sábado, 13 de janeiro de 2024

MINHA DEFESA DE TESE (30/jan)!



Meu primeiro dia no mestrado, em março de 2014. Magrinho, rs... Seriam 10 anos de pós-graduação pontuados pela crise político-econômica e pela pandemia. O ex-colega e já doutor Jonatas tirou a foto!


Título: A Comintern e o Brasil, 1924-1943: as relações mútuas e a política de Moscou para o PCB
Aluno(a): Érick Fiszuk de Oliveira
Programa: História
Data: 30/01/2024 - 14:00
Local: Sala da Congregação - IFCH - UNICAMP
Membros da Banca:

  • Claudio Henrique de Moraes Batalha - Orientador (UNICAMP)
  • Fernando Teixeira da Silva (UNICAMP)
  • Marcos Tadeu del Roio (UNESP)
  • Angelo de Oliveira Segrillo (USP)
  • Daniel Aarão Reis Filho (UFF)

Descrição da Defesa (Resumo/Abstract):
A fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB) em 1922 propiciou não apenas a introdução da propaganda bolchevique no país, mas também a leitura e publicação mais regulares das obras de Karl Marx e Friedrich Engels, o conhecimento das vicissitudes da União Soviética e a promoção de debates focados nas mulheres, jovens e pobres, em oposição ao fazer político da elite cafeeira. Contudo, existem ainda poucas pesquisas sobre os mecanismos que ligavam os comunistas brasileiros e a Internacional Comunista (Comintern), criada na Rússia em 1919 para acelerar a revolução socialista mundial e dirigir os partidos comunistas ao redor do mundo. O objetivo desta tese é entender como o PCB praticava a linha imposta por Moscou conforme a recepção e leitura que dela fazia, quais eram os obstáculos técnicos e culturais aos contatos mútuos, qual era o papel do Brasil na estratégia da Comintern para a América Latina e como funcionavam os órgãos regionais intermediários entre a “matriz” e sua “seção nacional”. Para tanto, foram consultados e lidos sob uma nova ótica documentos dos arquivos russos hoje abertos, jornais, revistas, autobiografias e a historiografia mais recente publicada no Brasil e no exterior. Em contraste com as abordagens que viam os comunistas como meros “agentes de Moscou” ou que davam peso excessivo aos fatores nacionais, concluiu-se que o PCB foi criado em meio a uma onda espontânea de admiração pela Revolução de Outubro da parte de intelectuais e operários. Se na década de 1920 a elaboração teórica foi relativamente autônoma e a busca por contatos mais fortes com a URSS foi uma escolha deliberada, na década de 1930 a intervenção direta da Comintern tolheu a liberdade criativa e desestabilizou a composição do núcleo dirigente. Contudo, também se levou em conta que o modo como funcionavam diversos órgãos intermediários entre a cúpula da Comintern e o PCB, como o Secretariado Latino-Americano e o Secretariado Sul-Americano, influíam consideravelmente nas decisões que se tomavam e no modo como elas se transmitiam. A instabilidade política no Brasil, as diversas ondas de repressão ao movimento operário que elas costumavam acarretar e o papel que a diplomacia soviética reservava à América Latina influíam igualmente nas possibilidades de movimento dos comunistas brasileiros. Em suma, esta tese permite mostrar como o PCB, durante a existência da Comintern, esteve condicionado ao mesmo tempo por fatores nacionais, estrangeiros e transnacionais, dentro dos quais os militantes desfrutavam de um grau considerável, mas não absoluto, de agência.

Se desejar, leia também minha dissertação de mestrado (2017) e meu trabalho de conclusão de curso (2012)!


sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Zé de Morais, cantor socorrense


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/zedemorais


Minha vida é uma grande lost media, termo que está em voga nesses últimos tempos, com incontáveis toques de cringe, rs. Há algum tempo, publiquei as canções do antigo dono de um posto de gasolina em Bragança Paulista, que no começo dos anos 2000 gravou um CD sob o nome Sergio Estrada, ficando famosa regionalmente na época a faixa Jogo de truco. Existe ainda uma fita cassete, essa sim uma real lost media, provavelmente gravada no fim dos anos 1990, que o mesmo empresário e cantor gravou sob o nome “Sergio Rafael”, distribuiu a clientes que vinham trocar o óleo (no sentido literal, por favor!) e cujas músicas sertanejas eram ainda melhores. Pena que eu a tenha descartado, por ter ficado sem um player pra essas fitas por um tempo!

No início dos anos 2000, provavelmente em 2001 ou 2002, frequentávamos muito um restaurante na cidade de Socorro, SP, o Rodízio Mineiro, localizado no começo da estrada vicinal que leva à cidade de Lindoia e que segue em funcionamento. Ele era administrado por um velho senhor, seu filho Mauro e sua nora (esposa desse filho), casal que tem três filhos (hoje já com seus próprios filhos, rs) e que anos depois se separou do patriarca pra fundar seu próprio restaurante, o M’s, no caminho pras chamadas Fontes da Pompeia. Mas na época citada, os donos investiram na presença de música sertaneja ao vivo, sobretudo com os sucessos que bombavam na época, especialmente de Rionegro & Solimões, e um dos “artistas” mais presentes era o rapaz que se apresentava como Zé de Morais. Ele colocava o playback da batida ao fundo e cantava enquanto tocava seu violão preto, como pode ser visto na foto acima. Minha mãe e eu, quando víamos essas figuras pitorescas em locais públicos, brincávamos entre nós que eram “grandes artistas” e ríamos muito, rs. E foi nessa que num domingo em que fomos lá almoçar, pedi à mãe pra que levasse a máquina fotográfica (nada de Olympus nem smartphone naqueles tempos!) e tirasse estes valiosos registros...

Pena que não guardei um cartão de visitas com o logotipo que o Zé de Morais também pendurava estampado num pano, no fundo do “palco” do restaurante: o mapa do Brasil com o nome dele (em caixa alta e grossa) e um violão encaixados dentro! Um tempo depois, quando o “astro” já tinha sido “descontratado” pelo Mauro (lembremos, ainda no Rodízio Mineiro), até lhe perguntamos o que tinha sido dele, e o dono respondeu que tinha voltado ao serviço dele... de servente de pedreiro, rs. Enfim, há um tempo não vamos mais aos dois restaurantes (o Rodízio e o M’s) e nunca mais soubemos do paradeiro do grande sucesso desperdiçado Zé de Morais.

Nunca tinha postado estas fotos em nenhuma rede social que cheguei a ter, e nunca mencionei os restaurantes em nenhuma mídia minha que já tive, nem mesmo aqui. Mas minha mentalidade mais simples de adolescente diferentão da época, que inclusive usava as ditas “sandálias de padre” de couro (hoje eu acharia qualquer tribo “discriminada” facilmente pra me encaixar...), gerava umas situações engraçadas assim. Eu aproveitava o momento, sem ser forçado. O meme antes dos memes, rs. Se o Zé de Morais de Socorro, SP, ou algum conhecido seu estiver lendo esta publicação, deixo meu abraço, meus parabéns pelo talento e minha gratidão pelos agradáveis momentos passados!

P.S. Alguém saberia me informar se aí a garrafa de cerveja Krill e os refris regionais ainda são de graça???



quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Gengis Khan: história e descobertas


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/gengiskhan

No dia 4 de janeiro, foi publicado no site da Rádio França Internacional (RFI) o artigo Gengis Khan, « souverain universel » à l’origine du plus grand empire contigu de l’Histoire (Gengis Khan, “soberano universal” na origem do maior império contíguo da história), de autoria de Olivier Favier. Aproveita-se a ocasião de uma exposição no Museu de Nantes com novas descobertas arqueológicas sobre o cã do século 13 pra se contar a maior parte da história de como se formou o Império Mongol, considerado em seu apogeu, já após a morte de Gengis, o maior do mundo em território contíguo, isto é, sem divisão física, sobretudo por mares e oceanos. Se somarmos a totalidade dos territórios, mesmo que não contíguos, o maior império da história foi o britânico, controlado pelo Reino Unido (o nome “Império Britânico” nunca foi usado de forma oficial).

