quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Música viral da previsão do tempo grega

Um dia desses minha amiga Carol (a quem dedico esta publicação) me enviou um viral publicado em 10 de outubro de 2024 e legendado em inglês, dizendo comparar a previsão do tempo na Alemanha, que seria “desanimada e nublada”, com a previsão na Grécia, que seria “festiva e ensolarada”. Embora eu tenha descoberto que o programa grego tenha pelo menos nove anos, o vídeo continua circulando no mundo todo e a canção de fundo ainda é muito ouvida no YouTube e no Spotify. Ah, coitada, pra que ela foi me mandar isso? Eu sou historiador, e sempre tenho que pesquisar a origem das coisas, rs. E aproveite, pois o “meme” pode se tornar mais famoso ainda!

Curiosamente, as figuras envolvidas na história não são muito célebres na própria Grécia, se compararmos com ocasionais equivalentes brasileiros, embora a “moça do tempo” tenha bastantes seguidores em seu Instagram; e como só há verbetes sobre eles na Wikipédia grega, o Google Tradutor teve que me dar aquela ajuda. Eléni Tsoláki nasceu em Tessalônica, segunda maior cidade do país, em 10 de abril de 1986 e se define como apresentadora, blogueira e produtora de rádio. Ela se formou em Educação Física, mas já começou a trabalhar como apresentadora em 2006, num programa esportivo da TV de sua cidade natal. Ao longo dos anos, passou por várias emissoras e se focou cada vez mais em programas de entretenimento, atuando no programa de variedades Proinó Savvatokíriako (Manhã de Fim de Semana) de setembro a dezembro de 2025.

Ela se casou com o empresário Pávlos Petroulákis em 2017, mas só teve a primeira filha em março de 2025. O quadro da “previsão” do tempo faz parte do matinal Happy Day na Alpha (em inglês mesmo), liderado por Stamatína Tsimtsilí e do qual ela foi coapresentadora de março de 2014 a julho de 2017, mas não tenho certeza se ela já fazia essa coreografia desde o início. Na Alpha TV ela trabalhou de maio de 2013 a agosto de 2019, tendo apresentado vários outros programas, alguns simultâneos ao Happy Day.

A história de Kóstas Dóxas impressiona ainda mais. Nascido Konstandínos Díximos em 6 de outubro de 1979, foi jogador de futebol profissional antes de iniciar a carreira de cantor e compositor em 1997. Após colaborações com inúmeros artistas célebres, começou a ganhar fama no início dos anos 2000, e em 2014 chegou a ficar apenas 10 dias casado no civil com outra cantora grega. Em 2017, Dóxas se casou de novo e teve uma filha, mas se divorciou em 2020; em 2021, a ex-esposa o processou alegando ter sido repetidamente agredida, inclusive durante a gravidez. Ele negou as acusações, mas optou por abandonar um reality musical de que estava participando. Seu próprio canal no YouTube, lançado em 2014, ainda tem apenas cerca de 11,4 mil inscritos.

Dóxas gravou To tragoúdi tou kairoú (A canção do clima) como single em 2015, com uma primeira referência ao quadro de Tsoláki. Composta pelos músicos Lámbros Konstandáras (homônimo de seu avô, que foi um famoso ator) e Konstandínos Pantzís, recebeu uma “versão 2017” remixada por Giánnis Kritikós, que inseriu ainda mais referências, provavelmente após a fama dada pelo programa à música. Ela se tornou a faixa de Dóxas mais ouvida nas plataformas musicais e parece estar ganhando novo fôlego com a viralização da “previsão do tempo”. O tema da letra pode ser resumido no seguinte comentário feito por alguém ao meme no YouTube: “É agindo assim que os gregos conseguem aguentar mais de 30 anos de instabilidade política e econômica”.

Abaixo podem ser vistos quatro vídeos relacionados à canção, também conhecida pelo primeiro verso, Kaliméra óli méra (Um bom dia o dia todo): o primeiro com o áudio e a letra originais, e o segundo, com a “versão 2017”, ambos publicados pela gravadora; o terceiro é uma montagem de melhores momentos de Tsoláki tendo a música ao fundo, e o quarto é uma compilação de algumas das “previsões do tempo” ao longo dos anos, com outras trilhas também sendo usadas. Eu traduzi a partir da versão em inglês, dada pela própria gravadora, da faixa de 2017, e não trouxe a letra em grego; no canal, há a transcrição em alfabeto latino, e no portal AZ Lyrics pode ser lido na escrita original. Indiquei com as iniciais “GK” as inserções da remixagem de Kritikós:








Acordeeeem!!!!!!

GK: 1. Quando acordo de manhã
A única coisa que me inspira
Assim que abro meus olhos
É assistir ao programa Happy Day

Refrão:
Um bom dia o dia todo
Com muito ou pouco vento
E tudo vai se passar bem
Se as nuvens ainda estiverem soprando
Bom dia com o brilho do Sol
Da bela Grécia
Seja com neve
Seja com frio
Sempre pensamos positivo

Happy Happy Happy Day...
Happy Happy Happy Happy
Happy Happy Day...

2. Esqueça tuas muitas preocupações
E venha se sentar em nossa boa companhia
Deixe seus problemas de lado
A previsão do tempo com Tsoláki
Um hábito diário
Sempre vamos te contar a verdade:

(Refrão)

GK: 3. Mesmo se estiver chovendo ou nevando
Estamos sempre aqui
A mais bela companhia
Junto com nossa Eléni
Sempre passamos bons momentos
A previsão do tempo com Eléni Tsoláki
Um hábito diário
Sempre vamos te contar a verdade:

(Refrão)

(Repetir GK 1)

Happy Happy Happy Happy
Happy Happy Day

GK: A única coisa que me inspira
Assim que abro meus olhos
É assistir ao programa Happy Day

A melhor companhia
Vai sempre te dizer: Kaliméra (Bom dia)



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Canções fascistas traduzidas (4)

Além da recém-retraduzida Giovinezza, confesso que sempre achei bonitas as canções do período fascista da Itália (1922-43), quando ela se manteve formalmente como uma monarquia, mas na prática se tornou uma ditadura sob o primeiro-ministro Benito Mussolini. Fundador do Partido Nacional Fascista (PNF) e idealizador do fascismo (embora suas fontes intelectuais tenham sido diversas), ele tinha sido expulso do Partido Socialista Italiano por apoiar a participação do país na 1.ª Guerra Mundial e criou a matriz das extremas-direitas que tomariam o poder no período posterior, exacerbando o nacionalismo, destruindo o movimento operário independente e cultuando a guerra.

