quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

A próxima presidente da Rússia


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/andreieva

Se ninguém a apresentar, você não sabe quem é esta simpática senhora. Aliás, ninguém vai saber, e ninguém sabe de nada do que está acontecendo atualmente entre a população comum da Rússia. Nem você, e a culpa não é sua. Nossa mídia hegemônica praticamente apenas traduz tudo o que vem dos EUA e do Reino Unido, e mais raramente dos países mais poderosos da Europa. Nessas bandas, ninguém está realmente preocupado sobre como vivem os russos reais do dia a dia, e não aqueles dos estereótipos (positivos e negativos) sobre a invasão criminosa de Putin à Ucrânia. O brasileiro, muito menos, portanto, ou observamos superficialmente o que aparece nos jornalões, ou, na pior das hipóteses, somos vítimas da desinformação putinista escrita diretamente em português ou traduzida diretamente do russo, em sites que falsamente tomamos por “mídia alternativa”.

Não existe meio termo, a polarização é desinformada, e mesmo uma oposição consequente à guerra, ao putinismo de modo mais geral, nutrida por uma compreensão profunda de como o bolchevismo envenenou a sociedade russa e como os anos 90 não representaram um período de “liberdade” entre “dois” autoritarismos, não temos. Ou atacamos Putin com base em princípios culturais (o alinhamento aos EUA) e pacifistas bem rasos, ou compramos cegamente seu discurso mentiroso vendo no autocrata uma espécie de possível restaurador da URSS ou, o que é mais comum, um opositor consequente ao “imperialismo estadunidense” malvadão (o que ele não é e nunca foi), que virou chave mágica pra compreensão de todos os problemas do Universo. O brasileiro quer ter razão sobre tudo sem ter informação sobre nada: mesmo o que considero a melhor mídia liberal em inglês, como Politico, The Guardian, Voice of America, BBC e NBC, sem contar as mídias públicas francesas, passam uma visão parcial e têm muitas outras coisas no mundo com que se preocupar. Além disso, quem no Brasil lê fluentemente inglês, quanto mais francês, e ainda o faz automaticamente no lugar de ficar rolando o feed de um Équis ou TikTok da vida?

As únicas mídias mais “próximas da fogueira” que consumo pra me inteirar da invasão russa e da vida dos russos, e ainda assim quase sempre em áudio ou vídeo, são as de russos exilados, geralmente de posição liberal e democrática e cuja atividade é proibida na Rússia ou o foi, ou foi bastante estorvada, a partir do 24 de Fevereiro: TV Rain, Novaya Gazeta Europe, Meduza e Radio Svoboda. Evito outros conteúdos em russo por razão de tempo e de viés mais sensível: tanto a mídia produzida pelo ou com o aval do próprio Kremlin (por razões óbvias) quanto as versões em russo dos famosos conglomerados euro-americanos, bem como os canais ucranianos em russo ou ucraniano, língua que não entendo mal. Vez ou outra eu tento trazer aqui textos ou vídeos traduzidos mais ou menos bem, sobre tópicos que as mídias brasileiras não abordam tão profundamente, ou não do modo como julgo correto, embora de forma assistemática e apressada.

Voltando ao tema, a senhora a que me referi acima é María Andréieva (Мария Андреева), esposa de um “mobilizado” (como são chamados os homens civis que vão pro abatedouro contra ou pela própria vontade) que começou devagarzinho a se organizar pela internet com outras mulheres de famílias cujos membros machos também não dão notícias, pelo menos, desde setembro de 2022, quando foi decretada a primeira “mobilização parcial”. (Pequeno parêntese pra que você não se engane: não houve nova “mobilização parcial” e nem houve uma “mobilização geral” oficialmente, mas os homens mais azarados às vezes são literalmente catados pelos alistadores até no meio da rua ou na saída de mesquitas e estações de metrô. Além disso, mesmo sem o intermédio do mafioso Ievgeni Prigozhin, a escória social e os presos têm a possibilidade de ir servir e, se voltarem vivos, ganhar um dinheiro, receber condecorações ou mesmo ter suas penas perdoadas!) Ela faz de tudo pra não parecer uma força de oposição ao governo nem incorrer nos infames artigos sobre “descrédito” e “notícias falsas” a respeito do Exército, mas o barulho que fazem e o apoio aberto ou velado que recebem já não podem ser ignorados.

Claro que Andreieva não lidera o único movimento de “esposas de mobilizados” (muitos dos quais acreditavam piamente no enganoso discurso patrioteiro de Putin), e claro que há outras iniciativas que educadamente pedem explicações sobre informações que jamais são dadas, como o paradeiro de seus entes queridos e possíveis prazos de retorno. Pedem ainda a “rotatividade” dos militares, a qual a ditadura se negou a realizar até o fim da “operação militar especial”, ou seja, entraram numa guerra sem fim e podem se acabar até o “fim” dessa guerra. Por sua estética, pelas bandeiras, formas e locais de protesto e pela injustiça cometida por um regime irrigado pelo sangue dos cidadãos, muitos estão as comparando com as Mães e Avós da Praça de Maio argentinas, e não foi por acaso que coloquei exatamente aquela foto no começo da publicação.

Seguem abaixo alguns artigos originalmente em inglês ou russo a respeito dos últimos desenvolvimentos, que devido a minha falta de tempo se limitam mais ou menos até o que pude achar por volta do dia 10 de janeiro. Mesmo assim, busquei que os textos fossem os mais recentes possíveis, no mínimo a partir de dezembro de 2023, quando o movimento começou a ganhar mais corpo. As autoras e autores dos vários artigos estão indicados na seção “Labels”. A ideia básica das reportagens continua superatual, e creio que os brasileiros deveriam começar a digeri-la o quanto antes. O episódio mais tocante foi quando a polícia, na Praça Vermelha, dissolveu há alguns dias uma das pequenas reuniões e chegou a encaminhar Andreieva pra detenção, mas um dos agentes teria gritado aos colegas: “Não toquem nessa!”, como se fossem desgastar inutilmente um futuro símbolo da resistência.



Esposas e mães de russos mobilizados fizeram piquetes individuais em Moscou e São Petersburgo exigindo o retorno dos homens do front Mulheres russas cujos maridos ou filhos foram mobilizados e lutaram contra a Ucrânia realizaram manifestações e colocaram flores em Moscou e São Petersburgo, exigindo o regresso de seus entes queridos da guerra.

(Agência Zerkalo) As participantes da ação são mães e esposas de russos convocados pra lutar na guerra contra a Ucrânia, ativistas do movimento “Путь домой” (Put domói, O Caminho pra Casa), que defende a desmobilização. Em Moscou, as mulheres depositaram flores no Túmulo do Soldado Desconhecido e mais uma vez pediram o retorno de seus homens do front.

As participantes também realizaram piquetes em outras instituições governamentais da Federação Russa, incluindo o edifício da Administração do Presidente da Rússia. No total, cerca de 15 mulheres participaram nos protestos em Moscou.

“Nosso presidente declarou 2024 como Ano da Família, mas, provavelmente, nossas famílias, ou seja, as famílias dos mobilizados, não são cidadãos da Federação Russa. Ou já fomos anulados, descartados junto com nossos maridos. É por isso que estamos em piquete exigindo o retorno de nossos entes queridos a nossas famílias”, acrescentou Maria Andreieva, do movimento “Put domoi” de esposas mobilizadas, e disse que ficaria com o cartaz “até morrer”.

Em São Petersburgo, cinco participantes do movimento “Put domoi” depositaram flores na Chama Eterna.

Lembramos que o movimento “Put domoi” foi formado na Rússia no final de 2023. Parentes de homens convocados para a guerra bombardeiam os funcionários com pedidos pra realizar comícios e piquetes, contestar as proibições e manifestar-se contra a mobilização. Muitos também criticam ativamente o comando do Ministério da Defesa e de Vladimir Putin pessoalmente. Em resposta, as autoridades russas estão exercendo pressão constante sobre as ativistas e tentando extinguir o protesto.


As mulheres dos mobilizados russos exigem a volta de seus maridos do front

(Canal UATV) Uma nova manifestação ocorreu perto dos muros do Kremlin com as mesmas exigências: a volta dos mobilizados pra casa. As esposas dos militares russos, que foram convocados pro Exército no outono passado, estão chamando a atenção da mídia e do público pra guerra da Rússia contra a Ucrânia. Os participantes do movimento “Put domoi” estão depositando flores na Praça Vermelha pela quarta vez e falando em voz alta sobre o que realmente está acontecendo no front, relata a agência FREEDOM.

Essas mulheres se despediram de seus maridos em setembro de 2022, quando Putin anunciou a mobilização. Depois lhes foi prometido que em três meses as famílias se reuniriam. Um ano e meio depois, junto aos muros do Kremlin, as mulheres russas exigiram que seus maridos mobilizados voltassem pra casa. Antes, as autoridades tinham anunciado que os recrutas permaneceriam no front até o final da guerra.

Esposa de um mobilizado russo, Paulina já está participando da quarta manifestação. No fim de semana passado, ela não só foi à Praça Vermelha, mas também realizou um piquete solitário perto do prédio do Ministério da Defesa russo.

A esposa de um recruta russo, Maria Andreieva, também pede às autoridades russas que ouçam sua voz. Mas assim que ela e outras esposas de soldados amarraram lenços brancos, que se tornaram um símbolo da sua resistência, e se reuniram na praça, a polícia imediatamente as abordou.

“O governo de Moscou não nos permite realizar comícios, por isso criamos e organizamos um evento de colocação de flores em memória dos que tombaram na SVO [operação militar especial, na sigla em russo]. Porque nosso governo também finge que os soldados não morrem em decorrência da SVO”, disse a mulher.

Andreieva é membro do movimento “Put domoi”, que já inclui cerca de 40 mil parentes de mobilizados russos. Começaram a defender ativamente o regresso de seus maridos que foram à guerra contra a Ucrânia no final do ano passado, 2023. Depois disso, seu canal no Telegram foi marcado como de “fake news” e seus maridos no front começaram a receber ameaças.

Parentes de militares reclamam que Putin declarou 2024 como Ano da Família na Rússia, mas ao mesmo tempo está destruindo famílias com as próprias mãos, enviando homens pra lutar.

A mídia pró-governo russa continua ignorando as ações do movimento “Put domoi”. Também não há reação das autoridades. Os comícios contam com a presença de jornalistas das chamadas publicações de “agentes estrangeiros” [inoagént, em russo]. Quando questionadas se as mulheres pretendem votar em Putin, elas respondem negativamente.

“Ainda estamos analisando os candidatos. Estou olhando pros candidatos. Qualquer um, mas não Putin!”, garantiu Andreeva.

Eventos semelhantes pra colocar flores e chamar a atenção pra guerra contra a Ucrânia ocorreram em outras cidades da Federação Russa, em particular em São Petersburgo, Udmúrtia, Khakássia, Vorónezh e Káluga. As participantes do movimento já anunciaram novos comícios em todo o país. [...]


“O que nossos homens fizeram de errado com esta pátria?” O candidato presidencial Borís Nadézhdin reuniu-se com as esposas dos mobilizados – O candidato presidencial russo Boris Nadezhdin realizou uma reunião com as esposas dos mobilizados, na qual reclamaram dos problemas que seus maridos tinham no front, bem como da falta de rotatividade. Um correspondente do Vot Tak relata isso no local.

Um total de 14 mulheres compareceram à reunião; Nadezhdin as chamou de “patriotas absolutas de seu país”. “Queremos apenas que as pessoas que agora cumprem seu dever e derramam sangue sejam tratadas com humanidade. Queremos que elas simplesmente voltem”, disse o político.

“Também quero que isso [a guerra contra a Ucrânia] termine de forma simples. Desde que tudo começou, em 2022, em fevereiro, sempre fui contra a ‘operação militar especial’, acrescentou Nadezhdin.

Durante o encontro, as mulheres contaram histórias sobre como seus cônjuges mobilizados foram parar na guerra, e também reclamaram que seus maridos foram enviados pras ofensivas. Uma das mulheres chamada Antonina disse que seu marido foi mobilizado com duas úlceras e não teria permissão pra voltar pra casa, apesar dos problemas de saúde.

A esposa de um mobilizado, Maria Andreieva, que esteve presente na reunião, se perguntou “por que os prisioneiros são libertados seis meses depois de terem cumprido com suas obrigações na SVO”, e seus homens ainda estão na linha de frente.

“O que nossos homens fizeram, o que fizeram de errado com essa pátria pra estarem lá nas trincheiras? Meu marido está diretamente nas trincheiras desde fevereiro. Ele não viu nenhuma rotação. Por que diabos vocês não os mudam agora? Eu respondo: porque não há tolos que irão à guerra por ideias e objetivos tão confusos e incompreensíveis”, disse Andreieva.

No final da reunião, Nadezhdin acrescentou que estava “muito preocupado” com os maridos destas mulheres, e também acrescentou que estava “muito ofendido com o Estado”.

