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9 de agosto de 2020

Stalin abominava o alfabeto latino?


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Há alguns meses, na página Ilustrações da Era Comunista, com a qual colaboro com traduções, um senhor aludiu com as seguintes palavras o fato de Stalin ter obrigado várias línguas da antiga URSS a usarem o alfabeto cirílico: “Não fez com que a URSS mudase para o alfabeto latino, para assim fazer uma verdadeira Internacional como queria Lenin”. Ele se referia a um artigo do Russia Beyond, que aludia ainda à ideia mais audaciosa, corrente na década de 1920, de escrever o russo com o alfabeto latino. Assim lhe respondi:

Caro Franz, aqui é o segundo admin da IEC, formado em História. Agradeço-o pela indicação do artigo, pois me alertou pro grande problema da troca constante de alfabetos na URSS e me ensinou sobre essa pretensão de Lenin, que eu desconhecia. Sim, nem os pós-graduandos sabem tudo.

Contudo, reconheça comigo que mesmo os grandes líderes podem errar, e as grandes ideias podem se revelar estúpidas. E um desses erros seria impor o alfabeto latino à língua russa. Não sei se você é versado em linguística, mas ortografia/alfabeto, pronúncia, vocabulário/morfologia e sintaxe são partes inseparáveis de uma língua, e o russo se desenvolveu de forma orgânica com a escrita cirílica. O mesmo com várias outras línguas eslavas, exceto às que já evoluíram com o alfabeto latino. Alfabetos não se mudam como mudamos de cueca!

Pelo mesmo motivo, armênio e georgiano não receberam o cirílico, por serem línguas de cultura multissecular. Outras línguas não eslavas, como o azerbaijano, o tártaro e as da Europa Central, foram longamente escritas com o alfabeto árabe, o qual, porém, nunca lhes caiu bem nem foi conveniente. Não por menos: pela razão que lhe expliquei, o alfabeto árabe só é adequado pra própria língua árabe, e mais nenhuma, embora várias outras também a usem a fórceps. As línguas com alfabeto árabe tosco ou sem escrita podiam facilmente receber um latino ou cirílico adaptado, mas aí a escolha era eminentemente política.

Tendemos a naturalizar nosso alfabeto como “universal” e “fácil”, mas não é bem assim. Um russo, georgiano ou armênio escritos em alfabeto latino seriam monstruosos! (Claro que temos “transliterações” aproximadas, mas elas são soluções provisórias e não totalmente fiéis.) Pense na situação reversa, em que o cirílico seria imposto a uma língua naturalmente de alfabeto latino: foi o que o Império Tsarista tentou fazer com o polonês no século 19, e o Império Soviético com o romeno na Moldova após 1945. Ambas as “soluções”, claro, feiíssimas e disfuncionais! Quanto às outras línguas, de fato tanto o latino quanto o cirílico seriam adaptados, adotando-se o primeiro nos anos 20 e o segundo, por razões (de fato, e concordo) imperiais, nos anos 30.

Muitas antigas repúblicas da URSS adotaram depois o alfabeto latino, mas que ironia: o Tartaristão se manteve dentro da Rússia, e quando tentou oficializar o alfabeto latino (que seria, de fato, mais claro e fonético), nos anos 2000, foi proibido pelo poder central de Moscou! Enfim, tudo pra dizer que devemos separar as coisas: a latinização/cirilização das línguas ágrafas foi uma disputa, agora a latinização das línguas eslavas orientais não passaria de uma asneira desmedida.