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4 de fevereiro de 2019

O movimento ateu e o espectro político


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NOTA: “O movimento ateu dentro do atual espectro político” é mais um dos textos que escrevi em 2011 relacionando pensamento irreligioso e reflexões políticas. Como eu estava maturando nos dois domínios, achava que eles estavam estritamente ligados, mas hoje vejo que essa correlação não é mais tão necessária. Obviamente muitos extremistas religiosos ainda se metem nos governos e a questão dos preconceitos deve ser tratada como um assunto de Estado, mas ainda assim acho que tudo isso devia ser tratado sob outros termos. Esse é um dos poucos textos em que cito nominalmente duas organizações então recém-fundadas e que eram ponta-de-lança da militância laica no Brasil, mas hoje não ganham tanto destaque na mídia quanto antes. Mesmo minha percepção sobre os campos político e religioso/filosófico em separado ainda era simplória, mas o artigo ainda é válido como semente pra pensar problemas não resolvidos. Não fiz alterações.



Apesar de todas as limitações conceituais hoje emergentes ao se rotular esta ou aquela ideologia ou ação política como “de direita”, “de esquerda” ou “de centro”, parece viável, pelo menos para uma análise prática e direta ligada à posição atitudinal de um ou outro dos coletivos aqui tratados, dizer que existem, tanto no Brasil quanto em outras partes do mundo ocidentalizado, um “ateísmo de direita” e um “ateísmo de centro”. Essas designações, na verdade, só fazem sentido diante de um “novo” ateísmo a ser cultivado, o “de esquerda”, que deve colocar-se como alternativa, ainda que não a única, nas batalhas pelo fim da discriminação religiosa e por um país mais justo.

É preciso definir, antes de tudo, mais ou menos claramente, não obstante a possível falta de rigor acadêmico ou científico, o que se pode entender, grosso modo, como “direita”, “esquerda” e “centro”. Hoje em dia, na política do Estado e seus três Poderes, essa divisão parece, em grande parte, ter perdido sentido, pois os interesses particulares ou grupais que sobrepujaram, em muitas nações, a defesa de ideários coerentes e complexos ligados a aspirações mais gerais ligam-se a necessidades mais imediatas e costuradas por barganhas muitas vezes frágeis e racionalmente inexplicáveis. Porém, na falta de um vocabulário que descreva com mais precisão o quadro ideológico supostamente tomado pela política contemporânea, e como a provável transição de um modelo ligado a descrições econômicas para outro baseado em fatores mais influentes na atualidade (pode-se dizer, por exemplo, a religião) ainda não está totalmente realizada, as lutas sociais continuam a poder, sem grandes contradições, ser repartidas nas três categorias. A “direita”, referente à manutenção do capitalismo, privilegia o jogo político institucional, aceita apenas as mudanças realizadas dentro da “ordem”, menospreza o papel e a validade das ideologias, funda a “natureza humana” em bases naturais e imutáveis e ressalta o caráter de progresso no correr da história da humanidade. A “esquerda”, tipicamente anticapitalista, transfere às massas populares o protagonismo do teatro político, incentiva a quebra da “ordem” por meio de revoltas dos trabalhadores, reconhece o caráter ideológico da dominação (e de sua legitimação) burguesa, não admite a existência de uma “natureza humana” preexistente à sua construção cotidiana e demonstra como, apesar das conquistas técnicas, o ser humano também produziu muita miséria e destruição. O “centro” adota princípios dos dois polos ou envereda por um “caminho do meio”: prega reformas no capitalismo para que ele torne-se mais “solidário”, incentiva a pressão popular sobre os políticos profissionais para a realização do bem comum, tolera o manifesto de insatisfações “dentro da lei”, relativiza as elaborações ideológicas (não raro denunciando seu caráter nefasto), tentando submetê-las aos limites da “natureza humana”, e condena os males da evolução científica, não deixando de elogiar suas benesses.

