domingo, 30 de agosto de 2026

Irmão de Lenin, líder da “RSS” da Crimeia

Poucos brasileiros, mesmo entre os comunistas, conhecem a vida e a biografia dos parentes mais próximos de Vladímir Ilích Uliánov, o Lenin, exceto, talvez, a de seu irmão mais novo, Aleksandr (1866-1887), que foi executado por enforcamento após participar de uma trama pra assassinar o tsar Alexandre 3.º. Também se sabe que Lenin se uniu maritalmente a Nadézhda Krúpskaia, outra revolucionária marxista, mas que ele não tiveram filhos; há boatos de que o líder teve amantes, sobretudo no período em que se exilou na Europa Ocidental. Um desses desconhecidos é seu irmão Dmítri (1874-1943), citado em matéria de 30 de janeiro de 2021 no obscuro jornal russo Ekspress gazeta. Redigida por Marina Sidorova e intitulada “Engenheiros, químicos, programadores: quantos descendentes Lenin teve e que profissões eles seguiram”, não fala exatamente dos “descendentes” que Lenin não teve, mas da prole de Dmitri, que, como ela informa, foi o único dos três irmãos e três irmãs a ter filhos.

Sidorova menciona seus dois casamentos, mas não nomeia as esposas: Antonina Nescheretova (sem filhos) e Aleksandra Karpova (filha Olga, 1922-2011), enquanto a citada Ievdokia Cherviakova, mãe de Viktor (1917-1984), era na verdade um caso extraconjugal. Outras mortes atualizadas na Wikipédia russa são da neta Maria (1943-2021) e da bisneta Ielena (1978-2026, de sepse, ou infecção generalizada). O site também informa que Dmitri Ulianov foi presidente do Conselho de Comissários do Povo – ou seja, o líder de fato – da chamada República Socialista Soviética (RSS) da Crimeia, que existiu brevemente de 6 de maio a 26 de junho de 1919. Médico de formação, acumulou o cargo de comissário do povo (ministro) da Saúde e da Seguridade Social do próprio gabinete.

Porém, a existência da entidade acabou com a invasão da maior parte do sul da Rússia (hoje sul da Ucrânia, parte do qual está ocupado de novo por Moscou) pelas tropas chamadas “brancas”, notadamente sob a liderança sucessiva de Denikin e Wrangel. Somente em 1921 os bolcheviques retomariam a península e criariam a República Socialista Soviética Autônoma (RSSA) da Crimeia, dentro da composição da Rússia soviética, como informa esta publicação feita por um coletivo de tártaros da Crimeia. Lembremos que, na hierarquia organizativa, uma “RSSA” tinha amplas competências, mas se localizava “abaixo” de uma “RSS”; após a 2.ª Guerra Mundial, em 1945 (a lei só seria publicada em 1946), foi ainda mais rebaixada e se tornou uma simples região (óblast) da Rússia. Em 1954, passaria a ser uma região da Ucrânia, mas aí é outra história que já conhecemos bem.

Eu traduzi o artigo da Ekspress gazeta e a legenda do vídeo no Instagram, cujo texto coloquei ao final e completei com informações contidas na descrição da publicação. As fotos também foram incorporadas a partir do referido jornal. Aliás, alguém também notou como Ievgeni é parecido com o tetravô Iliá Ulianov?...



Foto de família dos Ulianov, 1879. Em pé (da esquerda pra direita): Olga (8 anos), Aleksandr (13), Anna (15). Sentados (da esquerda pra direita): Maria Aleksandrovna (44 anos) segurando sua filha Maria (1), Dmitri (5), Iliá Nikolaievich (48), Vladimir (9).


Dos seis irmãos e irmãs, apenas Dmitri Ilich teve filhos.

Todos que frequentaram uma escola soviética se lembram muito bem de que Vladimir Ilich Lenin tinha cinco irmãos e irmãs e até conseguem nomeá-los: Aleksandr, Dmitri, Anna, Olga e Maria. Cinco dos filhos do casal Ulianov não deixaram descendência. Aleksandr foi executado por suas atividades revolucionárias e não teve tempo de constituir família. Olga morreu de febre tifoide aos 19 anos, e Anna e Maria permaneceram sem filhos por toda a vida. Vladimir Ilich, é claro, não tinha tempo pra alegrias familiares: estava decidindo o destino de um vasto país.

Apenas Dmitri Ulianov teve filhos. Em 1917, Dmitri Ilich, médico hospitalar, e a enfermeira Ievdokia Cherviakova tiveram um filho, Viktor. Depois, em seu segundo casamento, nasceu Olga, em 1922.

