiras das mudanças
O Donbass está pronto para varrer o inimigo da Terra
Como um combatente, ele se reerguerá
Para ganhar novamente a liberdade

Refrão:
Não há mais para onde recuar
E essa não é a primeira vez
A Mãe-Pátria renascerá!
O Donbass renascerá!

2. O Donbass está cansado, mas não desanimado
E se deitou apenas para retomar fôlego
Nosso povo é firme e valente
Nosso árduo caminho à vitória é radiante

(Refrão)

3. Levante-se, Donbass, gigante operário!
E pelos caminhos entre rosas e espinhos
Tome toda a força da Amada Rússia
E o mundo verá como você é gigantesco

(Refrão)

Retornará à Mãe-Pátria
O Donbass renascido...



domingo, 28 de dezembro de 2014

Hino da Internacional Comunista


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/comintern

Esta canção foi empregada como hino da Internacional Comunista (ou 3.ª Internacional, ou Comintern), o órgão dirigente de todos os Partidos Comunistas do mundo a partir de Moscou, de 1930 até 1943, quando a organização foi dissolvida. A melodia foi composta por Hanns Eisler, a letra original em alemão por Franz Jahnke e Maxim Vallentin, e a tradução para o russo por Ilia Frenkel.

Originalmente, ela foi criada em 1928 para um programa teatral de agitação e propaganda, o Krasny rupor (Porta-Voz Vermelho), dedicado ao décimo aniversário de fundação da Comintern e executado em março de 1929 em Berlim. A letra em alemão, chamada Kominternlied (Canção da Comintern), tinha um significado bastante diferente. Em novembro de 1930, em Moscou, Eisler apresentou privadamente a canção para o compositor soviético Nikolai Chemberdzhi, que gostou dela e instou a que fosse transformada no hino da Internacional. Já em janeiro de 1931, a letra em russo de Ilia Frenkel, escrita especialmente para esse fim e transformada no Gimn Kominterna (Hino da Comintern), foi publicada na revista Za proletarskuiu muzyku (Por uma Música Proletária) e se tornou muito popular na União Soviética.

Após a Segunda Guerra Mundial e não existindo mais a Comintern, a canção tomou dois rumos. Na recém-formada Alemanha Oriental, o escritor Stephan Hermlin reformulou toda a letra em alemão, mantendo intacta apenas a segunda estrofe, e a canção passou a se chamar Lied der Werktätigen (Canção dos Trabalhadores). Na URSS, a segunda estrofe se tornou a quarta, o último verso dessa estrofe (“Наш лозунг - Всемирный Советский Союз!” ‒ Nossa palavra de ordem: uma União Soviética Mundial!) foi trocado (“Товарищ, борись за свободу свою!” ‒ Camarada, combata pela própria liberdade!) e o primeiro verso da quarta/terceira estrofe teve a palavra “Коминтерна” (da Comintern) trocada por “коммунистов” (dos comunistas). A canção passou a ser intitulada pelas suas primeiras palavras, Zavody, vstavaite! (Levantem-se, fábricas!).

A versão que traduzi e legendei é essa segunda do pós-guerra, executada pelo Grande Coral da Rádio Soviética, com solo de Piotr Kirichek, em 1958. Infelizmente não achei nenhuma gravação da versão completa do Hino, mas apenas uma bem antiga em que se cantam apenas a primeira e a segunda/quarta estrofes. Achei melhor usar a versão completa posterior na legendagem, e indicar aqui no blog, com notas de rodapé, no que o hino se diferenciava. Podem ser lidas nesta página as duas versões em russo, mas também postei abaixo o texto com as diferenças.

Esta introdução explicativa tem informação da Wikipédia em russo e desta página também em russo, com uma história da canção e com as duas variantes em alemão. E abaixo, o vídeo pro qual não fiz alterações na letra, já que com música temos limites mais flexíveis pra fazer legendagem:


Заводы, вставайте! Шеренги смыкайте!
На битву шагайте, шагайте, шагайте!
Проверьте прицел, заряжайте ружьё!
На бой пролетарий за дело своё!
На бой пролетарий за дело своё!