Após essa exaustiva elucidação, que não deixa de ser indispensável e facilita a compreensão das próximas palavras, fica mais ou menos visível a ligação do chamado “neoateísmo” (que nada tem de novo em seus argumentos) e do humanismo secular, respectivamente, com as propostas básicas da “direita” e do “centro”. A concordância da negação de Deus com o conservadorismo já tem mais de duzentos anos: iniciou-se em alguns materialistas franceses das Luzes, tomou sua face mais desenvolvida no positivismo comtiano e hoje volta à luz em sua versão “lógica”, claramente concorde às prédicas de autores como Daniel Dennett e, em menor grau, Richard Dawkins. Sem qualquer referência à revolução social ou à origem material das desigualdades humanas, usualmente demonstra um caráter bastante elitista no esmagamento das possibilidades transcendentais com uma suposta “infalibilidade da ciência” e o consequente progresso humanístico que sua aplicação inequívoca impulsiona, vê com algum desdém a sabedoria popular, as contendas ideológicas e as modernas conciliações entre religiosidade e socialismo (como ao modo, entre outros, da “teologia da libertação”) e, como os humanistas seculares, calam-se quanto aos condicionamentos sociais e históricos do que sempre foi chamado de “essência humana”. Suas referências ao Estado são muito vagas e limitadas à defesa de sua “laicidade”, não denunciando seu caráter de classe ou a opressão que perpetua sobre a população carente. Os humanistas seculares, geralmente pouco gratos às remotas origens renascentistas cristãs do livre-pensamento e de alguns ramos do conhecimento que aos poucos se foram desligando das matrizes originais, quase sempre se localizam num meio termo entre a imutabilidade do regime econômico e o estímulo a lutas sociais, politizando o cientificismo até o limite de não exigir reviravoltas mais radicais nas sociedades e, assim, enquadrando o combate antirreligioso na simples extirpação das manifestações superficiais da fé. Mostram-se favoráveis às manifestações populares, mas novamente sem atacar as verdadeiras raízes dos preconceitos que combatem, como aos LGBTTT, às mulheres, à diversidade religiosa e irreligiosa e à liberdade de expressão. Mais do que repulsa, demonstram indiferença a uma compreensão aprofundada das ideologias políticas mais consagradas como instrumento para a pugna ateísta (aliás, são menos elitistas e isolacionistas do que os “neoateus” porque não achincalham o agnosticismo e não lhe reservam um mero espaço nominal ou coadjuvante nas instituições que fundam). Quanto a questões mais propriamente mundanas, são um pouco mais “esquerdistas”: defendem o Estado laico, leis mais justas para todos os grupos sociais e, contra os abusos genocidas, uma ciência baseada em uma ética humanista, humanismo esse, porém, exibido como uma espécie de “essência atemporal” desligada das recentes condições internacionais que possibilitaram sua forma atual.

