segunda-feira, 24 de outubro de 2022

As três fontes e três partes componentes do marxismo


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Esta é a segunda das três brochuras escritas por Vladimir Ilich Lenin (1870-1924), revolucionário comunista russo, que traduzi pra editora Expressão Popular publicar, o que ela só fez justamente com esta aqui. A que lhes apresento hoje se chama “As três fontes e três partes componentes do marxismo”, (1) publicada na revista Prosveschenie (Esclarecimento), n.º 3, em março de 1913. Assinado com as iniciais V. I., o texto está conforme o que aparece na revista Prosveschenie, e as notas são dos redatores soviéticos. Sem as notas da edição soviética, o original em russo pode ser lido nesta página.



Em todo o mundo civilizado, os ensinamentos de Marx atraem para si uma enorme hostilidade e ódio da parte de toda a ciência burguesa (seja estatista [kazionny] ou liberal), a qual vê no marxismo algo como uma “seita perigosa”. Não se deve esperar nenhuma outra atitude, já que numa sociedade erigida sobre a luta de classes não podem existir ciências sociais “neutras”. De uma forma ou de outra, toda ciência estatista ou liberal defende a escravidão assalariada, enquanto o marxismo declarou uma guerra implacável contra essa escravidão. Esperar que haja ciência imparcial numa sociedade com escravidão assalariada é uma ingenuidade tão absurda quanto esperar que os fabricantes sejam neutros quando lhes questionam se é preciso aumentar os salários dos operários diminuindo os lucros do capital.

Mas não é só isso. A história da filosofia e a história das ciências sociais mostram com clareza meridiana que no marxismo não há nada semelhante a um “sectarismo” no sentido de algum ensinamento fechado, rígido, surgido separadamente do caminho principal da evolução da civilização mundial. Pelo contrário, toda a genialidade de Marx consiste exatamente em ele ter dado respostas a perguntas já feitas pelos pensadores progressistas da humanidade. Seus ensinamentos surgiram como uma continuação direta e natural dos ensinamentos dos maiores representantes da filosofia, da economia política e do socialismo.

Os ensinamentos de Marx são inquebrantáveis porque são corretos. Eles são completos e coerentes, dando às pessoas uma visão integral de mundo, irreconciliável com toda superstição, todo reacionarismo [reaktsia] e toda defesa do jugo burguês. Constituem a herança legítima do melhor que a humanidade criou no século 19, na forma da filosofia alemã, da economia política inglesa e do socialismo francês.

Vamos nos deter brevemente sobre essas três fontes e, ao mesmo tempo, partes componentes do marxismo.


I

A filosofia do marxismo é o materialismo. Ao longo de toda a história contemporânea da Europa, e em particular no fim do século 18, na França, onde havia irrompdo um combate encarniçado contra todo tipo de tralha medieval, contra a servidão nas instituições e nas ideias, o materialismo se revelou a única filosofia consequente, fiel a todas as descobertas das ciências naturais, hostil às superstições, à carolice e similares. Por isso, os inimigos da democracia tentaram com todas as forças “refutar”, desmontar e difamar o materialismo e defenderam formas diversas de idealismo filosófico, sempre reduzido, de um jeito ou de outro, ao apoio ou defesa da religião.

Da maneira mais decidida, Marx e Engels advogaram o materialismo filosófico e desvelaram reiteradamente a profunda falsidade de cada desvio desse fundamento. As formulações mais claras e detalhadas de suas visões se encontram nas obras Ludwig Feuerbach e O Anti-Dühring, de Engels, as quais – à semelhança do Manifesto Comunista (2) – são os livros de cabeceira de qualquer operário consciente.

Marx, porém, não se deteve no materialismo do século 18, mas fez a filosofia avançar. Ele a enriqueceu com os aportes da filosofia clássica alemã, sobretudo do sistema de Hegel, que por sua vez conduziu ao materialismo de Feuerbach. Desses aportes, o principal foi a dialética, isto é, a doutrina do desenvolvimento em seu aspecto mais pleno, profundo e isento de unilateralismo, a doutrina da relatividade do conhecimento humano, que nos dá a imagem da matéria em evolução perpétua. As mais recentes descobertas das ciências naturais – o elemento rádio, os elétrons, a transformação dos elementos – comprovaram admiravelmente o materialismo dialético de Marx, em detrimento das doutrinas dos filósofos burgueses com suas “novas” recaídas no velho e podre idealismo.

Aprofundando e desenvolvendo o materialismo filosófico, Marx o levou até o fim, estendendo sua compreensão da natureza à compreensão da sociedade humana. A mais alta conquista do pensamento científico é o materialismo histórico de Marx. O caos e o arbítrio que até então reinavam nas visões sobre a história e a política espantosamente deram lugar a uma teoria científica integral e coerente, que mostra como a partir de determinada formação social desenvolve-se, na sequência do aumento das forças produtivas, outra formação, mais elevada – por exemplo, do feudalismo nascendo o capitalismo.

E exatamente tal como a compreensão do homem, independentemente dele, reflete a natureza existente, isto é, a matéria em desenvolvimento, da mesma forma a compreensão social do homem (ou seja, as diversas visões e doutrinas filosóficas, religiosas, políticas etc.) reflete a estrutura econômica de uma sociedade. As instituições políticas constituem uma superestrutura sobre a base econômica. Vemos, por exemplo, como as diversas formas políticas dos Estados europeus modernos servem para reforçar o domínio da burguesia sobre o proletariado.

A filosofia de Marx é o materialismo filosófico finalizado, que deu à humanidade, em particular à classe operária, grandes ferramentas de conhecimento.


II

Reconhecendo que a estrutura econômica constitui a base sobre a qual se ergue a superestrutura política, Marx dedicou sua atenção, antes de tudo, a conhecer essa estrutura econômica. Principal trabalho de Marx, O capital é consagrado ao estudo da estrutura econômica da sociedade atual, isto é, capitalista.

Antes de Marx, a economia política clássica havia amadurecido na Inglaterra, o país capitalista mais desenvolvido. Adam Smith e David Ricardo, pesquisando a estrutura econômica, deram início à teoria do valor-trabalho. Marx continuou o trabalho deles e deu um fundamento sólido e um desenvolvimento lógico a essa teoria. Ele mostrou que o valor de toda mercadoria é definido pela quantidade do tempo de trabalho socialmente necessário que decorre ao se produzir a mercadoria.

Lá onde os economistas burgueses viam uma relação entre coisas (a troca de uma mercadoria por outra), Marx revelou relações entre pessoas. A troca de mercadorias expressa uma ligação entre produtores individuais sob a intermediação do mercado. O dinheiro significa que essa ligação está se tornando cada vez mais estreita, unificando irreversivelmente a vida econômica inteira dos produtores individuais num todo único. O capital indica o desenvolvimento subsequente dessa ligação: a força de trabalho do homem se torna mercadoria. O operário assalariado vende sua força de trabalho ao proprietário da terra, da fábrica, dos instrumentos de trabalho. O operário emprega uma parte de seu dia de trabalho para cobrir as despesas que mantenham a si e à sua família (salário), e na outra parte de seu dia o operário trabalha de graça, criando a mais-valia para o capitalista, a fonte do lucro, a fonte da riqueza da classe capitalista.

As lições sobre a mais-valia são a pedra angular da teoria econômica de Marx.

O capital, criado com o trabalho do operário, oprime o mesmo operário, arruinando os pequenos fabricantes e formando um exército de desempregados. Na indústria, o triunfo da grande produção é imediatamente visível, mas na agricultura também vemos o mesmo fenômeno: a superioridade da grande lavoura capitalista está aumentando, o emprego de máquinas está crescendo, a economia camponesa, em declínio e ruína sob o jugo de uma técnica atrasada, está caindo no laço do capital financeiro. Na agricultura há diferentes formas de decadência da pequena produção, mas a decadência em si é um fato indiscutível.

Suprimindo a pequena produção, o capital conduz ao incremento da produtividade do trabalho e à formação de uma posição monopolística ocupada pelas alianças entre grandes capitalistas. A produção em si está se tornando cada vez mais social – centenas de milhares e milhões de operários são postos em ligação num organismo econômico planificado –, mas o produto do trabalho comum é apropriado por um punhado de capitalistas. Estão crescendo a anarquia na produção, as crises, a busca tresloucada por mercados e a penúria material do grosso da população.

Aumentando a dependência do operariado face ao capital, o regime capitalista forma uma grande força de trabalho unificada.

Marx examinou a evolução do capitalismo desde os primeiros germes da economia mercantil, desde a simples troca, até suas formas superiores, até a grande produção.

E a experiência de todos os países capitalistas, tanto os velhos quanto os novos, mostra a um número cada vez maior de operários, ano após ano e de forma patente, a justeza desse ensinamento de Marx.

O capitalismo triunfou no mundo inteiro, mas essa vitória constitui apenas a antessala da vitória do trabalho sobre o capital.


III

Quando a servidão foi abolida e apareceu nesse mundo de Deus a sociedade capitalista “livre”, logo se descobriu que essa liberdade significava um novo sistema de opressão e exploração dos trabalhadores. Variadas doutrinas socialistas começaram rapidamente a surgir, como uma réplica a esse jugo e um protesto contra ele. Mas o socialismo inicial era um socialismo utópico. Ele criticava a sociedade capitalista, condenava-a e amaldiçoava-a, sonhava com sua destruição, fantasiava sobre o melhor dos regimes, convencia os ricos quanto à imoralidade da exploração.

Mas o socialismo utópico não podia indicar uma saída efetiva. Ele era incapaz de desvelar a essência da escravidão assalariada sob o capitalismo, de descobrir as leis de seu desenvolvimento e de encontrar a força social que está apta a se tornar a artífice de uma nova sociedade.

Além disso, as explosivas revoluções que acompanhavam a queda do feudalismo e da servidão por toda a Europa, em particular na França, demonstravam com crescente evidência que a base e a força motora de todo desenvolvimento são a luta de classes.

Nenhum triunfo da liberdade política sobre a classe senhorial [klass krepostnikov] foi conquistado sem uma resistência encarniçada. Nenhum país capitalista se estabeleceu sobre bases mais ou menos democráticas sem uma luta mortífera, e não pacífica, entre as diversas classes da sociedade capitalista.

A genialidade de Marx consiste em ele ter, antes de todos, sabido tirar daí e levar às últimas consequências a conclusão ensinada pela história mundial. Essa conclusão é a doutrina da luta de classes.

As pessoas sempre foram e sempre serão vítimas ingênuas do engano e do autoengano em política, enquanto não aprenderem algo além de qualquer proclamação ou fraseado moral, religioso, político ou social prometendo decifrar os interesses destas ou daquelas classes. Os partidários de reformas e melhorias sempre serão enganados pelos defensores do antigo enquanto não entenderem que toda velha instituição, por mais bruta e carcomida que pareça, escora-se nas forças destas ou daquelas classes dominantes. E para esmagar a resistência dessas classes, existe apenas um meio: encontrar na própria sociedade que nos circunda, esclarecer e organizar para a luta aquelas forças que podem – e devem, dada sua posição social – reunir a força capaz de varrer o velho e criar o novo.

Somente o materialismo filosófico de Marx indicou ao proletariado a saída da escravidão espiritual em que vegetavam até hoje todas as classes oprimidas. Somente a teoria econômica de Marx desvelou a verdadeira situação geral do proletariado no regime capitalista.

Em todo o mundo, da América ao Japão e da Suécia à África do Sul, multiplicam-se as organizações independentes do proletariado. Com educação e esclarecimento, ele está conduzindo sua luta de classes, livrando-se dos preconceitos da sociedade burguesa, coligando-se em ascendente união, aprendendo a avaliar a medida de seus sucessos, aguerrindo suas forças e crescendo impetuosamente.


