Desde a vinda pra Bragança Paulista de um grupo de caldeus (às vezes chamados “assírios”) residente em Sarcelles, periferia de Paris, em julho de 2013, antes que partissem ao Rio de Janeiro pra participar da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) católica – primeiro grande evento internacional do recém-empossado papa Francisco –, fiquei fascinado por essa cultura quanto à língua, história e música. Eles são cristãos que praticam o “rito caldeu”, em comunhão com a igreja de Roma, e usam o aramaico como língua litúrgica, enquanto seu próprio idioma oral familiar é uma variante aramaica simplificada e modernizada. Apesar da diáspora já grande, os caldeus viviam em grande parte no noroeste do Iraque e no nordeste da Síria, mas em 2014 a expansão ofensiva do Daesh (vulgo Estado Islâmico) praticamente esvaziou a região dessa população. Apenas recentemente começou a haver um ressurgimento, sobretudo no Curdistão iraquiano, mais autônomo que seu congênere sírio.
Do ramo semítico a que também pertencem o árabe e o hebraico, o aramaico e suas variantes modernas, incluindo o sureth (ou suret), a mais usada delas, quase não são mais falados por populações nativas e correm o risco de ter a transmissão geracional cortada, em particular na diáspora euro-americana. Uma de minhas principais fontes sobre o assunto é o livro Parlons soureth, de Bruno Poizat, especialista francês que escreveu muitas outras obras didáticas, mas há também inúmeros sites sob o título genérico de “Learn Assyrian” ou “Assyrian Language”. Não vou entrar no mérito do gentílico “assírio”, embora há quem use a forma conciliatória “assírio-caldeu” e eu prefira usar “caldeu” pro idioma atual e seus dialetos modernos. Importa dizer que a cultura musical ainda é riquíssima, e quem se interessa pelas culturas do Levante, do Cáucaso e da Turquia em geral (há também ativas comunidades no sul da Rússia, especialmente em Krasnodar), vai achar aí um poço inesgotável de diversão.
Uma dessas canções que fala sobre a saudade da terra natal e a complexidade da história ancestral foi gravada várias vezes pelo cantor Sargon Gabriel. Infelizmente, a primeira versão (talvez a original solo, se descontados duetos antigos que ele fez), que era minha preferida, sumiu do YouTube, mas na gravação de 2004, que segue incorporada abaixo, um usuário trouxe em comentário a tradução em inglês da canção, cuja correção não pude confirmar. Por isso, estou a trazendo junto com minha própria versão em português, quase toda dependente desse texto em inglês. O título é Hakkari e se refere a uma região montanhosa, de maioria historicamente caldeia (vou usar aqui o termo como sinônimo de “assírio” em outras fontes), abrangendo atuais partes do extremo nordeste da Turquia e o extremo norte do Iraque e sonhada como futura pátria independente após a 1.ª Guerra Mundial.
Hoje, Hakkâri (com circunflexo) é nome de uma cidade, de um distrito e de uma província na Turquia, historicamente partes da citada região, mas hoje habitados majoritariamente por curdos, cuja relação com os caldeus até hoje está longe de ser tranquila. Hakkari esteve sob domínio nominal turco desde o século 16, mas até 1868, quando se tornou um sancak (ou sanjak, ou “sanjaco”, uma divisão administrativa) do Império Otomano, era na prática administrada de forma autônoma pelos caldeus e curdos. Os caldeus dessa região pertenciam a uma denominação cristã sem comunhão com Roma e viveram aí até 1924, quando foram expulsos os últimos remanescentes do genocídio perpetrado pelos turcos durante o conflito mundial (geralmente eclipsado pelo que ocorreu com os armênios). Suas exigências por um Estado próprio nas conferências de paz em Paris em 1919 não foram ouvidas, e após as rebeliões de 1924, os poucos que puderam ficar tiveram de se aliar aos curdos e se converter ao catolicismo caldeu.
Sargon Gabriel nasceu no centro do Iraque em 1947 e fez sua primeira aparição televisada em Bagdá, aos 17 anos, tendo feito back vocal pro cantor caldeu Albert Ruel Tamras antes de iniciar carreira solo. Seu primeiro álbum foi lançado em 1973, e desde então, entre duetos e a ajuda no lançamento de outros artistas caldeus, teve suas canções popularizadas em regravações de outros membros da diáspora e na execução em casamentos, festas e outros eventos sociais. Gabriel, que hoje vive em Chicago, lançou mais de 20 álbuns, o mais recente em 2012, e colaborou em vários outros, tendo como um de seus mais notáveis letristas o poeta sírio Adwar Mousa.
Esta página tem uma tradução alternativa de Hakkari, e segundo ela a melodia é anônima e vem do folclore turco tradicional, enquanto a letra foi criada por Melis Ishaya (às vezes “Eshaya”), cantor e produtor também focado na cultura caldeia. Os arranjos modernos são de Francis “Bijou”, baixista, compositor e produtor que colaborou longamente com Gabriel. Seguem abaixo o vídeo a que me referi, uma versão em karaokê (escrita perso-arábica) de um canal especializado em canções “assírias” e uma tradução pro polonês que achei por acaso; com esta, pelo menos, consegui comparar parte da gramática, que estava meio estranha em minha fonte. E finalmente minha tradução indireta pro português e a versão em inglês que utilizei (cada estrofe é cantada duas vezes):
Refrão:
1. Vou beber um vinho velho
(Refrão) 2. E as donzelas de bela aparência
(Refrão) 3. A dança em fila longa vai começar
(Refrão) 4. A zurna e o tambor vão ser tocados
(Refrão) |
Notas culturais:
1) O rawe é um canto folclórico tradicional e a cappella do povo caldeu, considerado uma das expressões mais antigas de sua literatura oral e herança cultural. São cantos épicos, melancólicos ou narrativos que expressam a vida social, as emoções, as dores e a história dos caldeus, em geral executados sem acompanhamento instrumental ou com ritmos tradicionais marcados.
2) Joulet khomaleh (ou julet khomala, que sei lá por que cargas d’água foi traduzido como “clothes of garages”) é o traje folclórico e vestimenta tradicional do povo caldeu, reservado pra ocasiões festivas, casamentos e celebrações importantes.
3) Jilu, Baz, Tyare e Tkhuma (junto com Dez) eram tribos cristãs não católicas e autogovernadas que povoavam localidades na referida região histórica de Hakkari, até o início de sua expulsão durante a 1.ª Guerra Mundial.
Chorus:
1. I will drink old wine
(Chorus) 2. And the good-looking maidens
(Chorus) 3. The long line-dance will begin
(Chorus) 4. The zurna and drum striking (playing)
(Chorus) |

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