quarta-feira, 12 de julho de 2017

“Nunaj tempoj” (Tempos atuais) soneto


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Este é o último soneto meu em esperanto, que achei digno de publicar! Ah, que peninha... Confesso que, além desses sonetos que publiquei nas últimas semanas, fiz mais alguns outros ao longo da minha juventude, mas posteriormente joguei fora, porque por algum motivo eu não quis mais registro deles. Fiz isso, aliás, com vários outros sonetos em português, cujo tema ou abordagem achei muito bobo: mesmo assim, ainda há uma infinidade deles guardados, e pretendo publicar em breve!

Como se pode ver, ao longo de meu incipiente amadurecimento mental e tranquilização espiritual durante meus 17 anos, fui melhorando minha redação e tratando de temas menos banais e mais impessoais, alcançando reflexões interessantes. Desta vez o soneto que apresento se chama “Nunaj tempoj”, os “Tempos atuais”, porque sempre foi moda reclamar indiretamente da atualidade e falar de coisas que no passado seriam supostamente melhores. Na verdade, esse é um daqueles textos, e reconheço com sinceridade, que parece ter sido mais um exercício redacional e linguístico do que um acréscimo artístico. Meu pensamento sobre várias coisas que conheci na vida é organizado de um jeito quadrado e padronizado, até monótono, com terminações que servem só pra rimar.

Até parece estranho eu estar “metendo o pau” no meu próprio poema, né? Hehehe. De fato, olhando em retrospecto com uma lente mais crítica, é o que realmente penso, e até espanta que o telefone celular (mobiltelefono), então sem tecnologia de internet e hoje transmutado já nos smartphones, apareça como um sinal de modernidade. A referência à canção London, London de Caetano Veloso, então, é puramente enchimento de rima, embora se coadune com a referência a uma obra antiga. Mas olhando por outro lado, até que essa intrusão na montagem ficou bonitinha, não?... O conjunto, por vezes forçado, é até interessante, mas talvez forçado porque é meu último soneto registrado, talvez de algum período em meados de 2005, mas provavelmente não do segundo semestre. Nessa época, eu já estava às voltas com o vestibular e só de vez em quando traduzia canções do esperanto pra relaxar: não tinha mais energia pra criações próprias. Estas, como as que já postei aqui há muito mais tempo, só retornariam tarde na minha graduação.

Contudo, sempre que eu fazia um poema em esperanto, é porque eu estava inspirado, e não escrevia nada “por encomenda” de outros ou de minha própria cabeça. Inspiração aí não deve ter faltado, mas o soneto já tem a cara de recordação derradeira de uma época em transição. O que talvez deve ter sido mais importante foi a crítica social insinuada, indicando já o curso de História no qual logo entraria e as opiniões que eu aí sustentaria no início. Indo além, nesse último ano de meu Ensino Médio, principalmente a partir de meados, eu de fato sustentava opiniões socialistas, compartilhadas por outras garotas de minha sala, e as manteria enquanto era “bixo”, chegado até a votar em Heloísa Helena pra presidente. Só em 2007, talvez, fui moldando mais meu jeitão “conservador”, porque a vivência de minha primeira greve universitária trouxe decepções quanto àqueles militantes que se diziam “revolucionários”.

Mas, infelizmente, de novo não sei a data exata do soneto, e ela se me aparece de forma ainda mais imprecisa do que os outros. Pelo assunto e pela linguagem, só consigo concluir, sem certeza, que ele tem um considerável hiato temporal em relação aos anteriores. Abaixo estão o texto em esperanto, no qual só fiz uma alteração mínima, e uma tradução improvisada pro português, só pra dar uma noção do conteúdo pra maioria dos leitores. Assim como fiz com outros poemas, desejo mais pra frente recitar este e outros sonetos pra publicar. Boa leitura, e espero que goste!


Nunaj tempoj

La moderno regas nian mondon
De milit’ kaj mobiltelefono,
De dubo pri l’ ekzisto de bono,
Kiam la hom’ faras modan fondon.

Jam ne ekzistas plu gramofono,
Nur satelito por fari sondon.
Oni ne kantas plu “London, London”,
Usonaĵoj estas bela sono.

La mondo ne estas plu la sama,
Ĉio ŝanĝiĝis tra la jarcentoj,
Al mon’ cedis lokon sento ama.

Allogas kapitalismaj tentoj
Nin kaj homojn kun menso drama:
Ĉu tio ĉi haltos laŭ la ventoj?

____________________


Tempos atuais

O moderno governa nosso mundo
De guerra e telefone celular,
De dúvida sobre a existência do bem,
Quando o homem faz um cenário de moda.

O gramofone já não existe mais,
Apenas o satélite para fazer sonda.
Não se canta mais “London, London”,
Coisas dos EUA são belo som.

O mundo não é mais o mesmo,
Tudo mudou ao longo dos séculos,
O sentir amoroso deu lugar ao dinheiro.

Tentações capitalistas seduzem
A nós e homens com mente dramática:
Isto vai parar conforme os ventos?


domingo, 9 de julho de 2017

Emmanuel Macron comemora 2.º turno


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Estou postando o outro lado do 1.º turno das eleições presidenciais francesas de 2017, só pra gente relembrar um pouco. No dia 23 de abril, Emmanuel Macron, que se posicionou à frente de Marine Le Pen (Front national) na votação do primeiro turno das eleições francesas, fez uma declaração a seus torcedores logo depois das primeiras previsões se confirmarem. Ex-ministro de François Hollande (Partido Socialista), cujo mandato findou em 14 de maio, Macron surpreendeu ao ter ajudado a tirar da disputa, pela primeira vez em décadas, os dois principais partidos, o socialista (esquerda) e Os Republicanos (direita), que mudou de nome muitas vezes, mas em 2007 elegeu Nicolas Sarkozy sob o nome União por um Movimento Popular.

Surpresa da vez, Macron causou as mais diversas sensações até finalmente vencer o 2.º turno. Em síntese, foi o candidato europeísta, universalista, modernizante, em meio a uma insatisfação geral contra a situação da União Europeia (maior na Inglaterra, claro), aproveitada pelos Le Pen e por Jean-Luc Mélenchon (extrema-esquerda, que também concorreu e perdeu a disputa) pra contestar a situação do bloco. A extrema-direita e a esquerda radical o reputaram um velho candidato dos bancos, das finanças e dos industriais, que queria comprometer de vez a soberania da França e destruir as conquistas sociais e trabalhistas consolidadas. Pra eles, seu discurso de renovação e mudança não convenceu, uma vez que teria meramente saído do seio do antigo poder, ou seja, de um ministério de Hollande.

