terça-feira, 5 de janeiro de 2021

De Gaulle sobre esperanto e volapuque


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/gaulle-eo


Eu achei este vídeo por acaso, com o ex-presidente francês, general Charles de Gaulle, fazendo uma brincadeira com o esperanto e o volapuque (ou volapük) numa conferência de imprensa em Paris, em 15 de maio de 1962. Porém, o contexto mais amplo com gravação melhor é uma fala em que o herói da Resistência antinazista critica uma integração europeia da França, no caso de haver supressão das fronteiras nacionais e das particularidades locais (imagens do INA).

Ele critica as ideias de “federalismo europeu” e defende a manutenção da soberania nacional dos Estados-membros da União Europeia. Parecia uma previsão quanto ao que está ocorrendo hoje... Cada cultura nacional seria uma contribuição integrante da Europa, ao contrário do esperanto e do volapuque, projetos que visam ser línguas internacionais “neutras”. Esperanto ou volapuque “integrados” quer dizer exatamente sem características nacionais, fundidos em algo único, desnaturado.

O raciocínio de Charles de Gaulle é bem problemático, primeiro porque hoje a condição de “apátrida” é considerada pelas organizações internacionais uma situação de fragilidade, causada especialmente pelo exílio ou expulsão devidos a guerras e ditaduras, não raro surgidas em meio justamente à exacerbação de nacionalismos. Além disso, os judeus sempre foram considerados apátridas por definição, e nesta ou outra entrevista, o general cita de forma pejorativa o espírito “dominador” desse povo.

Diga-se também que a cultura europeia, notadamente o cristianismo, só pôde florescer justamente por causa dos impérios helênico e romano, não nacionais e com seus “esperantos” pan-mediterrâneos, o grego koiné e o latim, bases da linguagem técnica e científica modernas. E Zamenhof, o iniciador do esperanto, era judeu polonês que vivia no racista Império Russo, em província em que vários povos brigavam entre si, instigados pelo tsar.

Eu mesmo traduzi do francês a partir do texto dado no YouTube, e legendei, tendo feito apenas pequenas correções (ele disse qu’ils avaient pensé, mas talvez ele quis dizer s’ils avaient pensé):

Je ne crois pas que l’Europe puisse avoir aucune réalité vivante si elle ne comporte pas la France avec ses Français, l’Allemagne avec ses Allemands, l’Italie avec ses Italiens etc. Dante, Goethe, Chateaubriand appartiennent à toute l’Europe dans la mesure même où ils étaient respectivement et éminemment italien, allemand et français. Ils n’auraient pas beaucoup servi l’Europe s’ils avaient été des apatrides et qu’ils avaient pensé et écrit en quelque esperanto ou volapük intégrés...

Não creio que a Europa possa ter nenhuma realidade viva se não comportar a França com seus franceses, a Alemanha com seus alemães, a Itália com seus italianos etc. Dante, Goethe, Chateaubriand pertencem a toda a Europa na própria medida em que eles eram respectiva e eminentemente italiano, alemão e francês. Eles não teriam servido muito à Europa se tivessem sido apátridas e se tivessem pensado e escrito em algum esperanto ou volapuque integrados...


domingo, 3 de janeiro de 2021

Maia Sandu vira presidente da Moldova


Endereço curto: fishuk.cc/sandu-posse


Este catatau de mais de uma hora e meia possui a cobertura completa da posse, em 24 de dezembro de 2020, da nova presidente da República da Moldova, Maia Sandu, eleita em segundo turno em 15 de novembro. Selecionei apenas as partes fundamentais e mais interessantes, tirando o longo discurso de posse e adicionando explicações ou tiradas cômicas. Como sabemos, a Moldova, antes conhecida como Moldávia, já pertenceu ao Império Russo, à Romênia e à União Soviética, até ficar independente em 1991. Sua localização a tornou um caldeirão de culturas, sendo a romena predominante, e a ucraniana, a russa, a gagaúza e a búlgara, minoritárias.

Igor Dodon, socialista eleito em 2016, perdeu a reeleição de novembro passado pra sua ex-premiê Maia Sandu, que é da direita liberal e pró-Europa. Ela também já trabalhou em bancos no Ocidente e foi uma impopular ministra da Educação em outro governo. Solteira, tornou-se primeira-ministra por breve tempo num ato fracassado de conciliação. Dodon deixa uma Moldova afundada em crise política, econômica e sanitária (covid-19), criticado por sua posição pró-Rússia e pela manobra de, antes da saída, tentar a aprovação de uma lei que reduzia os poderes presidenciais. Não conseguiu.

Maia Sandu já anunciou que será “a presidente da integração europeia”, num país dividido entre aqueles que querem a reunificação com a Romênia (situação comparada à da Alemanha na “guerra fria”, já que o país foi fundado por Stalin) e aqueles que defendem a herança russa ou até a independência da região da Transnístria, conflito ainda não resolvido. Presidentes de uma coalizão de países vizinhos contrários à política externa da Rússia enviaram uma nota conjunta de felicitação à presidente. Eu mesmo escolhi as cenas, embora possa parecer um pouco arbitrária, traduzi algumas falas importantes e coloquei notas explicativas em alguns trechos. Algumas das marchas estão no YouTube, como Dumitru Cantemir e La Mulți ani.


O vídeo permite perceber uma situação inédita na Moldova, e mesmo em outros países: só mulheres regendo a posse, ao mesmo tempo na presidência do Parlamento, da Corte Constitucional e agora da República. Mesmo com engasgo, ela até ensaiou algumas frases nas línguas minoritárias da Moldova, como lemos na íntegra do discurso:

Em russo: Дорогие граждане! Я буду бороться против тех, которые нас обкрадывают и доводят до нищеты. Я буду действовать в интересах всех граждан, чтобы повысить уровень жизни и вселить уверенность в завтрашнем дне. (Caros cidadãos! Lutarei contra aqueles que nos roubam e nos conduzem à miséria. Atuarei no interesse de todos os cidadãos para elevar o nível de vida e instilar a confiança no dia de amanhã.)

Em ucraniano: Я буду голосом людей і буду вимагати від відповідальних державних установ вирішувати проблеми громадян. (Serei a voz das pessoas e exigirei que as instituições estatais responsáveis resolvam os problemas dos cidadãos.)

Em gagaúzo: Bӓn çalışacam, ki devletin herbir vatandaşı duyabilsin, ani bizdӓ cuvapçılı devlet önetmesi var. (Não traduzi, quem souber entre em contato.)