Melodias agradáveis, mas com cujo conteúdo e uso não posso concordar. Portanto, embora eventualmente apareçam por aqui adoradores do Duce (“guia, condutor”), estas traduções, que eu desejava fazer desde os tempos do Pan-Eslavo Brasil, meu finado canal no YouTube, têm um fim meramente educativo. Portanto, me abstenho de dizer mais, e apenas ressalto que por praticidade decidi não adicionar os nomes dos autores e que traduzi diretamente, deixando a linguagem mais informal e simples, sem mexer no conteúdo. Sempre que possível, incorporei os vídeos a partir de uma fonte mais antiga, que geralmente tem a legenda em italiano passando, e de outra que o Google gera automaticamente. Igualmente, apenas publiquei as traduções, e não as letras originais, que podem ser vistas nas respectivas fontes; coloquei todas as iniciais de linhas em maiúsculas e mantive a pontuação original quando possível.

A versão italiana do Wikisource tem uma seção só com letras de canções fascistas, embora esteja longe de ser exaustiva. Este blog publicou um ótimo trabalho sobre o hinário de Mussolini e trouxe ainda ampla ilustração sobre o colonialismo na África, com imagens particularmente racistas. Por outro lado, sempre há aqueles saudosistas que devemos citar de um jeito ou de outro, como esta coleção que inclui cantos de extrema-direita em geral e esta publicação cujo hospedeiro dispensa explicações.

As duas primeiras publicações são dedicadas à ideologia fascista de uma forma geral, e as duas últimas contêm letras com alusões à ocupação da Etiópia e da Somália, cujo arremedo de “império colonial” era crucial pra propaganda de Mussolini. As escolhas foram bem arbitrárias e, obviamente, não exaustivas. A primeira canção se chama Ti saluto, vado in Abissinia (Te saúdo, vou à Abissínia, nome histórico da Etiópia e da Eritreia), a segunda se chama Avanti gloriose schiere (Avante, fileiras gloriosas) e a terceira se chama Faccetta nera (Rostinho negro).




1. Estão se formando as fileiras e os batalhões
Que vão marchando em direção à estação.
Deixaram seus vilarejos natais
Cantando ao vento um alegre refrão.
O trem parte e em cada janela
O soldado moço repete alegremente:

Refrão:
Eu te saúdo e vou à Abissínia,
Querida Virginia, mas vou voltar.
Assim que chegar ao acampamento
Vou te escrever do regimento.
Vou te mandar da África uma bela flor
Que nasce sob o céu [da linha] do equador.
Eu te saúdo e vou à Abissínia,
Querida Virginia, mas vou voltar.

2. Um jovem soldado é todo ardor,
Outro tem no peito os sinais da bravura,
Mas vão juntos cheios de alegria
Cantando os hinos da juventude.
O velho da infantaria que não pode partir
Lamenta no coração por não poder dizer:

(Refrão)

4. Dos Alpes ao mar, chegando até o equador
Vamos hastear a Tricolor por toda parte
Eu te saúdo e vou à Abissínia,
Querida Virginia, mas vou voltar.


1. Estou deixando a mamãe, a doce casinha,
Minha pequena filha amada,
E agarro o destino que está esperando
Assinalar meu coração de glória;
E nos peitos, nos sangues de todos,
Um só grito: o Império. Vamos o ter!

Refrão:
Avante, fileiras gloriosas,
Vamos fincar as bandeiras tricolores,
A África vai ter um único nome: Roma,
É o grande nome da civilização eterna.

2. Você me beija, ó, menina gentil,
E me diz: vou partir com você, só me dê
Teu amor e um fuzil,
A coragem e a fé eu vou ter.
Sou mulher da Itália e não abandono
Que vai dar um Império à Itália.

(Refrão)

3. E a lembrança dos velhos soldados,
Que conduz sobre o novo caminho,
Tantos aviadores inexperientes abraçados,
Todos ligados por um só destino,
Estão cantando Giovinezza, e essa canção
Nos dá força, amor e conquistas.

(Refrão)




1. Se do altiplano você olhar o mar,
Moreninha, que é escrava entre os escravos,
Você vai ver, como num sonho, muitos navios
E uma Tricolor tremulando por você.

Refrão:
Rostinho negro, bela abissínia,
Aguarde com esperança, pois está chegando a hora!
Quando estivermos junto a você,
Vamos te dar uma outra lei e um outro Rei.

2. Nossa lei é a escravidão do amor,
Nosso lema é liberdade e dever,
Nós, Camisas Negras, vamos vingar
Os heróis que tombaram ao te libertarem!

(Refrão)

3. Rostinho negro, pequena abissínia,
Vamos te levar, liberta, a Roma.
Você vai ser beijada por nosso Sol,
E você também vai vestir a Camisa Negra.

4. Rostinho negro, você vai ser romana,
Tua bandeira será apenas a italiana!
Vamos marchar junto com você
E desfilar diante do Duce e do Rei!



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Canções fascistas traduzidas (3)

Além da recém-retraduzida Giovinezza, confesso que sempre achei bonitas as canções do período fascista da Itália (1922-43), quando ela se manteve formalmente como uma monarquia, mas na prática se tornou uma ditadura sob o primeiro-ministro Benito Mussolini. Fundador do Partido Nacional Fascista (PNF) e idealizador do fascismo (embora suas fontes intelectuais tenham sido diversas), ele tinha sido expulso do Partido Socialista Italiano por apoiar a participação do país na 1.ª Guerra Mundial e criou a matriz das extremas-direitas que tomariam o poder no período posterior, exacerbando o nacionalismo, destruindo o movimento operário independente e cultuando a guerra.