Notas (clique no número pra voltar ao texto)

(1) O artigo “As três fontes e três partes componentes do marxismo” foi escrito por V. I. Lenin para o 30.º aniversário da morte de Karl Marx e publicado na revista Prosveschenie (Esclarecimento), n.º 3, 1913.

Prosveschenie” foi uma revista teórica bolchevique que saía legalmente todo mês; foi editada em São Petersburgo de dezembro de 1911 a junho de 1914. A tiragem da revista chegava a 5 mil exemplares.

A revista foi criada por iniciativa de V. I. Lenin para substituir a revista bolchevique Mysl (Pensamento), publicada em Moscou e fechada pelo governo tsarista. Participaram da revista V. V. Vorovski, A. I. Ulianova-Ielizarova, N. K. Krupskaia, V. M. Molotov, M. S. Olminski, I. V. Stalin e M. A. Saveliev. Para dirigir a seção de literatura de Prosveschenie, Lenin chamou A. M. Gorki. De Paris, e depois de Cracóvia e Poronin, Lenin dirigia Prosveschenie, redigia artigos e conduzia uma correspondência regular com membros do conselho editorial. Na revista foram publicados os trabalhos de Lenin “As três fontes e três partes componentes do marxismo”, “Notas críticas sobre a questão nacional”, “Sobre o direito das nações à autodeterminação”, entre outros.

A revista desmascarava os oportunistas (liquidacionistas, otzovistas, trotskistas), bem como os nacionalistas burgueses, esclarecia a luta da classe operária nas condições de uma nova ascensão revolucionária e fazia a propaganda das palavras de ordem bolcheviques na campanha eleitoral para a 4.ª Duma de Estado; ela atuava contra o revisionismo e o centrismo nos partidos da 2.ª Internacional. A revista desempenhou um importante papel na educação internacional marxista dos trabalhadores de vanguarda da Rússia.

Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, a revista Prosveschenie foi fechada pelo governo tsarista. Na primavera de 1917 a edição do jornal foi retomada, mas saiu apenas um número (duplo), no qual foram publicados os trabalhos de Lenin “Os bolcheviques vão conservar a direção do Estado?” e “Para a revisão do programa do Partido”.

(2) Cf. F. ENGELS, Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã (K. MARX e F. ENGELS, Obras escolhidas em dois tomos, t. II, 1955, pp. 339-382, em russo); F. ENGELS, O Anti-Dühring, 1957 (em russo); K. MARX e F. ENGELS, Manifesto do Partido Comunista (Obras completas, 2.ª ed., t. 4, pp. 419-459, em russo).



sábado, 22 de outubro de 2022

Friedrich Engels (Vladimir Lenin)


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Esta é a primeira das três brochuras escritas por Vladimir Ilich Lenin (1870-1924), revolucionário comunista russo, que traduzi pra editora Expressão Popular publicar, o que ela só fez com a segunda delas que vou pôr aqui. A que lhes apresento hoje se chama “Friedrich Engels”, (1) redigida no outono de 1895 e publicada pela primeira vez em 1896 na coletânea Rabotnik (O Trabalhador), n.º 1-2. O texto está conforme o que aparece na coletânea Rabotnik, e as notas são dos redatores soviéticos, exceto quando está indicado que são notas de Lenin ou minhas mesmo, de tradutor, bem poucas. Sem as notas da edição soviética, o original em russo pode ser lido nesta página.



Que castiçal de inteligência apagou-se,
Que coração parou de bater!
(2)


A 5 de agosto (24 de julho, pelo calendário ortodoxo) de 1895 faleceu em Londres Friedrich Engels. Depois de seu amigo Karl Marx (falecido em 1883), Engels foi o mais eminente cientista e professor do proletariado moderno em todo o mundo civilizado. Desde que o destino pôs Karl Marx e Friedrich Engels cara a cara, a vida laboral de ambos os amigos se tornou seu encargo comum. Por isso, a fim de compreender o que Friedrich Engels fez pelo proletariado, é preciso assimilar claramente o significado dos ensinamentos e da atuação de Marx no desenvolvimento do movimento operário moderno. Marx e Engels foram os primeiros a mostrar que a classe operária é o fruto ineludível da ordem econômica moderna, a qual junto com a burguesia inevitavelmente engendra e organiza o proletariado; eles mostraram que não são as tentativas benevolentes de nobres indivíduos isolados, mas a luta de classes do proletariado organizado que livrará a humanidade das desgraças que estão a afligi-la. Em seus escritos científicos, Marx e Engels foram os primeiros a elucidar que o socialismo não é uma fantasia de sonhadores, mas o objetivo final e o resultado inevitável do desenvolvimento das forças produtivas na sociedade moderna. Toda a história escrita tem sido até agora a história da luta de classes, da sucessão de dominadores e do triunfo de certas classes sociais sobre as outras. E isso vai continuar enquanto não desaparecerem os fundamentos da luta de classes e do domínio classista, isto é, a propriedade privada e a produção social desordenada. Os interesses do proletariado exigem a aniquilação desses fundamentos, contra os quais, portanto, deve dirigir-se a luta de classes consciente dos operários organizados. E toda luta de classes é uma luta política.

Essas visões de Marx e Engels já foram assimiladas por todos os proletários que lutam pela própria libertação, mas, quando dois amigos na década de 1840 tomaram parte na literatura socialista e nos movimentos sociais de seu tempo, tais concepções eram uma absoluta novidade. Havia então muitas pessoas talentosas e incapazes, íntegras e desonestas, que, atraídas para a luta pela liberdade política e contra o absolutismo da nobreza, da polícia e do clero, não enxergavam a contradição entre os interesses da burguesia e do proletariado. Essas pessoas não admitiam sequer a ideia de um operariado que atuasse como força social independente. Por outro lado, havia muitos sonhadores, por vezes geniais, que julgavam suficiente convencer os governantes e as classes dominantes das injustiças da ordem social presente, para então facilmente se instalarem no mundo a paz e a prosperidade geral. Eles sonhavam com um socialismo sem luta. Enfim, quase todos os socialistas e amigos da classe operária de então geralmente viam o proletariado apenas como uma chaga, observando com horror como o próprio crescimento industrial estava gerando essa chaga. Por isso, todos eles pensavam como se fosse preciso deter o desenvolvimento da indústria e do proletariado, deter a “roda da história”. Contrariando o temor geral perante o crescimento do proletariado, Marx e Engels depositaram todas as suas esperanças em sua ininterrupta evolução. Quanto mais proletários, mais fortes estes seriam como classe revolucionária, e mais próximo e possível seria o socialismo. Em poucas palavras, os méritos de Marx e Engels diante da classe operária podem ser descritos assim: eles ensinaram-na a conhecer-se e a ter consciência de si, e no lugar dos devaneios colocaram a ciência.

É por isso que o nome e a vida de Engels devem ser conhecidos por todo operário, é por isso que em nossa coletânea, cujo objetivo, como o de todas as nossas publicações, é despertar a consciência de classe no operariado russo, devemos incluir o básico da vida e atuação de Friedrich Engels, um dos dois grandes professores do proletariado moderno. Engels nasceu em 1820 na cidade de Barmen, na província do Reno, Reino da Prússia. Seu pai era um industrial. Em 1838, por circunstâncias familiares, Engels foi forçado, mesmo não tendo terminado o curso ginasial, a ir trabalhar como vendedor numa casa comercial de Bremen. A ocupação com o mundo dos negócios não o impediu de dedicar-se à própria formação científica e política. Ainda como ginasiano, Engels passou a abominar o absolutismo e a arbitrariedade dos burocratas. O estudo da filosofia o conduziu mais longe. Naquele tempo predominavam na filosofia alemã os ensinamentos de Hegel, de quem Engels se tornou um seguidor. Embora o próprio Hegel fosse um admirador do Estado absolutista prussiano, a serviço do qual ele se encontrava na qualidade de professor da Universidade de Berlim, os ensinamentos de Hegel eram revolucionários. A fé de Hegel na razão humana e em seus direitos e o pressuposto básico da filosofia hegeliana, segundo o qual ocorre no mundo um processo constante de mudança e desenvolvimento, conduziram os alunos do filósofo berlinense que não queriam conciliar-se com a situação presente à ideia de que o combate a essa situação, à injustiça existente e ao mal reinante também tinha raízes na lei universal do desenvolvimento perene. Se tudo evolui, se certas instituições sucedem-se a outras, por que é que continuariam eternamente o absolutismo do rei da Prússia ou do tsar da Rússia, o enriquecimento de uma ínfima minoria às custas de uma enorme maioria, o domínio da burguesia sobre o povo? A filosofia de Hegel discorria sobre o desenvolvimento do espírito e das ideias, ela era idealista. Do desenvolvimento do espírito ela deduzia o desenvolvimento da natureza, do homem e das relações humanas, sociais. Marx e Engels, tendo mantido a noção de Hegel sobre o processo perene de desenvolvimento, (3) descartaram o preconceito analítico idealista; tendo se voltado para a vida, els viram que não é o desenvolvimento do espírito que explica o desenvolvimento da natureza, mas pelo contrário, o espírito deve ser explicado a partir da natureza, da matéria... Em contraposição a Hegel e outros hegelianos, Marx e Engels eram materialistas. Com um olhar materialista sobre o mundo e a humanidade, eles viram que, assim como na base de todos os fenômenos da natureza repousam causas materiais, também o desenvolvimento da sociedade humana é determinado pelo desenvolvimento das forças materiais, produtivas. Do desenvolvimento das forças produtivas dependem as relações que as pessoas estabelecem umas com as outras durante a produção de mercadorias indispensáveis para a satisfação das necessidades humanas. E nessas relações está a explicação de todos os fenômenos da vida social, das aspirações humanas, das ideias e das leis. O desenvolvimento das forças produtivas cria as relações sociais que se apoiam na propriedade privada, mas agora vemos como esse mesmo desenvolvimento retira a propriedade das mãos da maioria e a concentra nas mãos de uma ínfima minoria. Ele aniquila a propriedade, base da ordem social moderna, ele próprio se empenha pelo mesmo objetivo que os socialistas se propuseram. Os socialistas devem apenas entender qual força social, por sua situação na sociedade moderna, está interessada na realização do socialismo e transmitir a essa força a consciência de seus interesses e de sua missão histórica. Tal força é o proletariado. Com ele Engels travou conhecimento na Inglaterra, no centro da indústria inglesa, Manchester, para onde ele se mudou em 1842, quando começou a trabalhar numa casa comercial da qual seu pai era um dos acionistas. Aí Engels não somente se acomodava no escritório da fábrica, mas também andava pelos bairros sujos onde os operários se amontoavam, vendo com seus próprios olhos a miséria e a desgraça deles. Mas ele não se contentou com as observações pessoais e leu tudo o que lhe caía às mãos sobre a situação da classe operária inglesa, estudando atentamente todos os documentos oficiais a que tinha acesso. O fruto desses estudos e observações foi o livro A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, lançado em 1845. (4) Já mencionamos acima qual é o principal mérito de Engels como autor de A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. E muitíssimos antes de Engels haviam retratado os sofrimentos do proletariado e apontado para a necessidade de ajudá-lo. Engels foi o primeiro a dizer que o proletariado não somente padece passivamente, mas também se encontra exatamente numa situação econômica tão humilhante que o faz avançar sem hesitação e o obriga a lutar por sua libertação final. E o proletariado combatente é que ajudará a si mesmo. O movimento político da classe operária conduz fatalmente os operários a ter consciência de que eles não têm saída fora do socialismo. Por outro lado, o socialismo somente será uma força quando se tornar o objetivo da luta política da classe operária. Eis as noções fundamentais do livro de Engels sobre a situação da classe trabalhadora na Inglaterra, noções agora assimiladas por todo o proletariado pensante e combatente, mas na época uma absoluta novidade. Essas noções foram expostas num livro escrito de forma entusiástica, cheio das mais fidedignas e impressionantes imagens da desgraça do proletariado inglês. Esse livro é um terrível requisitório contra o capitalismo e a burguesia. O impacto que ele provocou foi muito grande. Por toda a parte começou-se a mencionar o livro de Engels como o melhor quadro da situação do proletariado moderno. E realmente, nem antes de 1845 nem depois apareceu uma só representação tão vívida e veraz da desgraça da classe operária.