Em búlgaro: Аз щe уважавам културата и традициите на всеки една общност. (Respeitarei a cultura e as tradições de cada uma das comunidades.)

Este é o texto do juramento, conforme exibido no site da presidência e que pude também comparar com a tradução oficial russa:

Jur să-mi dăruiesc toată puterea şi priceperea propăşirii Republicii Moldova, să respect Constituţia şi legile ţării, să apăr democraţia, drepturile şi libertăţile fundamentale ale omului, suveranitatea, independenţa, unitatea şi integritatea teritorială a Moldovei. (Juro dedicar toda a minha força e capacidade à prosperidade da República da Moldova, respeitar a Constituição e as leis do país, defender a democracia, os direitos e liberdades fundamentais das pessoas, a soberania, a independência, a unidade e a integridade territorial da Moldova.)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Felipe Dideus, um não historiador


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/dideus




Fiz esta nota pra aba Comunidade do meu canal no YouTube há algumas semanas, e estou a republicando aqui como forma de tentar retomar o ritmo regular de postagens, novamente interrompido no fim de setembro. Não estou fazendo ataques pessoais ao Felipe, mas com este texto ressalto a necessidade dos historiadores entrarem novamente na batalha da memória: o combate pela ciência não deve se limitar à epidemiologia. Aproveito a ocasião pra lhes desejar um feliz, pelo menos melhor, 2021!

Vi alguns vídeos do tal Felipe Dideus (ou “de Deus”, dependendo da fonte), que se denomina “historiador” e tem ou teve em algum momento ligação com os conspiracionistas do Terça Livre. Não achei nada sobre a formação dele, mas o conteúdo é bastante fraco pra ser chamado de “histórico”. Não passa de um show de curiosidades, e o rapaz nem falar direito sabe.

Claro que só vi uma parte dos muitos vídeos, mas eles são bastante representativos, no caso do Felipe não ter retificado algumas opiniões. Pra começar, lambe saco de uma monarquia inexistente e falida, tirando o reinado de D. Pedro 2.º (no mais uma grande figura) do contexto mais amplo do Império e de nossa economia escravista agroexportadora. Isso mesmo já mostra sua fixação pela história dos grandes políticos, algo já criticado pelos historiadores sérios há mais de cem anos. Diz que a República “faliu”, fazendo uma comparação esdrúxula entre 50 anos bem específicos e mais de 130 anos de desenvolvimento econômico e social jamais vistos. Já deu pra ver que a “história” dele não tem povo, não tem pobres, não tem negros e mulheres, não tem conflitos, não tem violência de classe, não tem sociedade enfim. Pior: pro Felipe, é um regime que determina como se molda a sociedade ou a economia, e não o contrário, quando a produção material condiciona em última instância as formas políticas. Daí a argumentação descabida de que vários países prósperos são monarquias, na verdade monarquias porque prósperos (não raro com base em espoliação, trapaças comerciais, invasões, hiperexploração do trabalho, protecionismo etc.), isto é, estáveis o suficiente pra não precisar trocar de regime.

Seu vídeo sobre a ditadura militar (que ele ameniza chamando de “regime”) é extremamente nojento. Diz que Jango queria “implantar o comunismo” no Brasil (Jorge Ferreira, Moniz Bandeira, Hélio Silva e Daniel Aarão Reis que o digam!) e absolutiza os números verticais da economia, esquecendo do aumento brutal da desigualdade, da bomba armada da hiperinflação, do endividamento externo, do desmonte do ensino público e da violência indiscriminada não só contra a guerrilha, mas contra qualquer crítico da ditadura. Não só nesse vídeo como em vários outros, ele demonstra claro desconhecimento da história do comunismo e da diferença mesmo entre os vários períodos da URSS. Já disse aqui várias vezes, não cabe defender o comunismo, mas colocar as coisas em seu devido lugar, sem fazer, como Felipe, as reduções ridículas dos manuais da “guerra fria”.

Ele também é fixado em história militar e tudo o que se relaciona a Forças Armadas (talvez por algum vínculo profissional), o que não é condenável, mas mostra a imagem distorcida que adolescentes gamers, seu público preferencial, têm da história como uma sucessão de guerras e decisões de cúpula. Isso explica também o baixíssimo nível cultural de quem comenta em seus vídeos, conseguindo ser ainda mais estapafúrdio em visão de mundo e leitura da história brasileira. Sem contar, claro, vendendo o truque da “história não contada”, que Felipe não cita nenhuma bibliografia especializada, quando muito alguns sites de curiosidades históricas, já que ele mesmo parece desprezar o conhecimento acadêmico, feito com pesquisa demorada e reflexão crítica, como “mentiroso” e “manipulador”. E falando em gamers, num dos vídeos ele oferece de seus patrocinadores um “tanque soviético” pra um jogo, mesmo paradoxalmente reduzindo o comunismo a “fome, mortes e ditadura”, rs.

Correndo o risco de ser rígido demais, concluo com um vídeo mais recente, sobre o qual ele fez tanto alarde, dos dois irmãos brasileiros que participaram da 1.ª Guerra Mundial, e fecho minha visão sobre história. O enredo é interessante e o filme é bem feito, mas reúne fatos desconexos, sem qualquer relação explicativa relevante com o cenário maior nem do Brasil, nem da Europa, nem da guerra, nem da geopolítica. Nem de “micro-história” isso pode ser chamado, porque, pelo conceito que Carlo Ginzburg deixou, o exemplo tomado deve ser representativo por estar no cruzamento entre várias dimensões importantes pra época. Indicativo do nível do público é chamarem de “patriotas” os dois brasileiros que foram defender... a Inglaterra, numa guerra em que o Brasil sequer entrou, deu pouca contribuição ao final e só decretou o estado de guerra em 1917 pra poder reprimir o movimento operário.

Enfim, curiosidades, relatos, biografias, ação, mas não “história”.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Nova guerra Armênia vs. Azerbaijão


Endereço curto: fishuk.cc/artsakh


Nestes trechos que tirei de um telejornal exibido no útlimo 28 de setembro, já aprecem alguns primeiros rastros de destruição militar, dos dois lados, após começarem novos conflitos armados entre a Armênia e o Azerbaijão, dois pequenos países do sul do Cáucaso, antigas repúblicas da URSS. Esta variante dialetal da língua armênia, especificamente, é a chamada “ocidental”, a língua da diáspora, ao contrário da “oriental”, oficial na Armênia moderna, com ortografia reformada e cheia de empréstimos do russo.

