domingo, 17 de setembro de 2017

Hino da União Soviética (texto de 1944)

Após mais de três anos, estou realizando um antigo desejo. Hoje e na próxima postagem, estou publicando uma versão fixa das duas letras do Hino Nacional da União Soviética que vigorou de 1944 a 1991. Essa melodia é a mais famosa entre os hinos da Rússia (tanto que hoje está vigorando novamente, com uma terceira letra), e se tornou um ícone cultural entre os aficionados por história do século 20, os comunistas e simpatizantes da antiga URSS e os que, por qualquer razão, têm saudades do mundo bipolar. Na postagem de hoje, vocês vão ler e escutar a letra adotada em 1944 e abandonada em 1956.

Desde quando a URSS foi formada, em 1922, até 1943, ela usou a famosa canção libertária A Internacional como hino nacional. Nos anos 30, começou um concurso pra escolher um novo hino próprio, original, e finalmente, em 14 de dezembro de 1943, o Birô Político do Comitê Central do Partido Comunista escolheu a melodia de Aleksandr Vasilievich Aleksandrov, consagradíssimo músico, e a letra de Sergei Vladimirovich Mikhalkov e Gabriel El-Registan. O hino foi executado em público pela primeira vez em 1944. A letra continha menções laudatórias a Stalin e aos combates da 2.ª Guerra Mundial.

Em 1956, no rastro do processo político chamado “desestalinização” e liderado por Nikita Khruschov, o hino passou a ser executado sem letra. Além dos óbvios incômodos causados pelos elogios a Stalin, a referência à Segunda Guerra, mais exatamente na terceira estrofe, estava agora superada num contexto de relativa paz e busca pela inserção mundial da URSS. Em 1970, o mesmo Mikhalkov preparou uma versão corrigida da antiga letra, que começou a ser usada em 1971 e foi enfim ratificada pelo Presidium do Soviete Supremo em 27 de maio de 1977, pra coincidir com o jubileu da Revolução de Outubro.

O hino soviético também foi o da RSFS da Rússia até 23 de novembro de 1990, quando ele se tornou apenas da URSS inteira e aquela república adotou a Canção Patriótica. Em 26 de dezembro de 1991, também foi executado pela última vez como hino da União Soviética, a qual tinha sido dissolvida no dia anterior, com a renúncia de Mikhail Gorbachov. A melodia foi enfim recuperada em 2000, pra integrar o novo Hino Nacional da Federação Russa, com letra quase toda modificada mais uma vez por Sergei Mikhalkov.

Ainda hoje, a versão do hino da URSS usada de 1944 a 1956 é um monumento estimado pelos admiradores de Stalin, pois ela seria a canção verdadeira, antes que começasse a “desestalinização”, iniciativa repudiada pelos marxistas-leninistas. Na Letônia, Lituânia, Geórgia e Ucrânia, é proibido por lei executar publicamente o hino da antiga URSS, assim como empregar em público símbolos comunistas. No mundo cultural, a melodia também é atualmente usada em jogos eletrônicos e por bandas musicais alternativas ou engajadas.

O primeiro texto com que fiz as legendas foi uma tradução coletiva da turma de Russo II no Centro de Ensino de Línguas (CEL) da Unicamp, ministrado por Nivaldo dos Santos e o qual eu mesmo frequentei. Isso foi no segundo semestre de 2007, e o professor também fez a revisão final, mas só fiz o vídeo no fim de 2010. Não acredito que eu tenha mudado substancialmente a letra ao passá-la no computador, mas me lembro de tê-la publicado já duas vezes em formato escrito: em julho de 2010, no meu antigo blog “Pensadores Libertos”, hoje extinto, e (mas não tenho certeza) no atual Materialismo.net, do qual já apaguei.

Como se supõe, eu traduzi o segundo texto e fiz as legendas, tendo inclusive montado o primeiro vídeo. Pra segunda versão, eu baixei desta página o vídeo sem legendas, porque sendo essa letra um monumento dos fãs de Stalin, não tinha sentido eu querer fazer uma montagem “neutra”. A diferença está apenas em que eu recortei o enquadramento do vídeo. Há ainda outras duas versões, com vídeos coloridos de paradas com Stalin: a de um canal especializado no período e a de um canal pessoal. Seguem mais adiante as duas legendagens em ordem cronológica, o texto oficial que tirei da Wikipédia russa e a tradução em português:





Outro vídeo, mas tirado desta fonte:

Союз нерушимый республик свободных
Сплотила навеки Великая Русь.
Да здравствует созданный волей народов
Единый, могучий Советский Союз!

Славься, Отечество наше свободное,
Дружбы народов надёжный оплот!
Знамя советское, знамя народное
Пусть от победы к победе ведёт!

Сквозь грозы сияло нам солнце свободы,
И Ленин великий нам путь озарил:
Нас вырастил Сталин – на верность народу,
На труд и на подвиги нас вдохновил!

Славься, Отечество наше свободное,
Счастья народов надёжный оплот!
Знамя советское, знамя народное
Пусть от победы к победе ведёт!

Мы армию нашу растили в сраженьях.
Захватчиков подлых с дороги сметём!
Мы в битвах решаем судьбу поколений,
Мы к славе Отчизну свою поведём!

Славься, Отечество наше свободное,
Славы народов надёжный оплот!
Знамя советское, знамя народное
Пусть от победы к победе ведёт!

____________________


A união indestrutível das repúblicas livres
Foi coligada para sempre pela Grande Mãe-Rússia.
Viva, formada pela vontade dos povos,
Unida e poderosa União Soviética!

Glória à nossa Pátria livre,
Forte sustento da amizade dos povos!
Que a bandeira soviética, bandeira popular
Esteja à frente, de vitória em vitória!

Por entre tormentas nos brilhou o sol da liberdade,
E o grande Lenin iluminou nosso caminho:
Stalin nos educou e nos inspirou
Ao trabalho, heroísmo e dedicação ao povo!

Glória à nossa Pátria livre,
Forte sustento da felicidade dos povos!
Que a bandeira soviética, bandeira popular
Esteja à frente, de vitória em vitória!

Formamos nosso exército nos combates.
Varreremos os infames invasores do caminho!
Nas lutas decidimos o destino de gerações,
Conduziremos nossa Pátria até a glória!

Glória à nossa Pátria livre,
Forte sustento da honra dos povos!
Que a bandeira soviética, bandeira popular
Esteja à frente, de vitória em vitória!


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

“A Internacional” como hino soviético

Quando postei a segunda legendagem desta canção, foi um presente duplo aos espectadores: de Ano Novo e de início das comemorações do centenário das duas revoluções russas (fevereiro e outubro) de 1917. Trata-se da tradução russa da Internacional (em russo, “Интернационал”, Internatsional), que serviu de hino soviético até 1944. A primeira versão que postei é de dezembro de 2011, mas no primeiro dia de 2017 fiz uma retradução, bem melhorada, adequei o vídeo ao padrão atual dos meus hinos nacionais e escrevi uma pequena história da canção.

Devo sempre lembrar que essa não é a tradução brasileira da Internacional. Esta é apenas a tradução literal da versão poética em russo, ou seja, nesta língua, ela segue a métrica artística, e na nossa, não. As traduções poéticas em português, que em geral começam com “De pé, ó vítimas da fome... De pé, famélicos da terra...”, podem ser encontradas aos montes no YouTube. Decidi traduzir literalmente a versão russa porque a julgo como um documento histórico independente da canção A Internacional em si, hino socialista e anarquista traduzido pra centenas de línguas.

A tradução da Internacional que mais se consagrou na Rússia na virada dos séculos 19 e 20 foi a do poeta e tradutor Arkadi Iakovlevich Kots (1872-1943), cujo nome de nascença era Aron e assinava também como “A. Danin”, “A. Bronin”, “A. Shatov” e “D-n”. Sua versão da Internacional é de 1902, quando saiu na revista Zhizn (Vida) de Londres, mas só tinha o refrão e as estrofes 1, 2 e 6 do texto original. Kots só traduziu o resto em 1931, resultado publicado apenas em 1937. Os sociais-democratas russos usavam a tradução de Kots como hino partidário, e Lenin gostava muito da canção, dizendo que era um tipo de símbolo comum que unia os operários do mundo todo. Em 23 de janeiro de 1918, tornou-se hino da República Socialista Federativa Soviética da Rússia e, em 30 de dezembro de 1922, da URSS.

