domingo, 1 de março de 2026

A guerra eterna de Putin (The Economist)

Um amigo meu me mandou esta matéria da revista britânica The Economist, publicada na coluna Leaders da edição de 21 de fevereiro de 2026 e intitulada “Putin’s forever war”. A tradução do título, sugerida pelo Google, foi “A guerra sem fim de Putin”, mas eu prefiro chamar de guerra eterna, já que, além de soar mais elegante, forever de fato significa “pra sempre”. Como ficou óbvio, usei o Google pra poupar tempo de digitação, mas como sempre faço nesses casos – e reitero pra que ninguém esqueça –, confrontei o resultado com o original em inglês, já que a mão humana sempre deve finalizar os trabalhos automáticos. Salvo por algumas particularidades redacionais, optei por mexer o mínimo possível no resultado e não lhe imprimir meu famoso “estilo coloquial”.

Exceto pelas curtas notas, concordo em cada vírgula com o texto (que deve ser editorial), pois ele reflete inclusive as análises do jornalismo opositor russo mais próximo das realidades locais – em Moscou e em Kyiv – e de outras organizações ao redor do mundo dedicadas a monitorar os combates. A montagem abaixo, inclusive, vem de um print que fiz do programa analítico semanal de Mikhail Fishman na TV Rain. E é incrível como a mentalidade dos intelectuais e acadêmicos brasileiros continua muito alheia a isso, alegando “distância sanitária” do mundo “imperialista”. E mesmo que o imperialismo ocidental seja um dado irrefutável, como prova a intervenção israelo-americana no Irã iniciada ontem, ainda não programei materiais sobre o que pode futuramente acontecer na região.



O presidente da Rússia não consegue vencer a guerra, mas teme a paz

Você poderia pensar que, após quatro anos sangrentos, uma guerra que nenhum dos lados consegue vencer teria se extinguido sozinha. Mas não a guerra na Ucrânia. E a culpa recai sobre um único homem.

Vladimir Putin está preso em um dilema criado por ele mesmo. As chances de seus exércitos na Ucrânia produzirem algo que ele possa chamar de vitória estão diminuindo. Muitas pessoas esperam que as negociações de paz, que continuam em Genebra esta semana, lhe deem uma saída, porque o presidente Donald Trump forçará a Ucrânia a ceder território. Na verdade, essa rota de fuga está se tornando cada vez menos provável. E mesmo que um acordo de paz fosse concluído, as consequências dentro da Rússia poderiam causar instabilidade econômica e política, arruinando os planos de Putin de ser considerado um dos maiores tsares da história.

O primeiro problema para o presidente da Rússia é o campo de batalha. Na Grande Guerra Patriótica, de junho de 1941 a maio de 1945, o Exército Vermelho avançou 1 600 km de Moscou a Berlim. Nesta guerra prolongada, as forças russas em Donetsk, o foco principal, avançaram apenas 60 km – a mesma distância entre Washington e Baltimore.

A Rússia não conseguiu gerar força de combate suficiente para romper as linhas ucranianas. Na “zona de morte” de 10 a 30 km ao redor da linha de frente, vulnerável a drones e seus operadores oniscientes, soldados e equipamentos não podem se concentrar sem se tornarem alvos. Mesmo que as forças russas consigam romper as linhas ucranianas, elas têm dificuldades para explorar seu sucesso.

Na trajetória atual, Putin não conseguirá mudar isso. Nos primeiros três anos, a Rússia estava construindo seu exército. No final do ano passado, estava perdendo mais homens do que conseguia recrutar. Eles são mal treinados, o moral está baixo e as taxas de deserção estão mais altas do que nunca. A Starlink cortou o acesso das forças russas aos terminais contrabandeados dos quais dependiam para localizar alvos. Seu próprio governo cortou o Telegram, que eles usavam para se comunicar na linha de frente.

Putin terá dificuldades para aumentar a quantidade e a qualidade dos recrutas. A Rússia depende do dinheiro, e não do patriotismo, para alistar soldados. A probabilidade de morte ou ferimentos, a negligência com os veteranos e a tentativa do Estado de se esquivar do pagamento de indenizações [“coffing money”, entre aspas no original] às famílias dos soldados mortos estão elevando o custo do recrutamento. Desde junho de 2025, segundo o think tank Re: Russia [portal independente de análises e discussões], o bônus médio de alistamento aumentou meio milhão de rublos, chegando a 2,43 milhões de rublos (US$ 32 mil). Está cada vez mais difícil encontrar dinheiro. A conta anual de 5,1 trilhões de rublos para tudo isso equivale a 90% do déficit orçamentário federal. O restante da economia está encolhendo. Os pagamentos da dívida estão aumentando. A perspectiva para as receitas do petróleo é ruim.

