domingo, 8 de março de 2015

Stalin diz em 1935 que a vida melhorou


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Breve trecho de discurso do líder soviético Iosif Stalin no último dia da 1.ª Conferência Stakhanovista Pan-Soviética, ocorrida no Kremlin entre 14 e 17 de novembro de 1935. Tendo sublinhado a importância do movimento stakhanovista no incremento da produção industrial soviética, Stalin também aludiu à relativa melhora no padrão de vida dos cidadãos soviéticos ao longo dos anos 1930, em trecho que ficou famoso pela frase inicial “Camaradas, a vida ficou melhor, ficou mais alegre” (Zhit stalo luchshe, tovarischi. Zhit stalo veseleie).

Muitos leram na frase uma espécie de humor negro, por ter sido pronunciada pouco antes de se iniciar a repressão em massa às oposições, entre 1936 e 1938, o que fica ainda mais nítido quando se conhece a famosa canção propagandística que ela inspirou na época, Zhit stalo luchshe (A vida ficou melhorassista ao clipe que eu traduzi. Ainda hoje, no jargão russo, a expressão “Zhit stalo luchshe, zhit stalo veseleie” é usada para se referir a governos que fazem muita propaganda sobre melhorias no padrão de vida da população, mas escondem vários problemas sociais ou realizam o desenvolvimento sob direção autoritária, quando não promovem as duas coisas.

O stakhanovismo, ou movimento stakhanovista, foi uma campanha de massa favorecida pelo governo soviético para aumentar a produtividade no trabalho, marcando a introdução de métodos tayloristas de controle nas indústrias e nas fazendas, sob a inspiração do mineiro de carvão Aleksei Stakhanov, que numa madrugada de 1935 teria ultrapassado 14 vezes sua quota de extração diária. A iniciativa deveria contar com a força de vontade dos próprios trabalhadores, reunidos em “brigadas de choque” para o incremento da produção, mas foi posteriormente abandonada por conta de sua impopularidade e das disparidades que gerou entre os assalariados, sendo estigmatizada pelo sucessor de Stalin, Nikita Khruschov.

Pode ser lida nesta página a íntegra do referido discurso de Stalin em russo, mas grande parte dele deve ter sido modificada ou mal captada, pois o trecho que legendei, cuja transcrição pode ser vista mais abaixo, está bem diferente do publicado. Eu mesmo traduzi e legendei:


ВОСТОРЖЕННО ВСТРЕТИЛИ СТАХАНОВЦЫ ПОЯВЛЕНИЕ НА ТРИБУНЕ ЛЮБИМОГО ВОЖДЯ И УЧИТЕЛЯ ТОВАРИЩА СТАЛИНА

Жить стало лучше, товарищи. Жить стало веселее. Когда веселее живется, работа спорится. Если бы у нас был кризис, если бы у нас была безработица – бич рабочего класса, если бы у нас было нищенство, если бы наша продукция не росла, если бы у рабочих и крестьян нашей страны не было такого хорошего правительства, которое заботится о них и считается с их нуждами, словом если бы жилось плохо и не весело, то никакого большевистского движения у нас не было бы. Заверяю вас. Не было бы.


OS STAKHANOVISTAS ACOLHERAM COM ENTUSIASMO, AO APARECER NA TRIBUNA, O AMADO GUIA E MESTRE, CAMARADA STALIN

Camaradas, a vida ficou melhor, ficou mais alegre. Vida mais alegre resulta em trabalho produtivo. Se estivéssemos afundados na crise ou no desemprego, flagelo do operariado, se a miséria reinasse entre nós, se nossa produção não crescesse, se nossos operários e camponeses não tivessem tão bom governo que cuidasse deles e considerasse suas necessidades, em suma, se a vida fosse ruim e triste garanto que hoje o movimento bolchevique não existiria.



Aliás, feliz Dia Internacional das Mulheres, meninas do mundo!!! (Foto de 1937)

domingo, 1 de março de 2015

“Escrito nas estrelas” em esperanto


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Há algum tempo não posto coisas relativas a um dos meus passatempos preferidos da adolescência: verter músicas brasileiras para o esperanto. Eu tinha um site em que publicava os textos, mas como hoje ele não existe mais, tenho todas as versões guardadas em meu pendrive e vou continuar as postando aos poucos. Muitos brasileiros, mesmo novos, já ouviram falar da canção Escrito nas estrelas, um sucesso de Tetê Espíndola, composto por Arnaldo Black e Carlos Rennó, que estourou num dos velhos festivais dos anos 1980. Verti esta canção para o esperanto em 27 de agosto de 2004, quando tinha 16 anos, e lhe dei o novo título de Stelaro de l’ pasi’, literalmente Constelação da paixão. Obviamente não é uma tradução literal, mas procurei me manter o mais próximo possível das ideias originais. Você pode ler nesta página a letra em português, e abaixo e abaixo a letra em esperanto e o vídeo com a música.

Nota (23/7/2022): Vim do futuro pra dizer que há muito tempo, pra quase tudo, o pendrive virou nuvem, hehehe.

Ĉi tiu kanzono estis sukceso de la 1980-aj jaroj en brazila muzika festivalo, kantata de Tetê Espíndola kaj komponita de Arnaldo Black kaj Carlos Rennó, kies tradukon de la portugala lingvo al Esperanto mi faris la 27-an de Aŭgusto 2004, kiam mi estis 16-jara. La originala titolo en la portugala, Escrito nas estrelas, signifas laŭlitere Skribita sur la steloj. Ĉi-paĝe vi povas legi la tekston en la portugala, kaj ĉi-sube vi rigardos videon kun la kanzono kaj legos tekston en Esperanto.


Stelaro de l’ pasi’

1. Por mi vi estis la sun’
De tiu nokto sen fin’;
Por mia korpo, rebril’
Relumiginta do min.
Vin plaĉi estas per ĝu’
Ĉi tie mia misi’,
Kunesti ĉie kun vi
Kaj fari nenion pli.

Rekantaĵo/Refrão:
Ni kuniĝis forte, kiel montras kartoj de l’ tarok’:
Amatin’ (*), tia am’
Videbla estas sur la tablo
Nur por ni.
L’ estonteco nin regalis per romana laŭtalvok’.
Amatin’ (*), nia am’
Skribita estis sur stelaro
De l’ pasi’.

2. El vi l’ atento pri mi
Utilis kiel zorgil’:
Per tiu vivmanier’
Ni vivu dum la jarmil’.
Sen vi finiĝas feliĉ’
Kaj tuta mia estec’.
Atentu, ke super ni
Nun ŝvebas geedziĝec’.

(Rekantaĵo/Refrão)

(*) Kantantino uzus anstataŭe/Cantora usaria no lugar: Ho amul’, ho amat’.


domingo, 22 de fevereiro de 2015

Nova “classe” ou “camada” média em Trotsky?