Seguindo o nacionalismo de Stalin, houve nos anos 30 um concurso pro novo Hino Nacional da URSS, encerrado quando uma peça de Sergei Vladimirovich Mikhalkov, Gabriel Arkadievich El-Registan (letra) e Aleksandr Vasilievich Aleksandrov (melodia) foi aprovada em 14 de dezembro de 1943 pelo Birô Político do PC e executada no rádio pela primeira vez na noite de 17 pra 18 de abril de 1944. A melodia desse hino e o famoso começo do refrão – Slavsia, Otechestvo nashe svobodnoie (Glória à nossa Pátra livre) – ainda estão hoje no Hino Nacional da Federação Russa, e a tradução de Arkadi Kots da Internacional é agora o hino do Partido Comunista da Federação Russa (KPRF), do Partido Operário Comunista da Rússia integrado ao Partido Comunista da União Soviética (RKRP-KPSS) e da União da Juventude Comunista Revolucionária (bolchevique) (RKSM(b)).

Na segunda metade de 2016, eu já fiz uma retradução da Internacional em russo encomendada pelo historiador Daniel Aarão Reis pra coletânea que ele estava organizando e anotando, Manifestos vermelhos e outros textos históricos da Revolução Russa. Aliás, eu também traduzi vários textos, atas e manifestos escritos ao longo do ano de 1917, por monarquistas, bolcheviques e mencheviques, inseridos nessa coletânea. O livro saiu há alguns meses, e por isso faço meu “merchan” aqui: como foram minhas primeiras traduções publicadas, comprem e divulguem o livro que saiu pela Penguin-Companhia das Letras! Assim, dado que os direitos autorais ficaram com a editora, fiz algumas alterações nessa nova tradução pra que eu pudesse inseri-la nas legendas do segundo vídeo.

Assim como faço com os hinos das repúblicas da URSS, o áudio do segundo vídeo tirei desta página. Eu fiz a montagem da bandeira da RSFS da Rússia usada de 1918 a 1920, com o brasão que vigorou na mesma época. Seguem abaixo as duas legendagens, a letra em cirílico que serviu de hino de 1922 a 1944 e a tradução em português. A transliteração no segundo vídeo foi baseada no meu próprio sistema, então vejam este duas vezes, lendo uma legenda de cada vez!




1. Вставай, проклятьем заклеймённый,
Весь мир голодных и рабов!
Кипит наш разум возмущённый
И смертный бой вести готов.
Весь мир насилья мы разрушим
До основанья, а затем
Мы наш, мы новый мир построим, –
Кто был ничем, тот станет всем.

Припев (2x):
Это есть наш последний
И решительный бой;
С Интернационалом
Воспрянет род людской!

2. Никто не даст нам избавленья:
Ни бог, ни царь и не герой.
Добьёмся мы освобожденья
Своею собственной рукой.
Чтоб свергнуть гнёт рукой умелой,
Отвоевать своё добро, –
Вздувайте горн и куйте смело,
Пока железо горячо!

(Припев 2x)

3. Лишь мы, работники всемирной
Великой армии труда,
Владеть землёй имеем право,
Но паразиты – никогда!
И если гром великий грянет
Над сворой псов и палачей, –
Для нас всё так же солнце станет
Сиять огнём своих лучей.

(Припев 2x)

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1. Levante, mundo servilizado,
Com fome e chagado pela desgraça!
Nossa razão rebelde está queimando
E pronta para lutar a batalha mortal.
Vamos arrasar o mundo ditatorial
Desde as bases, e logo depois
Edificar uma Terra nova, nossa,
Quem não era nada vai ser tudo.

Refrão (2x)
Este é nossa último
E decisivo combate;
Pela Internacional
Os homens renascerão!

2. Ninguém vai nos libertar:
Nenhum Deus, tsar ou herói.
Vamos chegar à emancipação
Com nossas próprias mãos.
Para destruir o jugo de forma hábil
E retomar o que era de vocês,
Ardam a fornalha e batam no ferro
Com coragem enquanto ele ferve!

(Refrão 2x)

3. Somente nós, operários do Grande
Exército Mundial do Labor,
Somos autorizados a reger o mundo,
Mas nunca os aproveitadores!
E se explodir uma grande trovoada
Sobre a súcia de cachorros e algozes,
Do mesmo jeito vai se pôr a raiar
Para nós as luzes do fogo do Sol.

(Refrão 2x)


domingo, 10 de setembro de 2017

Marselhesa Operária (hino da Rússia)

Esta é outra canção que esperei bastante tempo pra relegendar, usando uma tradução corrigida e um design moderno. Ela se chama “Рабочая Марсельеза” (Rabochaia Marselieza), A Marselhesa Operária (ou “dos Trabalhadores”, se quiser), e consiste na melodia pouco alterada da Marseillaise, o hino da França, com uma letra em russo. Foi usada como hino nacional da Rússia republicana logo após a abdicação do tsar Nicolau 2.º (março de 1917), e tem letra de Piotr Lavrovich Lavrov e melodia de Claude Joseph Rouget de Lisle (que também escreveu a letra francesa), levemente mudada por Aleksandr Konstantinovich Glazunov.

Conhecido também como Nova canção ou Renunciemos ao velho mundo (que é o primeiro verso), o hino não é uma tradução literal da versão francesa, e foi publicado pela primeira vez no jornal Vperiod! de 1.º de julho de 1875, com o nome Nova canção. O Governo Provisório adotou oficialmente a melodia da Marselhesa como hino nacional cinco dias após o tsar Nicolau 2.º ter renunciado, mas logo depois Glazunov adaptou a melodia pra se encaixar melhor no texto em russo. Em 4 de abril de 1917, o Soviete de Deputados Operários e Soldados de Petrogrado fez sua própria proclamação da Internacional como novo hino, mas ela não encontrou apoio ante um governo que deixou a decisão final pra futura Assembleia Constituinte.

A composição de Rouget de Lisle é de 1792, e a versão russa foi muito popular durante a Revolução de 1905, quando também existiam A Marselhesa dos Soldados, A Marselhesa Camponesa e outras adaptações. Mas Lenin, que chefiava o novo governo bolchevique desde novembro de 1917, considerava a Marselhesa um hino “burguês” e preferia muito mais a Internacional. Esta, porém, também em sua versão russa, só foi oficializada como hino da Rússia soviética em 23 de janeiro de 1918, e assim permaneceu até 1944.

Várias palavras constituem um uso literário ou antigo da língua russa, e algumas delas parecem até com o ucraniano moderno: zlatoi (e não zolotoi) pra “dourado”, liud (e não narod ou liudi) pra “povo”, “gente” ou “pessoas” (“povo” em polonês é lud), strazhduschi (e não stradaiuschi) pra “carente”, zaraz pra “de uma vez” (em ucraniano, significa “agora”) e godina (e não vremia ou pora) pra “tempo” ou “época” (em sérvio, búlgaro e macedônio, significa “ano”, e em ucraniano, hodyna é “hora”, como o polonês godzina e o belarusso hadzina).

Eu mesmo traduzi, legendei e montei os dois vídeos, tendo usado no segundo uma gravação do Coral Infantil da URSS (talvez dos anos 70) que pode ser baixada nesta página. Infelizmente, essa é a única versão com instrumentos que achei, além das soníferas gravações em capela, pois eu não queria repetir aquela bem animada, que já tinha postado no canal há quase 6 anos. Também no segundo vídeo, fiz a legenda russa em alfabeto latino, pra conforto de vocês, baseado no meu próprio sistema. Vejam este duas vezes, lendo uma legenda de cada vez! Seguem abaixo as duas legendagens, a letra em cirílico e a tradução em português:




1. Отречёмся от старого мира,
Отряхнём его прах с наших ног!
Нам враждебны златые кумиры,
Ненавистен нам царский чертог.
Мы пойдём к нашим страждущим братьям,
Мы к голодному люду пойдём,
С ним пошлём мы злодеям проклятья –
На борьбу мы его поведём.

Припев:
Вставай, поднимайся, рабочий народ!
Вставай на врага, люд голодный!
Раздайся, клич мести народной!
Вперёд, вперёд, вперёд, вперёд, вперёд!

2. Не довольно ли вечного горя?
Встанем, братья, повсюду зараз –
От Днепра и до Белого моря,
И Поволжье, и Дальний Кавказ.
На врагов, на собак – на богатых,
И на злого вампира – царя
Бей, руби их, злодеев проклятых,
Заблести, новой жизни заря.