O conflito tem como foco a região chamada pelos armênios de Artsakh, também conhecida pelo nome russo Nagorno-Karabakh, um enclave no meio do Azerbaijão que tem maioria étnica armênia e praticamente se autogoverna com a ajuda do irmão vizinho. Esse traçado geopolítico não resolvido culminou numa guerra no início dos anos 90 que deixou mais de 30 mil mortos e desalojou mais de um milhão de pessoas. Por vários anos têm sido conduzidas conversas e mantido um cessar-fogo, mas desde 2016 os separatistas têm ficado mais reativos, e o governo azerbaijano mais repressivo.

A Armênia, de religião cristã e conduzida pelo primeiro-ministro Nikol Pashinyan, e o Azerbaijão, de credo muçulmano e dirigido pelo presidente Ilham Aliyev, estão praticamente em confronto aberto, revivendo feridas ardentes desde a década de 1920, quando a Turquia tentou exterminar o povo armênio e provocou sua diáspora pelo mundo. Os azerbaijanos (que não gostam do nome “azeri”) são incondicionalmente apoiados pela Turquia, cuja língua é quase igual à sua, e acusados pela Armênia de receber jihadistas islâmicos que estavam lutando no norte da Síria e lançá-los contra o Artsakh.

A guerra iniciada no último domingo já fez dezenas de mortos civis e militares, mas está só começando e não sabemos quando/se vai acabar. A Armênia decretou estado de guerra e convocou seus reservistas homens. A Europa acusou esses dias o presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, de conduzir uma diplomacia excessivamente agressiva. O líder conservador islâmico, além de tornar novamente o museu de Santa Sofia uma mesquita e ocupar o norte da Síria pra perseguir os separatistas curdos, também está envolvido em disputas por campos marítimos de petróleo e gás com o Chipre e a Grécia, esta quase atraindo sua ira militar. A Rússia historicamente apoia os armênios cristãos desde as guerras do tsarismo contra o Império Otomano, mas Vladimir Putin também nunca teve problemas com o autoritário Aliyev. E isso, infelizmente, no meio da pandemia de covid-19. A palavra que aparece na tela, goyamart (գոյամարտ), notavelmente significa “luta pela vida” ou “luta pela sobrevivência”:




Momento em que um correspondente do canal independente Dozhd (ou TV Rain), que ainda funcionava na Rússia antes de exilar seu estúdio durante a invasão da Ucrânia, quase foi atingido por um bombardeio na cidade de Martuni, enquanto cobria o conflito no Artsakh, em 1.º de outubro de 2020.


Atualização: Este link contém o vídeo completo da parada militar realizada pelo ditador do Azerbaijão, Ilham Aliyev, na companhia de seu aliado e convidado de honra, o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, no dia 10 de dezembro de 2020 na capital azerbaijana, Baku. Os dois países comemoravam o que consideravam ser a vitória na guerra contra a Armênia pelo controle da região do Artsakh (ou Nagorno-Karabakh), enclave de maioria armênia dentro do Azerbaijão com governo e exército próprios. Aliyev acusou o primeiro-ministro armênio Nikol Pashinyan de iniciar uma provocação militar pra tentar controlar a região, mas o Ocidente considera a ofensiva azerbaijana uma guerra por procuração instigada por Erdoğan com fins de autopromoção regional. Foi o maior desfile do país banhado pelo mar Cáspio desde sua independência da antiga União Soviética, em 1991.

A Armênia entrou com tropas no Artsakh pra supostamente defender os compatriotas, mas o Azerbaijão respondeu ao ataque, com a ajuda da Turquia, o parceiro poderoso de Baku (ambos os países são muçulmanos e de cultura túrquica). Não se sabe ao certo por que Pashinyan aceitou a aventura, sendo que seu poderio bélico era muito inferior, mas diz-se que ele esperava o apoio da Rússia, historicamente ligada aos armênios cristãos. Porém, esse apoio não chegou (nem mesmo da vizinha Geórgia), e Yerevan se viu sozinha enfrentando a Turquia, Azerbaijão e militantes islâmicos saídos da Síria pra combater no Artsakh. Pashinyan e Aliyev terminaram assinando um cessar-fogo intermediado pela Rússia, que mandou seu exército patrulhar na região o cumprimento do acordo e evitar, por exemplo, matanças étnicas em massa. Boa parte da população armênia do Artsakh tinha justamente fugido dos combates e do perigo de extermínio, lembrando-se do genocídio cometido pelo Império Otomano durante a 1.ª Guerra Mundial.

Recep Erdoğan, em seu braço-de-ferro geopolítico com a União Europeia, os colegas da OTAN e os EUA, acabou por enquanto ganhando esta etapa. Washington não deu um pio sequer, Moscou se viu impotente diante do fato consumado (mesmo que tenha tomado a dianteira nas negociações) e os europeus estavam retidos pela crise da pandemia. Enquanto o Azerbaijão comemora, a Armênia está vivendo uma crise política, chorando seus mortos e com exigências de renúncia do premiê Pashinyan. Estas são as melhores imagens que selecionei da parada inteira, até porque boa parte é repetição, e os discursos dos presidentes (cujas línguas são mutuamente inteligíveis) ocupam metade do vídeo. Notemos que o ar é de grandiloquência, embora um quarto do território do Artsakh ainda esteja sob controle armênio, e que o estilo do desfile ainda é muito calcado nos antigos soviéticos. Militares turcos também participaram.


segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Alexandro le Grande (texto Interlingua)


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/alexandro

Este texto, este áudio e esta descrição foram compostos na interlíngua (ou Interlingua de IALA), um projeto mais naturalista de idioma auxiliar internacional, baseado apenas nas formas previamente existentes nas maiores línguas de cultura da Europa Ocidental. Seus adeptos são mais modestos do que os “esperantistas” ao se contentarem em torná-lo um idioma instrumental da ciência e comunicação entre quem já tem contatos internacionais, e não uma “segunda língua pro mundo inteiro”. Pra saber mais, visite o site da UBI (União Brasileira Pró-Interlíngua). Obrigado ao Cláudio Leite pela digitação do texto!


Iste es un prime effortio pro provider al usatores de internet plus de textos legite in Interlingua, conforme al recercas plus recente a iste respecto. In su libro Interlingua: Grammar and Method, le recercator scientific statounitese Stanley A. Mulaik faceva plure observationes super questiones que non recipeva un solution assatis clar in le Interlingua-English Dictionary de Alexander Gode (1951) e in le parve grammatica que lo accompaniava. Alora, Mulaik recuperava scriptos non publicate del professor Gode, con qui ille conviveva plure annos como juvene universitario, e voleva, inter altere cosas, fixar le regulas de derivation de parolas e le uso del particulas basic del discurso.