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As traduções de clássicos do pensamento sistemático mundial a partir de línguas bem diferentes em estrutura das euro-ocidentais (inglês, francês, espanhol, italiano, português) sempre levantaram muitas dificuldades e deram origem a mal-entendidos, especialmente no tocante ao vocabulário. Freud a partir do alemão deve ser o desafio mais conhecido, e também o mais rico em casos, dentre os quais cito apenas a polêmica distinção entre “cultura” e “civilização”. Até dizem por aí, também, que a virgindade de Maria teria se baseado em problemas de tradução dos textos sagrados do hebraico para o grego...

O russo não causa menos problemas, principalmente porque em vários domínios seu vocabulário é bem mais rico do que os das línguas euro-ocidentais, e só para “trabalho”, “trabalhador”, “escravo”, “batalha” e “lutador”, por exemplo, existem diversos sinônimos que ainda por cima, às vezes, fazem o favor de aparecer juntos em trechos bem curtos de texto! Na semana passada mesmo troquei alguns e-mails com Alvaro Bianchi, professor de ciência política da Unicamp, militante do PSTU, especialista e teórico da ideologia e prática trotskistas, a respeito de uma expressão que aparece em algumas traduções inglesas de textos de Leon Trotsky, e que Alvaro julgava ser a tradução errada de alguma expressão do alemão ou do russo.

Segue abaixo o essencial de sua primeira mensagem do dia 19 de fevereiro, com algumas adaptações, mas que nos ensina muita coisa interessante: “Trotsky escrevia em russo, obviamente, mas também era fluente em alemão e ocasionalmente escrevia em francês. O problema está com os textos do exílio mexicano, os quais eram vertidos para o inglês imediatamente e publicados nessa língua em revistas como New International, ou no jornal The Militant. Minha dúvida está com uma expressão que geralmente é traduzida por ‘nova classe média’. Ela aparece em dois textos publicados em inglês em 1938 e 1939 como ‘new middle classes’. Minha dúvida é se essa foi uma tradução exata. Em Marx é comum a expressão ‘Mittelstand’, que literalmente é camadas ou estratos médios. Com Marx as traduções em inglês cometem a impropriedade de traduzir ‘Mittelstand’ por ‘middle class’.”

“O erro pode ter se reproduzido com Trotsky. Na literatura alemã, particularmente nos textos de Kautsky, nos quais aparece pela primeira vez essa noção, a expressão utilizada é ‘neuen Mittelstand’. Em alguns textos de Trotsky que eu tenho certeza que foram imediatamente publicados em alemão (particularmente aqueles sobre o nazismo), a palavra usada é ‘neuen Mittelstand’ (ler o texto “Was Nun?”). Ele pode ter escrito esses textos em alemão ou revisado as traduções. Em outros, aparentemente traduzidos do inglês, a expressão utilizada é ‘neuen Mittelklassen’ (ler o texto “Neunzig Jahre Kommunistisches Manifest). A resposta para a questão pode estar nas edições russas de Nossas tarefas políticas (ler a parte 3 em inglês) e de 1905 (ler o capítulo 4 em inglês), ambas existentes nas Sochinenia, as obras completas de Trotsky. Nas edições em inglês aparece a expressão ‘new middle classes’. Você faz ideia de qual é a palavra utilizada por Trotsky em russo nesses dois textos? Tem como descobrir isso?”

Na sequência, as ideias principais de minha resposta. Entre os dias 19 e 20, fiz uma pesquisa no Google e em páginas com obras de Trotsky em russo digitalizadas, e a primeira coisa que notei foi a citação, no prefácio em inglês de Nossas tarefas políticas que o Alvaro me indicou, de quão raro é achar essa obra em qualquer língua, por causa da contradição entre seu conteúdo político e a adesão posterior de Trotsky às fileiras bolcheviques. E de fato, mesmo procurando muito, não achei em russo nem essa obra, que de fato existe como uma brochura chamada Наши политические задачи [Nashi politicheskie zadachi], nem 1905.

Porém, combinei algumas palavras em russo também no Google com o que seria “nova classe média” em russo (“новый средний класс” [novy sredni klass]), e acabei chegando a obras de Trotsky que usavam o termo “новое среднее сословие” [novoye sredneie soslovie], sendo “сословие” [soslovie], pois, o termo em torno do qual gira a questão.

Segundo minhas consultas a dicionário e enciclopédia, “сословие” [soslovie] tem várias traduções, dentre as quais “classe” mesmo, “estamento”, “estado” (como em “terceiro estado”), “casta”, “grêmio”, “ofício”, “grupo” (por exemplo, na expressão “женское сословие” [zhenskoie soslovie], “o mulherio”), e acredito que se refira a um grupo mais fechado, que exige algum tipo de iniciação ou a posse de uma característica inata ou herdada, sendo que na Wikipédia o artigo em russo “Soslovie” remete ao português “Estamento”. Não conheço alemão para confirmar a equivalência com os termos que o Alvaro me indicou nessa língua, e lhe sugeri polidamente que talvez ele compreendesse melhor do que eu essa sociologia das “camadas” e “classes” ao longo da história.

Em todo caso, apontei-lhe ainda que nessa busca acabei caindo em outros escritos de Trotsky, e um deles que me chamou mais a atenção está no tomo 4 das Sochinenia, tomo que se chama “Ante um limiar histórico. Crônica política” e tem artigos dele relacionados a acontecimentos políticos entre 1900 e 1914. Como o Alvaro disse, vários desses artigos foram publicados em jornais estrangeiros e tiveram de ser traduzidos para o russo. Nesse tomo, há uma subdivisão chamada “Às vésperas da revolução” (referência à Revolução Russa de 1905), em que se encontram vários artigos publicados no Iskra (periódico de socialistas russos exilados do início do século 20) entre 1903 e 1905, e sete deles estão agrupados sob o título geral de “Cartas políticas”, embora eu não saiba o contexto geral de sua redação, nem por que receberam juntas esse título.

O referido artigo saiu no número 59 do Iskra de 10 de fevereiro de 1904 e tem o longo título “Новое ‘среднее сословие’. Выборы в Петербургскую думу. ‘Более или менее социалистическая’ демократия. ‘Оседло-образовательный’ ценз. Кто скажет последнее слово?”, traduzindo aproximadamente, “A nova ‘classe [soslovie] média’. Eleições para a Duma de São Petersburgo. Uma democracia ‘mais ou menos socialista’. Grau de ‘instrução-sedentarismo’. Quem dirá a última palavra?”. A tradução dos escritos dessa época é um tanto difícil, porque Trotsky se vale de um estilo muito peculiar, com ironias e repetições só compreensíveis naquele contexto. Porém, as primeiras palavras do artigo são as seguintes, muito sugestivas:

Русская “интеллигенция” дописывает последние страницы своей истории. Ее рост, развитие, упрочение ее позиций вызывают полное ее перерождение. Из своеобразного “ордена” с привлекательной романтической окраской она превращается в прозаическое “среднее сословие” буржуазного общества. В среднее сословие, ибо она стоит между крайними социальными классами, буржуазией и пролетариатом.
Tradução aproximada:
A “intelligentsia” russa está concluindo a escrita da última página de sua história. Seu crescimento, desenvolvimento e o fortalecimento de suas posições estão provocando seu pleno renascimento. De algo semelhante a uma “ordem” com uma atraente coloração romântica, ela está se transformando numa prosaica “classe [soslovie] média” da sociedade burguesa. É uma classe [soslovie] média, pois se localiza entre as classes [klassami, instrumental plural de klass] sociais extremas, a burguesia e o proletariado.
Como o paciente leitor deste blog deve ter notado, falei, falei, joguei inúmeras informações e no fim não dei nenhuma resposta pronta sobre a tradução da palavra russa “soslovie”. De fato, só notei isso ao terminar de transformar esta conversa em postagem, mas acredito que a resposta agradecida do Prof. Alvaro Bianchi já no fim da tarde do dia 20 deu o fecho que supre minha omissão involuntária: “Fiz outras consultas e cheguei à conclusão de que no início do século 20 a palavra ‘soslovie’ era utilizada na literatura marxista com o sentido de ‘estamento’ ou ‘casta’. Assim, parece-me que a melhor tradução para ‘новое среднее сословие’ [novoie sredneie soslovie] é ‘nova camada média’ ou ‘novos estamentos médios’. Quando se fala de classe burguesa ou classe operária, em russo o termo é sempre ‘класс’ [klass], e nunca ‘soslovie’.”

Coisas da vida, hehehe. Minha alegria só aumentou quando ele comunicou, por fim, que “Quando terminar de redigir a pequena nota na qual estou trabalhando te envio para dar uma olhada.” Vamos aguardar, quem sabe até eu não comunique algo a vocês quando sair!

Nota (29/5/2015): Um acadêmico, após ler esta postagem, enviou em meu e-mail pessoal alguns excertos de textos de Gregory L. Freeze, historiador da Rússia e professor da Universidade Brandeis, localizada em Waltham, perto de Boston, nos EUA. Um deles é o curto verbete “Soslovie”, da Encyclopedia of Russian History, publicado no site Encyclopedia.com. Outro é o artigo “The Soslovie (Estate) Paradigm and Russian Social History”, publicado na American Historical Review, vol. 91, n. 1 (Feb., 1986), pp. 11-36, e que pode ser visualizado e baixado na base de dados JSTOR, mas apenas em computadores de faculdades ou outras entidades cadastradas. Eu não tive tempo de ler a fundo os textos, mas quem quiser se aventurar, fique à vontade! Também agradeço ao amigo correspondente pelas dicas.



“Até a próxima postagem, amigos! Nos encontramos na revolução!”

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Luto de Hollande por “Charlie Hebdo”


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Em Paris, logo após o atentado terrorista à sede do jornal satírico Charlie Hebdo a 7 de janeiro de 2015, o Presidente da República François Hollande falou em cadeia nacional sobre o crime, louvando as vítimas como “heróis da liberdade”, agradecendo às mensagens de solidariedade vindas do mundo inteiro, prometendo capturar, julgar e punir os atiradores e pedindo à população que permanecesse unida como principal arma contra o medo.

A comoção em torno dos assassinatos desses cartunistas e jornalistas daria espaço, nos dias seguintes, ao movimento “Nous sommes tous Charlie” (Somos todos Charlie), para defender a liberdade de expressão e de imprensa, condenar a disseminação do terror por motivos religiosos e garantir a continuidade da publicação do periódico, apesar das graves baixas e das ameaças recebidas havia muitos anos. Na sequência da caçada aos criminosos, eles acabaram sendo mortos pela polícia após praticarem outros delitos, frustrando o desejo de Hollande de vê-los julgados e punidos.

Difundiu-se por algum tempo nas redes sociais o uso da mensagem em preto “Je suis Charlie” (Eu sou Charlie), mas alguns críticos julgaram como mais graves os frequentes “insultos” às religiões que os desenhistas faziam e a suposta “incitação” à islamofobia daí derivada, já que eram comuns caricaturas que diziam retratar o profeta Maomé. Após o atentado, ocorreram até mesmo muitas manifestações antifrancesas e antiocidentais em países muçulmanos, culminando em estrangeiros mortos e igrejas e embaixadas depredadas.

O título original do pronunciamento é “Allocution à la suite de l’attentat au siège de Charlie Hebdo”, publicado na página do Élysée, a Presidência da República francesa, e que é acompanhado do vídeo, do áudio e de uma versão em PDF para baixar. O vídeo que legendei foi baixado do canal YouTube da agência de notícias RT France, e pode ser assistido nesta página. Eu traduzi e legendei o vídeo do pronunciamento, e as legendas sempre têm alguma adaptação em relação ao texto escrito, o qual, porém, pode ser lido mais abaixo, logo após o vídeo:


Meus caros compatriotas,

A França foi hoje atacada em Paris, seu coração, nas próprias instalações de um jornal. Esse tiroteio extremamente violento matou doze pessoas e feriu várias outras. Desenhistas de grande talento, cronistas corajosos foram mortos. Eles haviam marcado, por sua influência, sua insolência e sua independência, gerações e gerações de franceses. Quero dizer aqui a eles que continuaremos a defender essa mensagem de liberdade em seu nome.

Este desprezível atentado matou também dois policiais, aqueles mesmos que estavam encarregados de proteger o Charlie Hebdo e a redação dele, que eram há anos ameaçados pelo obscurantismo e que defendiam a liberdade de expressão.

Esses homens e essa mulher foram mortos pela ideia que tinham da França, isto é, a liberdade. Em nome de vocês, quero expressar aqui todo nosso reconhecimento às famílias, às vítimas, aos feridos, a seus próximos, a todos os que sofreram na pele com este desprezível assassinato. Eles são hoje nossos heróis, e por isso decretei que amanhã será um dia nacional de luto. Às doze horas haverá um momento de concentração em todos os serviços públicos, do qual convido toda a população a participar. As bandeiras ficarão por três dias a meio mastro.

Hoje, a República inteira é que foi agredida. A República é a liberdade de expressão. A República é a cultura, é a criação, é o pluralismo, é a democracia. É tudo isso que era visado pelos assassinos. É o ideal de justiça e paz que a França leva para todo o cenário internacional e essa mensagem de paz e tolerância que defendemos também por meio de nossos soldados na luta contra o terrorismo e o fundamentalismo.

A França recebeu mensagens de solidariedade e fraternidade do mundo inteiro, das quais devemos bem avaliar a dimensão. Temos de responder à altura este crime que nos atinge, primeiro buscando os autores dessa infâmia e fazendo com que eles possam ser presos, e então julgados e punidos com todo rigor. Tudo será feito para capturá-los. A investigação está avançando sob a autoridade da justiça.

Devemos também proteger todos os locais públicos, e o governo pôs em operação o chamado plano Vigipirate Attentat, isto é, forças de segurança serão deslocadas por toda a parte, onde quer que possa haver um foco de ameaça.