Tendo sido secretário do gabinete presidencial de 2012 a 2014 e, a seguir, ministro da Economia, Indústria e Tecnologia, Emmanuel Jean-Michel Frédéric Macron deixou a pasta em 2016 pra lançar seu próprio movimento à presidência, chamado En Marche!, conhecido como EM! e não por acaso com as mesmas iniciais de Macron. Ele é um ex-banqueiro nascido em 1977, casado com uma ex-professora de francês 24 anos mais velha, a qual conheceu quando ele tinha apenas 15 anos. Ela tem três filhos do primeiro casamento, mas ele não teve nenhum. Macron ficou conhecido por ter batizado no governo Hollande uma lei de sua iniciativa, que pretendia flexibilizar as relações de trabalho pra deslanchar a economia francesa, que continua, porém, estagnada. Sabemos bem em que país essa novela está se repetindo.

O primeiro turno das eleições presidenciais foi em 23 de abril, um domingo, tendo ficado Macron com 24,01% dos votos e Marine Le Pen, 21,3%, mostrando a divisão e a falta de consenso nacionais. A França tem um sistema presidencialista, onde o Presidente da República, eleito pelo voto popular, escolhe o primeiro-ministro, que vai, por sua vez, formar o governo. Grosso modo, o premiê se ocupa mais com a política interna, e o presidente, com a política externa; já houve casos de ambos serem de partidos diferentes, como Jacques Chirac do UMP e Lionel Jospin do PS. O segundo turno foi em 7 de maio, e muito sangue rolou até a vitória final de Macron.

Baixei o vídeo completo sem legendas do próprio canal da campanha de Emmanuel Macron, e cortei apenas uma parte do começo e do fim, pra manter só o essencial. Ouvi e traduzi de cabeça, tendo feito ao mesmo tempo as legendas. Seguem abaixo a legendagem que postei no meu extinto canal do YouTube e a tradução em português:


Meus caros compatriotas!

Hoje, domingo, 23 de abril, o povo da França se expressou. Enquanto nosso país atravessa um momento inédito na história, marcado pelo terrorismo, pelos desafios econômicos, por chagas sociais e pelo drama ecológico, ele reagiu da maneira mais bela: indo às urnas massivamente. Ele decidiu me botar na frente do primeiro turno dessa eleição! Reconheço a honra e a notável responsabilidade que isso me dá.

Esta noite quero saudar aqui os outros candidatos deste turno: Nathalie Arthaud, François Asselineau, Jacques Cheminade, François Fillon, Nicolas Dupont-Aignan, Benoît Hamon, Jean Lassalle, Jean-Luc Mélenchon e Philippe Poutou. Obrigado por terem acabado de aplaudi-los todos e todas. Isso une vocês. Isso une a nós. Sei como estão despontados eles e seus apoiadores. E agradeço a Benoît Hamon e François Fillon por terem chamado a votarem em mim no segundo turno.

A todos os que desde abril de 2016 me acompanharam, criando e dando vida ao En Marche!, esta noite quero dizer umas palavras. Em um ano, mudamos o rosto da vida política francesa. O sentimento profundo, orgânico, milenar que sempre guiou nosso povo, o compromisso com a pátria, a energia pelo interesse coletivo para além das divisões, venceram esta noite. Nunca vou esquecer a vontade obstinada e a energia exigente que milhares de vocês gastaram para que isso acontecesse.

Desde um ano atrás, por toda a França, vocês tomaram sua parte no destino nacional, souberam mostrar que confiar em nosso país não era utópico, inútil ou fantasioso, mas era uma vontade persistente e benévola. Vocês doaram os seus dias. Quando eles não bastavam, vocês doaram as suas noites. Esta noite, meus amigos, sei que devo tudo isso a vocês.

Vocês devem manter esse compromisso vibrante até o fim e ir além. Não desistir nunca, jamais esquecer estes meses durante os quais vocês mudaram o curso de nosso país e abalaram o status quo. Manter-se corajosos e exigentes como estão. Desde já compete a vocês prosseguir nesse caminho.

Esta noite, me comprometo a ir além e unir todos os franceses. Nunca vou ficar longe de vocês. E sempre vou precisar de vocês. Às milhões de francesas e franceses que confiaram em mim esta noite dando seu voto, quero dar meu obrigado. Quero dizer que reconheço o peso disso e esta noite eu sou tomado por uma alegria séria e lúcida. Em nome de vocês, vou levar para o segundo turno desta eleição a exigência do otimismo e a voz da esperança que queremos para nosso país e para a Europa!

Agradeço a meus parentes, ainda vivos ou já falecidos. Ninguém faz nada de bom caso esqueça quem é e de onde veio. A toda minha família e à minha Brigitte, sempre presente, e mais ainda, sem a qual não seria o que sou. A partir de hoje, meus amigos, devo criar uniões ainda mais amplas, reconciliar nossa França para ganhar em 15 dias, e amanhã, para presidir nosso país.

Percebi durante esses últimos meses, e ainda hoje, os receios, a raiva, o medo do povo da França, bem como sua ânsia por mudança. Esta foi o que o levou esta noite a tirar da corrida os dois grandes partidos que governam há mais de 30 anos. Esta noite quero falar a todos os cidadãos da França. Tanto da Metrópole quanto do Ultramar. Sei que vocês esperam.

Desejo em 15 dias tornar-me seu presidente! O presidente de todo o povo da França, o presidente dos patriotas, face à ameaça nacionalista! Um presidente que proteja, que transforme e que construa. Um presidente que permita aos que querem criar, empreender, inovar e trabalhar, fazer tudo isso mais rápido e facilmente. Um presidente que ajude os que têm menos e são mais frágeis ou são perturbados pela vida, por meio da escola, do trabalho, da saúde e da solidariedade.

Ouvi vocês reclamarem por uma verdadeira alternância, pela vitalidade democrática, por cuidados com a ecologia e a economia. Para formar um futuro possível, que tornará a França mais forte, numa Europa que proteja, vou precisar do voto de vocês, vou precisar da confiança de vocês.

Meus caros compatriotas, vou trabalhar nos próximos 15 dias para que juntos possamos reunir o máximo de pessoas em torno de minha candidatura. A força dessa união será determinante para presidir e para governar. A partir desta noite, o desafio não será ir votar contra quem quer que seja. O desafio será decidir romper até o fim com o sistema que não soube reagir aos problemas do país em mais de 30 anos. O desafio será abrir uma nova página de nossa vida política e agir para que cada um, com justiça e eficácia, possa achar seu lugar na França e na Europa! Esse é nosso desafio!

Meus caros compatriotas, é por isso que quero construir desde já uma maioria de governo e de transformação nova. Ela será feita de novos rostos, de novos talentos. Cada uma e cada um pode ter aí seu lugar. Não vou perguntar àqueles que me acompanharem de onde vêm, mas se concordam em renovar nossa vida política, em garantir a segurança dos franceses, em livrar o trabalho, em refundar a escola, em deixar cada um progredir na sociedade, donde quer que venha, e relançar a construção europeia!

