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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

“Гандзя” (Handzia), canção ucraniana

Esta tinha sido a primeira contribuição de Tiago Rocha Gonçalves pro meu antigo canal no YouTube, bem como a primeira tradução de um “visitante” que aí carreguei. Ele traduziu diretamente do ucraniano a canção popular “Гандзя” (Handzia), personagem feminina jovem que habita o folclore, tal como a “Marússia” da cultura russo-ucraniana. O autor foi Denys Bonkovsky, e no áudio está sendo cantada pelo Coral Aleksandrov do Exército Russo, o famoso Coral do Exército Vermelho.

Dionisi Fedorovych Bonkovsky, mais célebre como Denys Bonkovsky (1816-1881), foi um poeta, compositor e tradutor ucraniano. De origem polonesa, deixou uma vasta obra cultural, inclusive muitas traduções ucranianas a partir da língua polaca. Em 1869, fez o famoso artigo “Sobre a musicalidade das canções populares” (Про музику народних пісень), em que ele enumerou as particularidades do folclore musical ucraniano. Por muitos anos trabalhou no serviço público do tsarismo russo, mas na Ucrânia ainda é estimado por seus versos e melodias.

“Handzia” é uma forma afetiva do prenome feminino Hanna (às vezes “Ganna” em russo), que vem do alemão e equivale a Anna. Há outras canções tendo Handzia como personagem principal já conhecidas no século 18. Essa onipresença se nota até junto ao escritor ucraniano Ivan Frankó, um dos mais celebrados do país, como no conto “Mavka” (nome de moça mitológica). No meio culto russo, como na ocidental São Petersburgo, Handzia (ou Gandzia) era conhecida como peça de piano baseada no folclore da “Pequena Rússia” (Maloróssia).

Como eu disse, o próprio Tiago traduziu diretamente do ucraniano e pôs legendas nesta montagem. Ele também copiou a letra original de um comentário feito na própria página, e eu apenas cortei o quadro pra deixar com o tamanho da tela moderna. Pessoalmente não me agrada a montagem usando o brasão da URSS, que é extremamente ofensivo à maioria dos ucranianos. Mas se considerarmos que os eslavos orientais têm uma longa história juntos, e que não apenas o Coral do Exército Vermelho, mas também outras instituições soviéticas atuaram pra preservar a cultura da Ucrânia (ainda que sob o rígido controle da Rússia), não precisamos criar caso.

Além da própria Wikipédia em ucraniano, tirei informações sobre o autor e a canção deste blog dedicado à cultura ucraniana e deste site repleto de letras e explicações de canções populares da Ucrânia. Também não fiz nenhuma correção na tradução, mas quem quiser dar uma sugestão ou opinião, pode escrever direto pro tradutor. Seguem abaixo a legendagem do Tiago no meu canal, os trechos da letra em ucraniano que são cantados no áudio e a tradução em português:



1. Чи є в світі молодиця,
Як та Гандзя білолиця?
Ох, скажіте, добрі люди,
Що зі мною тепер буде?
Ох, скажіте, добрі люди,
Що зі мною тепер буде?

Приспів:
Гандзя душка, Гандзя любка,
Гандзя мила, як голубка.
Гандзя рибка, Гандзя птичка,
Гандзя цяця-молодичка.

2. Як на мене щиро гляне –
Серце моє, як цвіт в’яне,
А як стане щебетати –
Сам не знаю, що діяти...
А як стане щебетати –
Сам не знаю, що діяти...

(Приспів)

3. Гандзю моя, Гандзю мила,
Чим ти мене напоїла?
Чи любистком, чи чарами,
Чи солодкими словами?
Чи любистком, чи чарами,
Чи солодкими словами?

(Приспів)

4. Чи є в світі молодиця,
Як та Гандзя білолиця?
Ох, скажіте, добрі люди,
Що зі мною тепер буде?
Ох, скажіте,
Що зі мною тепер буде?

(Приспів)

Гандзя рибка, Гандзя птичка,
Гандзя молодичка!

____________________


1. Há alguma outra no mundo
Tão bonita como a Handzia?
Pois me falem, meu bom povo,
O que será de mim agora?
Pois me falem, meu bom povo,
O que será de mim agora?

Refrão:
Handzia, meu doce, meu amor,
Handzia querida como um pássaro.
Meu peixinho, meu passarinho,
Handzia, minha jovenzinha.

2. Como no meu sincero olhar
E como o canto dos pássaros,
Meu coração como flor despedaça
E não sei o que fazer.
Meu coração como flor despedaça
E não sei o que fazer.

(Refrão)

3. Handzia minha, Handzia querida,
O que me dará para beber?
Algo com amor, algo mágico,
Algo com palavras doces?
Algo com amor, algo mágico,
Algo com palavras doces?

(Refrão)

4. Há alguma outra no mundo
Tão bonita como a Handzia?
Pois me falem, meu bom povo,
O que será de mim agora?
Me falem,
O que será de mim agora?

(Refrão)

Meu peixinho, meu passarinho,
Handzia jovenzinha!


Adendo (27/4/2026): Vídeo de soldados ucranianas e ucranianos na linha de frente, dançando Handzia durante um instante de folga, publicado pelo Congresso Mundial Ucraniano!


domingo, 17 de dezembro de 2017

“Очи чёрные” (Olhos negros), canção


Endereço curto: fishuk.cc/chornye


Esta linda canção se chama “Очи чёрные” (Ochi chornye), Olhos negros, e consiste numa romança (canção sentimental) russa datada dos anos 1880. É uma das mais famosas canções tradicionais da Rússia, célebre também no exterior. Ela foi publicada em 1843 como um poema do escritor russo-ucraniano Ievhen Pavlovych Hrebinka (em russo, Ievgeni Pavlovich Grebionka, 1812-1848). O texto recebeu melodia de Florian German em 1884, mas a versão mais conhecida é do compositor ítalo-inglês Adalgiso Ferraris (1890-1968).

