Mostrando postagens com marcador Alisson Aubrey. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alisson Aubrey. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 14 de julho de 2026

Prevenção da demência 2: os supercaminhantes

Minha primeira tradução de um artigo no site da National Public Radio (NPR) dos Estados Unidos sobre a prevenção da demência foi um sucesso, o que me deixou muito alegre. Felizmente, em 6 de julho passado, Alisson Aubrey veio novamente com uma reportagem, que pode ser ouvida em formato podcast na própria página, sobre a relação entre exercício físico e fortalecimento cerebral. Em tradução livre pro português, seu título poderia ser “Um estudo descobriu que pessoas com mais de 80 anos que caminham em ritmo acelerado reduzem pela metade o risco de declínio cognitivo” e fala de novos estudos relacionando a manutenção da acuidade cerebral em pessoas com mais de 80 anos que mantêm o hábito da caminhada rápida.

Não são aqueles anúncios “pegadinha” miraculosos que pululam no Google, mas estudos sérios que achei por bem partilhar aqui, mesmo sem autorização da NPR, rs. A maior contribuição do artigo é o conceito de “super mover”, que o tradutor inicialmente transformou em “supermoventes”, mas deu inúmeras soluções díspares ao longo do texto. Assim, joguei na busca tanto “supermoventes” pra ver se era um termo corrente quanto “super mover em português” pra achar alguma relação com estudos existentes. O termo era realmente novo e o Gemini, IA do Google, acabou sugerindo “supercaminhantes” a partir de diversas fontes, uma delas um recente artigo da revista Veja que por coincidência abordou o mesmo tema. Porém, o texto trata quase exclusivamente do trabalho de só um dos cientistas envolvidos, enquanto aqui você pode conhecer o esforço completo!

Tendo usado o Google Tradutor pra obter a base do texto, fiz o que se tornou ainda mais imprescindível depois da multiplicidade de traduções pra “super movers”: revisar manualmente, sobretudo termos médicos, pra não ficar algo antinatural ou simplesmente passado “na máquina”... Além disso, imprimi ao conjunto meu próprio estilo de redação e simplifiquei o que fosse possível, mesmo que o resultado “robótico” permanecesse aceitável. Desta vez, com uma única exceção, não mantive os links originais pra outros artigos, trabalhos e sites. Finalmente, como fiz outras vezes, sugiro a leitura do artigo (entrevista) da pesquisadora Gislene Nogueira sobre o conceito de public radio na legislação americana, no qual se encaixa a NPR, uma empresa privada sem fins lucrativos que sobrevive de doações de indivíduos, empresas e organizações e de repasses do Estado (estes cortados por Trump em 2025).



Palavras cruzadas e quebra-cabeças são há muito tempo considerados maneiras de manter a mente afiada. Mas um novo estudo aponta pra outra estratégia que pode ser igualmente importante: manter a rapidez nos pés.

Pesquisadores descobriram que pessoas na faixa dos 80 anos que mantêm um ritmo de caminhada excepcionalmente rápido, apelidadas de “supercaminhantes”, também são muito mais propensas a manter a mente afiada em comparação com seus coetâneos que se movem mais lentamente.

“Um supercaminhante é alguém com mais de 80 anos que apresenta um desempenho muito superior ao de seus coetâneos”, afirma a dra. Sofiya Milman, do Albert Einstein College of Medicine, uma das autoras do estudo.

Milman e seus colaboradores analisaram dados de cerca de 4 mil idosos inscritos num estudo de longo prazo sobre envelhecimento. Os participantes realizaram um teste de caminhada cronometrada, e os 9% mais rápidos – que apresentaram uma velocidade de marcha pelo menos 1,5 desvios padrão acima da média de seus pares da mesma idade – foram classificados como supercaminhantes. Esses indivíduos também apresentaram uma probabilidade significativamente menor de sofrer declínio cognitivo.

“A principal conclusão foi que os supercaminhantes têm cerca de 50% menos probabilidade de desenvolver declínio cognitivo que seus coetâneos que não são supercaminhantes, o que é muito impressionante”, diz Milman. Os resultados foram publicados na revista médica Neurology.