Assumam já esta noite a parte de risco que lhes cabe para me seguirem, assim como à maioria parlamentar que vou construir a partir de amanhã!

Meus caros concidadãos, vocês conseguiram! Vocês nos conduziram! Vocês provaram que em nosso país nada era impossível de mudar! Vocês são esse rosto da renovação! Vocês são esse rosto da esperança francesa, a qual em 15 dias vou levar à vitória!

Meus caros concidadãos! Não há várias Franças. Há apenas uma, a França, a nossa, a França dos patriotas, numa Europa que protege e a qual teremos que refundar. A tarefa será imensa. Ao lado de vocês, estou pronto a enfrentá-la. O combate sobre quem merece conduzir nosso país começa esta noite. E vamos ganhá-lo!

Viva a República!

Viva a França!



quarta-feira, 5 de julho de 2017

Pluveto saŭdada: música em esperanto


Endereço curto: fishuk.cc/pluveto


Eis uma de minhas traduções muito incomuns pro Esperanto! É a canção brega Chuva de saudade, cantada pelo baiano Cristiano Neves (ele a compôs junto com Denilson Gomes), que há muitos anos vive em São Paulo. Quando eu estava no fim do meu Ensino Médio, gostava muito de escutar músicas do Norte e do Nordeste, principalmente nos ritmos mais inusitados, alguns dos quais gerariam o atualmente popular arrocha. Mas os meus preferidos eram forró, brega, calipso, tecnomelody etc., talvez pra contrariar um pouco o senso comum de meus colegas adolescentes no rock e no pop. Eu escrevi a tradução em 29 de janeiro de 2005, e em muitos pontos ela não está nada literal. A começar pelo título, que de Chuva de saudade virou Pluveto saŭdada, ou seja, “Garoa de saudade” ou “Garoa saudosa”. Vocês podem ler nesta página a letra em português (embora mal escrita), e abaixo seguem um vídeo com Cristiano Neves cantando a música num show e a letra em esperanto. Com a letra um pouco diferente, há também nesta página uma versão em estúdio.

Jen unu el miaj tre nekutimaj tradukoj al Esperanto! Ĝi estas la kanzono en stilo “brega” Chuva de saudade, laŭlitere “Pluvo de saŭdado”, kantata de Cristiano Neves (li komponis ĝin kune kun Denilson Gomes), kiu naskiĝis en la brazila ŝtato Bahio kaj de multaj jaroj vivas en la urbo San-Paŭlo. Dum la lastaj jaroj de mia mezgrada studado, mi tre ŝatis aŭskulti muzikon de la Norda kaj la Nordorientaj regionoj de Brazilo, surtute en la plej bizaraj ritmoj, inter kiuj estis la fontoj de la nuntempe populara “arrocha”. Sed miaj preferataj ritmoj estis “forró”, “brega”, “calipso”, la tiel nomata “tecnomelody” ktp., verŝajne por iom kontraŭi la komunan guston de miaj plenkreskantaj kolegoj por rok- kaj pop-muziko. Mi skribis la tradukon la 29-an de Januaro 2005, kaj en kelkaj frazoj ĝi estas tute ne laŭlitera. Komence per la titolo, kiu de “Pluvo de saŭdado” (Chuva de saudade) devenis Pluveto saŭdada. Vi povas legi ĉi-paĝe la portugallingvan tekston (kvankam malbone skribita), kaj ĉi-sube estas video kun Cristiano Neves kantanta la kanzonon dum spektaklo kaj la teksto en Esperanto. Kun la teksto iom malsama, ĉi-paĝe estas ankaŭ studia versio.


Pluveto saŭdada

Ho, stel’ de sonĝoj miaj,
Mi kion faru por
Vin tuj rekonkeradi,
Ĉe brak’ vin tenadi?
Al mi diru, do!

Dolorigis saŭdado min,
Doloris tre!
Dolorigis saŭdado min,
Doloris tre!
Dispeciĝis mia kor’,
La eroj restis for
Post ega solec’.
Dispeciĝis mia kor’,
La eroj restis for
Post ega solec’.

Falas la pluveto,
Malsekiĝas plank’.
La pluvet’ saŭdada,
Al la kor’ ne dank’.
Falas la pluveto,
Malsekiĝas plank’.
Min soleco vundas,
Likas mia sang’.

2x:
Revenu tuj,
Estu la uj’
De mia pasi’,
La stelo multkolora,
Kial’ de bato kora,
Sonĝ’ mia estas vi!

Falas la pluveto,
Malsekiĝas plank’.
La pluvet’ saŭdada,
Al la kor’ ne dank’.
Falas la pluveto,
Malsekiĝas plank’.
Min soleco vundas,
Likas mia sang’.

2x:
Revenu tuj,
Estu la uj’
De mia pasi’,
La stelo multkolora,
Kial’ de bato kora,
Sonĝ’ mia estas vi!

2x:

Falas la pluveto,
Malsekiĝas plank’.
La pluvet’ saŭdada,
Al la kor’ ne dank’.
Falas la pluveto,
Malsekiĝas plank’.
Min soleco vundas,
Likas mia sang’.


domingo, 2 de julho de 2017

Francisco Franco proclama sua vitória


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A alocução da qual o vídeo abaixo é apenas um trecho, pronunciada em 1939, costuma ser chamada “discurso da vitória”, em que o general Francisco Franco Bahamonde, após ter vencido a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) contra o governo republicano de esquerda, do qual era adversário, proclama os princípios do novo Estado que deseja implantar, sob inspiração dos vitoriosos regimes nazista e fascista, em voga naquele momento. O alemão Hitler e o italiano Mussolini, aliás, ajudaram abertamente as tropas de Franco com munição e homens.

O general Franco, servindo na parte do Marrocos que pertencia em 1936 à Espanha, sublevou-se nesse ano contra o governo republicano da Frente Popular, eleito recentemente por sufrágio universal. O temor de Franco, das Falanges que o ajudaram, de várias forças reacionárias e direitistas e da Igreja Católica era o de que, ideologicamente à esquerda, esse governo se aproximasse cada vez mais da União Soviética e implantasse no país um regime comunista. Na época, entre os conservadores ocidentais, o bolchevismo era o maior medo político, associado à ditadura, ao coletivismo e ao terror estatal. Alcançando a península Ibérica, Franco e suas tropas, porém, encontraram séria resistência de comunistas (trotskistas e stalinistas), anarquistas e socialistas armados, além das Brigadas Internacionais reunidas pela Comintern pra defender o regime legal.