“O que nosso Estado e nossa propaganda faz com as pessoas que só querem de volta seus entes queridos e a paz é as acusarem de navalnistas, agentes do Departamento de Estado [dos EUA] ou do Tsipso [Centro de Operações Informativas e Psicológicas da Ucrânia], é terrível”, observou o político.

Ele também pediu aos participantes da reunião que assinassem seu pedido de participação nas eleições.

O político Boris Nadezhdin anunciou suas ambições presidenciais no final de outubro de 2023. Em 28 de dezembro, a Comissão Eleitoral Central (TsIK) permitiu que Nadezhdin coletasse assinaturas. Entre outras coisas, ele se opõe à guerra contra a Ucrânia.

Agora, como candidato de um partido não representado na Duma Estatal, Nadezhdin deve recolher 100 mil assinaturas de cidadãos de pelo menos 40 regiões do país. Elas devem ser submetidas à TsIK pra verificação até 31 de janeiro. No entanto, de acordo com fontes do site Viorstka próximas da administração presidencial, a TsIK pode agora recusar o registro de Nadezhdin porque ele se opôs pessoalmente à guerra e ao presidente Vladimir Putin, embora inicialmente Nadezhdin fosse um candidato acordado com o Kremlin, dizem interlocutores.


“Nossos rapazes no front estão se f**endo por esse poder” – Em Moscou, a esposa presa de um mobilizado não conseguiu se conter.

(Agência Dialoh.ua; com um tom de bastante desprezo mesmo pra com os anti-Putin e indisponível no Brasil, programei um VPN pra me localizar na Ucrânia) Em Moscou, as forças de segurança de Putin detiveram uma mulher russa que saiu pra protestar exigindo que os mobilizados voltem do front. O crescente protesto das esposas e mães dos mobilizados provavelmente começou a deixar o Kremlin muito nervoso.

Hoje, 13 de janeiro, as forças de segurança detiveram em Moscou uma das participantes da manifestação, que fazia piquete no Túmulo do Soldado Desconhecido. A polícia deteve Maria Andreieva, uma das lideranças e participantes ativas do movimento pelo retorno dos recrutas. Hoje, ela e suas companheiras foram protestar usando lenços brancos. Uma das russas segurava um cartaz com a inscrição: “Liberdade para os mobilizados! Tragam de volta nossos maridos e filhos!”

Apesar do protesto ter sido pacífico, as forças de segurança detiveram Andreieva. Enquanto a levavam até o carro da polícia, a mulher começou a ficar ruidosamente indignada. Ela tentou lhes provar que o piquete era permitido pela Constituição Russa. “A esposa de um mobilizado está sendo detida, cidadãos! Estão vendo? Nossos rapazes no front estão se f**endo por esse poder e ele está detendo a esposa de um mobilizado!”, gritou a russa.

Vale ressaltar que, segundo a mídia russa SOTAvision [baseada na Letônia], Andreieva não foi levada à delegacia. Durante a prisão, um policial teria corrido até seus colegas gritando: “Não toquem nessa! Não estão ouvindo? Não toquem nessa!” Depois disso, a esposa do mobilizado foi liberada.

Esse incidente demonstra o nervosismo do Kremlin diante do movimento das esposas e mães dos recrutas. As autoridades russas têm medo de usar a força contra elas, temendo uma revolta entre os mobilizados no front. Enquanto isso, o movimento está ganhando força. Suas participantes já começam a exibir slogans antiguerra, exigindo não só a libertação de seus familiares, mas também a abolição da mobilização. Mais cedo, na Federação Russa, um mobilizado foi jogado num buraco depois de apelar a Putin; também escrevemos que as esposas dos mobilizados apresentaram queixas contra Putin perto do edifício do Ministério da Defesa russo.


Na Rússia, mulheres pedem retorno de recrutados do front ucraniano

(Portal Terra, que traduziu da Agência Reuters) Maria Andreieva, cujo marido está lutando na Ucrânia há mais de um ano, também está travando uma batalha em Moscou: levá-lo de volta para casa.

Ela não está sozinha.

Um movimento crescente de mulheres russas está pedindo o retorno do front de seus maridos, filhos e irmãos que foram mobilizados após um decreto do presidente Vladimir Putin em setembro do ano passado.

Inicialmente, o movimento prometeu lealdade ao que o Kremlin chama de “operação militar especial”, mas o que elas consideram ser resposta superficial que receberam está endurecendo algumas de suas opiniões.

Desde que o marido de Andreieva foi recrutado no ano passado e levado para a Ucrânia, ele voltou apenas em dois breves intervalos para ver a esposa e a filha pequena. A mulher diz que isso é insuficiente para um soldado que está lutando em um conflito.

“Queremos que nossos homens sejam desmobilizados para que possam voltar para casa, porque achamos que por mais de um ano eles fizeram tudo o que podiam – ou até mais”, disse Andreieva, de 34 anos, à Reuters em uma entrevista em Moscou.

“Para mim, não é apenas uma luta para garantir que minha filha tenha um pai, mas também é uma luta pelo meu casamento.”

Lidar com o movimento é uma questão delicada para o Kremlin.

Moscou, que enviou dezenas de milhares de soldados para a Ucrânia em fevereiro de 2022, em guerras anteriores tolerou um número de mortos maior do que seria politicamente palatável nos países ocidentais.

Mas o crescente movimento das mulheres russas ressalta a complexidade e a desigualdade de manter tantos homens na guerra por tanto tempo, enquanto muitos outros em idade de lutar permanecem em casa.

Grupos de mães de soldados russos fizeram campanha por melhores condições para seus filhos que serviam nas forças armadas quando a União Soviética se desintegrou e, mais tarde, pelo retorno deles das guerras na região russa da Chechênia.

Ainda é muito cedo para avaliar o tamanho ou o impacto do movimento das mulheres russas em uma sociedade que, segundo as autoridades, está unida para apoiar o esforço de guerra. As mulheres na Ucrânia também têm pedido que seus homens possam voltar do front.

Questionada sobre os perigos de se manifestar na Rússia em tempos de guerra, Andreieva disse: “Quero que você entenda: não é mais assustador porque simplesmente não é mais possível suportar tudo isso. É simplesmente demais.”

A Reuters não procurou nem recebeu nenhuma informação militar ou outra informação potencialmente sensível de Andreieva. Ela pediu que seu marido não fosse identificado.

Quando Putin ordenou uma mobilização parcial de 300 mil reservistas em setembro de 2022, centenas de milhares de jovens correram para deixar a Rússia. Milhões não saíram, e alguns deles foram convocados para lutar.

Desde então, a Rússia tem recrutado centenas de milhares de soldados contratados nas províncias com a tentação de altos salários. Até o momento, a Rússia recrutou 452 mil soldados contratados este ano, ressaltando a vantagem numérica que a Rússia tem sobre a Ucrânia, de acordo com Dmitri Medvedev, o ex-presidente que agora é vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia.

As petições para trazer seus homens de volta quase não tiveram resposta, e o Ministério da Defesa da Rússia mal se envolveu com as mulheres, disse Andreieva.

O ministério não respondeu a um pedido de comentário da Reuters.

Protestos planejados pelas mulheres não obtiveram a aprovação das autoridades para serem realizados. As mulheres foram acusadas de serem apoiadas por dissidentes e partidos de oposição baseados no Ocidente – calúnias sem fundamento, disse Andreieva.

O canal delas no Telegram, “Put domoi”, tem 23 mil membros.

[Curiosamente, esta parte não aparece na tradução] “BOAS MENINAS”?

Duas mulheres bombardearam o deputado Vitáli Milónov no mês passado com perguntas contundentes sobre o regresso de seus homens, perfurando suas tentativas de ignorar as questões com frases sobre seu próprio patriotismo.

“Somos todos russos aqui”, interrompeu uma delas em um vídeo postado online. “Quando os mobilizados serão trocados?”

“É claro que haverá (uma mudança). Seremos vitoriosos e tudo...”, disse Milonov.

“Oh, já ouvimos tudo isso antes”, interrompeu a mulher.

Para Andreieva e outras esposas, mães e irmãs, a desigualdade do fardo da guerra é uma queixa importante. Embora restaurantes opulentos em Moscou sirvam vinhos finos e trufas durante o período festivo do Ano Novo, alguns homens estão congelando nas trincheiras do front.

“Temos 1% da população que assume todo o fardo da SVO na frente de batalha, enquanto os outros 99% se preparam para o Ano Novo e se divertem”, disse Andreieva.

“Divertir-se não é o que está reservado para nossos meninos ou nossas famílias.”


“Estamos cansadas de ser boas meninas”: esposas e mães de militares russos protestam contra Putin – Os movimentos liderados por mulheres desafiam a narrativa oficial de que são necessárias tropas mobilizadas pra guerra contra a Ucrânia

(Jornal The Guardian) Tendo como pano de fundo bétulas cobertas de neve, um grupo de mulheres usando lenços brancos se mistura à paisagem de inverno russa. Num país onde a dissidência pública é rara, sua mensagem contundente a Vladimir Putin se destaca: traga nossos homens de volta da Ucrânia.

“Queremos uma desmobilização total. Os civis não devem participar nos combates”, afirma uma das mulheres no início do discurso de nove minutos deste mês. “Somos muitas e nosso número só vai crescer.”

A mulher é Maria Andreieva, 34 anos, e é uma das líderes não oficiais de um movimento popular emergente que vem ganhando força na Rússia nas últimas semanas.

Elas são as esposas e mães de alguns dos 300 mil homens russos que foram recrutados em setembro de 2022, num período crítico pro Kremlin, que precisava então reforçar seu número de tropas depois da Ucrânia ter recapturado territórios no sul e no norte do país.

Mais de um ano depois, com seus entes queridos ainda no campo de batalha, muitas mulheres estão organizando protestos públicos e escrevendo cartas abertas questionando a narrativa oficial de que são necessárias tropas mobilizadas na guerra da Rússia contra a Ucrânia.

“Por que nossos homens que levavam uma vida pacífica teriam de ir à Ucrânia?”, diz Andreieva, que mora em Moscou. “Se nosso governo decidir atacar um país menor, deixe o Exército lutar, mas deixe nossos homens em paz.”

Andreieva diz que o movimento surgiu em setembro, depois de Andréi Kartapólov, presidente da comissão de defesa do parlamento, ter dito à imprensa que não haveria rotação de tropas na Ucrânia e que voltariam pra casa após a conclusão da operação militar especial.

A Rússia tem um histórico de protestos liderados por mulheres durante a guerra. Esposas e mães lideraram um movimento antiguerra durante a Primeira Guerra da Chechênia em 1994, que ajudou a virar a opinião pública contra o conflito e desempenhou um papel na decisão do Kremlin de parar os combates.

As mulheres estavam organizadas em grupos bem geridos, como o Comitê das Mães dos Soldados da Rússia, que tinha centenas de centros regionais em todo o país, e, o que é crucial, sua mensagem foi transmitida na televisão russa numa altura em que os meios de comunicação ainda não estavam totalmente submetidos pelo Estado.

Mas desde que Putin assumiu o poder em 1999, as autoridades russas tomaram medidas sistemáticas pra desmantelar os movimentos populares, ao mesmo tempo em que assumiram o controle das mídias independentes que lhes poderiam proporcionar uma plataforma.

Após a invasão em larga escala da Ucrânia, o Kremlin avançou ainda mais, na prática criminalizando todas as vozes antiguerra e aplicando punições severas aos russos comuns, mesmo por pequenos atos de protesto civil contra a invasão.

Andreieva se comunica com outras esposas, irmãs e mães de soldados no Telegram, uma das últimas plataformas que acolhe vozes independentes. A maior parte de seu trabalho é coordenada no canal “Put domoy”, que já acumulou mais de 35 mil membros desde que foi criado em setembro. Ela diz que não tem medo porque está farta.

“O canal é onde nos reunimos e discutimos nossos próximos passos”, diz Natalia, enfermeira de uma pequena cidade perto de Sarátov, no sul da Rússia. “Vocês percebem que há muitos mais de vocês que querem que essa guerra acabe.”

Enfrentar o movimento é um assunto delicado pro Kremlin, diz Andréi Kolésnikov, membro sênior do Carnegie Russia Eurasia Center, com sede em Moscou. “Essas esposas e mães não fazem parte do tradicional movimento liberal e urbano anti-Kremlin. Muitas delas vêm da base central de apoio de Putin.”

Kolesnikov diz que o Kremlin pode estar preocupado com o fato de que, se reprimir o grupo com muita força, isso possa provocar uma resposta maior do público.

Até agora, as autoridades optaram por não prender nem intimidar as mulheres, ordenando, em vez disso, que as mídias estatais ignorassem seus apelos, bem como rejeitando seus pedidos de autorizações de manifestação em todo o país.

Numa tentativa de responder a parte da raiva crescente, Putin falou anteriormente com mães de soldados que lutam na Ucrânia, numa reunião cuidadosamente orquestrada. Uma investigação do The Guardian mostrou que as mulheres sentadas com Putin faziam parte de um grupo escolhido a dedo de mães de soldados com ligações com as autoridades.