Engels só se tornou socialista na Inglaterra. Em Manchester ele estabeleceu contatos com os ativistas do movimento operário inglês de então e começou a escrever em periódicos socialistas ingleses. Em 1844, ao voltar para a Alemanha, ele conheceu Marx em Paris no meio do caminho, tendo já antes trocado correspondência com ele. Em Paris, por influência dos socialistas franceses e da vida local, Marx também se tornou socialista. Os amigos aí escreveram juntos o livro A Sagrada Família, ou crítica da crítica crítica. (5) Nesse livro, lançado um ano antes de A situação da classe trabalhadora na Inglaterra e na maior parte escrito por Marx, foram lançadas as bases do socialismo revolucionário materialista, cujas ideias principais expusemos acima. A Sagrada Família é um apelido cômico dado aos irmãos Bauer, filósofos, e seus continuadores. Esses senhores pregavam uma crítica que se colocava acima de qualquer realidade, acima dos partidos e da política, negava qualquer atitude prática e apenas contemplava “criticamente” o mundo ao redor e os acontecimentos que nele ocorriam. Os senhores Bauer julgavam com arrogância o proletariado como uma massa sem opinião própria, e contra essa absurda e perigosa orientação se ergueram decididamente Marx e Engels. Em nome do verdadeiro indivíduo humano – o operário pisoteado pelas classes dominantes e pelo Estado –, eles exigiam não a contemplação, mas a luta por um sistema social melhor. No proletariado, obviamente, eles veem a força interessada nessa luta e capaz de conduzi-la. Ainda antes da Sagrada Família, Engels havia publicado nos Deutsch-Französische Jahrbücher (Anais Franco-Alemães) (6) de Marx e Ruge o Esboço de uma crítica da economia política (7), no qual ele analisou, de um ponto de vista socialista, os fenômenos básicos da presente ordem econômica como decorrências inevitáveis do domínio da propriedade privada. As relações com Engels indiscutivelmente colaboraram para que Marx decidisse ocupar-se da economia política, a ciência em que seus trabalhos provocaram toda uma revolução.

No tempo decorrido entre 1845 e 1847 Engels esteve em Bruxelas e Paris, unindo suas atividades científicas com a atuação prática nos meios operários alemães daquelas cidades. Engels e Marx estabeleceram aí relações com a clandestina “Liga dos Comunistas” alemã, (8) que os encarregou de redigir os princípios básicos do socialismo elaborado por eles. Assim surgiu o célebre Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels, publicado em 1848. Esse fino livrinho vale por volumes inteiros: em seu espírito, até hoje vive e se move todo o proletariado organizado e combatente do mundo civilizado.

A revolução de 1848, tendo irrompido inicialmente na França e depois se propagado para outros países da Europa Ocidental, trouxe Marx e Engels de volta à terra natal. Aí, na província prussiana do Reno, eles tomaram a frente da Nova Gazeta Renana (9) democrática, que era publicada em Colônia. Ambos os amigos eram a alma de todos os esforços democrático-revolucionários na província do Reno. Até o limite do possível eles defendiam os interesses do povo e da liberdade contra as forças reacionárias. Estas, como se sabe, predominaram. A Nova Gazeta Renana foi interditada, Marx foi exilado, tendo perdido os direitos de súdito da Prússia enquanto vivia na emigração, e Engels participou de um levante popular armado, em três batalhas lutou pela liberdade e escapou, após a derrota dos insurgentes, para Londres através da Suíça. Marx também se fixou ali mesmo. Engels logo se tornaria vendedor novamente, e depois também acionista da casa comercial em Manchester à qual ele havia servido na década de 1840. Até 1870 ele viveu em Manchester, e Marx em Londres, o que não os impedia de encontrar-se na mais viva comunicação intelectual: eles trocavam cartas quase diariamente. Nessa correspondência os amigos trocavam visões e saberes e continuaram elaborando o socialismo científico. Em 1870, Engels transferiu-se para Londres e até 1883, quando Marx morreu, essa vida intelectual conjunta continuou, plena de trabalho intenso. Da parte de Marx, o fruto dela foi O capital, a maior obra político-econômica de nosso século, e da parte de Engels, toda uma série de grandes e pequenos escritos. Marx trabalhava analisando os complexos fenômenos da economia capitalista. Engels, em trabalhos escritos de forma muitíssimo simples e não raro polêmica, esclareceu as questões científicas mais gerais e diversos fenômenos do passado e do presente no espírito da teoria econômica de Marx e da concepção materialista da história. Dentre esses trabalhos de Engels destacamos: um escrito polêmico contra Dühring (no qual se examinam as maiores questões nos campos da filosofia, das ciências naturais e das ciências sociais), (10) A origem da família, da propriedade privada e do Estado (11) (tradução russa publicada em São Petersburgo, 3.ª ed., 1895), Ludwig Feuerbach (12) (tradução russa com notas de G. Plekhanov, Genebra, 1892), um artigo sobre a política externa do governo russo (tradução russa em Sotsial-Demokrat, (13) Genebra, n.ºs 1 e 2), excelentes artigos sobre a questão habitacional (14) e, finalmente, dois pequenos, mas muitos valiosos, artigos sobre o desenvolvimento econômico da Rússia (Fridrikh Engels o Rossii [Friedrich Engels sobre a Rússia], tradução russa de V. I. Zasulich, Genebra, 1894). (15) Marx morreu sem ter tido tempo de deixar concluído seu grande trabalho sobre o capital. Porém, suas linhas gerais já estavam traçadas, e após a morte do amigo, coube a Engels lançar-se à tarefa árdua de preparar e publicar os livros II e III do Capital. Em 1885 ele publicou o livro II, e em 1894 o livro III (ele não teve tempo de preparar o livro IV (16) ). Exigiu-se um enorme trabalho para preparar esses dois livros. O social-democrata austríaco Adler bem percebeu que Engels, ao editar os livros II e III do Capital, erigiu para seu genial amigo um monumento grandioso, sobre o qual ele involuntariamente gravou seu próprio nome com traços inapagáveis. Esses dois tomos do Capital são na realidade um trabalho conjunto de Marx e Engels. As velhas tradições populares nos contam sobre diferentes exemplos tocantes de amizade. O proletariado europeu pode dizer que sua ciência foi criada por dois sábios e lutadores, cujas relações superam todos os mais tocantes relatos dos antepassados sobre a amizade humana. Engels sempre – e, em geral, com absoluta justeza – se postou na dianteira de Marx. “Na dupla com Marx”, escreveu ele a um velho amigo, “eu fazia a segunda voz”. (17) Seu amor pelo Marx vivo e sua reverência ante a memória do Marx falecido eram ilimitados. Esse rígido pensador e severo lutador tinha uma alma totalmente afetuosa.

Após o movimento de 1848-1849, Marx e Engels se ocuparam no exílio não com uma ciência apenas. Marx fundou em 1864 a “Associação Internacional dos Trabalhadores”, (18) e no curso de toda uma década dirigiu seus trabalhos. Engels também teve uma participação ativa em seu funcionamento. A atuação da “Associação Internacional”, que unia, segundo a concepção de Marx, os proletários de todos os países, teve um enorme significado no desenvolvimento do movimento operário. Mas nem o fechamento da “Associação Internacional” na década de 1870 encerrou o papel unificador de Marx e Engels. Pelo contrário, pode-se dizer que a importância deles como dirigentes intelectuais do movimento operário não parou de crescer, pois o próprio movimento aumentou sem parar. Após a morte de Marx, Engels continuou sozinho sendo conselheiro e dirigente dos socialistas europeus. Também se dirigiam a ele em busca de conselhos e indicações os socialistas alemães, cuja força, apesar das perseguições governamentais, ampliou-se rápida e incessantemente, e os representantes dos demais países, como espanhóis, romenos e russos, que precisavam decidir e ponderar seus primeiros passos. Todos eles bebiam da abundante fonte de conhecimento e experiência do velho Engels.

Ambos conhecedores da língua russa e leitores de livros russos, Marx e Engels tinham um vivo interesse pela Rússia, acompanhavam com simpatia o movimento revolucionário russo e mantinham relações com os revolucionários russos. Ambos se tornaram socialistas após serem democratas, e o sentimento democrata de ódio ao despotismo político era neles extremamente forte. Esse sentimento político espontâneo, junto com uma profunda compreensão teórica das ligações entre o despotismo político e a opressão econômica, bem como uma rica experiência de vida, deram a Marx e Engels uma sensibilidade incomum precisamente no posicionamento político. Por isso, o combate heroico dos pequenos grupelhos de revolucionários russos ao poderoso governo tsarista encontrou nas almas desses experientes revolucionários a mais simpática ressonância. Por outro lado, a tendência a deixar de lado, em troca de proveitos econômicos ilusórios, a mais imediata e importante tarefa dos socialistas russos – conquistar as liberdades políticas – naturalmente se revelava suspeita a seus olhos e até mesmo era considerada por eles uma evidente traição à grande causa da revolução social. “A libertação do proletariado deve ser obra dele próprio”: eis o que Marx e Engels ensinavam constantemente. (19) E para lutar por sua libertação econômica, o proletariado deve conquistar para si determinados direitos políticos. Além disso, tanto Marx quanto Engels viam claramente que, para o movimento operário da Europa Ocidental, a revolução política na Rússia terá uma enorme importância. A Rússia absolutista sempre foi o esteio de todos os reacionários europeus. É claro que a situação nacional incomumente favorável na qual a Rússia foi colocada pela guerra de 1870, que semeou longamente a discórdia entre a Alemanha e a França, apenas ampliou a importância da Rússia absolutista como força reacionária. Somente uma Rússia livre, que não dependa nem de submeter poloneses, finlandeses, alemães, armênios e demais povos menores, nem de ficar jogando o tempo todo a França contra a Alemanha, permitirá que a Europa moderna respire aliviada sem os fardos da guerra, enfraqueça todos os elementos reacionários da Europa e amplie a força da classe operária europeia. É por isso que Engels, também para que o movimento operário triunfasse no Ocidente, desejava ardentemente que a liberdade política fosse instalada na Rússia. Sem ele, os revolucionários russos perderam seu melhor amigo.

Glória eterna a Friedrich Engels, grande lutador e professor do proletariado!


Notas (clique no número pra voltar ao texto)

(1) O artigo necrológico “Fridrikh Engels” (Friedrich Engels) foi escrito por Lenin no outono de 1895, publicado no n.º 1-2 de Rabotnik e lançado em março de 1896 ou depois. Rabotnik (O Trabalhador) era uma coletânea não periódica editada no exterior entre 1896 e 1899 pela União dos Sociais-Democratas Russos, sob a redação do grupo “Osvobozhdenie trudá” (Libertação do Trabalho). O iniciador da publicação de Rabotnik foi Lenin. Em 1895, enquanto estava no exterior, ele combinou com G. V. Plekhanov e P. B. Akselrod sobre a edição e publicação da coletânea pelo grupo “Libertação do Trabalho”. Após voltar para a Rússia, Lenin desenvolveu um grande trabalho para organizar uma ajuda material a essa publicação e garantir à coletânea artigos e correspondências vindos da Rússia. Antes de ser preso em dezembro de 1895, Lenin preparou e enviou à redação de Rabotnik o artigo necrológico “Friedrich Engels” e algumas correspondências, parte das quais (de A. A. Vaneiev, M. A. Silvin e S. P. Shesternin) foi impressa nos números 1-2 e 5-6 da coletânea.