Товарищи в тюрьмах, в застенках холодных,
Вы с нами, вы с нами, хоть нет вас в колоннах,
Не страшен нам белый фашистский террор,
Все страны охватит восстанья костёр!
Все страны охватит восстанья костёр!

На зов коммунистов стальными рядами (1)
Под знамя советов, под красное знамя!
Мы красного фронта отряд боевой,
И мы не отступим с пути своего!
И мы не отступим с пути своего!

(2) Огонь ленинизма наш путь освещает,
На штурм капитала весь мир поднимает!
Два класса столкнулись в последнем бою;
Товарищ, борись за свободу свою!
Товарищ, борись за свободу свою! (3)

____________________


Levantem-se, fábricas! Cerrem as fileiras!
Marchem para o combate, marchem, marchem!
Verifiquem a pontaria, carreguem os fuzis!
À luta, proletário, conquistar o que lhe cabe!
À luta, proletário, conquistar o que lhe cabe!

Camaradas na prisão, nas frias câmaras de tortura,
Vocês estão conosco, conosco, mesmo ausentes das colunas,
Não temos medo do terror branco fascista,
O fogo da rebelião envolverá todos os países!
O fogo da rebelião envolverá todos os países!

Ao chamado dos comunistas, em fileiras de aço (1)
Todos sob a bandeira vermelha dos sovietes!
Somos o destacamento bélico da frente vermelha,
E não nos desviaremos do nosso caminho!
E não nos desviaremos do nosso caminho!

(2) A chama do leninismo ilumina nosso caminho
E instiga o mundo inteiro a atacar o capital!
Duas classes se enfrentaram na luta final;
Camarada, combata pela própria liberdade!
Camarada, combata pela própria liberdade! (3)


Notas (Clique pra voltar ao texto)

(1) Redação deste verso na primeira versão: “На зов Коминтерна стальными рядами” (Ao chamado da Comintern, em fileiras de aço).

(2) Na primeira versão, esta estrofe era a segunda.

(3) Redação destes dois últimos versos na primeira versão: “Наш лозунг – Всемирный Советский Союз!” (Nossa palavra de ordem: uma União Soviética Mundial!).



Stalin e outros líderes comunistas à frente do 7.º (e último) Congresso da Comintern, em 1935.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Problemas de tradução do francês


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/frances


Por Erick Fishuk


Esta é mais uma nota de Facebook que estou transformando em postagem do blog, mais para encher linguiça mesmo, sendo sincero. Mesmo assim, espero que como meio de compartilhar experiências, ela seja útil também a outras pessoas. São algumas anotações sobre as soluções a que cheguei ao traduzir do francês um artigo sobre o famoso “relatório secreto”, lido por Nikita Khruschov no 20.º Congresso do Partido soviético em 1956, e sobre sua difusão entre a população local e outros países comunistas. A referência bibliográfica do artigo é esta: Branko LAZITCH, “Le «Rapport secret» de Khrouchtchev entre la petite et la grande histoire” [O “Relatório Secreto” de Khrushchov entre a pequena e a grande história], Communisme, n. 9, 1.º trimestre/1986, pp. 52-58. Minha tradução pode ser lida aqui.

Para mais informações sobre pressupostos tradutórios e outros livros teóricos, acesse e leia também minhas outras três postagens sobre problemas de tradução do russo. Recomenda-se que o leitor da presente postagem tenha algum conhecimento de francês para acompanhar melhor meu raciocínio.



FILOSOFIA

Um tradutor não é um mero transpositor de palavras, mas um leitor e entendedor aguçado e um escritor ainda mais apurado. Em resumo: deve praticamente reconstruir o texto em português com base no entendimento exato da ideia do texto de partida. Em grande parte dos casos, isso mina a ideia de “tradução literal” ou “palavra por palavra” como o modelo ideal de tradução que os leigos têm na cabeça.

Vejam este trecho, por exemplo:

“La Pologne devint la filière par laquelle le Rapport secret se transforma en Rapport public. Edward Ochab fut le témoin décisif à cet égard, et ce par deux fois !”

Eu cheguei a isto (posso ter cometido equívocos):

“A Polônia foi a fresta pela qual o Relatório Secreto escapou para se tornar um Relatório Público. Edward Ochab confirmou decisivamente esse fato, e por duas vezes!”