Andreieva, que considerou a reunião de Putin um “show político”, diz que foi oferecido dinheiro a algumas das vozes mais altas de seu grupo em troca de silêncio. “Nenhuma quantia em rublos pode trazer seu marido de volta”, diz ela.

A resposta relativamente moderada do Kremlin pode ser parcialmente explicada pela forma como as mulheres se posicionaram inicialmente. A princípio, os membros do grupo “Put domoi” disseram que não se opunham à guerra e não criticavam Putin. “Não estamos interessadas em balançar o barco e desestabilizar a situação política”, dizia o manifesto do grupo.

Mas à medida que suas exigências foram ignoradas, sua linguagem endureceu. “Estamos sendo traídas e destruídas pelos nossos”, diz uma carta recente do grupo.

Na mesma declaração, as mulheres questionam a política do Kremlin que liberta da prisão assassinos e estupradores condenados após seis meses combatendo na Ucrânia. “Nosso presidente certamente tem senso de humor”, diz o grupo ironicamente.

E quando Putin não mencionou a possibilidade de uma desmobilização durante seu discurso de fim de ano na televisão, as mulheres do “Put domoi” escreveram que ele estava agindo “em seu estilo habitual: teatralmente, mesquinho e covarde”.

Andreieva diz que dentro do movimento havia muitas opiniões diferentes sobre os combates na Ucrânia, mas como as autoridades ignoraram suas exigências, algumas mulheres mudaram sua percepção do conflito.

“Algumas ainda acreditam na propaganda estatal. Mas muitas estão mudando de opinião sobre a operação militar especial”, diz ela, acrescentando que não votaria em Putin nas eleições presidenciais do próximo ano.

Natalia diz que o tratamento dispensado ao marido a levou a questionar a narrativa oficial do Kremlin sobre a guerra na Ucrânia. “Putin primeiro mentiu pra nós que os civis nunca teriam que lutar”, diz ela. “Você começa a pensar: ele também está mentindo sobre por que estamos na Ucrânia?”

Pra Andreieva e outras esposas e mães, a desigualdade do fardo da guerra era outra queixa, com muitos dizendo que se sentiam ignorados não só pelo Kremlin, mas também pela sociedade em geral.

Desde o início do conflito, os russos adotaram em grande parte uma forma de escapismo, com as pesquisas mostrando que a maioria preferia não pensar nem acompanhar os desdobramentos no campo de batalha.

Kristina, de Vladivostok, afirma: “O país está se preparando pras férias. Todo mundo está comprando presentes e comendo caviar, enquanto nós vivemos no inferno, preocupadas com nossos maridos.”

A situação do grupo expõe algumas das opções difíceis enfrentadas pela liderança russa à medida que a guerra se aproxima de seu segundo aniversário.

Uma nova mobilização permitiria uma rotação de tropas que poderia trazer muitos dos homens pra casa, mas as pesquisas têm mostrado consistentemente que uma nova mobilização seria profundamente impopular – e poderia desencadear uma onda de ansiedade e inquietação semelhante à vista no ano passado, quando a convocação levou à maior queda na popularidade de Putin desde que ele chegou ao poder.

Kolesnikov diz: “Durante a última mobilização, o Kremlin quebrou o contrato social não escrito com os russos: vocês nos permitem lutar na Ucrânia, e em troca ficamos fora de suas vidas privadas”.

Os observadores dizem que é cedo demais pra avaliar o impacto do movimento das mulheres russas num regime que tem uma longa história de supressão bem-sucedida de vozes dissidentes.

Mas a raiva delas ressalta parte do desconforto que alguns no país sentem com relação ao conflito e prejudica a imagem retratada por Putin de uma sociedade unida por trás do esforço de guerra.

Andreieva está determinada a continuar seus protestos, mesmo que isso possa a levar à prisão. “Estamos cansadas de sermos boas meninas. Isso não nos levou a lugar nenhum.”



Defenda a independência da Ucrânia! E não aos apelos por “paz” do governo dos EUA

(The Militant, “periódico socialista” e “pelos trabalhadores”, Nova York) A resposta dos governantes dos EUA à invasão da Ucrânia por Moscou, bem como sua resposta a todos os acontecimentos em todo o mundo, sempre foi promover seus próprios interesses estratégicos econômicos, políticos e militares, e não os do povo ucraniano. Seu objetivo é impedir a escalada da guerra e não garantir a soberania da Ucrânia, o que exigiria a derrota e a retirada das forças de Moscou.

A determinação e a coragem do povo trabalhador ucraniano fizeram retroceder a sangrenta invasão do presidente russo, Vladimir Putin. Mas depois de 650 dias, à medida que o inverno chega ao país, as linhas de frente da guerra estão congeladas por enquanto. Washington está utilizando o atual impasse pra tentar pressionar o governo ucraniano a iniciar conversações com Moscou.

O tabloide alemão Bild noticiou em 24 de novembro um plano secreto divulgado por autoridades dos EUA e da Alemanha, os dois maiores fornecedores de armas a Kyiv. Mostra que os governantes das duas potências imperialistas estão conduzindo uma pressão nos bastidores pra que Kyiv permita a Moscou manter parte do território que suas forças tomaram em troca do fim do derramamento de sangue.

De acordo com o Bild, a Casa Branca e a Chancelaria estão coordenando a pressão sobre Kyiv, disponibilizando apenas armas suficientes para as forças ucranianas manterem a atual linha da frente, mas não retomarem partes da Ucrânia que Moscou ocupa atualmente. O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Vedant Patel, negou o relatório do Bild, mas outro funcionário dos EUA disse à NBC: “há uma sensação crescente de que é tarde demais e é hora de fazer um acordo”.

Qualquer acordo de compromisso imposto a Kyiv apenas vai dar a Putin tempo pra tentar consolidar sua invasão, espalhando as sementes pra novas e mais amplas guerras. A determinação de Putin em varrer a Ucrânia e seu povo do mapa permanece inalterada.

Perdas russas alimentam oposição à guerra – O Kremlin aposta na pressão exercida sobre Washington por uma longa guerra de desgaste que permitiria a Moscou sobreviver às forças ucranianas. A economia capitalista da Rússia está sendo convertida pra produção de guerra, com fábricas funcionando em turnos, 24 horas por dia.

Putin baixou um decreto em 1.º de dezembro pra arregimentar 170 mil soldados e aumentar o tamanho do Exército pra 1,3 milhão. Ele espera fazer isso sem uma mobilização aberta, o que desencadearia protestos como os do ano passado.

A população da Rússia é três vezes maior do que a da Ucrânia. As autoridades estão varrendo os migrantes da Ásia Central, invadindo mesquitas, restaurantes e mercados onde trabalham. Os detidos são levados pra postos de alistamento militar. Também aumenta a pressão sobre prisioneiros, devedores e funcionários de empresas estatais pra que se alistem.

As taxas de baixas russas se aproximam dos números surpreendentes sofridos pelo exército do tsar na 1.ª Guerra Mundial. Depois, uma média de mais de 1 100 soldados foram mortos todos os dias. Hoje, o número é de cerca de 900, com um pico de mais de 1 300 mortes em alguns dias, relata o Kyiv Post.

“Estamos abandonados”, diz um grupo de soldados russos em um vídeo divulgado em 1º de dezembro. Eles dizem que não são alimentados adequadamente, têm que fornecer seus próprios remédios e seus comandantes os enviam pro abate, deixando os feridos apodrecendo em campo.

No dia 3 de dezembro, surgiram relatos de revoltas entre as unidades de Moscou ao longo da margem do rio Dnipró, após pesadas perdas. Numa unidade, os soldados recusaram comandos pra recapturar posições de cabeça de ponte ucranianas ali e em várias ilhas, alegando que não tinham cobertura aérea e de artilharia eficaz. As tropas russas também sofreram dezenas de mortes depois de terem sido enviadas através de seus próprios campos minados sem mapas. Sua recusa a atacar se espalhou a outras unidades estacionadas ao longo do rio.

Soldados russos capturados pelas tropas ucranianas descrevem o tratamento que receberam de seus oficiais. Pavel, um ex-operador de máquinas-ferramenta da Sibéria, disse que sua companhia recebeu ordens de tomar território no nordeste da Ucrânia no início deste outono [primavera no Brasil]. “O capitão disse que cumprimos nosso objetivo. Mas como você pode dizer isso se de cada 100 homens, apenas 35 voltam? E isso foi apenas num dia.”

Protestos foram realizados em várias cidades russas no mês passado por mães e esposas de soldados, exigindo rotação de tropas.

O grupo “Put domoi” de familiares dos soldados afirma que o Kremlin prometeu que as tropas mobilizadas em setembro de 2022 voltariam pra casa após alguns meses. “As promessas se mostraram vazias. Fomos traídas”, escreveu o grupo em 27 de novembro. “O presidente declarou 2024 como o Ano da Família. É irônico, visto que as esposas choram sem os maridos, os filhos crescem sem pais e muitos já são órfãos”.

O Kremlin acusa a organização de ligações com grupos de espionagem ocidentais.

“Só vamos recuar depois que nossos homens estiverem seguros em casa. Aqui e agora estamos criando a base da solidariedade pública contra a mobilização indefinida”, respondeu “Put domoi”.

Em Moscou, no dia 7 de novembro [aniversário da Revolução Bolchevique], 20 mulheres se juntaram à margem de um comício legal do KPRF [o partido comunista] e levantaram o slogan “Não à mobilização indefinida”, antes que a polícia as levasse embora. Em Novosibirsk, as autoridades permitiram que os familiares dos soldados realizassem um protesto, mas insistiram que ele acontecesse num edifício governamental, com a maior parte da imprensa proibida de entrar.

O governo está oferecendo pagamentos maiores às famílias dos soldados, “mas apenas se ficarmos calados”, disse Maria Andreieva ao New York Times. Ela realizou um protesto individual em Moscou no mês passado, carregando uma placa que dizia “Justiça. É hora dos mobilizados voltarem pra casa.”

“As mulheres precisam dos maridos e dos filhos, não de recompensas”, disse ela.



Mulheres chechenas e mães de soldados russos marcham pacificamente até a vila de Samashki, no oeste da Chechênia, em abril de 1995.

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Bukele é ditador, mas Ortega não?...


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/bukele-ortega


Hoje eu gostaria de lhe apresentar um artigo, meio mal escrito e com parágrafos picotados demais, por sinal, que achei ao acaso procurando por comparações entre os governos autoritários e repressivos de Nayib Bukele em El Salvador e de Daniel Ortega na Nicarágua. O que une esses dois mandatários, apesar da propensão ultraliberal de um e da tendência comunizante de outro, é sua localização na América Central, fina faixa de terra que sempre teve instituições estatais muito instáveis, sobretudo durante o século 20, e que os EUA sempre viram como seu “quintal” natural de dominação econômica, política e estratégica. O quanto o primeiro fato decorre do segundo é algo a se debater, mas ambos são realidade, e infelizmente o agravamento da atual situação social centro-americana, bem como no Haiti, na Venezuela e em Cuba, impele milhares de refugiados todos os anos a tentarem uma vida “melhor” na América anglo-saxã, um sonho quase sempre ilusório.

Voltando ao foco, o nome em português do artigo que traduzi do espanhol (sem o Google desta vez!) é “Não nos confundamos: o caminho de Bukele não é igual ao de Ortega na Nicarágua...” e saiu em 8 de novembro de 2023 no site de um periódico de extrema-esquerda supostamente tradicional em El Salvador – busquei artigos que fossem os mais recentes possíveis, pra terem incorporado as evoluções negativas de Bukele. Quem assina é um certo “Colectivo de análisis Tetzáhuitl”, e embora pareça que eu esteja fazendo propaganda reversa, achei este texto muito indicativo da podridão em que se encontra hoje grande parte da esquerda no “mundo ocidental”. Como indiquei anteontem ao praticamente “glosar” o artigo da Djamila Ribeiro, a ascensão da extrema-direita (por definição, fascista) no Brasil se deveu em grande parte ao que eu chamaria de “tiktokização” do debate público, ou seja, não há debate, mas embate com vídeos rasos e lacradores, despertando a emoção e os instintos.

Meu grande receio é que esse método desenvolvido pelo MBL no Brasil (e não exclusivo nosso), mas amplamente implementado pelo bolsonarismo, acabe vencendo na esquerda, sobretudo em sua parte mais radical, e que o espaço pras figuras “moderadas” ou simplesmente intelectuais se reduza cada vez mais. O tal coletivo “Soberana”, de supostos gamers e programadores progressistas, é um exemplo desse chorume em evidência. Esse receio ficou ainda maior quando eu soube que o MBL estaria planejando ir a El Salvador pra fazer um documentário sobre a chamada “ditadura mais cool do mundo”, em algo que não difere muito do pessoal que é pago pra fazer conteúdo elogiando a Coreia do Norte, o qual nada tem de instrutivo nem mesmo de divertido. Sem divagar muito sobre o fascismo, o artigo se resume a dizer que a ditadura (eles não usam esse nome, claro) de Ortega é justificável porque ele combate o “imperialismo estadunidense”, enquanto Bukele é a ele submisso, e quem se opõe à FSLN, portanto, é “golpista”, “somozista” (o fantasma da volta ao passado!) e “oligárquico”. Simples assim.

