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segunda-feira, 23 de abril de 2018

Agnaldo Rayol russo – Amapola (2008)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/amapola


Achei esta interpretação tão linda que resolvi legendá-la, mesmo não sendo cantada numa língua eslava. Trata-se de Vadim Ananiev, o solista “Mr. Kalinka” do Coral Aleksandrov do Exército Russo (Coral do Exército Vermelho), entoando a canção Amapola, provavelmente em 2008, quando o conjunto fazia 80 anos. A apresentação completa chama-se Spanish Paraphraso, e conta também com Viktor Sanin cantando Valencia e Nikolai Baskov cantando Granada. Está no canal oficial de Ananiev o vídeo sem legendas.

Achei o jeito dele de cantar tão parecido com o de nosso célebre cantor Agnaldo Rayol, que resolvi dar a ele esse epíteto. Gosto muito de ouvir os dois cantores! É uma oportunidade rara de vermos óperas espanholas sendo cantadas com sotaque russo. A música Amapola teria sido composta em 1920 ou 1924 por José María Lacalle, nascido na Espanha, e traduzida em inglês por Albert Gamse, ganhando assim fama mundial. Há quem diga, porém, que a composição seria do mexicano Manuel M. Ponce. Em todo caso, foi regravada por vários autores, em diversos estilos, inclusive nos tempos da “jovem guarda” por Roberto Carlos, em estilo surf rock.

É notável que na tradução em português, da qual também está ausente a primeira estrofe, a ênfase é dada muito mais ao sentimento do homem do que da mulher. A palavra espanhola reja pode significar o ferro do arado que sulca a terra ou as grades de uma prisão, embora também designe cercados de madeira ou ferro que protegem janelas de casas. Não tendi a achar que “Amapola” estivesse presa, mas entendi como o isolamento ou até a detenção numa casa protegida de família, tornando o romance difícil pela vontade ou não dela. Pra mim, “grilhão” poderia aludir tanto à metáfora da cadeia ou confinamento quanto à “prisão” do trabalho/arado. Quanto à “amapola”, na verdade nossa papoula, sempre foi celebrada pela beleza em outros países, mesmo servindo pra fabricação do ópio. Um site dá a hipótese de que a planta louvada, na verdade, é a tulipa africana. Mas em português, “amapola” é o nome de uma cactácea que dá flor.

Eu tirei desta página a letra em espanhol, e apenas os dois últimos versos da primeira estrofe têm também esta variante, que é indicada no canal de Ananiev: “De amor que sonó en mi corazón/Diciendo así con su dulce canción”. Mas a tradução pode expressar as duas ideias. Eu mesmo traduzi e legendei, recortando o enquadramento e a parte conernente do vídeo. Seguem abaixo as legendas, a letra em espanhol e a tradução:


De amor en los hierros de tu reja
De amor escuché la triste queja
De amor escuché a mi corazón
Diciéndote así esta dulce canción:
[De amor que sonó en mi corazón
Diciendo así con su dulce canción:]

Amapola lindísima amapola
Será siempre mi alma tuya sola.

Yo te quiero amada niña mía
Igual que ama la flor la luz del día.

Amapola lindísima amapola
No seas tan ingrata y ámame,

Amapola, amapola
Cómo puedes tú vivir tan sola.

____________________


No ferro do seu grilhão, de amor
Escutei o triste lamento de amor
Escutei meu coração dizendo-lhe
Assim esta doce canção de amor:

Amapola, belíssima Amapola
Minh’alma será sempre só sua.

Quero-a, minha amada menina
Como a flor ama a luz do dia.

Amapola, belíssima Amapola
Não seja tão ingrata, me ame,

Amapola, oh! Amapola
Como pode viver tão sozinha?




domingo, 19 de junho de 2016

Дорогой длинною, Por longo caminho


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/dorogoi


Se você chegou aqui por ocasião da morte de Silvio Santos, por favor leia também este artigo em que denuncio as mentiras propagadas pelos pasquins DCM e Fórum sobre o caráter da canção e sugiro que o Fantástico fez no domingo posterior uma alusão oculta a Eduard Khil, que era chamado exatamente de “Silvio soviético” durante a onda do meme “Trololó”!