É praticamente uma atividade de decifração, porque literalmente ficaria horrível...


PROCEDIMENTOS TÉCNICOS

Segundo a classificação feita por Heloísa Gonçalves Barbosa (Procedimentos técnicos da tradução: uma proposta, 2.ª edição, Campinas, SP, Pontes, 2004), teríamos abaixo um exemplo de “explicitação” em tradução, isto é, a adição de elementos que tornam claro ao leitor estrangeiro algo que talvez fosse mais evidente ao leitor nativo.

Exemplo (do francês): Num texto sobre a URSS de 1956, “Institut de la littérature mondiale” pode ser desdobrado em “Instituto Gorki de Literatura Mundial, em Moscou”, acrescentando o nome da cidade e a homenagem onomástica que é sempre feita em russo.

Segundo o mesmo sistema, neste caso teríamos uma “transposição”, ou seja, a mudança de categoria gramatical para passar a mesma ideia semântica:

“Au départ des événements on trouve tout simplement un document confidentiel.” (Francês)

“Na origem dos eventos encontra-se um simples documento confidencial.”

tout simplement (advérbio) > simples (adjetivo).

“Compensação” é o procedimento que desloca para outro ponto do texto de chegada o efeito dado por um elemento em determinado ponto do texto de partida. Assim, por exemplo, se uma palavra não fica adequada, na tradução, em determinado ponto, pode ser colocada em outro:

“Au temps de Khrouchtchev encore, le fameux monolithisme était un joyau précieux dans la couronne du parti” (Francês).

“Nos tempos de Khruschov, o célebre monolitismo ainda era uma joia preciosa da coroa do Partido” (Português: notar deslocamento da palavra “encore”/“ainda”).



domingo, 14 de dezembro de 2014

Às mulheres trabalhadoras (Kollontai)


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/operarias

Introdução (Erick Fishuk)

Esta é a tradução da transcrição de uma gravação muito rara da voz da feminista russo-soviética Aleksandra Mikhailovna Kollontai, uma das poucas mulheres a ocuparem um cargo de comissária do povo (ministra) na antiga URSS. Não encontrei a data exata da gravação, mas conforme indicações indiretas, pode ter sido feita por volta de 1918, e de fato sua voz ainda parece bastante jovem aí.

Sucintamente, Kollontai celebra a equiparação, logo depois da Revolução Bolchevique, dos direitos das mulheres aos dos homens, mas lembra que apenas a letra da lei não basta para mudar a realidade, na qual de fato as trabalhadoras continuavam submetidas à dupla jornada do labor externo e dos cuidados com a casa. Por isso, a feminista instiga os operários e camponeses homens a ajudar nessa transformação e compreender o quanto elas são iguais a eles em direitos, e chama as mulheres a tomar a liderança de sua emancipação por meio da ampliação da infraestrutura de apoio familiar e do apoio ativo à luta política dos comunistas.

O discurso foi dado a público pela primeira vez ao ser inserido no audiolivro em russo (o primeiro de confecção soviética) Sobre Lenin, organizado por um grupo de jornalistas em 1970 e lançado pela editora Pravda, de Moscou. A obra pode ser baixada nesta página. O título em russo é “К работницам” (K rabotnitsam). O áudio e o texto em russo também estão disponíveis nesta seção do site Sovmusic.ru. A versão em russo e uma tradução em espanhol também se encontram nesta postagem de um blog comunista. Abaixo você pode ver também o próprio vídeo legendado:


Camaradas trabalhadoras!

Por longos séculos a mulher não teve liberdade e direitos, pois era tratada como um mero apêndice, como a sombra do homem. O marido sustentava a esposa, e em troca ela se curvava ao seu arbítrio, suportando quieta a falta de justiça e a servidão familiar e doméstica. A Revolução de Outubro emancipou a mulher: hoje as camponesas têm os mesmos direitos que os camponeses, e as operárias, os mesmos que os operários. Em todo lugar a mulher pode votar, ser membro dos sovietes ou comissária, e até comissária do povo.

A lei equipara a mulher em direitos, mas a realidade ainda não a libertou: as operárias e camponesas continuam subjugadas ao trabalho doméstico, como escravas dentro da própria família.