(Припев)

3. И взойдёт за кровавой зарёю
Солнце правды и братской любви,
Хоть купили мы страшной ценою –
Кровью нашею – счастье земли.
И настанет година свободы:
Сгинет ложь, сгинет зло навсегда,
И сольются в одно все народы
В вольном царстве святого труда.

(Припев)

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1. Renunciemos ao velho mundo,
Sacudamos seu pó de nosso pé!
Combatemos os ídolos de ouro,
Detestamos o palácio do tsar.
Iremos a nossos irmãos carentes,
Iremos até as pessoas famintas,
Com elas maldiremos os cruéis
E vamos conduzi-las à luta.

Refrão:
De pé, levante-se, povo operário!
Afronte o inimigo, povo faminto!
Ressoe o grito do povo vingativo!
Avante, avante, avante, avante, avante!

2. Já não basta a miséria incessante?
Pois de pé, irmãos, em toda parte,
Do rio Dnieper até o mar Branco,
A bacia do Volga, o longe Cáucaso.
Contra os inimigos, cães, ricaços
E contra o tsar, malvado vampiro,
Lutem, abatam os vilões malditos,
Reluza a aurora de uma vida nova.

(Refrão)

3. E após o crepúsculo sangrento,
O Sol de amor fraterno e verdade,
Ao termos pagado terrível preço,
Com sangue, por uma Terra feliz.
E surgirá um tempo de liberdade:
Nunca mais haverá mentira e mal
E todos os povos serão um só
No reino livre do trabalho santo.

(Refrão)


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Боже, Царя храни (Deus salve o Tsar)

O último hino do Império da Rússia, período em que mandavam o tsar e a tsarina, foi “Боже, Царя храни!” (Bozhe, Tsaria khrani!), Deus salve o Tsar!, utilizado de 1833 a 1917. Neste ano, em 8 de março, houve a Revolução de Fevereiro (segundo o calendário juliano), que destronou o soberano e instaurou um governo republicano provisório. A letra é de Vasili Zhukovski, e a melodia é de Aleksei Lvov.

Em 1833, o tsar Nicolau 1.º visitou a Áustria e a Prússia, onde era recebido com a melodia de God Save the King, então usada como hino russo com letra de Vasili Zhukovski sob o nome A oração dos russos. Essa melodia não agradava ao soberano, que na volta incumbiu Aleksei Lvov, o músico mais próximo dele, de compor um novo hino, que também recebeu letra de Zhukovski. Ele foi executado pela primeira vez em 18 ou 25 de dezembro de 1833, sob o nome A oração do povo russo, e foi oficializado no dia 31, já chamado Deus salve o tsar!. Com a Revolução de Fevereiro, foi substituído pela Marselhesa Operária, e este foi substituído após a Revolução de Outubro pela Internacional traduzida em russo. Na URSS, o hino só seria ouvido de novo em 1958, no filme Tikhi Don. Em seu livro Ante um limiar histórico: silhuetas políticas (não traduzido), Trotsky chama o canto tsarista de “hino de guerra dos pogroms”.

A canção inteira tem sete estrofes, sendo apenas a primeira delas cantada, e outra parte delas usada no velho hino A oração dos russos. Vasili Andreievich Zhukovski (1783-1852), poeta, crítico e tradutor, foi um dos fundadores do romantismo na poesia russa. Ganhou muitos títulos e condecorações, e se tornou muito próximo da corte tsarista, tendo iniciado a tradução da Odisseia em 1842. Em Düsseldorf, casou-se aos 58 anos com a filha de um famoso pintor, a qual tinha 19, e enfim morreu na própria Alemanha. Aleksei Fiodorovich Lvov (1798-1870) foi um compositor, maestro e político. Realizou uma carreira militar e foi considerado um musicista genial e virtuoso.

Em março de 2011, eu tinha postado minha primeira legendagem do hino Deus salve o Tsar!, e há muito queria ter feito algumas correções na letra. Foi aí que surgiu minha segunda legendagem, e uma das correções foi traduzir pravoslavny não como “guardião das traduções russas”, mas pelo seu sentido literal, “ortodoxo”, e outra foi traduzir o verbo tsarstvovat não como “imperar” (a Rússia era um império), mas “reinar”, que é mais simples. Tsarstvovat remete a “tsar”, e só temos “reinar” (rei), “imperar” (imperador) e “governar”. Também passei a usar “você”, e não “tu”, pra referir a Deus, e deixei a fórmula famosa, “Deus salve o Tsar!”, baseada na inglesa, sem a vírgula após “Deus”.

Eu traduzi, legendei e montei os dois vídeos, tendo tirado os áudios do segundo, que às vezes eram apenas trechos da versão integral, dos seguintes vídeos: um, dois, três e quatro. A segunda legendagem foi a primeira em meu canal em que inseri ao mesmo tempo três legendas: em russo cirílico e transliterado, e em português. Isso foi possível porque o hino é muito pequeno e os versos são bem curtos, e assim o vídeo ganhou mais graça. Eu pensei em usar a ortografia cirílica pré-1918, mas não ia mudar quase nada, e um dos versos ia ficar muito comprido. Seguem abaixo as duas legendagens, a letra em russo, a transliteração conforme meu sistema e a tradução:




Боже, Царя храни!
Сильный, державный
Царствуй на славу
На славу нам!

Царствуй на страх врагам
Царь православный!
Боже, Царя храни!
Храни! Храни!

Bozhe, Tsaria khrani!
Silny, derzhavny
Tsarstvui na slavu
Na slavu nam!

Tsarstvui na strakh vragam
Tsar pravoslavny!
Bozhe, Tsaria khrani!
Khrani! Khrani!


Deus salve o Tsar!
Forte, majestoso
Reine para a glória
Para nossa glória!

Reine para o terror dos inimigos
Tsar ortodoxo!
Deus salve o Tsar!
Salve! Salve!

domingo, 3 de setembro de 2017

Молитва русских (Oração dos russos)

Esta canção foi o primeiro hino usado oficialmente no Império Russo, adotado pelo tsar Alexandre 1.º. Ela se chama “Молитва русских” (Molitva russkikh), A oração dos russos, e foi usada de 1816 a 1833. Antes, a canção Ressoe, trovão da vitória! servia como hino, mas de forma não oficial e não ratificada por nenhuma lei. Após ter derrotado militarmente o Primeiro Império Francês, o imperador ordenou que fosse composto um hino nacional, e no fim de 1816 foi ratificado um poema de Vasili Andreievich Zhukovski. As duas primeiras estrofes já tinham sido publicadas em 1815 sob o título A oração do povo russo, e com esse nome o novo hino também era conhecido.

Tocada em encontros oficiais do tsar, A oração dos russos se empregava com a melodia do hino britânico God Save the King. Em 1833, o hino foi substituído por Deus salve o Tsar!, uma estrofe com texto também de Zhukovski, e melodia de Aleksei Fiodorovich Lvov, que seria o hino monárquico mais longevo, usado até 1917. O poema completo possui ainda mais três estrofes que eram pouco usadas, enquanto a autoria da melodia britânica permanece anônima. (A Wikipédia russa atribui a autoria, também da letra inglesa, a Henry Carey, mas na versão em inglês, afirma-se a incerteza.) Considera-se que Deus salve o Tsar! teria sido o primeiro hino genuinamente russo em letra e melodia, e outros dão esse título a Ressoe, trovão da vitória!, o qual, porém, nunca teve caráter oficial.

Não achei nenhuma versão marcial executada com a melodia de God Save the King, e pra não os matar de sono de novo, pus no vídeo um trecho desta gravação feita na melodia de Deus salve o Tsar! e que inclui, no começo e no fim, a estrofe usada nesse outro hino. A voz é de Valeri Malyshev, cantor que também gravou muitas outras canções religiosas ortodoxas. Num canal de que gosto muito, pode ser ouvida esta versão em capela da melodia original. Eu mesmo traduzi do russo e legendei, tendo confrontado também com as traduções em inglês e galego da Wikipédia. O texto em cirílico tem a ortografia pré-1918, e a transliteração, mais próxima da pronúncia, fiz seguindo a ortografia atual. Seguem abaixo minha legendagem, a letra em russo moderno e a tradução em português:


Боже, Царя храни!
Славному долги дни
Дай на земли!
Гордых смирителю,
Слабых хранителю,
Всех утешителю –
Всё ниспошли!