Pro illes que ha un contacto con le vaste travalio de Stanley Mulaik, su conclusiones e formas obtenite pote parer un poco heterodoxe. Mais io pensa que su approche nos pone plus proxime al assi appellate linguas fonte tal como illos se trova in su stato actual. Io mesmo lege ancora le libro, mais ja lo trova ben interessante. Pro isto, io decideva apportar vos un lectura facite per me de un de su prime excertos textual (p. 7-11 con le original anglese), “Le vita de Alexandro le Grande” (Alexander the Great), de autor anonyme, traducite del Eclectic Third Reader de McGuffey publicate in 1843. Io regratia mi amico Cláudio Leite pro le transcription del texto, e si vos vos interessa, illo tamben seque ci basso:


1. Macedonia esseva, durante un longe tempore, un parve stato in Grecia, non celebrate pro alcun cosa, con le exception que su reges semper governava secundo le leges del pais e que lor infantes esseva ben educate.

2. Finalmente, depois que multe reges habeva regnate super Macedonia, uno appellate Philippo veniva al throno, qui esseva determinate a render su regno tanto illustriose como altere regnos. Ille levava un armea grande, subjugava multe populos, e arrangiava facer le altere statos de Grecia querrelar inter se.

3. Quando illes esseva bastante fatigate de luctar contra le un le altere, ille les induceva a submitter a ille; que illes esseva plus que preste de facer, proque ille les dava sperantias que ille ducerea les foras a conquirer Persia. Mais ante que ille sortiva in su expedition a Persia, ille esseva occidite per un de su proprie subjectos.

4. Philippo esseva succedite per su filio Alexandro, appellate in le historia “Alexandro le Grande”. Al morte de Philippo, le grecos pensava que illes esseva libere e resolveva que Macedonia non plus tenerea les in subjugation, mais Alexandro prestemente ha monstrate les que ille esseva tanto sapiente como su patre, e plus hardite que ille.

5. Alexandro causava que le mordreros de su patre sia execute; alora amassante su armea, in un assemblea del statos de Grecia, ille adressava les in un discurso, que convinceva les de su sapientia e valor. Post isto illes ha consentite facer le, como su patre ha essite, le chef commandante de Grecia. Ille alora retornava a Macedonia e in un breve tempore postea, comenciava su conquestas e ganiava victorias surprendente, obligante totos qui luctava contra ille a submitter a ille.

6. Si tosto como Alexandro resolveva le statos grecian a su voluntate, ille traversava le Hellesponte, ora appellate le Dardanellos, con su armea, pro subjugar Persia. Le persianos, audiente de isto, assembleava lor fortias, e attendeva le super le bancas del fluvio Granicus. Quando le grecos arrivava al latere opposite, un del generales avisava Alexandro a lassar su soldatos reposar se un poco; mais ille esseva tanto alacre pro le conquesta que ille dava le commando instantaneemente a marchar per le Granicus.

7. Su truppas, habente trovate un loco pauco profunde, obediava; le trompettas sonava, e alte critas de gaudio esseva audite per tote le armea. Si tosto como le persianos videva les avantia, illes lassava un pluvia de flechas a illes, e quando le grecos esseva preste de atterrar se, le persianos se effortiava a pulsar les de retro in le aqua, mais in van. – Alexandro e su armea atterava se, e un terribile battalia occurreva, in que ille esseva victoriose.

Alora, ille avantiava de citate a citate, obligante les a recognoscer le como lor rege, in loco de Darius.

8. Darius, essente informate del progresso de Alexandro, resolveva a incontrar le con un grande armea. Si tosto como Alexandro audiva de su approche, ille preparava a incontrar le a Issus, ubi ille le obligava a fugir, abandonante de retro de ille su regina e familia, e tresor immense, toto de que Alexandro capturava.

9. Alcun tempore plus tarde, Darius faceva un altere battalia a Arbela, in que ille esseva de novo battite. Tosto post isto ille esseva occidite; e assi finiva le Imperio de Persia.

10. Non contente con le conquesta de Persia, Alexandro resolveva de subjugar le reges de India; e ille obligava multe de illes a submitter se a ille. Un de illes, nominate Porus, le resisteva con grande corage, mais Alexandro finalmente le superava. Alexandro, nonobstante, le tractava con multe respecto, le da su libertate, e le restaurava a su regno; e Porus se probava un amico fidel a ille sempre depois.

11. Inter le battalias que Alexandro faceva com Darius, Alexandro subjugava multe statos e regnos, e inter alteres, le Egypto e Babylon; e pois le morte de Darius, ille faceva ancora plus conquestas, ultra aquellos del princes de India, per qual medios le Imperio de Grecia esseva levate a un grande altitude.



sábado, 26 de setembro de 2020

Presidente moldavo: ONU virtual 2020


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/dodon-russo2

Em seu próprio canal no YouTube, o presidente da República da Moldova, Igor Dodon, publicou a versão original (sem legendas ou dublagem, como no canal da ONU) de seu discurso gravado pra transmissão virtual na Assembleia Geral da ONU 2020, alguns dias atrás. A grande maioria da fala está em romeno, ou pelo menos no dialeto falado na Moldova, mas pouco mais de 2 minutos e meio foram falados em russo, língua em que Dodon é fluente e que ainda tem papel político no país, que de 1945 a 1991 constituiu a República Socialista Soviética da Moldávia.

O socialista Dodon prega a neutralidade geopolítica de seu país, um dos mais pobres da Europa e que no passado integrava a maior parte da região histórica da Bessarábia (Moldova também é o nome de uma região do leste da Romênia). Porém, ainda é acossado politicamente pelo Parlamento, de maioria opositora, e pela permanência do conflito na região da Transnístria (Pridnestróvie em russo), fronteiriça à Ucrânia e que se considera de maioria etnolinguística russa. Eu traduzi e legendei o trecho de acordo com a versão que aparece destacada no site da presidência:


Estimado senhor presidente, senhoras e senhores.