A historiadora entrevistada revela que muitas descobertas sobre o Império Mongol, sobretudo sob o reinado de Gengis Khan, foram feitas nos últimos anos e desmontam vários preconceitos formados pela mentalidade colonial europeia. O principal deles seria a respeito do “barbarismo” e da falta de coesão política, devido ao fato de serem nômades, condição que, na verdade, não impediu a formação de uma organização política muito complexa. (Sem isso, claro, não seria possível manter tamanho território!) Mantive as transliterações do mongol, que atualmente é escrito com uma adaptação do alfabeto cirílico, tal como aparecem no original, inclusive a ortografia “Gengis Khan”, a mais comum em textos em português, embora haja também a forma “Genghis”, outras que correspondem mais à realidade e o aportuguesamento, hoje mais raro, “Gêngis Cã(o)”. Escrevi “Ulã Bator” o nome da capital mongol, mais próximo de um padrão, mesmo que não sendo unanimidade. Espero que aproveite o texto!


Após uma infância agitada, marcada por episódios de miséria e errância, um jovem nobre mongol funda um império que, um século depois, cobrirá 22% das terras emersas do globo.

Em A história secreta dos mongóis, publicada logo após sua morte por um autor anônimo, Gengis Khan é apresentado como o descendente distante de um lobo azul e de uma corça parda. Nascido com o nome de Temüjin (lit. “o aço mais fino”) entre 1155 e 1162, perto do monte Burkhan Khaldun, a nordeste da atual Ulã Bator, capital da Mongólia, pertencia ao clã Bordjigin – também chamado de Linhagem de Ouro – que governa o Khamag (lit. “a integralidade”) mongol. Esse termo designa uma monarquia eletiva que mantém uma relativa unidade num mundo dilacerado por rivalidades.

Seu nome viria de um chefe clânico tártaro capturado por seu pai ou ainda de ancestrais ferreiros. Aos nove anos, ficou noivo de Börte (lit. “com reflexos azuis”, como o lobo mítico de sua ascendência), com quem se casou depois de inúmeros imprevistos por volta de 1181. Eles terão quatro filhos. Guerreiro formidável, mas sobretudo um exímio estrategista, ele sabe lidar com as alianças mutáveis que enfraquecem os povos das estepes pra ser eleito Khan – líder dos clãs mongóis – por uma assembleia plenária reunida com esse fim. Assim consagrado, consegue derrotar os tártaros em 1202.

Quatro anos depois, ele se torna Gengis Khan (lit. “soberano universal”), após proclamação de uma nova assembleia. Sob este título, ele decreta uma compilação de leis mongóis, a Yassa. Insaciável, ele ataca o norte da China em 1211, conquistando primeiro a Manchúria. Alcança Pequim em 1215, depois de seu exército ter aprendido a arte de conduzir cercos, na qual estava mal preparado. Deixa a China em 1219 para embarcar quase imediatamente em novas expedições a oeste, adentrando agora terras islâmicas.

De Gengis Khan a Kubilai Khan, um século de expansão contínua – Em 1221, ele alcança o rio Indo, então o limite oriental das campanhas de Alexandre, o Grande. Enquanto ele se encontra no Império Persa, o seu está ameaçado na China. Após uma campanha final triunfante em 1227, ele morre devido a consequências de uma queda do cavalo durante uma caçada. Seu corpo é levado de volta à Mongólia, pra um local mantido em segredo, provavelmente em sua terra natal, o monte Burkhan Khaldun. Foi Ögedei, terceiro filho de Börte, sua esposa principal, quem assumiu o título de Khagan, o cã dos cãs.

Este último consolida as conquistas chinesas e envia seu sobrinho, Batu, pra atacar as estepes russas. Batu conduz suas tropas até a Europa Central, só retornando ao Oriente quando chegou a notícia da morte de seu tio, ocorrida no final de 1241. Dois anos depois, ele estabelece sua própria capital à beira do rio Volga e se torna o cã da Horda Dourada que domina o oeste da Sibéria e o sul da atual Rússia até o final da Idade Média.

O auge do poderio do Império Mongol é alcançado por Kubilai Khan, neto de Gengis Khan, nascido no ano do cerco de Pequim e levado ao poder supremo em 1260. Ele também se tornou o primeiro imperador da China da dinastia Yuan. Durante dezessete anos, o viajante veneziano Marco Polo reside em sua corte. Seu império se estende da Coreia ao Mediterrâneo, e seus navios chegam até Madagascar. Porém, ele falha duas vezes em tomar o Japão. Após sua morte, em 1294, a unidade do canato se mantém por duas décadas antes de entrar em declínio. Vários poderes herdam sua história, que impacta longamente sobre o continente asiático e parte da Europa.

Uma exposição histórica em Nantes – A história de Gengis Khan e de seu império nômade foi por muito tempo resumida a uma gesta conquistadora de guerreiros sem fé nem lei. Isto obviamente passava num Ocidente afeito a teorias racistas, à imagem depreciada de uma organização social complexa, mas não sedentária, e aos fantasmas do “perigo amarelo” em voga desde o final do século 19. A historiografia russa, que dominou por muito tempo, assim legitimava sua expansão rumo ao Ocidente, enquanto a historiografia chinesa tendia a absorver uma grande parte da história mongol em sua epopeia nacional.

“O discurso colonial russo servia ao discurso colonial francês”, explica Marie Favereau, autora de La Horde : comment les Mongols ont changé le monde (A Horda: como os mongóis mudaram o mundo), publicado pela Éditions Perrin em 2023. “Isso correspondia totalmente a nossa visão dos nômades. Aprendi na universidade que a civilização é a cidade. Nos últimos dez anos, tem havido muito trabalho pra desconstruir o pensamento colonial, que só agora começa a dar frutos. Sabemos bem que a data do fim dos impérios coloniais não corresponde à data do fim do discurso colonial.”

A co-curadora em Nantes da primeira grande exposição dedicada a Gengis Khan na Europa – a de Bonn em 2005 foi pioneira, mas não teve ressonância internacional – explica que foi preciso sair de uma lógica em que as áreas de estudo eram muito marcadas linguisticamente. “Num período imperial, a multiplicidade de línguas não significa que haja uma multiplicidade de poderes”, explica. Foi preciso, portanto, realizar um importante trabalho de coleta de fontes, que permitiu revelar, por exemplo, que um mesmo espírito percorria as expressões do poder em partes muito distantes do império.

Uma revolução arqueológica e historiográfica – As dificuldades encontradas na preparação dessa exposição também testemunham uma revolução historiográfica em curso. “A exposição que deveria se realizar em 2020 foi cancelada depois de três anos de trabalho devido a liminares para reescrever a história emitidas pelo governo chinês, as quais Bertrand Guillet, diretor do Castelo-Museu de Nantes, julgou inaceitáveis. A nova versão foi construída em torno das coleções mongóis, francesas e europeias.”

Por outro lado, a impossibilidade de utilizar as coleções do Museu do Hermitage, em São Petersburgo, encorajou as pesquisas arqueológicas na Mongólia. O empreendimento é tanto mais colossal quanto muitos monumentos desapareceram. “Esse Império deixou poucos vestígios”, explica Marie Favereau. “Não há visibilidade dos túmulos. O culto não passa por isso. A palavra pra ‘cemitério’ em mongol, khorig, significa ‘tabu’. E isso é ainda mais verdadeiro pra personagens importantes, a começar por Gengis Khan.”

“É uma organização muito mais fluida no plano institucional”, prossegue Marie Favereau, “construída com base em linhagens. Por muito tempo se teve a ideia de que houve o tempo das conquistas até Kubilai Khan. Desde os primeiros tempos da conquista territorial, há partições que de forma nenhuma se baseiam na ideia de centralidade geográfica. São estratégias pra fortalecer o poder mongol, por meio do que é importante para eles: o que lhes interessa é controlar os locais de comércio e as oficinas de artesanato em toda a grande estepe eurasiática.”