Ocorreu que os governos de extrema-direita da Alemanha e da Itália forneceram uma incondicional ajuda crucial pra que as tropas revoltosas chegassem facilmente a Madri e derrubassem, em três anos, o governo republicano, enquanto França e Inglaterra, mesmo contrariadas com o nazifascismo, abstiveram-se de intervir. Além disso, temendo desagradar a ingleses e franceses, dos quais se aproximava lentamente, Stalin teve uma postura ambígua no conflito, ao apoiar as Brigadas, fornecer clandestinamente material bélico às esquerdas e, mais tarde, cessar sua intervenção e mandar os voluntários retirarem-se ainda em 1938. Pra piorar, as rixas dos stalinistas com os trotskistas e anarquistas enfraqueceram as fileiras defensivas e, em meio a sabotagens e atentados mútuos, abriram a via pro avanço franquista.

A vitória direitista foi arrasadora, milhões de refugiados deixaram a Espanha (muitos, fugidos pra França, teriam de sair daí novamente com a invasão nazista em 1940) e Franco, denominando-se Caudillo (o equivalente ao Führer e ao Duce), tomou sozinho o governo e buscou edificar um governo baseado no fascismo, embora não idêntico a ele. No final dos anos 60, Juan Carlos foi designado rei pra sucedê-lo, o que ocorreu com a morte do general, em 1975, iniciando a transição do país pra uma democracia rica, após a ditadura pobre. Alguns dos slogans do governo de Franco, ainda usados por seus admiradores, são ¡Viva España! (Viva a Espanha!) e ¡Arriba, España! (Avante, Espanha!).

Como eu disse, este vídeo é apenas um trecho do “discurso da vitória”, o único disponível no YouTube. Na resolução original e sem legendas, ele se encontra nesta página. Eu mesmo traduzi o texto, sem buscar ser totalmente literal, e legendei o vídeo. Seguem abaixo a legendagem, o texto em espanhol (que retirei da seção pra Francisco Franco do Wikiquote) e minha tradução em português:


Un estado totalitario armonizará en España el funcionamiento de todas las capacidades y energías del país, en el que, dentro de la Unidad Nacional, el trabajo, estimado como el más ineludible de los deberes, será el único exponente de la voluntad popular. Y merced a él, podrá manifestarse el auténtico sentir del pueblo español a través de aquellos órganos naturales que, como la familia, el municipio, la asociación y la corporación, harán cristalizar en realidades nuestro ideal supremo.

Um Estado totalitário viabilizará na Espanha a ativação de todas as capacidades e energias do país, na qual, dentro da Unidade Nacional, o trabalho, reputado como o mais inescapável dos deveres, será a única expressão da vontade popular. E graças a ele, poderá florescer a verdadeira opinião do povo espanhol por meio daqueles órgãos naturais que, como a família, o município, a associação e a corporação, farão tornar-se uma realidade nosso ideal supremo.


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Vesperkomenco (soneto em esperanto)


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Mais um dos meus sonetos que escrevi diretamente em esperanto quando estava acabando o Ensino Médio. Como eu já tinha dito em postagens anteriores, até então esse era o único idioma estrangeiro que eu dominava, e como sempre gostei de fazer poesia (mas nem sempre de ler), fazia versos usando essa língua. Aliás, eu sempre achei o esperanto muito poético, porque eu já tinha lido muitos poemas de L. L. Zamenhof, o iniciador do idioma (e confesso que foi dele que herdei meu estilo bem “quadrado”), e porque a fonética e a pronúncia são realmente muito doces, parecidas com as do italiano.

Este soneto se chama “Vesperkomenco”, palavra composta de dois radicais e que significa “começo da noite”, mais exatamente a tardezinha, o anoitecer ainda com algum sol bem fraco. Como ocorre na maioria das culturas, tendo sua expressão mais célebre, acredito, no livro O pequeno príncipe de Saint-Éxupery, esse momento do dia é um dos meus favoritos, porque sempre me evocou coisas românticas, uma calma, uma paz, a impressão de que estavam sendo aliviados todos os pesos do dia. E é assim que também descrevo o crepúsculo a partir da minha casa, onde há uma natureza linda, composta de montanhas, florestas e muitos pássaros cantando. O soneto também alude brevemente à minha crença religiosa católica que eu ainda mantinha aos 17 anos de idade.

Acho provável que eu o tivesse escrito no comecinho de 2005, e não em 2004, e certamente numa época em que eu estava de férias, pois a passagem pelo “terceirão” me deixou pouco tempo e energias pra versificar em esperanto. No decorrer do ano, claro, fiz mais alguns sonetos em português, mas geralmente até mesmo, pasmem, sobre temas que eu estava estudando na escola! Pode ter sido uma forma divertida de fixar o conteúdo, pois passei direto com sucesso no vestibular de História, hehehe. Outra coisa que me faz localizá-lo em 2005, e no máximo no finzinho de janeiro ou comecinho de fevereiro, é novamente o estado de espírito que ele parece exalar. Nesse período, quase recomeçando as aulas, eu estava bem menos ansioso com relação a algumas coisas que me tinham acontecido no ano anterior, e como ainda estava de férias, podia usufruir de uma relativa calma e de um equilíbrio e clareza mentais que me proporcionaram escrever dessa forma que pode ser lida.

Abaixo estão o texto em esperanto, sem alterações desde então, e uma tradução improvisada pro português, só pra dar uma noção do conteúdo pra maioria dos leitores. Assim como fiz com outros poemas, desejo mais pra frente recitar este e outros sonetos pra postar no meu canal O Eslavo (YouTube). Boa leitura, e espero que gostem!



Vesperkomenco

Birdoj flugas super la tegmento,
La sun’ malaperas trans la montoj
Kaj, post kalkulo de ĉiuj kontoj,
Venas sur vizaĝon forta vento.

Ĉi tie, min ne ĉasas plu hontoj
Kaj malfortiĝas malbona sento,
Ĉar, laŭ konceptoj de mia gento,
Bonan ricevon havu venontoj.

Venonto estas sekvanta tago,
Kiun tute mi profiti devas
Marŝante aŭ naĝante en lago.

Mi kredas je tiu, kiu revas:
Kialo de al Dio la pago,
Al kiu niajn manojn ni levas.

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Começo da noite

Pássaros voam por cima do telhado,
O Sol desaparece além dos montes
E, após ter calculado todas as contas,
Um forte vento vem sobre o rosto.

Aqui, os pudores não me caçam mais
E se enfraquece o sentimento ruim,
Pois, como dizem na minha terra,
Que seja bem acolhido quem vier.

Quem virá é o dia seguinte,
O qual devo aproveitar totalmente
Caminhando ou nadando num lago.

