quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Narrativa pró-Rússia na mídia brasileira

    Em seu esforço contínuo pra advogar em prol da causa ucraniana no Brasil, meu amigo Claudio Cavalcante Junior, doutor em Antropologia pela UFRJ e constante aparição nesta humilde página, participou online da conferência internacional Global Disinformation Conference – Kharkiv 2026, promovida pela cátedra de Relações Internacionais da Universidade Nacional V. N. Karazin de Kharkiv. Na qualidade de membro da Universidade Livre Ucraniana Wira Wowk Selansky do Brasil, ele apresentou em inglês o trabalho “Pro-Russia narratives in the context of political polarization in Brazil” (“Narrativas pró-Rússia no contexto de polarização política no Brasil”), ao qual ele deu o nome alternativo “Pro-Russian narratives in Brazilian media” (Narrativas pró-Rússia em meios de comunicação do Brasil).

Agradeço ao Claudio a permissão de publicar aqui sua versão prévia em português, com redação revisada por mim e notas de rodapé que completei com todos os dados das referências. Exceto pelo formato, nem eu nem ele acrescentamos conteúdo novo à comunicação depois de ter sido lida no evento. Esperamos que ela possa ajudar a serem formuladas outras reflexões sobre a detecção e o combate a narrativas da mídia tradicional ou “alternativa” e da academia defendendo a agressão de Putin à Ucrânia e suas ameaças aos países da OTAN.


A apresentação trata de narrativas pró-Rússia no contexto de polarização política do Brasil. Por isso, vou abordar as relações de autoridades brasileiras com Putin nos últimos quatro anos e expor uma pequena amostra de reportagens que demonstram certo “apoio” à “operação militar especial” da Rússia na Ucrânia.

Tanto em 2022 quanto em 2026, vivemos uma forte polarização entre o que podemos identificar como os dois movimentos políticos liderados por Jair Bolsonaro (direita/extrema-direita) e pelo atual presidente Luís Inácio Lula da Silva (esquerda).

No ano da invasão em larga escala da Rússia à Ucrânia, o Brasil mais uma vez elegeu Lula, ex-presidente de esquerda. Naquele ano, Bolsonaro havia ido à Rússia pouco antes da invasão em larga escala e, três dias após a invasão, fez piada sobre o assunto em entrevista. Ao ser perguntado sobre a guerra, o então presidente afirmou que a Ucrânia “confiou em comediante para traçar destino da nação”. (1) Naquele mesmo ano, Lula relativizou a responsabilidade de Putin e comentou que “os motivos para o conflito seriam resolvidos no Brasil em uma mesa de bar regada a cerveja”. (2) Quatro anos depois, o Brasil continua polarizado e Lula tenta um quarto mandado como presidente contra o filho de Jair Bolsonaro, Flávio. A forte divisão do país entre esquerda e direita, em alguma medida, impacta sobre a forma de enxergar o mundo de forma geral e a guerra entre a Rússia e a Ucrânia de forma particular.

Independentemente de quem está no poder, o Brasil é um país onde atuam livremente os instrumentos russos de soft power, entre eles a filial do Balé Bolshoi, única presente fora da Rússia. Anualmente há uma seleção de novos alunos, amplamente coberta por reportagens na televisão. (3) Meninas e meninos pobres, egressos de projetos sociais, têm suas vidas transformadas ao serem selecionados para um dos melhores balés do mundo. Nestas ocasiões, em geral, não há qualquer menção sobre a invasão da Rússia à Ucrânia, ausência notável também na imprensa ou em sites oficiais quando o Brasil celebra convênios com a Rússia. Podemos destacar a cooperação na área de tecnologia e ciência com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (4) e o investimento para o ensino de russo no Brasil, integrado como língua estrangeira em escolas selecionadas por meio de um acordo recente entre os ministérios da Educação brasileiro e russo. (5)

O Brasil recebe muito bem os russos que decidem viver aí e não parece haver grande preocupação com histórias envolvendo a presença de espiões russos em território nacional. (6) Existe também a Sputnik BR, sucursal no Rio de Janeiro da mídia propagandista russa Sputnik onde é operada uma estação de rádio. (7) Em geral, os meios de comunicação não somente não demonstram preocupação com a presença russa no Brasil, mas também replicam acriticamente as fontes oficiais de propaganda do Kremlin, tratadas de forma distinta de outros emissores, como Donald Trump ou Jair Bolsonaro, cujos conteúdos são muito mais questionados.