A canção se tornou mundialmente famosa a partir da década de 1930, foi gravada por muitos cantores e cantoras russos e traduzida pra muitas línguas. Talvez o artista mais famoso que a tenha gravado tenha sido Ivan Rebroff, que é, na verdade, de origem alemã. E muitos podem reconhecer aí uma parte da melodia de Nathalie, cantada e composta por Julio Iglesias nas versões em português e espanhol. Ela também apareceu em muitos filmes, bem como no jogo eletrônico Syberia. Um dos traços arcaicos da música consiste justamente no uso de ochi pra “olhos”, quando se esperaria glaza. Oko é uma forma antiga de glaz, ainda muito usada em outras línguas eslavas. Ela tem um plural dual (que indica par) resquicial, como costuma ocorrer com partes binárias do corpo: ochi. O plural regular seria oka. O mesmo ocorre com ukho (ouvido) → ushi (os dois ouvidos). Tem ainda o verbo tsarit (reinar), que remete a tsar, e não a korol (rei).

Eu tirei essas informações da Wikipédia em russo, assim como a letra da canção. Lá existe também a letra na ortografia russa pré-1918, no tempo em que o poema foi redigido. Eu baixei o vídeo sem legendas desta página, em que apenas se informa que essa apresentação do Coral Aleksandrov do Exército Russo (o famoso Coral do Exército Vermelho) foi feita em Paris, em 2003. Recomendo que também o vejam, pois ele tem toda uma parte instrumental no começo que cortei por razões de praticidade. Não consegui identificar o solista, que deve ter alguma formação de ator, porque de modo magistral faz parecer que ele mesmo está vivendo esse sofrimento. Eu mesmo traduzi e legendei, e seguem a legendagem, a letra em russo e a tradução:


Очи чёрные, очи жгучие,
Очи страстные и прекрасные!
Как люблю я вас! Как боюсь я вас!
Знать, увидел вас я не в добрый час!

Очи чёрные, жгуче пламенны!
И манят они в страны дальние,
Где царит любовь, где царит покой,
Где страданья нет, где вражде запрет

Не встречал бы вас, не страдал бы так,
Я бы прожил жизнь улыбаючись.
Вы сгубили меня, очи чёрные,
Унесли навек моё счастие.

Очи чёрные, очи жгучие,
Очи страстные и прекрасные.
Вы сгубили меня, очи страстные,
Унесли навек моё счастие...

Очи чёрные, очи жгучие,
Очи страстные и прекрасные!
Как люблю я вас! Как боюсь я вас!
Знать, увидел вас я не в добрый час!

____________________


Olhos negros, olhos ardentes,
Olhos lindos e apaixonados!
Como amo vocês! Como temo vocês!
Acho que não os avistei em boa hora!

Olhos negros queimando em chamas!
Eles chamam a terras distantes
Onde reina o amor, onde reina a paz,
Onde ninguém sofre nem pode brigar!

Não os encontrasse, não sofreria tanto,
Eu passaria minha vida sorrindo.
Vocês me arruinaram, olhos negros,
Levaram para sempre minha alegria.

Olhos negros, olhos ardentes,
Olhos lindos e apaixonados!
Me arruinaram, olhos apaixonados,
Levaram para sempre minha alegria...

Olhos negros, olhos ardentes,
Olhos lindos e apaixonados!
Como amo vocês! Como temo vocês!
Acho que não os avistei em boa hora!


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

“Казачья песня” (Canção do cossaco)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/kazachia


Esta linda canção se chama “Казачья песня” (Kazachia pesnia), A canção do cossaco ou A canção cossaca, e provavelmente quem está cantando é o Coral do Exército Vermelho. Ela faz parte da ópera Terras virgens desbravadas, composta e estreada pelo músico Ivan Dzerzhinski em 1937, que compôs, portanto, a melodia, enquanto a letra é do poeta Aleksandr Churkin. As imagens fazem parte do filme Tikhi Don (literalmente, O tranquilo rio Don), traduzido em inglês como And Quiet Flows the Don e filmado em três partes em 1957-58.

Esta canção mostra de novo a diversidade da experiência cossaca, tanto no tempo quanto no espaço. Aqui, estamos falando dos cossacos que viviam às margens do rio Don, relativamente próximo à atual fronteira ucraniana, e que partilham, portanto, vários elementos linguísticos com os ucranianos. A ópera Terras virgens desbravadas, assim como outra ópera de Dzerzhinski também chamada Tikhi Don, foi inspirada no romance igualmente de nome Tikhi Don, escrito em quatro volumes de 1925 a 1932 e em 1940, por Mikhail Sholokhov. O livro trata de uma família de cossacos do Don, os Melekhov, que vive uma trágica história amorosa nos anos da 1.ª Guerra Mundial, da Revolução Russa e da Guerra Civil Russa. Retrata-se, pois, a decadência e desmonte da instituição cossaca pelos bolcheviques. Com várias mudanças, o filme Tikhi Don, dirigido por Sergei Gerasimov em 1957 e 1958, relata a mesma história e, por isso, foi muito premiado até no exterior.

Ivan Ivanovich Dzerzhinski (1909-1978) foi um compositor soviético laureado com o Prêmio Stalin de terceiro grau (1950), membro do PC soviético desde 1942 e Artista Popular da RSFS da Rússia desde 1977. Compunha óperas e canções comuns, e recebeu ainda outros prêmios estatais durante sua vida. Aleksandr Dmitrievich Churkin (1903-1971) foi um poeta soviético que serviu no Exército Vermelho e se dedicou ao gênero do “realismo socialista”. Ele também escrevia canções, era membro do Partido desde 1949 e recebeu, entre outras condecorações, a Ordem da Insígnia de Honra. Mikhail Aleksandrovich Sholokhov (1905-1984), autor de Tikhi Don, foi um escritor, roteirista, jornalista e correspondente de guerra, laureado com o Nobel de Literatura em 1965. Também ganhou os prêmios Lenin (1960) e Stalin (1941), foi membro do PC soviético desde 1932 e de seu Comitê Central desde 1961. Contudo, foi várias vezes acusado de plágio, inclusive no caso de seu Tikhi Don, por A. Solzhenitsyn e outros.