O esforço de guerra da Rússia não está prestes a entrar em colapso. Putin pode atacar cidades e redes elétricas ucranianas para destruir o moral e a economia. Mas é improvável que ataques aéreos por si só levem à capitulação. Ele pode acreditar que a Europa abandonará a Ucrânia, mas o apoio europeu aumentou no ano passado. Sua maior esperança pode ser que a Ucrânia, sofrendo com grave escassez de mão de obra e equipamentos, passe por uma crise política ou comece a ficar sem combatentes e armas antes da Rússia. No entanto, a aposta de Putin no colapso ucraniano tem sido perdedora nos últimos quatro anos – e as probabilidades estão diminuindo.

Por que, então, ele não concorda com a paz? Se Putin pudesse consolidar os ganhos da Rússia e se reagrupar, ele sempre poderia atacar a Ucrânia novamente em algum momento no futuro.

Na verdade, é improvável que qualquer plano de paz satisfaça a Rússia. As negociações têm um caráter de fachada [Potemkin quality], ilustrado pela promessa absurda de um dividendo de paz de US$ 12 trilhões, grande parte a ser dividida entre a Rússia e os EUA (ver a seção Finanças). Também é improvável que elas deem a Putin o território que ele não conseguiu tomar pela força e que ele deseja para declarar vitória.

Para a Ucrânia, entregar seu território mais bem defendido seria um desastre estratégico. E embora Trump ainda tenha influência, sua capacidade de pressionar Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, a aceitar um mau acordo já passou de seu auge. É verdade que os EUA ainda vendem armas vitais para a Europa, que as repassa para a Ucrânia. Mas a Ucrânia agora depende menos da inteligência americana do que antes, e os EUA reduziram em 99% seu financiamento da guerra. Se, como parece provável, qualquer acordo de paz envolver garantias de segurança americanas para a Ucrânia que estejam consagradas em um tratado, o Senado terá que ratificá-lo. Isso também ajudará a evitar um acordo unilateral.

Outro motivo para Putin ser cauteloso quanto a um acordo é que a própria paz poderia desencadear uma crise na Rússia. Como explica nossa coluna de opinião, a Rússia desviou tantos recursos para a defesa, agora representando 8% do PIB, que o restante da economia está debilitado (ver a seção By Invitation). A ilegalidade do regime e a perspectiva de novas hostilidades afastarão novos investidores. O desafio de realocar recursos da guerra para a paz, incluindo encontrar trabalho para os soldados que retornam da frente de batalha, pode induzir uma profunda recessão.

A situação política também seria desagradável. Veteranos descontentes desestabilizam regimes, especialmente na Rússia, como aconteceu antes da revolução de 1917 e depois da guerra no Afeganistão na década de 1980. Pesquisas sugerem que os russos inicialmente receberiam bem o fim dos combates. Mas certamente surgiriam questionamentos: sobre a campanha mal conduzida, o desperdício de vidas e recursos e a humilhante dependência da Rússia em relação à China para apoio financeiro e militar em nome da preservação de sua própria civilização. Isso poderia limitar a capacidade de Putin de reiniciar a guerra. Poderia inclusive representar uma ameaça a seu poder.

Putin não pode desistir da guerra, mas o custo de mantê-la está aumentando. Se suas tentativas de gerar mais força de combate apenas enfraquecerem ainda mais a Rússia, isso poderá levar a uma crise. Caso contrário, a Ucrânia e a Rússia ficarão presas no conflito. Há algo que possa ser feito para acabar com isso? Investigar a frota secreta da Rússia e ativar um plano do Senado para punir os compradores de seu petróleo poderia limitar as receitas de exportação. Contrariar a propaganda de Putin de que os EUA e a Europa estão empenhados em destruir a Rússia ajudaria. Assim como corrigir suas alegações de uma inevitável vitória russa: ninguém, muito menos Trump, gosta de apoiar um perdedor.

É difícil forçar um ditador a agir. Em última análise, a disposição de Putin em continuar lutando depende da dor que ele está disposto a infligir. Mas quanto mais dor houver, mais claro ficará para os russos que ele está trazendo a ruína sobre eles.