Os operários devem agora cuidar para que a realidade tire dos ombros delas o fardo da lida com os filhos e alivie às operárias e camponesas o peso dos serviços de casa. A classe operária também está interessada em liberar a mulher nessas esferas. Os operários devem entender que a mulher é tão integrada à família do proletariado quanto eles próprios, pois ela trabalha sob as mesmas condições que o homem. Um terço de todas as riquezas da Terra surge das mãos das mulheres; a Europa e a América contam 70 milhões de operárias. Numa sociedade comunista mulher e homem devem ter direitos iguais! Sem essa igualdade, não há comunismo.

Então, mãos à obra, camaradas trabalhadoras! Iniciem sua emancipação! Construam creches e maternidades, ajudem os sovietes a organizar refeitórios públicos, ajudem o Partido Comunista a edificar uma nova e radiosa realidade. Tomem lugar nas fileiras de todos os que lutam pela libertação dos trabalhadores, pela igualdade, pela liberdade e pela felicidade dos filhos de vocês. Tomem lugar, operárias e camponesas, sob a bandeira vermelha revolucionária do vitorioso comunismo mundial!



domingo, 7 de dezembro de 2014

Problemas de tradução do russo (3)


Por Erick Fishuk


Termino com este texto uma breve série em que espero ter bem abordado várias questões que me fizeram pensar durante a tradução de textos da língua russa para a portuguesa, especialmente canções e discursos da era soviética. Eu havia escrito e salvado esses apontamentos como notas no Facebook e, após algumas revisões, publiquei nessas últimas três semanas. Não deixem de ler também o primeiro texto e o segundo texto da série, para conhecer a ideia por trás das publicações, meus pressupostos em teoria tradutória e algumas informações sobre os autores de livros que cito aqui.

Nesta terceira postagem, um pouco mais longa e também mais minuciosa (o que pode tê-la tornado mais árida), dou exemplos de como lidar com as repetições de palavras e expressões no texto de partida, especialmente se elas tiverem função estilística, e como por vezes a condensação do tamanho do texto na versão de chegada é possível prejudicando ao mínimo a passagem de significados. Para tanto, serão mencionados vários procedimentos técnicos que os teóricos da tradução mais consagrados descrevem em suas obras e cujo esclarecimento pode exigir pesquisa adicional. Também é recomendável que os leitores tenham algum conhecimento de russo, mesmo apenas do alfabeto cirílico, porque nem sempre vou traduzir ou transliterar as palavras e frases dos textos de partida.



REPETIÇÃO E CONDENSAÇÃO

Concluí mais uma tradução de um pequeno discurso de Lenin, e me deparei com alguns problemas tradutórios que gostaria de compartilhar. São relativos à manutenção de repetições estilísticas e à condensação de duas expressões numa só, mas carregando o sentido de ambas.

A primeira questão se refere ao seguinte trecho:

“Почему мы победили Юденича, Колчака и Деникина, хотя им помогали капиталисты всего мира? Почему мы уверены, что победим теперь разруху, восстановим промышленность и земледелие?”

Para tornar a exposição mais fácil, vou mostrar a solução à qual cheguei:

“Por que vencemos Iudenich, Kolchak e Denikin, embora eles tenham sido auxiliados pelos capitalistas do mundo inteiro? Por que estamos certos de que agora venceremos o caos e restauraremos a indústria e a agricultura?”

Inicialmente, levando em conta o fato descrito, fiquei tentado a traduzir o início da frase assim: “Como foi que vencemos...” ou “Como foi que conseguimos vencer...”, e queria manter o “Por que estamos certos...” posterior. Contudo, julguei que essa repetição de “Почему мы...” dava um efeito de complementação por meio da repetição, então mantive intacto o “Por que...”, e retirei o “nós/мы” para dar mais dinamismo à frase. Eu também quis traduzir o “победили” inicial (pretérito do verbo “победить”, que pode significar “vencer”, “derrotar” ou “superar”, conforme o contexto) como “derrotamos”, pois se tratava de uma derrota militar imposta aos líderes do Exército Branco. Mas daí ia quebrar a repetição com o “победим” (“venceremos”, futuro do mesmo verbo “победить”), que até poderia ser traduzido como “superaremos”, “ultrapassaremos” etc., mas que cabia muito bem como “venceremos”. Então, o efeito ficaria algo parecido como: “Por que vencemos...? E por que venceremos...?”

