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quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

De Gaulle convoca a Resistência (1940)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/resistencia


Este vídeo está nos arquivos do Ministério da Defesa da França, contendo uma breve alocução do general Charles de Gaulle chamando os franceses a resistirem à invasão da Alemanha nazista em 2 de julho de 1940. A França tinha sido tomada após meses de luta em junho anterior, e de Gaulle liderou a ala dos militares que chamaram à Resistência antifascista. Do lado contrário, o marechal Philippe Pétain, herói da 1.ª Guerra Mundial, preferiu ceder aos nazistas e foi posto no comando da parte sul francesa, com um governo fantoche.

Tendo se exilado na Inglaterra junto com seu governo rebelde, de Gaulle foi filmado num escritório em Londres fazendo um discurso improvisado, com retomadas de um texto escrito no mesmo dia. São seis frases que não tinham sido gravadas em áudio ou vídeo, mas se encontram dentro de um manuscrito maior hoje conservado no Museu da Ordem da Liberação, em Paris. A filmagem constitui a primeira aparição gravada do general desde sua chegada em Londres, em 17 de junho de 1940. De Gaulle destaca a necessidade dos franceses formarem uma força mecânica, a única válida, visando continuar a guerra junto aos Aliados e expulsar os nazistas da França.

A realização e a produção desta versão são da British Paramount News. Uma parte que está transcrita “C’est celle [voie] que nous avons prise, mes compagnons et moi” (Este foi o [caminho] que tomamos meus companheiros e eu) aparece no áudio como “C’est celle de mes compagnons et moi” (Este foi o de meus companheiros e eu). Tal corte não existe nesta versão de 2010 no YouTube, com uma montagem com cenas de época e que está cortada, porém, em outra parte. Eu mesmo traduzi e adequei a transcrição fornecida pelo Ministério da Defesa aos dois áudios, e ela segue abaixo após a legendagem e junto com a tradução em português:


La défaite française a été causée par la force mécanique, aérienne et terrestre de l’ennemi. L’action foudroyante de cette force mécanique a amené l’effondrement du moral, du commandement et du gouvernement. Devant cet effondrement, deux voies s’ouvraient. L’une était celle de l’abandon et du désespoir, elle menait à la capitulation. C’est celle qu’a choisi le gouvernement Pétain. L’autre est celle de l’honneur et de l’espérance. C’est celle que nous avons prise, mes compagnons et moi. Nous croyons que l’honneur des Français consiste à continuer la guerre aux côtés de leurs alliés et nous sommes résolus à le faire. Nous espérons qu’un jour, une force mécanique supérieure nous permettra d’avoir la victoire et de délivrer la patrie.

A derrota francesa foi causada pela força mecânica, aérea e terrestre do inimigo. A ação fulgurante dessa força mecânica trouxe [“levou ao” foi erro meu] o colapso do moral, dos comandantes e do governo. Diante desse colapso, dois caminhos se abriam. Um era o do abandono e do desespero, que levava à capitulação. Este foi o escolhido pelo governo Pétain. O outro é o da honra e da esperança. Este foi o que tomamos meus companheiros e eu. Acreditamos que a honra dos franceses consiste em continuar a guerra ao lado de seus aliados, e estamos decididos a fazê-lo. Esperamos que um dia, uma força mecânica superior nos permita obter a vitória e libertar a pátria.


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

De Gaulle sobre esperanto e volapuque


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/gaulle-eo


Eu achei este vídeo por acaso, com o ex-presidente francês, general Charles de Gaulle, fazendo uma brincadeira com o esperanto e o volapuque (ou volapük) numa conferência de imprensa em Paris, em 15 de maio de 1962. Porém, o contexto mais amplo com gravação melhor é uma fala em que o herói da Resistência antinazista critica uma integração europeia da França, no caso de haver supressão das fronteiras nacionais e das particularidades locais (imagens do INA).

Ele critica as ideias de “federalismo europeu” e defende a manutenção da soberania nacional dos Estados-membros da União Europeia. Parecia uma previsão quanto ao que está ocorrendo hoje... Cada cultura nacional seria uma contribuição integrante da Europa, ao contrário do esperanto e do volapuque, projetos que visam ser línguas internacionais “neutras”. Esperanto ou volapuque “integrados” quer dizer exatamente sem características nacionais, fundidos em algo único, desnaturado.

O raciocínio de Charles de Gaulle é bem problemático, primeiro porque hoje a condição de “apátrida” é considerada pelas organizações internacionais uma situação de fragilidade, causada especialmente pelo exílio ou expulsão devidos a guerras e ditaduras, não raro surgidas em meio justamente à exacerbação de nacionalismos. Além disso, os judeus sempre foram considerados apátridas por definição, e nesta ou outra entrevista, o general cita de forma pejorativa o espírito “dominador” desse povo.

Diga-se também que a cultura europeia, notadamente o cristianismo, só pôde florescer justamente por causa dos impérios helênico e romano, não nacionais e com seus “esperantos” pan-mediterrâneos, o grego koiné e o latim, bases da linguagem técnica e científica modernas. E Zamenhof, o iniciador do esperanto, era judeu polonês que vivia no racista Império Russo, em província em que vários povos brigavam entre si, instigados pelo tsar.

Eu mesmo traduzi do francês a partir do texto dado no YouTube, e legendei, tendo feito apenas pequenas correções (ele disse qu’ils avaient pensé, mas talvez ele quis dizer s’ils avaient pensé):

Je ne crois pas que l’Europe puisse avoir aucune réalité vivante si elle ne comporte pas la France avec ses Français, l’Allemagne avec ses Allemands, l’Italie avec ses Italiens etc. Dante, Goethe, Chateaubriand appartiennent à toute l’Europe dans la mesure même où ils étaient respectivement et éminemment italien, allemand et français. Ils n’auraient pas beaucoup servi l’Europe s’ils avaient été des apatrides et qu’ils avaient pensé et écrit en quelque esperanto ou volapük intégrés...

Não creio que a Europa possa ter nenhuma realidade viva se não comportar a França com seus franceses, a Alemanha com seus alemães, a Itália com seus italianos etc. Dante, Goethe, Chateaubriand pertencem a toda a Europa na própria medida em que eles eram respectiva e eminentemente italiano, alemão e francês. Eles não teriam servido muito à Europa se tivessem sido apátridas e se tivessem pensado e escrito em algum esperanto ou volapuque integrados...