Eu acredito naquele que sonha:
É o motivo de retribuir a Deus,
A quem elevamos nossas mãos.




domingo, 25 de junho de 2017

Marine Le Pen celebra segundo turno


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No dia 23 de abril houve o primeiro turno das eleições presidenciais na França, e os resultados deram no segundo turno entre Emmanuel Macron (En Marche!) e Marine Le Pen (Front national). Em disputa, duas visões opostas sobre a Europa e a afluência de imigrantes: ele queria liberar mercados, reformar a União Europeia, integrando a França ainda mais a ela, e diminuir a discriminação contra os imigrantes; e ela, mais protecionismo econômico, sair do bloco europeu (o chamado “Frexit”, paralelo ao “Brexit” britânico) e reduzir drasticamente a imigração, sobretudo de muçulmanos, expulsando do país os já incluídos nas listas de vigilância. Os números foram de 24,01% pra Macron e 21,3% pra Le Pen, e se lembrarmos que François Fillon (Les Républicains, antiga UMP), de direita, obteve 20,01% dos sufrágios e Jean-Luc Mélenchon (bloco “La France insoumise”), de extrema-esquerda, 19,58%, nota-se que os franceses estão muito divididos, insatisfeitos. François Hollande não quis nem mesmo tentar a reeleição, fato inédito na Quinta República, e é a primeira vez em décadas que nem os Rep/UMP, nem o Partido Socialista, chegaram ao 2.º turno.

Via de regra, rotulam-se Marine Le Pen de “extrema-direita” e Emmanuel Macron, cujo partido ele criou ano passado apenas pra disputar essas eleições, de “centrista”. Apesar do discurso duro e por vezes xenofóbico, parece meio forçado chamar o FN de “fascista”. Mas quase todas as outras forças se uniram em torno de Macron pra derrotar o chamado “perigo” de Le Pen. Apenas o derrotado no 1.º turno Nicolas Dupont-Aignan (Debout la France) recomendou voto em Marine Le Pen no 2.º turno, enquanto os outros recomendaram Macron, nulo ou não disseram nada. Ao comemorar a passagem pra outro turno, ela fez um discurso breve pra reafirmar os valores de seu partido, anunciar sua vontade de enrijecer as fronteiras da França e não realizar qualquer conciliação com Macron, a quem considera “mais do mesmo”, o velho candidato dos bancos e continuador de Hollande (PS) e suas más políticas, dele tendo sido ministro por alguns anos.

Marion Anne Perrine Le Pen, que se fez chamar “Marine”, nasceu em 1968 e se inscreveu no FN em 1986, quando começou a militar ativamente. Sua formação e estudos em Direito não a impediram de incrementar sempre mais seu ativismo político, crescentemente aparecendo na mídia desde 2002, quando seu pai Jean-Marie concorreu em 2.º turno à Presidência da República com o vitorioso Jacques Chirac (UMP). Desde 1998 ela ocupa vários cargos públicos, é deputada europeia desde 2004 e presidente do FN desde 2011. Jean-Marie em 2007 e Marine em 2012 não conseguem ir ao 2.º turno das presidenciais, mas a votação cresce de ano a ano. E também de crise em crise, a filha se distancia cada vez mais das posições insistentemente xenofóbicas e retrógradas do pai, até que consegue fazer que o excluam do FN em 2015. Fato notório: ele não perde o cargo de presidente de honra, o que lhe conserva direitos internos.

A chegada de Marine ao 2.º turno com uma votação histórica coroou a história do partido fundado em 1972 pelo movimento Ordre nouveau, bem mais próximo do fascismo e que escolheu Jean-Marie Le Pen pra presidir o FN, já tentando lhe dar uma cara “respeitável”. Essa busca pela inserção, forçando por vezes a moderar posições, marcou o trajeto do FN até hoje, embora no essencial mantenha sua raiz nacionalista, eurocética, anti-imigração e protecionista. Marion Maréchal-Le Pen, por exemplo, é um modelo de rigidez ideológica, mas de liberalismo político e econômico.

Não apoio nem rejeito Marine Le Pen, embora eu veja muita incoerência no discurso dela (por exemplo, ela certamente teria logo se ajoelhado ao dinheiro-rei, à concorrência desleal e à velha Dona Zelite de Lula). Não tive muito tempo nos últimos anos de ler com calma o programa do FN. Eu apenas sigo de perto a política francesa, porque estudei francês por muitos anos. E sei também que meu antigo canal no YouTube tinha uma ampla audiência de direita, embora ele tenha deslanchado com as legendagens comunistas. Sou progressista, mas não apoio acriticamente nem o comunismo soviético, nem o projeto dos Le Pen, e sei que as presidências de Sarkozy e Hollande estiveram entre as piores da história da França, além das de Mitterrand e Chirac, que também foram problemáticas.

Eu baixei o vídeo sem legendas desta página de notícias, e a transcrição completa em francês do discurso de Marine Le Pen está nesta página no site do Front national. Eu mesmo traduzi e legendei, usando como base o discurso escrito, e seguem abaixo as legendas e a tradução em português:


Meus caros compatriotas,

Vocês me levaram ao segundo turno da eleição presidencial. Eu reconheço essa honra com humildade e gratidão. Quero expressar a vocês, eleitores patriotas franceses, meu agradecimento mais profundo.

Queimamos a primeira etapa que levará os franceses ao Élysée. Esse resultado é histórico. Ele põe sobre meus ombros, desde já, a responsabilidade imensa de defender a nação francesa, sua unidade, sua segurança, sua cultura, sua prosperidade e sua independência.

Ele significa também um ato de orgulho francês, de um povo que reergue a cabeça, de um povo seguro de seus valores e confiante no futuro. Todo francês percebeu que o sistema tentou de todas as formas, até as mais duvidosas, abafar o vasto debate político que a eleição deveria ter sido.

Finalmente, esse grande debate agora vai acontecer. Os franceses devem apanhar esta oportunidade histórica que raia, pois nesta eleição está em jogo a mundialização selvagem, que põe em risco nossa civilização.

A opção dos franceses é simples. Ou continuamos rumo a uma total desregulamentação, sem proteção e sem fronteiras, tendo como consequência as deslocalizações, a concorrência internacional desleal, a imigração em massa e o livre curso aos terroristas. Esse reino é o do dinheiro-rei. Ou escolhemos a França, com fronteiras que protegem nossos empregos, nosso poder de compra, nossa identidade nacional, nossa segurança.

Vocês têm então a opção pela alternância, a verdadeira. Não aquela na qual governos se sucedem sem que nada mude. A que lhes proponho é a grande alternância, a alternância fundamental, que vai pôr em marcha uma nova política, novos rostos no poder, e a renovação que vocês desejam. Claro que não é com o herdeiro de François Hollande e de todos os fracassos desses cinco anos catastróficos que a alternância tão esperada virá.

Chegou a hora de livrar o povo francês, todo o povo, lembrando os compatriotas do Ultramar, que exprimiram para comigo uma lisonjeira confiança. Chegou a hora de livrar o povo francês de elites arrogantes que querem ditar sua conduta, pois eu sou, sim, a candidata do povo.