Перводержавную
Русь Православную
Боже, храни!
Царство ей стройное,
В силе спокойное!
Всё-ж недостойное
Прочь отжени!

О, Провидение!
Благословение
Нам ниспошли!
К благу стремление,
В счастье смирение,
В скорби терпение
Дай на земли!

Deus salve o Tsar!
Longa vida ao glorioso
Conceda na Terra!
Ao freio dos soberbos,
Ao abrigo dos fracos,
Ao consolo de todos
Dê todas as coisas!

A primeira potência,
Mãe-Rússia ortodoxa,
Que Deus proteja!
Faça seu reino distinto
E tranquilo na força!
E tudo que for indigno
Afaste para longe!

Ó, Providência!
A graça divina
Conceda a nós!
Aspiração ao bem,
Modéstia na bonança,
Firmeza na aflição
Conceda à Terra!


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Гром победы, раздавайся: hino russo

Esta canção se chama “Гром победы, раздавайся!” (Grom pobedy, razdavaisia!), Ressoe, trovão da vitória!, e foi o primeiro hino nacional utilizado pelo Império Russo tsarista, de forma não oficial, de 1791 a 1816. A letra foi composta por Gavriil Derzhavin, e a melodia é de Osip Kozlovski. Ela foi composta no ritmo de uma polonaise, batida de compasso ternário muito popular na época.

A música foi composta na sequência da Guerra Russo-Turca, de 1787 a 1791, quando o império tsarista tomou inúmeras terras do Império Otomano no Cáucaso e em grande parte do que hoje é a Ucrânia, inclusive a Crimeia. Os turcos combatiam então contra o Sacro Império Romano-Germânico e os russos, dos quais se destacaram os comandantes-príncipes Aleksandr Suvorov e Grigori Potiomkin. O hino faz referência à fortaleza de Izmail (que chamei erroneamente de “Ismael”, no vídeo), simbólica pros otomanos e que foi tomada sob a liderança de Suvorov. Por isso, vários trechos soam como um canto da cristandade (ortodoxa) contra o islã, interpretação que muitos nacionalistas dão ainda hoje.

A canção foi executada pela primeira vez em 9 de maio de 1791, numa grande festa dada no Palácio de Tauride por Potiomkin pra famosa imperatriz (tsarina) Catarina 2.ª (Ekaterina Alekseievna), a Grande. Ela é de origem prussiana, mas governou a Rússia por 34 anos. Logo a peça seria usada como hino não oficial do império, mas em 1816 ele seria trocado por A oração dos russos. Embora a execução esteja em capela, a versão do vídeo abaixo foi a única versão integral que achei.

Quem canta no áudio é o Coral do Mosteiro de Valaam, um mosteiro ortodoxo russo localizado na ilha de Valaam (ou Valamo), na Carélia russa. Existem versões instrumentais, porém abreviadas, como a deste vídeo. Eu mesmo traduzi e legendei, tendo baixado o áudio desta página. No vídeo, fiz questão de utilizar a ortografia em cirílico conforme as regras pré-1918, mas a transliteração latina segue a pronúncia real. Seguem abaixo minha legendagem, a letra em russo moderno e a tradução:


Гром победы, раздавайся!
Веселися, храбрый Росс!
Звучной славой украшайся.
Магомета ты потрёс!

Славься сим, Екатерина!
Славься, нежная к нам мать!

Воды быстрые Дуная
Уж в руках теперь у нас;
Храбрость Россов почитая,
Тавр под нами и Кавказ.

Уж не могут орды Крыма
Ныне рушить наш покой;
Гордость низится Селима,
И бледнеет он с луной.

Славься сим, Екатерина!
Славься, нежная к нам мать!

Стон Синила раздается,
Днесь в подсолнечной везде,
Зависть и вражда мятется
И терзается в себе.

Мы ликуем славы звуки,
Чтоб враги могли узреть,
Что свои готовы руки
В край вселенной мы простреть.

Славься сим, Екатерина!
Славься, нежная к нам мать!

Зри, премудрая царица!
Зри, великая жена!
Что Твой взгляд, Твоя десница
Наш закон, душа одна.

Зри на блещущи соборы,
Зри на сей прекрасный строй;
Всех сердца Тобой и взоры
Оживляются одной.

Славься сим, Екатерина!
Славься, нежная к нам мать!

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Ressoe, trovão da vitória!
Alegre-se, valente Russo!
Adorne-se de sonora glória.
Você abalou Maomé!

Por isso, glória a Catarina!
Mãe carinhosa conosco!

As águas rápidas do Danúbio
Agora estão em nossas mãos;
Honrando a coragem russa,
Regemos Crimeia e Cáucaso.

Hordas da Crimeia não podem
Arruinar mais nosso sossego;
Selim 3.º perde seu orgulho
E fica pálido como a Lua.

Por isso, glória a Catarina!
Mãe carinhosa conosco!

O lamento de Ismael ressoa
Hoje pelo mundo inteiro,
Inveja e ódio se confundem
E se retalham em si mesmos.

Rejubilamos sons de glória
Para os inimigos poderem ver
Que estamos prontos a lançar
As mãos aos confins do mundo.

Por isso, glória a Catarina!
Mãe carinhosa conosco!

Olhe, sábia tsarina!
Olhe, grande mulher!
Como sua visão e manejo
São nossa lei, uma só alma.

Olhe as catedrais reluzentes,
Olhe esta linda formação;
Corações e olhos de todos
Você reanima como um só.

Por isso, glória a Catarina!
Mãe carinhosa conosco!


Museu dos Hinos Nacionais da Rússia


erickfishuk.blogspot.com/hinos-russos

Coleção completada em 7 de fevereiro de 2022



Estou enfim realizando um antigo sonho meu, e talvez o de muitos amantes da Rússia. Esta postagem inicia a coleção completa dos hinos nacionais que a Rússia e a antiga União Soviética adotaram ao longo de quase 300 anos de história. Hoje estou publicando a lista completa dos nomes e dos períodos dos hinos, mas cada postagem específica aparecerá nas próximas quartas-feiras e domingos. A exceção é o primeiro hino, que já está aparecendo hoje.

Desde que criei o canal Pan-Eslavo Brasil (YouTube) em 20 de novembro de 2010, desejava traduzir todos os hinos nacionais usados ao longo da história da Rússia, além, claro, dos hinos nacionais de outros países eslavos. Mas certas coisas me faltavam: tempo, conhecimento amplo da língua russa (e básico de outras línguas eslavas) e áudios ou vídeos no YouTube com as letras originais. Além disso, ainda não eram tão ricos como hoje os recursos de pesquisa na rede, como páginas explicando a história dos hinos e bons dicionários onde eu pudesse sanar as dúvidas, por exemplo, de russo antigo.

Até o fim de 2011, eu tinha legendado os seguintes hinos da história russa e soviética: Deus salve o Tsar!, vigente até 1917, a Marselhesa Operária, usada de março de 1917 a janeiro de 1918, a Internacional traduzida em russo e usada até 1944, a primeira versão do Hino Nacional da URSS com letra usada de 1944 a 1956, a segunda versão desse hino com letra usada de 1977 a 1991, a Canção Patriótica usada nos tempos de Boris Ieltsin e o atual Hino Nacional da Federação Russa, adotado em 2000. Contudo, nos anos posteriores, tive que me deparar com estes problemas: 1) Meu jeito de legendar foi mudando e meu conhecimento de russo foi melhorando, o que de alguma forma tornava obsoletas as primeiras traduções, embora nada justificasse apagá-las. 2) Havia muitos outros hinos dos tempos da monarquia cujo áudio eu não tinha achado e cuja letra eu achava muito difícil, barreiras atualmente injustificáveis. 3) Ao longo da história pós-tsarista, a Rússia e a URSS conviveram com inúmeros outros projetos de hinos não adotados, cujo conhecimento eu achava interessante dar aos brasileiros.