Ao todo saíram 6 números de Rabotnik em três livros e 10 números do Boletim do “Rabotnik”.

(2) Os versos usados como epígrafe ao artigo “Friedrich Engels” foram tirados por V. I. Lenin do poema Memórias de Dobroliubov, de N. A. Nekrasov (cf. N. A. NEKRASOV, Polnoie sobranie sochinenii i pisem [Obras e cartas completas], t. II, 1948, p. 200).

(3) [Nota de Lenin] Marx e Engels mostraram diversas vezes que em seu desenvolvimento intelectual eles são amplamente tributários dos grandes filósofos alemães, em particular de Hegel. “Sem a filosofia alemã”, diz Engels, “nem mesmo o socialismo científico existiria”. [Red. soviética ‒ F. ENGELS, Prefácio à Guerra camponesa na Alemanha (cf. K. MARX e F. ENGELS, Obras escolhidas em dois tomos, t. I, 1955, p. 604, em russo).]

(4) Cf. K. MARX e F. ENGELS, Obras completas, 2.ª ed., t. 2, pp. 231-517 (em russo).

(5) Cf. K. MARX e F. ENGELS, Obras completas, 2.ª ed., t. 2, pp. 3-230 (em russo).

(6) Lenin está se referindo à revista Deutsch-Französische Jahrbücher (Anais Franco-Alemães), publicada em Paris na língua alemã sob a redação de K. Marx e A. Ruge. Saiu apenas o primeiro fascículo duplo, em fevereiro de 1844. Nele foram publicadas as obras A questão judaica e Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel, de K. Marx, e Esboço de uma crítica da economia política e “A situação da Inglaterra. Resenha a Past and Present, de Thomas Carlyle”, de F. Engels (cf. K. MARX e F. ENGELS, Obras completas, 2.ª ed., t. 1, pp. 382-413, 414-429, 544-571 e 572-597, em russo), que marcaram a transição final dos autores ao materialismo e ao comunismo.

As divergências de princípios entre Marx e o burguês radical Ruge foram a principal razão de se ter cessado a publicação da revista.

(7) Referência ao trabalho Esboço de uma crítica da economia política, de F. Engels (cf. K. MARX e F. ENGELS, Obras completas, 2. ed., t. 1, p. 544-571, em russo).

(8) A Liga dos Comunistas foi a primeira organização internacional do proletariado revolucionário. A criação da liga foi precedida de um grande trabalho de Marx e Engels direcionado à integração ideológica e organizativa dos socialistas e operários de todos os países. No início de 1847 Marx e Engels aderiram à sociedade clandestina alemã “Liga dos Justos”. No início de junho de 1847 ocorreu em Londres o congresso da Liga dos Justos em que se deu sua mudança de nome para “Liga dos Comunistas”; o vago lema anterior, “Todos os homens são irmãos!”, foi trocado pelo lema internacionalista combativo “Proletários de todos os países, uni-vos!”.

A Liga dos Comunistas estabeleceu como objetivo a derrubada da burguesia, a liquidação da velha sociedade burguesa baseada no antagonismo de classes e a construção de uma nova sociedade sem classes nem propriedade privada. Marx e Engels participaram dos trabalhos do segundo congresso da liga, ocorrido em Londres em novembro-dezembro de 1847, e encarregados por ele redigiram o programa da liga, o Manifesto do Partido Comunista, publicado em fevereiro de 1848. A Liga dos Comunistas desempenhou um grande papel histórico como escola dos revolucionários proletários, embrião de partido proletário e predecessora da Associação Internacional dos Trabalhadores (1.ª Internacional); conseguiu existir até novembro de 1852. A história da liga está descrita no artigo “Para a história da Liga dos Comunistas”, de F. Engels (cf. K. MARX e F. ENGELS, Obras escolhidas em dois tomos, t. II, 1955, pp. 320-338, em russo).

(9) A Nova Gazeta Renana (Neue Rheinische Zeitung) foi publicada em Colônia de 1.º de junho de 1848 a 19 de maio de 1849. Os diretores do jornal eram K. Marx e F. Engels, e o redator-chefe era Marx. Nas palavras de Lenin, o jornal foi “o melhor órgão do proletariado revolucionário, insuperável” (Obras completas, 4.ª ed., t. 21, p. 64, em russo), tendo desempenhado o papel de educador das massas populares, as levantado para o combate à contrarrevolução e exercido influência sobre toda a Alemanha. A opção decidida e intransigente da Nova Gazeta Renana pelo internacionalismo combativo acarretou já nos primeiros meses de sua existência o cerco do jornal por parte da imprensa feudal-monárquica e liberal-burguesa e a perseguição por parte do governo. O desterro de Marx pelo governo prussiano e as repressões contra outros redatores deram o pretexto para encerrar-se a publicação do jornal. Sobre a Nova Gazeta Renana, cf. o artigo “Marx e a Nova Gazeta Renana (1848-1849)”, de F. Engels (K. MARX e F. ENGELS, Obras escolhidas em dois tomos, t. II, 1955, pp. 311-319, em russo).

(10) [Nota de Lenin] É um livro admiravelmente instrutivo e rico em conteúdo. [Red. soviética ‒ Trata-se do livro O Anti-Dühring: o sr. Eugen Dühring revoluciona a ciência, de F. Engels.] Infelizmente, dele foi traduzida para o russo apenas uma pequena parte contendo um esboço histórico do desenvolvimento do socialismo (Razvitie nauchnogo sotsializma [O desenvolvimento do socialismo científico], 2.ª ed., Genebra, 1892). [Red. soviética ‒ Com esse título foi publicada em 1892 a tradução russa do trabalho Do socialismo utópico ao socialismo científico, de F. Engels, que esteve nas origens de três capítulos de seu próprio livro O Anti-Dühring (cf. K. MARX e F. ENGELS, Obras escolhidas em dois tomos, t. II, 1955, pp. 107-145, em russo).]

(11) Cf. K. MARX e F. ENGELS, Obras escolhidas em dois tomos, t. II, 1955, pp. 160-310 (em russo).

(12) Cf. K. MARX e F. ENGELS, Obras escolhidas em dois tomos, t. II, 1955, pp. 339-382 (em russo).

(13) V. I. Lenin se refere ao artigo “A política externa do tsarismo russo”, de F. Engels, publicado nos primeiros dois livros de Sotsial-Demokrat sob o título “A política estrangeira do tsarismo russo” (cf. K. MARX e F. ENGELS, Obras completas, t. XVI, parte II, 1936, pp. 3-40, em russo).

Sotsial-Demokrat (O Social-Democrata) foi uma revista político-literária editada pelo grupo “Libertação do Trabalho” no exterior (Londres e Genebra) de 1890 a 1892, tendo desempenhado um grande papel na difusão das ideias marxistas na Rússia; saíram ao todo quatro livros. Como principais colaboradores de Sotsial-Demokrat atuavam G. V. Plekhanov, P. B. Akselrod e V. I. Zasulich.

(14) Lenin se refere ao artigo “A questão habitacional”, de F. Engels (cf. K. MARX e F. ENGELS, Obras escolhidas em dois tomos, t. I, 1955, pp. 504-587, em russo).

(15) Referência ao artigo “Sobre as relações sociais na Rússia”, de F. Engels, e o posfácio a esse artigo, que saiu no livro Fridrikh Engels o Rossii [Friedrich Engels sobre a Rússia], Genebra, 1894 (cf. K. MARX e F. ENGELS, Obras completas, t. XV, 1933, pp. 251- 264; t. XVI, parte II, 1936, pp. 388-401). [N.T. – Queria fazer aqui uma observação meio cômica sobre a tradução, especialmente pra página. Não conheço o original em alemão, mas Lenin escreveu literalmente “Junto a Marx, eu tocava o segundo violino”, uma expressão pra dizer que Engels era seu coadjuvante. Numa orquestra, o(s) segundo(s) violino(s) não atua(m) durante a peça inteira, mas apenas quando exigido, pra dar uma adição à musicalidade, e às vezes é (são) muito repetitivo(s), o que exige igual ou maior habilidade do que pra tocar o(s) primeiro(s). Pra ficar mais próximo da realidade brasileira, usei nossas “duplas” sertanejas e o conceito de “segunda voz”, embora não chegasse tão longe a ponto de falar em “sertanejo”, porque esse tipo de voz pode ser usado em outros estilos, e porque desejei soar mais neutro...]

(16) Lenin chama de O quarto livro do “Capital”, seguindo a indicação de F. Engels, a obra Teorias da mais-valia, de K. Marx, escrita em 1862-1863. No prefácio ao segundo livro do Capital, Engels escreveu: “Tenciono publicar a parte crítica desse manuscrito [Red. soviética ‒ Teorias da mais-valia], depois de suprimidas as numerosas passagens já liquidadas pelos Livros Segundo e Terceiro, como Livro Quarto de O Capital” (K. MARX, O capital, t. II, 1955, p. 2 [ed. brasileira: O capital: crítica da economia política, v. 3, trad. de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe, 3.ª ed., São Paulo, Nova Cultural, 1988, p. 6]). Porém, Engels não teve tempo de aprontar para a publicação o livro IV do Capital. Inicialmente, Teorias da mais-valia foi publicado em alemão após elaboração de K. Kautsky em 1905 e 1910. Nessa edição foram descumpridas as exigências básicas da publicação científica do texto e admitidas deturpações numa série de teses do marxismo.

O Instituto de Marxismo-Leninismo do CC do PCUS está lançando uma nova edição do trabalho Teorias da mais-valia (livro IV do Capital) em três partes, segundo o manuscrito de 1862-1863 (cf. K. MARX, Teorias da mais-valia (livro IV do Capital), parte I, 1955; parte II, 1957, em russo).

(17) Referência à carta de F. Engels a J. Ph. Becker, 15 de outubro de 1884 (cf. K. MARX e F. ENGELS, Obras completas, t. XXVII, 1935, p. 415, em russo).

(18) A Associação Internacional dos Trabalhadores (1.ª Internacional) foi a primeira organização internacional do proletariado, fundada por Marx em 1864 numa conferência operária internacional convocada em Londres por operários ingleses e franceses. A formação da 1.ª Internacional ocorreu após K. Marx e F. Engels por muitos anos lutarem tenazmente por um partido revolucionário da classe operária. Como observou V. I. Lenin, a 1.ª Internacional “lançou os alicerces da organização internacional do operariado para preparar sua investida revolucionária sobre o capital”, “lançou os alicerces da luta proletária internacional pelo socialismo” (Obras completas, 4.ª ed, tomo 29, pp. 280 e 281, em russo).

O órgão diretivo central da 1.ª Internacional era o Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores, do qual K. Marx era membro vitalício. Superando as influências pequeno-burguesas e as tendências sectárias então reinantes no movimento operário (o trade-unionism na Inglaterra, o proudhonismo e o anarquismo nos países românicos), Marx consolidou ao seu redor os membros mais conscientes do Conselho Geral (F. Lessner, E. Dupont, H. Jung e outros). A 1.ª Internacional liderou a luta econômica e política dos operários de diferentes países e reforçou sua solidariedade internacional. O papel da 1.ª Internacional foi imenso na missão de difundir o marxismo e de unir o socialismo ao movimento operário.