Qualquer mané dos primeiros anos de graduação em Humanas numa universidade pública bananeira podia ter assinado essa garatuja sem despertar suspeitas, exceto pelo estilo de meu português, que julgo bastante peculiar. Ditadura de direita pró-EUA não pode, mas de “esquerda” anti-EUA pode. Mas o suco de cegueira seletiva, reducionismo teórico, monocausalidade (tudo é o imperialismo, tudo é os EUA), falta de empatia com vítimas de Ortega e até mesmo o antissemitismo conspiracionista que em nada deveria ao filme O judeu eterno da Alemanha de Hitler fariam jus a nossos pró-Palestina mamadores de jihadistas genocidas. Eles sequer têm coragem de dizer se o nicaraguense gerou algum benefício palpável no nível de vida da população, se limitando apenas a dizer que “o povo não faz oposição” – até porque não é nem bobo nem nada, diante de uma ditadura terrorista que persegue até mesmo a Igreja Católica, e isso numa região de maioria católica. A meu ver, mesmo que fossem colocadas taxas de crescimento anuais em comparação, não haveria qualquer justificativa: ditadura do capital é ruim, ditadura de uma casta burocrática que usurpa o poder em nome do proletariado também é, enfim, qualquer ditadura em nome de qualquer coisa, sobretudo em nome de um improvável futuro paradisíaco, deve ser evitada.

Seria didático no futuro fazer uma comparação entre esses regimes e uma provável evolução autoritária, já bastante visível, do governo de Javier Milei, que compartilha alguns delírios “ancaps” com Bukele (o qual, porém, não se comportava como um palhaço), embora a Argentina se diferencie da “Centroamérica” pelo relativo grau de solidez de suas instituições. Ditadores também podem chegar ao poder por meio de eleições democráticas, e sim, Ortega não é Bukele, o que não significa que ambos não sejam ruins a seus países à própria maneira. A própria desfaçatez das “reeleições indefinidas” da FSLN já seria uma aberração do ponto de vista moral e estritamente democrático. Mas pra interromper mais uma introdução que ficou demasiado longa, pontuo apenas que não fiz grandes mudanças no conteúdo, adicionei algumas notas explicativas (entre colchetes ou indicadas por asteriscos) e, como disse, adaptei ao estilo mais leve de português que costumo usar aqui na página. Boa leitura!

____________________


Bukele é um instrumento do imperialismo estadunidense, não é inimigo dos Estados Unidos e muito menos do capital financeiro sionista [!], como é de fato Daniel Ortega.

A situação vivida pelo país é tão complexa que gera frequentes equívocos na análise e na interpretação do que está ocorrendo sob Bukele.

Alguns analistas consideram erroneamente que Bukele está seguindo o mesmo padrão de Daniel Ortega pra se perpetuar no poder.

Chegam ao cúmulo de garantir que Bukele quer transformar El Salvador em outra Venezuela, não sem antes a transformar em outra Nicarágua.

Não cremos que isso esteja ocorrendo no país diante da candidatura de Bukele pra concorrer a um segundo mandato presidencial, embora a Constituição proíba isso expressamente.

E muito menos com o autoritarismo que caracterizou sua gestão presidencial durante todos esses anos.

É claro que a reeleição presidencial na Nicarágua era impedida pela Constituição Nicaraguense e que uma interpretação do Supremo Tribunal de Justiça desse país, controlado por Ortega, facilitou seu caminho pra buscar um segundo mandato consecutivo em 2012, logo depois de ter vencido as eleições em 2007.

A diferença com nosso país é que na Nicarágua, o artigo que impedia a reeleição contínua e imediata não era uma cláusula pétrea e, portanto, podia ser reformada sem que se precisasse convocar uma Assembleia Constituinte, o que era o caso em El Salvador.

Ortega seguiu um caminho que não era obstado por nenhuma Lei da República.

Em sua interpretação do texto constitucional, o Tribunal Supremo de Justiça identificou um choque de direitos e fez prevalecer o direito que qualquer cidadão tem de buscar um cargo por sufrágio universal em detrimento da limitação constitucional que um Presidente em exercício tem pra se candidatar a um segundo mandato consecutivo.

Baseado nessa resolução do Órgão Judicial da Nicarágua, Ortega se candidatou uma terceira vez em 2012, ganhou a eleição e, já com o controle do órgão legislativo, reformou o artigo que impedia a reeleição imediata.

Esse novo cenário lhe permitiu continuar se candidatando à Presidência da República sem que nenhuma Lei, incluindo a Constituição, o impedisse.

A situação de Bukele é muito diferente.

Em primeiro lugar, o que o Tribunal Constitucional (*) imposto fez foi emitir uma resolução sobre um assunto que não era objeto de interpretação nem tinha a ver com a essência do que foi solicitado por uma demanda apresentada diante do Tribunal.

(*) No original, “Sala de lo Constitucional”, uma das subdivisões (salas) da Suprema Corte. Tem por função julgar se determinadas leis são conforme ou não à Constituição vigente (no caso, a de 1983), função que no Brasil cabe ao próprio STF como um todo, e não apenas a parte dos magistrados.


O requerente solicitava que fosse privada de seus direitos cívicos uma cidadã que estava promovendo a reeleição de Bukele, tal como estabelece a Constituição.

Diferentemente do que afirmam os bukelistas e alguns advogados próximos à CAPRES [Casa Presidencial, i.e. a presidência], o Tribunal não proferiu uma sentença sobre a reeleição, mas uma simples resolução por meio da qual interpretou de forma absurda as cláusulas pétreas da Constituição sem que esse fosse o objeto do requerimento.

Uma simples resolução judicial não era e continua não sendo de cumprimento obrigatório, tal como se garantiu.

Em segundo lugar, o Tribunal Constitucional passou por alto sobre a natureza pétrea de ao menos cinco artigos da Constituição referentes ao regime político do país que não podem ser modificados nem revogados sem que intervenha uma Assembleia Constituinte.

Isso significa que os impedimentos constitucionais à reeleição imediata continuam vigorando.

Em terceiro lugar, os artigos em questão são claros ao estabelecerem que um mandato presidencial não pode se prolongar por mais de cinco anos e que sua violação impele à insurreição.

Ao pleitear um segundo mandato, Bukele, por ter exercido a Presidência no período imediatamente anterior ao do início do período presidencial seguinte, está inabilitado a continuar se apresentando como Presidente da República e, portanto, deve ser destituído pela Assembleia Legislativa ou por uma insurreição popular.

Na Nicarágua, houve um choque de direitos em que terminou prevalecendo o direito cidadão de pleitear um cargo por sufrágio universal.

Por isso [Ortega] pode continuar buscando um novo mandato por tempo indefinido.

Em El Salvador, o cenário jurídico e político é muito diferente e é um erro o equiparar ao regime nicaraguense.

Diferentemente da Nicarágua, Bukele é a melhor opção dos Estados Unidos em El Salvador pra manter seus planos de expansão e dominação imperialistas na região.

Na Nicarágua, Daniel Ortega sempre foi um opositor do imperialismo estadunidense.

A luta conduzida pela Frente Sandinista [de Libertação Nacional, a FSLN, hoje partido no poder] e por Ortega, a qual derrubou a ditadura de Anastacio Somoza em 1979, sempre esteve carregada de um sentimento anti-imperialista que remonta à época de Augusto César Sandino, em inícios do século passado. (*)

(*) Sandino (1895-1934), líder revolucionário morto após uma das enésimas intervenções dos EUA no país, curiosamente era rejeitado pela Terceira Internacional comunista de Moscou como um “revoltoso pequeno-burguês”. Era o mesmo caso do brasileiro Luiz Carlos Prestes até 1934, que por sua vez, porém, entraria oficialmente no PCB nesse ano e seria seu dirigente incontestável de 1943 a 1980. A reapropriação de Sandino não difere em muito da reapropriação de Bolívar pelo chavismo.


Ortega nunca foi uma opção pros EUA, e desde que alcançou a Presidência pela primeira vez em 1980, eles sempre tentaram desestabilizá-lo.

Quando voltou a ganhar a Presidência, em 2007, o imperialismo estadunidense, aliado ao que restava da direita somozista, trabalhou pra sabotar seu governo.

A tentativa mais recente foi o financiamento dos “bloqueios” golpistas [na verdade, protestos populares cuja repressão brutal marcou a consolidação irreversível da ditadura] em 2018, quando os Estados Unidos, sem qualquer escrúpulo, financiaram um setor da direita empresarial contrária ao regime e a ultradireita ligada ao somozismo e a grupos políticos antissandinistas que há várias décadas residem nos EUA.

Os Estados Unidos promoveu a desestabilização e a tentativa de um golpe de Estado controladas por Ortega e pela Polícia Sandinista.

Essa não é a situação atualmente vivida por El Salvador com Bukele.

Enquanto na Nicarágua o Departamento de Estado, o Congresso dos Estados Unidos, a CIA e o capital sionista [!] de Wall Street apoiaram diferentes candidaturas presidenciais da oposição e impuseram uma série de sanções econômicas contra o governo de Ortega, em nosso país a tolerância dos Estados Unidos face aos abusos e excessos autoritários de Bukele não tem comparação.

O apoio público a sua candidatura e a sua reeleição por Brian Nichols, Subsecretário de Estado Adjunto para Assuntos do Hemisfério Ocidental, é a prova mais recente dessa tolerância.

Ortega nunca foi uma opção pros Estados Unidos e nunca será.

Por sua vez, Bukele já o era antes mesmo de ser candidato e Presidente da República.

O autoritarismo de Bukele tem uma origem e um propósito diferentes dos que se imputam a Ortega e seu governo.

Bukele não é igual a Ortega.

Bukele, como defendemos em outros artigos, é a melhor opção que têm os Estados Unidos pra consolidar seus projetos imperialistas na região, enquanto Ortega na América Central é algo como “a pedra no sapato” que impede que esse país e seus grupos de poder sigam mantendo o controle e a hegemonia em seu “quintal”.

O governo de Ortega não é nem pró-oligárquico e muito menos pró-imperialista como o de Bukele.

Não há nada na gestão presidencial de Ortega que nos faça pensar que tenha uma aliança com o imperialismo e com a oligarquia nativa [criolla] pra se manter no poder.

Uma gestão autoritária e violadora do Estado de Direito e das liberdades fundamentais é funcional ao estabelecimento e consolidação de um modelo de gestão econômica neoliberal e pró-oligárquica.

E esse não é o caso de Ortega.

Por sua vez, ao contrário do que prometeu na campanha de 2019, Bukele manteve os privilégios da oligarquia salvadorenha, e sua gestão econômica favorece os interesses corporativos do capital financeiro sionista [!] dos Estados Unidos.

A aliança com os grupos oligárquicos nacionais e os grupos hegemônicos que manejam os fios do poder nos Estados Unidos é indispensável pra manter esse modelo de acumulação e dominação política que Bukele gerencia desde 2019.

Bukele é obrigado a exercer um regime autoritário e excludente que lhe permita enfrentar a rebeldia e a resistência cidadãs e consolidar o modelo oligárquico e pró-imperialista de acumulação de capital.

Bukele não pode se dar ao luxo de abandonar o poder do Executivo e o controle do Estado.

Se o fizer, o mais provável é que acabe tendo o mesmo destino do ex-Presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández.

Na medida em que deixar de ser útil pros Estados Unidos, terminaria detido num presídio federal desse país, como ocorreu com outros mandatários que, no passado, foram aliados do imperialismo.

Bukele segue no poder porque é algo funcional aos Estados Unidos.

No dia em que deixar de ser útil, vai ser descartado e se converter num estorvo pros interesses imperialistas e oligárquicos, tal como ocorreu com o ditador Hernández Martínez, em meados do século passado.

Isso não ocorre com a Presidência de Daniel Ortega.

Ele se mantém no poder apesar da oposição do imperialismo e da oligarquia herdeira do somozismo.

Os setores e as maiorias populares não integram a oposição a Ortega e a seu governo [por que será, né?...].

A oposição que foi obrigado a enfrentar nos últimos anos são golpistas e desestabilizadores financiados e apoiados politicamente pelo imperialismo estadunidense.

Não há grande diferença entre essa oposição, majoritariamente no exílio, e os contras nicaraguenses da década de 1980, apoiados econômica e militarmente pelo governo de [Ronald] Reagan.