O único hino que eu tinha relegendado duas vezes (ou seja, em meu canal há três traduções diferentes dele) era a versão de 1977 do hino da URSS. Essa canção, claro, é hoje um sucesso no YouTube, por conta da curiosidade que a história soviética causa nos mais jovens. Apenas neste ano de 2017 eu tive tempo, disposição e saber suficientes pra fazer novas legendagens do que eu já tinha traduzido, dispondo ainda de uma conexão realmente decente à internet e mais folga após ter entrado no doutorado e, claro, terminado a dissertação de mestrado. Outro fator óbvio é minha prática em fazer legendagens e montar os vídeos, que foi se aperfeiçoando nesses anos. Porém, com raras exceções, desde que fundei este blog em 2014, decidi não fazer postagens separadas pra cada hino, pois queria começar a série apenas quando já tivesse todos legendados.

Missão cumprida, finalmente suprindo em parte, acredito, a ausência de um grande site russo que desapareceu de repente, e que foi a fonte de vários dos meus vídeos: o Музей русских гимнов (Museu dos hinos russos), que ficava no domínio hymn.ru, hoje rotulado como à venda. Claro que é só em parte, porque além do acervo de hinos das antigas repúblicas soviéticas, a coleção era muito mais completa, e contava com diversas versões e gravações! Mas pelo menos, aqui os brasileiros e outros falantes de português podem ler a tradução, a transliteração e desfrutar de belas imagens em vídeo.

Em cada página/postagem, além de um breve histórico do hino, haverá meu vídeo do YouTube incorporado, a letra em alfabeto cirílico e a tradução escrita, em português. (Nota: nas traduções mais recentes, usei linguagem moderna, evitando, por exemplo, o uso de “tu” e “vós” e da mesóclise, e por vezes preferindo o passado composto ao simples, exceto quando queria poupar espaço. Pra muitos, a linguagem pode também parecer muito “abrasileirada”, já que essa é minha variante natal, mas nem por isso menos compreensível.) Nos casos de versões múltiplas, ambas serão colocadas, mas a tradução escrita será apenas a mais recente. Os hinos que não chegaram a ser oficiais ou que ficaram apenas na proposta virão depois, também em ordem temporal. O link de cada hino abaixo que ainda não ganhou sua postagem redirecionará pro vídeo da minha tradução mais recente. No caso soviético, apenas o hino de toda a URSS e algumas propostas de hino pra Rússia soviética constarão, pois a coleção completa das repúblicas soviéticas virá posteriormente.

Nesta publicação estão todos os hinos da Rússia não comunista, ordenados em ordem cronológica de surgimento ou adoção. Os hinos concernentes ao período comunista (Rússia e URSS) estão na playlist “Hinos da União Soviética”, onde estão sendo postados aos poucos também os hinos das outras repúblicas. Nos vídeos mais recentes, onde existe texto transliterado, eu o escrevi conforme meu próprio sistema, que nem sempre está aplicado aos mais antigos. Sem mais delongas, divulguem em suas redes sociais!



Hinos nacionais adotados oficialmente

1. Гром победы, раздавайся! (Grom pobedy, razdavaisia!) – “Ressoe, trovão da vitória!” (1791-1816)

2. Молитва русских (Molitva russkikh) – “A Oração dos Russos” (1816-1833)

3. Боже, Царя храни! (Bozhe, Tsaria khrani!) – “Deus salve o Tsar!” (1833-1917)

4. Рабочая Марсельеза (Rabochaia Marselieza) – “A Marselhesa Operária” (1917-1918)

5. Интернационал (Internatsional) – “A Internacional” (1918-1944), tradução de Arkadi Kots

6. Государственный гимн СССР (Gosudarstvenny gimn SSSR) – “Hino Nacional da União Soviética” (1944-1956), 1.ª letra

7. Государственный гимн СССР (Gosudarstvenny gimn SSSR) – “Hino Nacional da União Soviética” (1977-1991), 2.ª letra

8. Патриотическая песня (Patrioticheskaia pesnia) – “Canção Patriótica” (1990, RSFS da Rússia-2000, Federação Russa)

9. Государственный гимн Российской Федерации (Gosudarstvenny gimn Rossiiskoi Federatsii) – “Hino Nacional da Federação Russa” (desde 2000)


Hinos propostos ou usados sem ratificação

1. Марш Лейб-гвардии Преображенского полка (Marsh Leib-gvardii Preobrazhenskogo polka) – “Marcha do Regimento de Preobrazhenski da Guarda Imperial” (música cerimonial usada aprox. desde 1711)

2. Славься (Slavsia) – “Glória” ou “Glorie-se” (marcha patriótica com melodia de 1836 e letra do tempo da URSS)

3. Гимн свободной России (Gimn svobodnoi Rossii) – “Hino da Rússia Livre” (proposto em março de 1917)

4. Да здравствует наша держава (Da zdravstvuiet nasha derzhava) – “Viva nosso Estado-potência” (composto em 1942, proposto como hino da URSS em 1943)

5. Славься, Советская наша страна (Slavsia, Sovetskaia nasha strana) – “Glória a nosso País Soviético” (composto em 1942, proposto como hino da URSS em 1943)

6. В грозах окрепла Россия родная (V grozakh okrepla Rossia rodnaia) – “A Rússia materna se fez forte nas tormentas” (composto em 1945, proposto como hino da RSFS da Rússia em 1946)

7. Песня о Родине/Широка страна моя родная (Pesnia o Rodine/Shiroka strana moia rodnaia) – “Canção sobre a Pátria/É vasto meu país natal” (composto em 1936, considerado um segundo hino da Rússia)


domingo, 27 de agosto de 2017

Aniversário do terrorista Givi (Donbás)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/niver-givi



Quando procurei pela primeira vez alguma versão da canção conhecida como “Ойся ты ойся” (Oisia ty oisia), me deparei com um engraçado e divertido vídeo, com terroristas de Putin no Donbás, leste da Ucrânia, comemorando o aniversário do combatente Givi. Mikhail Sergeievich Tolstykh, que ficou conhecido nas redes sociais pelo seu apelido “Givi”, foi um dos terroristas pró-Putin mais viralizados por causa de seu temperamento irrequieto, suas palavras cômicas e sua impetuosidade na guerra civil. Foi eliminado em combate, no dia 8 de fevereiro de 2017.

Mas talvez o lado mais interessante da música seja o background histórico. Como eu já tive a oportunidade de escrever, a canção A oração do cossaco, de autoria desconhecida, foi composta em meados do século 19 e passou a simbolizar a beligerância russa pela defesa de suas fronteiras. Um dos aspectos que ela envolve é justamente a reação do não russo ante esse protecionismo ou expansionismo, simbolizado na letra pela palavra “oisia”, que designa vários povos do Cáucaso, em referência a um grito que eles dão em dança. No vídeo do Givi, aparece também outra faceta desse contato, que é a mistura cultural, ou seja, os cossacos do Cáucaso assimilaram a dança local da lezginka e lhe criaram canções com palavras características do russo daquela região. São exatamente esses passos que podem ser vistos na festa de aniversário.

A descrição não ficaria completa se eu não falasse ainda da própria versão que está sendo cantada. A melodia de Oisia ty oisia é de domínio popular, por isso foram feitas várias versões ao longo dos anos, pras mais diversas situações. A versão abaixo foi escrita pelo cantor russo Aleksandr Dadali, que a batizou de Ataman volny (Um atamano livre). Os atamanos, como eu também descrevi em outras postagens, eram líderes militares cossacos dos tempos tsaristas, cuja atuação sempre foi muito romantizada pela cultura popular. E exatamente, este poema moderno está narrando o suposto cotidiano de um atamano, com episódios peculiares e passagens heroicas. O próprio Dadali é quem está cantando no Donbás com um karaokê de fundo, como pode ser visto em fotos da época em sua conta do VK, mas neste vídeo não aparece a primeira estrofe (que não traduzi). Aliás, alterando o original, ele canta “Donbás” onde tinha gravado “Kuban”, famosa cidade russa. Vejam o site pessoal do cantor.

Dadali é um dos muitos artistas populares russos ou de língua russa que sustentam os terroristas do Donbás e deturpam a cultura tradicional pra adaptá-la aos novos gostos e mídias. A própria execução em ritmo de reggae destoa com a letra antiquada em conteúdo e vocabulário. Quanto à tradução de “oisia” por “camarada”, devo explicar: como nos mais variados contextos pode diferir quem seja o “oisia” – o estranho, forasteiro, enfrentador, caucasiano ou apenas desconhecido –, traduzi de uma forma como se o atamano estivesse falando com o ouvinte no refrão, o que não acontece nas outras estrofes. “Oisia” pode apenas fazer chamar a atenção, mas seu emprego fica polêmico quando se lembra da intromissão na Ucrânia, onde agentes de Putin inventaram um separatismo inexistente.