Assim, essa formidável expansão não se explicada apenas por dados militares, sejam os pequenos e resistentes cavalos capazes de atravessar rios congelados, os potentes arcos manejados por cavaleiros excepcionais ou mesmo o fato de guerrearem no inverno, que pega de surpresa os europeus, habituados às campanhas no verão. “Não há coesão nos poderes que os enfrentam, na China, nos mundos muçulmanos e cristãos”, insiste Favereau. “Ao mesmo tempo, eles não se sentem ameaçados pelas religiões de seus súditos.” Melhor ainda, eles as absorvem e misturam a suas próprias crenças. Para ela, esses êxitos também se devem à “persistência nos objetivos de uma geração a outra”. “Eles se lançaram em empreitadas econômicas extremamente interessantes”, conclui, “e isso, aliás, intriga muito os historiadores da globalização [mondialisation, no original francês].”

Até 25 de maio de 2024, vai estar aberta no Castelo dos Duques da Bretanha – Museu de História de Nantes a exposição “Gengis Khan, comment les Mongols ont changé le monde” (Gengis Khan, como os mongóis mudaram o mundo).



Os 800 anos do nascimento de Gengis Khan são comemorados no Festival da Eurásia pela reconstituição da unificação das tribos mongóis sob o soberano. 500 cavaleiros desfilam com uniformes do século 13 no distrito de Sergelen, na Mongólia.

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

74 chibatadas por não usar hijab

Ontem, dia 8, foi publicado no site da Rádio França Internacional (RFI) o artigo Iran: le cri d’indignation d’une femme fouettée, « symbolique de l’arbitraire du régime », fait vivre la résistance (Irã: o grito de indignação de uma mulher açoitada, “símbolo da arbitrariedade do regime”, dá vida à resistência), de autoria de Caroline Renaux. Já está circulando nas páginas brasileiras de notícias a informação de que uma mulher iraniana de 33 anos, Roya Heshmati, recebeu no ano passado 74 chibatadas na surdina pela ditadura terrorista do aiatolá Ali Khamenei. Ao que parece, o relato só foi publicado pela moça agora, pois deve ter sido difícil se recuperar de um choque desses por um motivo banal.

Tinha decidido não traduzir a matéria, pois vários outros sites brasileiros também publicaram a respeito. Mas como percebi que os textos diziam mais ou menos a mesma coisa, restrita ao relato fatual, sem reflexão sobre o contexto geral, e como geralmente nossas mídias se baseiam nas mesmas fontes de língua inglesa, acredito estar contribuindo fatualmente pra quem só lê português. Mesmo na Wikipédia em inglês, o verbete relativo a Heshmati foi iniciado esses dias, sem nenhum detalhe de sua vida pregressa, e só há também versões em persa e inglês simples.

Não tenho certeza se a crueza com que a pena foi descrita vai dar impulso a novas manifestações de rua no Irã, mas a repercussão do caso, que descobri exatamente ao folhear o portal da RFI, ainda está no começo e pode dar combustível pra muita discussão ainda. Na Banânia, a gente sempre vai ter “aquêlus universitáries” radical chic que defendem qualquer ditadura ou grupo terrorista, desde que não seja judeu nem cristão e/ou que destile ódio à civilização ocidental cujos impostos pagam o Toddynho deles, em particular aos EUA – e, claro, desde que eles mesmos não vivam as situações na pele.

Com fascista eu sequer discuto, por razões de princípio. Mas quando o ser se diz “amigo do povo” e fala essas cacas, não consigo ficar quieto: peguem esses perfis pró-Palestina, de extrema-esquerda (que eles dizem ser “esquerda radical” o correto, mesmo estrume) e de defesa das mulheres e dos grupos de gênero nos países árabes, e comparem a proporção com que eles criticam os terroristas em Teerã e com que eles chamam Israel de “genocida” e o Hamas de “resistência”. Se o Sete de Outubro continuasse e triunfasse, veríamos surgir um novo Irã, pior até, mas é claro que é fácil passar pano quando se está longe!



Roya Heshmati, uma jovem militante iraniana, foi açoitada 74 vezes por “atentado público aos bons costumes”. Seu depoimento, massivamente divulgado, suscita uma onda de indignação e se transforma em símbolo pras mulheres iranianas que, apesar do ano e meio de repressão do movimento “Mulher, vida, liberdade”, multiplicam os atos de desobediência.

“O homem começou me batendo nos ombros, nas costas, nas nádegas, nas coxas e nas pernas. Parei de contar os golpes. Eu murmurava: ‘Em nome das mulheres, em nome da vida...’” O relato de Roya Heshmati é arrepiante. Condenada a 74 chibatadas por ter se recusado a usar o véu obrigatório, essa iraniana de 33 anos detalhou, em sua página do Facebook, como se realizou sua pena de flagelação. Desde então, seu texto suscita uma vaga de comoção e raiva em parte da população iraniana.

Nas palavras de seu advogado, Maziar Tatai, compartilhadas pelo diário iraniano Shargh, Roya Heshmati foi presa em abril de 2023 “por ter publicado nas redes sociais uma foto sem portar o lenço”. Por sua vez, o órgão de imprensa da justiça, Mizan Online, afirma que ela teria “encorajado a permissividade [aparecendo] de maneira inconveniente em lugares públicos muito frequentados de Teerã”, e depois, em outra declaração, que ela teria recebido dinheiro do exterior pra se exibir sem véu. “As investigações mostram que ela foi envolvida num movimento organizado a partir do exterior e que ela recebia dinheiro [...] pra promover a prostituição”, esclarece o Mizan Online.

“Põe teu Alcorão debaixo do braço e bate” – Em seu texto, Roya Heshmati conta que se apresentou ao escritório do investigador do setor 7 de Teerã sem portar seu véu. Após inúmeras recusas, o agente de execução teria então lhe advertido que sua pena seria agravada se ela não cobrisse a cabeça. “Ele se aproximou de mim e disse: ‘Ponha seu hijab e me siga.’ Eu recusei. Ele disse: ‘Então você não quer pôr? Vou te açoitar de um jeito pra que você entenda onde está hoje. Também vou abrir um novo inquérito por desobediência, com mais 74 chibatadas por vir.’ Persisti em minha recusa”, ela escreve.

Levada a seguir a uma sala que ela descreve como uma “câmara de tortura medieval”, Roya Heshmati teria insistido em se recusar a pôr o véu, antes de levar as 74 chibatadas. “Põe teu Alcorão debaixo do braço e bate”, teria ela dito ao agente de execução.

Seu depoimento é massivamente difundido nas redes sociais, nas quais ela é elogiada como “heroína”, enquanto outros denunciam um “apartheid de gênero” e um “regime bárbaro e desumano”. Pra Shahla Shafiq, socióloga e ensaísta iraniana, esse texto é um “ponto culminante”. “O véu, que normalmente deve esconder, se torna aqui revelador da condição de vida das mulheres iranianas e de sua resistência”, explica.

Endurecimento das sanções – No Irã, sob o jugo do regime dos mulás, todas as mulheres são obrigadas por lei a cobrirem seu pescoço e sua cabeça, desde a revolução islâmica de 1979. Se o relato de Roya Heshmati não é novo, ele dá espaço, porém, a uma série de depoimentos parecidos. Pra Chirinne Ardakani, advogada e membro do coletivo Iran Justice, as palavras de Roya Heshmati simbolizam um “ato de insubmissão”, contribuindo pro “relato coletivo que as mulheres iranianas estão construindo”. Este “se insere na prolongação dos atos de resistência que participam da criação de uma narrativa de resistência das mulheres iranianas que, após um ano e meio [do movimento “Mulher, vida, liberdade”], vem irrigar a sociedade civil e dá o tom de uma mudança profunda das mentalidades da sociedade”, deseja crer Chirinne Ardakani.