Melodias agradáveis, mas com cujo conteúdo e uso não posso concordar. Portanto, embora eventualmente apareçam por aqui adoradores do Duce (“guia, condutor”), estas traduções, que eu desejava fazer desde os tempos do Pan-Eslavo Brasil, meu finado canal no YouTube, têm um fim meramente educativo. Portanto, me abstenho de dizer mais, e apenas ressalto que por praticidade decidi não adicionar os nomes dos autores e que traduzi diretamente, deixando a linguagem mais informal e simples, sem mexer no conteúdo. Sempre que possível, incorporei os vídeos a partir de uma fonte mais antiga, que geralmente tem a legenda em italiano passando, e de outra que o Google gera automaticamente. Igualmente, apenas publiquei as traduções, e não as letras originais, que podem ser vistas nas respectivas fontes; coloquei todas as iniciais de linhas em maiúsculas e mantive a pontuação original quando possível.

A versão italiana do Wikisource tem uma seção só com letras de canções fascistas, embora esteja longe de ser exaustiva. Este blog publicou um ótimo trabalho sobre o hinário de Mussolini e trouxe ainda ampla ilustração sobre o colonialismo na África, com imagens particularmente racistas. Por outro lado, sempre há aqueles saudosistas que devemos citar de um jeito ou de outro, como esta coleção que inclui cantos de extrema-direita em geral e esta publicação cujo hospedeiro dispensa explicações.

As duas primeiras publicações são dedicadas à ideologia fascista de uma forma geral, e as duas últimas contêm letras com alusões à ocupação da Etiópia e da Somália, cujo arremedo de “império colonial” era crucial pra propaganda de Mussolini. As escolhas foram bem arbitrárias e, obviamente, não exaustivas. A primeira canção se chama In Africa si va (Vamos à África), a segunda se chama La marcia delle legioni (A marcha das legiões), e a terceira se chama Africa nostra (África nossa). Até aqui você já deve ter notado como, desde a saudação até a heráldica e a arquitetura, há uma obsessão por ressuscitar a cultura romana clássica: centúrias, legiões, o feixe de varas...


1. A trombeta do barbeiro já ressoou,
É a reunião do batalhão,
Um grito apressado pra mulher amada,
Depois o desfile ao longo do bastião,
E pelas ruas que ainda dormem
Ressoa a canção dos soldados:

Refrão:
Nós vamos por Mussolini
À África Oriental,
Temos com os abissínios [etíopes]
Muita desforra pra tirar.
Pra encerrar a partida,
Estamos levando na cartucheira
O elixir da vida longa
Ao négus [Haile] Selassie!
Nós vamos por Mussolini,
Pela Itália e pelo Rei!

2. Uma velhinha, tremendo de emoção,
Caminha apressada até a estação
Pra dizer a seu filho com amor:
“Vá, faça justiça, vou estar rezando!”
“Vou voltar com a marca da bravura!”
Lhe grita o filho enquanto o trem parte.

(Refrão)

3. E num dia não muito distante,
Lá distante, sobre o altiplano
Vamos ver tremulando
Mais soberba a Tricolor!
Nós vamos por Mussolini,
Pela Itália e pelo Rei!




Roma reivindica o império,
A hora das Águias chegou!
Ressoares de trombetas saúdam o voo
Do Capitólio ao Quirinal!
Terra, queremos te dominar!
Mar, queremos te navegar!
O [couraçado] Littorio retorna o sinal
De força, de civilização!
Sete colinas [de brasão] no céu,
Sete glórias no Sol!
O gênio e o fado dos Césares
Revivem no Duce libertador!
Sob os feixes de outrora,
À luz do dia,
Passa com mil bandeiras
O povo triunfante da Itália!
A partir de Roma, ó, Sol,
Possa você um dia
Contemplar novamente
Ainda mais reluzente a cidade.
Ó, Sol, ó, Sol,
Que você possa sempre beijar
Sobre a testa invencível [invicta]
Os filhos da Urbe imortal!


1. Recolhidos de cem vizinhanças,
Das mais belas regiões do mundo,
Retomando as ruas de Roma,
Atravessando o mar profundo.

Avançam em terra africana,
Cintilantes de alegria pugnaz,
Pra doar à Pátria distante
Um diadema de terra e de mar.

Refrão:
Somos os Camisas Negras,
Somos da infantaria ou soldados alpinos,
Somos mil fileiras valentes,
Somos os heróis de Mussolini!
Artilheiros e fuzileiros,
Vamos fazer nossa história,
Com os canhões e os [destróieres] Aviere,
Com as bombas e com os punhais!

2. Vai ser extirpado pela machadinha
Sacudida pela mão lictória [i.e. fascista]
Quem se opuser às metas seguras
Que o Fascismo assinalou à glória.

No florescer de aço e de cantos solenes,
A vitória radiosa vai resplandecer,
Na luz fulgurante das armas
A Abissínia [Etiópia] vai ser redimida!

(Refrão)



domingo, 22 de fevereiro de 2026

Canções fascistas traduzidas (2)

Além da recém-retraduzida Giovinezza, confesso que sempre achei bonitas as canções do período fascista da Itália (1922-43), quando ela se manteve formalmente como uma monarquia, mas na prática se tornou uma ditadura sob o primeiro-ministro Benito Mussolini. Fundador do Partido Nacional Fascista (PNF) e idealizador do fascismo (embora suas fontes intelectuais tenham sido diversas), ele tinha sido expulso do Partido Socialista Italiano por apoiar a participação do país na 1.ª Guerra Mundial e criou a matriz das extremas-direitas que tomariam o poder no período posterior, exacerbando o nacionalismo, destruindo o movimento operário independente e cultuando a guerra.

Melodias agradáveis, mas com cujo conteúdo e uso não posso concordar. Portanto, embora eventualmente apareçam por aqui adoradores do Duce (“guia, condutor”), estas traduções, que eu desejava fazer desde os tempos do Pan-Eslavo Brasil, meu finado canal no YouTube, têm um fim meramente educativo. Portanto, me abstenho de dizer mais, e apenas ressalto que por praticidade decidi não adicionar os nomes dos autores e que traduzi diretamente, deixando a linguagem mais informal e simples, sem mexer no conteúdo. Sempre que possível, incorporei os vídeos a partir de uma fonte mais antiga, que geralmente tem a legenda em italiano passando, e de outra que o Google gera automaticamente. Igualmente, apenas publiquei as traduções, e não as letras originais, que podem ser vistas nas respectivas fontes; coloquei todas as iniciais de linhas em maiúsculas e mantive a pontuação original quando possível.

