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domingo, 14 de setembro de 2014

Polonês, a língua de Zamenhof


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Artigo de Bradley Kendal sobre o idioma polonês, língua materna de Lejzer Ludwik Zamenhof (1859-1917), iniciador do esperanto (projeto de língua auxiliar internacional), publicado na revista esperantista belga Monato, novembro de 2002, p. 20. Traduzi este texto do esperanto há muitos anos para publicar num antigo site meu sobre o idioma, e agora fiz profundas revisões no trabalho. A versão inicial do artigo pode ser lida aqui.

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O polonês era a língua materna do criador do esperanto, e por isso seria interessante comparar esses dois idiomas. (1) Ao contrário de outros criadores de línguas auxiliares, Zamenhof notavelmente demonstra pouca influência da fala materna em sua obra. Reza a lenda que a única palavra polonesa que ele não pôde deixar de introduzir no esperanto foi a tão cara “kolbaso” (2), a qual, porém, assemelha-se mais à similar russa kolbasa (3) do que à polonesa kiełbasa. Mas há outras palavras extraídas do polonês: “ĉu”, por exemplo, advém sem dúvida de czy [tchi]. (4)

Um alfabeto falsamente assustador

O polonês é uma língua pertencente ao ramo ocidental do grupo eslavo. Seu alfabeto é o latino, mas acrescido de vários dígrafos e sinais diacríticos, o que passa a falsa sensação de uma pronúncia dificílima. Na verdade, a ortografia é bem fonética, embora algumas palavras ainda sejam difíceis de pronunciar, como mgła [mguá] (nevoeiro, neblina, névoa), mężczyzna [menjtchizna] (homem) ou o nome da cidade de Bydgoszcz [bídgochtch]. Existe ainda este famoso trava-língua: W Szczebrzeszynie chrząszcz brzmi w trzcinie [fchtchebjechínie rrchonchtch bjmi ftchtchínie] (Em Szczebrzeszyn [uma cidade] um escaravelho zumbe num caniço). Como no russo, quase todas as consoantes podem ser “brandas” ou “duras”, e sua pronúncia branda é indicada por um acento agudo sobre a consoante ou, antes de uma vogal, por um i intercalado. Quase sempre o acento tônico recai sobre a penúltima sílaba.

Uma coincidência interessante com relação ao italiano, e ao mesmo tempo um contraste, é a palavra para “norte” ser północ [púunots] (literalmente, “meia-noite”), enquanto o sul da Itália é chamado de Mezzogiorno, que significa também “meio-dia”! (4a) Os nomes dos meses, de modo incomum para uma língua europeia, não são de origem romana, mas eslava (p. ex. październik, “outubro”), enquanto em russo são facilmente reconhecíveis (oktiabr, também “outubro”). (5)




Uma gramática realmente terrível

Existem os mesmos três gêneros do russo, sendo que os substantivos neutros geralmente terminam em -o, letra que deve ter parecido a Zamenhof a terminação mais neutra para os substantivos do esperanto. (6) Muitos substantivos femininos terminam em -a, como em tantas outras línguas indo-europeias. Não existem artigos, e são sete os casos gramaticais: nominativo, acusativo, genitivo, dativo, instrumental, locativo e vocativo (este em vias de desaparecimento).

Em polonês, os adjetivos concordam com o substantivo em número, caso e gênero, assim como em esperanto, língua em que isso seria desnecessário, segundo alguns. (7) Embora os adjetivos geralmente antecedam o substantivo a que se referem, a ordem é razoavelmente livre. Os numerais também declinam, ou seja, mudam de forma conforme sua função na oração. Para formar advérbios, troca-se a terminação dos adjetivos masculinos pela do neutro (-o ou -e, conforme a palavra).

A ordem mais usual das palavras na oração é “sujeito-verbo-complemento”, embora seja possível variar bastante, assim como em esperanto.

Algo um pouco complexo em polonês é que os pronomes “eles/elas” (8) podem ser traduzidos como oni caso se refiram a um grupo de homens, ou de homens e mulheres, ou por one caso se refiram a um grupo de mulheres, de animais ou de coisas dos três gêneros. Ao contrário do russo, os pronomes podem ser omitidos, pois todas as terminações pessoais dos verbos diferem entre si, inclusive no pretérito. (9)

Como em russo, existem dois verbos equivalentes a “ir”, caso seja um trajeto feito a pé ou com algum meio de transporte, cada um deles se dividindo, por sua vez, em dois verbos para um trajeto usual ou específico. Outra semelhança é que também são abundantes os prefixos verbais, mas uma diferença é que o polonês não omite os verbos “ser/estar/haver” (być) e “ter” (mieć) no presente. Como em outras línguas eslavas, os verbos podem ser de aspecto perfeito ou imperfeito, caso indiquem, respectivamente, uma ação acabada ou inacabada, além de outros empregos. A noção de aspecto, que difere da de tempo verbal (embora ambas se confundam no uso cotidiano), certamente existe em todas as línguas, mas algumas não o assinalam explicitamente. O interessante é que Zamenhof, mesmo conhecendo várias línguas que marcam o aspecto, decidiu não fazer isso em esperanto, o que gerou um problema junto aos particípios: eles indicariam apenas os três tempos verbais (-ita, -ata, -ota) ou também uma ação acabada em detrimento de uma inacabada? (10) Por fim, resolveu-se a questão reconhecendo que a noção de aspecto também existe em esperanto.