Historicamente o Estado Moldavo possui uma importante particularidade: nosso país se formou pelo cruzamento de diferentes civilizações, culturas, línguas, religiões e interesses geopolíticos. Por isso, o caráter multiétnico e multicultural do desenvolvimento do país foi e é a principal particularidade da Moldova. Uma relação respeitosa e de boa vizinhança para com as diferenças linguísticas das demais etnias tornou-se a base da existência do Estado Moldavo e a principal condição de sua evolução exitosa. Vivendo em paz e harmonia nessa terra, os representantes das diversas culturas, línguas de comunicação e confissões trabalham para o bem e fortalecimento do país, cooperando para o desenvolvimento da Moldova como um Estado no decorrer de mais de 660 anos.

De minha parte, como Presidente, quero sublinhar que o governo da Moldova dispende todas as forças para conservar a atmosfera amistosa, de ajuda e respeito mútuos entre as pessoas de diferentes nacionalidades, línguas de comunicação e crenças religiosas em nosso país. Como resultado, praticamente todo cidadão da Moldova é fluente em algumas línguas, estando permanentemente aberto às peculiaridades culturais de diferentes povos, e a língua russa tem um estatuto especial como língua de comunicação interétnica. E isso constitui uma indiscutível vantagem competitiva para a concretização de possibilidades de nossos cidadãos no mundo moderno.

Também consideramos que a República da Moldova pode ter sucesso em desenvolver-se como um Estado independente, soberano, legal e democrático, conduzindo ativamente uma política de neutralidade permanente, em cuja base está a aspiração do povo moldavo à coexistência pacífica com outros povos e Estados da Europa e do mundo. Estamos convencidos de que a neutralidade permanente da Moldova, assegurada na atual Constituição, é o fundamento básico de nossa segurança nacional, energética e informacional, a garantia do desenvolvimento e prosperidade econômicos duráveis e sustentáveis do país.

Temos um reconhecimento sincero à Organização das Nações Unidas, à Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa e a outras organizações e parceiros internacionais, consequentes no apoio à República da Moldova. O desenvolvimento dinâmico da Moldova sob a cooperação e o amplo apoio dos parceiros internacionais possibilitará o reforço do diálogo entre os países de nossa região e da Europa como um todo.


Уважаемый господин председатель, дамы и господа.

Исторически Молдавское государство обладало важной особенностью: наша страна образовалась на пересечении различных цивилизаций, культур, языков, религий и геополитических интересов. Поэтому полиэтничный, мультикультурный характер развития страны был и остаётся главной особенностью Молдовы. Уважительное, добрососедское отношение к языковым различиям других этносов стало основой существования Молдавского государства и важным условием его успешного развития. Проживая в мире и согласии на этой земле, представители разных культур, языка общения и конфессий, работают на благо и укрепление страны, что содействует развитию молдавской государственности на протяжении более чем 660 лет.

Со своей стороны, как Президент, хочу подчеркнуть – руководство Молдовы прилагает все усилия для того, чтобы сохранить атмосферу дружелюбия, взаимопомощи и взаимоуважения людей разных национальностей, языков общения и вероисповедания в нашей стране. Как результат – практически каждый гражданин Молдовы свободно говорит на нескольких языках, постоянно открывает для себя особенности культуры разных народов, русский язык имеет особый статус как язык межнационального общения. И это является безусловным конкурентным преимуществом для реализации возможностей наших граждан в современном мире.

Мы также считаем, что Республика Молдова может успешно развиваться как независимое, суверенное, правовое и демократическое государство, активно проводя политику постоянного нейтралитета, в основе которого лежит стремление молдавского народа к мирному сосуществованию с другими народами и государствами Европы и мира. Мы уверены, что постоянный нейтралитет Молдовы, закрепленный в действующей Конституции – это базовая основа нашей национальной, энергетической и информационной безопасности, залог устойчивого, долгосрочного экономического развития и процветания страны.

Мы искренне признательны Организации Объединённых Наций, Организации по Безопасности и Сотрудничеству в Европе и другим международным организациям и партнёрам, которые последовательно поддерживают Республику Молдова. Динамичное развитие Молдовы при содействии и масштабной поддержке международных партнёров будет способствовать укреплению диалога между странами нашего региона и в целом в Европе.



Aquele tiozão gordinho que gosta de pegar numa vara.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Díaz-Canel: amizades externas de Cuba


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/cuba2020

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, transmitiu um discurso online de quase 20 minutos na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 22 de setembro de 2020, versão esta transmitida pela Telesur da Venezuela. É a primeira vez que o evento contou com apenas alguns diplomatas presenciais e com a transmissão digital dos discursos gravados dos líderes mundiais, por causa da pandemia da COVID-19. Neste trecho do discurso, cuja íntegra está no site do Granma, jornal oficial do governo cubano, Díaz-Canel reafirma suas amizades e solidariedades internacionais. Eu não legendei por falta de tempo, mas fiz uma tradução razoável, que não está literal em muitos pontos meramente pra atender a uma naturalidade maior em português:


PORTUGUÊS:
Queremos reafirmar publicamente, neste cenário virtual, que a República Bolivariana da Venezuela contará sempre com a solidariedade de Cuba diante das tentativas de desestabilizar e subverter a ordem constitucional, a união cívico-militar e destruir a obra iniciada pelo Comandante Hugo Chávez Frías e continuada pelo presidente Nicolás Maduro Moros em prol do povo venezuelano. Repudiamos também as ações dos Estados Unidos destinadas a desestabilizar a República da Nicarágua, e reafirmamos a imutável solidariedade com seu povo e governo, liderados pelo Comandante Daniel Ortega.

Somos solidários com as nações do Caribe que exigem justas reparações pelos horrores da escravidão e do tráfico de escravos, num mundo em que a discriminação racial e a repressão das comunidades afrodescendentes entraram em ascensão. Reafirmamos nosso compromisso histórico com a livre determinação e a independência do povo irmão de Porto Rico. Apoiamos a legítima reivindicação de soberania da Argentina sobre as ilhas Malvinas/Falklands, Sandwich do Sul e Geórgias do Sul. Reiteramos o compromisso com a paz na Colômbia e a convicção de que o diálogo entre as partes é o caminho para alcançar uma paz estável e duradoura nesse país.

Apoiamos a busca por uma solução pacífica e negociada para a situação imposta à Síria, sem ingerência externa e com respeito total à sua soberania e integridade territorial. Exigimos uma solução justa ao conflito do Oriente Médio, a qual passa pelo exercício efetivo do direito inalienável do povo palestino a construir seu próprio Estado dentro das fronteiras anteriores a 1967 e tendo por capital Jerusalém Oriental. Repudiamos as tentativas de Israel de anexar novos territórios da Cisjordânia. Exprimimos nossa solidariedade com a República Islâmica do Irã diante da escalada agressiva dos Estados Unidos. Reafirmamos nossa invariável solidariedade com o povo do Saara Ocidental.