A versão italiana do Wikisource tem uma seção só com letras de canções fascistas, embora esteja longe de ser exaustiva. Este blog publicou um ótimo trabalho sobre o hinário de Mussolini e trouxe ainda ampla ilustração sobre o colonialismo na África, com imagens particularmente racistas. Por outro lado, sempre há aqueles saudosistas que devemos citar de um jeito ou de outro, como esta coleção que inclui cantos de extrema-direita em geral e esta publicação cujo hospedeiro dispensa explicações.

As duas primeiras publicações são dedicadas à ideologia fascista de uma forma geral, e as duas últimas contêm letras com alusões à ocupação da Etiópia e da Somália, cujo arremedo de “império colonial” era crucial pra propaganda de Mussolini. As escolhas foram bem arbitrárias e, obviamente, não exaustivas. A primeira canção se chama Duce a noi (Um guia/Duce pra nós). A segunda se chama Il canto degli italiani (O canto dos italianos), cujo título não deve ser confundido com um dos apelidos do hino nacional moderno. A terceira se chama Inno a Roma (Hino a Roma), por vezes acompanhada do nome de seu letrista, Fausto Salvatori, que a escreveu em 1919, portanto, antes da entronização de Mussolini.




1. Na Itália dos fascistas
Os meninos também são guerreiros,
Somos balilla ou mosqueteiros,
A florada valente do regime.

As medalhas que portamos
Com o Duce aqui no peito,
Servem de escudo a nosso afeto
E o orgulho acende no coração!

Refrão:
O olhar do Duce brilha
Fixamente sobre seus balilla!
Que seja a centelha de amor que um dia
Saiu do coração dele! (Sim, sim).

O Duce [guia] de seus balilla
Ressoa a fé bem alto
Um nome mais doce
Que o teu não existe!

Um guia, um guia pra você!

2. Temos um belo mosquete
E a Itália o deu pra nós:
Mosqueteiros, com armas aos pés,
O destino a ser preparado!

Se Balilla tinha uma pedra,
Nós atiramos nossos corações:
O ardor másculo dos pequenos
Quer construir a Grande Itália!

(Refrão)

3. Primavera dos povos,
Roma retorna a seus destinos:
Mussolini foi quem o desejou,
Seu sonho já está em marcha!

Atados ao Duce, consagramos
À Grande Mãe os camponeses [cioru] invictos;
A Roma eterna vai apontar orgulhosa
Seus tesouros ao mundo!

(Refrão)

Esta terceira parte está ausente da maioria dos registros. A única ocorrência dessa palavra dialetal “cioru” está num fórum italiano que alude a uma balsa a cabo usada pra facilitar o transporte de operários, muitos deles de origem camponesa, que partiam da Igreja da Gran Madre di Dio, em Turim, à fábrica da Fiat localizada no distrito de Lingotto. O prédio dessa mesma fábrica foi considerado um dos primeiros projetos futuristas importantes do fascista Marinetti. A ditadura inicialmente resistia, sem sucesso, a que camponeses migrassem pra trabalhar na cidade, mas com o tempo essa barreira foi sendo removida pra que eles substituíssem os trabalhadores mandados à guerra em 1940. Não sei ao certo se cioru se refere aos operários, aos camponeses ou ao trabalho em geral e seu transporte.




Nascemos como um crepúsculo escuro
De renúncia, vergonha e dor:
Nascemos num ato de amor
Redimindo a desonra de outrem.
Nascemos no nome da Itália,
Coligados em torno de nossa bandeira:
A primavera renasceu conosco,
Reacendeu-se uma Chama no coração.
Surja, Itália, pra uma nova vida,
Assim deseja quem morreu por você,
Quem deu seu sangue,
Quem enfrentou o inimigo
Vai dar justiça pra Pátria.
Itália, ilumine seu rosto,
Tenha fé: o futuro é nosso.
Reaja, reaja, ó, Itália!
Tua juventude está renascendo.
Vamos ser tua vanguarda,
Coragem, italianos: sigam em frente.
O destino sorri somente aos fortes;
Liberem a Pátria, o Trabalho.
Vamos ser a Chama da Itália,
Os rebentos de uma aurora triunfal,
A avalanche impetuosa que surge:
Coragem, italianos: venham conosco!
Surja, Itália, pra uma nova vida.




1. Roma divina, a você sobre o Capitólio,
Onde verdeja eternamente o louro sagrado,
A você, nossa fortaleza e nosso orgulho,
O coro se eleva.
Salve, Deusa Roma! Em teu rosto cintila
O Sol que nasce sobre a nova história;
Com o brasão reluzente, no último horizonte
Se encontra a Vitória.

Refrão:
Sol, você que surge livre e sorridente
Doma teus cavalos sobre nossa colina;
Você não vai ver nada no mundo
Maior que Roma, maior que Roma!

2. O céu inteiro é um voo de bandeiras
E a paz do mundo hoje é latina:
A [bandeira] Tricolor domina
Sobre o canteiro de obra, sobre a oficina.
Você é mãe que dá a lei aos povos
Eterna e pura como o Sol que nasce,
Você abençoa o arado antigo e o rebanho
Numeroso que pasta!

(Refrão)

3. Você abençoa o descanso e o cansaço
Que se renova pela virtude do amor,
A juventude em flor e a idade
Antiga que está morrendo.
Mãe de homem e de rebanhos ovinos,
De obras diretas e de escolas pensativas,
Os regimentos voltam a tua casa
E o Sol nasce.

(Refrão)



sábado, 21 de fevereiro de 2026

Canções fascistas traduzidas (1)

Além da recém-retraduzida Giovinezza, confesso que sempre achei bonitas as canções do período fascista da Itália (1922-43), quando ela se manteve formalmente como uma monarquia, mas na prática se tornou uma ditadura sob o primeiro-ministro Benito Mussolini. Fundador do Partido Nacional Fascista (PNF) e idealizador do fascismo (embora suas fontes intelectuais tenham sido diversas), ele tinha sido expulso do Partido Socialista Italiano por apoiar a participação do país na 1.ª Guerra Mundial e criou a matriz das extremas-direitas que tomariam o poder no período posterior, exacerbando o nacionalismo, destruindo o movimento operário independente e cultuando a guerra.