Após a derrota da Comuna de Paris, surgiu diante da classe operária a questão da criação de partidos nacionais de massas baseados nos princípios promovidos pela 1.ª Internacional. “Levando em consideração o estado de coisas na Europa”, escreveu Marx em 1873, “certamente considero útil deixar temporariamente em segundo plano a organização formal da Internacional” (K. MARX e F. ENGELS, Cartas escolhidas, 1953, p. 288, em russo). Em 1876 a 1.ª Internacional foi oficialmente dissolvida na Conferência da Filadélfia.

(19) Cf. K. Marx, “Estatutos Provisórios da Associação”, “Estatutos Gerais da Associação Internacional dos Trabalhadores”; F. Engels, “Prefácio à edição alemã de 1890 do Manifesto do Partido Comunista” (K. MARX e F. ENGELS, Obras completas, t. XIII, parte I, 1936, p. 13; K. MARX e F. ENGELS, Obras escolhidas em dois tomos, t. I, 1955, pp. 6 e 344, em russo).



quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Textos de Lenin sobre Marx e Engels


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/lenin-brochura

Em 2020, a editora de esquerda brasileira Expressão Popular, em conjunto com outras casas editoriais, publicou a coletânea especial Lenin 150, em memória dos 150 anos de nascimento do revolucionário russo Vladimir Ilich Ulianov, destacado teórico marxista da então chamada “Segunda Internacional”, criador da fração bolchevique da social-democracia na Rússia, líder da Revolução de Outubro de 1917, fundador da Terceira Internacional (Comintern) em 1919 e da União Soviética (URSS) em 1922. Extremamente pressionado por seu trabalho intelectual e por seu governo autoritário de 1918 a 1924, acabou tendo vários derrames e, com a saúde fragilizada, morreu relativamente novo. Sua memória foi, de fato, santificada num regime autodeclarado ateu e laico, e mesmo hoje, nos países capitalistas ocidentais, Lenin ainda é admirado pela luta social no antigo império tsarista e por ter chamado de “comunismo” sua reinterpretação crítica do legado dos alemães Karl Marx e Friedrich Engels.

A Expressão Popular trabalha com a concessão voluntária dos direitos autorais do autor ou do tradutor, a fim de baratear o custo final do livro pra população acadêmica e militante, e nos últimos anos muitos clássicos esgotados têm sido relançados. A proposta que a editora me fez em 2019 foi a publicação de três brochuras antigas de Lenin, traduzidas pro português: “Friedrich Engels” (1895), “As três fontes e três partes componentes do marxismo” (1913) e “Karl Marx (Breve esboço biográfico com uma exposição do marxismo)” (1914). No ano seguinte, foi publicada a referida coletânea Lenin 150 apenas com a segunda brochura, junto com um texto de Vijay Prashad traduzido por Miguel Yoshida e um poema de Vladimir Maiakovski traduzido por Zoia Prestes, uma das filhas do líder histórico comunista Luiz Carlos. Por algum tempo, o arquivo PDF estava disponível no site da editora, e podia ser baixado com ou sem uma contribuição financeira simbólica. Porém, esses dias percebi que a própria Expressão Popular retirou o produto do ar, e ficou disponível online apenas a cópia que indiquei acima, guardada no acervo Marxists.org, ao qual tanto já contribuí.

Em sua página, a editora afirma que nem sequer está recebendo novos originais pra publicação, talvez porque além de manter os funcionários em regime domiciliar, deve estar sobrecarregada. Não faço ideia se vão publicar as outras duas brochuras sobre Marx e Engels que traduzi, nem a introdução que fiz aos três textos em conjunto. Independente do que diz o contrato que assinei com eles, estou publicando a partir de hoje aqui na página, sem alterações, a referida introdução e as três brochuras de Lenin, que vão aparecer respectivamente nos dias 22, 24 e 26 de outubro. Os links dados abaixo são ativados à medida que os textos programados forem publicados, com notas explicativas que julguei necessário inserir.



O presente volume contém as traduções, feitas diretamente da língua russa, de três conhecidos artigos de Vladimir Ilich Ulianov (1870-1924), mais conhecido na história como Vladimir Lenin: “Фридрих Энгельс” [Fridrikh Engels], redigido em 1895 e publicado em 1896; “Три источника и три составных части марксизма” [Tri istochnika i tri sostavnykh chasti marksizma], publicado em 1913; e “Карл Маркс (Краткий биографический очерк с изложением марксизма)” [Karl Marks (Kratki biograficheski ocherk s islozheniem marksizma)], redigido em 1914, publicado pela primeira vez em 1915 e reeditado numa brochura ampliada em 1918. Os textos digitais (1) utilizados como base pertencem à quinta edição, a última dos tempos do comunismo, da “Полное собрание сочинений” [Polnoie sobranie sochinenii], as Obras completas de Lenin publicadas na extinta União Soviética pela Izdatelstvo politicheskoi literatury (Editora de Literatura Política) ao longo das décadas de 1960 e 1970: o tomo 2 (ed. 1967, abarcando o período 1895-1897) para Friedrich Engels, o tomo 23 (ed. 1973, abarcando o período entre março e setembro de 1913) para As três fontes e três partes componentes do marxismo e o tomo 26 (ed. 1969, abarcando o período entre julho de 1914 e agosto de 1915) para Karl Marx (Breve esboço biográfico com uma exposição do marxismo).

Segundo as teorias tradutórias modernas, nenhum tipo de texto pode ser visto como um objeto intocável ou um monumento incorruptível, ou como tendo uma essência imutável que caberia descobrir, dado que ele não passa de um código intermediário imperfeito entre o pensamento do autor e o pensamento dos leitores. Por isso, o público e o objetivo da tradução também serão fundamentais para as escolhas de quem a redige. Contudo, sem fazer distinção entre um público militante, acadêmico ou leigo culto, e atendendo também à demanda de trabalhos de documentação ainda tão escassos no Brasil, adotei uma série de procedimentos-padrão que pretendo sumarizar abaixo.

As traduções dos três textos de Lenin supracitados são perfeitamente utilizáveis tanto por quem fala a língua russa ou tem algum conhecimento dela, quanto por quem não a domina em nenhum grau. Portanto, respeitam o contexto em que foram redigidos os originais e também o contexto de utilização por um determinado público no Brasil de inícios do século 21. O balanço entre esses dois contextos nem sempre permitiu a tradução “literal”, ou “palavra por palavra”, do russo para o português, seja porque em ambos os idiomas a mesma ideia era expressa de forma “idiomática”, seja porque certos recursos de estilo de Lenin não faziam sentido num texto em português brasileiro. Por vezes a discrepância vocabular foi tamanha que julguei necessário colocar entre colchetes “[ ]” uma transliteração da palavra original no alfabeto latino, formatada em itálico, para a informação do público poliglota, sem indicar que se trata de inserção minha. Porém, essas observações linguísticas são dispensáveis para os que desconhecem o russo.

O recurso aos colchetes também ocorreu em outros três contextos: para demarcar adendos de Lenin dentro de citações alheias, as quais estavam inicialmente separadas pelos parênteses “( )”, para indicar adendos meus dentro do texto de Lenin visando esclarecer determinada passagem (estas se abrem com as iniciais “N.T.” ‒ nota do tradutor) e para introduzir as traduções de títulos em russo dentro de notas ou em listas bibliográficas, não contendo, como as indicações de palavras originais, as iniciais “N.T.”. Em grau mais restrito, vali-me igualmente dos colchetes ao apontar notas que foram abertas por Lenin (simbolizadas pelo asterisco “ * ”, e não por algarismos indo-arábicos, e inseridas no rodapé da página na edição soviética) ou, dentro destas, observações feitas pelos editores soviéticos.

Mesmo não respeitando a numeração original, as notas explicativas foram todas traduzidas e adaptadas a partir da versão russa, e por isso não há indicações quando se trata de notas de editores, mas apenas quando se trata de “[Nota de Lenin]” ou de “Nota do tradutor” ([N.T.]). Diversas citações diretas que Lenin transcreveu na brochura Karl Marx foram redigidas no texto em português conforme traduções consagradas em edições brasileiras ou portuguesas dos mesmos livros, sendo as notas da edição soviética substituídas pelas referências das obras traduzidas; exceção feita às citações do texto Misère de la philosophie, que Marx escreveu diretamente em francês e desta língua foram traduzidos.

Ainda no tocante à brochura Karl Marx, convém explicar outro procedimento na longa bibliografia que a encerra. Os títulos em russo dos textos de autores russos foram transliterados, com a tradução para o português colocada entre colchetes, enquanto os títulos em russo dos textos de autores não russos foram todos traduzidos, sendo usada especialmente, no caso de escritores famosos, sua forma consagrada quando existente em português. Os títulos em outras línguas (a saber, inglês, francês, alemão e italiano) não foram traduzidos, nem tiveram sua tradução adicionada entre colchetes, por se tratar de línguas razoavelmente conhecidas no Ocidente; foram corrigidas apenas grafias errôneas, se fosse o caso.

Até 1.º de fevereiro de 1918, o calendário na Rússia era atrasado em 13 dias, para corresponder ao calendário juliano, utilizado pela Igreja Ortodoxa e até hoje referencial para celebrações religiosas. Porém, ainda hoje, não se fala na Rússia em “calendário juliano” e “calendário gregoriano”, mas respectivamente “velho estilo” e “novo estilo”; muitas datas históricas e aniversários foram registrados nesse “velho estilo”, (2) por isso é comum que obras de referência russas tragam as duas datas equivalentes. O próprio Lenin registra essa diferença, tendo eu optado, em prol da fluidez na leitura, por chamar o “velho estilo” de “calendário ortodoxo”, e o “novo estilo” de “(data) no Ocidente”. Outra coisa que pode parecer óbvia: como na Europa as estações do ano são muito mais marcadas, é comum seu uso como referência temporal. Mas não custa lembrar que nos dois hemisférios elas ocorrem “ao contrário”: quando aqui é primavera ou verão, lá é respectivamente outono ou inverno, e vice-versa.

Todavia, para qualquer tradutor do russo, o problema mais espinhoso é o da transliteração do alfabeto cirílico para o alfabeto latino, necessária uma vez que, exceto por razões didáticas, nunca misturamos alfabetos diversos num mesmo texto. Espinhoso não somente porque a própria Rússia jamais adotou um padrão único (como ocorreu na China comunista, por exemplo, com o sistema pinyin), mas também porque cada idioma ocidental tem formas diferentes de representar os sons equivalentes em russo, o qual, porém, tem muitos sons ausentes nas línguas românicas e germânicas. Essa questão pode parecer irrelevante a quem não conhece o russo, mas para quem tem alguma noção do que está sendo transliterado, sistemas aleatórios e incoerentes podem levar à confusão.

Nas melhores traduções mais recentes dos clássicos da literatura russa, há o costume de se utilizar uma transliteração mais ligada à pronúncia do que à ortografia, e que o professor Nivaldo dos Santos me disse certa vez ser a usada por Paulo Bezerra. (3) Eu, contudo, emprego um sistema próprio, em parte baseado no inglês (influência mais comum entre os historiadores, dada a preeminência anglo-saxã nos estudos russos e soviéticos), em parte baseado no português (tanto por economia de espaço quanto para melhor compreensão dentro da lusofonia), equilibrando, portanto, a reprodução dos sons da língua e das letras do alfabeto cirílico. (4) A verdade é que tal equilíbrio, exceto no âmbito técnico, jamais pode ser alcançado, e eu preferi criar uma espécie de alusão visual simples, por vezes reconhecível em grande parte do mundo, mas em todo caso provisória e acessória, porque o não iniciado dispensa minúcias linguísticas (sem, porém, ter a inteligência subestimada), enquanto o conhecedor pode obter detalhes mais precisos em outras fontes. Mesmo sendo a sílaba tônica em russo bastante imprevisível, dispensei qualquer sinal diacrítico, exceto o acento agudo em palavras oxítonas termnadas em vogal (como trudá), para dar maior naturalidade.