O vídeo sem legendas com o filme e a canção está nesta página, e a letra em russo pode ser consultada neste site, onde há muitas outras canções cossacas. Neste vídeo, outra montagem interessante mistura cenas de filme com a atuação do Coral do Exército Vermelho. Eu mesmo traduzi, legendei e mudei o enquadramento, e seguem abaixo a legendagem, a letra em russo e a tradução em português (nas legendas, o texto foi encurtado, sem mudar o sentido):


Шли по степи полки казачьи с Дону,
Один казак лишь голову склонил.
Ой, заскучал один казак по дому.
Коню на гриву повод уронил.
Ой, заскучал один казак по дому.
Коню на гриву повод уронил.

Эх, разлетались кудри врассыпную.
О доме думка мучила его.
Лижь в даль глядел он синюю степную,
А в той дали не видно ничего.
Лижь в даль глядел он синюю степную,
А в той дали не видно ничего.

Тряхнул казак чубатой головою,
Сказал своим товарищам с тоской:
Эх, изболелось сердце молодое,
Ой, как мне братцы, хочется домой.
Эх, изболелось сердце молодое,
Ой, как мне братцы, хочется домой.

Лети скорей дороженька-дорога,
Развей казачью думу и тоску.
Эх, на дыбы поднял коня лихого,
И свистнул саблей острой на скаку.
Эх, на дыбы поднял коня лихого,
И свистнул саблей острой на скаку.

А по степи полки со славой громкой,
Всё шли и шли спевая соловьём.
Ковыльная, родимая сторонка,
Прими от красных конников поклон.
Ковыльная, родимая сторонка,
Прими от красных конников поклон.

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Iam pela estepe tropas cossacas do Don,
Somente um cossaco deu-se por vencido.
Ei, um cossaco se cansou e foi para casa.
Deixou a rédea cair pela crina do cavalo.
Ei, um cossaco se cansou e foi para casa.
Deixou a rédea cair pela crina do cavalo.

Ah, as madeixas voaram em debandada.
Ficar pensando na casa o fazia torturado.
Ele só olhava pra longínqua estepe azul,
Mas nessa imensidão não podia ver nada.
Ele só olhava pra longínqua estepe azul,
Mas nessa imensidão não podia ver nada.

O cossaco sacudiu a cabeça com topete,
E disse com melancolia aos camaradas:
Ah, meu jovem coração está extenuado,
Ei, maninhos, queria tanto ir para casa.
Ah, meu jovem coração está extenuado,
Ei, maninhos, queria tanto ir para casa.

Voe depressa, caminho, caminhozinho,
Desembarace mente e peito do cossaco.
Ah, fiz meu cavalo impetuoso empinar,
E no galope, meu sabre agudo assobiou.
Ah, fiz meu cavalo impetuoso empinar,
E no galope, meu sabre agudo assobiou.

E pela estepe, os regimentos em frente
Seguiam, com glória muito retumbante.
Minha cara terra natal, cheia de mato,
Deixe a saudarem os nobres cavaleiros.
Minha cara terra natal, cheia de mato,
Deixe a saudarem os nobres cavaleiros.


domingo, 16 de julho de 2017

A oração do cossaco (Ойся ты ойся!)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/oisia

Esta canção e esta dança são muito lindas, sendo de extração cossaca e originadas no Cáucaso, parte do qual se situa no sul da Rússia. A música se chama “Казачья молитва” (Kazachia molitva), A oração do cossaco, mas na cultura popular e em suas várias letras com que é conhecida, também é chamada “Ойся ты ойся” (Oisia ty oisia), aludindo a uma interjeição pela qual os russos chamavam os povos locais (tchetchenos, inguches etc.) no século 19. A autoria da canção é totalmente anônima, e acredita-se que tenha sido composta no tempo da Guerra do Cáucaso (1817-1864), quando o Império Russo combateu chefes políticos e religiosos locais a fim de anexar o norte daquela região, o que acabou de fato ocorrendo.

A música e sua dança se dão ao ritmo do gênero lezginka, apanágio popular do povo lezguiano, um dos grupos nativos do Cáucaso, mas esse gênero é difundido por toda aquela região. Entre as várias versões que sempre circularam, uma delas faz referência ao modo como os russos se relacionavam com os povos nativos, dizendo de forma irônica que eles não deviam temer os ocupantes; essa versão foi recentemente usada numa propaganda do governo Putin pra tirar o medo de que estrangeiros possam ser agredidos por hooligans na Copa de 2018 (já postei aqui). Os cossacos usavam a palavra “oisia” pra designar os povos vainaques (ou vaynakh), isto é, tchetchenos e inguches, que ao dançarem a lezginka, emitiam o grito glotal “khorsa!”, daí se originando aquele apelido.

Naquela postagem anterior do meu blog, eu coloquei os links pra várias outras versões disponíveis no YouTube, em situações bem diversas. Uma delas era a comemoração do aniversário do falecido soldado Givi, famoso figurão que combatia junto às tropas de língua russa no conflito do leste da Ucrânia. Outra era um show muito lindo, feito provavelmente pelos cantores e dançarinos do Coral do Exército Vermelho (atual Coral Aleksandrov do Exército Russo) e que não resisti em legendar, como vocês podem ver agora. A identificação que fiz é uma probabilidade, pois no próprio canal do qual baixei o vídeo, não há nada descrito.

A característica principal desta versão é que, no refrão, a referência é feita a um cossaco que parte de seu lar pra luta. Por isso, o termo “oisia” não faz exatamente um chamamento ao estrangeiro por meio de um apelido baseado no jeito de falar alheio, mas indica uma interjeição de ânimo, peculiar àquela região mesmo entre os russos. Daí eu ter traduzido por alguns regionalismos do sudeste brasileiro, apenas pra tentar aproximar um pouco do que se quis dizer. De fato, a música tem diversas expressões características do sul da Rússia, como a interrogação “али” (ali) na segunda estrofe, indicando dúvida.