Nós mesmos, enfim, devemos ter em mente que nossa melhor arma é a unidade, a unidade de todos os concidadãos diante dessa adversidade. Nada pode nos dividir, nada deve nos opor e nada deve nos separar. Amanhã reunirei os presidentes das duas assembleias, bem como as forças representadas no Parlamento, para mostrarmos nossa determinação comum.

A França é grande quando consegue, numa adversidade, alçar-se ao melhor padrão, ou seja, seu padrão, o padrão que sempre permitiu ao país superar seus problemas. A liberdade será sempre mais forte do que a barbárie. A França sempre venceu seus inimigos quando soube justamente se congregar em torno de seus valores. É o que convido vocês a fazer. A união, a união de todos, sob todas as formas, é que deve ser nossa resposta.

Unamo-nos diante dessa adversidade. Nós venceremos, pois temos todas as aptidões para crer em nosso destino e nada poderá arrefecer essa determinação que é tão nossa.

Unamo-nos.

Viva a República e viva a França!



domingo, 8 de fevereiro de 2015

A “Canção do exílio” em interlíngua


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Revelo pouco às pessoas, mas tenho uma incipiente veia poética, por vezes manifesta em originais em português ou outras línguas, por vezes em traduções de clássicos da língua portuguesa para outras línguas. À medida que minhas obrigações acadêmicas foram apertando, e que me centrei mais na tradução de prosa histórica, fui deixando a poesia de lado, mas ainda guardo com carinho muitos resultados.

Um deles é a tradução da famosa “Canção do exílio”, escrita em 1843 pelo poeta brasileiro Gonçalves Dias (1823-1864), para a interlíngua, um idioma auxiliar planejado que veio à luz nos Estados Unidos em 1951, é muito parecido com as principais línguas românicas e tentou ocupar o lugar do esperanto como principal candidato a língua internacional que substituísse o inglês e o francês como instrumentos da diplomacia, do intercâmbio entre os povos e da difusão cultural. Mantive o esquema métrico e de rimas, embora não mantivesse todas as rimas iguais entre uma versão e outra, e consegui não colocar nenhum adjetivo, assim como na versão em português. Como toda tradução poética, esta não é literal, mas tentei passar ao máximo a mesma ideia da primeira versão.

A versão final de minha tradução está datada de 13 de dezembro de 2012, mas minha declamação em áudio só foi dada a público em 4 de março de 2013, no site da Radio Interlingua, administrada por meu amigo húngaro Péter Kovács, na emissão concernente àquele mês que pode ser escutada na própria página clicando em “Ascolta”, ou baixada, clicando em “discarga file audio”. Você também pode assistir ao vídeo abaixo (legendas) apenas com o áudio da minha declamação, sem o programa. Após o texto do poema, dou outras informações sobre a interlíngua!

____________________


Canto del exilio

Mi pais habe palmieros,
Ubi canta un Sabia;
Ci le aves nunquam trilla
Equalmente como la.

Nostre celo: plus de stellas,
Nostre valles: plus de flores,
Nostre boscos: plus de vita,
Nostre vita: plus de amores.

In soniar sol in le nocte
Io gaude me plus la;
Mi pais habe palmieros,
Ubi canta un Sabia.

Mi pais ha meravilias
Que le terra ci non da;
In soniar – sol, in le nocte –
Io gaude me plus la;
Mi pais habe palmieros,
Ubi canta un Sabia.

Ante deceder, oh Deo,
Io vole vader la;
E fruer le meravilias
Que le terra ci non da;
E vider ille palmieros,
Ubi canta un Sabia.



A interlíngua, também conhecida como Interlingua de IALA, resultou de um intenso trabalho de pesquisa conduzido entre 1924 e 1951 por especialistas reunidos na IALA (sigla em inglês para Associação para a Adoção de uma Língua Internacional), dos EUA. Levando ao extremo o ideal de compreensão imediata e visando menos à regularidade gramatical do que, por exemplo, o esperanto, teve editados, ao final dos trabalhos, um dicionário interlíngua-inglês e uma gramática em inglês, especialmente por obra do alemão naturalizado norte-americano Alexander Gode (1906-1970) e do norte-americano Hugh Blair (1909-1967).

É considerada sua característica principal a compreensibilidade praticamente perfeita a falantes de idiomas ocidentais, especialmente os românicos, por ter como fonte elementos que aparecem ao menos em duas ou três das principais línguas de cultura do mundo ocidentalizado: o inglês, o francês, o italiano e, considerados em conjunto, o espanhol e o português. Também são utilizados abundantes radicais latinos e gregos de uso internacional, e são aceitas ainda palavras eslavas, germânicas ou de outras origens que tenham se difundido mundialmente.

Para saber mais sobre a interlíngua em português, conheça a União Brasileira Pró-Interlíngua, e para saber na própria interlíngua, verificando se você já a entende à primeira leitura, visite a página da Union Mundial Pro Interlingua. Você pode ainda ler o ótimo artigo da Wikipédia em inglês a respeito ou visitar o blog de um amigo americano, Interlingua multilingue, também com vários textos em interlíngua, mas que não é atualizado desde 2011.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

“Encantação pelo riso”, de Khlebnikov


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Sempre gostei de traduzir prosa, especialmente textos em russo do período soviético, com cujo vocabulário estou acostumado. Mas hoje estou me arriscando pelo caminho pétreo da tradução de poesia, cujas dificuldades residem exatamente no fato de termos que sacrificar muito do conteúdo para manter o efeito da forma, e às vezes nem sempre serem iguais os valores do que é ou não poético em uma ou outra sociedade. Por isso mesmo, em poesia nem sempre devemos esperar “corretas traduções literais”, como nos ensinam um dos miniclássicos no assunto, Oficina de tradução: a teoria na prática, de Rosemary Arrojo, e, mais recente e mais específico sobre poesia, Tradução: teoria e prática, de John Milton.

Tendo conhecido meu trabalho de tradução e legendagens, um rapaz me contatou pelo Facebook para falar de um poema do russo Viktor Vladimirovich Khlebnikov, mais conhecido sob o nome artístico de Velimir Khlebnikov (Велимир Хлебников), nascido em 1885 e falecido em 1922. Também dramaturgo, foi cronologicamente o primeiro vanguardista na poesia russa e uma figura central no movimento futurista nacional, embora sua influência tenha ultrapassado essas fronteiras. O referido poema, denominado “Заклятие смехом” (Zakliatie smekhom) e escrito em 1908 ou 1909, foi traduzido no Brasil pelos irmãos Campos nos anos 1950, e era uma versão de que aquele jovem gostava muito, com o título “A encantação pelo riso”. Ele também havia encontrado, após alguma pesquisa, uma versão em inglês, cuja fonte, título e tradutor ele não soube me dizer, e que em sua opinião “é muito fechada e peremptória, me remete quase que a Joyce”, enquanto a brasileira “é muito mais lúdica, apesar dos termos”.

