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1 de janeiro de 2021

Felipe Dideus, um não historiador


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/dideus




Fiz esta nota pra aba Comunidade do meu canal no YouTube há algumas semanas, e estou a republicando aqui como forma de tentar retomar o ritmo regular de postagens, novamente interrompido no fim de setembro. Não estou fazendo ataques pessoais ao Felipe, mas com este texto ressalto a necessidade dos historiadores entrarem novamente na batalha da memória: o combate pela ciência não deve se limitar à epidemiologia. Aproveito a ocasião pra lhes desejar um feliz, pelo menos melhor, 2021!

Vi alguns vídeos do tal Felipe Dideus (ou “de Deus”, dependendo da fonte), que se denomina “historiador” e tem ou teve em algum momento ligação com os conspiracionistas do Terça Livre. Não achei nada sobre a formação dele, mas o conteúdo é bastante fraco pra ser chamado de “histórico”. Não passa de um show de curiosidades, e o rapaz nem falar direito sabe.

Claro que só vi uma parte dos muitos vídeos, mas eles são bastante representativos, no caso do Felipe não ter retificado algumas opiniões. Pra começar, lambe saco de uma monarquia inexistente e falida, tirando o reinado de D. Pedro 2.º (no mais uma grande figura) do contexto mais amplo do Império e de nossa economia escravista agroexportadora. Isso mesmo já mostra sua fixação pela história dos grandes políticos, algo já criticado pelos historiadores sérios há mais de cem anos. Diz que a República “faliu”, fazendo uma comparação esdrúxula entre 50 anos bem específicos e mais de 130 anos de desenvolvimento econômico e social jamais vistos. Já deu pra ver que a “história” dele não tem povo, não tem pobres, não tem negros e mulheres, não tem conflitos, não tem violência de classe, não tem sociedade enfim. Pior: pro Felipe, é um regime que determina como se molda a sociedade ou a economia, e não o contrário, quando a produção material condiciona em última instância as formas políticas. Daí a argumentação descabida de que vários países prósperos são monarquias, na verdade monarquias porque prósperos (não raro com base em espoliação, trapaças comerciais, invasões, hiperexploração do trabalho, protecionismo etc.), isto é, estáveis o suficiente pra não precisar trocar de regime.

Seu vídeo sobre a ditadura militar (que ele ameniza chamando de “regime”) é extremamente nojento. Diz que Jango queria “implantar o comunismo” no Brasil (Jorge Ferreira, Moniz Bandeira, Hélio Silva e Daniel Aarão Reis que o digam!) e absolutiza os números verticais da economia, esquecendo do aumento brutal da desigualdade, da bomba armada da hiperinflação, do endividamento externo, do desmonte do ensino público e da violência indiscriminada não só contra a guerrilha, mas contra qualquer crítico da ditadura. Não só nesse vídeo como em vários outros, ele demonstra claro desconhecimento da história do comunismo e da diferença mesmo entre os vários períodos da URSS. Já disse aqui várias vezes, não cabe defender o comunismo, mas colocar as coisas em seu devido lugar, sem fazer, como Felipe, as reduções ridículas dos manuais da “guerra fria”.

Ele também é fixado em história militar e tudo o que se relaciona a Forças Armadas (talvez por algum vínculo profissional), o que não é condenável, mas mostra a imagem distorcida que adolescentes gamers, seu público preferencial, têm da história como uma sucessão de guerras e decisões de cúpula. Isso explica também o baixíssimo nível cultural de quem comenta em seus vídeos, conseguindo ser ainda mais estapafúrdio em visão de mundo e leitura da história brasileira. Sem contar, claro, vendendo o truque da “história não contada”, que Felipe não cita nenhuma bibliografia especializada, quando muito alguns sites de curiosidades históricas, já que ele mesmo parece desprezar o conhecimento acadêmico, feito com pesquisa demorada e reflexão crítica, como “mentiroso” e “manipulador”. E falando em gamers, num dos vídeos ele oferece de seus patrocinadores um “tanque soviético” pra um jogo, mesmo paradoxalmente reduzindo o comunismo a “fome, mortes e ditadura”, rs.

Correndo o risco de ser rígido demais, concluo com um vídeo mais recente, sobre o qual ele fez tanto alarde, dos dois irmãos brasileiros que participaram da 1.ª Guerra Mundial, e fecho minha visão sobre história. O enredo é interessante e o filme é bem feito, mas reúne fatos desconexos, sem qualquer relação explicativa relevante com o cenário maior nem do Brasil, nem da Europa, nem da guerra, nem da geopolítica. Nem de “micro-história” isso pode ser chamado, porque, pelo conceito que Carlo Ginzburg deixou, o exemplo tomado deve ser representativo por estar no cruzamento entre várias dimensões importantes pra época. Indicativo do nível do público é chamarem de “patriotas” os dois brasileiros que foram defender... a Inglaterra, numa guerra em que o Brasil sequer entrou, deu pouca contribuição ao final e só decretou o estado de guerra em 1917 pra poder reprimir o movimento operário.

Enfim, curiosidades, relatos, biografias, ação, mas não “história”.