Um breve adendo: nas poucas vezes em que nomes de cidades hoje localizadas na Ucrânia diferem entre as línguas russa e ucraniana, optei pelo uso das variantes russas, em vista do então domínio histórico do tsarismo russo: Kiev ao invés de Kyiv, Kharkov ao invés de Kharkiv, Lvov ao invés de Lviv, Odessa ao invés de Odesa etc. Essa preferência é desaconselhada, sobretudo pelos ucranianos, em textos atuais ou mais modernos. Topônimos de outros países com formas consagradas no português brasileiro, como Cracóvia (Kraków), Colônia (Köln) e Mosela (Mosel), aparecem como tal.

É de se lembrar ainda que, quanto às referências bibliográficas, Lenin segue as mais diversas regras, omitindo vários dados e muitas vezes colocando títulos de artigos em itálico e os títulos das revistas entre aspas (ao contrário de nosso costume), ou até mesmo, por vezes, nomes de autores em itálico, em geral quando o livro está em língua estrangeira e, por isso, o nome do autor também aparece em alfabeto latino. Além disso, o idioma russo usa normas diferentes para redação de referências, as quais, quando possível, foram convertidas para a norma brasileira da ABNT, com a simplificação de algumas regras. Nomes de cidades eslavas de edição que costumam aparecer abreviados (o que ocorre também com topônimos alemães), como M. = Moscou, SPB. = São Petersburgo e K. = Kiev/Kyiv, obviamente foram desdobrados.

Entre os incontáveis anexos, a edição soviética das Obras completas de Lenin comporta índices onomásticos das pessoas citadas nos textos e, dispensáveis para o estudo, planos de redação esboçados pelo próprio autor. Neste volume, optamos por deixar apenas o plano de As três fontes e três partes componentes do marxismo, pois o plano de Karl Marx era demasiado grande e complexo para uma brochura já longa e importante.

Por fim, mas não menos importante, não houve qualquer intenção em imitar o estilo mais erudito do russo ou do português do início do século 20. É obrigação de toda boa tradução, sobretudo das áreas política e acadêmica, primar pelo entendimento e utilidade aos contemporâneos e pela clareza e precisão conceituais.


Notas (clique no número pra voltar ao texto)

(1) Todos os 55 tomos em russo, além dos principais textos em arquivos separados, estão em formato .DOC disponíveis nesta página. Acesso em: 28 jun. 2019.

(2) Isso explica por que se fala em “Revolução de Fevereiro” e “Revolução de Outubro” de 1917, quando na verdade já se tratava de março e novembro no calendário ocidental.

(3) Ligada principalmente à opção de jovens tradutores formados na USP, ela também aparece nas traduções feitas por Boris Schnaiderman, Rubens Figueiredo, Cecília Rosas, Elena Vássina e outros literatos.

(4) Um texto explicativo e as tabelas de equivalência, abrangendo também o ucraniano, o belarusso, o búlgaro e o macedônio, estão disponíveis nesta página. Acesso em: 28 jun. 2019.



terça-feira, 18 de outubro de 2022

A “Marcha San Lorenzo” em Itu, 1963


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Há alguns dias, o sr. Otoni Rodrigues da Silveira, ex-advogado e ocupado de forma amadora com interessantes trabalhos sobre a história de Cabreúva, SP, sua cidade natal, e da região circundante, me mandou uma afável mensagem após ter lido minha publicação com a origem e a tradução da Marcha de San Lorenzo, peça marcial muito importante pra memória argentina. Dentre os escritos memorialísticos que costuma publicar ou deixar guardados como anotações, ele me enviou este e gentilmente me permitiu publicá-lo, chamado “A Marcha San Lorenzo”, narrando o encontro com essa música em sua juventude nos anos 60. O sr. Otoni também me agradeceu e me parabenizou pela antiga publicação nesta página, que o teria ajudado a enriquecer suas anotações (“rabiscos”, como ele chama).

Segue a agradável reflexão, que revela não só a fama que a Marcha de San Lorenzo alcançou ao redor do mundo, mas também uma instrutiva história de como as bandas e fanfarras foram importantes pra cultura popular do interior de SP. Inclusive, na escola da capital onde minha mãe dava aula, ainda há uma ótima fanfarra que ganhou vários prêmios municipais. Fiz apenas algumas adequações na formatação, já que o sr. Otoni, autor do já publicado Cabreúva, História e Contexto (2015), se revela um escritor muito culto e primoroso.



A Marcha San Lorenzo é uma belíssima marcha militar argentina, que se tornou muito conhecida no continente europeu e, por isso, faz parte do repertório de muitas bandas militares de diversos países. No Brasil, além das bandas militares, ela também fez parte do repertório de bandas do interior paulista, numa época em que essas bandas faziam parte do cotidiano da vida de nossas cidades. Mesmo em nossas pequenas cidades, era comum haver duas bandas de música. Aquela realidade, aliás, inspirou o então jovem Chico Buarque de Hollanda a compor sua célebre marchinha, que se tornou antológica, seu primeiro grande e retumbante sucesso.

Aqui em Cabreúva, por exemplo, na década de 60, quando sua população ainda não atingia seis mil habitantes (Itu beirava 40 000), havia duas bandas de música, que se revezavam (e se rivalizavam, como já ocorria na primeira década do século, quando Tonico Mafalda, pai de Erothides de Campos, era o maestro de uma delas). E a Marcha San Lorenzo fazia parte das datas festivas.

Essa festejada marcha militar foi composta no ano de 1901 por Cayetano Alberto Silva, curiosamente um uruguaio, afrodescendente, que mais tarde obteria a cidadania argentina. Estreou no dia 30 de outubro de 1902, na inauguração de um monumento do General San Martín, na província de Santa Fe. No ano de 1907, em face de sua grande aceitação, ela recebeu letra escrita pelo poeta Carlos Javier Benielli.

A música e a letra foram inspiradas na Batalha de San Lorenzo, na cidade de igual nome, na referida província, que ocorreu no dia 3 de fevereiro de 1813. Vale lembrar que a independência da Argentina formalmente ocorreu no dia 25 de maio de 1810, aliás abrangendo um território maior, mas somente se consolidaria no ano de 1825. Houve muita resistência dos espanhóis. Naquela batalha, após sofrer uma queda de seu cavalo, o General San Martín foi socorrido pelo soldado Juan Bautista Cabral, que acabaria morto e se tornaria herói. Na Argentina, a marcha é interpretada como autêntico hino pátrio. É sempre presente nas datas cívicas.

Erick Fishuk, historiador pela Unicamp, interessou-se pelo tema e, nesse labor, interessou-se também pela história da marcha. Aliás, ele traduziu a letra para o vernáculo. A Marcha San Lorenzo foi interpretada por uma banda militar alemã, quando os nazistas, a 14 de junho de 1940, ocuparam Paris. Não por acaso, ela também foi interpretada quatro anos depois, por ordem de Eisenhower, quando as tropas aliadas a reconquistaram.

Voltemos à nossa região, aos anos 60 e às nossas bandas de música.

O ano era 1963. Era uma bela manhã dominical em Itu, programada para a realização do desfile inaugural da Exposição Agropecuária e Industrial. O ponto de partida era a Praça Conde de Parnaíba, o Largo do Liceu. Meus saudosos amigos Dirceu Cano, Francisco de Assis dos Santos e eu fomos a Itu. O Dirceu era uma pessoa extrovertida, uma companhia sempre divertida. O Chiquinho foi meu colega profissional por dez anos e um de meus melhores amigos aqui em Cabreúva.

Para melhor acompanhar, posicionamo-nos no jardim do Largo do Carmo bem diante do portão do Seminário do Carmo, que no final daquela década receberia a Faculdade de Direito de Itu. Após algum tempo, dentro do horário programado, ouve-se o som de uma banda de música a anunciar o início do desfile. Pouco demorou, e pudemos reconhecer que era interpretada a Marcha San Lorenzo. Quando a banda se aproximava da esquina da Floriano Peixoto, ouvia-se o tema final, uma bela e reflexiva melodia, talvez um andante cantábile (não sou músico), que parece retratar a morte do soldado Carlos Javier Benielli, o que, aliás, se confirma na letra que a marcha recebeu. O tema, bastante curto, recebe um expressivo toque militar e, em seguida, faz-se repetir.

O som que se ouvia era primoroso. Meu amigo Dirceu opinou: “Deve ser a Banda da Força Pública”. Meu amigo Chiquinho discordou: “Acho que é a Banda da Guarda Civil. Ela possui uma sonoridade mais agradável”. Eis que, passados poucos segundos, saindo da Floriano para entrar no Largo do Carmo, surge garbosamente a “União dos Artistas”, com 11 fileiras de quatro músicos!!! O maestro Anísio Belculfinè não se colocava na frente. Estava com o bombo, como frequentemente o fazia nas imponentes procissões religiosas daquela época.

Dois anos mais tarde, a “União dos Artistas” participou de um certame nacional de bandas de música em São Paulo, patrocinado pela TV Tupi. Cumprida a fase em que as bandas, isoladamente, apresentaram um concerto, houve a prova final, ocorrida numa tarde de sábado, no Vale do Anhangabaú. Após cada banda interpretar um número, foi chamada a banda ituana, anunciada como a vencedora. Ainda era o tempo do preto e branco. Surge uma pessoa de pequeno porte físico e se joga sobre o maestro, como a comemorar um gol dentro do campo! Se minha memória visual não me trai, era o político Galileu Bicudo, então deputado estadual...

Proclamada vencedora, a banda ituana interpreta a Marcha San Lorenzo. Reconhecido por sua sensibilidade musical, certamente o maestro Anísio tinha consciência de que, quando com formação completa, sua banda conseguia dar uma interpretação excelente a essa premiada marcha militar argentina. De minha parte, diria que, em particular em seu tema final, era insuperável na reprodução do sentimento dos autores da música e da letra.


Adendo: Segue abaixo parte da última mensagem sobre si que o sr. Otoni me enviou, após eu lhe ter pedido (e agora obtido) autorização pra publicar o texto que você acabou de ler.

Em 2006, publiquei um livro de memórias, não a meu respeito, mas com descrições, relatos, relatos-crônicas e crônicas acerca do minúsculo centro urbano de Cabreúva, de minha infância e adolescência (1950-63). No ano da publicação, as histórias tinham uma média de 50 anos. Hoje, algumas já completaram 70. Portanto, já fazem parte da História local.

Em 2008, esbocei um modesto ensaio para Música e Nacionalidade. Fugi do termo nacionalismo, pois nos últimos tempos ele adquiriu um sentido dúbio. Não possuía notebook; por isso, usei a datilografia. Estou digitando os poucos capítulos escritos. Interrompi esse ensaio, para as minuciosas pesquisas de fonte primária acerca da história de Cabreúva, que me permitiram os dois volumes de Cabreúva, História e Contexto, editados em 2015.

Fiquei alguns anos sem nada escrever. A partir do ano passado [2021], fiz algumas releituras de minhas pesquisas, ensejando alguns textos novos, fruto de um intercâmbio com uma professora de história e pesquisadora amiga, que esteve à frente da Secretaria Municipal de Cultura. Paralelamente, sempre que dá vontade, escrevo algumas quase-crônicas. Tornei-me um ex-advogado.



segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Bolsonaro é 13: “FICA AQUI, LULA!”