Seu desejo que o motivou a me escrever era o de sempre querer “saber em russo como é, se o poema está mais bem traduzido em português ou inglês, qual o verdadeiro sentido que Khlebnikov quis lhe dar”; enfim, “saber qual que se aproxima mais do original”, “tentar alcançar o que o Khlebnikov realmente quis dizer”. Por isso, quebrando um pouco a ordem cronológica de nossa conversa, vou postar primeiro a versão em russo, que achei na Wikipédia, depois em português e finalmente em inglês:


«Заклятие смехом»

О, рассмейтесь, смехачи!
О, засмейтесь, смехачи!
Что смеются смехами, что смеянствуют смеяльно,
О, засмейтесь усмеяльно!
О, рассмешищ надсмеяльных — смех усмейных смехачей!
О, иссмейся рассмеяльно, смех надсмейных смеячей!
Смейево, смейево,
Усмей, осмей, смешики, смешики,
Смеюнчики, смеюнчики.
О, рассмейтесь, смехачи!
О, засмейтесь, смехачи!


“A encantação pelo riso”

Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!


O, laugh, laughers!
O, laugh out, laughers!
You who laugh with laughs, you who laugh it up laughishly
O, laugh out laugheringly
O, belaughable laughterhood - the laughter of laughering laughers!
O, unlaugh it outlaughingly, belaughering laughists!
Laughily, laughily,
Uplaugh, enlaugh, laughlings, laughlings
Laughlets, laughlets.
O, laugh, laughers!
O, laugh out, laughers!


Como eu havia dito, embora eu tenha traduzido alguma poesia para o esperanto e para a interlíngua, nunca fui um especialista no assunto, e o que respondi ao rapaz foi uma percepção baseada naqueles dois livros que citei inicialmente. A primeira coisa que notei de cara é que não há preocupação com métrica: essa despreocupação também passou às traduções. Segundo minha pesquisa na Wikipédia em russo, o poema original nasceu de uma técnica do Khlebnikov que consistia em formar famílias de neologismos a partir de um mesmo radical, o que achei semelhante a um famoso hábito de Guimarães Rosa. Por isso abundam prefixos, sufixos, mutações consonânticas e flexões... O russo é uma língua muito rica e frutífera nessas derivações, então ele pôde jogar inclusive com terminações de adjetivos, verbos etc., em suas várias pessoas e casos. Além de tudo as palavras são bem compridas, o que dá dinamismo à fala.

A sacada principal do poema foi jogar com três formas de um radical do russo que passa a ideia de “riso”, “graça”, e que se encontram nestas palavras: “смех” (smekh – riso), “смеяться” (smeiatsia – rir) е “смешно” (smeshno – engraçado). Assim, esses três radicais (smey-, smekh-, smesh-) se combinam com uma infinidade de prefixos e sufixos que dão os mais finos matizes de significado. Por exemplo, “рассмейтесь”, “смехачи”, “засмейтесь”, “смеянствуют”, “усмеяльно”, “рассмешищ”, “смейево”, “смеюнчики” etc.

Esses radicais e afixos promovem uma riqueza sonora que passa a ideia do riso, da zombaria, do fuxico, do sussurro, e que se dá essencialmente em torno das consoantes С (som de SS, especialmente em sua versão branda, palatizada; escute a palavra russa “семь”, com essa palatal), Х (que soa como o J espanhol) e Ш (versão dura do nosso CH). Acresçam-se também vários sufixos diminutivos em que aparecem as consoantes Ч (TCH) e Щ (versão branda do nosso CH; escute a palavra russa “щи”, com essa consoante), também chiantes. Acredito que a repetição das vogais Я (YA), Е (YE) e Ю (YU), além da semivogal Й (Y, como no inglês “yard” ou “say”), também ajuda no efeito.

Flexões ricas e palavras compridas são propriedades muito presentes no russo, um pouco menos no português e quase ausentes no inglês, e isso justifica a impressão do rapaz, para quem a versão nesta língua seria repetitiva e breve. Acredito que os três poemas também trabalham com os sons que cada língua considera característicos do riso: a concepção de russo e do português é mais consonântica, e a dos ingleses, mais vocálica, e acredito que com um toque de glotalismo. Por isso a versão em inglês fica limitada à combinação dos sons “ló”, “lóf”, derivada do único radical repetido (“laugh”), enquanto a versão em português nos oferece no máximo duas consoantes associadas ao riso e à zombaria (RR e Z), a partir de derivados de “rir” e “riso”. Como falei acima, o russo tem uma repetição de chiantes, sibilantes, fricativas e palatais inimitável em qualquer tradução.

Além da parte formal, ainda não falei do conteúdo. Afinal, como disse nosso amigo do Facebook, “Eu queria saber qual que se aproxima mais do original. Queria tentar alcançar o que o Khlebnikov realmente quis dizer”. De fato, logo após começar a consultar dicionários, eu desisti, pois quase todas as palavras estão ausentes de dicionários russos, e a saída dos tradutores deve ter sido, portanto, “inventar” eles também palavras novas em suas línguas para manter a graça do poema. A qualquer um que leia o poema em russo resta a alternativa de captar nos prefixos e sufixos as ideias de “início”, “dispersão”, “excesso”, “agentes”, “maneiras”, “propriedades”, enfim, combiná-las com a ideia mais geral de “riso” ou “graça” e ao menos entender o sentido global de cada palavra, e não tentar achar outras palavras que traduzam literalmente esses neologismos.

Portanto, de forma geral, as duas traduções estão “próximas” na semântica, mas o português consegue recriar um pouco mais que o inglês o efeito sonoro. Mesmo assim, na verdade os dois estão muito longe de recriar o efeito primário, e se o objetivo do leitor é buscar o que Khlebnikov quis dizer, que ele “largue mão”, como dizemos no interior de São Paulo: tradução não é transposição de palavras, mas interpretação (quase sempre subjetiva) do conteúdo da língua de chegada e recriação da forma na língua de partida. E ainda mais em poesia, geralmente o conteúdo é sacrificado em favor da forma. Por isso falei que na busca de tentar recriar as invenções neologísticas do russo, os dois autores acertaram, mas a língua russa tem vários aspectos formais que se mostraram irreproduzíveis: a riqueza de consoantes sibilantes, chiantes e palatais; a riqueza de prefixos e sufixos formadores de todas as classes de palavras e que dão vários matizes precisos de significado; a riqueza das terminações de caso, que permitem ampliar ainda mais os efeitos sonoros.



domingo, 25 de janeiro de 2015

John Kerry lamenta “Charlie Hebdo” em francês


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No dia 7 de janeiro de 2015, o Secretário de Estado dos EUA John Kerry deu uma entrevista condenando o ataque armado de extremistas ao jornal satírico francês Charlie Hebdo, ocorrido no mesmo dia. Na ocasião, Kerry falou em francês por pouco mais de dois minutos, solidário com o luto dos franceses e proclamando fé na invencibilidade da liberdade de expressão. Na ocasião, o Ministro das Relações Exteriores polonês Grzegorz Schetyna visitava o Departamento de Estado norte-americano para tratar de assuntos estratégicos, por isso a bandeira da Polônia ao fundo, junto com a dos EUA.