Olga Ulianova se formaria no Instituto de Química da Universidade de Moscou e se tornaria, por assim dizer, a representante oficial da família Ulianov e do titio Volódia. Na época soviética, os eventos dedicados a Lenin ficavam incompletos sem ela.

A filha de Olga e sobrinha-neta de Lenin, Nadezhda Maltseva, trabalhou no Museu-Reserva Estatal do Kremlin de Moscou. Portanto, assim como seu tio-avô, ela frequentemente estava no Kremlin. Ela tem uma filha, Ielena, que é bisneta de Dmitri Ilich.

O segundo sobrinho de Lenin, Viktor Dmitrievich Ulianov, formou-se no Instituto Bauman e trabalhou na indústria de defesa. Em 1940, nasceu seu filho Vladimir, batizado em homenagem ao tio-avô, e três anos depois, sua filha Maria.

Vladimir Viktorovich, sobrinho-neto de Lenin, escolheu uma especialidade técnica e se tornou engenheiro. Trabalhou no Instituto de Pesquisa em Mecânica de Precisão e Engenharia da Computação da Academia de Ciências da URSS. Sua filha Nadezhda, sobrinha-bisneta de Lenin, fez pós-graduação [kandidat] em Química.

Maria Viktorovna, sobrinha-neta de Vladimir Ilich, também seguiu carreira na área da química, trabalhando no desenvolvimento de medicamentos. Em particular, fez parte de uma equipe que trabalhava na criação de um medicamento pra diabéticos que pudesse ser consumido por via oral.

Em 1971, Maria Viktorovna deu à luz Aleksandr, sobrinho-bisneto de Lenin. Ele trabalhava no ramo editorial e tem dois filhos: Ievgeni Ulianov, nascido em 1989, e Fiodor Ulianov, 17 anos mais novo que o irmão.

Ievgeni, sobrinho-trisneto de Vladimir Ilich, se formou no Instituto de Eletrônica e Matemática de Moscou e se tornou um programador de sucesso, trabalhando pra grandes e prestigiosas empresas. Sua esposa é Nina, colega de escola com quem se casou assim que completaram 18 anos. Eles têm uma filha, que é sobrinha-tetraneta do líder do proletariado.

Todos os descendentes de Lenin tentam manter seu parentesco em segredo, pois seu ancestral comum é uma figura altamente controversa. Isso até podia ser vantajoso na época soviética, mas agora não faz sentido.

“Durante a perestroika, os Ulianov aparentemente sofreram bullying e assédio e não contam muita coisa. Chegamos a assinar um termo de confidencialidade, nos comprometendo a não divulgar seus contatos: eles pediram muito que não fossem incomodados”, disse Tatiana Bryliaieva, diretora da Casa-Museu de Lenin em Ulianovsk, a um correspondente da Ekspress gazeta.

No entanto, os amigos de Ievgeni Ulianov dizem que, entre os mais próximos que sabem de quem ele é parente, ele se permite fazer piadas sobre isso. Aliás, ele é levemente dislálico, mais um motivo de humor.

Ao contrário dos descendentes de Stalin, Khruschov, Andropov e Gorbachov, que vivem no exterior, todos os parentes de Lenin permaneceram na Rússia.



Ievgeni Ulianov e a esposa Nina (perfil do Facebook de Ievgeni)


Em 18 de outubro de 1921, foi criada a República Socialista Soviética Autônoma (RSSA) da Crimeia, dentro da composição da RSFS da Rússia. O tártaro da Crimeia e o russo se tornaram línguas oficiais. Basicamente, a república era a entidade autônoma dos tártaros da Crimeia, que foram alçados aos postos da liderança local. A organização administrativa era conduzida na língua tártara da Crimeia, a imprensa nessa língua se desenvolveu, e seis dos 20 distritos da Crimeia se tornaram “nacionais” [i.e. com estatuto que permite a proteção de uma etnia específica, ou “nacionalidade”, no vocabulário russo-soviético].

Mas muitas iniciativas dos crimeanos não foram apoiadas pelo poder central, e a política de nativização [korenizátsia] na URSS começou a ser desmantelada no início da década de 1930. Em 1928, foi fuzilado o presidente do Comitê Executivo Central da RSSA da Crimeia, Veli Ibraimov. Na década posterior, as repressões se tornaram massivas e toda a elite intelectual tártara da Crimeia foi aniquilada. Depois das deportações de 1944, a RSSA da Crimeia foi extinta e começou um combate aos topônimos em língua tártara da Crimeia. Em 1946, a região autônoma foi transformada na Região [óblast] da Crimeia.


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