Notável é que a tradução inglesa disponível no portal Marxists.org, entre outras perdas de sutileza, apresenta o trecho da seguinte forma: “How was it that we conquered Yudenich, Kolchak and Denikin, although they had help from capitalists of the whole world? Why are we sure that we will now overcome the ruin and rebuild our industry and agriculture?” Ou seja, as duas repetições são perdidas para “How was it that we...”/“Why are we...” e “conquered”/“overcome”. O tradutor para o inglês também deixou escapar uma falta de constância ao traduzir, mesmo em ocorrências distantes, a expressão “мы уверены, что...”, que fixei como “estamos certos de que...” (mas que poderia tomar outras formas), numa vez como “we are sure that...” (na verdade, “... are we sure that...”) e na outra, “we are convinced that...”. Não sei, claro, com meu pouco conhecimento técnico de inglês, se as contingências exigiriam essas formas diferentes, mas no russo parecia não haver distinção.

Não estou considerando aqui diversos tipos de repetição que Lenin faz, mais retóricos do que estilísticos, por conta da situação oral em que se encontra, e que geralmente omito, porque minhas traduções, a princípio, se destinam apenas a serem assimiladas na forma escrita (um filme de época com um ator interpretando Lenin, por exemplo, exigiria a reprodução dessas mesmas repetições retóricas). Para ficarmos no mesmo texto: “так же сознательно, с такой же твердостью, с таким же героизмом”, literalmente “tão conscientemente (quanto antes), com a mesma firmeza, com o mesmo heroísmo”, e que reduzi para “com a mesma consciência, firmeza e heroísmo”, incluindo ainda a transposição de um advérbio em substantivo (falarei desse procedimento técnico adiante).

Também achei interessante, sem arrogância, uma solução à qual cheguei traduzindo o seguinte parágrafo:

“Долой шкурников, долой тех, кто думает о своей выгоде, спекуляции, об отлынивании от работы, кто боится необходимых для победы жертв!”

A primeira solução à qual eu havia chegado era esta:

“Abaixo os arrivistas, abaixo os que só pensam em lucrar, especular, esquivar-se ao trabalho e que temem os sacrifícios indispensáveis à vitória!”

Quero concentrar a atenção no seguinte trecho: “кто думает о своей выгоде, спекуляции, об отлынивании от работы”. Literalmente, temos a seguinte interpretação: “que pensam em seu (próprio) proveito (ou “lucro”, dependendo do contexto), em especulação, no esquivo do trabalho”. Claro que no caso de “esquivo do trabalho” já ficaria muito melhor de cara “em esquivar-se do trabalho”, levando-se em conta que em russo usam-se substantivos em muitos casos em que usamos verbos. Essa é a primeira ocorrência do procedimento técnico de tradução que Vinay e Darbelnet, além de outros autores que os continuaram, chamaram de “transposição”, ou seja, a mudança do material léxico para expressar a mesma ideia (no caso, a transposição de um substantivo em verbo reflexivo). Porém, como vimos, a dinâmica da frase exigiu também a transposição dos substantivos “выгода” e “спекуляция” (ambos, no texto, na forma do caso prepositivo singular) para os verbos “lucrar” e “especular”, havendo ainda o acréscimo da palavra “só” por questão de ênfase e a omissão (que também seria um procedimento técnico, segundo Vázquez-Ayora) do pronome possessivo “своя” (“sua”, “sua própria”, sempre se referindo ao sujeito da frase, no texto também na forma do prepositivo singular “своей”).

