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4 de março de 2019

Quem venceu eleições brasileiras 2010


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NOTA: Este texto, cujo arquivo Word tem 5 de fevereiro de 2011 como data da última alteração, é “Quem venceu as eleições brasileiras de 2010?”, ao mesmo tempo uma profecia e um autoengano. Profecia porque deu em linhas gerais exatamente o que se consolidaria sob a presidência Bolsonaro: um governo de bandeiras cristãs reacionárias amparado por um Congresso Nacional eleito entre clérigos e fiéis de igrejas evangélicas radicais. Autoengano porque eu não queria que seguíssemos esse caminho, e achava mesmo que tínhamos condições de evitar segui-lo por causa da onda progressista e racionalista que também se delineava. Como não costumo separar questões políticas de questões (pelo menos se concernem o social) religiosas, julguei que Dilma Rousseff pudesse ao mesmo tempo mitigar o esquerdismo de Lula e abraçar bandeiras racionalistas. Mas vimos que ela terminou se amparando nos pentecostais e instrumentalizando a ideologia, até levar o país ao caos econômico e à discórdia valorativa. A instrução científica da população ainda é uma utopia que estamos esperando alcançar. O mais incrível é que esses artigos guardados, “congelando” ideias daquela época, registraram dados e fatos dos quais nem agora eu tinha memória! Por tudo isso, dou-lhes pra desfrute sem alterações.



Nossa campanha presidencial de 2010 foi uma das que teve o nível mais baixo da história, tanto no sentido defensivo quanto no ofensivo, e dentre os aparelhos privados de hegemonia que procuraram ampliar seu poder e influência durante a disputa, apenas um mostrou-se como o maior vencedor: o conjunto das Igrejas cristãs evangélicas, as verdadeiras propulsoras da baixaria que se tornou o evento. Não foram os católicos, nem os ateus, nem outros grupos laicos que se favoreceram com o debate de opiniões; os resultados positivos de sua maior ou menor visibilidade foram ínfimos, e agora precisam torcer para que o novo equilíbrio de forças no Congresso Nacional, amplamente a favor de Dilma Rousseff, reverta-se em ganhos reais.

Uma época de progressos sociais e científicos se avizinha hoje no mundo inteiro, sendo mais intenso seu impacto na religiosa e intransigente América, formada moralmente pelo catolicismo tridentino e pelo puritanismo protestante. Ao contrário do que pensam alguns comentaristas condescendentes com o medonho conservadorismo dos discursos políticos oficiais, não é a antirreligiosidade dessas mentes inovadoras que alimenta o ódio à ciência em todos os fundamentalistas; trata-se de uma verdadeira crise de valores cujas consequências e desfecho ainda não podemos prever. Os choques entre situação e inovação sempre ocorreram na história da humanidade, e no último pleito não foi diferente: o passado de afirmações polêmicas e de militância esquerdista de Dilma, além de alguns fatos relacionados ao governo Lula e a reuniões deliberativas do PT, insuflaram a preocupação de setores mais ligados ao status quo, e a bomba foi lançada pelos evangélicos: a candidata seria a favor do aborto e do casamento homoafetivo.

O protestantismo brasileiro estava em vantagem, pois a posse de 25% do eleitorado lhes respaldaria politicamente, a nível federal, uma dominação que já se traduzia em um grande aparato midiático, editorial, financeiro e religioso; era a chance de moldar o Brasil à sua imagem e semelhança e de consolidar impérios pessoais baseados no ludíbrio e no medo. Não seria nem preciso escolher um presidente que fosse um decalque de seus sacerdotes – de fato, Serra não usava uma linguagem explicitamente fideísta, e Marina Silva, evangélica próxima de um progressismo modista, separara publicamente suas convicções pessoais do futuro encargo público –: nosso sistema político não permite que o Executivo possa governar sem o Congresso, para o qual podem livremente concorrer as mais caricatas bazófias humanas. E foi o que aconteceu, afinal: a bancada protestante aumentou e já se mostrou disposta a mostrar suas garras barrando qualquer projeto que contrarie suas crenças particulares, numa clara mostra de violação do interesse público por quinquilharias privadas.

Cabe ainda uma palavra sobre dois atores da comédia trágica; um, já velho conhecido nosso, e outro, ainda engatinhando na vida pública. A Igreja Católica, confusa em escândalos internos e na baixa credibilidade entre vários setores da população, sobretudo os mais instruídos ou influentes, bem que tentou aproveitar-se da maré reacionária levantada pelos evangélicos, porquanto, afora as divergências doutrinárias, a rabugice em questões que os clérigos minimamente se informam ainda salva a possibilidade de uma “Santa Aliança ecumênica”. Pura quimera: o máximo que ganharam foi a eleição de Gabriel Chalita – já rompido com o PSDB, por sinal – para a Câmara dos Deputados, muita paulada de internautas em sites de notícias que exibiam declarações da CNBB e um direito de resposta petista em uma TV católica a propósito de uma homilia anti-Dilma. Já os laicistas e ateus, felizmente mais propensos à democracia e à transparência política, continuam com sua militância restrita aos meios eletrônicos, não podendo fazer muita coisa contra o fisiologismo e o caciquismo imperantes há décadas nas duas Casas legislativas. Mesmo assim, alguns legisladores progressistas alçados a Brasília, como o gay e ex-católico Jean Wyllys (PSOL-RJ) e a eterna sexóloga Marta Suplicy (PT-SP), se não forem enredados pelas famosas tramas corruptoras e negocistas, são uma fonte de esperança no deserto por já prometerem reverter a situação das questões do abortamento e dos direitos homossexuais.

O mundo da política institucional brasileira ainda causa ilusão em certas almas revolucionárias que desejam alcançar aquele distante mundo para “transformar o país e fazer o bem aos cidadãos”, mas não enxergam o desgaste das barganhas e das concessões a que devem submeter-se para alcançar lá o mínimo de visibilidade e voz. É preciso ensinar ao povo que o cerne do fazer político encontra-se no cotidiano, nas ruas, nas associações de bairro, nas escolas, nos clubes, nos sindicatos e em outros ajuntamentos que traduzem os problemas reais de vivências palpáveis, o palco onde definitivamente recaem as decisões dos três Poderes. Enquanto essa consciência não se massifica, cabe buscar reger, como disse Gramsci, todos os meios culturais, educacionais e políticos das classes dominantes para que, voltando-se para quem realmente precisa, eles ajudem a fundir governantes e governados em uma só dimensão.