O polonês é uma língua muito doce, mas sua gramática complexa assombraria falantes de idiomas como o chinês e o tailandês!


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Notas do tradutor
(Clique no número para voltar ao texto)

(1) Algumas fontes como a Wikipédia em esperanto, porém, baseando-se em falas do próprio Zamenhof, admitem o russo como sua língua materna (sua cidade natal, Białystok, hoje polonesa, fazia então parte do Império Russo), enquanto o polonês teria sido mais falado por ele na idade adulta. Além disso, ele sempre teria se definido como “judeu russo”, tendo sido educado com sua mãe lhe falando em iídiche e seu pai, em russo, língua na qual também recebeu instrução externa.

(2) Chouriço, linguiça.

(3) Modifiquei as transliterações conforme o novo sistema que lancei recentemente, e elas podem nem sempre coincidir com o que havia no texto em esperanto. Em cirílico russo, a palavra é “колбаса”. Pronúncia aproximada: “kalbassá”.

(4) Ĉu (pronúncia “tchu”) é uma partícula colocada em frases interrogativas na ausência de outra palavra interrogativa, como “que”, “qual”, “quando”, “onde” etc. Exemplos: Kiel vi fartas? (Como vai você?), Ĉu vi konas min? (Você me conhece?). A pronúncia aproximada, entre chaves, de palavras polonesas estava figurada conforme a ortografia esperantista, e adaptei-a conforme a do português.

(4a) O sul da França, aliás, é chamado correntemente de Midi, que com inicial minúscula (midi) também significa “meio-dia”.

(5) A transliteração no original era oktjabrj, sendo a palavra em cirílico “октябрь”, pronunciada aproximadamente “aktiabr”. Aliás, em tcheco e ucraniano, os nomes dos meses também não seguem em geral a matriz romana, mas há várias diferenças nos nomes entre essas três línguas eslavas. “Outubro”, por exemplo, é říjen em tcheco e жовтень (zhovten) em ucraniano.

(6) Os três gêneros referidos são o masculino, o feminino e o neutro, os quais, ao contrário do inglês e à semelhança do português, são puramente gramaticais, e não referentes ao sexo. Todos os substantivos do esperanto terminam de regra com a letra -o, quer se refiram a homens, mulheres, animais ou coisas: patro (pai), patrino (mãe), infano (criança), hundo (cão), tablo (mesa) etc.

(7) Como talvez não tenha ficado claro nesta tradução, o esperanto não possui gêneros gramaticais, embora alguns substantivos se refiram necessariamente a homens, a mulheres ou a animais/coisas e tenham como respectivos pronomes pessoais, na terceira pessoa do singular, li, ŝi e ĝi. Os adjetivos não possuem marcação ou indicação de gênero, permanecendo inalterados (à exceção da marcação de número e caso) junto a qualquer substantivo.

(8) No original, o autor se refere ao pronome “ili” do esperanto, que é usado na terceira pessoa do plural para todos os gêneros.

(9) O autor se refere ao fato de, no russo, os verbos no pretérito não flexionarem em número e pessoa, mas apenas em gênero. Assim, por exemplo, o verbo iest (есть ‒ “comer”) flexiona-se no pretérito como iel (ел) se a ação for executada por alguém do gênero masculino, iela (ела) se for do gênero feminino, ielo (ело) se for do gênero neutro (um animal do gênero neutro, por exemplo, embora existam outros masculinos ou femininos) e ieli (ели) se forem vários seres, de qualquer gênero. Para maiores informações sobre a conjugação verbal em polonês, ver esta seção num artigo especializado da Wikipédia em inglês.

(10) Essas três terminações do particípio passivo em esperanto indicam também o tempo de realização da ação, respectivamente no passado, no presente e no futuro. Assim, dado que o verbo konstrui significa “construir”, konstruata significa, mais precisamente, “que está sendo construído”; konstruita, “que foi construído”; e konstruota, “que será construído”. A anteposição, junto a esses particípios, do auxiliar esti (“ser, estar, haver”) no passado, no presente ou no futuro torna a indicação temporal ainda mais precisa.