Quem filmou e postou o vídeo sem legendas em seu canal, e que também aparece ao final dizendo “Parabéns, Givi!” com sotaque, foi Graham Phillips, apoiador do terrorismo putinista e que documentava então os acontecimentos. Ele se autodenomina repórter, e no canal podem ser vistos muitos outros vídeos, inclusive dessa mesma festa. Nesta página, pode ser lida a letra completa em russo e ouvido o áudio com a canção em estúdio. Eu mesmo traduzi e legendei a canção, e seguem abaixo as legendas, a letra em russo e a tradução:


1. В град добрался стольный стал с коня умылся
Сел за стол с братами пил и веселился
В путь домой собрался а на ём засада
Заковали в даль погнали да без самосада

Припев (2x):
Ой ся ты ой ся, ты меня не бойся
Я тебя не трону, ты не беспокойся

2. Шёл на каторгу жиган чёрные сапожки
Почему то не надел на босые ножки
Без сапожков больно натирало вены
Через батьку Енисей до реки до Лены

(Припев)

(Соло)

3. На царёв конвой посвист налетели други
Расклепали кандалы проладили в струги
Дали ему кинжал дали ножик финку
Да на вёслах на Кубань танцевать лезгинку

(Припев)

4. Водка без стакана, пуля без нагана
Неделима с волей доля атамана
Вот она какая доля не простая
Понеси попробуй до конца, до края

(Припев)

____________________


1. Na capital, o atamano saiu do cavalo, lavou-se
Foi à mesa com os manos, bebeu e se divertiu
Partiu à casa, mas no caminho, uma armadilha
Apanhou, fizeram-no correr, ficou sem tabaco

Refrão (2x):
Ei, camarada, não tenha medo de mim
Não se preocupe, não vou fazer mal

2. Um reincidente ia às galés de botinas pretas
Mas por que não andava de pés descalços?
Sem botinas, as veias se esfolavam em dor
Ao passar pelo grande Ienisei até o rio Lena

(Refrão)

(Solo)

3. A um guarda do tsar se precipitaram os amigos
Romperam suas algemas, puseram-no na barca
Deram-lhe um punhal e uma faca finlandesa
E remaram até o Donbás para dançar lezginka

(Refrão)

4. Vodca sem copo, bala sem pistola,
O que o atamano quer, lhe ocorre
Esse destino não é coisa fácil
Tente só vivê-lo até o limite!

(Refrão)




quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O último discurso de Augusto Pinochet


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/pinochet-fim


Esta transmissão televisiva noturna foi feita pouco antes do ditador chileno Augusto Pinochet Ugarte transmitir o poder às autoridades eleitas pelo voto popular, em 11 de março de 1990. Após ter governado o país por 16 anos e meio, desde o golpe militar de 11 de setembro de 1973, o general entregaria a Presidência da República a Patricio Aylwin Azócar, como resultado de um plebiscito que, por estreita margem, negou mais um mandato a Pinochet. Salvador Allende, derrubado e morto em 1973, tinha sido eleito por uma ampla Unidade Popular, mas o caos econômico e social abriu espaço pra rápida desagregação política.

Durante os anos 1980, o regime de Pinochet gradativamente se desgastou, pois além do isolamento internacional, a população começava a sentir a ressaca dos anos de “milagre econômico”. Um dispositivo transitório da Constituição de 1980 previa um plebiscito pra 5 de outubro de 1988, definindo se Pinochet poderia exercer mais um mandato de 1989 a 1997, além daquele que começaria em 1981. Em caso de vitória do “Não”, o último mandato se alongaria mais um ano, até 1990, e o poder passaria novamente às mãos dos civis. O resultado final foi de 44,01% pelo “Sim” e 55,99% pelo “Não”, ou seja, clara derrota dos militares. Era um caso raro na América Latina em que uma ditadura caía pela decisão de votação popular.

Em dezembro de 1989, as eleições presidenciais e parlamentares deram vitória ao novo presidente Patricio Aylwin, que deveria ser, então, o sucessor direto de Pinochet. O dia da posse estava marcado pra 11 de março de 1990, e na ocasião o ditador fez o discurso que se ouve no vídeo abaixo, defendendo a justeza do golpe e de seu governo, e desejando bons votos à população e aos novos mandatários no período que se abria. Seu principal legado seria um Chile com inédito crescimento econômico e um ótimo IDH, mas com altos índices de desigualdade social e concentração de riqueza. Vamos fazer como o vovô pede no fim do filme: vamos dar um abraço fundido e coletivo nele, hahaha. O mais bizarro foi ele ter se definido como um defensor da liberdade e da democracia!

O vídeo sem legendas está nesta página, que além do enquadramento original (portanto, não corta alguns gestos manuais, como se deu no meu vídeo), tem a marca do canal que postou e trechos do hino nacional no começo e no fim, como transmissão oficial. Eu não podia ter traduzido se não tivesse achado nesta página um rascunho de transcrição, ou seja, estou sendo o primeiro a publicar o texto completo e lapidado do discurso em espanhol. A versão mencionada, mesmo sendo a única integral que achei na rede, tem muitos erros e foi toda revista. Eu mesmo traduzi e legendei direto do espanhol; seguem abaixo a legendagem e os textos completos em espanhol e português:


Chilenas e chilenos!

Chegamos a um momento verdadeiramente histórico para o destino da Pátria. Dentro de poucas horas, o governo que me honra hoje presidir fará a entrega do poder político às novas autoridades eleitas democraticamente pelo povo chileno. Começa assim um período crucial no futuro de nossa nação.

Por isso, decidi dirigir esta noite, a todos e a cada um de meus compatriotas, uma sincera saudação para expressar-lhes, em nome das Forças Armadas e Carabineiros, nossa satisfação e legítimo orgulho pela histórica oportunidade que nos brindaram de conduzir o país quando os interesses mais sagrados da Pátria o exigiram.

Para além das diferenças que às vezes nos encoleram e separam artificialmente, estou certo de ter contado, durante toda nossa gestão, com um respaldo significativo da parte de muitos compatriotas. Eles souberam unir seus esforços aos da classe armada para salvar a liberdade, reconstruir a democracia e tornar o Chile uma nação cada vez mais próspera e justa.

Nas horas difíceis para a Pátria, estive e sempre estarei disposto a enfrentar os inimigos da liberdade e da democracia, sem temores ou vacilações, tendo como fundamento permanente o juramento de honra com que iniciei minha carreira militar, que me obriga a entregar até meu último suspiro por amor à Pátria que me viu nascer e crescer.

Hoje, quero agradecer a todos os que colaboraram com entusiasmo, lealdade e devoção na tarefa de recuperar a paz, a liberdade e a democracia, assim como na de ter assentado as bases que possibilitaram o progresso que agora nos orgulha. Quero especialmente registrar minha gratidão para com a alta cúpula da defesa nacional, com a qual pudemos cumprir a grande tarefa, assumida em setembro do ano de 1973, fortalecidos na coesão dialética de nossas instituições.

Desejo também manifestar minha sincera e profunda gratidão a todos vocês, chilenos e chilenas, que foram os protagonistas de uma etapa sem precedentes em nossa história nacional, demonstrando ao mundo inteiro que o povo chileno exerce com dignidade sua independência que obtivemos dos campos de batalha e que nós mesmos sabemos ser donos de nosso próprio destino. Desejo o melhor para minha Pátria, e pelo amor que sinto por ela, estarei sempre disposto a servi-la.

Peço-lhes que mantenhamos a unidade entre nós, em respeito às instituições que nos regem e aos direitos de cada compatriota nosso. Não esqueçamos que os chilenos que vivem nas regiões mais distantes criam soberania em nome dos demais e projetam o Chile do amanhã. Nunca esqueçamos tampouco que os chilenos menos favorecidos precisam da ajuda de todos e não podem ser sacrificados em função de interesses sectários ou particulares.

Peço-lhes que unamos nosso esforço ao das novas autoridades, pois o governo que se inicia sob a presidência de Patricio Aylwin deverá levar adiante importantes responsabilidades para reforçar e avançar todos os progressos que obtivemos até hoje e cujos resultados de bem-estar são notados por todos os chilenos.

O bem do país deve estar sempre acima de interesses partidários. Por mais legítimos que sejam estes, o presidente que assume tem o direito de esperar de cada um de nós atitudes responsáveis e consequentes ante os valores que professamos.

