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28 de fevereiro de 2019

Esvaimento do rebanho católico (2011)


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NOTA: Este texto, cujo arquivo Word tem 10 de janeiro de 2011 como data da última alteração, se chama “Por que o rebanho católico se está esvaindo?”, e também é um dos mais precoces com reflexões sobre os laços entre religião e política. Como eu disse outras vezes, era minha contestação social que também estava despertando, portanto eu sempre a relacionava com a libertação religiosa e espiritual. Neste caso, o artigo parece menos inatual, embora possamos complementar com números sobre o abandono do catolicismo e a adesão à irreligião ou ao ateísmo em sentido estrito. É notável como nunca desliguei a emancipação intelectual e educativa da melhoria das condições de vida da população como um todo, tanto pela necessidade que sempre vi de boas escolas quanto pelo dano que uma potência material pode causar junto à confusão mental. Também creio que pode ajudar num outro debate recente, sobre a formação e dissolução de mitos, ídolos e movedores de massas, mesmo que hoje eu nem sempre o vincule diretamente à substituição do “Deus cristão” por outros “deuses laicos”. Segue o texto sem qualquer alteração.



A queda progressiva na porcentagem de católicos romanos no Brasil apontada pelo Censo nas últimas décadas é um sintoma da confluência de três fenômenos principais de nosso cenário religioso: a inaptidão da Igreja Católica em acompanhar o vertiginoso progresso social, científico e tecnológico do mundo; o encaixe perfeito entre a mentalidade capitalista e os protestantismos, sobretudo os pentecostais; e, como resultado dos avanços educacionais, o crescimento gradual do grupo genericamente chamado de “sem religião”.

Apesar das constantes atualizações e acréscimos nos ritos e nos dogmas, o Vaticano segue princípios estabelecidos, em seu básico, no início da Idade Média e consolidados, com algumas revisões e fortalecimentos, por volta do final desse período. Durante esse milênio, a mentalidade da Antiguidade Clássica, traduzida em deuses atentos às necessidades e vontades terrenas de seus adoradores, foi substituída por um cristianismo ascético, supressor dos prazeres e apegos mundanos e valorizador da graça divina em detrimento das ações humanas. Pode-se notar aí um cenário de imobilismo díspar ao crescimento econômico e artístico resultantes da renascença cultural e comercial europeia, mas que se dissolveu lentamente à medida que o planeta ia interligando-se e as culturas iam misturando-se. Até hoje, aquela mentalidade pré-capitalista e milenarista do catolicismo é enfrentada pela busca de soluções rápidas para os problemas da vida e pela recriação e fusão incessante de costumes e valores.

Segundo a ideia tornada lugar-comum pelo livro A ética protestante e o espírito do capitalismo, de Max Weber, os protestantismos são, por assim dizer, a “religião orgânica” do capitalismo, pois substituíram o princípio da graça pelo do mérito e limitaram as restrições católicas feitas a aquisições materiais cada vez mais abundantes entre a burguesia. Com efeito, as religiões protestantes instituídas, com seus preceitos e rituais mais simplificados, destoavam do intenso apelo ao mágico, ao pomposo e à obediência cega predominantes até então no cristianismo e tornados velharias pelo nascente imediatismo capitalista. Esse processo de simplificação extremou-se com os recentes pentecostalismos, destacando-se a Igreja Universal do Reino de Deus, que transformou a bênção divina em um artigo comercial cujas qualidade e quantidade são proporcionais ao dinheiro que o fiel sacrifica em nome de sua afiliação. A ânsia por consolo imediato e eficaz, contrária ao clima de eterna espera e paciência da Igreja Católica, embora nem sempre envolva finanças, também é comum em outros cultos que lhe tiraram vários seguidores, como é o caso do espiritismo, entre tantos.

Devido a nossa educação ibero-católica e a despeito da tolerância que as diferentes religiões demonstram entre si, ainda são poucos os brasileiros que se dizem irreligiosos, e em número menor ainda são aqueles que assumem dispensar a crença em um ou mais deuses ou em providências sobrenaturais. É notável que mesmo os ditos simplesmente “cristãos” ou aquelas pessoas que afirmam “crer em Deus independentemente de religião” estão confinados a camadas mais educadas ou materialmente prósperas da sociedade brasileira. Em todo o caso, a livre reflexão e a decisão autônoma são realmente um apanágio de grupos que podem informar-se melhor e têm mais tempo e energia para longas reflexões pessoais; a submissão irrefletida a normas vindas de fora e a promessas de paraísos fica por conta dos apressados e fatigados. E são essas lacunas que os grupos secularistas, ainda centrados em questões mais abstratas, não estão conseguindo preencher: após desmistificar o pensamento teológico e religioso perante um público maior, esses coletivos deverão superar sua distância da realidade de pobreza material, intelectual e educacional que o País ainda precisa enfrentar.

O rebanho católico se está esvaindo, mas o comodismo comum às inteligências brasileiras faz com que as ovelhas, em última instância, procurem apenas outro pastor para conduzi-las. Atualmente, faz-se necessário começar a extinguir a mentalidade de pastoreio, mesmo entre os ateus, e criar águias livres e desbravadoras, guiadas apenas por uma consciência reta cultivada pela democratização da saúde, da instrução e da cultura.