Desta página eu baixei o vídeo sem legendas e copiei a letra da canção, que está na descrição. Eu mesmo traduzi e legendei, mas como a letra apresentada não estava bem disposta, fiz algumas retificações, e ela pode ser lida abaixo, depois da minha legendagem e seguida pela tradução em português:


1. У реки, у Терека
Казаки гуляли
И калёною стрелой
За реку бросали

Припев:
Ойся ты ойся
За меня не бойся
Я вернусь с войны домой
Ты не беспокойся

2. Али мы не казаки?
Али мы не терцы?
Али мы не любим Терек
И Кубань всем сердцем?

(Припев)

3. Казаки не простаки
Славные ребята
Хоть в кармане ни гроша
Но живут богато
На Кавказе все казачки
Самые красивые
На Кавказе казаки
Самые счастливые

(Припев)

4. Шашка острая моя
Верная подруга
Конь горячий вороной
Нет мне лучше друга

(Припев)

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1. No Cáucaso passeavam
Cossacos pelo rio Terek
E como flechas ardentes
Atravessavam suas águas

Refrão:
Eita, meu, eita
Não tema por mim
Volto pra casa ao findar
A guerra, não se preocupe

2. Mas não somos cossacos
Vivendo junto ao Terek?
Não o amamos, e também
Kuban de todo coração?

(Refrão)

3. Cossaco não é bobo
Mas sim, gente fina
Sem tostão no bolso
Mas com a vida rica
As cossacas do Cáucaso
São todas as mais lindas
E os cossacos do Cáucaso
Todos são os mais felizes

(Refrão)

4. A afiada espada curva é
Minha companheira fiel
E não há amigo melhor que
Meu irascível cavalo negro

(Refrão)



Os “tertsy”, como eram conhecidos os cossacos do rio Terek.

domingo, 5 de março de 2017

Служить России (Servir à Rússia) 2000


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/sluzhit

Este é um raro exemplo de marcha militar edificante, composta no estilo soviético, mas lançada após o desmonte da URSS. Por isso mesmo, deve ser o mais notável exemplar do gênero que se tem hoje, sobretudo por não haver menção ao comunismo ou a seus mitos. Ela se chama “Служить России” (Sluzhit Rossii), Servir à Rússia, a letra foi composta por Ilia Reznik, e a melodia por Eduard Khanok, tendo sido executada pela primeira vez em 2000, num encontro solene do Dia da Vitória entre Vladimir Putin e ex-veteranos do KGB. Coloquei nesta página duas versões em vídeo que legendei há algumas semanas, com as letras levemente diferentes.

Esta música parece ilustrar exatamente o tipo de produção de que Aleksei Kofanov zombava em seu Hino a Putin, que já postei aqui, e talvez realmente tenha sido sua inspiração: as mesmas palavras sobre “sol que se levanta”, “defesa e futuro da Pátria”, “somos uma só família”. Aliás, vários dos intérpretes de Sluzhit Rossii são mais ou menos ligados ao regime de Putin (que se caracterizou por reciclar boa parte da cultura pretérita, embora fosse raro então surgir algo novo no mesmo molde), ou a artistas que o adoram, tais como Iosif Kobzon.

Os dois compositores da canção ainda estão vivos, têm sólida formação musical clássica e se destacam pela constante proximidade com o poder, tanto o soviético quanto o russo e, ocasionalmente, da Ucrânia e Belarus, tendo sido ativos nas associações nacionais de artistas e poetas. Ilia Leopoldovich Reznik (n. 1938), de família judia, compõe principalmente canções populares, mas também é ator, roteirista e empresário. Foi condecorado Artista Popular da Rússia (2003) e da Ucrânia (2013, antes de Maidan, claro), participou do júri num show de TV e está no terceiro casamento. Eduard Semionovich Khanok (n. 1940) nasceu no Cazaquistão, mas se mudou pra Bielorrússia (hoje Belarus, onde obteve o título de Artista Popular em 1996) na infância e hoje é músico e compositor de canções populares. Hoje vive em Moscou, com dupla cidadania russa e belarussa, e chegou a candidatar-se à Duma Estatal, mas não obteve votação suficiente.

O primeiro vídeo com montagem, cuja voz é a do próprio Ilia Reznik, não fui eu que fiz, mas apenas baixei sem legendas desta página. Nota-se como os russos revindicam pra si, em particular, todo o patrimônio da vitória na 2.ª Guerra Mundial, embora a URSS fosse uma federação multinacional. É especialmente notável a cena do tanque alemão rodando como um peru aos 1’25”! O segundo vídeo, que está sem legendas nesta página, é de uma apresentação feita em 2006 pelo Conjunto Aleksandrov do Exército Russo (antigo Coral do Exército Vermelho) no Palácio Estatal do Kremlin, durante o jubileu de 195 anos do famoso Coral Cossaco de Kuban, do qual já legendei algumas coisas. O solista se chama Vadim Ananiev, e como também vimos, ele também costuma cantar Kalinka-Malinka nos shows fora da Rússia, e por isso é conhecido no Ocidente como “Mr. Kalinka”.

Como toda canção russa mais ou menos popular, de qualquer época, a letra varia bastante entre intérpretes e sites com letras de música. O texto em que me baseei pra primeira versão está no site pessoal do próprio letrista, e o texto mais semelhante ao cantado na segunda versão está em parte reproduzido nesta página. Antes de traduzir as canções e legendar os vídeos, eu mesmo fiz algumas alterações pros textos corresponderem exatamente ao que se canta, mas como ambos também diferem ligeiramente entre si, aponto abaixo quais são essas diferenças. Seguem os dois vídeos no meu canal, a letra em russo com as indicações mencionadas e a tradução em português:




1. Полки идут стеной,
Красиво держат строй,
И гордо шелестят знамёна.
Комбат и рядовой,
Единою судьбой
Мы связаны с тобой (*), друг мой!

(*) Ou “Мы связаны навек”.


Припев:
Служить России
Суждено тебе и мне.
Служить России,
Удивительной стране,
Где солнце новое встаёт
На небе синем.
Плечом к плечу
Идут российские войска.
И пусть военная дорога нелегка,
Мы будем верою и правдою
Служить России!