Sua recusa a se submeter à lei sobre o véu obrigatório, arriscando sua vida e sacrificando seu próprio corpo, também “simboliza a arbitrariedade desse regime”, segundo Firuzeh Nahavandi, professora da Universidade Livre de Bruxelas e especialista do Irã. “Por que ela, e não outras mulheres, foi presa e açoitada desse jeito? É pra mostrar que a situação está sob controle, tanto mais que as eleições legislativas estão próximas e que o regime teme que haja uma retomada das manifestações. Ele prefere tomar a dianteira e endurecer a repressão”, analisa. Promovida a exemplo, a punição de Roya Heshmati lembra que o corpo das mulheres segue submetido ao uso do véu obrigatório. “É como se, de um certo modo, o caso de Roya fosse usado pra pôr em alerta todas as outras mulheres contra esses alegados casos de insolência na República Islâmica”, comenta Chirinne Ardakani. Esse evento ocorre alguns meses depois do desenvolvimento e proliferação das câmeras de vigilância nos locais públicos pra prevenir as infrações e da adoção de um projeto de lei visando endurecer as punições contra quem infringir o código indumentário.

Um movimento transformado – Um ano e meio depois do impulso do movimento “Mulher, vida, liberdade”, esse ato de repressão ressoa profundamente no seio da população iraniana, determinada a manter o braço de ferro com as autoridades. “Simbolicamente, isso diz tudo. Diz que as mulheres não vão desistir e que pouco importa o que o regime islâmico faça, as mulheres iranianas dizem ‘não’ e vão continuar dizendo ‘não’”, garante Shahla Shafiq. “A barreira do medo e da mentira caíram com o movimento. O mundo inteiro viu. O que esse texto diz é que se trata de uma mudança irreversível e que a resistência vai continuar.”

Pra Chirinne Ardakani, também é o sinal de que o movimento entra numa “fase de maturação política”. Esta é “encarnada pela resistência contínua das mulheres iranianas e pela recusa a se submeterem à injusta lei patriarcal. Não é o ato isolado de Roya que o torna um símbolo, mas a justaposição de todos esses atos de resistência que agora vão se inscrever na longa duração”, explica a advogada. “O movimento decididamente se transformou em desobediência civil. Os iranianos demonstram sua contestação cantando, dançando, saindo sem véu”, acrescenta Firuzeh Nahavandi.

E estes últimos não estão se pacificando. “Continuem com sua lei. Vamos continuar com nossa resistência”, afirma Roya Heshmati ao concluir seu texto. Palavras que lembram que, apesar da repressão e dos riscos corridos ao se desafiar o regime islâmico, a revolta que abala o Irã desde a morte de Mahsa Amini parece longe do fim.


segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Ministério da Felicidade + Putin Papão


Endereço curto: fishuk.cc/felicidade-ru

Esta senhora de ar bonachão se chama Valentína Matviénko, de origem ucraniana, mas que preside o Conselho da Federação, câmara alta da Assembleia Federal (o parlamento da Rússia) mais ou menos equivalente ao Senado em outros países, nada menos do que desde 2011. Obviamente ela é membro do partido quase único de Putin, o Rússia Unida, tem formação em farmácia, mas sempre trabalhou como política e diplomata. Ela está sob sanções de diversos países que resolveram as aplicar à nata do putinismo, entre eles a Ucrânia (óbvio!), os EUA, o Canadá, a UE, a Suíça e a Austrália.

Como toda pessoa pública agente da ditadura que deve dar a cara a tapa, ela também abre frequentemente sua “torneirinha de besteiras”, como diz o folclore. Em 6 de novembro de 2023, participando de um fórum governamental chamado “Znánie” (Conhecimento), em que diversos políticos da Rússia e personalidades do mundo da ciência e da cultura nacionais e estrangeiras palestram pra jovens universitários ou empreendedores a respeito de diversos aspectos de seus ofícios. Brincando com a predominância geral de más notícias e de apatia entre a população (em grande parte, na verdade, causadas pelas maluquices da ditadura), Matvienko propôs a criação de um “Ministério da Felicidade” (Ministérstvo schástia) no país, se bem que a meu ver, ao invés disso, eles deviam parar de dar motivos pra infelicidade não só dos russos e de outros povos do Império, mas também dos ucranianos!

Essa ideia não é original, e por volta do início da década de 2010, o Butão, nação nanica encravada entre a Índia e a China, foi pioneiro em criar seu “Ministério da Felicidade”, numa época em que entre os masturbadores intelectuais ocidentais ainda estava na moda a iniciativa local de valorizar a “felicidade” em detrimento da “riqueza” (isto é, PIB e crescimento). Curiosamente, após uma busca no Google, não achei mais informações sobre o atual funcionamento do tal ministério, e aparentemente ele foi extinto (provavelmente absorvido pelo Ministério da Saúde) sem deixar rastros. Ao mesmo tempo, achei esta matéria da Al-Jazeera informando que ocorreram ontem eleições gerais (parlamentares) no Butão e que desemprego crônico, baixa no turismo (uma das poucas fontes de renda) e fuga de cérebros estão entre os problemas que mais afligem atualmente o “país da felicidade”.

O único país que localizei ter ainda um “Ministério da Felicidade” são os Emirados Árabes Unidos, onde “felicidade”, a meu ver, assim como na Noruega e além da maioria estrangeira que vive lá, deveria ser chamada por outro nome: petróleo. Seguem os vídeos com suas traduções, já que não tive saco pra digitar também as transcrições:


“... Lei sobre a Felicidade Geral [Celso Portiolli rindo?...]. Eu sonho, e até propus: vamos criar na Rússia um Ministério da Felicidade, certo? A instituição pela qual vão passar todas as decisões, todas as leis pra que se examine se essa nova lei, essa nova resolução do governo faz as pessoas mais felizes. Por enquanto, meu grupo de apoiadores ainda é pequeno.”


Ainda em 5 de março de 2019, quem parece ter implantado a ideia na cabecinha de Matvienko foi Ievgénia Dmítrieva, então diretora-geral da empresa de tecnologia Kvant Programm e uma das vencedoras de um concurso nacional chamado “Líderes da Rússia”, destinado a estimular novos líderes, gerentes, diretores etc. Numa reunião com esses vencedores, a política discutia a participação de mulheres em cargos de liderança, e Dmitrieva então solta esta, citando exatamente o exemplo dos Emirados:

“Também depois do concurso, dado que tem se formado uma enorme rede de contatos, é possível criar projetos socialmente importantes. E um desses projetos de que participo é a criação, em nosso país, de uma ‘cultura da felicidade’: fazemos projetos de aulas sobre felicidade, em 20 de março vamos realizar o fórum ‘A felicidade como um modelo de negócios’. Como um todo, visamos, sonhamos com que a Rússia se torne um dos 10 primeiros países no índice de felicidade. E eu sei que a sra. também visitou o Ministério da Felicidade nos Emirados e talvez, com nossos esforços, e talvez com o apoio de algum tipo de participação estatal [a burocrata de azul-piscina já começa a rir da cara dela], queremos fazer com que um dia haja tal ministério em nosso país, ou algum tipo de organização parecida.”

Matvienko: “Obrigada, Ievgenia. Você falou muito bonito sobre devermos medir o índice de felicidade, pois os balanços quantitativos são tudo o que fazemos no Estado, pra que as pessoas sejam mais felizes e vivam melhor. Então, nesse estilo um tanto provocador, comecei a falar sobre esse tema, percebendo o que receberia como resposta. Quando cheguei dos Emirados (onde realmente foi criado um Ministério da Felicidade e eu perguntava como, o quê, por que isso opera), lancei esse tema na sociedade, sabendo que seria muito criticada, e em todo lugar achavam uma besteira esse negócio de ‘Ministério da Felicidade’. Eu falo de forma figurada no ‘Ministério da Felicidade’, na verdade, como o esforço que devemos fazer pra que cada ano meçamos o quanto, como resultado de nossas resoluções, nossas decisões, as pessoas se tornaram mais felizes. É o que fazem os Emirados: qualquer decisão tomada pelo governo passa por especialistas desse ministério que devem examinar se ela vai tornar as pessoas melhores, mais felizes, e se isso não acontecer, essas leis e decisões são vetadas. Precisamos desenvolver esse tema: queremos, sobretudo as mulheres, que todos na Rússia sejam felizes, que seja um país de pessoas felizes. Por isso, vamos juntas superar parte dessas críticas, estou feliz que apesar de me criticarem, não fui a única a ter essa ideia: agora já somos duas e espero que as restantes se juntem a nós!”