Ao analisarmos artigos de um jornalista para o importante jornal brasileiro Folha de S. Paulo, observamos uma postura que pode ser considerada pró-Rússia. Em vários textos, ele apresenta a expansão da OTAN como a principal queixa estratégica de Moscou; em outros artigos, descreve explicitamente a guerra como resultado de uma disputa de segurança entre a Rússia e o Ocidente. Em um dos textos, o jornalista escreve que existe um “embate subjacente” à guerra, definido como uma disputa entre Moscou e EUA/OTAN sobre o desenho das fronteiras de segurança do Leste Europeu. (8) Logo em seguida, afirma que “o Kremlin vê a expansão a leste de estruturas ocidentais como inaceitável”. O texto também identifica a entrada dos países bálticos na OTAN como um dos principais pontos de atrito para Putin. Mesmo sendo um texto escrito há mais de quatro anos, o argumento para uma possível ação militar no Báltico já estava posto.

Em outro texto, aponta que Putin colocou “de vez” a ideia de que sua guerra seria uma reação à expansão ocidental, destacando que 14 “países ex-comunistas” haviam aderido à OTAN desde 1999. (9) Também aponta que, naquele contexto, uma das condições russas era a neutralidade da Ucrânia, e sua não entrada na aliança. Aqui, o jornalista não está apenas dizendo que Putin criticava a OTAN, mas também apresentando a expansão da aliança como a explicação estratégica que o Kremlin utiliza para justificar a guerra. (10)

Mesmo antes da invasão de 24 de fevereiro, ao explicar as exigências russas durante a “crise”, o jornalista afirmara que Putin reivindicava que a OTAN retirasse as tropas posicionadas nos “países ex-comunistas” incorporados à aliança após 1999 e que já fosse permanentemente vetada a entrada da Ucrânia na OTAN. Em outro texto também escrito e publicado antes da invasão, usa o mesmo argumento ao expor sua abordagem sobre o que chamou “contexto histórico da expansão da OTAN”, na qual apresenta a crise como uma disputa da Rússia com a Ucrânia e a OTAN e explica que Putin buscava impor uma determinada visão estratégica para o Leste Europeu. (11)

O jornalista esteve nos territórios ocupados do Donbás, (12) onde fez reportagem sob tutela dos ocupantes em novembro de 2024, (13) o que não gerou reações de meios de comunicação no Brasil. Apesar disso, no mesmo jornal, são expostas posições divergentes, incluindo um texto do cientista político Vicente Ferraro, que debate a seletividade moral na academia e na imprensa com relação ao conflito. (14) O jornalista supracitado é reconhecido por ser uma pessoa pró-Rússia. Em conversa privada com um jornalista da mesma publicação que esteve na Ucrânia, onde fez algumas reportagens, elogiei seu trabalho e comparei-o ao desse jornalista, a quem acusei de ser pró-Rússia. A resposta do jornalista foi: “(...) ele é super pró-Rússia”. (15) Desta forma, não há qualquer problema ou impedimento em ser assumidamente um apoiador da Rússia em uma publicação da relevância da Folha de S. Paulo. (16)

Ao longo de minha pesquisa, convergindo com Ferraro, identifiquei a falta de uma visão crítica sobre a invasão da Rússia à Ucrânia da parte de jornalistas e intelectuais, que não questionam as mentiras de Putin e Lavrov sobre sua invasão em larga escala e as acusações à Ucrânia (e aos ucranianos) de ser agente do “Ocidente”, sobretudo por meio da “ameaça” da expansão da OTAN, e de ser “nazista”. (17) O argumento da expansão da OTAN e da ameaça do “Ocidente” é de grande recorrência nas narrativas que podem ser identificadas como propagandistas pró-Rússia no Brasil.