Esta é a que muitos consideram de longe a canção russa mais célebre do mundo, mais até do que Katiusha e Noites de Moscou. “Дорогой длинною” (Dorogoi dlinnoiu), Por um longo caminho, soa familiar a muitos brasileiros por causa da abertura do antigo Show de Calouros, apresentado por Silvio Santos no canal SBT, quando a orquestra tocava anunciando os nomes dos jurados que entravam em sucessão.

De fato, é uma canção sentimental (“romança”) com letra de Konstantin Podrevski e melodia de Boris Fomin (1924), gravada primeiro em 1925 por Tamara Tsereteli e que logo alcançou enorme sucesso, não apenas pela melodia envolvente, mas também por sua letra nostálgica e implicitamente antissoviética. Destaca-se a referência à “troica com guizos” (тройка с бубенцами), definida no Aurélio como “Grande trenó [...] puxado por três cavalos emparelhados”, símbolo da Rússia antiga, cujo fim se lamenta em meio à insegurança dos novos tempos. A censura soviética notou isso e proibiu, em 9 de março de 1927, novas execuções da canção.

Ela logo se tornou clássica nos círculos emigrantes russos da Europa Ocidental e dos EUA, especialmente em bares e restaurantes, e foi regravada nas décadas de 1920-30. Apenas com a reabilitação da canção sentimental como gênero na URSS, a partir do fim dos anos 1950, muitas cantoras e cantores puderam dar-lhe em território soviético um segundo pico de popularidade. Porém, nos subterrâneos, Por um longo caminho continuou cantada nas rodas de parentes e amigos, por vezes quase como um hino familiar. Até aí, a letra inicial já tinha sofrido diversas mudanças, pelos mais variados motivos.

O Ocidente conhece ainda sua tradução para o inglês, com leve mudança na melodia, pelo norte-americano Eugene Raskin, filho de emigrados russos que assim compôs Those Were the Days em 1962. A nova canção foi gravada pela galesa Mary Hopkin em 1968 e ficou algum tempo entre as mais tocadas em diversos países, ganhando a partir daí traduções para inúmeros idiomas. Porém, os discos da canção e suas traduções sempre mostram Raskin como único autor, sem mencionar Podrevski ou Fomin.

Além do refrão, a canção tem mais quatro estrofes, mas traduzi apenas as duas primeiras, as mais conhecidas e as cantadas na apresentação do cantor Sergei Lazarev (vídeo abaixo), que achei, porém, fantástica, na quinta transmissão ao vivo do show Prizrak opery (O Fantasma da Ópera), em 1.º de outubro de 2011. Neste endereço há o vídeo sem legendas, e nesta página há a letra tal qual ele canta. A única diferença é que no primeiro verso do refrão, ao invés de “ночью” [nochiu], Lazarev canta “ночкой” [nochkoi], respectivamente as formas do caso instrumental singular das palavras “ночь” e “ночка”, ou seja, “noite”, sendo o segundo um diminutivo de fato sinônimo.

Aleksandr Znatnov cita mais diferenças em seu artigo no n.º 11 de 2013 da revista russa Nash sovremennik, chamado “Por um tempo bom enluarado. A dramática história da canção ‘Dorogoi dlinnoiu’ e o destino trágico do autor de sua letra imortal”. O autor teria encontrado num arquivo a versão realmente primeira, rabiscada pela censura, em cujo refrão, ao invés da expressão “да ночью (ou “ночкой”) лунною” (e por uma noite enluarada), lê-se “погодой лунною” (por um tempo bom enluarado), e ao invés de “мучила” [muchila], passado do verbo “мучить” [muchit] (atormentar, torturar), lê-se “мучает” [muchaiet], presente do verbo “мучать” [muchat], um sinônimo coloquial do primeiro. Haveria ainda o primeiro uso do verbo “жечь” [zhech] (queimar, arder) no sentido de “expressar-se vivamente”, hoje popular entre os jovens ligados na internet. Aparece na segunda estrofe, na forma do passado “(мы) жгли” [(my) zhgli], que traduzi como “(nós) clamamos”. Quem encara russo pode ler online o artigo em PDF.

