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2 de março de 2019

“Quel mazzolin di fiori” (canção alpina)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/mazzolin




Há muito minha família e eu conhecíamos esta canção, por ser tocada entre famílias de ascendência italiana da Serra Gaúcha, no interior do Rio Grande do Sul. Porém, por um acaso achei este áudio, cuja batida me agradou bastante, e mais ainda à minha mãe (cuja avó materna é filha de italianos), que insistiu pra eu traduzir e fazer uma montagem legendada com este áudio. O nome da música é Quel mazzolin di fiori (Aquele buquezinho de flores) e é típica do vale Valsugana e da região da Lombardia, no norte da Itália. Pelo que pude apurar, quem canta é uma dupla chamada Leo & Gabry, mas não achei nada sobre eles.

O autor da canção é anônimo, mas o primeiro a atestar sua existência foi Ludwig Hörman, que em 1870 a mencionou na revista Zeitschrift des Ferdinandeums für Tirol und Vorarlberg (o alemão sempre foi uma língua influente no norte da Itália). Na província de Trentino, a música já se achava registrada em coletâneas do fim do século, e a seguir entraria em outras coleções e em todos os cancioneiros alpinos. A base linguística do texto é o italiano padrão, mas ele é recheado de elementos da língua lombarda, que também tem substrato gálico e céltico, mas pra muitos é considerada dialeto. A obra não tem relação com nenhuma guerra, mas por ter sido cantada pelos soldados dos Alpes durante a 1.ª Guerra Mundial, ficou famosa em toda a Itália.

A canção também foi gravada por Gigliola Cinquetti em 1972 no álbum Su e giù per le montagne, bem como no álbum de 1974 Topo Gigio a Canzonissima, referente ao famoso ratinho de brinquedo. Na França, a gravação foi realizada pelo grupo Les Compagnons de la chanson, no álbum Nos Jeunes Années de 2005. Embora a música seja conhecida entre os imigrantes italianos de origens diversas, sobretudo vênetos, no Brasil a língua lombarda é preservada em Botuverá – SC, no vale do Itajaí, cidade cujos fundadores vieram, sobretudo, da planície entre Treviglio e Crema, preservando, pois, o falar dessa zona de origem. Como toda canção folclórica, existem inúmeras variações da letra, mas no vídeo pode-se ler a reconstituição que fiz conforme o áudio e a comparação de diversas fontes incluindo traduções em português.

A primeira e principal fonte foi o Wikisource italiano, cujo texto, porém, tem grafias errôneas ou arcaicas. As fontes com traduções mais ou menos corretas em português, mas textos italianos diferentes, são a do site de Jaciano Eccher, especialista no idioma vêneto brasileiro, a do site Músicas Italianas de Giuseppe Ulivi e a do site Vagalume, em que faltam, porém, as duas últimas estrofes. Com a transcrição feita por um museu de cultura regional da província de Trentino, em cuja página há informações adicionais, tive a palavra final, tirando a dúvida, sobretudo, quanto ao verso Ei non è vegnù da me, que sempre vinha como Lui non è vegnù da me, mas que eu não ouvia assim. Ei é uma variante de elli, forma arcaica de egli, por sua vez opção formal de lui.

No fim de tudo, eu sou o responsável pela transcrição final, tradução e montagem. Vejam o vídeo duas vezes, lendo uma legenda a cada vez! A tradução pode não estar correta, mas foi o que compreendi de um gênero textual que não raro se presta à imprecisão e ambiguidade. Seguem abaixo minha legendagem na TV Eslavo (YouTube), o texto em italiano/lombardo e a tradução em português (cada par de versos é cantado duas vezes):




Quel mazzolin di fiori
Che vien dalla montagna,
E bada ben che non si bagna,
Ché lo voglio regalar.

Lo voglio regalare
Perché l’è un bel mazzetto,
Lo voglio dare al mio moretto
Questa sera quando vien.

Stasera quando viene
Sarà una brutta sera.
E perché sabato di sera
Ei non è vegnù da me?

Non è vegnù da me,
L’è andà dalla Rosina.
E perché mi son poverina,
Mi fa piange e sospirar.

Mi fa piange e sospirare
Sul letto dei lamenti.
E cosa mai dirà la gente,
Cosa mai dirà di me?

Dirà che son tradita,
Tradita nell’amore,
E perché a me mi piange il cuore
E per sempre piangerà.

____________________


Aquele buquezinho de flores
Que vem da montanha,
Cuidado para não o molhar,
Pois quero dá-lo de presente.

Quero dá-lo de presente
Porque é um lindo ramalhete,
Quero dá-lo ao meu moreninho
Quando ele vier hoje à noite.

Quando ele vier hoje à noite
A noite vai estar feia.
E por que na noite de sábado
Ele não veio à minha casa?

Não veio à minha casa,
Foi à casa da Rosina (Rosinha).
Só porque sou pobrezinha,
Ele me faz chorar e suspirar.

Me faz chorar e suspirar
Na cama das lamentações.
O que é que o povo vai falar,
O que é que vão falar de mim?

Vão dizer que sou azarada,
Azarada no amor,
Já que meu coração chora
E vai chorar para sempre.