Traduzi e legendei o vídeo da mensagem em caráter experimental, testando novas opções de design nas legendas e novas ferramentas de conversão de vídeos. O vídeo original foi baixado do canal YouTube do Departamento de Estado norte-americano e pode ser assistido nesta página. Abaixo, além da transcrição do texto em francês e da tradução em português (sem traços de oralidade e com erros de francês corrigidos), está também o próprio vídeo legendado, no qual sempre são feitas as necessárias adaptações a esse tipo de mídia:


Je veux m’adresser directement aux Parisiens et à tous les Français pour leur dire que tous les Américains se tiennent à leur côté, non seulement dans l’horreur, la colère et la condamnation de ce terrible acte de violence, mais que nous sommes également solidaires de votre engagement dans la bataille, la lutte contre l’extrémisme et de votre détermination à protéger la valeur qui fait si peur à l’extrémisme et qui a toujours uni nos deux pays : la liberté, c’est ça. Aucun pays ne sait mieux que la France que la liberté a un prix, parce que c’est en France que de nombreux idéaux démocratiques ont vu le jour. La liberté d’expression et la liberté de la presse sont des valeurs fondamentales, universelles. Il arrive que ces principes soient attaqués, mais jamais il ne pourront être éradiqués, parce que partout dans le monde des hommes et des femmes se dresseront toujours avec courage contre l’intimidation et la terreur qui voudraient reprendre ceux qui cherchent, et les détruire. Je suis d’accord avec l’imam de France, qui a dit aujourd’hui que les journalistes assassinés sont des « martyres de la liberté ». Les assassins ont proclamé aujourd’hui que « Charlie Hebdo est mort ». Soyez sûrs d’une chose : ils ont tort. Aujourd’hui, demain, à Paris, en France et à travers le monde, le pouvoir de la liberté d’expression vaincra dans la lutte contre l’obscurantisme.

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Quero me dirigir diretamente aos parisienses e a todos os franceses para lhes dizer que todos os americanos estão do seu lado, não somente no horror, na raiva e na condenação deste terrível ato de violência, mas também na solidariedade ao seu empenho na batalha, na luta contra o extremismo e à sua determinação em proteger o valor que dá tanto medo ao extremismo e que sempre uniu nossos dois países: é a liberdade. Nenhum país sabe melhor que a França que a liberdade tem um preço, pois foi aí que nasceram inúmeros ideais democráticos. A liberdade de expressão e a liberdade de imprensa são valores fundamentais, universais. Esses princípios podem ser atacados, mas nunca poderão ser erradicados, pois no mundo inteiro homens e mulheres sempre se oporão com coragem à intimidação e ao terror dos que desejarem censurar e destruir aqueles que investigam. Concordo com o imã da França, que disse hoje que os jornalistas assassinados são “mártires da liberdade”. Os assassinos proclamaram hoje que “o Charlie Hebdo está morto”. Estejam certos de uma coisa: eles se enganam. Hoje e amanhã, em Paris, na França e através do mundo, o poder da liberdade de expressão vencerá a luta contra o obscurantismo.



domingo, 18 de janeiro de 2015

Ianukovych diz por que usa russo na Ucrânia


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Continuando as traduções do ucraniano, estou apresentando uma sugestão dada pela amiga russa Tania Nilova, do Facebook, na época em que eu legendava a entrevista do ex-presidente ucraniano Viktor Ianukovych logo após sua deposição. Nesta outra entrevista, ele justifica por que usa a língua russa nas regiões da Ucrânia onde o russo tem muitos falantes.

Numa coletiva de imprensa a 22 de agosto de 2012 na cidade de Kharkiv (Kharkov, em russo), no leste da Ucrânia, Ianukovych defendia a recém-aprovada “lei das línguas”, que permitia às províncias e cidades escolherem por si, além do ucraniano a nível nacional, uma segunda “língua regional” a ser usada no serviço público e ensinada nas escolas. Embora no leste e no sul a escolha predominante tenha sido pelo russo, o presidente afirmou que o ucraniano não seria prejudicado e prometeu adotar medidas para protegê-lo.

Mesmo assim, um repórter da Radio Svoboda, filial da Rádio Liberdade internacional, pró-Ocidente e sustentada por uma agência de comunicações do governo norte-americano, sugeriu a Ianukovych que a medida teria “rachado” a Ucrânia, e perguntou por que, ao abrir um movimento à independência nacional em Kharkiv naquele dia, ele e outros oradores discursaram em russo, a “língua regional” da cidade. Irritado, o presidente respondeu que falava com as pessoas na língua local, que apenas quem pensava como o repórter é que “rachava” o país e que a “lei das línguas” manteria os serviços públicos iguais para todos. Ianukovych, então, saiu da sala e encerrou a coletiva.

A lei “Sobre as bases da política estatal para as línguas n.° 5029-VI”, também conhecida como “lei das línguas”, foi apresentada ao parlamento da Ucrânia no dia 7 de fevereiro de 2012 pelos deputados Vadym Kolesnichenko e Serhi Kivalov, aprovada em segunda leitura a 3 de julho após muita polêmica e assinada pelo presidente Ianukovych a 8 de agosto, entrando em vigor na data de sua publicação, dia 10 de agosto. Em tese, mantendo o ucraniano como única língua nacional, ela permitia a cada distrito administrativo adotar como “língua regional”, usada e difundida pelo serviço público local, aquela que fosse falada por 10% ou mais da população, mas na prática isso possibilitou uma ampla promoção de status ao russo, falado por muitas pessoas no leste e no sul do país. Apenas algumas localidades promoveram também o húngaro, o romeno e seu dialeto “moldovo”.

A 23 de fevereiro de 2014, na sequência da queda de Ianukovych, o partido “Batkivshchyna” fez aprovar a suspensão da “lei das línguas”, sob críticas de vários governos vizinhos e de organismos europeus. A suspensão foi vetada no dia 28 pelo presidente em exercício Oleksandr Turchynov, que designou uma comissão para elaborar um projeto de lei substitutiva à de 2012, que ainda se encontrava, em janeiro de 2015, no estado de “preparação para assinatura”. O novo presidente Petro Poroshenko julgou “um erro” suspender a lei antiga, mas não deu nenhum veto explícito à sua suspensão.

Quem conhece o russo nota que Ianukovych fala em ucraniano com forte sotaque influenciado por aquela língua. Pró-Rússia, o ex-presidente era conhecido por supostamente falar melhor o russo do que o próprio ucraniano, e seu próprio russo, como se nota na entrevista dele após a deposição, também tem marcas do ucraniano.