Outras duas interpretações em russo que acho lindas são a estilisticamente cigana de Tatiana Baleta e a de Eduard Khil, o famoso Mr. Trololo, que entre nós é conhecido, para fechar o círculo... como “Silvio Santos soviético”! O vídeo que legendei estava no meu antigo canal do YouTube, seguido da letra em russo e da tradução.

Nota (30/4/2018): Há alguns meses legendei também, embora pouco nítida, uma apresentação de Vadim Ananiev, célebre tenor do Coral Aleksandrov do Exército Russo (Coral do Exército Vermelho). Existem só dois uploads iguais desse vídeo no YouTube, e não há nenhuma outra versão de Ananiev cantando esta canção (embora haja com outros solistas do Aleksandrov), sendo que esta presente deve ter sido filmada com celular, e longe do palco. Por isso, mesmo não garantindo nitidez, resolvi cortar o enquadramento. Este show fez parte da turnê “Novoročný Koncert Sólistov Alexandrovcov” (Concerto de Ano Novo dos Solistas do Aleksandrov) em Bratislava, capital da Eslováquia, nos dias 10 e 11 de janeiro de 2010, tendo Ananiev se apresentado no primeiro. Ele canta uma terceira estrofe que não estava na letra de Lazarev, e cujo texto e tradução marquei abaixo com o n.º 4:




1. Ехали на тройке с бубенцами,
А вдали мелькали огоньки.
Эх, когда бы мне теперь за вами,
Душу бы развеять от тоски…

Припев:
Дорогой длинною, да ночью [ночкой] лунною,
Да с песней той, что вдаль летит, звеня.
И с той старинною, да с семиструнною,
Что по ночам так мучила меня.
Дорогой длинною, да ночью [ночкой] лунною,
Да с песней той, что вдаль летит, звеня.
И с той старинною, да с семиструнною,
Что по ночам так мучила меня.

2. Да, выходит пели мы задаром,
Понапрасну ночь за ночью жгли.
Если мы покончили со старым,
Так и ночи эти отошли.

(Припев)

3. Ехали на тройке с бубенцами,
А вдали мелькали огоньки.
Эх, когда бы мне теперь за вами,
Душу бы развеять от тоски…

(Припев)

4. В даль родную новыми путями
Нам отныне ехать суждено!
Ехали на тройке с бубенцами,
Да видать проехали давно!

(Припев)

И с той старинною, да с семиструнною,
Что по ночам так мучила меня.

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1. Vocês iam na troica com guizos,
E ao longe cintilavam faíscas.
Ah, me bastaria segui-los agora,
E livraria minha alma da saudade...

Refrão:
Por um longo caminho, por uma noite enluarada,
Com aquela canção que voa longe tilintando.
Canção antiga, tocada a sete cordas,
Que tanto me torturava à noite.
Por um longo caminho, por uma noite enluarada,
Com aquela canção que voa longe tilintando.
Canção antiga, tocada a sete cordas,
Que tanto me torturava à noite.

2. É, quer dizer que cantamos à toa,
Em vão clamamos noite após noite.
Se acabamos com o que era antigo,
Daí essas noites também morreram.

(Refrão)

3. Vocês iam na troica com guizos,
E ao longe cintilavam faíscas.
Ah, me bastaria segui-los agora,
E livraria minha alma da saudade...

(Refrão)

4. Ao lar distante por novas trilhas
É nosso destino desde já voltar!
Íamos na troica com guizos,
Sim, fizemos a viagem há muito!

(Refrão)

Canção antiga, tocada a sete cordas,
Que tanto me torturava à noite.