A conexão com a saúde muscular – Caminhar bem exige equilíbrio, coordenação e força, e todos esses fatores dependem de músculos saudáveis, afirma Bonnie Tsui, redatora científica e autora de On Muscle: The Stuff That Moves Us and Why It Matters (em tradução livre, Sobre músculos: o que nos move e a importância disso).

“Acho que a descoberta não é surpreendente, porque sabemos que a saúde muscular está muito correlacionada com a saúde cognitiva, especialmente à medida que envelhecemos”, diz Tsui. “O exercício faz seus músculos crescerem, mas também faz seu cérebro crescer.”

Pesquisas anteriores associaram a prática regular de exercícios físicos a um maior volume do hipocampo, o centro do cérebro responsável pela memória e pela orientação. O novo estudo descobriu que os supercaminhantes tendiam a preservar o volume do hipocampo à medida que envelheciam.

Tsui afirma que os benefícios estão relacionados ao que acontece dentro dos músculos em contração durante o exercício.

“O músculo é um tecido endócrino, o que significa que, quando nos movemos, nossos músculos liberam moléculas sinalizadoras que afetam outros sistemas do corpo, incluindo o estímulo ao crescimento de células cerebrais e a regulação do metabolismo”, diz ela. “Portanto, saúde muscular é saúde cognitiva.”

Entre essas moléculas de sinalização está uma proteína conhecida como fator neurotrófico derivado do cérebro, ou BDNF, que ajuda a regular a glicose e desempenha um papel importante na sobrevivência e manutenção dos neurônios, auxiliando na memória e na função cognitiva.

A rede de um corpo em funcionamento – O dr. Amit Saini, geriatra do consórcio de saúde Kaiser Permanente no norte da Califórnia, afirma que caminhar e manter a capacidade de caminhar bem são indicadores de boa saúde, pois diversos sistemas do corpo são empregados simultaneamente. Ele diz que caminhar beneficia a saúde cardiovascular e pulmonar.

“Ao caminhar, seu coração bate mais rápido e, quando o coração bate mais rápido, ele bombeia sangue não só pros músculos, mas também pro cérebro, nervos e outros sistemas do corpo”, diz Saini. “Seus pulmões também respiram um pouco mais rápido, o que, por sua vez, os mantém mais leves e saudáveis.”

Uma das descobertas mais surpreendentes do estudo: alguns supercaminhantes apresentaram placas e emaranhados neurofibrilares no cérebro, proteínas anormais associadas à doença de Alzheimer e à demência, apesar de não apresentarem sintomas. Os pesquisadores afirmam que isso sugere que o movimento e todos os benefícios de se manter ativo podem ajudar o cérebro a permanecer resiliente, mesmo sofrendo alterações relacionadas à idade.

A genética e o estilo de vida também são importantes – A genética provavelmente desempenha um papel importante em quem se torna um supercaminhante. Um estudo recente descobriu que a genética é responsável por cerca de 50% da expectativa de vida humana, e Milman afirma que, entre os superidosos – pessoas que estão bem aos 80 anos ou mais –, o papel da genética pode ser ainda maior.

No entanto, os autores enfatizam que os hábitos de vida, incluindo as decisões diárias sobre alimentação, priorização do sono e tempo dedicado ao relaxamento e à convivência com amigos e familiares, são todos importantes. De fato, pesquisas mostram que cerca de metade de todos os casos de demência podiam ser prevenidos ou adiados com a intervenção em 14 fatores de risco modificáveis.

As pessoas têm poder de influência sobre suas chances de envelhecer com saúde, e uma maneira de avaliar seus riscos pessoais e tomar medidas pra os reduzir é calcular sua Pontuação de Cuidado Cerebral. É uma ferramenta online gratuita, desenvolvida por médicos do Hospital Geral de Massachusetts, pra calcular teus riscos e sugerir medidas, por meio de mudanças nos hábitos diários, que podem ajudar a diminuir o risco de AVC, demência, doenças cardíacas e câncer.