Lanço apelo a todos os patriotas sinceros, donde quer que venham, qualquer que seja a origem e qualquer que fosse seu trajeto e seu voto no primeiro turno, a juntarem-se a mim. Convido-os a deixarem as brigas passadas, os apriorismos e os ressentimentos, para o bem do interesse superior do país.

É o essencial, realmente o essencial, que está em jogo: a sobrevivência da França. Chamo-os à unidade nacional por trás de nosso projeto de retificação. Vamos os acolher fraternalmente.

Em 8 de agosto de 1943, o general de Gaulle lembrava em Casablanca: “A grandeza de um povo só pode proceder desse povo.” Foi esse princípio que, durante os 1500 anos de sua história, deu forma à França que nós amamos. Será esse princípio que vou pôr em prática.

A união do povo francês com a qual todos sonham só se forma em torno do amor à França.

Viva o povo francês!

Viva a República!

Viva a França!



quarta-feira, 21 de junho de 2017

“Labora tero”, sertanejo em esperanto


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Eu adoro desde a infância esta canção sertaneja! Ela se chama Terra tombada e foi gravada em 1986 por aquela que é sem dúvida a maior dupla sertaneja de todos os tempos, Chitãozinho & Xororó. Eu me lembro que havia começado a fazer a tradução em esperanto um certo dia, mas depois a deixei alguns meses parada pra enfim retomar. De fato, o serviço foi difícil, mas acredito também que tenha sido uma das minhas versões mais bonitas. O nome em esperanto ficou Labora tero, literalmente “Terra de trabalho”, que remete ao significado de “tombar a terra”, ou seja, “arar a terra”, “trabalhar a terra”. Eu terminei de traduzir a música em 29 de julho de 2004, e quem a escreveu em português foram Carlos Cezar e José Fortuna. Vocês podem ler nesta página a letra em português, e abaixo seguem um vídeo com a música cantada e a letra em esperanto.

Ekde la infaneco mi ŝategas ĉi tiun kanzonon en la stilo “sertanejo”! Ĝi nomiĝas Terra tombada (laŭlitere “Plugita tero”) kaj estis registrita en la jaro 1986 de tiu, kiu sendube estas la plej granda duopo en stilo “sertanejo” de ĉiuj tempoj, Chitãozinho & Xororó. Mi memoras, ke mi iutage komencis fari la tradukon, sed mi poste haltis la taskon por kelkaj monatoj, ĝis kiam mi finfine reprenis ĝin. Fakte la tasko estis malfacila, sed mi kredas ankaŭ, ke ĝi estas unu el miaj plej belaj tradukoj al Esperanto. Kiel nomon en ĉi tiu lingvo mi elektis Labora tero, ĉar la ideo de “(pri)labori la teron” ligiĝas al la portugallingva dirmaniero “tombar a terra”, tio estas, “plugi la teron”. Mi finis traduki la kanzonon la 29-an de Julio 2004, kaj la komponistoj en la portugala lingvo estis Carlos Cezar kaj José Fortuna. Ĉi-paĝe vi povas legi la portugallingvan tekston, kaj ĉi-sube estas video kun la kanzona registro kaj la teksto en Esperanto.


Labora tero

1. Ĉi-aŭguste estas varme,
En la mezo de l’ sezon’.
Vidas cindron mi sur kampoj
Kaj la fumon sur la mont’.
Kultivisto plantas ĉion,
Dista la impresduon’
Pri lozanĝoj sur la tero:
Sanga estas la kolor’.
Tero labora promesas
Estontecon reflektitan.
En dormoĉambro kampara
La ruĝo surlitigita,
Kie la naskemaj semoj
El kavaĵoj aperigas
La fruktojn kun odor’ sama
De l’ beb’, kiu ĵus naskiĝas.

Rekantaĵo:
Tero labora
Varma sanktega, esperu,
Ke la semoj tuj prosperu
Kaj per floroj kovru ĝin.
Animo mia
Esperas ankaŭ la semon
Jam plantotan de la sento
Ama inter ni, virin’.

2. Tero labora kuŝinta:
Infan’ sur lulilo verda,
Buŝ’ malfermata soifas
Atendanta pluvon servan.
Vidu l’ fonton ĉe la monto,
Estas ĝi mam’ de l’ kampar’:
La akvo, lakto de l’ tero
Faras nutron por plantar’.
La ruĝaĵoj tuj verdiĝas,
Burĝono antaŭ la flor’
Kaj sem’ por la laboristo:
Manĝaĵo por lia kor’.
Sub la mortintaj folioj
La ter’ forigas la lacon
Ĉar dum la jaro denove
Ĝi renaskos nian saton.

(Rekantaĵo)



domingo, 18 de junho de 2017

Marion Le Pen envia recado em italiano


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No dia 23 de abril houve o primeiro turno das eleições presidenciais na França, e o Front national (Frente Nacional) de Marine Le Pen, partido de extrema-direita, era um dos favoritos a passar pro segundo turno. Mas a preparação de uma Europa mais voltada pras bandeiras dele (controle da imigração, rejeição à União Europeia, defesa das fronteiras e da soberania nacional nos âmbitos econômico e político, conservadorismo social e tradicionalismo cultural católico) já era um trabalho feito há meses, na verdade há anos. Na linha de frente, apesar de suas discórdias com a presidenta nacional no FN, está a jovem e bela Marion Maréchal-Le Pen, neta do fundador Jean-Marie Le Pen, que aos 27 anos é a única deputada federal pela legenda e luta pra conservar a linha dura do avô, ao contrário da própria Marine.

Neste vídeo, gravado em 19 de maio de 2016, Marion fala em italiano pra apoiar os candidatos da Lega Nord (Liga Norte), outro partido italiano de extrema-direita, às eleições comunais (equivalente às municipais brasileiras e às autárquicas portuguesas) da cidade de Milão, que ocorreriam de 5 a 19 de junho de 2016. Fundada como partido no início de 1991, a Lega Nord unificou vários movimentos autonomistas setentrionais, e hoje tem traço conservador, eurocético e antiglobalista, por vezes sendo rotulada como “populista de direita”. Embora se diga de direita, adotou várias posições extremistas durante os anos, equipara-se ao Front national no âmbito europeu e tem uma identidade etnocêntrica, mas há também correntes internas que se dizem “de esquerda” por terem mais enraizamento no operariado.

Segundo a Wikipédia italiana, no final das contas, quem ganhou as eleições em Milão foi a coalizão de centro-esquerda, que contava com o Partido Democrático como principal componente. Ela conseguiu eleger Giuseppe Sala como sindaco (prefeito) e obteve a maioria das cadeiras na câmara municipal (22 só pro PD). Stefano Parisi, apoiado pela Lega Nord, ficou em segundo colocado, mas encostou no vencedor nos dois turnos. Mas no voto parlamentar, a Lega obteve o terceiro maior número, ficando atrás apenas do PD e do Forza Italia, e superando até o hoje popular Movimento Cinco Estrelas. Quanto à Marion, esse texto foi lido num papel, pelo que consta, mas sua pronúncia é muito boa, tropeçando apenas nas sílabas tônicas, em vários momentos. Esta entrevista na Itália prova que ela não fala italiano, e talvez não entende totalmente, ficando notável, sobretudo, a inabilidade da intérprete, pra qual Marion teve de repetir as últimas palavras de uma longa frase.