Equiparar o regime político de Bukele com o de Ortega e até mesmo com o de [Nicolás] Maduro na Venezuela é um tremendo erro de análise política que no ajuda a fortalecer a rebeldia e a resistência cidadãs e, menos ainda, a identificar a natureza oligárquica do governo direitista de Bukele.



domingo, 14 de janeiro de 2024

O desserviço do Big Brother Brasil

No dia 12 de janeiro, foi publicado de madrugada no site da Folha de S. Paulo um artigo de opinião da filósofa brasileira Djamila Ribeiro, grande pensadora do movimento negro e teórica do antirracismo (com o perdão da gíria machista, o Silvio Almeida de saia!), com o mesmo título que indiquei acima. Ela não cita nomes, mas quem lembra notou que se trata do Babu Santana, que participou do BBB 20 (talvez o primeiro a abordar amplamente questões societárias, como a masculinidade tóxica) e soltou numa conversa com uma colega que a palavra “negro” tinha origem grega e significava “inimigo”, portanto, o correto seria dizer que pessoas como ele eram “pretas”. O absurdo da conclusão é tamanho (quem estudou o mínimo de latim conhece a palavra níger, -gra, -grum), e ficamos tão “perplectos” sobre a origem dela, que o próprio Henry Bugalho fez um vídeo falando a respeito, cujo link indiquei no meio do texto.

Spoiler: a meu ver, a ocasional rejeição à palavra “negro” pode ser um decalque do debate norte-americano, do qual quase tudo é copiado aqui em matéria de movimento antirracista. Em inglês, “black” pode ser simplesmente a cor preta ou a pessoa negra (de “pele preta”), enquanto a palavra “Negro”, de origem hispano-portuguesa e tristemente ligada ao tráfico escravocrata moderno, assim como seu derivado fortemente ofensivo “nigga”, caíram em desuso. Djamila não cita os EUA, mas desfaz a confusão.

Nada pessoalmente contra o Babu (minha vó adora as novelas em que ele atua!), mas o texto da Djamila me impressionou tanto – e olha que nem tenho aberto muito a Folha nos últimos tempos – que resolvi o roubar e republicar aqui, sem alterações textuais ou de estilo, mas apenas inserindo uns itálicos quando achei pertinente. Djamila é uma das ativistas que, dada sua estatura intelectual, não cedeu à vaidade e à egolatria da “lacração”, por isso muito do que ela fala quase sempre desagrada aos radicais de Twitter. E quando falo “lacração”, não falo de bandeiras identitárias, antiopressão ou mesmo de esquerda em geral, e sim do que uma vez Marcelo Tas, no Jornal da Cultura, já tinha atribuído ao próprio Bolsonaro logo que ele tomou posse, ou seja, o estilo lacrador.

Atualizando mais um pouco, eu diria que os “militantes” passaram a privilegiar a escala industrial cada vez mais imposta pelos algoritmos do que a lisura do conteúdo em si, e é exatamente nessa ferida que Djamila põe o dedo. As bandeiras progressistas foram cooptadas pelo que eu chamaria “ciberativismo” e que muitos já chamavam de “militância de sofá”, isto é, apenas a produção de conteúdo importa, e não mais a participação presencial ou o próprio aperfeiçoamento intelectual. E, sobretudo, eu diria, a autocrítica, pois a autocrítica é o pecado mortal daqueles que se arrogam donos da razão e buscam a impor a seus adversários, se valendo pra isso de um séquito cego chamado de “seguidores”. Tretas de Twitter ficam e só têm impacto no próprio Twitter, ou, como diria Sérgio Sacani, ele é o próprio “metaverso”, pois o que tá lá fica lá e acaba lá.

Bugalho, assim como PC Siqueira e, digamos, Sabrina Fernandes, fazem parte de uma geração que sempre usou o YouTube como vloggers, e não “influenciadores”: eles busc(av)am quem concordasse com eles, e não que concordassem com eles. Eu fiz parte de uma geração que “traduzia conteúdo” pra postar na plataforma, e quando a seleção natural me botou pra fora, não desejei seguir a lógica dominante. Toda essa gente simplesmente foi varrida da internet, que dirá outras redes sociais nascidas exatamente dentro dessa “lógica”!

Resumindo, o engajamento, a repercussão e a imagem se tornaram mais importantes do que o convencimento, a divulgação e o respeito. Indiretamente, Djamila recorda que outros grupos ou bandeiras também foram cooptados pela lógica de mercado e perderam seu caráter de contestação, o que, claro, não implica que suas causas tenham perdido valor. Assim como ela, acho simplesmente que devemos rever, repensar o modo como queremos realizar transformações substanciais sem sermos usados pelas tecnologias mais avançadas de que dispomos, mas as usando. Como diz o brasão de São Paulo capital, “Non ducor, duco”.

Pensemos também sobre como o recurso quase exclusivo aos reacts, que o canal Meteoro Brasil via como “o futuro das propagandas eleitorais”, na verdade – a meu ver – envenenou os debates sobre política e ideologia. Mas como minha intenção não era ter feito um segundo texto, e me desculpando pelo desabafo, segue o precioso material:


É preciso regular as redes sociais e as empresas de marketing digital

Seguindo as reflexões das duas últimas colunas, quero falar sobre os perigos do aproveitamento de pautas sociais a partir de um caso concreto.

Numa edição do Big Brother Brasil, um participante disse que era incorreto se referir à população negra como “negro” ou “negra”, que o correto seria dizer “preto” ou “preta”. Esse participante, hoje influenciador, passou essa informação sem a mínima responsabilidade, e centenas de outros passaram a replicar nas redes sociais levando uma série de pessoas a erro.

Isso é irresponsável por vários motivos: há toda uma tradição de estudos a respeito do tema e, além disso, o movimento negro brasileiro definiu a categoria negro como a soma de pardos (negros claros) e pretos (negros retintos). Assim também está definido no Estatuto da Igualdade Racial.

Por causa disso, muitas pessoas pardas passaram a se declarar pretas, o que pode ter ocasionado uma apuração equivocada pelo censo do IBGE, algo alertado diversas vezes pela intelectual Carla Akotirene, que, por sua vez, sofreu vários ataques por pautar o que era correto.

Desde essa edição do programa, páginas de conteúdo voltado à população negra passaram a postar sobre BBB todos os dias sem informar seus seguidores do porquê dessa mudança radical. De repente, em vez de se postar sobre temas relevantes para a população negra, essas páginas viraram uma espécie de relações públicas do programa, sem publicizar qual acordo foi feito, se estavam recebendo por isso.

O mesmo aconteceu com algumas figuras negras com algum alcance: pessoas que criticavam o programa com veemência se tornaram comentaristas diárias sem o cuidado de comunicar a quem os segue o porquê disso. O que, mais uma vez, nos leva a crer que há acordos não ditos. Pessoas ligadas a organizações sociais também passaram a comentar e a usar a palavra “preto” sem o mínimo respeito à história do movimento negro. O silêncio e a omissão de ativistas foram gritantes.

Um verdadeiro acinte, pois não faz sentido permitir que uma grande corporação paute as demandas da população negra brasileira, em vez de se respeitar os acordos coletivos construídos com muita luta.

Pessoas com mandatos e ligadas à política institucional também fazem as vezes de relações públicas do programa e eu pergunto: onde fica a impessoalidade da administração pública? Em vez de pautarem a democratização da mídia, estão legitimando o monopólio midiático? Isso seria do interesse da população brasileira, a quem eles representam?

É grave que um programa na maior emissora do país paute temas referentes à população negra com a conivência de influenciadores, muitos agenciados por empresas de marketing digital. São desserviços como esse que facilitam a vida de pessoas desonestas intelectualmente para argumentar que raça é fraude no país – último das Américas a abolir a escravidão e que tem obrigação de reparar desigualdades históricas baseadas em raça.

O Brasil não é os Estados Unidos e aqui ainda é importante que falemos sobre colorismo, e como há diferença de tratamentos entre pessoas negras claras e negras escuras. Não se trata de dividir a população negra, nem de dizer que pardos não sofrem racismo. Sofrem, claro, são negros, mas é importante, a partir de dados objetivos – pois é assim que se cria demandas de políticas públicas – que tenhamos informações sobre a realidade concreta de pessoas pardas e pretas para que consigamos formular saídas emancipatórias e pensar as relações de desigualdade intragrupo.

Há muita literatura sobre o tema, mas pessoas que se intitulam ativistas acreditam que gravar um vídeo ou fazer um textão, sem a mínima responsabilidade histórica, dá conta de pensar um assunto tão complexo.

São diversas pautas sociais esvaziadas, desde confundir objetificação do corpo feminino e consumo de mulheres com empoderamento a se acreditar que debater sobre um relacionamento no BBB é discutir os efeitos do patriarcado. E não se enganem, cada vez mais as táticas se sofisticam.

Provavelmente vocês verão psicanalistas, pessoas com alguma formação acadêmica debatendo sobre o BBB utilizando Lacan, Beauvoir ou algum autor conceituado dando ares de importância a temas absolutamente irrelevantes. E quem ousar criticar apontando erros na análise ou no próprio programa será chamado de elitista, mesmo que a arrecadação do BBB passe de R$ 1 bilhão.

É necessário estar atenta a diversas formas de desinformação transmitidas por esse programa e replicadas aos tubos por influenciadores agenciados por empresas de marketing digital.

Dito isso, é preciso regular as plataformas de redes sociais e as empresas de marketing digital. O povo não pode seguir sendo feito de bobo [provável referência a um velho bordão esquerdista que também caberia na boca de um bolsominion, “O povo não é bobo! Abaixo a Rede Globo!”].


sábado, 13 de janeiro de 2024

MINHA DEFESA DE TESE (30/jan)!



Meu primeiro dia no mestrado, em março de 2014. Magrinho, rs... Seriam 10 anos de pós-graduação pontuados pela crise político-econômica e pela pandemia. O ex-colega e já doutor Jonatas tirou a foto!


Título: A Comintern e o Brasil, 1924-1943: as relações mútuas e a política de Moscou para o PCB
Aluno(a): Érick Fiszuk de Oliveira
Programa: História
Data: 30/01/2024 - 14:00
Local: Sala da Congregação - IFCH - UNICAMP
Membros da Banca:

  • Claudio Henrique de Moraes Batalha - Orientador (UNICAMP)
  • Fernando Teixeira da Silva (UNICAMP)
  • Marcos Tadeu del Roio (UNESP)
  • Angelo de Oliveira Segrillo (USP)
  • Daniel Aarão Reis Filho (UFF)

Descrição da Defesa (Resumo/Abstract):
A fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB) em 1922 propiciou não apenas a introdução da propaganda bolchevique no país, mas também a leitura e publicação mais regulares das obras de Karl Marx e Friedrich Engels, o conhecimento das vicissitudes da União Soviética e a promoção de debates focados nas mulheres, jovens e pobres, em oposição ao fazer político da elite cafeeira. Contudo, existem ainda poucas pesquisas sobre os mecanismos que ligavam os comunistas brasileiros e a Internacional Comunista (Comintern), criada na Rússia em 1919 para acelerar a revolução socialista mundial e dirigir os partidos comunistas ao redor do mundo. O objetivo desta tese é entender como o PCB praticava a linha imposta por Moscou conforme a recepção e leitura que dela fazia, quais eram os obstáculos técnicos e culturais aos contatos mútuos, qual era o papel do Brasil na estratégia da Comintern para a América Latina e como funcionavam os órgãos regionais intermediários entre a “matriz” e sua “seção nacional”. Para tanto, foram consultados e lidos sob uma nova ótica documentos dos arquivos russos hoje abertos, jornais, revistas, autobiografias e a historiografia mais recente publicada no Brasil e no exterior. Em contraste com as abordagens que viam os comunistas como meros “agentes de Moscou” ou que davam peso excessivo aos fatores nacionais, concluiu-se que o PCB foi criado em meio a uma onda espontânea de admiração pela Revolução de Outubro da parte de intelectuais e operários. Se na década de 1920 a elaboração teórica foi relativamente autônoma e a busca por contatos mais fortes com a URSS foi uma escolha deliberada, na década de 1930 a intervenção direta da Comintern tolheu a liberdade criativa e desestabilizou a composição do núcleo dirigente. Contudo, também se levou em conta que o modo como funcionavam diversos órgãos intermediários entre a cúpula da Comintern e o PCB, como o Secretariado Latino-Americano e o Secretariado Sul-Americano, influíam consideravelmente nas decisões que se tomavam e no modo como elas se transmitiam. A instabilidade política no Brasil, as diversas ondas de repressão ao movimento operário que elas costumavam acarretar e o papel que a diplomacia soviética reservava à América Latina influíam igualmente nas possibilidades de movimento dos comunistas brasileiros. Em suma, esta tese permite mostrar como o PCB, durante a existência da Comintern, esteve condicionado ao mesmo tempo por fatores nacionais, estrangeiros e transnacionais, dentro dos quais os militantes desfrutavam de um grau considerável, mas não absoluto, de agência.