Essa abordagem é reforçada pelo sentimento antiamericano recorrente no jornalismo e, sobretudo, no mundo acadêmico, cuja comunidade geralmente reivindica um engajamento “de esquerda”. Segundo reportagem da Al-Jazeera, (18) o argumento dos “esquerdistas brasileiros” para apoiar a Rússia é a expansão da OTAN, contra a qual o país estaria se defendendo. Para esses “esquerdistas”, a Rússia de Putin é a sucessora da URSS, perspectiva alimentada pelo presidente Lula em seu terceiro mandato, que imagina que Putin pode pôr fim ao imperialismo americano e pavimentar o caminho rumo a um mundo multipolar. A reportagem aponta ainda que a “esquerda brasileira” não acredita no término da “guerra fria”. (19) Aqueles que enxergam o regime putinista pelo viés “progressista” ignoram, por exemplo, a criminalização do movimento LGBT e a emergência de políticas em seu desfavor na Rússia. (20)

Isso não quer dizer que antes de 2022 não existissem apoiadores de Bolsonaro simpáticos à Rússia. É importante frisar que o estreitamento dos laços de Lula com Putin, a quem o presidente brasileiro chamou de “amigo”, (21) pode ter impactado positivamente sobre alguns militantes de “direita”, “bolsonaristas” pró-Rússia que veem em Putin uma liderança lutando contra “globalistas”. (22)

A abordagem daqueles que se reivindicam “conservadores” e apoiam Putin no Brasil está parcialmente sintetizada no discurso do ex-presidente Bolsonaro por ocasião da visita à Rússia (23) dias antes da invasão em larga escala: “Compartilhamos de valores comuns, como a crença em Deus e a defesa da família (...)”. Durante o encontro, Putin fez a defesa de um “mundo multipolar”, (24) assunto constantemente reforçado em discursos de Lula ao longo de seu terceiro governo. (25) A partir daquela visita, Bolsonaro aumentou as relações comerciais com a Rússia, em especial de óleo diesel e fertilizantes comprados pelo Brasil, relações que se intensificariam ao longo do terceiro mandato de Lula. (26)

O presidente Lula foi à Rússia para as comemorações do Dia da Vitória (que os russos chamam de “Grande Guerra Patriótica”) em 2025. (27) Ele e sua esposa Rosângela usaram a fita de São Jorge e assistiram ao desfile militar. (28) A primeira-dama visitou o Teatro Bolshoi e assistiu a uma apresentação de balé no Teatro Mariinski. (29) Não houve qualquer crítica ou identificação do país anfitrião com a guerra que ele causou.

Com relação à invasão da Rússia à Ucrânia, defendo que existe não uma homogeneidade de perspectivas no que podemos chamar de meios de comunicação tradicionais, mas uma dependência maior da perspectiva de cada jornalista/autor. Em suma, não há posturas únicas expostas em editoriais, por exemplo, o que pode se explicar em parte pela ingenuidade resultante de uma abordagem política questionável. Porém, provavelmente existem aquelas pessoas e meios financiados a partir do exterior, por isso, devemos ficar atentos a sua produção de conteúdos que semeiam a desinformação no Brasil.


Notas (Clique pra voltar ao texto)

(1) BOLSONARO sobre guerra: ‘Povo da Ucrânia confiou em comediante para traçar destino da nação’. [S. l.: s. n.], 2022. 1 vídeo (1 min). Publicado pelo canal UOL. Disponível nesta página. Acesso em: 29 maio 2024.

(2) GAIER, Rodrigo Viga. Lula diz que no Brasil motivos para guerra na Ucrânia seriam resolvidos numa mesa de bar. Reuters, Rio de Janeiro, 30 mar. 2022, 20:49. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(3) CRIANÇAS do Brasil participam de seleção para o balé Bolshoi. Band.com.br, 30 dez. 2024, 21:46. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(4) RAMOS, Vitor. UFRJ recebe comitiva russa para ampliar cooperação científica e tecnológica. UFRJ, 7 ago. 2026. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(5) LÍNGUA russa será introduzida em escolas do Brasil como língua estrangeira. Sputnik Brasil, 23 jul. 2026. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(6) SCHWIRTZ, Michael; BRADLEY, Jane. Espiões de Putin no Brasil: como a Polícia Federal agiu para desmantelar a rede de espionagem russa. The New York Times. 21 maio 2025, 12:23. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(7) SPUTNIK inaugura rádio FM com transmissão 24 horas em português no Brasil. Brasil 247, 01 ago. 2025, 8:37. Disponível nesta página. Acesso em: 05 out. 2026.