A Radio Svoboda também publicou na época sobre a coletiva de imprensa e disponibilizou o vídeo do ocorrido, assim como também foi noticiado na mídia em russo. Leia sobre a “lei das línguas” na Wikipédia em inglês e em russo. Eu traduzi e legendei do ucraniano para o português e tive meu trabalho corrigido por Gianluca Alberti. Logo abaixo há também o próprio vídeo legendado, em que fiz algumas adaptações a esse tipo de mídia, e em seguida, a transcrição em ucraniano e a tradução completa:


REPÓRTER: Скажіть, будь ласка, а... Ухвалення мовного закону і тепер ухвалення рішень у містах, воно роз’єднало, скажімо так, Україну. Спорт з’єднав, а це, можна так сказати, розкололо. Чи це те, чого прагнула Ваша політична сила і головне – скажіть, будь ласка, Ви відкривали сьогодні пам’ятник незалежності України, чому Ви говорили регіональною в Харкові мовою? Дякую.

(Gostaria que dissesse... A aprovação da lei das línguas, e agora a aprovação das decisões das cidades, digamos que desuniram a Ucrânia. O esporte a uniu, mas isso, pode-se dizer, a rachou. Era isso que pretendia seu grupo político? E gostaria em especial que dissesse por que, inaugurando hoje um monumento à independência da Ucrânia, o senhor falou na língua regional de Kharkiv. Obrigado.)

IANUKOVYCH: Я завжди говорю в будь-яких регіонах мовою людей, які там живуть. А розколюють Україну ті, хто вносить такі пропозиції і задають такі питання, без урахування точки зору людей, які живуть на цій землі. Я завжди був и буду прихильником того, щоб розуміння було в державі, і злагода, незалежно від того, в якому регіоні жили люди. Фінансування, відношення до людей, соціальні програми – вони для всіх будуть однакові... І Ви, як молода людина, про це також щоб Ви почули, і всім іншим розповіли: ми ніколи не будемо ділити людей в залежності від того, хто якою мовою розмовляє і в якому регіоні живе. Всі люди однакові.

(Em qualquer região eu sempre falo na língua das pessoas que vivem aí. Quem racha a Ucrânia são os que exprimem asserções e fazem perguntas como essas, sem considerar o ponto de vista de quem mora nesses lugares. Sempre fui e vou ser favorável a que haja entendimento e acordo no país, independente da região em que as pessoas residem. Financiamentos, atendimento ao povo, programas sociais, tudo será igual para todos... E você, como um jovem rapaz, deve também escutar e contar a todos os outros sobre isto: jamais vamos repartir a população conforme a língua em que conversa e a região em que habita. Todas as pessoas são iguais.)

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Nota (1/2/2015): A ucraniana Olga Zasimovych também me mandou depois pelo Facebook algumas sugestões quanto à tradução, mas eram bem poucas e não invalidam o que é lido acima. Mesmo assim, posto aqui suas opções:

  • a aprovação das decisões das cidades = a aprovação destas decisões nas cidades
  • pode-se dizer, a rachou = pode-se dizer, a dividiu
  • Quem racha a Ucrânia são os que exprimem asserções e fazem perguntas como essas = Quem divide a Ucrânia são aqueles que fazem este tipo de proposição e perguntas como essa
  • acordo = bem-estar
  • jovem rapaz, deve = rapaz jovem, deveria
  • repartir a população conforme a língua em que conversa = segregar a população de acordo com a língua falada

domingo, 11 de janeiro de 2015

Natalia Buchynska – Перемога (Vitória)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/peremoha

Iniciando as comemorações dos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, postei como primeiro vídeo de 2015 a primeira produção que traduzi diretamente do ucraniano, sem o intermédio de nenhuma outra tradução. Esta linda canção se chama “Перемога” (Peremoha), palavra que em ucraniano significa “Vitória”. E ela trata justamente da vitória dos soviéticos, nesta canção representados pelos ucranianos, sobre o Eixo na Segunda Guerra, com a qual a população da antiga URSS tanto sofreu. É interpretada pela cantora ucraniana Natalia Buchynska, teve a letra escrita por Yuri Rybchynsky e a melodia composta por Nikolo. Foi gravada em seu álbum Divchyna-vesna (Garota-primavera), de 2004.

Natalia Liubomyrivna Buchynska, também conhecida em russo como Natalia Liubomirovna Buchinskaya, é uma cantora que nasceu na cidade de Lviv em 1977, quando a Ucrânia ainda era uma república socialista soviética. Também em 2004, recebeu o título de Artista Popular da Ucrânia. Ao postar o vídeo, pretendi que a música aquecesse um pouco os corações dos brasileiros que admiram a Rússia e a Ucrânia, ou um dos dois, ou mesmo daqueles que vieram desses países para viver no Brasil, e os fizesse entender que todos os povos da antiga URSS tiveram colaboração na derrota dos nazistas e que os russos não podem se arrogar o monopólio do antifascismo, e nem os ucranianos podem ser acusados de colaboracionismo em bloco: havia mocinhos e bandidos dos dois lados.

Achei bonito comentar uma dica de tradução que me deu Iván Kindra, um amigo ucraniano do Facebook. No refrão, a frase “Свято миру, свободи, весни!” significa literalmente “Festa de paz, liberdade e primavera!”. Como não julguei sonora para um brasileiro a inserção da palavra “primavera” aí, eu quis substituir por “renascimento”, e Iván não só me disse que “renascimento” literalmente seria “відродження” como escreveu: “Aqui no Brasil, a primavera não significa praticamente nada, mas lá na Ucrânia, onde o inverno ‘mata tudo’, a primavera, como estação do renascimento, é importantíssima!”. Portanto, deixei a palavra, pela importância que tinha para os ucranianos.

A letra em ucraniano pode ser lida nesta página, mas abaixo também há uma cópia. Esse site onde está a letra, no geral, também é muito bom, pois tem inúmeras canções em ucraniano de vários gêneros, com todas as informações sobre sua produção. Logo abaixo, o vídeo legendado:


В цей день цвітуть салюти і чути дзвін пісень,
Не дай нам Бог забути який сьогодні день,
Не дай нам Бог забути, не дай нам Бог забути,
Не дай нам Бог забути про цей травневий день.
Страшні чотири роки ми йшли до цього дня,
Всі муки і тривоги ми випили до дна,
Крізь муки і тривоги ми йшли чотири роки,
Ми йшли до перемоги, а з нами йшла весна.

Приспів:
Перемога свята, перемога!
Свято миру, свободи, весни!
Чом тоді мої очі вологі?
Бо не всі повернулись з війни.
Сплять мільйони загиблих в окопах,
Це моєї країни сини.
Де була б ти сьогодні Європа?
Де була б ти якби не вони?

В цей день оркестри грають на радість дітворі,
І знову серце крають мелодії старі.
В цей день оркестри грають і знову серце крають,
І знову серце крають мелодії старі.
І сиві ветерани згадавши ту війну,
В цей день кладуть тюльпани до Вічного вогню.
І сиві ветерани в цей день кладуть тюльпани,
В цей день кладуть тюльпани до Вічного вогню.

(Приспів)

Сплять мільйони загиблих в окопах,
Це моєї країни сини.
Де була б ти сьогодні Європа?
Де була б ти якби не вони?
Перемога свята, перемога!
Свято миру, свободи, весни!