2. В бесстрашии атак
Спасли мы русский (*) флаг,
И дом родной, и наши песни.
А коль придёт беда,
Собою мы тогда
Отчизну заслоним, друг мой.

(*) Ou “Мы сохранили”.


(Припев)

3. Полки идут стеной,
Красиво держат строй,
И вместе с нами вся Россия.
И он, и ты, и я –
Армейская семья,
И этим мы сильны, друг мой!

(Припев)

____________________


1. Os regimentos como um só
Mantêm belamente a forma
Altivos sacudindo bandeiras.
Comandante e praça,
Pelo mesmo destino
Estou atado a você, meu amigo! (*)

(*) Ou “Somos atados pra sempre, amigo!”.


Refrão:
Servir à Rússia
É dever meu e seu.
Servir à Rússia,
Um país maravilhoso
Onde surge um novo sol
No céu azul.
Ombro a ombro
Vão as tropas russas.
Por dura que seja a via militar,
Vamos de corpo e alma
Servir à Rússia!

2. Em ataques corajosos
Guardamos a bandeira russa (*)
E o lar natal, e nossas canções.
E na hora da desgraça,
Seremos todos então
Muralhas da Pátria, meu amigo.

(*) Ou “Nós defendemos a bandeira”.


(Refrão)

3. Os regimentos como um só
Mantêm belamente a forma
E toda a Rússia está conosco.
Somos ele, você e eu
Uma família no exército,
Isso nos faz fortes, meu amigo!

(Refrão)




quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Kalinka-Malinka (canção russa de 1860)

Essa é uma das mais famosas canções folclóricas russas e se chama “Калинка” (Kalinka), ou “Калинка-Малинка” (Kalinka-Malinka), numa referência carinhosa a duas frutinhas típicas da Rússia, o viburno (kalina) e a framboesa (malina). Ela data de 1860, tendo sido composta por Ivan Larionov.

Por muito tempo se pensou que essa música fosse anônima, mas na verdade ela tem a autoria de Larionov, cuja peça foi executada pela primeira vez em Saratov, num espetáculo de artistas amadores. Larionov também compôs a parte musical dessa apresentação, e logo o regente Dmitri Argenev-Slavianski conheceu a canção e pediu pra incluí-la em seu repertório. Começou aí a fama de Kalinka, mas o renome mundial viria na era soviética, com o arranjo de Aleksandr Aleksandrov, autor do hino nacional da URSS e diretor do Coral do Exército Vermelho, que a tocou na maioria das turnês no estrangeiro.

O próprio vídeo que legendei exibe uma das gravações desse coral, que hoje faz parte do Exército Russo, leva o nome de Aleksandrov e, além da parte cantada e tocada, tem o conjunto de dança, especializado no folclore russo. O coral voltou à mídia no Natal (católico) de 2016, quando um avião que o levava pra apresentar-se na Síria caiu no mar Mediterrâneo, causando uma perda cultural irreparável. O vídeo que baixei pra legendar está no canal do Coral do Exército Vermelho, mas há ainda outras interpretações de que talvez vocês gostem: um vídeo mais antigo com o coral, de 1965, tendo Ievgeni Beliaiev por solista, conhecido como “Mr. Kalinka” por cantá-la com frequência no exterior; com Ivan Rebroff, pseudônimo de um célebre cantor alemão especializado na música russa; e uma versão mais moderna, com batida eletrônica, na voz de Marina Deviatova.

A letra é muito simples, mas a densidade das informações contidas é que torna trabalhosa uma descrição. O viburno (kalina) e a framboesa (malina) são duas bagas, ou frutas em bolinhas, que na mitologia eslava pagã eram oferecidas como oferenda a Liuli, deusa da primavera, terra, amor e fertilidade (daí sua invocação na música). Segundo outras fontes, “liuli” (além de muitas outras formas nas línguas eslavas) aparece como uma invocação de Lelia (ou Lialia), não exatamente uma deusa pagã, mas uma personagem folclórica dos eslavos orientais, já da época do cristianismo ortodoxo, associada à beleza feminina, juventude, floradas e casamento. Liuli e outras formas aparecem justamente nas canções primaveris de amor, sobretudo em refrões, num fenômeno parecido com o “aê, aô”, “olelê, olalá” ou “arerê, bará berê” do Brasil, sendo que foneticamente poderia se relacionar com as palavras russas liubov (amor) e liubit (amar).

De fato, o viburno aparece no paganismo eslavo como representando a beleza de jovens donzelas, e como kalyna em ucraniano (também se escreve “калина”), símbolo nacional da Ucrânia, já apareceu em outras canções aqui do blog. “Viburno”, na verdade, é o nome do gênero de arbustos a que pertence a kalina, espécie cujo nome científico é Viburnum opulus e cujo fruto não tem um nome popular famoso no Brasil. Sendo um gênero originário da Europa, a Wikipédia lista como traduções de kalina: bola-de-neve, noveleiro, novelo, novelo-da-china, novelo-cromático, espirema e, o mais comum, rosa-de-gueldres. Mas no meu Dicionário Aurélio de 2004, nenhuma dessas palavras aparece com tal significado. Mais importante é saber que o autor, na primeira estrofe, joga com a omissão quanto a quem o estaria “deitando”; na segunda, com a associação da araucária (na verdade, “pinheiro”, que em russo é feminino) à figura da mulher; e, na terceira, com a revelação de que se trata mesmo de uma jovem, ligada na letra inteira à kalina e à malina. Por isso mesmo, escrevi “viburninha”, e não “viburninho”, e usei “araucária”, que é o que temos de mais próximo ao pinheiro (“pinheira” é sinônimo de “fruta-do-conde”).

Há quem pense ainda que o andamento variado da canção tem a ver com um ato sexual, ou apenas com uma cerimônia nupcial, mas ocorreu que a expressão “Kalinka”, ou às vezes “Kalinka-Malinka”, ganhou o mundo representando coisas relacionadas à Rússia (como restaurantes, lojas de lembranças etc.), e a música está presente em jogos de videogame, partidas de futebol, séries televisivas etc. Como eu disse, traduzi a letra e eu mesmo inseri as legendas no vídeo:



Sugiro que veja também esta versão ao vivo com o mitológico cantor checo Karel Gott, o solista Vadim Ananiev e todo o resto do Conjunto Aleksandrov! Convidado a cantar na Rússia, Gott celebra com os colegas os 75 anos do coral em 2003 no Kremlin, ocasião sobre a qual só achei esta notícia em francês no site da Rádio Praga.