Condenamos energicamente as sanções unilaterais e injustas contra a República Popular Democrática da Coreia. Reafirmamos nosso repúdio à intenção de estender a presença da OTAN até as fronteiras da Rússia e à imposição de sanções unilaterais e injustas contra essa nação. Repudiamos a intromissão estrangeira nos assuntos internos da República de Belarus e reiteramos nossa solidariedade com o presidente legítimo desse país, Aliaksandr Lukashenka, e o povo irmão belarusso. Condenamos a ingerência nos assuntos internos da República Popular da China e nos opomos a qualquer tentativa de ferir sua integridade territorial e sua soberania.


ESPANHOL:
Queremos ratificar públicamente en este escenario virtual, que la República Bolivariana de Venezuela contará siempre con la solidaridad de Cuba frente a los intentos de desestabilizar y subvertir el ordenamiento constitucional, la unión cívico-militar y destruir la obra iniciada por el Comandante Hugo Chávez Frías y continuada por el presidente Nicolás Maduro Moros a favor del pueblo venezolano. Rechazamos también las acciones de Estados Unidos dirigidas a desestabilizar a la República de Nicaragua, y corroboramos la invariable solidaridad con su pueblo y gobierno, liderados por el Comandante Daniel Ortega.

Nos solidarizamos con las naciones del Caribe que exigen justas reparaciones por los horrores de la esclavitud y la trata de esclavos, en un mundo en el que la discriminación racial y la represión de las comunidades afrodescendientes han ido en ascenso. Reafirmamos nuestro compromiso histórico con la libre determinación y la independencia del hermano pueblo de Puerto Rico. Apoyamos el legítimo reclamo de soberanía de Argentina sobre las islas Malvinas, Sándwich del Sur y Georgias del Sur. Reiteramos el compromiso con la paz en Colombia y la convicción de que el diálogo entre las partes es la vía para alcanzar una paz estable y duradera en ese país.

Apoyamos la búsqueda de una solución pacífica y negociada a la situación impuesta a Siria, sin injerencia externa y con pleno respeto a su soberanía e integridad territorial. Demandamos una solución justa al conflicto del Oriente Medio, que pasa por el ejercicio real del derecho inalienable del pueblo palestino a construir su propio Estado dentro de las fronteras anteriores a 1967 y con su capital en Jerusalén oriental. Rechazamos los intentos de Israel de anexar nuevos territorios de Cisjordania. Expresamos nuestra solidaridad con la República Islámica de Irán ante la escalada agresiva de los Estados Unidos. Reafirmamos nuestra invariable solidaridad con el pueblo saharaui.

Condenamos enérgicamente las sanciones unilaterales e injustas contra la República Popular Democrática de Corea. Ratificamos nuestro rechazo a la intención de extender la presencia de la OTAN hasta las fronteras de Rusia y a la imposición de sanciones unilaterales e injustas contra esa nación. Rechazamos la intromisión extranjera en los asuntos internos de la República de Belarús y reiteramos nuestra solidaridad con el presidente legítimo de ese país, Aleksandr Lukashenko y el hermano pueblo bielorruso. Condenamos la injerencia en los asuntos internos de la República Popular China, y nos oponemos a cualquier intento de lesionar su integridad territorial y su soberanía.



terça-feira, 22 de setembro de 2020

Presidente tártaro manda ficar em casa


Endereço curto: fishuk.cc/rustam-covid


Em 28 de março de 2020, quando o mundo começava os primeiros lockdowns (não pegou a expressão “tranca-rua”?) devido à pandemia da covid-19, gerada por um tipo de coronavírus recém-descoberto, e o presidente Bolsonaro dizia que a doença não passava de uma “gripezinha”, até o presidente do Tartaristão mandou todo mundo ficar em casa. Rustám Minnikhánov, presidente dessa república autônoma na Rússia desde março de 2010, mandou então toda a população da região fazer confinamento pra cortar a propagação. Seu nome em russo é “Рустам Минниханов”, e em tártaro, “Рөстәм Миңнеханов” (Röstäm Miñnexanov), e o sotaque tártaro é bastante evidente.

Eu recebi o vídeo num grupo de tártaros que na época eu frequentava no Telegram, e eu mesmo traduzi e pus legendas bilíngues. Mas achei também versões no YouTube e no Instagram de Minnikhanov e a transcrição lapidada em russo. Direto do áudio, reproduzindo a fala do presidente mais fielmente, esta foi a escrita que consegui fazer:


Сегодня такой напряжённый период, период, когда вот эта болезнь может перейти в такую стадию, когда мы не сможем контролить [sic]. Поэтому те решения, которые приняты главой государства, президентом Рос[сийской] Федерации, они должны неуклонно исполняться. Эта, конечно же, вот неделя, которая объявлена и, конечно же, у меня огромная просьба всем татарстанцам: берегите себя, берегите близких и, конечно же, нам придётся находиться в некой изоляции дома, но есть телевидение, есть программы, я думаю, есть книги, мы найдём чем себя занять. Моя убедительная просьба ‒ отнестись с пониманием к этой ситуации.

Tradução literal:
Hoje estamos num período tão tenso, período em que esta doença pode passar a um estágio em que nós não poderemos controlá-la. Por isso, as decisões que foram tomadas pelo chefe de Estado, presidente da Federação da Rússia, devem ser inevitavelmente cumpridas. É claro que essa semana foi para tanto designada, e é claro que tenho um enorme pedido à população do Tartaristão: cuidem de si, cuidem de seus próximos e, obviamente, precisamos permanecer um pouco isolados em casa, mas existe televisão, existem programas, eu penso, existem livros, acharemos algo para fazer. Peço com toda convicção que sejam compreensivos para com essa situação.


E de brinde, esta pérola raríssima que achei no mesmo grupo: alguns dias antes, jovens cantam e tocam no acordeão de botões uma canção humorística em tártaro sobre a COVID-19 (compositor anônimo)! Eu traduzi a partir das legendas em russo, mas não sei se estas traduzem literalmente o original, pois também se encaixam no ritmo:

1. Ó, país, você é lindo,
Não admitimos vírus,
Aviões não estão voando,
Fronteiras estão fechadas.
Lavo de manhã e à noite
As mãos com sabão gostoso,
Pus máscara no rosto,
A quarentena é chata.