Melodias agradáveis, mas com cujo conteúdo e uso não posso concordar. Portanto, embora eventualmente apareçam por aqui adoradores do Duce (“guia, condutor”), estas traduções, que eu desejava fazer desde os tempos do Pan-Eslavo Brasil, meu finado canal no YouTube, têm um fim meramente educativo. Portanto, me abstenho de dizer mais, e apenas ressalto que por praticidade decidi não adicionar os nomes dos autores e que traduzi diretamente, deixando a linguagem mais informal e simples, sem mexer no conteúdo. Sempre que possível, incorporei os vídeos a partir de uma fonte mais antiga, que geralmente tem a legenda em italiano passando, e de outra que o Google gera automaticamente. Igualmente, apenas publiquei as traduções, e não as letras originais, que podem ser vistas nas respectivas fontes; coloquei todas as iniciais de linhas em maiúsculas e mantive a pontuação original quando possível.

A versão italiana do Wikisource tem uma seção só com letras de canções fascistas, embora esteja longe de ser exaustiva. Este blog publicou um ótimo trabalho sobre o hinário de Mussolini e trouxe ainda ampla ilustração sobre o colonialismo na África, com imagens particularmente racistas. Por outro lado, sempre há aqueles saudosistas que devemos citar de um jeito ou de outro, como esta coleção que inclui cantos de extrema-direita em geral e esta publicação cujo hospedeiro dispensa explicações.

As duas primeiras publicações são dedicadas à ideologia fascista de uma forma geral, e as duas últimas contêm letras com alusões à ocupação da Etiópia e da Somália, cujo arremedo de “império colonial” era crucial pra propaganda de Mussolini. As escolhas foram bem arbitrárias e, obviamente, não exaustivas. A primeira canção se chama All’armi siam fascisti (Às armas, sejamos fascistas), embora “siam(o)” possa ser traduzido tanto “somos” quanto “sejamos”; acho que ambas dão certo. A segunda se chama Vincere!, que é fácil, né: Vencer!


Às armas! Às armas! Às armas, sejamos fascistas

E nós somos partes integrantes do Feixe,
Vamos apoiar a causa até a morte
E vamos lutar com cada vez mais força
Até nosso sangue encher o coração.
Sempre cantando louvores a nossa Pátria
Que vamos todos defender unidos
Contra adversários e traidores,
Que vamos exterminar um a um.

Às armas! Às armas! Às armas, sejamos fascistas

Todos sabemos qual é nosso objetivo:
Combater tendo a certeza da vitória,
E que isso nunca seja só pela glória,
Mas pela justa motivação da liberdade.
Os bolcheviques que combatemos
Vamos saber bem os fazer desparecer
E ao ouvir nosso grito, aquela gentalha
Sem dúvida vai tremer e morrer.

Às armas! Às armas! Às armas, sejamos fascistas

Vamos levar a vitória por toda parte
Porque a coragem não vai nos faltar,
E vamos gritar com cada vez mais força
E sustentar nossa causa sagrada.
Em guarda, amigos! Pois a cada ocasião
Vamos estar todos sempre prontos,
Até que a glória nossa, dos fascistas
Triunfe em toda a Itália.

Às armas! Às armas! Às armas, sejamos fascistas

Somos os adversários do bolchevismo
Porque eles não querem Pátria nem Família,
Porque eles são lixo e lama
Que devemos afugentar com desprezo.
Sempre gritando “Viva a Itália”,
Abaixo todos os que a renegam,
Ao alto, ao alto a Bandeira Tricolor
Que vai se sempre nosso amor.




1. Fortalecida por mil paixões,
A voz da Itália ressoou!
Centúrias, coortes, legiões,
De pé, pois chegou a hora!
Avante, juventude!
Superemos todo empecilho e obstáculo;
Despedacemos a escravidão
Que nos sufoca, prisioneiros de nosso Mar!

Refrão:
Vencer! Vencer! Vencer!
E vamos vencer, em terra, céu e mar!
É a palavra de ordem
De uma vontade suprema!
Vencer! Vencer! Vencer!
A qualquer custo, ninguém vai nos parar!
Os corações que exultam
Estão prontos pra obedecer,
Estão prontos e juram:
Ou vencer, ou morrer!

2. Capacete, punhal, mosquete,
Andamos com o passo romano!
A chama que queima no peito
Nos estimula, nos guia, e seguimos!
Avante! Vamos ousar o inaudito [inconcebível],
O impossível não existe!
Nossa vontade é invencível,
Ninguém jamais vai nos derrotar!

(Refrão)



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Jair Khamenei + M. Zakharova em chinês

A coleção “Mix de política ao redor do mundo” chegou muito rapidamente a sua trigésima edição, né? Pois bem, começando a mixórdia de hoje, vejam que interessante essa coincidência numérica. Pois mais que no caso do Irã possamos apenas especular, seria isso uma espécie de oráculo? Esqueça os inocentes, todos são códigos no capitalismo de vigilância...


A histriônica María Zakhárova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, publicou outro dia em seu canal pessoal no Telegram (que só está devagar na Rússia, e não totalmente banido) um vídeo falado em mandarim e legendado em moscovita. A pronúncia não está ruim e a iniciativa foi muito interessante, mas coloquemos dentro do contexto: a China não só não condenou a agressão contra a Ucrânia, mas também está ajudando Putin de tudo quanto é jeito, mesmo tentando passar “por debaixo dos panos”. Além disso, especialistas apontam que Moscou está economicamente cada vez mais dependente de Pequim, quase vassala, o que parece um contrassenso, dada a imensidão territorial do império polar. Pra mim, essa “colaboração” não pode ser vista sem um pouco de amargo na boca, mas confesso que ficaram bons o cenário e o fundo musical “xing ling”, rs:

O Ano do Cavalo está chegando! Do fundo do coração, desejo a todos um feliz Festival da Primavera! Desejo-lhes um ano novo repleto de energia, que vocês sejam os primeiros em tudo, que a boa sorte lhes chegue imediatamente e que o sucesso seja instantâneo! Na Rússia, a imagem do cavalo remonta a tempos imemoriais e está amplamente presente em contos populares, fábulas e tradições. Este ano, Moscou e Pequim vão celebrar a primavera juntas pela primeira vez! Moscou vai sediar, pela terceira vez já, uma vasta celebração do Ano Novo Chinês. Ao mesmo tempo, Pequim também vai celebrar amplamente a festa russa da Máslenitsa. Convido vocês a celebrarem o Ano Novo Chinês em Moscou e a Máslenitsa em Pequim! Até breve!