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Eu sabia, esse Comunaro nunca me enganou, é um bolchevique enrustido mesmo! Talvez nem o PCB servisse como melhor partido pra ele, e sim o PC do B, que é mais stalinista. Porém, acho que a paixão platônica do presidente é outra, como vemos nestes vídeos de 1999, 2002 e de ontem mesmo, no debate da Band, 16 de outubro de 2022:







domingo, 16 de outubro de 2022

Qual dialeto do árabe aprender?


por Erick Fishuk


Essa pergunta já apareceu em muitos vídeos no YouTube, porque quando alguém se põe a aprender árabe ou começa a descobrir material pra aprendizado autodidata na internet, acaba descobrindo que o que genericamente chamamos de “língua árabe” está longe de constituir uma unidade coerente e indistinguível. Isso acaba desanimando os iniciantes e os mais entusiasmados, pois, se por um lado, a própria língua padrão formal é de aprendizado consideravelmente difícil, por outro lado, não é uma variante usada cotidianamente pelas pessoas que falam árabe como idioma materno, nem mesmo na mídia de entretenimento popular.

Mas à pergunta “Qual dialeto do árabe falado devo aprender pra poder ser compreendido em qualquer lugar?”, infelizmente devo começar repetindo aquela resposta padrão, onipresente entre os youtubers de quase todas as origens: isso vai depender de seus objetivos e do quanto você deseja se aprofundar no estudo da língua e na imersão cultural. Simples assim. Porque uma coisa é você estudar “o árabe” como um objeto de conhecimento erudito, e outra coisa é você ir morar num país de língua e cultura árabes (lembrando que nem todo país muçulmano é necessariamente árabe ou faz uso amplo da língua árabe) e ter de trabalhar, se divertir, se virar ou ter relacionamentos amicais ou amorosos. Obviamente uma coisa não exclui a outra, mas como nem todos têm tempo, vontade ou talento pra multiplicar seus conhecimentos, quase sempre o aprendizado dos dialetos deverá ser a via mais fácil pra “viver a vida de verdade” no mundo árabe.

A sugestão de uma resposta personalizada a cada situação ou indivíduo deve começar pela compreensão de “quantos árabes” existem e podem ser aprendidos. Aqui nos encontramos com pelo menos três camadas de apreensão, sendo a segunda e a terceira as mais importantes pra nossos propósitos. A versão mais culta e complicada da língua árabe (que, como pertencente ao ramo semítico da grande família linguística afro-asiática, é diretamente relacionada ao hebraico, ao aramaico – incluindo o caldeu moderno (sureth) –, o maltês e o amárico – falado na Etiópia) é baseada na linguagem codificada pelo Alcorão, o livro sagrado da religião islâmica. Ao longo dos séculos, a versão canônica do Alcorão foi sendo estabelecida pelas sucessivas lideranças religiosas, mas devemos lembrar que a atuação do profeta Maomé remonta ao século 7, ou seja, uma realidade muito distante da nossa. Na sequência, as conquistas territoriais muçulmanas levaram a uma padronização dessa língua, chamada de árabe clássico (ou corânico), que passou a ser a referência última em matéria de gramática. Mas, é claro, com a arabização dos territórios conquistados, foram surgindo os muitos dialetos que hoje conhecemos, misturados também com outras línguas já faladas nas regiões; lembremos que a península Ibérica também foi colonizada por muitos séculos, e além de ter sido falado aí até o século 17 o dialeto al-andalusiyya (não confundir com o moçárabe, que geneticamente era uma língua ibero-romance), muitas palavras árabes entraram no português e no espanhol modernos.

Até inícios do século 20, boa parte dos países árabes que conhecemos hoje, tanto o norte da África quanto a península Arábica e a região do Levante, estavam sob o domínio do Império Turco-Otomano, cuja língua oficial era uma variante do turco (que é uma língua da família túrquica, e não do ramo semítico) grafada com uma adaptação da escrita árabe e repleta de vocábulos árabes e persas. Com a proclamação da república por Mustafá Kemal Atatürk, o turco moderno adotou o alfabeto latino e passou por um processo de depuração que o livrou de boa parte das palavras estrangeiras e priorizou material “autenticamente” turco ou túrquico. Mas isso não vem ao caso. Ocorre que com as rebeliões árabes do século 19 e a dissolução do Império Otomano (que já tinha perdido vários territórios em guerras anteriores) após a 1.ª Guerra Mundial, grandes porções do norte da África e do que hoje chamamos genericamente de “Oriente Médio” foram divididas em países que, inicialmente, passaram por uma fase de tutela, protetorado ou colonização pelas potências europeias ocidentais, ou se tornaram reinos independentes (Arábia Saudita, 1932), mas politicamente vinculados àquelas. Já no século 19, a consciência de certa unidade do mundo árabe por intermédio da religião muçulmana e da língua árabe clássica, na esteira dessas revoltas emancipatórias, levou à modernização e à adaptação da variante corânica pra dar origem ao árabe padrão moderno, às vezes referido somente como árabe padrão ou pela sigla inglesa “MSA” (Modern Standard Arabic). Ele se tornou o idioma da comunicação internacional, da literatura, da política, da diplomacia, da grande mídia, da legislação e da educação básica e superior, uma espécie de “esperanto” do mundo árabe, muçulmano ou não, e com prestígio inclusive entre os adeptos não árabes do islã.

É preciso ressaltar que pelo nome al-arabiyya al-fus-haa, literalmente “o árabe eloquente”, seus falantes compreendem tanto o árabe clássico quanto o padrão moderno, na verdade tratando o segundo como uma continuidade ou evolução do primeiro. A diferença básica está na sintaxe – ou seja, o modo como as frases são estruturadas – e no vocabulário, que teve de incorporar as realidades modernas, sobretudo no tocante à ciência e à tecnologia. Via de regra, é o árabe padrão moderno, o fus-haa, que os estudantes estrangeiros da língua aprendem.

Contudo, por que se fala em “dialetos”? Na verdade, dialeto é um nome eufemístico, porque de fato se trata de verdadeiras línguas autônomas, praticamente ininteligíveis umas com as outras – daí, portanto, a importância de haver um padrão comum em determinadas situações. Por que esses dialetos surgiram? É preciso lembrar primeiramente que a fonte de todos eles é o próprio árabe clássico ou padrão, portanto o aprendizado deste ajuda imensamente na compreensão do funcionamento dos dialetos (embora não em seu entendimento imediato) e pode ser a porta de entrada pra maioria deles. Como línguas faladas de uso cotidiano, muito raramente escritas em textos longos ou informativos, os dialetos são muito mais simples e muito mais fáceis de aprender, porque simplificam vários pontos da língua formal, como a fonologia, a sintaxe e a gramática. A dialetação da língua árabe foi um processo natural, primeiramente porque ela não podia permanecer uniforme ao se expandir por um espaço geográfico tão grande – como foi, de fato, o caso da língua inglesa –, e aí também entram as influências de outros idiomas que já eram falados nas zonas de conquista ou que foram se adicionando em ondas migratórias. Em segundo lugar, porque a vida humana prática e cotidiana requer necessidades bem mais simples, portanto um vocabulário mais limitado e estruturas mais ágeis (que sirvam simplesmente pra “cimentar” o material bruto) do que a rebuscada variante do Alcorão, e isso vemos na forma coloquial de qualquer idioma, inclusive do português. Em suma, como os “dialetos” são na verdade a língua materna dos falantes de “árabe”, até mesmo pra eles o MSA deve ser aprendido na escola como uma língua estrangeira, o que faz com que eles em algum grau entendam e até falem a variante padrão, sobretudo na comunicação com o mundo não árabe. Os veículos de comunicação e informação que citei acima utilizam o árabe padrão ou alguma variação simplificada dele, como eu disse, enquanto os “dialetos”, que via de regra não são escritos (exceto, obviamente, nas redes sociais e em mensagens privadas online, muitas vezes utilizando alguma variante de transliteração latina) nem têm um sistema de grafia padrão, podem aparecer em diálogos de peças teatrais ou romances e, misturados com o idioma culto, nos discursos de alguns políticos. Em geral, um árabe com educação média pode falar, escrever e entender o fus-haa, mas isso em graus muito variados, seja pela própria falta de instrução formal, seja pelo uso de outras línguas na vida cotidiana; certa vez, uma jovem argelina me disse no Facebook que estava “esquecendo o árabe padrão” porque em seu trabalho de veterinária, usava muito mais o francês, e na comunicação diária, seu dialeto argelino. Por isso eu disse que é tão importante aprendermos algum dialeto se quisermos mesmo “sair na chuva”.

Muitos brasileiros sempre perguntam a especialistas se a diferença entre o árabe padrão e os dialetos é a mesma que existe entre português literário (norma culta padrão) e português coloquial, mesmo se levarmos em conta apenas o Brasil – pra não dizer entre as variantes mais difundidas na América do Sul e em Portugal. Na verdade, não, porque é como se estivéssemos mesmo falando de duas línguas diferentes, de forma que o domínio do fus-haa e de um dialeto configura uma situação prática de bilinguismo, o que não se verifica no Brasil e em Portugal, onde a rigor um falante e leitor culto apenas do português é considerado a rigor um monoglota. Como escrevi, o MSA (do ponto de vista estritamente linguístico) é uma invenção bem recente, data do século 19, assim como a consciência de certa unidade ou coesão entre os países árabes e o estabelecimento, com todas as suas limitações, de sistemas de educação universal. Talvez a comparação mais próxima, inclusive observando o papel da religião na imposição de um idioma canônico, seja entre o latim e as línguas românicas que dele derivaram. Ainda assim, temos de ter consciência que, mesmo na Idade Clássica, o latim falado – ou antes, os latins falados, verdadeiros pais das línguas romances – era muito diferente e mais simples do que o latim clássico que aprendemos nos livros, o qual se concentra essencialmente nas grandes obras literárias do século 1 antes de nossa era, no máximo até o século posterior. Contudo, por diferenças de evolução histórica, o latim foi perdendo inclusive seu papel de idioma internacional da ciência e das humanidades a partir do século 18, com o florescimento dos Estados nacionais europeus, enquanto o árabe clássico, num movimento inverso, foi readaptado pra servir de língua comum entre esses países que, de resto, seguem divididos em fronteiras estatais. Há muito também que a unidade religiosa do mundo cristão ocidental estava quebrada – no mundo ortodoxo, o grego e o eslavônio ocuparam a proeminência litúrgica –, o latim perdia a importância entre os protestantes, e desde o Iluminismo a laicização das instituições e consciências ganhava terreno.

Mesmo que o objetivo seja apenas aprender um dialeto pra comunicação diária ou pra convivência comum, sem pretensões científicas ou literárias, ainda assim julgo muito importante aprender os rudimentos do árabe padrão, ou seja: 1) a escrita consonantal, chamada de abjad, que tem muitas outras peculiaridades pra além do fato de não exibir as vogais em textos correntes e de ter as letras “coladas” entre si, ao invés de justapostas, como nos alfabetos europeus e caucasianos; 2) a fonologia, muito distinta de qualquer língua europeia, e cujas difíceis consoantes “enfáticas” dão o som característico ao ouvido não acostumado; 3) o básico da gramática, especialmente no que concerne ao sistema de raízes triconsonantais, que dão uma vinculação de sentido após a aplicação de vários padrões de flexão, como kataba (ele escreveu), kitaab (livro), maktuub (um escrito, algo escrito), maktab (escrivaninha ou escritório), kaatib (escritor) e maktaba (livraria ou biblioteca), palavras todas relacionadas ao trio k-t-b e à sua ideia geral de “escrever” ou “escrita”; 4) língua não é algo separado de cultura, portanto o conhecimento dos costumes locais é importante, e com certeza do islã, que muito influenciou em várias expressões cotidianas.