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Neste dia florescem salvas militares e ressoam canções,
Deus não nos deixe esquecer que dia é hoje,
Deus não nos deixe esquecer, Deus não nos deixe esquecer,
Deus não nos deixe esquecer este dia de maio.
Passamos quatro anos terríveis antes deste dia,
Sofremos ao máximo todos os tormentos e horrores,
Por entre tormentos e horrores passamos quatro anos,
Marchando até a vitória, e conosco ia a primavera.

Refrão:
Vitória, sagrada vitória!
Festa de paz, liberdade e primavera!
Por que então meus olhos estão marejados?
Porque nem todos voltaram da guerra.
Milhões dormem mortos nas trincheiras,
São filhos da minha pátria.
Onde você estaria hoje, Europa?
Onde você estaria se não fossem eles?

Neste dia orquestras tocam para a alegria das crianças,
E antigas melodias cortam novamente o coração.
Neste dia orquestras tocam e novamente cortam o coração,
E antigas melodias cortam novamente o coração.
E os veteranos grisalhos, relembrando essa guerra,
Neste dia colocam tulipas junto ao Fogo Eterno.
E os veteranos grisalhos neste dia colocam tulipas,
Neste dia colocam tulipas junto ao Fogo Eterno.

(Refrão)

Milhões dormem mortos nas trincheiras,
São filhos da minha pátria.
Onde você estaria hoje, Europa?
Onde você estaria se não fossem eles?
Vitória, sagrada vitória!
Festa de paz, liberdade e primavera!

(Refrão)



domingo, 4 de janeiro de 2015

Hino da República Popular de Donetsk


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/donetsk

Esta canção, intitulada Vstavai, Donbass! (Levante-se, Donbass!), foi composta no início de 2014 pelo grupo local de punk-rock Den Triffidov para ser o Hino Nacional da República Popular de Donetsk, proclamada por guerrilheiros pró-Rússia na região do Donbass, no leste da Ucrânia, e de legitimação escorada em referendo popular. Embora a canção ainda seja considerada o hino dessa república, as informações a respeito são bem díspares na mídia em língua russa.

Em 14 de abril de 2014, foi lançada como “hino oficial” da República de Donetsk a canção Vstavai, Donbass!, imediatamente anunciada no noticiário de língua russa e postada no YouTube em algumas versões de clipes cantados pela banda de punk-rock Den Triffidov, conhecida por suas canções de cunho social e nacionalista e atuante especialmente na própria região do Donbass. A autoria é atribuída à própria banda, que buscou fazer uma composição que exaltasse o espírito patriótico local e estimulasse os soldados no combate.

Den triffidov é a tradução russa do romance de ficção científica The Day of the Triffids (ou O dia das trífides), publicado em 1951 pelo autor inglês John Wyndham e em cuja história os habitantes da Terra, tendo se tornado cegos, permitem o espalhamento de sementes de “trífides”, plantas carnívoras devoradoras de humanos supostamente desenvolvidas na União Soviética. Seguindo o clima da “guerra fria” com as lembranças ainda vivas do conflito mundial, o livro retrata os EUA como salvadores do mundo e a Rússia como um país obscuro, fechado, em que não por coincidência ainda vigorava na biologia o paradigma lysenkista, reputado como a causa de vários fracassos em colheitas e outros atrasos científicos. Contudo, a banda Den Triffidov, que se proclama “uma das mais célebres da Ucrânia”, parece ter ganhado maior visibilidade apenas com a composição de Vstavai, Donbass!, sendo que nem criador nem criatura tinham sequer artigo na Wikipédia em russo ao terminar 2014.

Apesar do sucesso e muitas visualizações que os vídeos com a canção ganharam, a escolha do hino da República de Donetsk, e depois da Nova Rússia, continuou em aberto. Em outubro de 2014, o governo rebelde da região tencionava pedir ajuda a ligas de artistas e compositores da Rússia para compor seu hino, e no dia 27, contrariando proibições do governo ucraniano de entrar no país, Iosif Kobzon, cantor, deputado e assessor cultural da Duma Estatal russa, deu shows em Donetsk e Luhansk nos quais apresentou a própria versão para um “hino do Donbass”, em disputa com outras 30 composições. A música, chamada Moskva – Donbass (Moscou – Donbass), é por vezes indicada como “hino” em noticiários, mas não se encontram nos buscadores seu texto ou seu uso posterior. Kobzon, proclamado Artista Popular da URSS em 1987, nasceu na província de Donetsk em 1937 e é conhecido por seu estreito alinhamento a Putin, tendo chamado o novo governo ucraniano de “fascista” e perdido o título de “cidadão honorário” de várias cidades da Ucrânia.

Embora se previsse que o Parlamento da República de Donetsk aprovaria um hino oficial até o final de 2014, nada mais se publicou sobre o assunto depois de outubro, e na Wikipédia em russo Vstavai, Donbass! ainda consta como hino tanto da República de Donetsk quanto da República Popular de Luhansk (em russo, Lugansk), ambas componentes da Nova Rússia proclamada pelos insurgentes.

Uma versão russa em texto, além de um dos vídeos da banda Den Triffidov, podem ser vistos nesta página, mas como de costume, postei também aqui o texto da canção, seguido de sua tradução em português. Logo abaixo, o vídeo pro qual praticamente não fiz alterações na letra, já que com música temos limites mais flexíveis pra fazer legendagem. O vídeo que usei já veio com as legendas em russo, e inseri abaixo as legendas em português. Nele parece haver umas poucas divergências entre os textos e a fala em russo, mas considerei o texto daquele link anterior pra escrever as legendas:



1. Полощет ветер флаги перемен
Донбасс готов врага с земли смести
Он как боец поднимется с колен
Чтоб вновь свободу обрести

Припев:
Отступать больше некуда
Так бывало не раз
Возродится Отечество!
Возродится Донбасс!

2. Донбасс устал, но духом он не пал
К земле прижался лишь передохнуть
У нас народ и крепок и удал
К победе светел наш нелегкий путь

(Припев)

3. Вставай, Донбасс, рабочий исполин!
И вдоль дорог среди шипов и роз
Возьми всю силу матушки Руси
И мир увидит твой гигантский рост

(Припев)

Возвратится в Отечество
Возрожденный Донбасс...

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1. O vento agita as bandeiras das mudanças
O Donbass está pronto para varrer o inimigo da Terra
Como um combatente, ele se reerguerá
Para ganhar novamente a liberdade

Refrão:
Não há mais para onde recuar
E essa não é a primeira vez
A Mãe-Pátria renascerá!
O Donbass renascerá!

2. O Donbass está cansado, mas não desanimado
E se deitou apenas para retomar fôlego
Nosso povo é firme e valente
Nosso árduo caminho à vitória é radiante

(Refrão)

3. Levante-se, Donbass, gigante operário!
E pelos caminhos entre rosas e espinhos
Tome toda a força da Amada Rússia
E o mundo verá como você é gigantesco

(Refrão)

Retornará à Mãe-Pátria
O Donbass renascido...