Год Лошади уже на пороге. От всей души поздравляю всех с Праздником Весны! Желаю, чтобы в новом году вас переполняла энергия, чтобы вы во всём были первыми, чтобы удача пришла к вам немедленно, и чтобы успех был мгновенным! В России образ лошади идёт из глубины веков и широко отражён в народных преданиях, сказках и традициях. В этом году Москва и Пекин впервые встретят весну вместе! Москва уже в третий раз станет площадкой для масштабного празднования Китайского Нового года. Параллельно с этим в Пекине также широко отметят русскую Масленицу. Приглашаю вас на празднование Китайского Нового года в Москве и Масленицы в Пекине! До скорой встречи!


Tenho uma atitude política e ideológica: sempre que consigo, pra evitar o YouTube, vejo vídeos e fluxos ao vivo e ouço músicas e podcasts nas páginas próprias das agências de notícias, quando muito no Spotify. E nunca uso aplicativos próprios, mas o site no Chrome. Neste caso, às vezes aparece a mensagem acima toda vez que deixo tocando uma playlist ou um álbum musical antigo inserido num único vídeo. Hoje consegui tirar um print e compartilhei no WhatsApp com a seguinte legenda: “Alguém já se deparou com isso usando YouTube no Chrome?”

Uma amiga minha respondeu ao status: “Sim! Geralmente em vídeos longos pra confirmar que você não dormiu (meu caso muitas vezes)”, rs. E você? Em todo caso, “Agradecemos a colaboração”!




E pra terminar, me desculpem pela sinceridade: como alguns desinformados ou desonestos já tão mencionando aqui na Banânia, precisei aludir brevemente ao recente morrimento do militonto facho “Quentinho” em Paris, ainda que a tradução do Google tenha ficado meio bizarra, só pra deixar claros alguns pontos que a “família em conserva” (outro meme do momento!) não vai te mostrar. Olha, nunca vou apoiar extermínios políticos e detesto a LFI de Mélenchon e da “Thithi Barraqueira”, sobretudo o que ela virou desde as eleições de 2022 e seu apoio velado à fração da Irmandade Muçulmana no Likud. Mas tô passado ao saber que os herdeiros de Maurras, Barrès e Le Pen tão querendo criar um novo Horst Wessel, desta vez nascido entre os inimigos figadais dos teutônicos!


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

60 anos do “relatório Khruschov” (RFI)

E pela milésima vez nesta página, mais um texto sobre a denúncia (incompleta, claro) dos crimes de Iósif Stálin por Nikíta Khruschóv no 20.º Congresso do Partido Comunista da União Soviética, rs. Até parece que não “superei” o tema de minha iniciação científica e de meu TCC, mas por acaso achei este artigo escrito por Olivier Favier e publicado no portal da Rádio França Internacional (RFI) no último dia 13 de fevereiro. Relembrando os 70 anos da leitura do famoso “relatório secreto”, seu título traduzido do francês é “14-24 de fevereiro de 1956: Como Khruschov pôs fim ao culto a Stalin”.

Ele cita o historiador Nicolas Werth, ainda muito atuante na área e cujas sínteses sobre a história da URSS, ao contrário dos estudos mais específicos dos anglófonos que estudam o stalinismo e a Comintern, jogam bastante luz sobre o período da “guerra fria”. Segue sendo referência obrigatória, junto aos compatriotas Hélène Carrère d’Encausse e Marc Ferro. Desde 2020, Werth é chefe da filial francesa da sociedade Memorial, dissolvida na Rússia por resgatar as memórias dos perseguidos pelos bolcheviques, e tem escrito livros e artigos denunciando a manipulação da história por Vladimir Putin.

Mantive o “presente histórico”, estranho em textos jornalísticos, e tentei adaptar os outros tempos verbais conforme ficassem mais naturais em português. O célebre e famigerado “-ev”, que aparece erroneamente nos fins de alguns sobrenomes, foi devidamente corrigido pra “-ov” (variante de “-iov” após SCH e algumas outras letras), e “Iósif” não é “Josef” nem “Joseph”. Favier tem o mérito de citar, embora sem se aprofundar, o que chama de “negacionistas”, como Grover Furr, um não especialista pra quem Stalin estaria sempre certo. Ele não é o único, e infelizmente tem seguidores, inclusive aqui nos Trópicos, a quem espero que chegue esta humilde tradução e as referências citadas, sem muita esperança, contudo, que possa surtir algum efeito, ao menos imediato.



Quando, em 14 de fevereiro de 1956, os 1 436 delegados do partido na URSS e os representantes dos 55 partidos-irmãos se reuniram em Moscou pro discurso de abertura do 20.º Congresso do Partido Comunista, proferido por Nikita Khruschov, primeiro-secretário do Comitê Central desde setembro de 1953, ninguém imaginava a explosão que desencadearia, dez dias depois, a leitura de um relatório “Sobre o culto à personalidade e suas consequências”, pelo mesmo homem.

Stalin deve ter chegado a acreditar que era imortal. Após falecer, em fevereiro de 1953, seus colaboradores mais próximos se veem em imediata competição e, inicialmente, decidem dividir as tarefas de forma mais ou menos igualitária entre si. Dentre eles, Lavrénti Béria, ministro do Interior e vice-primeiro-ministro, se torna o novo homem forte do regime.

Ele é um monstro absoluto, sem convicções políticas, mas movido por uma ambição desmedida. A seus inúmeros crimes de Estado se ajuntam os de um predador sexual que sequestra, estupra e mata mulheres nas noites de Moscou. Ele tinha sido o braço direito do “Paizinho dos Povos” desde 1933, e houve muita especulação, sem provas conclusivas, sobre sua responsabilidade no falecimento dele. Caído em desgraça recentemente e sabendo que estava condenado, certamente tinha todos os motivos pra o eliminar.