Refrão:
Ei, esse coronavírus,
Todos estão falando dele,
Vírus, vírus, vírus, vírus
Martelando nossa cabeça!

2. Pra quê nos assustam tanto
Com essa pandemia?
Pra nós, tártaros, isso passa,
Não acreditamos em contos.
Depois dessas notícias,
O povo ficou alarmado,
Correu pras lojas esgotar
Todo o trigo-sarraceno.

(Refrão)

3. Afastemos o coronavírus,
Já estamos todos acabados.
Não venha até nós, tártaros,
Passe voando, micróbio!
Na minha mão tem um anel
Escrito o nome do Nurgalí.
Preocupado, o presidente
Nos manda ficar em casa.

(Refrão)

4. Ei, pra que é que fui
Passar férias no exterior?
Agora estou de quarentena,
Se soubesse, ficava em casa.
Vamos cantar juntos,
Alegrar-nos e festejar,
Afastemos juntos o vírus
Mesmo sem emagrecermos!

(Refrão)


domingo, 20 de setembro de 2020

Juventude e cidadania (Flávia O. Valle)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/juventude

“Juventude e cidadania” é um artigo escrito em 2004 ou 2005 pela então Prof.ª Ms. Flávia Ottati Valle, que na época me dava aulas de História e Sociologia no ensino médio. Não sei bem qual foi a ocasião da escrita, mas ela distribuiu cópias em xérox pra todos nós, e eu a tinha digitalizado e salvado em formato PDF. Apesar de alguns borrões no arquivo gráfico, pedi pro meu amigo Cláudio Leite digitar o texto a fim de o republicar aqui, e lhe agradeço grandemente pelo serviço. Flávia foi uma das professoras que mais determinou na minha escolha pela faculdade de História, junto com o professor de Geografia, José Augusto, e minhas professoras de Geografia do fundamental, Deise Eduarda e Débora Ferreira. Flávia unia vasta erudição, carinho com os alunos, consciência social e exemplos que iam de Jesus a Che, passando por Bauman e Raul Seixas, sem cair no estereótipo dos “doutrinadores” hoje tão atacados! A ela agradeço, e a ela dedico este atualíssimo presente, sem alterações redacionais (grafia pré-2009):



Ser CIDADÃO é assumir seu papel na construção do mundo. É escrever a história. Participar. É fazer acontecer e não deixar acontecer. É ser um ser social. Conviver. Amar o próximo e a si mesmo valorizando as relações de solidariedade e a vida em comunidade. É comprometer-se com o bem público. Realizar a utopia da justiça social. Ser cidadão é, ainda, ser livre. Consciente. Autêntico. Não manipulado. Exige esforço, busca, espírito de serviço e, sobretudo, desejo de conhecer os fatos e dialogar com eles.

Ser JOVEM é ter ideais e muita disposição para conquistá-los. É ter sede de aprender e de SER... É entusiasmar-se por causas nobres. É ser otimista. Acreditar em si mesmo e nos outros. É viver o presente construindo o futuro que se quer. É superar os obstáculos. Ir à luta. Ter coragem. É levantar-se a cada tombo. Renovar as esperanças. Não desistir.

JUVENTUDE E CIDADANIA são, portanto, categorias afins. Cultivá-las é um processo enriquecedor para a pessoa, para a comunidade, para a humanidade. Na linguagem popular do jovem poderíamos dizer que “a cidadania tem tudo a ver com a juventude”. No entanto, temos constatado elevado grau de desânimo, apatia, conformismo e alienação em grande parte dos jovens do nosso país. Mas, por quê? O que tem envelhecido a juventude, roubando-lhe o entusiasmo, a garra, o idealismo, a fé e a disposição de lutar por um mundo melhor?

Há que se partir do fato de estarmos vivendo um momento extremamente contraditório: enquanto a história registra, a todo instante, quantidade significativa de avanços em termos de ciência e tecnologia, o homem está cada vez mais perdido, angustiado, sofrido. Lesado em sua essência de ser humano e em seus direitos de cidadão. E é no bojo dessa contrariedade que se encontram dois dos mais expressivos fatores que contribuem para o não exercício da cidadania por parte de nossa juventude: o perfil negativo da realidade e a ilusão do espetáculo.

Não raro, ouvimos a seguinte observação: ‒ Está difícil viver! Tal afirmação provém de uma insatisfação perante os aspectos negativos da realidade. Tomar consciência da falta de ética na política, dos tantos problemas de ordem econômica, da miséria de muitos perante a ostentação de poucos, dos conflitos sociais, das tantas formas de violência, de ausência de perspectiva no campo profissional, da inversão de valores, da difusão e aceitação da idéia de levar vantagem, do egoísmo, do materialismo, da descrença e da apatia é um processo difícil.

Para os jovens, em especial, há momentos em que esse contexto parece desesperador. Há uma vida pela frente. Sonhos, expectativas, vontade de vencer, de se realizar, de amar. Em uma frase: desejo de ser feliz!

No entanto, ao se depararem com obstáculos e [acidentes] desmotivadores, muitos desistem. Mergulham no oceano do conformismo e da alienação. Outros fogem. E na ilusão de algo melhor, lançam-se na droga. Outros, ainda, preferem desviar o caminho e caem nas armadilhas estrategicamente montadas pelo consumismo. Agarram-se aos falsos valores e comprometem-se apenas com ideais medíocres. Que nada constroem. Que em nada realizam. Há, também, muitos cuja condição precária de vida, não lhes oferece nem tempo nem possibilidade de exercitar sua cidadania.

O segundo fator, ao contrário do primeiro, dá à sociedade uma fisionomia mais agradável: as grandes conquistas da ciência e os rápidos e surpreendentes avanços tecnológicos.

Mais do que nunca, estamos vivendo a época da informação. Os meios de comunicação são donos de grande parte do nosso tempo, nos informando tudo o que acontece perto e longe de nós e nos transmitindo uma série de conceitos e idéias. E, nesse processo, as imagens têm, com bastante frequência, tomado o lugar das palavras. O mundo das imagens! E elas são tantas e apresentadas a nós de forma tão sedutora que corremos o sério risco de nos tornar meros espectadores da história.

Nós assistimos a tudo. Aplaudimos ou vaiamos. Nos divertimos ou lamentamos. Sorrimos e choramos. Algumas vezes ficamos maravilhados. Outras, nos escandalizamos. Até protestamos, mas apenas com frases de descontentamento que não têm eco na sociedade, pois se esgotam no âmbito do impacto, da emoção, ou seja, da mera reação de espectador.