Vadím Petróvich Anániev (n. 1959) é um dos principais solistas do Conjunto Aleksandrov, conhecido por executar a ária que se segue ao refrão de Kalinka nas atuais apresentações públicas. Karel Gott (1939-2019), que nasceu durante a ocupação nazista, é considerado o maior cantor masculino de língua checa, mas com grande sucesso também nos países de língua alemã, na qual ele também canta. Também foi pintor amador e eletricista de formação, mas ficou célebre por meio da música, começando a carreira de cantor profissional em 1960. O deslanche de sua trajetória foi na década de 70, tendo gravado muitos álbuns e inclusive sendo lançado na URSS em 1977, em cujos futuros países ele também seria admirado. Gott encerrou a carreira em 1990, mas retornou em 1993 e continuou até morrer de leucemia.

Eu mesmo traduzi a fala inicial de Gott direto do russo e inseri as legendas dela e da letra da canção:


Калинка, калинка, калинка моя!
В саду ягода малинка, малинка моя!

Ах, под сосною, под зелёною,
Спать положите вы меня!
Ай-люли, люли, ай-люли, люли,
Спать положите вы меня.

Калинка, калинка, калинка моя!
В саду ягода малинка, малинка моя!

Ах, сосёнушка ты зелёная,
Не шуми же надо мной!
Ай-люли, люли, ай-люли, люли,
Не шуми же надо мной!

Калинка, калинка, калинка моя!
В саду ягода малинка, малинка моя!

Ах, красавица, душа-девица,
Полюби же ты меня!
Ай-люли, люли, ай-люли, люли,
Полюби же ты меня!

Калинка, калинка, калинка моя!
В саду ягода малинка, малинка моя!

____________________


Viburninha, viburninha minha!
No jardim, minha baga framboesinha!

Ah, sob a araucária, verde araucária,
Ponha-me deitado pra dormir!
Ai, Liuli, Liuli, ai, Liuli, Liuli,
Ponha-me deitado pra dormir!

Viburninha, viburninha minha!
No jardim, minha baga framboesinha!

Ah, tu, araucarinha verde,
Não farfalhe em cima de mim!
Ai, Liuli, Liuli, Ai, Liuli, Liuli,
Não farfalhe em cima de mim!

Viburninha, viburninha minha!
No jardim, minha baga framboesinha!

Ah, lindinha, querida donzela,
Apaixone-se por mim!
Ai, Liuli, Liuli, Ai, Liuli, Liuli,
Apaixone-se por mim!

Viburninha, viburninha minha!
No jardim, minha baga framboesinha!



domingo, 7 de agosto de 2016

Священная война (A guerra sagrada)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/voina

Um belo monumento pra comemorar mais um aniversário do Dia da Vitória na Segunda Guerra Mundial é o hino da resistência soviética à invasão nazista, a marcha militar “Священная война” (Sviaschennaia voina), Guerra sagrada, assim chamada com justeza face ao terror que a URSS vivia. Foi gravada em 28 de junho de 1941, com melodia de Aleksandr Aleksandrov e letra de Vasili Lebedev-Kumach, do qual já falei várias vezes como de um verdadeiro trovador da Era Stalin.

O poema de Lebedev-Kumach foi publicado em jornais dois dias após o início da invasão nazista, ou seja, 24 de junho de 1941. O famoso músico militar Aleksandrov, que também compôs a melodia do hino da URSS, igual à do atual hino da Rússia, logo criou uma melodia, mas após a gravação, os rádios só começaram a tocá-la amplamente a partir de 15 de outubro, quando a invasão nazista se tornou realmente trágica. A canção deu formidável ânimo às tropas soviéticas combatentes e continuou popular mesmo depois da guerra, sendo muito executada até hoje.

Esta apresentação, dirigida por Viktor Fiodorov, foi feita em 1998 pelo Conjunto Aleksandrov do Exército Russo, também conhecido como Coral do Exército Vermelho, em comemoração aos 70 anos do conjunto, fundado em 1928 pelo próprio Aleksandrov. No YouTube está o vídeo sem legendas, e a letra em russo tirei de uma página de música, mas ela também segue abaixo do vídeo legendado, junto com a tradução, que não foi encurtada para compor as legendas:



Veja também esta montagem:

1. Вставай, страна огромная,
Вставай на смертный бой,
С фашистской силой тёмною,
С проклятою ордой.

Припев:
Пусть ярость благородная
Вскипает, как волна.
Идёт война народная,
Священная война.

2. Дадим отпор душителям
Всех пламенных идей,
Насильникам, грабителям,
Мучителям людей.

(Припев)

3. Гнилой фашистской нечисти
Загоним пулю в лоб,
Отродью человечества
Сколотим крепкий гроб.

(Припев)

4. Вставай, страна огромная,
Вставай на смертный бой
С фашистской силой тёмною,
С проклятою ордой.

(Припев)

____________________


1. De pé, país colossal,
De pé lutar mortalmente
Contra a negra força fascista,
Essa horda abominável.

Refrão:
Que a nobre ferocidade
Comece a ferver, como onda.
Segue a guerra popular,
Uma guerra sagrada.

2. Rechacemos quem suprime
Todas as ideias ardorosas,
Rechacemos tiranos, ladrões
E assassinos de pessoas.

(Refrão)

3. Da imunda gentalha fascista
Vamos dar uma bala na testa,
Essa escória da humanidade
Vamos trancar num caixão.

(Refrão)

4. De pé, país colossal,
De pé lutar mortalmente
Contra a negra força fascista,
Essa horda abominável.

(Refrão)




domingo, 17 de julho de 2016

Армия моя (Exército Soviético meu)


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/armia


Mais uma canção militar soviética em ritmo de marcha, com montagem de cenas do cotidiano bélico na antiga União Soviética. Ela se chama “Армия моя” (Armia moia), Exército meu, e foi composta em 1970 por Rafael Moritsovich Plaksin (letra) e Aleksandr Aleksandrovich Abramov (melodia), dois músicos talentosos. O áudio é de uma apresentação remasterizada do Coral Aleksandrov (o famoso Coral do Exército Vermelho), provavelmente da mesma época.