Um mundo de sobreviventes – Ele é o primeiro a trilhar o caminho da desestalinização, nos planos interno e externo. Mais de um milhão de prisioneiros, em sua maioria criminosos comuns, são libertados do GULAG, e ele se mostra disposto a abandonar a Alemanha Oriental em troca da promessa de que o país permaneceria desarmado. Isso foi demais pra seus rivais, que se livram dele alguns meses depois, na mais pura tradição stalinista. Um simulacro de julgamento é realizado a portas fechadas alguns meses após sua prisão, levando inevitavelmente a uma sentença de morte que parece, aliás, ter sido puramente simbólica, já que o condenado provavelmente morreu enquanto era preso.

A partir de setembro de 1953, Nikita Khruschov, que se tornou o primeiro-secretário do partido, ascende por sobre os demais burocratas. Ele também tinha crescido à sombra de Stalin, mas, diferentemente de Beria, era um revolucionário sincero, mesmo que sua adesão ao bolchevismo tenha sido relativamente tardia e puramente estratégica. Da mesma forma, após a morte de Lenin, inicialmente se inclina pra Trotsky antes de aderir à linha majoritária, decisão que o levará a fazer sua autocrítica alguns anos depois. Durante os Grandes Expurgos de 1937-38, ele não interviria quando seus colaboradores mais próximos foram eliminados pelo regime.

Assim como outros líderes do regime, Khruschov é um sobrevivente. Ele quer reerguer a economia do país, devastada pela guerra e pela destruição das elites orquestrada por Stalin. Em 1955, com o Pacto de Varsóvia, ele tinha dado ao Bloco Oriental uma estrutura militar, que considerava um equivalente de direito à OTAN, criada seis anos antes. Investe na agricultura com algum sucesso, aumentando a renda média da população e conquistando certa popularidade. Acima de tudo, pretende dar aos líderes, como um todo, os meios pra desfrutarem de seus privilégios, se afastando de um regime de terror em que qualquer responsabilidade levava, mais cedo ou mais tarde, à desgraça e à morte.

Uma explosão – Em março de 1956, é hora de retornar às grandes cerimônias rituais dos congressos do Partido Comunista. Não havia ocorrido um desde 1952, e essa vigésima edição nasce sob o signo de um renovado senso de continuidade. Os 1 436 delegados presentes, assim como os representantes dos 55 partidos-irmãos, esperam, portanto, reconhecer uma certa continuidade. O discurso de abertura, aliás, trabalha nessa direção, lembrando a todos que a URSS e seus valores tinham sobrevivido perfeitamente ao homem que os tinha personificado por quase trinta anos. Stalin não é denunciado; ele simplesmente aparece como uma figura do passado.

Dez dias depois, em 24 de março, no final da tarde, Khruschov convoca uma reunião a portas fechadas apenas com representantes da União Soviética e lhes apresenta seu “Relatório sobre o culto à personalidade e suas consequências”. Sob completo silêncio, se pôs a ler em voz alta o que se revela uma demolição completa de seu antecessor, apoiada por estatísticas. Lembrou como 70% dos membros do Politburo [Birô Político] de 1934 tinham sido executados, essencialmente durante os julgamentos-espetáculo de 1937-38. Evoca o destino trágico das minorias, a apatia de Stalin e, depois, suas decisões erráticas durante a invasão nazista de 1941-42, e sua obsessão paranoica por conspirações. Até o trotskismo, até então definido como a pior forma de traição, recebe certa indulgência em suas observações.

Juiz e cúmplice de muitas das atrocidades que detalha, ele evita cuidadosamente detalhar os episódios em que muitos sabem que esteve diretamente envolvido. Além disso, seu requisitório começa em 1934 e não contém uma palavra sobre o genocídio ucraniano, o Holodomor, que precedeu imediatamente esse período. De modo geral, ele prioriza os crimes políticos que visavam líderes do regime em detrimento dos crimes massivos que atingiram o povo e estavam no cerne da máquina mortífera stalinista. Nos dias seguintes, o relatório é lido em voz alta, proibindo-se de fazer anotações, em todos os escritórios do partido em território soviético. No final de março, o New York Times ecoa o relatório. Contudo, ele só é publicado em 1989 e desde então passa a ser conhecido como “relatório secreto”. A partir daí, seus contornos podem ser interpretados livremente.

Um negacionismo persistente – Na França, onde o partido é dominado por stalinistas leais, se fala, portanto, no “relatório atribuído ao camarada Khruschov”. O secretário-geral Maurice Thorez, que possuía uma cópia, chegou a afirmar que o texto descrevia “os defeitos e méritos do camarada Stalin”. A pressão que ele e outros conservadores exercem sobre Moscou leva Khruschov a moderar o tom, o qual ele próprio, além disso, não admitiu que era pessoalmente seu.

Foi produzido outro relatório, considerado mais aceitável. Jeannette Thorez-Vermeersch, esposa do dirigente francês, vai se manter firme em sua posição até morrer, em 2001: “Não sejamos anões que cospem nos túmulos de gigantes”. Esse negacionismo ainda persiste em algumas publicações recentes traduzidas pro francês, como o estonteante Khruschov mentiu [Khrushchev Lied], do medievalista americano Grover Furr.

Khruschov foi o primeiro chefe de Estado soviético a deixar ao poder, embora contra sua vontade, em 1964. Ele morre sete anos depois. Com ele, a URSS passou, como escreve o historiador Nicolas Werth, “de um sistema que pode ser descrito como totalitário a um Estado autoritário e policial” [Histoire de l’URSS, PUF, 2021, coleção Que sais-je ?]. O caminho exatamente oposto está sendo trilhado na Rússia de hoje, onde Vladimir Putin transforma Stalin num herói nacional e Lenin, no defensor de um internacionalismo inerentemente falho e prejudicial aos interesses do país.



Em protesto contra a ocupação soviética, os húngaros derrubam a estátua de Iosif Stalin durante a revolta de Budapeste em 28 de outubro de 1956. Ela quebra na altura dos joelhos sob os golpes da multidão enfurecida. Poucos meses após o relatório de Khruschov, a desestalinização mostra suas limitações. (Imagem da Associated Press)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

JAIREKSEI BOLSONAVALNY


Se as eleições parlamentares fossem hoje no Reino Unido, segundo o canal de TV Sky News, baseado em pesquisas anteriores, este seria o resultado: Reform UK (de Nigel Farage, rotulado como extrema-direita), trabalhistas, conservadores, verdes e liberais-democratas.


