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7 de agosto de 2020

O ensino da língua auxiliar interlíngua


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por Erick Fishuk

Escrito em 22 de maio

A expansão do ensino da interlíngua, projeto de idioma auxiliar internacional lançado por um grupo de linguistas nos EUA em 1951, seria uma iniciativa louvável. Aprendi esperanto em 2000 (aos 12 anos) e continuei estudando ao longo dos anos, mas embora eu tivesse ouvido falar da interlíngua pouco depois, só tomei contato por curiosidade em 2009, não parando mais. Sempre usei as duas línguas como atividades paralelas, mas ultimamente tenho me dedicado mais à interlíngua, pois a acho mais prática pra comunicação intelectual.

Ainda existem noções preconceituosas sobre línguas auxiliares (internacionais ou ‒ como o intereslavo ‒ zonais), porque no mundo de hoje só recebe valor o que supostamente tem aplicação ou retorno imediatos. Por isso, marreta-se que devemos aprender inglês, francês, espanhol, alemão... Mas nem todos nascem com esse talento nem têm oportunidade de o desenvolver ao longo da vida. Uma língua auxiliar propedêutica do estilo da interlíngua, introduzida logo no início da escolarização, poderia acelerar muito os aprendizados futuros, com o acréscimo de nos introduzir a um vasto vocabulário erudito. Não é por questão de justiça ou economia financeira, mas simples praticidade e esforço menor.

Vários internautas no mundo, inclusive no Brasil, estão descobrindo, aprendendo e difundindo a interlíngua de forma natural, embora o movimento esperantista continue muito vigoroso e bem mais avançado. Eu, ao contrário de algumas pessoas, não acho o esperanto difícil, e com ele posso ter acesso a alguns conteúdos culturais ainda indisponíveis em outras línguas. Mas o próprio Alexander Gode, que não foi o criador, mas um dos coordenadores do esforço coletivo dos linguistas supracitados, nunca teve a intenção de criar uma nova “auxlang internacional”, como ele afirma em seus melhores textos.* Pelo contrário, por sintetizar a herança linguística circunscrita à Europa Ocidental e às Américas, por si só muito significativas em termos de economia, tecnologia e habitantes, seria antes uma “língua-ponte” pras ciências, academias e relações institucionais. Se ela viesse a se tornar idioma internacional, seria pelas suas características inerentes, e não pela insistência de adeptos propagandistas.

* Ver, por exemplo, os artigos A Case for Interlingua (em inglês) e Manifesto de Interlingua (em interlíngua), ambos da década de 1950.

Em resumo, a diferença básica entre esperanto e interlíngua é que o primeiro seria criado em torno de uma concepção prévia do que seria a comunicação internacional ideal; enquanto o segundo apenas sintetizaria um substrato internacional que já estaria sendo usado nessa comunicação, a qual condiciona como deveria tomar forma a língua-ponte. Um, portanto, precisaria de adeptos e divulgadores, e o outro já teria os milhões ou bilhões que falam os idiomas-fonte. Sempre agradeço e parabenizo pelas iniciativas de ensino, e apesar da parada forçada por causa da pandemia, as tecnologias de comunicação remota podem ajudar na continuação das aulas. E daqui a alguns meses quero estar em Santos pro congresso da União Brasileira Pró-Interlíngua (ubibrasil.org), e quem sabe não posso ver vocês?



Alexander Gode, um dos pais da interlíngua.