“Caminhar rápido é um indicador de que o cérebro e o corpo estão envelhecendo bem”, diz Joe Verghese, chefe do Departamento de Neurologia da Stony Brook Medicine em Nova York e um dos autores do estudo. “Mas também é possível que as pessoas que caminham mais rápido, ao se envolverem nessas atividades, também protejam a saúde do cérebro por meio de diversos mecanismos, reduzindo inflamações, melhorando a saúde cardiovascular e promovendo o crescimento cerebral em áreas essenciais pra manter a função cognitiva à medida que envelhecemos.”

Verghese afirma que as descobertas trazem uma mensagem pra pessoas de todas as idades e níveis de condicionamento físico.

“Uma das principais mensagens é: mantenha-se ativo”, diz ele. “Faça exercícios regularmente, pois isso pode te colocar no caminho pra se tornar um supercaminhante à medida que envelhecer.”

Seja caminhando, nadando ou pedalando, os pesquisadores afirmam que a forma do movimento importa menos que sua consistência. É um hábito que pode trazer benefícios tanto pros músculos quanto pra memória no longo prazo.



segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Prevenção da demência

Foi publicada hoje, no site da National Public Radio (NPR) dos Estados Unidos, uma reportagem assinada por Alisson Aubrey, editada em texto por Jane Greenhalgh e que pode ser ouvida em formato podcast na própria página. Em tradução livre pro português, seu título poderia ser “Você pode reduzir o risco de adquirir demência. Veja como começar” e fala de um estudo sobre como a demência e outras doenças cerebrais podem ser evitadas ou adiadas com simples mudanças nos hábitos cotidianos. Não são aqueles anúncios “pegadinha” miraculosos que pululam no Google, mas estudos sérios que achei por bem partilhar aqui, mesmo sem autorização da NPR, rs.

Eu usei o Google Tradutor pra obter a base do texto, mas fiz o que todo mundo devia fazer após usar ferramentas de IA: revisar manualmente pra não ficar algo antinatural ou simplesmente passado “na máquina”... Além disso, imprimi ao conjunto meu próprio estilo de redação e simplifiquei o texto quando possível, mesmo que o resultado “robótico” fosse totalmente aceitável. Mantive todos os links originais, sem traduzir, portanto, os textos aos quais eles levam. Cabe aqui observar que segundo a legislação americana, e ao contrário do que acontece na Europa e no Brasil, uma public radio como a NPR não é exatamente uma entidade estatal, mas uma empresa privada sem fins lucrativos que sobrevive de doações de indivíduos, empresas e organizações e de repasses do Estado. Este artigo (entrevista) recente de pesquisadora Gislene Nogueira fala exatamente do exemplo da NPR como importante pra manutenção das democracias.



Um dos segredos pro envelhecimento saudável é manter a mente afiada.

E algumas das melhores estratégias pra evitar demência, AVC e até mesmo depressão na terceira idade se resumem a nossos hábitos diários.

“Você pode reduzir substancialmente os riscos por meio das escolhas que faz no estilo de vida”, diz o dr. Jonathan Rosand, neurologista e cofundador do McCance Center for Brain Health no Massachusetts General Hospital.

Rosand e seus colaboradores desenvolveram um meio de avaliar e rastrear a saúde do cérebro, com uma escala de 21 pontos chamada de pontuação de cuidado cerebral. A pontuação ajuda as pessoas a entenderem a importância de hábitos diários como o sono, a alimentação e os exercícios (você pode calcular sua pontuação em cerca de cinco minutos).

“Todos nós temos uma boa dose de controle”, diz Rosand.

Cerca de 40% dos casos de demência poderiam ser prevenidos ou adiados se atentássemos a 14 fatores de risco modificáveis, de acordo com o relatório de uma comissão da revista The Lancet. E até mesmo pessoas com fatores de risco genéticos podem se beneficiar. Uma pergunta que Rosand costuma ouvir é: “Doutor, o que posso fazer pra não ter demência, como meu pai, meu irmão ou minha irmã?”

Ruth Bernstein conhece essa angústia. “Vimos minha avó ser privada de sua identidade” por causa do Alzheimer, diz. E agora a mesma coisa está acontecendo com sua mãe. “É realmente devastador.”