Ligando o modo “caçador de sósias”, como diz um amigo meu. Descobri quem era na vida real o Zunim Zoião, famoso personagem infantil dos bonecões do programa Nas garras da patrulha, da TV Diário no Ceará! Infelizmente, descobri uma versão atualizada do Zunim, mais recente, mas que não guarda nada da beleza original desta linda criança:


Ekaterina Kotrikadze entrevista Geraldo Alckmin pra nossa querida e familiar TV Rain (Telekanal Dozhd). Ele está na Conferência de Segurança de Munique e teve a cabeça, já bastante calva, completamente raspada. Não quer mais ser confundido com Mao Zedong, rs. Falando nisso, em seu programa de política internacional da última terça-feira, chamou a atenção seu look country estilo Chitãozinho, ou melhor... Chorãozinho:




E pra terminar com bom humor: eis que tô limpando os registros de minha mãe no Google e descubro que ela já usou o YouTube com a cabeça ligada “no piloto automático”!


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Tentei instalar o aplicativo russo MAX

O aplicativo de mensagens MAX, que Vladimir Putin praticamente obrigou o serviço público a usar e pelo qual ele quer substituir o WhatsApp e o Telegram, só está disponível num punhado de países, a maioria deles antigas repúblicas da União Soviética ou membros da CEI, países ainda socialistas e alguns “párias” globais que ainda acham frequentável o ditador cuja crueldade só perde pra de Stalin. Isso, apesar da Jararaca ir até a Praça Vermelha lamber o saco do ex-espião, ornar-se com uma fita de são Jorge suja com o sangue dos ucranianos e frequentar a ritualmente esvaziada Parada da Vitória em 9 de maio de 2025, como se a Europa Oriental não estivesse neste exato momento sendo palco de alguns dos piores crimes contra a humanidade (sem contar República Democrática do Congo, Sudão, Mianmar, Iêmen, região do Sahel etc.).

Essa é a tela que encontramos quando queremos baixar pela Play Store “o aplicativo que pega até em garagem subterrânea”: indisponível na Banânia. Ora, mas quem é que precisa da intermediação de estadunidense monopolista imperialista capitalista sionista taxista onanista revista autopista? Vamos ligar o VPN como se estivéssemos na Moscóvia, usemos um navegador menos suspeito e entremos diretamente no website oficial pra baixar a versão pra computador! (Tá, confesso, tive uns enroscos com meu smartphone, mas acho que o resultado não ia ser diferente...)

Cinão vegemos: o MAX afirma nos oferecer “O máximo de possibilidades pra vida: um aplicativo rápido e leve pra se comunicar e resolver as tarefas do dia a dia”. Sinceramente, pra um regime xenofóbico como o putinista atual, me impressiono como ele tenha escolhido um nome latino pra batizar seu próprio WeChat (“Weixin”, ou “micromensagem”, na China). Em prol da coerência e conforme o significado, deveria se chamar Bolsh, que deve te evocar alguma coisa e, portanto, certamente faria um baita sucesso entre as viúvas ocidentais do stalinismo:



Após enjoar de ver tanta cara branca, magra, feminina, bem arrumada e feliz da vida nas animações de propaganda, rolo um pouco mais a tela e encontro as fontes possíveis pra baixar. Devemos obviamente escolher a última, “Para computador”, já que os GAFAM são “russofóbicos”, pela definição atual da Vulgata:


Chegando na tela “Bolsh MAX para computador”, devemos escolher nosso sistema operacional. Já que sou mais uma vítima do monopólio, preciso optar por baixar o programa pra Windows, pois a “Versão web” à direita e abaixo só funcionam, assim como o WhatsApp, escaneando um QR-code com o aplicativo já instalado no celular:


A uma incrível taxa de transferência, pouco menos de duas horas depois (eu acho, não calculei bem), baixei os enormes 296 MB, levando em conta, claro, o fato de estar com VPN, localizado na RSFSR etc...


Após nos saudar (rs), o instalador nos pergunta se queremos seguir adiante (dáleie) ou se queremos cancelar o processo (otména). Claro que quero entrar nesse novo mundo:


Tudo “aprontado”, temos a opção de “voltar pra trás” pra corrigirmos alguma coisa (nazád), instalar logo de uma vez (ustanovít) ou, mais uma vez, desistir enquanto temos tempo de escapar das malhas do FSB:


Enfim, a instalação está pronta! Com o botão “Pronto” (gotóvo), finalmente podemos desfrutar dessa belezura! Poderia ser mais fácil e intuitivo?


Só que não... O Máximo Bolchevique finalmente nos pergunta “Com que número de telefone você deseja entrar? Vamos enviar para ele um SMS com o código.” E pra nossa surpresa são permitidos apenas telefones de um punhado de países, além do próprio Império (copiei os prints do menu rolado numa imagem só): Belarus, Azerbaijão, Armênia, Vietnã, Geórgia, Indonésia, Cazaquistão, Camboja, Cuba, Quirguistão, Laos, Malásia, Moldova, Emirados Árabes Unidos, Tajiquistão, Tailândia, Turcomenistão, Turquia e Usbequistão.

Quase toda a rabeira do Índice Global de Democracia. Todos socialistas, “ex-soviéticos” ou muito hesitantes em condenar as agressões moscovitas. Nenhum país “ocidental”, exceto Cuba, muito menos da UE, nenhum país africano, que dirá a Pequena Rússia Ucrânia e sua “junta de Quiévi”. Nem mesmo a “amiga indestrutível” China. A Coreia do Norte só não tá porque eles têm intranet. A Turquia corta pra todo lado, com um hiperlateralismo que mais parece o símbolo do CHP da oposição kemalista do que o partido bolsoislâmico no poder. A Tailândia é um ninho de golpes (nos dois sentidos). A Moldova (milagre: não está escrito “Moldávia”, assim como está “Belarus”, e não “Bielorrússia”!), cuja situação conheço bastante bem, tem uma “minoria russa” considerável e ótima como fator de desestabilização das atuais tentativas de aproximar o país cada vez mais da adesão à UE:


E assim acabou minha aventura. Obrigado pela atenção, pessoal, e ótimo Carnaval, sem repressão nem aplicativos espiões!