Temos muitos jovens espectadores. Apenas espectadores. Que envolvidos pelas informações e imagens perdem a noção da cidadania. Assistem. Contemplam. Enquanto deveriam estar criando, atuando, produzindo o espetáculo. Poucos participam. Contudo, não podemos generalizar. Há jovens corajosos remando contra a correnteza, aproveitando todas as oportunidades e se desdobrando para a construção de um mundo onde seja mais fácil e mais bonito viver.

JOVEM CIDADÃO...

AGORA É COM VOCÊ!

Para que não se deixe vencer pelo desânimo provocado pelas agressões do nosso tempo e nem se perca na ilusão de estar sendo ator da história, enquanto não passa de um mero espectador, o primeiro passo é desenvolver uma consciência crítica. É preciso enxergar mais longe, ver além das aparências. Questionar. Saber o que há por trás das idéias e chegar à raiz dos problemas. Não ser apenas receptor de informações, conteúdos e imagens. De que adiante estar por dentro de tudo o que há de novo, de tudo o que acontece no mundo e viver à margem dos fatos, das decisões, das conquistas e das lutas para torná-lo melhor? De que vale aplaudir um espetáculo produzido para iludir? É preciso ser criativo. Escrever uma nova história, onde os verdadeiros valores tomem seus devidos lugares. De que adianta apenas vaiar e lamentar uma sociedade repleta de fatos desastrosos? É preciso descruzar os braços. Lutar pelo direito de ter vez e voz na construção da realidade. Há que se ter coragem. Acreditar em si mesmo. Não desanimar...

NÃO DESISTIR!



quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Húngara falante nativa de esperanto


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/esperanto-hu




O canal Wikitongues, do YouTube, costuma lançar vídeos com pessoas falando diversos idiomas, sobretudo se eles lhes são nativos. Outro dia, ele lançou o vídeo de uma húngara chamada Stela, que tem o esperanto como uma de suas línguas maternas. Isso ocorre porque embora seus pais sejam húngaros, eles também são esperantistas e a ensinaram a falar esperanto desde criança. Porém, é algo mais comum quando marido e mulher têm origens diferentes e o esperanto como língua comum, dando assim aos filhos a possibilidade de falar seus respectivos idiomas nacionais desde o berço. Stela prova não só que uma criança pode ter vários idiomas considerados “nativos” ou “maternos”, como também que é possível isso ocorrer igualmente com o esperanto, embora ele seja chamado língua “auxiliar” ou “artificial”.

Como o Wikitongues recebeu o vídeo “bruto” da Hungria e não tinha uma transcrição da fala (talvez porque os administradores não entendiam esperanto), o canal pediu pra que algum espectador lhes transcrevesse em esperanto e desse uma tradução. Eu comentei no vídeo a transcrição da fala (já que conheço o esperanto há 20 anos) e uma tradução em português, já que estava sem tempo de escrever um texto em inglês límpido. Seguem os dois referidos textos, lembrando que o Wikitongues ainda está à disposição pra quem quiser traduzir pro inglês ou sincronizar as legendas em esperanto:


ESPERANTO: Saluton de Budapeŝto, Hungario! Mi estas Stela, kaj la lingvo, kiun mi parolas, estas Esperanto. Kio estas Esperanto? Zamenhof, en la 19-a [dek-naŭa] jarcento, kreis tiun ĉi artefaritan lingvon, kiu estas mia denaska lingvo.

“Denaska” signifas, ke miaj gepatroj (ambaŭ, fakte) parolis al mi la lingvon ekde mia naskiĝo. Do mi vere povas diri, ke tiu ĉi lingvo estas parto de mia vivo. Ĝi ne estas hobio, ne estas iu eta afero, ĝi estas vere ĉiutaga uzo por mi. Do, por kio mi uzas Esperanton?

Kompreneble mi uzas ĝin por kio ajn... por kio ajn mi uzas lingvojn, ĉu ne? Mi aŭskultas muzikon, mi tre ŝatas babiladi kun miaj amikoj voĉe aŭ skribe, mi ankaŭ verkas iomete en Esperanto, mi faras podkastojn kaj organizas Esperantajn renkontiĝojn. Mi vere povas diri al vi, ke Esperanto-kulturo estas tio, kio plej enriĉigis mian vivon.

Mi tre ĝojas havi tiom da internaciaj kontaktoj dank’ al la lingvo. Kaj ankaŭ mi povas diri, ke dank’ al Esperanto kaj dank’ al tio, ke mi kreskis kun du lingvoj, lernado de aliaj lingvoj iĝis multe pli facila por mi. Mi parolas la anglan, la francan kaj la nederlandan, kaj ankoraŭ planas lerni kelkajn aliajn lingvojn.

Do, tio estas mallonge pri mi. Mi esperas, ke vi ŝatas Esperanton aŭ ke vi planas lerni, aŭ lernos, aŭ jam lernas, kaj tre interesas min scii, por kio vi uzas Esperanton!


PORTUGUÊS: Olá de Budapeste, Hungria! Meu nome é Stela e a língua que estou falando é o esperanto. O que é o esperanto? [Ludwik Lejzer] Zamenhof, no século 19, criou esta língua artificial que é minha língua materna [denaska = lit. “de nascimento”].

“Materna” significa que meus pais (ambos, de fato) me falavam na língua desde que nasci. Então, posso realmente dizer que esta língua é parte de minha vida, não é hobby, não é assunto pequeno. Ela é realmente um uso diário para mim. Então, para que uso o esperanto?

Obviamente eu o uso para qualquer coisa em que uso línguas, não é? Eu escuto música, gosto muito de conversar com meus amigos por voz ou escrita, também redijo um pouquinho em esperanto, faço podcasts e organizo encontros esperantistas. Posso realmente dizer a vocês que a cultura do Esperanto foi o que mais enriqueceu minha vida.

Fico muito alegre por ter tantos contatos internacionais graças à língua. E posso dizer também que graças ao Esperanto e graças ao fato de ter crescido com duas línguas, o aprendizado de outras línguas ficou muito mais fácil para mim. Falo inglês, francês e holandês, e planejo aprender ainda algumas outras línguas.

Bem, isto foi um pouco sobre mim. Espero que vocês gostem do esperanto ou que vocês planejem aprendê-lo, ou que o aprendam, ou já estejam aprendendo, e me interessa muito saber para que você usa o esperanto!