Para quem conhece propaganda comunista, a música e as imagens se parecem muito com o que ainda se produz na Coreia do Norte, com suas marchas retumbantes e suas personagens heroicas. Talvez possamos dizer que aí está a fonte de inspiração da família Kim. O serviço militar e a linguagem de guerra são partes essenciais da filosofia bolchevique e não podem ser reduzidos a mera reação anticapitalista: o regime soviético nasceu de uma guerra, a Primeira Guerra Mundial, e se temperou na Guerra Civil Russa de 1918-20 e na Segunda Guerra Mundial, forjando a superpotência que conhecemos até 1991. Os governantes do país sempre pensavam estar na iminência de uma intervenção anticomunista para destruí-los, temor que condicionou tudo na URSS, os costumes, a propaganda, o Estado, a tecnologia e as prioridades econômicas.

Esta bela montagem foi postada sem legendas no fim de abril por um russo no YouTube e reúne genialmente excertos de propaganda soviética hoje reexibida por alguns canais na Rússia. A letra em russo pode ser lida, e o áudio pode ser baixado nesta página, mas ela também segue abaixo, junto com a tradução e depois da legendagem. O texto que aparece escrito foi resumido na hora de constituir as legendas:


1. Если на Отчизну нагрянет беда,
Позовёт солдата труба.
Армия моя, ты на страже всегда!
Ты – моя любовь и судьба!

Припев:
Обыкновенная, судьба нелёгкая военная,
Любовь суровая, но верная,
Готовы мы на ратный труд.
Мы все испытаны не раз, не два боями-маршами.
Мы от солдата и до маршала –
Одна семья, одна семья!

2. Наш Октябрь с нами в походном строю!
С нами песни красных бойцов,
Первый день войны, и победный салют,
И судьба погибших отцов...

(Припев)

3. Мчатся наши годы, но ты молода,
И поёт как прежде труба.
Армия моя, ты на страже всегда!
Ты – моя любовь и судьба!

(Припев)

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1. Se a desgraça surpreeender a Pátria,
O clarim vai chamar o soldado.
Exército meu, sempre em guarda,
Você é meu amor e destino!

Refrão:
Corriqueira e difícil sina militar,
Amor severo, mas seguro,
Nós, prontos ao labor guerreiro.
Provados por mais de um, dois combates e marchas,
Do soldado ao marechal,
Somos todos uma só família!

2. Conosco, Outubro formando marcha!
E as canções dos combatentes vermelhos,
E o raiar da guerra, e o ressoar da vitória,
E o destino dos pais tombados...

(Refrão)

3. Ficamos velhos, e você sempre jovem,
E o clarim canta como antes.
Exército meu, sempre em guarda,
Você é meu amor e destino!

(Refrão)


domingo, 3 de abril de 2016

Когда поют солдаты (coral soviético)


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/soldaty

Canção militar soviética que me pediram em 2011 para postar no meu antigo canal do YouTube e só em fevereiro de 2016 traduzi e legendei! Ela se chama “Когда поют солдаты”, que aqui significa Enquanto os soldados cantam, e teve a melodia composta por Iuri Miliutin e a letra, por Mark Lisianski. Os dois artistas, funcionários da propaganda oficial do regime, eram membros do Partido Comunista soviético, e Lisianski também escreveu a letra de Minha querida capital (Minha Moscou), canção da Segunda Guerra Mundial que se tornou o hino oficial de Moscou em 1995.

A apresentação no vídeo foi feita pelo Coral do Exército Vermelho num concerto especial transmitido pela TV Central Soviética em 1962. Embora a compostura dos russos seja bem mais descontraída, pode-se notar ampla semelhança deste tipo de apresentação com os corais militares norte-coreanos atuais, de uniformes impecáveis e musicalidade estrondosa. A herança, de fato, é direta, mas o gigantismo da família Kim ampliou ainda mais suas dimensões.

Eu traduzi e legendei, tendo baixado deste endereço o vídeo original no YouTube. A redação da letra em russo é a que tirei do site local “Muzei shansona” (Museu da Canção), e também pode ser lida abaixo, junto com a tradução em português e após a legendagem:


Шагает ночь к рассвету,
Труба зовёт в поход.
Солдат страны Советов
О Родине поёт.
Безусые комбаты
Ведут своих орлят.
Когда поют солдаты,
Спокойно дети спят.
Когда поют солдаты,
Спокойно дети спят.

Подхватим песню, братцы,
В поход возьмём, друзья,
Нам с песней расставаться
Сейчас никак нельзя.
Послушны автоматы,
Машины держат ряд.
Когда поют солдаты,
Спокойно дети спят.
Когда поют солдаты,
Спокойно дети спят.

Деревья цвет меняют,
Трава горит в росе.
Лежит земля родная
Во всей своей красе.
Храним её мы свято
От Братска до Карпат...
Когда поют солдаты,
Спокойно дети спят.
Когда поют солдаты,
Спокойно дети спят.

Земля зарёй объята,
Знамёна впереди.
Без песен нет солдата,
Без песен нет пути.
Рассветы и закаты
Навстречу нам летят.
Когда поют солдаты,
Спокойно дети спят.
Когда поют солдаты,
Спокойно дети спят.

Шагает ночь к рассвету,
Труба зовёт в поход.
Солдат страны Советов
О Родине поёт.
Безусые комбаты
Ведут своих орлят.
Когда поют солдаты,
Спокойно дети спят.
Когда поют солдаты,
Спокойно дети спят.

____________________


A madrugada vira amanhecer,
O clarim convoca a marchar.
O soldado do País dos Sovietes
Está cantando sobre a Pátria.
Comandantes imberbes de batalhão
Vão guiando os filhotes de águia.
Enquanto os soldados cantam,
As crianças dormem tranquilas.
Enquanto os soldados cantam,
As crianças dormem tranquilas.