Aquela mulher séria do comecinho do vídeo deve ter tido como filho o meme “criança cética do Terceiro Mundo” junto com o Kid Bengala, rs.


No dia 9 seguinte à palestra de 2023, uma repórter parecia não estar a par de todo o contexto, e numa entrevista coletiva transmitida pela mídia do Conselho da Federação se dirigiu a Matvienko relembrando o episódio: “Eu via que a sra. clamou pela criação do Ministério da Felicidade...” E de repente foi interrompida:

“Eu estava brincando! [Risos gerais] Percebi que os jornalistas e os sites são ruins com o senso de humor.” “Mas saiba que todos gostaram da ideia.” “Sim, a ideia é ótima, mas é uma metáfora!” (Essa aprovação geral é falsa: segundo uma pesquisa feita no fim de novembro por um centro de estudos de opinião, 56% dos russos rejeitam a ideia – se fosse levada a sério, claro – temendo corrupção, excesso de burocracia, gastos irracionais e inchaço de funcionários.)


Na mesma vibe sobre a criação do “Ministério da Felicidade”, no dia 8 de novembro, Putin parecia já estar querendo fazer sua parte, visitando um hospital pra crianças com câncer em Moscou enquanto com os bombardeios impede que muitas outras tenham acesso ao mesmo tratamento na Ucrânia. O corte apenas com o começo desta cena viralizou entre as mídias ucranianas e de oposição: o menino Vadím, que também estava se tratando de um câncer, se escondeu debaixo do cobertor ao ver o genocida entrando.

Porém, quando procurei o vídeo inteiro e soube da história do menino, comecei a não achar mais tanta graça: ele estaria apenas envergonhado, e sua mãe disse que o deixaria dois dias sem telefone, no qual jogava Minecraft, caso não saísse dali. Putin tentou conversar com o menino, que só aos pouquinhos saiu das cobertas, e deixou ao pé da cama um helicóptero de brinquedo, pra ele pegar quando resolvesse sair. Quando o ditador deixou o recinto, as câmeras pegaram Vadim mais de perto, quando ele finalmente resolveu se descobrir...


sábado, 6 de janeiro de 2024

Saddam Hussein, o maior ambientalista

Antes de passarmos pra nosso tema principal, a primeira publicação de besteirol do ano traz o print de uma reportagem do canal de noticiários armênios Lurer, mostrando a vida de soldados do exército provavelmente na fronteira com o Azerbaijão, com quem a Armênia travou uma guerra em 2020 e (quase) outra em 2023. Que repórter em sã consciência entrevistaria uma torneira aberta? Rs.


Quando asissti a esta entrevista de alguns anos atrás com o embaixador Rubens Ricupero, um dos pais do Plano Real (que em julho vai completar 30 anos!), quase não acreditei quando ele disse a frase com que zoei no vídeo acima! Achei que por causa da idade e da memória, estivesse confundindo os nomes, que estivesse literalmente “pra lá de Bagdá”, rs. Até procurei no Google informações relativas à frase, mas só achei duas referências: o fato do ex-ditador do Iraque, Saddam Hussein, ter várias vezes recorrido ao que hoje chamaríamos de “ecocídio” com fins terroristas e como arma de destruição em massa, sobretudo contra os curdos, e sua frase “a guerra no Iraque vai ser a mãe de todas as guerras”, referindo-se à segunda invasão do país pelos EUA em 2003. No primeiro caso, podemos lembrar como a explosão da barragem de Nova Kakhovka pelo exército russo na Ucrânia foi o exemplo mais recente desse ecocídio; no segundo, Saddam parece ter sido um visionário, pois a derrubada de seu governo abriu um período de instabilidade regional com resultados até hoje.

Pensando mais um pouco, cheguei à conclusão de que Ricupero devia ter dito que estava “parafraseando” o ditador, pois não há qualquer menção de intromissão sua na questão ambiental. A não ser que os entrevistadores conhecessem a referência, devem ter ficado muito perdidos... Mas a situação ficou tão engraçada, sobretudo tirada do contexto, que não pude evitar fazer uma daquelas montagens toscas do tempo do Pan-Eslavo Brasil! Segue a transcrição da pérola geopolítca:

“Agora, no primeiro turno [das eleições pra presidente do Brasil em 2022], eu voto pelo candidato que tiver o compromisso mais claro e mais vigoroso com a defesa do meio-ambiente. Por quê? Porque o problema do meio-ambiente é, como diria o Saddam Hussein, ‘a mãe de todos os problemas’. Se nós não resolvermos o problema do meio-ambiente, não haverá outros problemas, porque nós vamos desaparecer.”


Uma conversa comum entre dois adolescentes num vídeo qualquer sobre história no YouTube.


Meu amigo Raphael, do Rio de Janeiro, me mandou esta obra de arte feita parcialmente com a modificação da voz por inteligência artificial. Acredito que tenha sido o caso do Faustão, enquanto me parece que o “filósofo de Cascais” pode ter sido dublado pela voz de um dos responsáveis. O famoso meme “Tá pegando fogo, bicho!” foi traduzido como “It’s on fire, man!” e redublado em inglês!




E pra terminar esta publicação descontraída, seguem dois pequenos vídeos que filmei uns dias atrás no jardim aqui de casa: dois saguis, talvez um casal, que desceram bem nos galhos mais baixos e pelados de um pinheiro (geralmente eles ficam na copa das árvores) depois de terem vindo da mata que fica ao lado! É comum que eles venham, sobretudo no calor, e se comuniquem por assobios, mas só uma vez anterior, não filmada, que um deles desceu por uma pitangueira o bastante pra que pudéssemos lhe dar uma banana na mãozinha... Desta vez tive tempo de chamar minha mãe, que decidiu repetir o gesto caridoso, embora não fosse minha ideia inicial, rs. Que fofinhos!


quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Votos de Maia Sandu pra 2024


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Presidente da Moldova (Moldávia, nos tempos soviéticos) faz seus votos em mensagem gravada. Fonte do texto original: site da presidência moldova


Caros cidadãos,

Terminamos este ano com uma boa notícia, uma decisão histórica para o nosso país. E começamos o ano novo de 2024 com esperança.

A decisão da União Europeia de abrir negociações de adesão com a República da Moldova significa não só a esperança de um futuro melhor para todos os moldovos, mas também o coroamento de nossos esforços comuns. Resultado não só do trabalho do ano passado, mas de todas as gerações até hoje, da luta pela independência e pela liberdade liderada por nossos pais e avós.

Terminamos este ano conscientes dos problemas que temos que resolver, mas cheios de esperança. Muitas vezes parecia que o destino estava contra nosso país. Mas a esperança nos manteve unidos nos momentos mais difíceis. Eis que, após 30 anos de espera, sentimos que se abre uma nova página na história de nosso país. Não estou dizendo que a abertura de negociações de adesão vai resolver automaticamente todos os problemas. Só nós, em uma comunidade unida e forte, podemos resolver, um por um, os problemas de nossa sociedade. O que digo, porém, com toda a confiança, é que a Moldova entra no novo ano com esperança.

Mas esperança não significa fé cega em milagres, e sim uma crença partilhada de que o poder de mudar as coisas está em nossas mãos. A esperança só se materializa quando há vontade. E toda a Moldova demonstra a sua vontade em cada cidadão que trabalha para realizar seu sonho.

Os atletas olímpicos da Moldova que dão tudo o que têm na esperança de trazer ainda mais medalhas e levar a nossa fama ao mundo.