Eu descobri este vídeo sem legendas por acaso, enquanto procurava no Google se Marion Le Pen falava outros idiomas. Após baixá-lo, eu segui o procedimento “3 em 1”, pra vídeos em geral curtos e claros: entender sem transcrever, traduzir sem escrever e legendar com a adaptação feita na mesma hora. Seguem abaixo a legendagem, o texto em italiano, que só transcrevi depois de carregar o vídeo, e a tradução em português:


Buongiorno, amici italiani! Dalla Francia seguo sempre attentamente gli sviluppi politici del vostro paese. In questo momento, è per noi molto importante incoraggiare le forze patriotiche di tutta l’Europa, in particolare la Lega Nord, perché sia in grado di promuovere e difendere i nostri valori e la nostra identità, all’interno di tutte le istituzioni di governo. Per questo motivo raccomando i miei amici italiani a supportare la coalizione della Lega alle elezioni comunali di Milano. Se la Lega e i suoi alleati vincessero, Milano diventerebbe un’esempio per noi del Front national e per tutta l’Europa. Grazie a tutti!

Bom dia, amigos italianos! Sigo da França sempre com atenção os desdobramentos políticos de seu país. Neste momento, é muito importante pra nós encorajar as forças patriotas da Europa toda, em especial a Lega Nord, pra que esteja em condições de promover e defender os nossos valores e a nossa identidade, no interior de todas as instituições de governo. Por esse motivo, recomendo a meus amigos italianos que apoiem a coalizão da Lega para as eleições municipais de Milão. Se a Lega e seus aliados vencerem, Milão se tornará um exemplo pra nós do Front national e pra toda a Europa. Obrigada a todos!



Matteo Salvini, secretário federal (líder) da Lega Nord, e Marion Le Pen.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

“Poemfarado” (soneto em esperanto)


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Como eu já falei muita coisa, e duas vezes, em postagens anteriores com meus sonetos em esperanto “Plenkreskiĝo” e “Ĉiutaga vivo”, sobre a época em que eu escrevia tais poemas na adolescência, vou aproveitar pra falar aqui hoje só sobre como eu decidia escrever os versos. Aliás, esse é exatamente o tema do soneto que apresento hoje, “Poemfarado”, palavra composta que pode ser traduzida bem literalmente como “Confecção de poemas” ou, mais livremente, como “Fazendo poemas”, que tem mais a ver com o radical far- (fazer). Esse soneto deve ser do finzinho de 2004, no máximo comecinho de 2005, e pelo tema e estado de espírito que ele reflete, deve ser bem posterior à metade do mês de dezembro de 2004.

Como está escrito nos versos, nunca escolhi lugar pra fazer poemas, e até hoje escrevo inclusive nas aulas do doutorado, quando minha atenção não é totalmente exigida. Claro que atualmente eu mais traduzo do que componho, mas de certa forma, toda tradução é uma recriação, ou seja, o esforço, conhecimento e inspiração exigidos e dispendidos são praticamente os mesmos. Mas quando eu era adolescente, não hesitava em pegar uma caneta e um caderno ou um pedaço de papel e partia pro amplo jardim da minha casa pra escrever versos. Aí tem muitos lugares pra sentar, às vezes até com mesinhas, por isso era bem mais fácil e cômodo rascunhar.

Naquela época, eu publicava o pouco que versificava em esperanto num site pessoal sobre a língua que mantive até os primeiros anos da graduação, mais ou menos. Como eu disse nas postagens anteriores, ninguém até hoje leu nem os textos iniciais nem as traduções em português, até porque o tráfego na antiga página era muito pequeno, e apenas as versões de músicas brasileiras ou estrangeiras eram mais ou menos visualizadas. Eu realmente compunha sobre coisas muito triviais ou comuns (até “adolescentes”, como diríamos hoje), o que não é usual na poesia clássica. Mas acho que o mais frutuoso era justamente a experiência de refletir sobre minha própria vida, sintetizando num espaço compacto e metrificado que é o poema tradicional (ou “parnasiano”), assim disciplinando o pensamento e o vocabulário. E isso em esperanto e em português.

Já nessa época, em meu Ensino Médio (e até antes, na verdade), a gente aprendia muito sobre poesia moderna e modernista, ou seja, que desobedecia completamente à forma e ao conteúdo etéreo. Eu de fato nunca fui muito de fazer viagens nas coisas que escrevia, mas o formato quadrado sempre foi minha especialidade. De algum jeito, eu ainda fiz parte das gerações que aprenderam que poesia tem que ter rima (pelo menos) e métrica certinha, tanto que apesar da porcaria que são hoje, até as canções atuais têm rima. E eu acabei levando isso como uma ginástica mental mesmo, e pra tentar impressionar as pessoas também. Não me arrependo disso, até porque na minha classe eu nunca passei como aquele que rabiscava qualquer coisa sob o pretexto de que “no modernismo vale tudo”.

Abaixo estão o texto em esperanto, sem alterações desde então, e uma tradução improvisada pro português, só pra dar uma noção do conteúdo pra maioria dos leitores. Boa leitura, e espero que gostem!


Poemfarado

Kelkfoje mi pli bone skribas poemon
Ol laboran tekston verkitan en prozo,
Ĉu estas parolanta pri simpla rozo,
Ĉu estas skribanta sen elekti temon.

Pri beleco, ne mezuriĝas la dozo;
Poemumi kiel oni traktas gemon,
Mi ne povas plu kontroli tiun emon:
“Doktoro, mi suferas je ‘poemozo’!”

Mi ie ajn skribas, en verda korto,
La scenej’ ne gravas por poemo cela,
Sed mi plej inspiriĝas en vasta horto.

Por ke l’ ideo de l’ poem’ estu hela,
Magion devas enhavi ĉiu vorto
Elmontranta al la mond’ l’ arton plej bela.

____________________

Fazendo poemas

Às vezes escrevo melhor um poema
Do que um texto trabalhoso redigido em prosa,
Seja falando sobre uma simples rosa,
Seja escrevendo sem escolher um tema.

Em beleza, não se mede a dose;
Poetar como se trata uma pedra preciosa,
Não posso mais controlar essa propensão:
“Doutor, eu sofro de ‘poemose’!”

Escrevo em qualquer lugar, num pátio verde,
O cenário não importa a um poema ambicioso,
Mas eu me inspiro mais num grande pomar.