Sendo mãe de duas crianças, Bernstein quer fazer o possível pra proteger seu cérebro, e o cálculo da pontuação de cuidado cerebral a ajudou a entender os muitos ajustes que ela pode fazer no estilo de vida. “Tem sido superútil”, diz. “Isso realmente me motivou porque eu entendo como tudo isso pode somar.”

Bernstein se vê passando por uma lista de verificação de itens na pontuação: “Tenho evitado o sedentarismo? Como está meu sono? Estou controlando meu estresse?” Num encontro social recente, ela bebeu uma taça de vinho, mas recusou uma segunda. Limitar o álcool a menos de 4 doses por semana ajuda a elevar a pontuação.

Pra calcular sua pontuação de cuidado cerebral, você se classifica em 12 diferentes fatores de risco que passam por alimentação, consumo de álcool, fumo, sono e quantidade de exercícios feita. Pressão arterial, açúcar no sangue, colesterol e IMC também são incluídos. Fatores sociais e emocionais também são envolvidos, incluindo senso de propósito, controle do estresse e conexões sociais. Cada resposta recebe o valor de um ponto, e quanto maior sua pontuação, melhor.

Vários estudos mostram que uma alta pontuação de cuidado cerebral está ligada a um risco significativamente menor de doenças. Por exemplo, um estudo publicado na Frontiers in Psychiatry descobriu que cada aumento de cinco pontos numa pontuação de cuidado cerebral estava associado a um risco 33% menor de depressão na terceira idade e um risco composto 27% menor de demência, derrame e depressão.

“O que nos surpreendeu foi o enorme poder de tudo isso”, diz o dr. Kevin Sheth, diretor do Center for Brain and Mind Health da Universidade de Yale e coautor do estudo recente. “Ter um efeito dessa ordem de magnitude é significativo”, diz.

Um estudo de acompanhamento publicado este mês na revista Neurology, que estratificou os participantes por risco genético, descobriu que uma pontuação mais alta estava associada a um risco menor de doenças cerebrais, incluindo demência e derrame, mesmo entre pessoas que herdaram um risco genético aumentado pra essas doenças.

“A boa notícia é que se você adotar comportamentos saudáveis, vai estar muito mais protegido da demência do que se não fizer essas coisas”, diz o dr. Christopher Anderson, autor do estudo e chefe da Divisão de Derrame e Doenças Cerebrovasculares do Brigham and Women’s Hospital.

“O objetivo é fugir da ideia de determinismo genético”, quando as pessoas sentem que não podem fazer nada contra seus riscos, e enfatizar, em vez disso, o enorme poder das escolhas saudáveis”, diz Anderson.

Kevin Sheth, de Yale, diz que a pesquisa de pontuação cerebral teve um impacto em seus próprios hábitos. Ele trocou sobremesas açucaradas por frutas em algumas refeições e adicionou mais folhas verdes e gorduras saudáveis em sua dieta. “Estou motivado porque conheço os dados”, diz.

Outra forma de aumentar sua pontuação de cuidado cerebral é controlar condições crônicas, como pressão alta e diabetes. Mudanças no estilo de vida podem ajudar, mas muitas vezes as pessoas precisam de remédios. “Se conseguíssemos eliminar a pressão alta”, que é apenas um componente da pontuação, “poderíamos [reduzir] a demência em ordens de magnitude”, diz Sheth. Segundo ele, também é importante reconhecer os desafios que as pessoas podem enfrentar pra mudar de hábitos. Quando se trata de comer bem, nem todos podem comprar muitas frutas e vegetais frescos.

Rosand e Sheth dizem que a pontuação do cuidado cerebral não deve ser vista como um teste em que você pode falhar. “Muito poucos conseguem ter uma pontuação perfeita”, diz Sheth. “O objetivo é ter a melhor pontuação possível e a monitorar ao longo do tempo.”

Há muitas sobreposições entre a pontuação e o Life’s Essential 8 da American Heart Association, que inclui medidas cruciais pra melhorar a saúde da coração. Isso faz sentido, diz a dra. Helen Lavretsky, psiquiatra integrativa geriátrica da UCLA, porque está cada vez mais claro que muito do que faz bem pro coração também faz bem pro cérebro.

E nunca é cedo demais pra focar na prevenção. “Quanto mais cedo você começar, melhor”, diz Lavretsky.