Os lunos que estudam assiduamente e esperando que em poucos meses obtenham resultados muito bons no fim do ensino médio.

Os atletas que carregam a bandeira da Moldova pelo mundo todo e se dedicam com esperança por nossa vitória comum.

Os médicos que dão toda sua habilidade na esperança de salvar uma vida. Cada vida.

Os professores que se dedicam na esperança de formar gerações de jovens competentes, capazes de construir o futuro em casa.

Os bombeiros, rodoviários, artistas, jornalistas, policiais, agricultores, alfaiates, cozinheiros, designers, trabalhadores do saneamento, funcionários públicos, diplomatas, empresários, engenheiros, todos os cidadãos que trabalham para tornar a esperança uma realidade. A esperança de que juntos vamos construir um Estado forte, onde haja paz no país, segurança e limpeza nas ruas e tanta alegria quanto possível nas famílias. Um Estado que se preocupe com seus cidadãos e em cujo bem-estar todos participem.

Agradeço cada um de vocês. Só vamos ter sucesso juntos quando todos honestamente fizerem seu trabalho onde estão. E exorto-os a encontrarem motivos para agradecerem as pessoas em nosso entorno e valorizarem cada pessoa pelo valioso trabalho que realiza.

A crença de que teríamos sucesso nos manteve fortes, nos determinou a não desistir. É mais difícil de você acreditar que vai ter sucesso quando as dificuldades pesam sobre você. Mas é nesses momentos que se forma o caráter. É quando se constrói um país. E agradeço-os muitíssimo porque juntos conseguimos passar por muitas crises difíceis de cabeça erguida; pela confiança em nós mesmos e na Moldova.

Não escolhemos o país onde nascemos, assim como não escolhemos nossos filhos ou nossa família. Mas nós os amamos e fazemos tudo por eles. O amor aos filhos, à família e à nação existe, apesar dos desafios que enfrentamos. E nos dá forças para fazermos tudo o que depende de nós para melhorar. Às vezes sofremos derrotas, às vezes temos vitórias; mas o valor desses momentos é muito mais significativo quando os passamos juntos. Agora estamos numa encruzilhada. E todos vamos fazer bem em nos perguntar: “O que temos a perder se pararmos?” Pois com certeza sabemos que não queremos voltar ao passado e não queremos ficar parados. Ainda vai haver dificuldades em nosso caminho e ainda vai haver vitórias. É importante que todos, onde estejam, continuem acreditando, lutando, trabalhando. Façamos com que não sejamos testemunhas de nossa história, mas sim seus criadores.

Acreditamos na Moldova e isso nos une.

Nestes últimos momentos de um ano difícil, mas que vivemos cheios de esperança, exorto-os e desejo que encontrem tantos motivos de alegria e orgulho quanto possível por suas próprias conquistas, pelos sucessos de seus entes queridos e pelo sucesso de toda a Moldova. Às vezes, carregados de preocupações, nos esquecemos de comemorar.

Lembremo-nos das coisas que nos unem e nos felicitam: a esperança de que vamos ter sucesso, a gratidão para com as pessoas que estão conosco e a confiança de que juntos podemos construir um futuro digno e pacífico para todas as crianças da Moldova.

Feliz Ano Novo, Moldova!



quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Votos de Rumen Radev pra 2024


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Presidente da Bulgária faz seus votos em mensagem gravada. Fonte do texto original: vídeo do pronunciamento no canal da TV nacional búlgara (BNT)


Queridos concidadãos,

Alguns minutos nos separam do Ano Novo de 2024. Ele vai trazer novas possibilidades e esperanças. Vai nos colocar diante de decisões importantes para nós, nossos entes queridos e a Bulgária.

Nós, búlgaros, junto com o mundo inteiro, desejamos que o novo ano seja pacífico e mais próspero do que o que passou: fraturado e dividido entre a criação e o receio de que as setas da história estejam voltando para trás. Um ano de agravamento de conflitos militares, desvalorização da vida humana, crises e incerteza econômica que afetaram todos os lares búlgaros, de uma queda inédita da confiança no Estado. Portanto, não devemos esquecer que a prosperidade de uma nação se mede sobretudo por seus fundamentos morais, seu esclarecimento e sua coragem, sem os quais a prosperidade material também é impossível.

O progresso da Bulgária é impossível em uma atmosfera de divisão e guerra contra os símbolos nacionais e a memória histórica. Não podemos nos desenvolver como uma democracia europeia livre com amnésia e hipocrisia política, com corrupção e impunidade, com censura e apatia, com degradação da soberania nacional e recusa à dignidade.

Precisamos de unidade e liderança que fortaleçam o Estado, a soberania e a legalidade, preservem a paz e garantam a segurança de todos os cidadãos búlgaros, promovam a educação, a ciência e a cultura como verdadeira prioridade, caminhem sem volta rumo ao amanhã, a nosso futuro europeu, à modernização e crescimento acelerado da economia e dos salários.

Em sua história milenar, nosso povo superou todo tipo de provações, sempre encontrou o caminho para a liberdade e o progresso e deixou uma brilhante marca no desenvolvimento cultural da Europa e um exemplo de Estado esclarecido. Juntos temos as forças para enfrentarmos os desafios atuais, sermos mais ambiciosos, sonharmos com mais coragem e conseguirmos mais.

Queridos compatriotas, aquecidos pelo calor do aconchego doméstico e pelo amor dos entes queridos, nas luminosas festas de Natal e Ano Novo lembramos que as pontes invisíveis do espírito e da bondade são mais duradouras ​​​​do que as construídas pela mão humana. Nosso povo sempre seguiu o caminho certo: o da humanidade, empatia e respeito mútuo. Ao enchermos nossas taças, não nos esqueçamos dos que contam com nosso apoio. Também devemos homenagear as equipes de plantão que passam a festa em seus cargos e locais de trabalho.

Embora tenhamos diferentes idades, profissões e crenças, onde quer que estejamos no mundo, vamos sempre estar ligados pelo fio invisível do espírito búlgaro, por nossas festas e tradições nacionais, pelo tribágrenik [a bandeira tricolor] natal – símbolo de nossa unidade e soberania, e pela esperança em uma Bulgária próspera e digna. Nossas raízes, nosso lar e nossa responsabilidade permanecem aqui.

Que desejemos, sob o brilho dos fogos de artifício festivos, fazer com que os filhos da Bulgária não busquem a felicidade em um lugar distante, mas a encontrem na pátria, que ela garanta seus direitos e lhes abra oportunidades para desenvolverem seu talento. Sejamos dignos da Bulgária, onde as próximas gerações poderão viver realizadas e tranquilas.

Que o Ano Novo traga saúde e prosperidade a todos os lares búlgaros!

Feliz Ano Novo de 2024!



terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Votos de Javier Milei pra 2024


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Fonte do texto original: site do jornal El Clarín


Boa noite a todos. Pouco antes de iniciar as celebrações do Ano Novo, gostaria de me dirigir a todos os argentinos para lhes apresentar minhas saudações e compartilhar uma breve mensagem. Amanhã vão ter passado as primeiras três semanas desde que assumimos a liderança da Nação. Desde 10 de dezembro, elaboramos um plano de choque de estabilização, diminuímos o Estado, implementamos uma doutrina de ordem pública e promovemos mais de 500 reformas, entre muitas outras iniciativas.

Chamou a antenção de alguns a quantidade e rapidez das medidas que adotamos. A verdade é que foram necessárias para tentar mitigar os efeitos da pior herança da história.

Estes são os primeiros passos para virar a página e deixar para trás, de uma vez por todas, o modelo economico da casta, que mergulha os argentinos na miséria há mais de 100 anos.

A mudança radical com relação a esse modelo empobrecedor é um compromisso inegociável que assumi com todos os argentinos. Contudo, o problema herdado é profundo demais. Estamos tratando de uma economia com 15 pontos de déficit consolidado, com uma emissão monetária de 20 pontos do PIB nos últimos 4 anos, com preços de energia e transportes artificialmente segurados em até um quinto de seu valor real, com um Banco Central sem reservas e com uma inflação que nas últimas semanas atingiu os 1,2% diários, o que implicaria cerca de 7 500% anuais.