Existem alguns traços do árabe padrão que podem ser simplificados na comunicação cotidiana, e geralmente o são, já que o uso extensivo, por exemplo, de terminações de caso é mais característico da língua corânica – e não por acaso, a recitação correta do texto sagrado faz com que todas as versões do Alcorão sejam impressas com os sinais que indicam as vogais curtas (harakaat, ou “movimentos” em árabe) ou sua ausência. Por exemplo, ismuka e ismuki (“teu nome”, respectivamente a um homem e a uma mulher) podem ser ditos ismak e ismik, e uma frase como As-sayyaratu l-mudarrisi jadiidatun (O carro do professor é novo) pode ser tornar As-sayaara al-mudarris jadiida. As saudações Marhaban, ahlan wa sahlan podem ser ditas Marhaba, ahlaw sahla, sem alterações na ortografia não vocalizada. E na oralidade, mesmo a assimilação da letra ele do artigo definido al- antes de palavras iniciadas por certas consoantes pode não se dar, como ocorre no dialeto egípcio: al-nuur, al-salaam e al-timsaah ao invés dos esperados an-nuur, as-salaam e at-timsaah, por exemplo.

Mas como fica nossa pergunta inicial? Qual deve ser a resposta a quem pergunta sobre o melhor dialeto do árabe, ou o dialeto “ideal” ou “mais correto” pra aprender?

Em parte, já dei a resposta: se, como em meu caso atual, seu objetivo não é imediatamente viajar pra ou morar em algum país árabe, o ideal é tomar o idioma como simples objeto de estudo, mais ou menos erudito, ou seja, conhecer com alguma profundidade seus elementos essenciais. Isso pode ser feito com métodos ou canais do YouTube que se limitem à parte conversacional – ou seja, frase do dia a dia, palavras básicas e outros rudimentos de comunicação ou compreensão imediata – ou com materiais que mergulhem mais fundo nos detalhes gramaticais mais complexos. O estudo da variante fus-haa mais ou menos simplificada, nesse caso, ajuda a ter uma visão de conjunto do árabe e prepara com relativa competência pra qualquer dialeto que entre em seu caminho. Se tiver algum contato presencial ou online pra poder praticar ou tirar dúvidas, melhor ainda!

Mas e os dialetos? Bem, existem pelo menos cinco grupos deles: os magrebinos (Argélia, Tunísia, Marrocos e Líbia), o egípcio (mais ou menos relacionado com o sudanês e o chadiano), os levantinos (Líbano, Palestina, Síria e Jordânia), os mesopotâmicos (basicamente o iraquiano, também falado em partes da Síria e da Turquia) e os peninsulares (Kuwait, Arábia Saudita e outras monarquias vizinhas, além de parte da costa africana). Os dialetos levantinos – e não os peninsulares, ironicamente –, em especial o libanês, são os mais parecidos com o árabe padrão, além do que existe uma grande diáspora libanesa pelo mundo, sobretudo no Brasil, onde muitos descendentes buscam cada vez mais suas raízes. Em geral eles são entendidos na maioria dos países arabófonos, mas nem sempre: é preciso conferir caso a caso. Os menos recomendados pra quem deseja uma comunicação mais internacional ou próxima do fus-haa são os dialetos magrebinos, chamados genericamente de daarija (“comum, cotidiano”): a maioria das vogais curtas é elidida, a sintaxe é completamente diferente (há uma grande influência das línguas berberes locais) e o vocabulário, ao contrário de outros dialetos do árabe, é recheado de palavras berberes, francesas, espanholas e portuguesas. Na TV tunisiana, por exemplo, é comum expressões ou frases inteiras em francês serem enxertadas no meio da fala árabe, ou mesmo as línguas se intercambiarem a todo momento, num curto espaço de tempo. Portanto, a não ser que você seja um dialetólogo, um estudioso da região ou um candidato a habitante do Marrocos, Argélia ou Tunísia (Líbia anda meio difícil...), esqueça o grupo de dialetos magrebinos, pois quase nenhum árabe de fora entende.

E o chavão retorna com força: escolha o dialeto que vai ter alguma relação direta com sua vida pessoal: viagem curta ou longa, amizades, namoro, casamento, moradia, estudo, pesquisa, trabalho, origem familiar ou simples afinidade. A não ser que você seja um gênio, seria muito cansativo estudar vários dialetos ao mesmo tempo, ainda mais se quiser estudar o árabe padrão junto! A vantagem é que, dependendo se o objetivo for de curto ou longo prazo, nem será necessário aprender o fus-haa, muito menos sua escrita complicada: conseguir falar e entender um dialeto já vai bastar quase 100%, há muitos métodos que graficamente figuram a pronúncia com alguma variação do alfabeto latino (sendo mais importante prestar atenção na sonoridade), e conforme o tempo de contato, a escrita padrão pode vir naturalmente; vai ser ainda mais fácil se tiver alguém com intimidade por perto pra ajudar. Porém, no mundo do ensino atual, tem sido muito comum a recomendação do dialeto egípcio pra quem quer manter uma comunicação pan-árabe, sem passar num primeiro momento pelo MSA. As razões mais evocadas são o enorme contingente populacional que o tem como língua materna (cerca de um terço do total de arabófonos no mundo), a presença majoritária de músicas, séries e filmes egípcios por todo o mundo árabe, onde se tornaram imensamente populares, e o papel de professores egípcios no estabelecimento de sistemas educacionais e no ensino da variante padrão inclusive na península Arábica e no Magreb. É mais ou menos como a difusão internacional do português brasileiro por meio do soft power cultural, que está atemorizando até mesmo os pais lusitanos de crianças “miúdas”... Até mesmo cantores libaneses, por exemplo, começaram a gravar no dialeto egípcio, o qual, justamente por sua difusão, é o que mais comumente se vê escrito com as próprias letras árabes.

O mundo de língua e cultura árabes, sem contar as regiões de religião islâmica, em que aquele idioma teve enorme influência, é de uma beleza e variedade incomensuráveis, e sua expansão geográfica, mesmo com momentos históricos de violência e mortandade, deu-lhe vários temperos que o deixam ainda mais atraente e interessante. A depender do gosto, da disposição e das necessidades de cada pessoa, há muitas escolhas que podem ser feitas, separada ou simultaneamente, e com este texto espero ter ajudado os leitores da página a se iniciarem num assunto tão complexo, que estou passando a amar cada vez mais, mas que estou longe de dominar completamente. Portanto, se alguém tem alguma correção ou sugestão a fazer quanto ao que acabou de ler, não deixe de me escrever!

Seguem abaixo algumas recomendações de livros, sites e canais do YouTube adaptados a cada necessidade de aprendiz, desde o fus-haa mais refinado até os dialetos populares:

  • O professor Imran Alawiye, nigeriano radicado em Londres, tem o melhor canal de árabe padrão pra autodidatas que já conheci, não só pela sua simpatia e pelas explicações pacientes, mas também pela exaustividade do conteúdo (conversação, gramática e vocabulário) e por sua organizada disposição em playlists. Inclusive, a maioria dos vídeos traz uma rigorosa transliteração aos que ainda não dominam o abjad, e há até vídeos de conversação que só usam nosso alfabeto! Também comprei a coleção didática impressa Gateway to Arabic, muito agradável de manusear e que é toda complementada pelas leituras e exercícios extras feitos no canal.
  • O professor Jihad Abou Ghouche é brasileiro, viveu vários anos no Líbano (terra de seus pais) e tem décadas de experiência com ensino de idiomas, sobretudo o inglês e o árabe. Talvez seja o canal mais conhecido pra aprender árabe no YouTube brasileiro, mas seu foco maior é justamente no dialeto levantino com predominância libanesa, que é o mais próximo do fus-haa, entendido nos países vizinhos e o mais pedido pelos brasileiros com ascendência. O canal tem bastante material, inclusive com muitos pontos culturais e dúvidas localizadas, mas é um pouco desorganizado e muitos vídeos já foram fechados ao público. Jihad tem duas abordagens: a língua falada, pra qual ele usa apenas uma transliteração própria pro alfabeto latino, e a língua escrita, vendida num site específico que ensina o abjad de cabo a rabo, de forma detalhada e paciente. Usei o último serviço por alguns meses, e achei que valia a pena, sobretudo pela quantidade de vocabulário apresentada e pelo material em PDF que pode ser imprimido. Mas ainda assim a forma escrita por vezes varia em relação ao padrão mais conhecido: os pronomes pessoais nahnu, antum e hum (nós, vocês e eles/elas), por exemplo, são apresentados como nahna, intu e hinnii, e o taa marbuuta, terminação que geralmente indica o feminino, é lida -i, à libanesa, e não -a.
  • Os canais em português brasileiro da Zahra Elouali e da Merna Raaft estão meio abandonados, mas podem dar umas dicas boas pra quem quer começar. Inclusive, como elas são egípcias, o foco delas é justamente no egípcio oral, embora haja alguns elementos do padrão e, claro, das culturas árabe e muçulmana.
  • O canal em inglês Easy Languages traz material sobre vários dialetos do árabe, inclusive sobre o egípcio, pro qual dedica uma playlist exclusiva. Mas dado o canal também ser um pouco desorganizado, parte dos vídeos sobre egípcio também aparece em Learn Arabic from the Streets e em Basic Phrases. Se servir de consolo, este moço tem uma ótima playlist bem mais organizada e com vídeos muito instrutivos, sem contar que o canal dele (também em inglês) também vale a pena como um todo.
  • Comecei a usar há poucos dias o site ArabicPod101, mas pelo conteúdo que vi, sobretudo a correção do árabe padrão ensinado, já posso recomendá-lo sem hesitar. Aliás, recomendo o passeio por toda a coleção LanguagePod101, porque mesmo fazendo apenas uma conta gratuita vitalícia, a quantidade de material já é impressionante: são muitos os recursos em áudio, vídeo e texto! Eu mesmo já utilizei vários idiomas de lá, e só não terminei nenhum curso exatamente por falta de tempo, embora o que eu tenha ido mais longe tenha sido o búlgaro.
  • Embora muitos no Brasil não leiam francês, me permito recomendar este pequeno livro em PDF, L’arabe tout de suite (O árabe de imediato), porque ele trabalha exatamente com aquele padrão simplificado de que falei acima. A parte gráfica dele, sobretudo a disposição das frases em abjad, não é lá essas coisas, mas se você entender como funciona a (um tanto confusa) transcrição fonética, somado a algum conhecimento da ortografia árabe, será de grande ajuda. Aliás, adoro essa coleção Langues pour tous (... tout de suite) (Idiomas para todos... de imediato), pois se você já tem uma noção da língua, é ótima pra adquirir vocabulário e conhecer estruturas, mas não tanto pra começar a aprendê-la em si. O mesmo site de livros gratuitos traz também os vários volumes da coleção francesa Assimil ... sans peine (... sem esforço), que também incluem uma iniciação completa à escrita e fonologia árabes e podem ser mais úteis, embora não tão sistemáticos.
  • O canal À 2 pas du Liban (A 2 passos do Líbano), embora esteja em francês, a meu ver é o melhor e mais agradável pra aprender o árabe libanês, ou levantino em geral. Gerido pelo casal Marc e Maria, está em contínua atualização, a parte gráfica é perfeita, tem um vasto conteúdo e recentemente foram abertas as primeiras classes online! Eles têm também as redes sociais e um site próprio.


Bragança Paulista, 10-13 de outubro de 2022.


P.S. A transliteração usada neste artigo não teve o fim de ser rigorosa ou precisa, mas apenas de dar alguma materialidade, e mesmo reconhecimento aos já falantes, aos exemplos que eu gostaria de dar. Não é necessário nenhum conhecimento da complexa fonologia árabe, sobretudo no tocante a vários sons glotais e às chamadas “consoantes enfáticas”!