Se desejar, leia também minha dissertação de mestrado (2017) e meu trabalho de conclusão de curso (2012)!


sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Zé de Morais, cantor socorrense


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/zedemorais


Minha vida é uma grande lost media, termo que está em voga nesses últimos tempos, com incontáveis toques de cringe, rs. Há algum tempo, publiquei as canções do antigo dono de um posto de gasolina em Bragança Paulista, que no começo dos anos 2000 gravou um CD sob o nome Sergio Estrada, ficando famosa regionalmente na época a faixa Jogo de truco. Existe ainda uma fita cassete, essa sim uma real lost media, provavelmente gravada no fim dos anos 1990, que o mesmo empresário e cantor gravou sob o nome “Sergio Rafael”, distribuiu a clientes que vinham trocar o óleo (no sentido literal, por favor!) e cujas músicas sertanejas eram ainda melhores. Pena que eu a tenha descartado, por ter ficado sem um player pra essas fitas por um tempo!

No início dos anos 2000, provavelmente em 2001 ou 2002, frequentávamos muito um restaurante na cidade de Socorro, SP, o Rodízio Mineiro, localizado no começo da estrada vicinal que leva à cidade de Lindoia e que segue em funcionamento. Ele era administrado por um velho senhor, seu filho Mauro e sua nora (esposa desse filho), casal que tem três filhos (hoje já com seus próprios filhos, rs) e que anos depois se separou do patriarca pra fundar seu próprio restaurante, o M’s, no caminho pras chamadas Fontes da Pompeia. Mas na época citada, os donos investiram na presença de música sertaneja ao vivo, sobretudo com os sucessos que bombavam na época, especialmente de Rionegro & Solimões, e um dos “artistas” mais presentes era o rapaz que se apresentava como Zé de Morais. Ele colocava o playback da batida ao fundo e cantava enquanto tocava seu violão preto, como pode ser visto na foto acima. Minha mãe e eu, quando víamos essas figuras pitorescas em locais públicos, brincávamos entre nós que eram “grandes artistas” e ríamos muito, rs. E foi nessa que num domingo em que fomos lá almoçar, pedi à mãe pra que levasse a máquina fotográfica (nada de Olympus nem smartphone naqueles tempos!) e tirasse estes valiosos registros...

Pena que não guardei um cartão de visitas com o logotipo que o Zé de Morais também pendurava estampado num pano, no fundo do “palco” do restaurante: o mapa do Brasil com o nome dele (em caixa alta e grossa) e um violão encaixados dentro! Um tempo depois, quando o “astro” já tinha sido “descontratado” pelo Mauro (lembremos, ainda no Rodízio Mineiro), até lhe perguntamos o que tinha sido dele, e o dono respondeu que tinha voltado ao serviço dele... de servente de pedreiro, rs. Enfim, há um tempo não vamos mais aos dois restaurantes (o Rodízio e o M’s) e nunca mais soubemos do paradeiro do grande sucesso desperdiçado Zé de Morais.

Nunca tinha postado estas fotos em nenhuma rede social que cheguei a ter, e nunca mencionei os restaurantes em nenhuma mídia minha que já tive, nem mesmo aqui. Mas minha mentalidade mais simples de adolescente diferentão da época, que inclusive usava as ditas “sandálias de padre” de couro (hoje eu acharia qualquer tribo “discriminada” facilmente pra me encaixar...), gerava umas situações engraçadas assim. Eu aproveitava o momento, sem ser forçado. O meme antes dos memes, rs. Se o Zé de Morais de Socorro, SP, ou algum conhecido seu estiver lendo esta publicação, deixo meu abraço, meus parabéns pelo talento e minha gratidão pelos agradáveis momentos passados!

P.S. Alguém saberia me informar se aí a garrafa de cerveja Krill e os refris regionais ainda são de graça???



quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Gengis Khan: história e descobertas


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/gengiskhan

No dia 4 de janeiro, foi publicado no site da Rádio França Internacional (RFI) o artigo Gengis Khan, « souverain universel » à l’origine du plus grand empire contigu de l’Histoire (Gengis Khan, “soberano universal” na origem do maior império contíguo da história), de autoria de Olivier Favier. Aproveita-se a ocasião de uma exposição no Museu de Nantes com novas descobertas arqueológicas sobre o cã do século 13 pra se contar a maior parte da história de como se formou o Império Mongol, considerado em seu apogeu, já após a morte de Gengis, o maior do mundo em território contíguo, isto é, sem divisão física, sobretudo por mares e oceanos. Se somarmos a totalidade dos territórios, mesmo que não contíguos, o maior império da história foi o britânico, controlado pelo Reino Unido (o nome “Império Britânico” nunca foi usado de forma oficial).

A historiadora entrevistada revela que muitas descobertas sobre o Império Mongol, sobretudo sob o reinado de Gengis Khan, foram feitas nos últimos anos e desmontam vários preconceitos formados pela mentalidade colonial europeia. O principal deles seria a respeito do “barbarismo” e da falta de coesão política, devido ao fato de serem nômades, condição que, na verdade, não impediu a formação de uma organização política muito complexa. (Sem isso, claro, não seria possível manter tamanho território!) Mantive as transliterações do mongol, que atualmente é escrito com uma adaptação do alfabeto cirílico, tal como aparecem no original, inclusive a ortografia “Gengis Khan”, a mais comum em textos em português, embora haja também a forma “Genghis”, outras que correspondem mais à realidade e o aportuguesamento, hoje mais raro, “Gêngis Cã(o)”. Escrevi “Ulã Bator” o nome da capital mongol, mais próximo de um padrão, mesmo que não sendo unanimidade. Espero que aproveite o texto!


Após uma infância agitada, marcada por episódios de miséria e errância, um jovem nobre mongol funda um império que, um século depois, cobrirá 22% das terras emersas do globo.

Em A história secreta dos mongóis, publicada logo após sua morte por um autor anônimo, Gengis Khan é apresentado como o descendente distante de um lobo azul e de uma corça parda. Nascido com o nome de Temüjin (lit. “o aço mais fino”) entre 1155 e 1162, perto do monte Burkhan Khaldun, a nordeste da atual Ulã Bator, capital da Mongólia, pertencia ao clã Bordjigin – também chamado de Linhagem de Ouro – que governa o Khamag (lit. “a integralidade”) mongol. Esse termo designa uma monarquia eletiva que mantém uma relativa unidade num mundo dilacerado por rivalidades.

Seu nome viria de um chefe clânico tártaro capturado por seu pai ou ainda de ancestrais ferreiros. Aos nove anos, ficou noivo de Börte (lit. “com reflexos azuis”, como o lobo mítico de sua ascendência), com quem se casou depois de inúmeros imprevistos por volta de 1181. Eles terão quatro filhos. Guerreiro formidável, mas sobretudo um exímio estrategista, ele sabe lidar com as alianças mutáveis que enfraquecem os povos das estepes pra ser eleito Khan – líder dos clãs mongóis – por uma assembleia plenária reunida com esse fim. Assim consagrado, consegue derrotar os tártaros em 1202.

Quatro anos depois, ele se torna Gengis Khan (lit. “soberano universal”), após proclamação de uma nova assembleia. Sob este título, ele decreta uma compilação de leis mongóis, a Yassa. Insaciável, ele ataca o norte da China em 1211, conquistando primeiro a Manchúria. Alcança Pequim em 1215, depois de seu exército ter aprendido a arte de conduzir cercos, na qual estava mal preparado. Deixa a China em 1219 para embarcar quase imediatamente em novas expedições a oeste, adentrando agora terras islâmicas.

De Gengis Khan a Kubilai Khan, um século de expansão contínua – Em 1221, ele alcança o rio Indo, então o limite oriental das campanhas de Alexandre, o Grande. Enquanto ele se encontra no Império Persa, o seu está ameaçado na China. Após uma campanha final triunfante em 1227, ele morre devido a consequências de uma queda do cavalo durante uma caçada. Seu corpo é levado de volta à Mongólia, pra um local mantido em segredo, provavelmente em sua terra natal, o monte Burkhan Khaldun. Foi Ögedei, terceiro filho de Börte, sua esposa principal, quem assumiu o título de Khagan, o cã dos cãs.

Este último consolida as conquistas chinesas e envia seu sobrinho, Batu, pra atacar as estepes russas. Batu conduz suas tropas até a Europa Central, só retornando ao Oriente quando chegou a notícia da morte de seu tio, ocorrida no final de 1241. Dois anos depois, ele estabelece sua própria capital à beira do rio Volga e se torna o cã da Horda Dourada que domina o oeste da Sibéria e o sul da atual Rússia até o final da Idade Média.

O auge do poderio do Império Mongol é alcançado por Kubilai Khan, neto de Gengis Khan, nascido no ano do cerco de Pequim e levado ao poder supremo em 1260. Ele também se tornou o primeiro imperador da China da dinastia Yuan. Durante dezessete anos, o viajante veneziano Marco Polo reside em sua corte. Seu império se estende da Coreia ao Mediterrâneo, e seus navios chegam até Madagascar. Porém, ele falha duas vezes em tomar o Japão. Após sua morte, em 1294, a unidade do canato se mantém por duas décadas antes de entrar em declínio. Vários poderes herdam sua história, que impacta longamente sobre o continente asiático e parte da Europa.

Uma exposição histórica em Nantes – A história de Gengis Khan e de seu império nômade foi por muito tempo resumida a uma gesta conquistadora de guerreiros sem fé nem lei. Isto obviamente passava num Ocidente afeito a teorias racistas, à imagem depreciada de uma organização social complexa, mas não sedentária, e aos fantasmas do “perigo amarelo” em voga desde o final do século 19. A historiografia russa, que dominou por muito tempo, assim legitimava sua expansão rumo ao Ocidente, enquanto a historiografia chinesa tendia a absorver uma grande parte da história mongol em sua epopeia nacional.

“O discurso colonial russo servia ao discurso colonial francês”, explica Marie Favereau, autora de La Horde : comment les Mongols ont changé le monde (A Horda: como os mongóis mudaram o mundo), publicado pela Éditions Perrin em 2023. “Isso correspondia totalmente a nossa visão dos nômades. Aprendi na universidade que a civilização é a cidade. Nos últimos dez anos, tem havido muito trabalho pra desconstruir o pensamento colonial, que só agora começa a dar frutos. Sabemos bem que a data do fim dos impérios coloniais não corresponde à data do fim do discurso colonial.”

A co-curadora em Nantes da primeira grande exposição dedicada a Gengis Khan na Europa – a de Bonn em 2005 foi pioneira, mas não teve ressonância internacional – explica que foi preciso sair de uma lógica em que as áreas de estudo eram muito marcadas linguisticamente. “Num período imperial, a multiplicidade de línguas não significa que haja uma multiplicidade de poderes”, explica. Foi preciso, portanto, realizar um importante trabalho de coleta de fontes, que permitiu revelar, por exemplo, que um mesmo espírito percorria as expressões do poder em partes muito distantes do império.

Uma revolução arqueológica e historiográfica – As dificuldades encontradas na preparação dessa exposição também testemunham uma revolução historiográfica em curso. “A exposição que deveria se realizar em 2020 foi cancelada depois de três anos de trabalho devido a liminares para reescrever a história emitidas pelo governo chinês, as quais Bertrand Guillet, diretor do Castelo-Museu de Nantes, julgou inaceitáveis. A nova versão foi construída em torno das coleções mongóis, francesas e europeias.”

Por outro lado, a impossibilidade de utilizar as coleções do Museu do Hermitage, em São Petersburgo, encorajou as pesquisas arqueológicas na Mongólia. O empreendimento é tanto mais colossal quanto muitos monumentos desapareceram. “Esse Império deixou poucos vestígios”, explica Marie Favereau. “Não há visibilidade dos túmulos. O culto não passa por isso. A palavra pra ‘cemitério’ em mongol, khorig, significa ‘tabu’. E isso é ainda mais verdadeiro pra personagens importantes, a começar por Gengis Khan.”

“É uma organização muito mais fluida no plano institucional”, prossegue Marie Favereau, “construída com base em linhagens. Por muito tempo se teve a ideia de que houve o tempo das conquistas até Kubilai Khan. Desde os primeiros tempos da conquista territorial, há partições que de forma nenhuma se baseiam na ideia de centralidade geográfica. São estratégias pra fortalecer o poder mongol, por meio do que é importante para eles: o que lhes interessa é controlar os locais de comércio e as oficinas de artesanato em toda a grande estepe eurasiática.”

Assim, essa formidável expansão não se explicada apenas por dados militares, sejam os pequenos e resistentes cavalos capazes de atravessar rios congelados, os potentes arcos manejados por cavaleiros excepcionais ou mesmo o fato de guerrearem no inverno, que pega de surpresa os europeus, habituados às campanhas no verão. “Não há coesão nos poderes que os enfrentam, na China, nos mundos muçulmanos e cristãos”, insiste Favereau. “Ao mesmo tempo, eles não se sentem ameaçados pelas religiões de seus súditos.” Melhor ainda, eles as absorvem e misturam a suas próprias crenças. Para ela, esses êxitos também se devem à “persistência nos objetivos de uma geração a outra”. “Eles se lançaram em empreitadas econômicas extremamente interessantes”, conclui, “e isso, aliás, intriga muito os historiadores da globalização [mondialisation, no original francês].”