Uma herança que condena metade dos argentinos à pobreza, atingindo especialmente 7 em cada 10 de nossas crianças. Trata-se de uma situação inicial pior do que a de 2001-2002, que foi a pior crise de nossa história. Portanto, estamos diante de uma situação de emergência nacional, que nos obriga a agir de forma imediata e contundente, com o maior número de instrumentos possíveis, que excedem em muito os recursos que utilizamos nestas primeiras semanas.

Gostaria de deixar claro: se não fizermos agora o que é necessário, vamos caminhar para uma catástrofe econômica de dimensões desconhecidas por qualquer argentino vivo. Por isso, enviamos ao Congresso da Nação um projeto de lei que pode muito bem determinar o destino de nossa pátria, com a convicção de que seja aprovado nas próximas semanas.

Nós a batizamos “Bases e ponto de partida para a liberdade dos argentinos”, em referência a Juan Bautista Alberdi, o autor intelectual de nossa primeira Constituição. Orientado por suas ideias, se realizou o projeto de país que, entre o final do século 19 e o início do século 20, tornou a Argentina o país mais rico do mundo. Essa lei confere ao Executivo os poderes necessários para agir diante dessa situação de emergência. Evitar a catástrofe económica, além de promover reformas profundas no âmbito comercial, fiscal, produtivo, social, securitário e educativo, em todos os níveis do Governo.

O espírito dessa lei é que voltemos a ser um país livre, com um Estado limitado, atuando em defesa da vida, da liberdade e da propriedade dos argentinos. Um país onde a ordem pública é respeitada, onde a política não é servida, mas serve aos cidadãos. Onde todos sejam livres para trabalhar, produzir, empregar, comerciar, importar e exportar como achem melhor, e não como lhe dite um burocrata em um escritório governamental.

Quem pode preferir o país devastado de hoje ao país próspero que propomos? Em poucas semanas, quando a hora da verdade chegar, os deputados e senadores da Nação vão se encontrar diante de duas opções: rejeitar a lei e continuar com o modelo que há 100 anos tem nos empobrecido, ou aprovar a lei para fazer uma mudança profunda e abraçar novamente as ideias da liberdade.

Durante o ano que passou, estabeleci um código de honra com os argentinos. É melhor contar uma verdade incômoda do que uma mentira confortável. E embora eu lhes tenha prometido um caminho não cheio de rosas, mas de esforço e sacrifício, a grande maioria dos argentinos me respondeu com seu voto. Vou insistir com uma dura verdade, que já disse muitas vezes: devido às decisões irresponsáveis ​​tomadas pelos últimos Governos, o próximo ano vai ser difícil para todos nós.

Mas a outra certeza que tenho é que se nosso programa for bloqueado pelos mesmos de sempre que não querem que nada mude, não vamos ter os instrumentos para evitar que essa crise se transforme em uma catástrofe social de proporções bíblicas.

Depende de todos evitar esse futuro catastrófico a que nos levaram: de nós, no Governo, trabalhando todos os dias para proteger todos os argentinos, como temos feito; dos dirigentes sindicais e sociais, que vão ter responsabilidade histórica de escolher entre o bem-estar geral ou a preservação de seus interesses pessoais; dos deputados e senadores que vão debater no Congresso e vão ter de escolher entre fazer parte da solução ou continuar fazendo parte do problema. Também depende dos argentinos de bem, que veem que estamos diante de um ponto de inflexão de nossa história e têm fé, que como Nação, vamos avançar.

Por isso, convido todos os argentinos de bem a exigirem que seus representantes aprovem esta lei. A pátria precisa disso.

Se todos os atores políticos, sociais, sindicais e empresariais do país entenderem o momento histórico que estamos vivendo e apoiarem nosso programa, tenho certeza que vai haver luz no fim do túnel.

No essencial, nossas reformas trariam níveis de liberdade econômica que, em um prazo de 45 anos, nos permitiriam sonhar em multiplicar nosso PIB per capita por 10, atingindo níveis semelhantes aos da Irlanda, que atualmente é 50% maior do que o dos Estados Unidos.

Para terminar, gostaria mais uma vez de desejar a todos os argentinos um feliz ano novo. Espero que possam passá-lo na companhia de sua família e entes queridos. Este pode ser o ano em que vamos ter terminado um século de fracassos. Este pode ser o ano em que vamos ter deixado para trás o modelo coletivista que nos deixou pobres e abraçado novamente o modelo da liberdade que nos tornou o país mais rico do mundo.

Meu desejo para este novo ano é que a liderança política abandone suas vendas ideológicas e interesses pessoais e esteja à altura da situação, para poder rapidamente promover nas mudanças de que o país precisa.

Por fim, que Deus abençoe os argentinos e que as forças do céu estejam conosco. Muito obrigado.





segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Votos de Emmanuel Macron pra 2024


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/voeux2024


Fonte do texto original: site da presidência francesa


Francesas, franceses, da metrópole, de nossos ultramares e do exterior,

Apresentando-lhes meus votos, gostaria de começar expressando nossa gratidão a todos por nossos compatriotas que, ainda esta noite, protegem, cuidam, ajudam e garantem a continuidade da vida da Nação. Graças a eles, podemos passar esses momentos de um ano a outro com a família e entes queridos. E nesses instantes, gostaria também de expressar meu carinho especial a quem está doente ou ficará sozinho.

2023 terá sido marcado pela continuação da guerra na Ucrânia, pela guerra atual no Médio Oriente e pelos bombardeios em Gaza; pelos ataques terroristas de 7 de outubro em Israel, em que 41 franceses foram assassinados, e esta noite penso em suas famílias, bem como nas famílias de nossos compatriotas ainda mantidos reféns.

Marcado também pela crescente tensão geopolítica, pelas consequências das alterações climáticas em nosso território, pelos atos terroristas em nosso solo. Por divisões, gestos de ódio, por vezes de violência, em várias ocasiões, que fragilizam a coesão da Nação. Por fim, a inflação disparou e deixou tudo mais difícil: moradia, transporte e compras.

Houve obviamente momentos felizes, momentos de orgulho, mas sei como estão bem presentes o medo da volta da guerra, do empobrecimento e da perda de controle.

Porém, estou convencido, e não é um falso otimismo, que nesse contexto de crises pode nascer o melhor.

Por isso, continuo seguindo a mesma lógica: agir com determinação e constância para hoje e amanhã. Há sete anos, de onde vocês me colocaram, tento tornar a França mais forte e mais justa, libertar, proteger, unir. Este é o objetivo e o mantemos. E o mesmo ocorreu em 2023.

Em 2023, a França foi sem dúvida um dos países ocidentais que, apesar do contexto, mais tomou decisões e mais realizou transformações. Sei que algumas, como a reforma da previdência, eram impopulares. Assumo-as, pois me comprometi com elas e eram necessárias ao país.

Portanto, todos esses últimos meses estiveram bem longe da impotência que nos previam, e foi uma sorte. E gostaria que de agradecer bem especialmente à primeira-ministra e a seu governo.

Em 2023, agimos, agimos a serviço da meta de reindustrialização e pleno emprego, cujos primeiros resultados são visíveis. As aposentadorias, o seguro-desemprego, o relançamento de nossas indústrias verdes, a aceleração do plano de investimento France 2030, a refundação do ensino médio profissional, a reforma do Pôle emploi (Polo Emprego) e da renda básica (RSA) e a reforma do mercado europeu da eletricidade: todas essas grandes transformações foram decididas, promulgadas e começaram a entrar em vigor este ano.

E este ano continuamos criando empregos, ao mesmo tempo reduzindo ainda mais rapidamente as nossas emissões de gases do efeito estufa, obedecendo a nossos compromissos. Isso prova que vocês atenderam ao chamado da mobilização.