Para que a ideia do poema seja clara,
Cada palavra deve conter magia
Revelando ao mundo a arte mais bela.



domingo, 11 de junho de 2017

Trotsky condena Processos de Moscou

Nesta breve gravação feita no México, Lev Davidovich Bronstein (Leon Trotsky), fundador do Exército Vermelho, critica do exílio, em inglês, os julgamentos teatrais favorecidos por Iosif Stalin em Moscou entre os anos de 1936 e 1938 contra supostos “espiões sabotadores” e “inimigos do povo”. Todos os antigos bolcheviques agora julgados eram acusados de colaborar com Trotsky em complôs pra derrubar Stalin e em supostas iniciativas, financiadas pelos países capitalistas, pra invadir a URSS e desalojar os bolcheviques.

Em 1940, o próprio Trotsky seria assassinado no México por Ramón Mercader, a mando de Stalin. Existe uma polêmica que associa o galo cantando ao fundo, notável no começo e no fim do filme, à passagem bíblica em que Pedro nega falsamente três vezes aos soldados romanos que não conhecia Jesus, ao fim das quais um galo cantou ao fundo. Infelizmente, a qualidade do vídeo não está muito boa, mas somente no canal de Nikolai Iulski existe a versão integral, e a partir daí eu o baixei. Pra piorar, não achei em nenhum lugar da internet qualquer transcrição da fala de Trotsky, nem sequer fragmentos. Espero que, com esta postagem, eu possa estar suprindo a lacuna.

Eu já não sou muito fluente em inglês, então transcrevê-lo falado por um ucraniano num vídeo antigo foi quase impossível, e o trabalho ficou muito lacunar. Se não fossem os seguintes especialistas, que me ajudaram em listas de e-mail de tradutores a completar a transcrição, nada teria sido possível: Derval Aquino, David Coles, Gaby Nunes, Paula Ribeiro e Rui Silva. Eu mesmo traduzi do inglês pro português, legendei o vídeo e carreguei-o no meu antigo canal do YouTube. Seguem abaixo a legendagem, a transcrição em inglês e a tradução, que não sei se está toda correta, em português, cujo texto, apropriado pra leitura escrita, foi adaptado nas legendas:


Esteemed audience, you will easily understand if I begin my short address to you in my very imperfect English by addressing my warm thanks to the Mexican people and to the man who leads them with such merit and courage, President Cárdenas.

When monstrous and absurd accusations were hurled at me and my family, went my wife and myself under the lock and the key of the Norwegian government. Without being able to defend ourselves, the Mexican government opened the doors of this magnificent country and said to us: ‘Here, you can freely defend your right and your honor.’ Naturally, it is not a sympathy for myself, my ideas, which has motivated President Cárdenas, but a fidelity to his own ideas. All the more meritorious, then, is his act of democratic hospitality, so rare these days.

Stalin’s trial against me is built upon false confessions, extorted by modern inquisitorial methods, in the interest of the ruling elite. There are no crime in History more terrible, given intention and execution, than the Moscow trials of Zinovyev-Kamenev and then of Pyatakov-Radek. These trials developped not from Communism, not from Socialism, but from Stalinism, that is, from the irresponsible despotism of the bureaucracy over the people.

What is now my principle task? To reveal the truth, to show and to demonstrate that the true criminals hide under the cloak of the accusers. What will be the next step in this direction? The creation of an American, an European, and subsequently of the International Commission of Inquiry, composed of people who incontestably enjoy authority and public consideration. In confidence I undertake to present to such a Commission all my files, thousands of personal and open letters, in which the developments of my thought and my action is reflected day by day without any gaps. I have nothing to hide.

Dozens of witnesses who are abroad assess invariable facts and documents, which will shed light on the Moscow framers. The work of the commission of inquiry must terminate in a great counter-trial. A counter-trial is necessary to cleanse the atmosphere of the germs, of the seed, calumny, falsification, and frameups, whose source is Stalin’s police, the GPU, which has fallen to the level of the Nazi Gestapo.

Esteemed audience, you may have many varying attitude toward my ideas and my political activity for 40 years, but an impartial inquiry will confirm that there is not a stain on my honor both personal and political. Profoundly convinced that the right is on my side, I wholeheartedly salute the citizens of the New World.

____________________


Caros espectadores, vocês vão entender facilmente se eu começar minha breve mensagem a vocês em meu inglês muito imperfeito, enviando minha calorosa gratidão ao povo mexicano e ao homem que o comanda com tanto mérito e coragem, o presidente Cárdenas.

Ao serem lançadas monstruosas e absurdas acusações sobre mim e minha família, ficamos minha esposa e eu sob a proteção do governo norueguês. Sem podermos nos defender sozinhos, o governo mexicano abriu as portas desse magnífico país e nos disse: “Aqui vocês podem defender livremente seus direitos e sua honra.” Naturalmente, não foi uma simpatia por mim e minhas ideias que motivou o presidente Cárdenas, mas uma fidelidade a seus próprios ideais. Tão mais louvável, então, é seu ato de hospitalidade democrática, tão raro atualmente.

O julgamento de Stalin contra mim é baseado em falsas confissões, extorquidas com métodos inquisitoriais modernos, no interesse da elite governante. Não há crime mais terrível na história, em termos de intenção e execução, do que os julgamentos de Moscou contra Zinoviev e Kamenev, e depois contra Piatakov e Radek. Esses julgamentos derivam não do comunismo ou do socialismo, mas do stalinismo, isto é, do despotismo irresponsável da burocracia sobre o povo.

Qual é agora minha principal tarefa? Revelar a verdade, mostrar e provar que os verdadeiros criminosos se escondem sob o manto dos acusadores. Qual será o próximo passo nesse sentido? Criar uma Americana, uma Europeia e na sequência a Comissão Internacional de Inquérito, composta por pessoas que gozam de incontestável autoridade e estima pública. Eu me comprometo a apresentar privadamente a essa comissão todos os meus arquivos, milhares de cartas pessoais e abertas, nas quais se refletem os desdobramentos diários de meu pensamento e de minha ação, sem nenhuma lacuna. Nada tenho a esconder.

Dúzias de testemunhas no exterior estão analisando fatos e documentos incontestáveis que vão desvelar os falsos acusadores de Moscou. O trabalho da Comissão de Inquérito deve culminar num grande contrajulgamento. Um contrajulgamento é necessário para purgar a atmosfera dos germes, da podridão, calúnia, falsificação e conchavos, cujo ninho é a polícia de Stalin, a GPU, que decaiu ao nível da Gestapo nazista.

Caros espectadores, vocês podem ter posições muito variadas para com minhas ideias e minha atividade política em 40 anos, mas uma investigação imparcial vai confirmar que não há qualquer mancha em minha reputação, seja pessoal ou política. Profundamente convencido de que a verdade está comigo, saúdo calorosamente os cidadãos do Novo Mundo.