Contudo, dois dias após fazer a primeira tradução desse parágrafo, numa das várias revisões do texto, dei-me conta de que Lenin, ao falar em “lucro/proveito” e “especulação”, não estava falando dos capitalistas que imperavam antes na Rússia, e sim dos arrivistas e aproveitadores que grassavam no Exército Vermelho. Portanto, as alusões a termos de economia e mercado não eram aí plenamente cabíveis, nem mesmo como metáfora, pois prejudicavam a compreensão. No caso de “выгода/lucrar”, pensei primeiramente em substituir por “aproveitar-se” (poderia ser também “dar-se bem”) ou “aproveitar”, este, porém, sendo muito incompleto. Contudo, ainda restava decidir o que fazer com “спекуляция/especular”. Claro que o Aurélio oferecia vários significados para “especular” e “especulação”, como “Investigação teórica, esp. de natureza exploratória, sem apoio de evidência sólida”, “Compra e venda de mercadorias ou títulos, esp. de forma arriscada e visando lucros altos e rápidos”, “Negócio em que uma das partes abusa da boa-fé da outra”, “Examinar com atenção; averiguar minuciosamente; observar; indagar; pesquisar”, “Transacionar, esp. de forma arriscada”, “Valer-se de certa posição, de circunstância, de qualquer coisa, para auferir vantagens; explorar”, “Comprar e vender (mercadorias, títulos, etc.) buscando ganhos a partir da oscilação dos preços, e correndo o risco de perdas”, entre outros. Da mesma forma, os dicionários russos online transitavam entre os significados desde “operação financeira” até “busca de lucros ou vantagens fáceis”, passando por “pensamento ou raciocínio vão, sem apoio na prática”. Mas eu achava que “especular” ainda era muito ligado, para os brasileiros, às práticas do mercado financeiro.

Como se pode notar, até mesmo pela não repetição da preposição “о” (sobre, em, a respeito de) em “о своей выгоде, спекуляции” e pela sua retomada em “об отлынивании от работы” (об = forma usada antes de som vocálico), tem-se a impressão de que “выгода” e “спекуляция” são usadas como sinônimos ou palavras complementares para uma mesma ideia, e que de alguma forma a ideia de “lucrar” já está em “especular”, consistindo, portanto, numa espécie de repetição ou ênfase. A diferença é que “especular” continha ainda a ideia de “jogar com a ocasião”, “fazer apostas arriscadas”. Assim, decidi trocar as palavras “lucrar, especular” por “tirar proveito das situações”, pois a ideia de “lucrar” estaria contida em “tirar proveito”, e a de “especular”, em “das situações”. Diga-se “das situações”, e não “da situação”, pois se faz uma generalização, e não a especificação de um caso. Assim, mais uma tentativa:

“Abaixo os arrivistas, abaixo os que só pensam em tirar proveito das situações, esquivar-se ao trabalho e que temem os sacrifícios indispensáveis à vitória!”

Alguns dias depois de deixar a tradução “descansando”, reli-a novamente e pensei melhor na conveniência da inserção do advérbio “só”, pensando se Lenin queria dizer mesmo “só pensam” apenas com o verbo “думает” (pensam). Olhei melhor o verbete “думать” (forma infinitiva) no meu dicionário e vi que, além da possibilidade de deixar simplesmente como “pensar em”, poderia usar outros sinônimos da ideia, como “tencionar”, “cuidar de”, “preocupar-se com”, entre outros. Mas julguei que “pensar em” ficaria muito localizado, válido apenas para aquele momento, sem refletir possíveis características interesseiras intrínsecas a esses arrivistas. Então, procurando sinônimos, achei mais adequado e sonoro o verbo “buscar”, além do que decidi fazer novas modificações gramaticais para tornar a frase mais natural. A versão definitiva foi, afinal, esta:

“Abaixo os arrivistas, abaixo os que buscam tirar proveito das situações e esquivar-se ao trabalho, temendo os sacrifícios indispensáveis à vitória!”

E, para terminar, mais uma piadinha relacionada à minha tradução. O adjetivo “вечная”, feminino de “вечный”, presta-se a inúmeras traduções: “perpétua”, “eterna”, “incessante”, “imortal”... Pois bem, eu deveria traduzir a expressão “Вечная слава...”, que instintivamente transformei em “Glória eterna (a)...”. Para tirar a dúvida, inseri “вечная слава” no tradutor do Google, e ele me deu “glória imortal”. Contudo, vejam só: ao inserir o ponto de exclamação em “вечная слава!”, a tradução se transformou em “glória eterna!”. Vai entender...

P.S.: Link para o texto em russo e em inglês: clique aqui. Reparei que nesta versão, na frase “о своей выгоде, о спекуляции”, a preposição “о” é, sim, repetida.