Graças a esse rearmamento econômico, continuamos sendo capazes de financiar nosso modelo social, de nos proteger contra as crises ou a inflação, bem como de investir para reequiparmos nossos serviços públicos. E foi o que fizemos.

Investimos em nossa escola e nossa saúde a fim de melhor auxiliar e corrigir a desigualdade de oportunidades. Lançamos as bases de uma planificação ecológica inédita e empenhamos recursos massivos para auxiliar cada um de vocês nessa transição.

Em 2023, também aprovamos para os próximos anos leis históricas para nos protegermos. Lei histórica para nossos militares: em uma década, o orçamento das Forças Armadas vai ter duplicado. Lei histórica para nossos policiais civis e militares, nossos magistrados, nossos oficiais de justiça, a fim de garantir a ordem e a unidade republicanas empenhando-se em criar milhares de cargos para melhor proteger vocês. Vamos continuar restabelecendo a autoridade onde quer que ela falte, face às incivilidades e à delinquência.

Em matéria de imigração, a lei aprovada em dezembro, bem como o acordo concluído em nível europeu, nos dão os instrumentos necessários para melhor fazermos respeitar os princípios da República, isto é, combater ao mesmo tempo os coiotes e a imigração ilegal e integrar melhor quem tem capacidade de permanecer em nosso solo: refugiados, estudantes, pesquisadores e trabalhadores.

Portanto, sei obviamente das impaciências, ousaria dizer que as compartilho, mesmo se as primeiras mudanças são evidentes. Sei que vocês gostariam que fizéssemos mais e mais rápido. E é para atingir esse objetivo que o ano de 2024 deve ser acima de tudo um ano de determinação. Agir, agir mais, no interesse da Nação.

Vamos estar determinados a agir pela escola, pela infância e pela educação, a fim de restabelecer o nível de nossos alunos, a autoridade de nossos professores, a força de nosso ensino laico e republicano. Após o rearmamento económico, o rearmamento do Estado e de nossos serviços públicos, vamos então precisar iniciar nosso rearmamento cívico. A França é uma cultura, uma História, uma língua, valores universais aprendidos desde muito cedo. A cada geração.

Também vamos estar determinados a tornar nossa República mais forte, combatendo a delinquência, suprimindo mais firmemente as discriminações, permitindo progressos concretos pela igualdade entre mulheres e homens, pela primeira infância e por nossos compatriotas portadores de deficiência. Determinados, assim vamos estar para agir pela ampliação de nosso rearmamento industrial, tecnológico e científico. Vamos ter de fazer tudo para alcançar nossa ambição do pleno emprego, continuar inovando, mas também atrair talentos e empresas, e produzir mais dentro da França. Assim, no próximo ano vamos nos engajar em grandes setores de ponta, da energia nuclear à inteligência artificial ou aos transportes. Para que em 2027 estejamos dez anos à frente de onde em 2017 estávamos dez anos atrasados.

Em 2024, vamos ter de acelerar ainda mais nossos esforços e simplificar drasticamente a vida de nossos empresários, agricultores, comerciantes, artesãos, políticos e, sobretudo, prefeitos, e para diversos setores, entre os quais a habitação.

Finalmente, vamos estar determinados a agir para que em 2024 nossa ecologia, essa ecologia à francesa e nossa planificação continuem se desenvolvendo como um modelo e um caminho singular, que vão permitir que abandonemos os combustíveis fósseis e ganhemos independência e progresso. A França, que já produz uma das eletricidades mais descarbonizadas da Europa, vai abandonar completamente o carvão até 2027. E é esse mesmo combate que vamos travar em nível internacional, entre outras coisas, com nosso Pacto pelo Povos e pelo Planeta.

2024, ano da determinação e da eficácia de resultados. E nas próximas semanas, vou ter a oportunidade de lhes contar como nossa Nação vai encarar esses desafios.

Meus caros compatriotas, agir não é uma opção. Agir é nosso dever para com as próximas gerações. É por isso que vou me manter inabalável ao lado de quem age a serviço do país e nunca de quem, evitando lhes contar a verdade para justificar a própria inação, acabam nos enfraquecendo. Nunca ao lado de quem privilegia os cálculos eleitorais, os pequenos conchavos ou os próprios interesses pessoais.

Devemos, portanto, continuar esse rearmamento da Nação face à mudança do mundo. Pois a força de caráter é a virtude dos tempos difíceis. 2024 também vai ser um ano de escolhas decisivas.

Vamos ter de escolher uma Europa mais forte e mais soberana, à luz da herança de Jacques Delors. Uma Europa que trabalha pela paz no Médio Oriente e em nosso próprio continente e continua apoiando o povo ucraniano e, com ele, nossa segurança, nossa liberdade e nossos valores. No próximo mês de junho, vocês vão ter de decidir sobre a continuação desse rearmamento de nossa soberania europeia face aos perigos: parar a Rússia e apoiar os ucranianos ou ceder às potências autoritárias na Ucrânia; continuar a Europa ou bloqueá-la; prosseguir a transição ecológica e produtiva ou retroceder; afirmar a força das democracias liberais ou ceder às mentiras que semeiam o caos.

Finalmente, 2024 vai ser o ano de nossos orgulhos franceses. Orgulho por esse milhares de companheiros, artesãos e empresários que participaram do magnífico canteiro para reconstruir Notre-Dame de Paris, cuja flecha se eleva novamente ao céu e coroa uma catedral que vai reabrir no próximo 8 de dezembro.

Somos uma Nação de companheiros construtores, capazes, quando unidos, de resistir e se reerguer. Sim, em cinco anos, como prometido, vamos ter reconstruído a catedral e realizado o impossível. Somos essa Nação que, quando se orgulha de si mesma, sempre carrega uma esperança universal.

2024, vamos também celebrar nossa História. 80 anos depois de 1944, vamos nos orgulhar de nosso passado e de nossos heróis com destinos convergentes. Soldados dos exércitos Aliados, bem como franceses de nascimento ou preferência, franceses e estrangeiros da Resistência. Todos lutando pela libertação de uma França fiel ao espírito do Iluminismo e ao espírito de nossa Revolução.

2024 vai ser um ano de orgulho da língua francesa. Após ter restaurado o castelo de Villers-Cotterêts e ter aí criado a Cidade Internacional da Língua Francesa (CILF), daqui a alguns meses vamos acolher aí o mundo da Francofonia.

2024 vai ser também um ano de orgulho esportivo francês, pois os Jogos Olímpicos e Paralímpicos vão ocorrer em casa, na França, e portanto em sua casa, tanto na metrópole quando em nossos ultramares.

Vamos nos orgulhar de nossos atletas, artistas, paisagens, dessa festa popular viabilizada por milhares de voluntários, construindo também para nossa Nação uma herança esportiva. Pelo empenho de todos nós que vai começar amanhã.

Sim, como vocês entenderam, 2024 vai ser uma safra francesa. Pois é uma vez por década que comemoramos nessa dimensão nossa Libertação. Uma vez por século que sediamos os Jogos Olímpicos e Paralímpicos. E uma vez por milênio que uma catedral é reconstruída. Uma vez por geração que o destino da seguinte está em jogo, como sem dúvida está agora.

2024, ano de determinação, escolha, regeneração, orgulho. Em suma, um ano de esperança. Sim, neste ano, muito de nosso futuro vai ser determinado. Portanto, cabe-nos fazê-lo juntos. Cabe-nos escolher em vez de obedecer, cabe-nos traçar a rota em vez de segui-la.

E nossa História inteira nos ensina que a vontade de poucos pode superar todas as fatalidades. Portanto, cabe-nos, sim, agir juntos, continuar superando as divisões e os corporativismos, pois dentro de nosso povo há recursos escondidos para enfrentarmos estes desafios.

Meus caros compatriotas, desejo-lhes um ano de 2024 muito belo e feliz.

Para que a França possa se unir, agir e brilhar. Que ela seja digna do “esplendor indefinível dos que são destinados aos grandes negócios”, pois esses somos nós. Viva a República. Viva a França.