Até 25 de maio de 2024, vai estar aberta no Castelo dos Duques da Bretanha – Museu de História de Nantes a exposição “Gengis Khan, comment les Mongols ont changé le monde” (Gengis Khan, como os mongóis mudaram o mundo).



Os 800 anos do nascimento de Gengis Khan são comemorados no Festival da Eurásia pela reconstituição da unificação das tribos mongóis sob o soberano. 500 cavaleiros desfilam com uniformes do século 13 no distrito de Sergelen, na Mongólia.

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

74 chibatadas por não usar hijab

Ontem, dia 8, foi publicado no site da Rádio França Internacional (RFI) o artigo Iran: le cri d’indignation d’une femme fouettée, « symbolique de l’arbitraire du régime », fait vivre la résistance (Irã: o grito de indignação de uma mulher açoitada, “símbolo da arbitrariedade do regime”, dá vida à resistência), de autoria de Caroline Renaux. Já está circulando nas páginas brasileiras de notícias a informação de que uma mulher iraniana de 33 anos, Roya Heshmati, recebeu no ano passado 74 chibatadas na surdina pela ditadura terrorista do aiatolá Ali Khamenei. Ao que parece, o relato só foi publicado pela moça agora, pois deve ter sido difícil se recuperar de um choque desses por um motivo banal.

Tinha decidido não traduzir a matéria, pois vários outros sites brasileiros também publicaram a respeito. Mas como percebi que os textos diziam mais ou menos a mesma coisa, restrita ao relato fatual, sem reflexão sobre o contexto geral, e como geralmente nossas mídias se baseiam nas mesmas fontes de língua inglesa, acredito estar contribuindo fatualmente pra quem só lê português. Mesmo na Wikipédia em inglês, o verbete relativo a Heshmati foi iniciado esses dias, sem nenhum detalhe de sua vida pregressa, e só há também versões em persa e inglês simples.

Não tenho certeza se a crueza com que a pena foi descrita vai dar impulso a novas manifestações de rua no Irã, mas a repercussão do caso, que descobri exatamente ao folhear o portal da RFI, ainda está no começo e pode dar combustível pra muita discussão ainda. Na Banânia, a gente sempre vai ter “aquêlus universitáries” radical chic que defendem qualquer ditadura ou grupo terrorista, desde que não seja judeu nem cristão e/ou que destile ódio à civilização ocidental cujos impostos pagam o Toddynho deles, em particular aos EUA – e, claro, desde que eles mesmos não vivam as situações na pele.

Com fascista eu sequer discuto, por razões de princípio. Mas quando o ser se diz “amigo do povo” e fala essas cacas, não consigo ficar quieto: peguem esses perfis pró-Palestina, de extrema-esquerda (que eles dizem ser “esquerda radical” o correto, mesmo estrume) e de defesa das mulheres e dos grupos de gênero nos países árabes, e comparem a proporção com que eles criticam os terroristas em Teerã e com que eles chamam Israel de “genocida” e o Hamas de “resistência”. Se o Sete de Outubro continuasse e triunfasse, veríamos surgir um novo Irã, pior até, mas é claro que é fácil passar pano quando se está longe!



Roya Heshmati, uma jovem militante iraniana, foi açoitada 74 vezes por “atentado público aos bons costumes”. Seu depoimento, massivamente divulgado, suscita uma onda de indignação e se transforma em símbolo pras mulheres iranianas que, apesar do ano e meio de repressão do movimento “Mulher, vida, liberdade”, multiplicam os atos de desobediência.

“O homem começou me batendo nos ombros, nas costas, nas nádegas, nas coxas e nas pernas. Parei de contar os golpes. Eu murmurava: ‘Em nome das mulheres, em nome da vida...’” O relato de Roya Heshmati é arrepiante. Condenada a 74 chibatadas por ter se recusado a usar o véu obrigatório, essa iraniana de 33 anos detalhou, em sua página do Facebook, como se realizou sua pena de flagelação. Desde então, seu texto suscita uma vaga de comoção e raiva em parte da população iraniana.

Nas palavras de seu advogado, Maziar Tatai, compartilhadas pelo diário iraniano Shargh, Roya Heshmati foi presa em abril de 2023 “por ter publicado nas redes sociais uma foto sem portar o lenço”. Por sua vez, o órgão de imprensa da justiça, Mizan Online, afirma que ela teria “encorajado a permissividade [aparecendo] de maneira inconveniente em lugares públicos muito frequentados de Teerã”, e depois, em outra declaração, que ela teria recebido dinheiro do exterior pra se exibir sem véu. “As investigações mostram que ela foi envolvida num movimento organizado a partir do exterior e que ela recebia dinheiro [...] pra promover a prostituição”, esclarece o Mizan Online.

“Põe teu Alcorão debaixo do braço e bate” – Em seu texto, Roya Heshmati conta que se apresentou ao escritório do investigador do setor 7 de Teerã sem portar seu véu. Após inúmeras recusas, o agente de execução teria então lhe advertido que sua pena seria agravada se ela não cobrisse a cabeça. “Ele se aproximou de mim e disse: ‘Ponha seu hijab e me siga.’ Eu recusei. Ele disse: ‘Então você não quer pôr? Vou te açoitar de um jeito pra que você entenda onde está hoje. Também vou abrir um novo inquérito por desobediência, com mais 74 chibatadas por vir.’ Persisti em minha recusa”, ela escreve.

Levada a seguir a uma sala que ela descreve como uma “câmara de tortura medieval”, Roya Heshmati teria insistido em se recusar a pôr o véu, antes de levar as 74 chibatadas. “Põe teu Alcorão debaixo do braço e bate”, teria ela dito ao agente de execução.

Seu depoimento é massivamente difundido nas redes sociais, nas quais ela é elogiada como “heroína”, enquanto outros denunciam um “apartheid de gênero” e um “regime bárbaro e desumano”. Pra Shahla Shafiq, socióloga e ensaísta iraniana, esse texto é um “ponto culminante”. “O véu, que normalmente deve esconder, se torna aqui revelador da condição de vida das mulheres iranianas e de sua resistência”, explica.

Endurecimento das sanções – No Irã, sob o jugo do regime dos mulás, todas as mulheres são obrigadas por lei a cobrirem seu pescoço e sua cabeça, desde a revolução islâmica de 1979. Se o relato de Roya Heshmati não é novo, ele dá espaço, porém, a uma série de depoimentos parecidos. Pra Chirinne Ardakani, advogada e membro do coletivo Iran Justice, as palavras de Roya Heshmati simbolizam um “ato de insubmissão”, contribuindo pro “relato coletivo que as mulheres iranianas estão construindo”. Este “se insere na prolongação dos atos de resistência que participam da criação de uma narrativa de resistência das mulheres iranianas que, após um ano e meio [do movimento “Mulher, vida, liberdade”], vem irrigar a sociedade civil e dá o tom de uma mudança profunda das mentalidades da sociedade”, deseja crer Chirinne Ardakani.

Sua recusa a se submeter à lei sobre o véu obrigatório, arriscando sua vida e sacrificando seu próprio corpo, também “simboliza a arbitrariedade desse regime”, segundo Firuzeh Nahavandi, professora da Universidade Livre de Bruxelas e especialista do Irã. “Por que ela, e não outras mulheres, foi presa e açoitada desse jeito? É pra mostrar que a situação está sob controle, tanto mais que as eleições legislativas estão próximas e que o regime teme que haja uma retomada das manifestações. Ele prefere tomar a dianteira e endurecer a repressão”, analisa. Promovida a exemplo, a punição de Roya Heshmati lembra que o corpo das mulheres segue submetido ao uso do véu obrigatório. “É como se, de um certo modo, o caso de Roya fosse usado pra pôr em alerta todas as outras mulheres contra esses alegados casos de insolência na República Islâmica”, comenta Chirinne Ardakani. Esse evento ocorre alguns meses depois do desenvolvimento e proliferação das câmeras de vigilância nos locais públicos pra prevenir as infrações e da adoção de um projeto de lei visando endurecer as punições contra quem infringir o código indumentário.

Um movimento transformado – Um ano e meio depois do impulso do movimento “Mulher, vida, liberdade”, esse ato de repressão ressoa profundamente no seio da população iraniana, determinada a manter o braço de ferro com as autoridades. “Simbolicamente, isso diz tudo. Diz que as mulheres não vão desistir e que pouco importa o que o regime islâmico faça, as mulheres iranianas dizem ‘não’ e vão continuar dizendo ‘não’”, garante Shahla Shafiq. “A barreira do medo e da mentira caíram com o movimento. O mundo inteiro viu. O que esse texto diz é que se trata de uma mudança irreversível e que a resistência vai continuar.”

Pra Chirinne Ardakani, também é o sinal de que o movimento entra numa “fase de maturação política”. Esta é “encarnada pela resistência contínua das mulheres iranianas e pela recusa a se submeterem à injusta lei patriarcal. Não é o ato isolado de Roya que o torna um símbolo, mas a justaposição de todos esses atos de resistência que agora vão se inscrever na longa duração”, explica a advogada. “O movimento decididamente se transformou em desobediência civil. Os iranianos demonstram sua contestação cantando, dançando, saindo sem véu”, acrescenta Firuzeh Nahavandi.

E estes últimos não estão se pacificando. “Continuem com sua lei. Vamos continuar com nossa resistência”, afirma Roya Heshmati ao concluir seu texto. Palavras que lembram que, apesar da repressão e dos riscos corridos ao se desafiar o regime islâmico, a revolta que abala o Irã desde a morte de Mahsa Amini parece longe do fim.


segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Ministério da Felicidade + Putin Papão


Endereço curto: fishuk.cc/felicidade-ru

Esta senhora de ar bonachão se chama Valentína Matviénko, de origem ucraniana, mas que preside o Conselho da Federação, câmara alta da Assembleia Federal (o parlamento da Rússia) mais ou menos equivalente ao Senado em outros países, nada menos do que desde 2011. Obviamente ela é membro do partido quase único de Putin, o Rússia Unida, tem formação em farmácia, mas sempre trabalhou como política e diplomata. Ela está sob sanções de diversos países que resolveram as aplicar à nata do putinismo, entre eles a Ucrânia (óbvio!), os EUA, o Canadá, a UE, a Suíça e a Austrália.

Como toda pessoa pública agente da ditadura que deve dar a cara a tapa, ela também abre frequentemente sua “torneirinha de besteiras”, como diz o folclore. Em 6 de novembro de 2023, participando de um fórum governamental chamado “Znánie” (Conhecimento), em que diversos políticos da Rússia e personalidades do mundo da ciência e da cultura nacionais e estrangeiras palestram pra jovens universitários ou empreendedores a respeito de diversos aspectos de seus ofícios. Brincando com a predominância geral de más notícias e de apatia entre a população (em grande parte, na verdade, causadas pelas maluquices da ditadura), Matvienko propôs a criação de um “Ministério da Felicidade” (Ministérstvo schástia) no país, se bem que a meu ver, ao invés disso, eles deviam parar de dar motivos pra infelicidade não só dos russos e de outros povos do Império, mas também dos ucranianos!

Essa ideia não é original, e por volta do início da década de 2010, o Butão, nação nanica encravada entre a Índia e a China, foi pioneiro em criar seu “Ministério da Felicidade”, numa época em que entre os masturbadores intelectuais ocidentais ainda estava na moda a iniciativa local de valorizar a “felicidade” em detrimento da “riqueza” (isto é, PIB e crescimento). Curiosamente, após uma busca no Google, não achei mais informações sobre o atual funcionamento do tal ministério, e aparentemente ele foi extinto (provavelmente absorvido pelo Ministério da Saúde) sem deixar rastros. Ao mesmo tempo, achei esta matéria da Al-Jazeera informando que ocorreram ontem eleições gerais (parlamentares) no Butão e que desemprego crônico, baixa no turismo (uma das poucas fontes de renda) e fuga de cérebros estão entre os problemas que mais afligem atualmente o “país da felicidade”.

O único país que localizei ter ainda um “Ministério da Felicidade” são os Emirados Árabes Unidos, onde “felicidade”, a meu ver, assim como na Noruega e além da maioria estrangeira que vive lá, deveria ser chamada por outro nome: petróleo. Seguem os vídeos com suas traduções, já que não tive saco pra digitar também as transcrições:


“... Lei sobre a Felicidade Geral [Celso Portiolli rindo?...]. Eu sonho, e até propus: vamos criar na Rússia um Ministério da Felicidade, certo? A instituição pela qual vão passar todas as decisões, todas as leis pra que se examine se essa nova lei, essa nova resolução do governo faz as pessoas mais felizes. Por enquanto, meu grupo de apoiadores ainda é pequeno.”