Sejamos críticos ante os êxitos alcançados durantes os últimos 16 anos, pois as obras humanas costumam ser frágeis e ruir com espantosa rapidez. Para avançar até novos e melhores horizontes, devemos manter-nos sempre alerta frente àqueles sempre dispostos a desamparar nosso crescimento e nossa convivência pacífica.

Compatriotas, eu finalmente queria, nesta última saudação como Presidente de Todos os Chilenos, dedicar todos vocês à bondade de Deus Todo-Poderoso, para que ilumine o discernimento e o coração de vocês. Por meio de minhas constantes visitas às diversas regiões do país, aprendi a conhecer a generosidade deste povo maravilhoso. Portanto, estou certo de que ela nos servirá mais uma vez para nos unirmos num só esforço conjunto que assegure o sucesso do governo que está surgindo, para o bem de toda a família chilena e do futuro promissor que ela merece.

Por isso, convido-os desde já a fundirmo-nos num só grande abraço fraterno e a gritarem, com todas as forças de seus corações e desejos:

Viva o Chile!

____________________


¡Chilenas y chilenos!

Hemos llegado a un momento verdaderamente histórico para los destinos de la Patria. En breves horas más, el gobierno que me honra hoy presidir hará entrega del poder político a las nuevas autoridades elegidas democráticamente por el pueblo chileno. Se inicia así un crucial período en el devenir de nuestra nación.

De allí que esta noche he querido dirigir a todos y a cada uno de mis compatriotas un sentido saludo para expresarles, en nombre de las Fuerzas Armadas y Carabineros, nuestra satisfacción y legítimo orgullo por la histórica oportunidad que nos brindaron de conducir el país cuando los intereses más sagrados de la Patria lo exigieron.

Más allá de las diferencias que a veces nos apasionan y separan artificialmente, tengo el convencimiento de haber contado, durante toda nuestra gestión, con un respaldo significativo de parte de muchos compatriotas. Ellos supieron unir sus esfuerzos a de los hombres de armas para salvar la libertad y reconstruir la democracia y hacer de Chile una nación crecientemente próspera y justa.

En horas difíciles para la Patria, estuve dispuesto, y lo estaré siempre, a enfrentar a los enemigos de la libertad y la democracia, sin temores ni vacilaciones, teniendo como fundamento permanente el juramento de honor con que inicié mi carrera militar, que me obliga a entregar hasta mi último aliento por amor a la Patria que me vio nacer y crecer.

Hoy quiero agradecer a todos los que han colaborado con entusiasmo, lealtad y entrega en la tarea de recuperar la paz, la libertad y la democracia, así como haber sentado las bases que posibilitaron el progreso que ahora nos enorgullece. Especialmente quiero estipular mi gratitud a los mandos superiores de la defensa nacional, con la que pudimos cumplir la magna tarea, asumida en septiembre del año 1973, fortalecidos en la cohesión dialéctica en nuestras instituciones.

Deseo asimismo manifestar mi sincera y profunda gratitud a todos ustedes, chilenos y chilenas, que han sido los protagonistas de una etapa sin precedentes en nuestra historia nacional, demostrando al mundo entero que el pueblo chileno ejerce con dignidad su independencia que obtuvimos de los campos de batalla y que sabemos ser los mismos dueños de nuestro propio destino. Anhelo lo mejor para mi Patria, y por el amor que siento por ella estaré siempre dispuesto a servirla.

Les pido que mantengamos la unidad entre nosotros, en respeto a las instituciones que nos rigen y a los derechos de cada uno de nuestros compatriotas. No olvidemos que los chilenos que viven en las regiones más alejadas hacen soberanía en nombre de los demás y proyectan el Chile del mañana. Nunca olvidemos tampoco que los chilenos menos favorecidos requieren la ayuda de todos y no pueden ser sacrificados en función de intereses sectarios o particulares.

Les pido que unamos nuestros esfuerzos al de las nuevas autoridades, pues el gobierno que se inicia bajo la presidencia del señor Patricio Aylwin deberá llevar adelante importantes responsabilidades para consolidar y proyectar todos los avances que hasta hoy hemos obtenido y cuyos frutos de bienestar son percibidos por toda la familia chilena.

El bien del país debe estar siempre por sobre los intereses partidistas. Por legítimos que estos sean, el presidente que asume tiene derecho a esperar que cada uno de nosotros dé una actitud responsable y consecuente con los principios que profesamos.

No nos confiemos en los logros alcanzados durante estos últimos 16 años, pues las obras humanas suelen ser frágiles y destruirse con sorprendente rapidez. Para avanzar hacia nuevos y mejores horizontes, debemos mantenernos constantemente alerta frente a los siempre dispuestos a socavar las bases de nuestro crecimiento y de la convivencia pacifica.

Compatriotas, finalmente quisiera, en este último saludo como Presidente de Todos los Chilenos, encomendar a cada uno de ustedes a la bondad de Dios Todopoderoso para que ilumine vuestra sabiduría y vuestros corazones. A través de mis constantes visitas a las diversas regiones del país, aprendí a conocer la generosidad de este pueblo maravilloso. En consecuencia, estoy cierto que ella se volcará una vez más a unirnos en un solo esfuerzo conjunto que asegure el éxito del gobierno que se inicia, en bien de toda la familia chilena y el destino promisorio que se merece.

Por ello los invito desde ya a fundirnos en un solo gran abrazo fraterno y a gritar con todas las fuerzas de sus corazones y voluntades:

¡Viva Chile!


domingo, 20 de agosto de 2017

“La Carmagnole” (revolução francesa)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/carmagnole


Entre as três músicas revolucionárias francesas que E. P. Thompson cita em sua Formação da classe operária inglesa e que eram também cantadas pelos rebeldes ingleses, só faltava eu ter legendado esta: La Carmagnole (A Carmanhola). Ela foi recitada pela primeira vez, pelo que se diz, em 10 de agosto de 1792, quando o Palácio das Tulherias, residência do rei Luís 16, foi invadido e a família real foi presa, marcando o início do fim da monarquia constitucional. As outras canções que eu mencionei eram A Marselhesa e Ça ira ! A Carmanhola é um ritmo popular de origem italiana, e as letras aqui apresentadas não têm um autor conhecido.

No sentido comum, “carmanhola” era uma espécie de contradança acompanhada de canto e executada pelos adeptos da Revolução Francesa, sobretudo em torno das guilhotinas e das Árvores da Liberdade plantadas em todo o território nacional. Mas a festa era feita também em outras ocasiões combativas, e por vezes os opositores capturados eram obrigados a dançar e cantar uma carmanhola, antes de serem presos ou até executados. Ao que parece, o nome vem do vilarejo de Carmagnola, atualmente no Piemonte italiano, localizada num dos vales que fica entre Gênova e Turim e de onde uma corrente migratória se transferiu pra Marselha no fim do século 16, levando seus costumes, roupas e música. Não por acaso, a melodia deve lembrar muito aos brasileiros a tarantella.

Alguns fatos do fim do século 18 ainda carecem de explicação: o uso corrente, pelos sans-culottes, dos trajes dos cultivadores de cânhamo emigrados do vilarejo de Carmagnola; a vinda, ou não, do ritmo de dança a partir de Marselha; e a suposta ligação da antiga dança italiana da carmagnola, hoje quase extinta, e as carmagnoles francesas de 1792. Ocorria, porém, que por volta de 1780, o termo “carmagnole” designava em Paris as roupas curtas adotadas pelo povo e as pessoas contratadas pra serviços braçais de duração limitada. A primeira carmanhola revolucionária, que se escuta no vídeo, refere-se à transferência da família real francesa, em 10 de agosto de 1792, pra Torre do Templo, antigo castelo templário que agora servia de prisão. A monarquia seria abolida em 21 de setembro, Luís 16 seria executado em 1793 e a família real ficaria na Torre até 1795.

Também não se sabe ao certo se A Carmanhola aqui legendada foi composta de uma só vez por alguém, ou se teve as estrofes juntadas gradualmente por várias mãos. Desde 1792, na onda revolucionária, o ritmo ficou extremamente popular na França, tornando-se parte da identidade sans-culotte. A partir daí, durante o século 19 e mesmo durante o 20, novas “carmanholas” eram compostas, cantadas e dançadas pelo povo no mesmo ritmo, conforme o evento e situação social da época. Mesmo tendo Napoleão, como Primeiro Cônsul, proibido La Carmagnole e Ça ira !, ambas continuaram no seio popular. Antes, as tropas revolucionárias usavam carmanholas como marchas militares em suas expedições, e mesmo ao entrarem na Itália, no fim do século 18, fizeram o Piemonte ouvir o ritmo novamente, e lá mesmo chegaram até a ser feitas versões antijacobinas. Mas com o tempo, também surgiram carmanholas italianas com temas rebeldes.