Falar em um “ateísmo de esquerda” pode até contradizer os próprios princípios do socialismo (e não só do marxista, mas também das ideias sobre religião escritas pelos anarquistas), já que as Igrejas e a religiosidade seriam apenas a manifestação de carências da maioria da população e da coerção de poderes que oprimem essa gente corporal e mentalmente e curáveis, portanto, por meio da derrubada de todos os poderes políticos e econômicos causadores da miséria e da alienação. Contudo, é justamente essa grande constatação esquecida pelos movimentos antirreligiosos modernos, que se atêm apenas ao fenômeno religioso palpável e visível e não sabem que, embora não se deva, obviamente, cair na determinação mecânica das religiões de um povo pelas suas estruturas econômicas e políticas, todos os elementos coletivos da esfera privada e a esfera pública (ou, como também se poderiam chamar, “sociedade civil” e “sociedade política”) de um país estão organicamente ligados em um funcionamento simbiótico, e sendo as Igrejas nada mais do que mais um coletivo privado, não poderiam funcionar sem relacionar-se a seu meio, ainda que, mesmo assim, não necessariamente percam sua independência e particularidades. Por isso, faz-se premente reconhecer que a luta contra as manifestações de injustiça e belicosidade no Brasil e no mundo deve estar imbricada ao combate contra o sistema político-econômico que hoje vigora praticamente em todas as nações, um sistema de exploração do trabalho, de privilégios às classes dirigentes, de desigualdade social, de falta de compromisso com o saber e de massificação das preferências e das paixões. A ciência não deve ser mais um poder acima de todos os conflitos, e sim precisamente um instrumento indissociável da peleja política (não da política estatal, mas da política das ruas, do campo, das fábricas e das instituições de ensino) e servidor dos mais fracos, que não devem, aliás, ser tutelados por ela, mas dominarem-na por si mesmos, desencastelarem-na de seus redutos acadêmicos e darem-lhe, portanto, mais vida e utilidade. E a dimensão espiritual do ser humano, não associada à fé cega e servil, mas ao pleno desenvolvimento e satisfação das vontades erótico-estéticas, de gosto, de beleza e do sentido que todas e todos precisam dar à sua curta existência, deve ser recuperada sob um novo prisma, mais realista, terreno e sensual, sem os excessos causados por uma cultura da banalização do prazer nem o vazio deixado pela ânsia doentia de riquezas e dominação. E é sobre essa confusão espiritual, hoje canalizada por inúmeras seitas fundamentalistas e preconceituosas, que os movimentos ateus, laicos e secularistas precisam debruçar-se tanto para atrair mais simpatizantes quanto para realmente tornar a humanidade melhor.

O extremismo e o dogmatismo, presentes há muitos séculos igualmente nas práticas sociais dominantes e nas alternativas contestadoras, são males que causaram irreparáveis danos à política e a religião, com reflexos castradores e repressores na cultura e na vida íntima dos indivíduos. Se o ateísmo, originalmente um rótulo imposto pelos governantes aos desvios do pensamento hegemônico e progressivamente tornado em um conjunto de doutrinas anticlericais não raro díspares, não quiser ver seu potencial desagregar-se e todo seu esforço contra as opressões ser engolido por crescentes ondas de obscurantismo, deve assentar seus pés sobre o chão e dialogar com o mundo real, com interlocutores reais e com clamores reais, longe de debates infrutíferos e acessíveis apenas a uns poucos iniciados. Só assim o equívoco vocábulo de negação dos deuses, de estigma popular, passará a ser tido como sinônimo de coragem, sabedoria, altruísmo, inteligência e fraternidade humanitária.


Bragança Paulista, 20 e 22 de abril de 2011.


Nota (23/4/2011): Após refletir um pouco, dei-me conta de que “neoateu” e “humanista secular” não são categorias necessariamente fixas ou excludentes, mas que um humanista secular pode muito bem ser um neoateu, ou vice-versa, ou ainda pode adotar apenas uma dessas visões. Na verdade, quando fiz tal classificação, referi-me especialmente a duas entidades secularistas que hoje representam com maior vigor e espaço o ateísmo organizado no Brasil: a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) e a Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS). Embora elas não sejam obrigatoriamente antagônicas, quem as conhece e acompanha seu trabalho sabe que seus meios de atuação diferem bastante e que não raro seus líderes demonstraram várias divergências quanto ao modo de tratar a religião e as pessoas religiosas (no que meu texto acerta, de fato, quando atribui, implicitamente, maior tolerância à LiHS e maior rispidez à ATEA). Além disso, ao contrário do que acontece com vários grupos de esquerda ou mesmo várias religiões, não se tem registro, até agora, de qualquer manifestação popular, reservada ou virtual que tenha contado com a colaboração mútua dos dois organismos, o que deixa claro que a falta de união de forças ainda é um dos pontos fracos desse tipo de ideologia em nosso país.