Cantemos juntos, rapazes,
Vamos à marcha, amigos,
Não temos de jeito nenhum
Como cessar o canto agora.
Fuzis-metralhadoras dóceis,
Tanques de guerra em fila.
Enquanto os soldados cantam,
As crianças dormem tranquilas.
Enquanto os soldados cantam,
As crianças dormem tranquilas.

As árvores mudam de cor,
A relva brilha no orvalho.
A terra natal jacente
Em toda a sua beleza
Guardamos como algo santo
De Bratsk até os Cárpatos...
Enquanto os soldados cantam,
As crianças dormem tranquilas.
Enquanto os soldados cantam,
As crianças dormem tranquilas.

O amanhecer abraça a terra,
As bandeiras vão à frente.
Sem canções não há soldado,
Sem canções não há caminhos.
Auroras e crepúsculos
Correm a nos encontrar.
Enquanto os soldados cantam,
As crianças dormem tranquilas.
Enquanto os soldados cantam,
As crianças dormem tranquilas.

A madrugada vira amanhecer,
O clarim convoca a marchar.
O soldado do País dos Sovietes
Está cantando sobre a Pátria.
Comandantes imberbes de batalhão
Vão guiando os filhotes de águia.
Enquanto os soldados cantam,
As crianças dormem tranquilas.
Enquanto os soldados cantam,
As crianças dormem tranquilas.



domingo, 14 de fevereiro de 2016

A despedida da eslava (versão 3)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/slavianka3

Finalmente legendei a Slavianka da Guerra Pátria que me pediam há anos. Este é o terceiro e último vídeo da série de versões da bela e popular canção russa “Прощание славянки” (Proschanie slavianki), A despedida da eslava ou O adeus da mulher eslava. Esta deve ser a versão mais conhecida, que fala da Segunda Guerra Mundial, mas a letra foi escrita, na verdade, em 1965 por Arkadi Iakovlevich Fedotov, ex-operário multifunção ainda vivo que também fazia música e poesia.

Resumo algumas informações já expostas na primeira postagem. Ela se refere à Primeira Guerra Balcânica (1912-13) do Império Otomano contra Bulgária, Grécia, Montenegro e Sérvia, a favor dos quais lutaram voluntários russos animados por marcha de autoria de Vasili Ivanovich Agapkin (1884-1964), que pensava num combate da cristandade ortodoxa às agressões islâmicas. As várias letras existentes se tornaram patrimônio russo e soviético, jamais censurado na URSS. Postei também uma segunda versão da canção.

Fedotov nasceu em Kyiv em 1930, e ao mesmo tempo em que trabalhava em fábricas como torneiro, motorista e outras funções, compunha melodias e escrevia versos. Ele ouviu a marcha Proschanie slavianki pela primeira vez aos 11 anos, na parada de 7 de novembro de 1941, e finalmente escreveu sua letra em 1965, remetendo à 2.ª Guerra Mundial. A publicação se deu em 1967 e a gravação em disco, com grande tiragem, em 1974, e a partir daí a canção correu o mundo. Denis Sedykh escreveu um raro artigo em russo sobre Fedotov, pois nem na Wikipédia russa há informações.

A apresentação no vídeo é de 2013, pelo Conjunto Aleksandrov do Exército Russo, também conhecido como Coral do Exército Vermelho, fundado em 1928 pelo compositor, maestro e pedagogo Aleksandr Aleksandrov (que compôs a melodia do hino da URSS e agora da Rússia). Além do coral e orquestra, ele tem também uma equipe de dançarinos. O vídeo sem legendas é do canal de Aleksandr Lifanov, onde há ainda mais vídeos do coral. A mesma letra tem alguns versos diferentes conforme a fonte, e por isso, além do vídeo legendado, indico no rodapé, junto com as letras em russo e português, os versos não cantados no áudio:



Этот марш не смолкал на перронах,
Когда враг заслонял горизонт.
С ним отцов наших в дымных вагонах
Поезда увозили на фронт.

Он Москву отстоял в сорок первом, (*)
В сорок пятом шагал на Берлин.
Он с солдатом прошёл до Победы (**)
По дорогам нелёгких годин.

(*) Он в семнадцатом брал с нами Зимний,
(**) Поднималась с ним в бой вся Россия


И если в поход
Страна позовёт
За край наш родной
Мы все пойдём на смертный бой!

И если в поход
Страна позовёт
За край наш родной
Мы все пойдём на смертный бой!
В священный бой!!!

Шумят в полях хлеба.
Шагает Отчизна моя
К высотам счастья,
Сквозь все ненастья —
Дорогой мира и труда.
К высотам счастья,
Сквозь все ненастья —
Дорогой мира и труда.

И если в поход
Страна позовёт
За край наш родной
Мы все пойдём на смертный бой!
В священный бой!!!

____________________


Esta marcha não se calou nas plataformas
Enquanto o inimigo cobria o horizonte.
Com ela os trens levaram ao front
Nossos pais em vagões fumacentos.

Ela defendeu Moscou em 41 (*)
Em 45 ela marchou para Berlim.
Ela correu com o soldado até a Vitória (**)
Pelas trilhas de anos difíceis.

(*) Em 17 tomamos com ela o Palácio de Inverno,
(**) Com ela toda a Rússia se levantou à luta


E se para a marcha
O país nos chamar
Por nosso torrão natal
Todos nós iremos à luta de morte!

E se para a marcha
O país nos chamar
Por nosso torrão natal
Todos nós iremos à luta de morte!
À luta sagrada!

O trigo farfalha nos campos.
Minha Pátria vai marchando
Rumo às alturas venturosas,
Por entre todas as intempéries,
Pelo caminho da paz e trabalho.
Rumo às alturas venturosas,
Por entre todas as intempéries,
Pelo caminho da paz e trabalho.

E se para a marcha
O país nos chamar
Por nosso torrão natal
Todos nós iremos à luta de morte!
À luta sagrada!