1 de março de 2022

Rússia, Ucrânia e o conflito linguístico


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O Gabriel, universitário que administra a página Linguisticando, fez uma postagem mostrando como o conflito entre a Rússia e a Ucrânia também é linguístico (pelo menos dentro da Ucrânia). Ele me mandou seu texto e eu o corrigi, adicionando ainda outras informações relevantes. Como observação geral sobre o teor, eu também lhe disse: “Tá faltando todo o background histórico aí, mas não sei como isso podia ser inserido.” Depois enviei ao Gabriel as seguintes notas, que com algumas adaptações, puderam se tornar a presente postagem.

A questão linguística não é só política, é cultural também. A Ucrânia fazia parte do Império Russo até 1918, quando teve um breve período de independência. Antes, a língua ucraniana era bastante desfavorecida, e o russo era a língua oficial imposta. A verdadeira literatura em ucraniano só surgiu no século 19, e nessa época o russo e o ucraniano falados eram muito próximos, sobretudo nos campos (que eram, basicamente, quase toda a população). Já o russo, à medida em que foi se formando como língua literária, sofreu muita influência do eslavônio, que era essencialmente uma língua eslava meridional, mas se usava oficialmente na Rússia até o início do século 18. O eslavônio até hoje é usado na liturgia da Igreja Ortodoxa Russa e de outras igrejas ortodoxas. E esse russo literário acabou se tornando a língua difundida na URSS durante a erradicação do analfabetismo, de forma que virtualmente todos os dialetos desapareceram.

Da dominação russa no conjunto da URSS é que derivam as questões políticas, mas ao contrário do que muitos falam, o ucraniano não chegou a ser “proibido”. Embora em vários momentos seu uso fosse desencorajado, a literatura continuou florescendo, mas a essa altura o padrão literário já tinha sofrido grande influência do russo. Tanto que o ucraniano falado pela imigração brasileira, que chegou ao Sul no fim do século 19, quase não é entendido pelos ucranianos de hoje, alfabetizados no ucraniano literário moderno. Tem um caso curioso, que na época da URSS a letra Ґ ґ, que representa nosso som “gué”, foi excluída do alfabeto, substituída pela letra Г г, que também soa “gué” em russo, mas soa parecido com o “h” aspirado do inglês em ucraniano. Com a independência da Ucrânia, a letra Ґ ґ voltou ao alfabeto...

No fim das contas, o russo era a língua franca e científica de toda a URSS, e quando houve a independência, colocou-se obviamente todo o problema da língua, tanto no modo como o ucraniano seria oficializado e usado em domínios como ciência e tecnologia quanto no tratamento a ser dado à língua russa. Afinal, a URSS funcionava na prática como um território único, e russos se mudavam pras antigas repúblicas soviéticas a todo momento. Além disso, quando os bolcheviques desenharam as fronteiras da Ucrânia, não levaram em conta critérios muito claros, coisa que Putin ressaltou quando anexou a Crimeia em 2014. Daí resultou que o Donbass, que de fato é historicamente uma região de maioria russa, ficou na composição da Ucrânia, o que pra Moscou não fazia grande diferença, já que virtualmente a independência era inimaginável.

Acredito que esse seja o principal problema, pois quanto mais radical é o nacionalismo ucraniano (que, de fato, tem vários matizes), maiores são o sentimento antirrusso e a tendência a ver o ucraniano como a única língua nacional de direito. Putin usa justamente essas tendências mais radicais pra alegar que os russos são “perseguidos” ou sofrem “genocídio” na Ucrânia, sendo que na própria Rússia os trabalhadores ucranianos pobres (imigração econômica) são muito discriminados. Ianukovych, o presidente deposto em 2014 e muito alinhado a Putin, era acusado pelos nacionalistas de falar/saber mais russo que ucraniano, enquanto no mesmo ano o novo governo quase passou uma lei que basicamente impunha o ucraniano como única língua nacional e obrigatória nos serviços públicos.