Ainda em 5 de março de 2019, quem parece ter implantado a ideia na cabecinha de Matvienko foi Ievgénia Dmítrieva, então diretora-geral da empresa de tecnologia Kvant Programm e uma das vencedoras de um concurso nacional chamado “Líderes da Rússia”, destinado a estimular novos líderes, gerentes, diretores etc. Numa reunião com esses vencedores, a política discutia a participação de mulheres em cargos de liderança, e Dmitrieva então solta esta, citando exatamente o exemplo dos Emirados:

“Também depois do concurso, dado que tem se formado uma enorme rede de contatos, é possível criar projetos socialmente importantes. E um desses projetos de que participo é a criação, em nosso país, de uma ‘cultura da felicidade’: fazemos projetos de aulas sobre felicidade, em 20 de março vamos realizar o fórum ‘A felicidade como um modelo de negócios’. Como um todo, visamos, sonhamos com que a Rússia se torne um dos 10 primeiros países no índice de felicidade. E eu sei que a sra. também visitou o Ministério da Felicidade nos Emirados e talvez, com nossos esforços, e talvez com o apoio de algum tipo de participação estatal [a burocrata de azul-piscina já começa a rir da cara dela], queremos fazer com que um dia haja tal ministério em nosso país, ou algum tipo de organização parecida.”

Matvienko: “Obrigada, Ievgenia. Você falou muito bonito sobre devermos medir o índice de felicidade, pois os balanços quantitativos são tudo o que fazemos no Estado, pra que as pessoas sejam mais felizes e vivam melhor. Então, nesse estilo um tanto provocador, comecei a falar sobre esse tema, percebendo o que receberia como resposta. Quando cheguei dos Emirados (onde realmente foi criado um Ministério da Felicidade e eu perguntava como, o quê, por que isso opera), lancei esse tema na sociedade, sabendo que seria muito criticada, e em todo lugar achavam uma besteira esse negócio de ‘Ministério da Felicidade’. Eu falo de forma figurada no ‘Ministério da Felicidade’, na verdade, como o esforço que devemos fazer pra que cada ano meçamos o quanto, como resultado de nossas resoluções, nossas decisões, as pessoas se tornaram mais felizes. É o que fazem os Emirados: qualquer decisão tomada pelo governo passa por especialistas desse ministério que devem examinar se ela vai tornar as pessoas melhores, mais felizes, e se isso não acontecer, essas leis e decisões são vetadas. Precisamos desenvolver esse tema: queremos, sobretudo as mulheres, que todos na Rússia sejam felizes, que seja um país de pessoas felizes. Por isso, vamos juntas superar parte dessas críticas, estou feliz que apesar de me criticarem, não fui a única a ter essa ideia: agora já somos duas e espero que as restantes se juntem a nós!”


Aquela mulher séria do comecinho do vídeo deve ter tido como filho o meme “criança cética do Terceiro Mundo” junto com o Kid Bengala, rs.


No dia 9 seguinte à palestra de 2023, uma repórter parecia não estar a par de todo o contexto, e numa entrevista coletiva transmitida pela mídia do Conselho da Federação se dirigiu a Matvienko relembrando o episódio: “Eu via que a sra. clamou pela criação do Ministério da Felicidade...” E de repente foi interrompida:

“Eu estava brincando! [Risos gerais] Percebi que os jornalistas e os sites são ruins com o senso de humor.” “Mas saiba que todos gostaram da ideia.” “Sim, a ideia é ótima, mas é uma metáfora!” (Essa aprovação geral é falsa: segundo uma pesquisa feita no fim de novembro por um centro de estudos de opinião, 56% dos russos rejeitam a ideia – se fosse levada a sério, claro – temendo corrupção, excesso de burocracia, gastos irracionais e inchaço de funcionários.)


Na mesma vibe sobre a criação do “Ministério da Felicidade”, no dia 8 de novembro, Putin parecia já estar querendo fazer sua parte, visitando um hospital pra crianças com câncer em Moscou enquanto com os bombardeios impede que muitas outras tenham acesso ao mesmo tratamento na Ucrânia. O corte apenas com o começo desta cena viralizou entre as mídias ucranianas e de oposição: o menino Vadím, que também estava se tratando de um câncer, se escondeu debaixo do cobertor ao ver o genocida entrando.

Porém, quando procurei o vídeo inteiro e soube da história do menino, comecei a não achar mais tanta graça: ele estaria apenas envergonhado, e sua mãe disse que o deixaria dois dias sem telefone, no qual jogava Minecraft, caso não saísse dali. Putin tentou conversar com o menino, que só aos pouquinhos saiu das cobertas, e deixou ao pé da cama um helicóptero de brinquedo, pra ele pegar quando resolvesse sair. Quando o ditador deixou o recinto, as câmeras pegaram Vadim mais de perto, quando ele finalmente resolveu se descobrir...


sábado, 6 de janeiro de 2024

Saddam Hussein, o maior ambientalista

Antes de passarmos pra nosso tema principal, a primeira publicação de besteirol do ano traz o print de uma reportagem do canal de noticiários armênios Lurer, mostrando a vida de soldados do exército provavelmente na fronteira com o Azerbaijão, com quem a Armênia travou uma guerra em 2020 e (quase) outra em 2023. Que repórter em sã consciência entrevistaria uma torneira aberta? Rs.


Quando asissti a esta entrevista de alguns anos atrás com o embaixador Rubens Ricupero, um dos pais do Plano Real (que em julho vai completar 30 anos!), quase não acreditei quando ele disse a frase com que zoei no vídeo acima! Achei que por causa da idade e da memória, estivesse confundindo os nomes, que estivesse literalmente “pra lá de Bagdá”, rs. Até procurei no Google informações relativas à frase, mas só achei duas referências: o fato do ex-ditador do Iraque, Saddam Hussein, ter várias vezes recorrido ao que hoje chamaríamos de “ecocídio” com fins terroristas e como arma de destruição em massa, sobretudo contra os curdos, e sua frase “a guerra no Iraque vai ser a mãe de todas as guerras”, referindo-se à segunda invasão do país pelos EUA em 2003. No primeiro caso, podemos lembrar como a explosão da barragem de Nova Kakhovka pelo exército russo na Ucrânia foi o exemplo mais recente desse ecocídio; no segundo, Saddam parece ter sido um visionário, pois a derrubada de seu governo abriu um período de instabilidade regional com resultados até hoje.

Pensando mais um pouco, cheguei à conclusão de que Ricupero devia ter dito que estava “parafraseando” o ditador, pois não há qualquer menção de intromissão sua na questão ambiental. A não ser que os entrevistadores conhecessem a referência, devem ter ficado muito perdidos... Mas a situação ficou tão engraçada, sobretudo tirada do contexto, que não pude evitar fazer uma daquelas montagens toscas do tempo do Pan-Eslavo Brasil! Segue a transcrição da pérola geopolítca:

“Agora, no primeiro turno [das eleições pra presidente do Brasil em 2022], eu voto pelo candidato que tiver o compromisso mais claro e mais vigoroso com a defesa do meio-ambiente. Por quê? Porque o problema do meio-ambiente é, como diria o Saddam Hussein, ‘a mãe de todos os problemas’. Se nós não resolvermos o problema do meio-ambiente, não haverá outros problemas, porque nós vamos desaparecer.”


Uma conversa comum entre dois adolescentes num vídeo qualquer sobre história no YouTube.


Meu amigo Raphael, do Rio de Janeiro, me mandou esta obra de arte feita parcialmente com a modificação da voz por inteligência artificial. Acredito que tenha sido o caso do Faustão, enquanto me parece que o “filósofo de Cascais” pode ter sido dublado pela voz de um dos responsáveis. O famoso meme “Tá pegando fogo, bicho!” foi traduzido como “It’s on fire, man!” e redublado em inglês!




E pra terminar esta publicação descontraída, seguem dois pequenos vídeos que filmei uns dias atrás no jardim aqui de casa: dois saguis, talvez um casal, que desceram bem nos galhos mais baixos e pelados de um pinheiro (geralmente eles ficam na copa das árvores) depois de terem vindo da mata que fica ao lado! É comum que eles venham, sobretudo no calor, e se comuniquem por assobios, mas só uma vez anterior, não filmada, que um deles desceu por uma pitangueira o bastante pra que pudéssemos lhe dar uma banana na mãozinha... Desta vez tive tempo de chamar minha mãe, que decidiu repetir o gesto caridoso, embora não fosse minha ideia inicial, rs. Que fofinhos!


quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Votos de Maia Sandu pra 2024


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/anulnou2024


Presidente da Moldova (Moldávia, nos tempos soviéticos) faz seus votos em mensagem gravada. Fonte do texto original: site da presidência moldova


Caros cidadãos,

Terminamos este ano com uma boa notícia, uma decisão histórica para o nosso país. E começamos o ano novo de 2024 com esperança.

A decisão da União Europeia de abrir negociações de adesão com a República da Moldova significa não só a esperança de um futuro melhor para todos os moldovos, mas também o coroamento de nossos esforços comuns. Resultado não só do trabalho do ano passado, mas de todas as gerações até hoje, da luta pela independência e pela liberdade liderada por nossos pais e avós.

Terminamos este ano conscientes dos problemas que temos que resolver, mas cheios de esperança. Muitas vezes parecia que o destino estava contra nosso país. Mas a esperança nos manteve unidos nos momentos mais difíceis. Eis que, após 30 anos de espera, sentimos que se abre uma nova página na história de nosso país. Não estou dizendo que a abertura de negociações de adesão vai resolver automaticamente todos os problemas. Só nós, em uma comunidade unida e forte, podemos resolver, um por um, os problemas de nossa sociedade. O que digo, porém, com toda a confiança, é que a Moldova entra no novo ano com esperança.

Mas esperança não significa fé cega em milagres, e sim uma crença partilhada de que o poder de mudar as coisas está em nossas mãos. A esperança só se materializa quando há vontade. E toda a Moldova demonstra a sua vontade em cada cidadão que trabalha para realizar seu sonho.

Os atletas olímpicos da Moldova que dão tudo o que têm na esperança de trazer ainda mais medalhas e levar a nossa fama ao mundo.

Os lunos que estudam assiduamente e esperando que em poucos meses obtenham resultados muito bons no fim do ensino médio.

Os atletas que carregam a bandeira da Moldova pelo mundo todo e se dedicam com esperança por nossa vitória comum.

Os médicos que dão toda sua habilidade na esperança de salvar uma vida. Cada vida.

Os professores que se dedicam na esperança de formar gerações de jovens competentes, capazes de construir o futuro em casa.

Os bombeiros, rodoviários, artistas, jornalistas, policiais, agricultores, alfaiates, cozinheiros, designers, trabalhadores do saneamento, funcionários públicos, diplomatas, empresários, engenheiros, todos os cidadãos que trabalham para tornar a esperança uma realidade. A esperança de que juntos vamos construir um Estado forte, onde haja paz no país, segurança e limpeza nas ruas e tanta alegria quanto possível nas famílias. Um Estado que se preocupe com seus cidadãos e em cujo bem-estar todos participem.

Agradeço cada um de vocês. Só vamos ter sucesso juntos quando todos honestamente fizerem seu trabalho onde estão. E exorto-os a encontrarem motivos para agradecerem as pessoas em nosso entorno e valorizarem cada pessoa pelo valioso trabalho que realiza.

A crença de que teríamos sucesso nos manteve fortes, nos determinou a não desistir. É mais difícil de você acreditar que vai ter sucesso quando as dificuldades pesam sobre você. Mas é nesses momentos que se forma o caráter. É quando se constrói um país. E agradeço-os muitíssimo porque juntos conseguimos passar por muitas crises difíceis de cabeça erguida; pela confiança em nós mesmos e na Moldova.

Não escolhemos o país onde nascemos, assim como não escolhemos nossos filhos ou nossa família. Mas nós os amamos e fazemos tudo por eles. O amor aos filhos, à família e à nação existe, apesar dos desafios que enfrentamos. E nos dá forças para fazermos tudo o que depende de nós para melhorar. Às vezes sofremos derrotas, às vezes temos vitórias; mas o valor desses momentos é muito mais significativo quando os passamos juntos. Agora estamos numa encruzilhada. E todos vamos fazer bem em nos perguntar: “O que temos a perder se pararmos?” Pois com certeza sabemos que não queremos voltar ao passado e não queremos ficar parados. Ainda vai haver dificuldades em nosso caminho e ainda vai haver vitórias. É importante que todos, onde estejam, continuem acreditando, lutando, trabalhando. Façamos com que não sejamos testemunhas de nossa história, mas sim seus criadores.

Acreditamos na Moldova e isso nos une.

Nestes últimos momentos de um ano difícil, mas que vivemos cheios de esperança, exorto-os e desejo que encontrem tantos motivos de alegria e orgulho quanto possível por suas próprias conquistas, pelos sucessos de seus entes queridos e pelo sucesso de toda a Moldova. Às vezes, carregados de preocupações, nos esquecemos de comemorar.

Lembremo-nos das coisas que nos unem e nos felicitam: a esperança de que vamos ter sucesso, a gratidão para com as pessoas que estão conosco e a confiança de que juntos podemos construir um futuro digno e pacífico para todas as crianças da Moldova.

Feliz Ano Novo, Moldova!