A letra completa tem várias expressões idiomáticas que traduzi pelo significado, além dos apelidos “Sr. Veto” (Luís 16) e “Sra. Veto” (Maria Antonieta), entendendo-se véto figuradamente em francês, como uma imposição ou atitude autoritária. Há ainda referência à Guarda Suíça, unidades militares mercenárias alugadas por diversos soberanos entre os séculos 15 e 19 pra proteção pessoal e residencial (a única existente hoje é a do Vaticano). Nem todas as gravações disponíveis no YouTube abrangem o maior número possível de estrofes, sendo que nem mesmo há um texto que se possa considerar “oficial”. Dos dois melhores áudios que achei, aproveitei um mais antigo e a ele adicionei um mais novo, do qual retirei as estrofes já cantadas no primeiro. A divisão entre os dois está bem indicada no vídeo. E, como brinde, pus ainda no final uma gravação russa de 1970, feita pelo Coral dos Pioneiros da URSS!

Eu mesmo traduzi, legendei e fiz a montagem, tendo tirado o primeiro áudio de um vídeo cujo canal, infelizmente, foi apagado, e o segundo, com as estrofes não cantadas naquele, deste vídeo, que reproduz a gravação de Marc Ogeret no disco Chante la Révolution (1988). A letra completa da Carmagnole, que não está na mesma ordem do vídeo, está nesta página. A legenda é bilíngue, ou seja, em cima há a versão em francês ou russo (esta com transliteração segundo meu sistema próprio), e embaixo a tradução em português. A letra e o áudio da versão russa estão nesta página, e pode-se também ver um exemplo da carmanhola como dança típica neste vídeo. Seguem abaixo as legendas, as letras originais e as traduções em português:


1. Madam’ Véto avait promis
Madam’ Véto avait promis
De faire égorger tout Paris
De faire égorger tout Paris
Mais son [le] coup a manqué
Grâce à nos canonniers

Refrain:
Dansons la Carmagnole
Vive le son, vive le son
Dansons la Carmagnole
Vive le son du canon !

2. Monsieur Véto avais promis
Monsieur Véto avais promis
D’être fidèle à son pays
D’être fidèle à son pays
Mais il y a manqué
Ne faisons plus quartier

(Refrain)

3. Le patriote a pour amis
Le patriote a pour amis
Tous les bonnes gens du pays
Tous les bonnes gens du pays
Mais ils se soutiendront
Tous au son du canon

(Refrain)

4. Amis restons toujours unis
Amis restons toujours unis
Ne craignons pas nos ennemis
Ne craignons pas nos ennemis
S’ils viennent nous attaquer
Nous les ferons sauter

(Refrain)

5. Oui je suis sans-culotte, moi
Oui je suis sans-culotte, moi
En dépit des amis du roi
En dépit des amis du roi
Vivent les Marseillais
Les Bretons et nos lois !

(Refrain)

6. Oui, nous nous souviendrons toujours
Oui, nous nous souviendrons toujours
Des sans-culottes des faubourgs
Des sans-culottes des faubourgs
A leur santé buvons
Vive ces francs lurons !

(Refrain)

7. Antoinette avait résolu
Antoinette avait résolu
De nous faire tomber sur le cul
De nous faire tomber sur le cul
Mais son [le] coup a manqué
Elle a le nez cassé

(Refrain)

8. Son mari se croyant vainqueur
Son mari se croyant vainqueur
Connaissait peu notre valeur
Connaissait peu notre valeur
Va, Louis, gros paour
Du Temple dans la Tour

(Refrain)

9. Les Suisses avaient promis
Les Suisses avaient promis
Qu’ils feraient feu sur nos amis
Qu’ils feraient feu sur nos amis
Mais comme ils ont sauté !
Comme ils ont tous dansé !

(Refrain)

10. Quand Antoinette vit la Tour
Quand Antoinette vit la Tour
Elle voulut faire demi-tour
Elle voulut faire demi-tour
Elle avait mal au cœur
De se voir sans honneur

(Refrain)

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1. A Sr.ª Veto tinha prometido
A Sr.ª Veto tinha prometido
Mandar degolar Paris inteira
Mandar degolar Paris inteira
Mas sua agressão falhou
Graças à nossa artilharia

Refrão:
Dancemos a Carmanhola
Viva o som, viva o som
Dancemos a Carmanhola
Viva o som do canhão!

2. O Sr. Veto tinha prometido
O Sr. Veto tinha prometido
Ser fiel a seu país
Ser fiel a seu país
Mas ele não cumpriu isso
Vamos matá-lo sem dó

(Refrão)

3. O patriota tem como amigos
O patriota tem como amigos
Todas as pessoas boas do país
Todas as pessoas boas do país
Mas eles ficarão de pé
Todos ao som do canhão

(Refrão)

4. Permaneçamos unidos, amigos
Permaneçamos unidos, amigos
Não temamos nossos inimigos
Não temamos nossos inimigos
Se eles vierem nos atacar
Vamos fazê-los fracassarem

(Refrão)

5. Sim, eu sou sans-culotte
Sim, eu sou sans-culotte
Que falem os amigos do rei
Que falem os amigos do rei
Vivam os marselheses
Os bretões e nossas leis!

(Refrão)

6. Sim, sempre nos lembraremos
Sim, sempre nos lembraremos
Dos sans-culottes dos subúrbios
Dos sans-culottes dos subúrbios
Brindemos à saúde deles
Vivam esses folgazões sinceros!

(Refrão)

7. Antonieta tinha decidido
Antonieta tinha decidido
Pegar-nos desprevenidos
Pegar-nos desprevenidos
Mas sua agressão falhou
Ela se deu mal

(Refrão)

8. Seu marido se dizia vencedor
Seu marido se dizia vencedor
Mas ignorava nossa bravura
Mas ignorava nossa bravura
Vá, Luís, grande bruto
Para a Torre do Templo

(Refrão)

9. Os suíços tinham prometido
Os suíços tinham prometido
Que atirariam em nossos amigos
Que atirariam em nossos amigos
Mas como eles falharam!
Como entraram pelo cano!

(Refrão)

10. Ao ver a Torre, Antonieta
Ao ver a Torre, Antonieta
Quis dar meia-volta
Quis dar meia-volta
Ela estava com náuseas
Por se achar desonrada

(Refrão)

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1. Король обет нарушил свой –
Как верный сын править страной.
Король обет нарушил свой –
Как верный сын править страной.
Ему держать ответ –
Пощады больше нет!

Припев:
Пропляшем «Карманьолу», –
Дружно вперёд! Дружно вперёд!
Пропляшем «Карманьолу», –
Пушечный гром нас зовёт!

2. Дворяне все стоят горой
За короля, за старый строй.
Дворяне все стоят горой
За короля, за старый строй.
Но струсят все они,
Когда пойдут бои.

(Припев)

3. Друзья, сомкнём тесней ряды –
Тогда враги нам не страшны!
Друзья, сомкнём тесней ряды –
Тогда враги нам не страшны!
Пускай откроют бой, –
Мы встретим их пальбой!

(Припев)

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1. O rei quebrou a promessa
De reger o país como filho leal
O rei quebrou a promessa
De reger o país como filho leal.
Ele vai pagar
Sem mais piedade!

Refrão:
Dancemos a Carmanhola,
Juntos avante! Juntos avante!
Dancemos a Carmanhola,
O rugir do canhão nos chama!

2. Nobres erguem-se a todo custo
Pelo rei e pelo antigo regime.
Nobres erguem-se a todo custo
Pelo rei e pelo antigo regime.
Mas todos recuarão
Ao chegarem as lutas.

(Refrão)

3. Amigos, cerremos bem as fileiras
E o inimigo não nos assustará!
Amigos, cerremos bem as fileiras
E o inimigo não nos assustará!
Que comece a batalha,
Os receberemos com fogo!

(Refrão)



Um sans-culotte: “Aqui começa o país da liberdade.”