(8) Conflito na Ucrânia tira fantasma da Terceira Guerra Mundial da aposentadoria. Folha de S. Paulo, São Paulo, 01 mar. 2022, 14:11. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(9) Putin acusa Ocidente de causar guerra na Ucrânia e tentar cancelar a Rússia. Folha de S. Paulo, São Paulo, 16 mar. 2022, 12:01. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(10) Ibid.

(11) Entenda a crise entre a Rússia de Putin, a Ucrânia e as forças da Otan. Folha de S. Paulo, São Paulo, 25 jan. 2022, 11:24. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(12) Invasão russa traz misto de alívio e incerteza a Donetsk. Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 nov. 2024, 12:00. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(13) Folha percorreu 3.500 km em visita à frente russa da guerra. Folha de S. Paulo, São Paulo, 10 nov. 2024, 23:00. Disponível nesta página. Acesso em: 07 out. 2026.

(14) FERRARO, Vicente. Atrocidades russas em 3 anos de guerra na Ucrânia não devem ser relativizadas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 26 fev. 2025, 10:00. Disponível nesta página. Acesso em: 07 out. 2026.

(15) Conversa pelo direct do Instagram em 30 de junho de 2023.

(16) No mesmo jornal, podemos encontrar este artigo escrito pelo embaixador da Rússia no Brasil: LABETSKI, Alexei. Em Donbass, a cultura é resistência à propaganda falsa. Folha de S. Paulo, São Paulo, 03 ago. 2026, 22:00. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(17) POR QUE a Rússia diz combater o nazismo na Ucrânia – e qual é a verdade. Carta Capital, São Paulo, 24 fev. 2022, 09:59. Disponível nesta página. Acesso em: 08 out. 2026.

(18) GARCIA, Raphael Tsavkko. Why is the Brazilian left supporting Putin’s Russia? Al-Jazeera, Doha, 21 maio 2022. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(19) Ibid.

(20) Rússia adiciona ‘movimento internacional LGBTQIA+’ a lista de entidades terroristas. AFP, 22 mar. 2024, 12:40. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(21) LAZZARO, Paloma. ‘Falei com meu amigo Putin’, diz Lula ao pedir por reunião do Conselho de Segurança. Exame, São Paulo, 05 ago. 2026, 13:43. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(22) “A era em que um pequeno grupo de nações decidia pelo mundo inteiro acabou”, declara Putin. Hora do Povo, São Paulo, 06 out. 2025. Disponível nesta página. Acesso em: 08 out. 2026.

(23) PRAZERES, Leandro. Bolsonaro fala em ‘casamento perfeito’ com Rússia e diz que Putin ‘busca a paz’. BBC News Brasil, 16 fev. 2022. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(24) Ibid.

(25) ZARUR, Camila; TRUFFI, Renan. Em discurso, Lula defende mundo multipolar e governança de IA ‘justa, inclusiva e equitativa’. Valor Econômico, Rio de Janeiro, 06 jul. 2025, 17:58. Disponível nesta página. Acesso em: 08 out. 2026.

(26) PRAZERES, Leandro. Sob Bolsonaro e Lula, diesel da Rússia vira negócio bilionário e coloca o Brasil na mira de Trump. G1, 08 ago. 2025, 15:51. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(27) NERY, Laila. Lula participa do Dia da Vitória na Rússia ao lado de Putin e Xi. UOL, São Paulo, 09 maio 2025, 00:01. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(28) Ibid.

(29) AGENDA de Janja na Rússia inclui ida ao Bolshoi e a universidade. PODER360, Brasília, 03 maio 2025, 12:45. Disponível nesta página. Acesso em: 07 out. 2026.



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